sábado, 11 de dezembro de 2010

"Sobre Relatórios e Artes", crônica de Tércia Montenegro para O POVO

Impressionante como as filas de banco são o palco da vida alheia! Parece que quanto mais fazemos cara antipática, mais nos tornamos ouvintes passivos. Não existe fumante passivo? Pois ouvinte passivo é aquele que ouve sem querer, porque afinal seria deseducado pôr as mãos sobre as orelhas. Entretanto, os assuntos algumas vezes são mais intragáveis que fumaça, quando não beiram o absurdo.


Naquela tarde, duas jovens à minha frente – após trocarem ideias sobre alisamento de cabelo e choque de queratina – passaram a falar de amor. A primeira, uma gordinha de rosa-choque, suspirou quando disse que ia completar um mês de namoro no dia 10. A outra invejou a sorte da companheira; falou que nos últimos tempos estava só “ficando”, e então a gordinha, talvez para atiçar o desgosto da amiga, revelou a surpresa que estava preparando para o amado:

– Eu fiz um relatório de cada dia do nosso namoro...


Não pude deixar de prestar atenção, afrontando as regras de privacidade de fila: arregalei os olhos como quem quer abrir mais os ouvidos. Felizmente, não fui percebida. Ela continuava:

– Para cada dia, contei o que tinha acontecido, se eu tinha telefonado para ele, se ele tinha me telefonado, o que nós conversamos. Se houve dia em que a gente não se falou, eu coloquei também...


Ninguém mais ao redor percebia a gravidade da situação: uma namorada tecia atas, descrições do comportamento de um rapaz, algo próximo de um arquivo de alta espionagem – e chamava isso de prova de amor.

– Assim, ele vai ver que estive sempre pensando nele, e vai adorar!



Tive que virar de costas, para não ver a cara de hipocrisia da outra garota (não podia ser que ela estivesse sinceramente invejando aquela criatividade!). Daí em diante, as duas amigas mudaram de assunto, mas eu fiquei mordida pela imaginação, pensando no pobre rapaz, na sua cara de susto quando abrisse o tal relatório.


Se ele tivesse um mínimo de juízo, pensaria: essa minha namorada é louca, não tem o que fazer, concentrou toda a vida em mim, e em apenas 30 dias analisa os meus atos milimetricamente – vou cair fora já!


Entretanto, outro dia li a declaração de um artista, que disse compor suas obras para vencer o tempo e ter a ilusão de que a existência podia ser traduzível. De repente, pensei se a gordinha de rosa-choque não agia assim. O relatório era uma forma de reviver cada dia do namoro, traduzindo a vida dos dois, ou a vida dela sob a presença dele, a importância dele. Vendo dessa maneira, ficava aceitável e até mesmo bonito. Mas isso dependia de eu estar pensando na situação em horário próximo ao da meia-noite, sob o luar. Naquela tarde, em plena fila de banco, realmente não me pareceu que um diário de namoro tivesse proximidade com as artes...

"Ode à fermosa Mirna Rosa", crônica de Nilto Maciel para o Literatura sem Fronteiras


Acordei doido para acordar, sair de um sonho noir. Andava por rua interminável. Quanto mais caminhava, mais à frente via o asfalto molhado e esburacado, casas fechadas dos dois lados, silêncio e solidão. Dos postes escorria luz amarelada e frouxa, que se espalhava pelo chão. Talvez se avizinhasse a madrugada. Ou aquilo fosse um mundo em ruínas, abandonado pela vida. Deslizavam ratos, em correria pelos cantos, à busca de esconderijos. Ao redor das lâmpadas, voejavam milhões de mosquitos. Eu queria fugir de lá, chegar a um refúgio, meu lar, quem sabe. Mas, cansado, não conseguia apressar o passo. E a avenida mais se estendia. Súbito, os buracos se multiplicaram e se expandiram. Pulava, saltitava, buscava o meio da via, voltava à calçada. Desiludia-me: nunca chegaria à claridade, ao fim da caminhada, ao sossego. Espreguicei-me, espichei-me todo, abri os olhos, sentei-me à beira da cama. Precisava logo de alegria. Lavei a cara, olhei-me com misericórdia e alcancei a copa. Abri a porta da geladeira, agarrei um copinho de iogurte e me pus a perambular pela casa. Fui abrindo portas e janelas, para ver o sol, o vento e a liberdade. Entanto, a tristeza noturna não me deixava. E assim vivi até a hora do almoço. Sentei-me na velha cadeira, prato à mão. Liguei a televisão para me aproximar da realidade do mundo e me afastar de mim: ateavam fogo a carros no Rio de Janeiro, fanáticos muçulmanos espedaçavam crianças com bombas, oradores fleumáticos incitavam os pobres a exterminar o Diabo. Tive nojo de tudo e vontade de reduzir a pó aquele aparelho daninho. Levei o prato à pia. Formigas passeavam famintas. Lembrei-me do quarto de hóspedes, onde há anos cochilam velhos poetas. Por acaso, dei de frente com secular grego: “As mulheres me dizem: – Anacreonte, / Toma um espelho e olha-te! / Velho! Nem tens cabelos nessa fronte!... / vês? O tempo desfolha-te”. Da Grécia rumei para Roma. Alcancei um Quinto Horácio Flaco a dormitar e me pus a soletrar: “Ibam forte via Sacra, sicut meus est mos, / Nescio quid meditans nugarum, totus in illis”. No meio da jornada, fui despertado por um chamamento metálico: acionaram a campainha do portão. Larguei a Selecta Latina e rumei na direção do átrio e, de lá, à entrada. Eis que toda a minha tristeza desmoronou. Diante de mim, a mais bela figura humana surgida aos meus olhos nos últimos sessentanos: Mirna Rosa. Nem me lembrava mais dela. Isto é, da visita que me solicitara dias atrás. Quem lhe falou de mim? Raymundo Netto. Que disse ele? Sua biblioteca é muito rica. E empresto livros a amigos? E dá. Isso não chega a ser verdade. Sabe o que quero? Não. As odes de Anacreonte. Para... Minha dissertação. Anacreonte? Como ponto de partida. E de chegada? Francisco Carvalho. Título. Talvez “De ode em ode: de Anacreonte a Carvalho”. Excelente. Posso ir visitá-lo? Sim, pode. Quando? Bem quiser.


Conduzi-a ao quarto dos hóspedes ilustres. Ela se estarreceu diante das estantes. Passeou os olhos pelas lombadas vetustas e foi de A a Z, num ziguezague estonteante. Senti tontura e me recostei em Machado de Assis, que recuou. Sinto a boca seca. Então beba água. Venha comigo. Fomos à fonte. Nunca decorei nada, a não ser um verso aqui, outro ali. Naquela tarde, porém, lembrei-me de uns versos do Camões: “Descalça vai para a fonte / Leonor pela verdura; / Vai fermosa, e não segura!” São seus? Quem me dera ver-te fermosa, e descalça pelo mato. Regressamos à sala, eu a cambalear, atônito, febril e trêmulo. Ela, esvoaçante, cheia de sorrisos e curiosidades. Carvalho escreveu odes, mas também canções, cantatas, cânticos, elegias, epigramas, minuetos, noturnos, pavanas, provérbios, réquiens, salmos. Você conhece a “Ode Itabirana”? É longa e traz o refrão “Fica torto no teu canto, Carlos”. E “Ode circular”? Começa assim: “No maxilar do rei há restos de ouro / restos de prata, restos de marfim / e de palavras, pêssegos da ira”. A menina se extasiava e eu lia: “Deusa vegetal / de corpo límpido”. Estes versos são de “Ode à Árvore”. Linda é também a “Ode ao Sol”. Leio? Leia. Li: “Ó sol dos deuses olímpicos / me arrebata para os vales / do amor. Ali Eros passeia / em seus dourados cavalos”. Eu não cansava; Mirna descansava. Escute esta “Mínima Ode para um Grande Mamífero”: “O rumor de tua sombra / sacode os espíritos / da floresta”. Você não poderá esquecer a “Ode ao pastor das estações”. Longa, dividida em onze pequenos poemas e dedicada a Octavio Paz: “De verde desenhas o corpo / da mulher amada. O papiro do / ventre, os prados da lascívia”. Genial esse Carvalho. E a “Ode triunfal”? É poesia em alta rotatividade: de Homero, a Camões, a Pessoa. Veja o primeiro terceto: “Estavas, linda Inês, quase em sossego / à sombra dos arbustos da colina / cuidando dos rebanhos do argonauta”.


Invadia-me, pouco a pouco, a volúpia dos faunos. Busquei “Mosaicos eróticos”: “Tudo é breve e límpido no amor. / Tudo se ilumina quando / a ceia da carne celebra o instinto”. Mirna se derretia de paixão pelo verbo de Francisco Carvalho. Li, por fim, “Cântico da nudez”: “Toco tua nudez / de taça que ardesse / ao fogo do vinho”.


Convidei-a para conhecer meu quarto de dormir. Poeta dorme? Não sendo poeta, durmo até demais. E sonha? Com ruas desertas, casarões assombrosos, caminhos esburaquentos. Pelo menos isso serve para escrever. Ou me apavorar. E caí na cama feito um pacote bêbado, atrapalhando o sábado. Chico Buarque? Um pouco.

"As Costureiras de Mamãe", crônica de Ana Miranda para O POVO



A jovem Rachel de Queiroz escreveu uma poesia lírica, mas amarga, sobre uma costureira. Via-a sempre passar à sua porta, “sombrinha aberta, ligeira, sob o sol quente... que importa?”. Rachel lamenta aquela sina de trabalhar em casa alheia, pois a costureira não tinha máquina sua, e ganhava tão pouco que mal dava para ajudar a mãe doente. Os dedos picados de agulhas, as orlas escuras nos olhos rasos d’água, dos tantos serões na faina dos caseados... No entanto, ia alegremente.


Desde criança tive as costureiras em minha vida como personagens quase mágicas, capazes de transformar embrulhos em suntuosos trajes de sonhos, prosa cotidiana em fantasia poética. Viviam em nossa casa moças de que não recordo os rostos, mas sim, seus dedos, dedais, agulhas, e gestos e trabalhos, seus cantos e algaravias. Lembro-me do nome de uma delas, a mais exímia, uma verdadeira artista: dona Zuila, o mesmo nome de minha mãe. Com seus cabelos já grisalhos, dona Zuila fazia especialmente os vestidos de baile, em algum tecido precioso sobre o qual bordadeiras trabalhavam com capricho, criando um espetáculo de gradações e lampejos. Os vestidos de baile eram tão maravilhosos que eu imaginava ser a minha mãe uma rainha. E era assim que ela talvez se sentisse naqueles momentos em que se paramentava para ser recebida nos salões, vendo como por encanto apagarem-se todas as agruras da vida, as barreiras, as humilhações, as desesperanças, todo o passado, enfim, que talvez retornasse ao adentrar a festa.


Mamãe colecionava rendas as mais preciosas, que rendeiras vinham lhe oferecer à porta, e mantinha “cadernetas” nas lojas do Centro, onde suas costureiras iam pegar amostras para que se escolhesse o tecido mais adequado a tal ou qual vestido. As costureiras faziam as compras da metragem necessária, dos aviamentos, também do pano para forro. Trabalhavam em nossa casa, na máquina de costura que não possuíam, instalada num atelier nos fundos do quintal. Os moldes de papel eram desdobrados em cima da mesa de refeições sobre a qual estendiam o pano; calculavam, mediam, cortavam as peças. A nossa sala de jantar ficava animada, com aquelas moças e suas tesouras e fitas métricas, que ali mesmo alinhavavam as partes umas nas outras, enquanto bordadeiras trabalhavam com linhas sedosas e pires cheios de contas, entre sianinhas douradas, rosáceas, miosótis, campânulas, transparências para detalhes...


Às vezes, sobre uma saia rodada, em círculo elas trabalhavam, num alegre e repetitivo balé dançado com as mãos. Enquanto isso, conversavam, riam, escutavam a vitrola, cantavam, comiam tapiocas e tomavam café. Experimentávamos várias vezes as roupas que elas faziam: vestidos do dia a dia ou para domingos ou aniversários, para nós, crianças; ou para nossa mãe, que iam sendo ajustados detalhe por detalhe, sublinhando as curvas do corpo. Os meus vestidos e os de minha irmã tinham pequenas diferenças, ora na cor, ora num tipo de renda da gola, mas havia a intenção de parecerem iguais. Eram preciosos, posso ver pelas fotografias que nos restaram, com minuciosas rendas e nervuras, apliques, todo tipo de enriquecimento que o vagaroso tempo e o orgulho da destreza permitiam. Como minha mãe costurara seus próprios vestidos, quando era pobre e esquecida no interior, antes de casar, tinha uma boa noção do molde, do corte, da costura em si, dos acabamentos, e ela mesma desenhava seus vestidos de festa, feitos então com uma frequência talvez semanal. Vejo nas fotos como eram bonitos e trabalhados. Tenho uma roda de tecido rebordado que foi um dia a saia de um traje de baile, uma coisa realmente bela, que se tornou uma blusa para minhas ocasiões festivas.


Talvez aquelas moças saíssem dali com o dinheirinho na bolsa, fossem comprar o remédio da mãe doente, ou pagar o aluguel da casa modesta, e tivessem a tristeza de que fala Rachel em sua sensibilidade de poetisa mocinha. Talvez se sentissem humilhadas por não terem a própria máquina de costura para trabalharem em casa, talvez tivessem mesmo os olhos fundos e ornados por orlas escuras, e descessem a ladeira, tristes e silenciosas, lamentando a pobreza. Mas eram trabalhadoras, produtivas e talentosas, tudo faziam com o maior esmero, eram artistas; afinal, há um mesmo espírito na construção de um vestido de baile e na de uma catedral, ou na textura sinuosa de uma escrita, onde há espaço para se abrigar “gesto e movimento, graça e malignidade, oferta e ironia, langor e negaceio, dando todo o pano à desmedida inventividade”, dela, a costureira.



ANA MIRANDA é escritora, autora de Boca do Inferno, Desmundo, Dias & Dias, Yuxin, entre outros romances, editados pela Companhia das Letras.

"Id Quo Maius Cogitare Nequit", poema fraterno de Manuel Soares Bulcão Neto


Para Lígia, minha filha

Existe em algum recanto
Do mundo das ideias puras
O poema de amor perfeito.

É o poema que canta
O meu amor por ti:

Canção mais bela
Do que qualquer canção
Que a imaginação humana
É capaz de criar.

Esse poema existe
— Diz o meu coração —,
Embora impossível
Expô-lo em papéis
Com palavras mundanas

— Por ser um poema
De infinitos versos
Escritos na língua dos anjos

(*) Id quo maius cogitare nequit (latim): “Algo maior que qualquer coisa que possa ser concebida”. Trata-se da premissa maior do argumento ontológico favorável à existência de Deus, de Boécio e Anselmo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

"Impulso na Área Cultural", editorial do Diário do Nordeste (4.11)


A administração pública, no Ceará, sempre se deparou com uma profusão de problemas, em paralelo com a escassez de recursos financeiros, por causa de sua fragilidade econômica. Mas as últimas gestões conseguiram realizar um parâmetro diferente, ao revigorar a atração de empresas originadas em outras plagas, mediante a oferta de incentivos fiscais para consolidar a infraestrutura, a produção industrial e a prestação de serviços, diversificando a receita pública.

O impulso financeiro daí resultante permitiu irrigar setores antes relegados a plano secundário, como a política cultural. Nos últimos anos, os números comprovam transformações substanciais na difusão da cultura, formação de plateias e recuperação dos acervos bibliográficos nos quais repousam as origens históricas, costumes e tradições dos cearenses.


Esse trabalho, partilhado entre Estado, municípios, universidades e instituições culturais, públicas e privadas, permitiu, de início, a construção do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas. Hoje, existem no Ceará, em plena atuação, 192 bibliotecas distribuídas pelos 184 municípios, caso raro no País. Elas foram inicialmente abastecidas por 300 mil livros publicados por editoras locais, como parte da cota de 1 milhão e 50 mil livros adquiridos para a composição dos acervos.


Decorrido o quadriênio da administração em fase conclusiva, a Secretaria de Cultura exibe programas que, bem- sucedidos, serão, em breve, disseminados pelo País, como os agentes de leitura, ação voltada para a promoção da leitura mediada e compartilhada no ambiente familiar ou em espaços educativos e culturais no seio das próprias comunidades. Além disso, 340 agentes de leitura motivam as comunidades espalhadas pelos povoados, distritos e municípios, para a leitura e compreensão de textos nas regiões do Cariri, Baturité, Jaguaribe, Salgado, Ibiapaba, Sertão Central, Litoral Oeste, Fortaleza e sua região metropolitana.


A universalização da política do livro permitiu a aquisição de 27 mil livros publicados por novos autores cearenses, para diversificar os acervos. A coleção Nossa Cultura viabilizou a edição, reedição ou coedição de 107 obras de autores consagrados, dentre eles, o Barão de Studart, Juvenal Galeno, Rodolfo Teófilo, Gustavo Barroso, Joaquim Alves, Papi Júnior, Mário da Silveira, Antônio Sales, Lívio Barreto e outros intelectuais contemporâneos.


Diante desse empreendimento cultural, não foi difícil à Secretaria de Cultura sensibilizar o mecenato para apoiar suas iniciativas. O Prêmio Literário do Ceará de 2010 contemplou com a publicação 110 títulos, no vasto universo de obras literárias habilitadas nas condições previstas no edital regulamentador do certame. O Estado também alcançou a exata relevância dessa política, dotando o Fundo de Cultura, neste ano, de R$ 30 milhões, para patrocínio.


O setor cultural atingiu assim um patamar inovador, pela qualidade da gestão e pela relevância da democratização das políticas culturais, de forma republicana, priorizando as manifestações da criatividade cearense e reconstruindo o expressivo acervo documental do passado.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

"Calcinhas", crônica de Raymundo Netto para O POVO


Por hábito, em tempo demais diante deste monitor, passeio pelos cantos da casa.


Num desses, alonguei-me à cozinha, esbarrando com o cesto de roupas estranhamente deslocado. Conhecendo o método da esposada, senti-lhe o esquecimento, e daí, vítima que sou da convivência cordial (poderia simplesmente fingir não ter visto que todos acreditariam, assim como fazem meus iguais) decidi eu mesmo pôr ao sol, no varal de chão da varanda, tais roupas.


Foi quando me dei conta de que tudo aquilo eram calcinhas (de minha esposa e das duas filhas). Pus-me a estender, uma a uma, a calcinhada. Na hora (quem escreve está sempre pensando bobagens), lembrei uma amiga que defende: os homens acreditam que cuecas nascem, no fundo escuro de suas gavetas, por geração espontânea! Obrigo-me a concordar. Conheço várias mulheres que estranham o infindável tempo de vida de nossas cuecas. Com meu pai também era assim. Geralmente, são elas, as esposas, que se ocupam de renovar-nos o acervo. Ao contrário, nós, homens, somos tomados pelo espanto do nada suficiente das mulheres: nem calcinhas, nem sapatos, e imagine o que mais... Elas são muitas dentro de uma só, justificada a complexidade de suas irresistíveis almas femininas. Comecei a pensar se existiria uma média racional entre o número de calcinhas para cada sutiã ou pescoço. Lembrei também de uma curiosidade: no Japão, para combater o calor, vendem-se, em máquinas encontradas no meio da rua — e em embalagens como as de sorvete —, “calcinhas geladas”, que, segundo os fabricantes, são recomendadas também para serem usadas nas cabeças. Imaginava a ridícula cena, quando percebi que das demais varandas e janelas dos outros apartamentos, algumas vizinhas ou suas empregadas observavam-me ao serviço. Surpreendidas se riam, desapareciam das janelas, escondiam-se por trás das cortinas. Já embaraçava-me, quando veio-me a ideia de colocar os pregadores de roupa (em Londres já existem pregadores com previsão de tempo, sabia?), mas eram tantas as calcinhas...“Haja pregador!” Ah, assim já era servilismo demais... Voltei ao trabalho e as esqueci.


À tarde, porém, num dos passeios pela varanda, constatei: as calcinhas, insufladas pela iniciativa de uma fresca, tomaram vida e voaram rumo ao ignoto. Tragédia anunciada! Pensei na bronca da esposa: “Quem mandou mexer no que não era chamado?” Bem que eu poderia culpar o macaco Chico, o do Lalau, aquele que, tarado por calcinhas, invadia as residências do Bonsucesso carioca a roubá-las e as rasgava em cima dos telhados. “Não, ela não acredita em literatura”... Tive que, então, rapidamente, catá-las no térreo, nas garagens, no jardim. Vendo uma a tremular à grade da janela de baixo, pensei em passar na vizinhança, bater-lhe à porta a recuperá-las. Indecoroso seria o zelador, com fingida normalidade, perguntar-me, calcinhas à mão, “É do senhor, seu Netto?”, e eu ter que, com constrangimento, responder-lhe que sim.


À medida que as encontrava, recolocava-as no varal, desta vez com os pregadores, antes de minha esposa chegar e ver o mal feito. Então, jurei a mim mesmo: nunca mais nesta vida haveria de tocar numa calcinha, a não ser na presença da usuária, e se, e somente se, ela me estorvasse em qualquer coisa.


Raymundo Netto que não entende nada de calcinhas, mas tem curiosidade em ver uma “aumenta bumbum”... Contato: raymundo.netto@uol.com.br blogue AlmanaCULTURA: http://raymundo-netto.blogspot.com/

terça-feira, 30 de novembro de 2010

"O Clube do Bode", de Audifax Rios para O POVO

O Clube do Bode fecha o livro de atas de número 451, com relatórios assentados desde o franzino caderninho inaugural, lá se vão oito anos e lá vai pedrada. A confraria, sem nome, destino ou pretensão, estava em fase embrionária, apenas reuniões de poetas, músicos, jornalistas, amigos e leitores da Livro Técnico que iam à sede na rua do Dom Joaquim nas tardes de sexta para jogar conversa fora. Os pioneiros: Barros Pinho, Almir de Castro, Mariano Freitas, Giordane Carvalho, Juarez Leitão, Tarcila Machado, Hélio Catunda e outros poucos. O anfitrião, Sérgio Braga, o livreiro, cuidou de trazer feijão verde de casa e abriu, generosamente, a adega particular. E o caldo engrossou aos sábados com outras personas que, em torno do então senador Lúcio Alcântara, vinham a fim de discutir sobre política.


Pintou, então, a ideia de batizar a estranha confraria, informal e sem ideário, um nome besta que fosse, a título de identificação ou mesmo referência de informação. O nome surgiu da cabeça do poeta do Parnaíba, criado nas securas dos caratiús: Clube do Bode, e assim ficou. Surgiu como se batizássemos um time de botão ou um rebanho de nuvens feito carneirinhos de sonhos. Hoje procuram-se justificativas de roupagem social, associando bode à resistência; cá pra nós era mais uma conotação fuleiragem para uma patota heterogênea que apenas pretendia descontrair, fofocar, conversar miolo de pote. Mas que assim seja, fica bem esta casaca intelectualizada e ideológica, afinal o Clube do Bode nasceu na calçada de uma livraria, de uma editora.


Encontrado um nome, a coisa pesou e pensou-se logo em transferir responsabilidades. E aí coube ao Sérgio Braga um dos dois únicos cargos, o de Pai de Chiqueiro Mor, que seria, em termos sérios, o de presidente da agremiação. Com isto sugerimos um livreto para apontar as presenças e registrar alguma coisa digna de nota que porventura acontecesse naquele pedaço de calçada. Então nos autonomeamos, democraticamente, para o honroso cargo de Chiqueirador, trocando em miúdos, o secretário. Com uma justa defesa: éramos (porque novel abstêmio) a única pessoa capaz de, no dia seguinte, dar conta do que se havia passado durante a noite. E foi inaugurado o famigerado livro de atas.


Na verdade, o relicário da anti-ata, este conjunto de relatórios está mais para uma miscelânea, à moda das que as moças prendadas e suspirosas de antanho faziam lá pelos anos dourados, quarenta, cinquenta... Parece um almanaque, tem de um tudo: recorte de jornal, desenho, retrato, santinho de político, bilhete de namorado e receita de bolo. Às vezes pende para o humor negro e não deixa de dar suas alfinetadas, puxando o colarinho de quem não quer andar nos trilhos. E tem sobrado pro secretário, até ameaças cartoriais.


Tentamos democratizar a escritura de tais relatos, porém ninguém quis topar a parada. Mesmo assim já fomos substituídos nas raras visitas à Santana por Erasmo Pitombeira, João Soares Neto, Giordane Carvalho e Falcão. Ultimamente a missão vem sendo fielmente cumprida por Narcélio dos Anjos e Tatiana Ribeiro. Já vou pra minha terra bem mais tranquilo. Os bodes e cabritas estão em boas mãos.


* Audifax Rios, para O POVO

sábado, 27 de novembro de 2010

"Soledad no Recife", de Urariano Mota, por Márcia de Oliveira


Urariano Mota:

A Cautelosa Recriação dos Duros Tempos e o Sorriso Esperançoso de Soledad

...Porque “tudo quanto se destina

a surtir efeito nos corações,

do coração dever sair”. (Goethe)

Ao ler Soledad no Recife, romance de Urariano Mota, nos deparamos com uma difícil situação, ao descobrir que palavras são pobres e insuficientes para traduzir a grandeza do texto, a perfeita recriação de uma triste e cruel estória e, principalmente, o brilho do sorriso cheio de esperança de Soledad Barrett Viedma (a Sol), uma jovem militante paraguaia, assassinada junto com seus companheiros durante os duros tempos do regime militar pós-64, depois de ser covardemente entregue por seu companheiro Daniel (cabo Anselmo), namorado e pai do filho que esperava.

O romance, histórico, mas com ares de biografia, que traz como pano de fundo a ditadura militar brasileira, mais precisamente os duros tempos do governo Médici, quando militares, descrentes do sistema democrático, defendiam que um regime de força, cerceador das liberdades políticas e constitucionais fosse a “melhor” coisa para o Brasil, atrela-se aos mais completos e surpreendentes recursos estilísticos que resultam numa mistura perfeita de ficção e realidade.

Através do que chamo de uma grande sacada, a de acrescentar um narrador-personagem fictício, de estilo mavioso e apaixonado, que nutre um amor platônico por Soledad, Urariano recria, minuciosamente, um contexto histórico real, acompanhado de uma ficção demasiado impressionante onde, em muitos momentos, me senti pertencente ao texto, como se vivesse àquela época. Impressionei-me com as fortes imagens do sofrimento de jovens idealistas que tiveram suas vidas interrompidas, precocemente, em nome do sonho de se construir um mundo melhor, chegando até mesmo a sentir suas angústias e a visualizar seus sonhos e medos.

O sentimento platônico despertado pela bela e revolucionária protagonista em nosso narrador é um detalhe que adoça um pouco a estória, porque consegue suavizá-la; torná-la menos dura e ainda mais especial. Como é possível alguém falar de amor, de forma tão terna e poética, em meio aos anos de chumbo? O escritor, jornalista e agora, com certeza, POETA Urariano consegue. Como conceitua muito bem Flávio Aguiar, no texto de apresentação do livro: Soledad no Recife é “um romance de amor que se passa em tempos contrários ao amor”. Em um tempo em que prevaleciam o medo, o silêncio e a falta de liberdade. Um tempo em que a condição humana não era respeitada. Um tempo em que o amor era visto como bobagem, alienação. E, mesmo assim, um tempo em que até o mais violento gesto, a mais cruel e sanguinária repressão não foi capaz de impedir que jovens, socialistas, erguessem suas bandeiras e lutassem, arriscando suas vidas, em nome da esperança de dias melhores e, não obstante, no calor da luta armada, sucumbissem aos desejos de amor. Parafraseando, oportunamente, as palavras de Urariano, devemos reconhecer que aqueles jovens, àquela época, eram verdadeiras “sensibilidades agudas e inteligências sufocadas”.

“Gostaria de ter junto a mim sempre a visão que dela tive nesse encontro. Um regalo para os olhos. Quem a viu somente ali, sempre a recordará como uma pessoa carinhosa, guapa e linda em mais de um sentido. Para os olhos, para a inteligência, para o espírito, para o coração”. (Soledad no Recife. Pág. 106)

Onde termina a ficção e começa a realidade? Me fiz esta pergunta várias vezes ao ler a estória contada por um narrador imaginário que trata-se, na verdade, de um dos companheiros de Soledad, sobrevivente que escapou, por sorte, da chacina (aquela que ficou conhecida como a chacina da chácara São Bento) e, 37 anos depois, pelas mãos de Urariano, recria os fatos, a partir de suas lembranças. Dialogando com o leitor e promovendo reflexões, nosso contador de estórias cria essa impressão, fazendo com que, muitas vezes, sua voz se confunda com a do próprio autor.

Sem dúvida, é um romance para ler, deleitar-se e, depois disso, refletir. Refletir sobre a frieza de Anselmo em delatar os companheiros, entregá-los à morte e falar sobre isso, anos mais tarde, sem a menor demonstração de culpa ou arrependimento; refletir sobre nossa história; sobre sentimentos que estiveram (e ainda estão) fortemente presentes; sobre as perdas humanas (muitas, até hoje, anônimas e sem justiça) e, principalmente, sobre o momento atual que é o reflexo de tudo isso; é a consequência (não sei se já posso dizer o desfecho) de nossa história (esta com H, porque real e verdadeira). Mas, acima de tudo, devemos refletir sobre a idéia de que trabalhos como este, de Urariano, não são produzidos todos os dias, infelizmente. Não recebem seu devido valor pelas mídias nacionais, mas são poderosos instrumentos de conhecimento e sabedoria, além, é claro, de fonte de orgulho e prazer para nós, leitores, que sabemos da importância de se ter uma boa estória nas mãos de um bom autor.

Passei semanas escrevendo este texto e deixei para ler outros artigos sobre Soledad no Recife após a conclusão do meu. Queria discorrer sobre tudo o que senti sem ser influenciada pelas demais opiniões. Mas percebi e fiquei feliz em ver que as opiniões são as mesmas, mudando apenas os ângulos de visão. Todos os que leram o livro e escreveram a respeito, enxergam Sol como a mártir de Urariano, como aquela que representa todas as vidas perdidas durante o período militar e, muitas, até hoje, esquecidas. Todos tiveram impressões parecidas e sentimentos aflorados (ódio, revolta, compaixão, ternura) com a grandeza realista e a coexistente sensibilidade do texto. Tenho certeza de que todos sentiram a mesma angústia e aperto no peito ao lerem o último capítulo, quando o narrador descreve a crueldade da execução dos jovens companheiros e de Soledad e denuncia a falsidade ideológica da imprensa (instituição controlada pelo poder vigente) nas manchetes dos jornais da época sobre o terrível genocídio – ao relatar que a polícia havia salvo o país de perigosos terroristas quando, na verdade, não passavam de jovens socialistas querendo se libertar das barbaridades militares. Sem dúvida, Soledad no Recife entrou para o grupo das melhores obras que já li e das quais mais indiquei a pessoas queridas e interessadas em boa Literatura. O texto é perfeito e isto é da mais real e absoluta sinceridade. Fez surtir um forte efeito em meu coração, o que me impulsionou ainda mais a escrever.

No mais, resta agradecer a Urariano pela produção de um cauteloso, sensível e maravilhoso trabalho, que nos promove a oportunidade de conhecer, documentar um importante período de nossa história e refleti-lo. Assim, divulgá-lo, incansavelmente, é o mínimo que podemos fazer para contribuir com o resgate da memória nacional e, claro, com o respeito aos que lutaram, avidamente, pela democracia. Acreditem: ainda que este não seja o país mais justo para se viver, ainda que não tenhamos mais o espírito guerreiro de lutar por mudanças, ainda assim, seremos pessoas bem melhores se formos capazes de olhar para a capa do romance de Urariano e irmos muito além da indignação pela realidade dos fatos, ao sentir a esperança de paz que nos é transmitida pelo brilho do sorriso largo de Soledad.

*Márcia de Oliveira. Professora, graduada em Letras, e moderadora do blog Letras & Arte (http://letrasearte.blogspot.com).

"Canto de Temporal", poema de Raymundo Netto


Canto de Temporal

Raymundo Netto

Em estado de algofilia...

Só tem explicações para tudo

Aquele que não vive nada!

Emoção confusa,

Mente obtusa

Em campos de concentração.

A imagem candente serpeia imprudente

No seu instante ocular.

Combalida, sofrida, esquecida

E inconstante em seu arfar,

A visão impudente

De sua vida celulada

Compõe a terra azul,

Fogosa em seu abrigo,

Ao cigarro amigo,

Ao vinho de caju.

Desaparece a sua fragrância no espaço...

Seus ensaios, em circunlóquio,

Reportam-se em beijos no mar.

Mundo desnaturado, morto de vidas, desencantado.

Caíra no chão pela última vez a voz

O coração sangrando sucumbe a só

A ilusão do pulsar que irradia.

Caíra no chão e pela ultimenésima vez a voz vocifera

Calara a quimera, mal que impera na dor que ardia.

Lançamento antologia da AJEB: "Policromias" (7.12)


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