sábado, 22 de agosto de 2026

"Nuvem de Pedra: guerra súbita", de Raymundo Netto para O POVO


Em um mundo paralelo ao nosso, há uma sociedade de seres amorfos, quase divindades, dividida em castas: os Miticals e os Lendarians. Esses grupos divergem em ideário: enquanto os Miticals creem na permanência pela imutabilidade (“Nada Muda”), os Lendarians defendem que só “permanece aquilo que muda”. Esses clãs, há milhares de anos, através de um Véu Sutil – uma espécie de lâmina de energia que regula a forma como as pessoas percebem a realidade –, assistiram ao surgimento dos primeiros humanos e, desde então, após a modelagem de um invólucro humano por castas superiores de suas respectivas espécies – os Potentatus (Miticals, patriarcais) e as 8 Mães Primordiais (Lendarians, matriarcais) – são levados à Terra, relacionando-se com esses seres primitivos e se confrontando entre si em batalhas invisíveis à espera do cumprimento de uma profecia antiga.

Essa é a base do romance Nuvem de Pedra: guerra súbita, de autoria do escritor, designer, artista visual e digital, fotógrafo, filmmaker, pesquisador de arte e cultura digital Paulo Amoreira.

Nuvem de Pedra traz elementos de subgêneros diversos, como ficção especulativa, fantasia contemporânea, young adult e thriller tecnológico, o que creio cair no gosto de muitos leitores, sendo especialmente atrativo aos jovens pela identificação com os personagens humanos: Sarah e Luka.

Ex-namorados, enquanto Sarah é precocemente amadurecida, Luka é o eterno adolescente. No entanto, Sarah, que é obcecada por narrativas, vive intenso conflito interior, por ter se tornado celebridade com bilhões de seguidores de suas publicações em 97 idiomas, incluindo um novo, o neuron. Luka é, desde a adolescência de órfão em internato de freiras, um grande hacker de alcance e criações inimagináveis, tendo como assistentes poderosos dispositivos de I.A. que ele denomina “Houston” e “Bailarina”.

Ambos, mesmo diante de seus conflitos, terão na história grande responsabilidade perante acontecimentos que podem ser devastadores para toda a humanidade.

Lori, fêmea alfa e guerreira Lendarian, e Fedro, um Mitical do Arco Luminoso, o que representa um nobre desse clã, se encontram, sob suas aparências e identidades humanas – Agnes Sans e Jean-Martin Renno, respectivamente – em maio de 1968, durante protestos sociais, paralisações operárias e revoltas estudantis contra o governo de Charles de Gaulle. Ali, esses seres fantásticos e imortais se sentem estranhamente atraídos um pelo outro, mesmo quando descobrem ser de naturezas antagônicas.

No entanto, a chegada de “Aquele cuja Sombra não se Move” surge como ameaça de desorganização da suposta normalidade, forçando todos a perceber uma nova dimensão da realidade e a provável destruição desse mundo que (e como) conhecemos.  

O romance traz uma narrativa não linear e fragmentada do tempo, passando por diversos lugares, como Paris, Londres, Dubai, Bahamas, Polinésia Oriental etc., e nos apresenta aos poucos as peças de um quebra-cabeças que vai se desenrolando entre flashbacks e flashforwards, garantindo a descoberta dos segredos e o suspense da trama, em meio a um universo quase cyberpunk, de muito caos, batalhas, estratégias de guerra, perseguições, alta tecnologia e, por incrível que pareça, metáforas poéticas sensoriais.

Para quem ama cinema, quadrinhos, literatura e narrativas, pode ser um achado.

Quer adquirir Nuvem de Pedra: guerra súbita? Basta contactar com o autor pelo Instagram: @paulo.amoreira... e conte a sua história!






 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

"O Meu Interior é a Memória", de Tuty Osório

 


Quando li uma crônica de Raymundo Netto pela primeira vez fiquei confusa. Afinal, sobre o que diabos este cara está falando? Rapidamente me encontrei com o seu estilo múltiplo, um estranhamento aliado de uma contação envolvente. Raymundo narra a magia real sem pretensões de arauto, com a mesma desenvoltura tímida com que se desloca por ambientes onde, com certeza, é uma celebridade.

Jornalista, cronista, contista, romancista, dramaturgo, sei lá que letras mais, os trocadilhos para falar dele e de seus livros não são frases elaboradinhas para impressionar. Cabelos compridos, pai de família, aventureiro trabalhador, sobretudo escritor, exímio contador de histórias. E vamos combinar que escrever de verdade exige muita contradição. Falo de escrita. Não de marketing.

Indicado e laureado com variados prêmios, fato que pra mim é igual ao litro (expressão portuguesa para dizer que não significa nada), no caso de Raymundo coincidem o talento e as premiações. Não sou ingênua e sei que esses certames literários são legitimadores da importância que o público dará à obra. Por covardia ou arrogância sou muito arisca aos concursos, porém, separei alguns para exercitar a exceção.

Quero deixar claro que o caso de Raymundo Netto é diferente. É um famoso, na bolha e fora dela, que admiro. Estou organizando o hábito de ler sempre a sua produção jornaleira e blogueira. Seu último livro, uma reedição lindinha de uma saga contada originalmente por volta de 2004, não é o relato das conversas de calçada. Porém, é sobre um tempo em que toda a Fortaleza conversava em cadeiras dispostas do lado de fora das casas. A Jacarecanga era um bairro chique, a Praia de Iracema, desabitada, era o Açude do Boris, e a Aldeota ainda era o início de uma aventura.

Amei essa viagem. Espiar o passado pelo olhar de um estudioso que sabe tornar os nossos próprios olhos férteis. Ávidos pela próxima linha. Paga ingresso porque é de bom tom comprar o livro e eu não empresto o meu. A não ser para algumas amigas que andam meio comprometidas em dívidas e gostam muito de livros. Brincadeiras à parte, topem esse rolê guiado pela literatura despojada do Raymundo.

Lucinha, mãe de Cazuza, diz que só as mães são felizes. Eu concordo com ela. Acrescento: quem ama ler, também.

 

UM CONTO NO PASSADO: CADEIRAS NA CALÇADA, de Raymundo Netto, reeditado pelo selo Fundo de Quintal em 2025.

Para comprar:

Diretamente com o autor pelo Instagram: @raymundonetto67

Ou pelo e-mail: livrodoray@gmail.com

Preço de Capa: R$ 40,00 (sem frete)




domingo, 9 de agosto de 2026

"Sons do Del: palco da juventude eterna", de Raymundo Netto para O POVO


Alexandre e os Almeidas no palco

“Vamos fazer dessa noite, a noite mais linda do mundo. Vamos viver nessa noite a vida inteira num segundo”...

No palco elevado, ao centro da praça de alimentação do Shopping Del Paseo, mais de 50 anos depois de seu lançamento, o sucesso de Odair José é cantado por uma banda sorridente e animada para o público absolutamente especial.

Todas as sextas-feiras, a partir das 18h30, acontece a programação “Sons do Del”, uma ação gratuita do shopping para o Happy Hour das famílias, reunindo centenas de pessoas – sem exagero algum –, algumas delas organizadas em grupos que não perdem essas atrações por nada.

A cada evento, a curadoria do shopping elege um estilo diferente: brega, pop, rock, samba raiz, forró pé de serra, lambada, MPB... Variam os ritmos, os tributos a grandes artistas, mas a qualidade das bandas, do som e o sucesso são os mesmos e impressionam: Alexandre e os Almeidas, Tocaias, Chibata Vermelha, Os Terríveis, Killer Queen, Mr. Joe Black, Forró das Antigas e muito mais. E o melhor, é completamente democrático: ninguém é obrigado a consumir nada nem paga couvert para assistir a qualquer show.

Eu, que participei e participo de muitos desses momentos, me emociono bastante assistindo ao público do Sons do Del. Muitos deles são idosos ou estão a caminho dessa curva. Alguns residiram a vida inteira na Aldeota, nas proximidades, e outros tantos vem de distintas partes da cidade, certamente por terem ido uma primeira vez e nunca mais deixaram de ir. De alguns deles, já ouvi: “É o melhor passeio da semana”.

Lá, a idade parece não fazer a menor diferença. A alegria deles é de resistente (ou perversa) juventude e reina de uma forma tão espontânea que contagia. Eles dançam à beira do palco, interagem com os músicos – que muitas vezes descem dali e são assediados pela emoção do público a brigar pelo calor das selfies –, se convidam para compartilhar as danças, se abraçam, brincam, pulam, bebem, comem e cantam, relembrando aquelas músicas e revivendo no presente aqueles instantes caros do passado que lhes flecham no peito. Refiro-me aos idosos, mas não são apenas eles que frequentam os Sons. Da mesma forma que encontramos os solitários – renderia uma crônica inteira falar sobre esses –, vemos famílias reunidas: avós, pais e filhos.

“A gente pode ser feliz. Viver a vida sem sofrer e não pensar no que vai ser...”

Diante dessa sensível ação social ofertada pelo Shopping Del Paseo, encontramos gerações curtindo e cantando músicas que, quase geneticamente, são por elas transmitidas, vividas, carregadas de histórias muito íntimas e indecifráveis de cada um. Bebês em chupetas, meninos e meninas de mãos dadas com avós, filha – ainda com a farda do trabalho – dançando alegremente com o pai, idosos que chegam de bengalas ou cadeiras de rodas e que, de repente, são vistos no salão se virando como podem, sorrindo, cantando e mostrando a todos que estão muito vivos, apesar do preconceito e do etarismo crescente na sociedade consumista a considerar que tudo o que não é “produtivo” torna-se descartável e sem valor. Sim, afinal, “Felicidade não existe. O que existe na vida são momentos felizes”. Como no Sons do Del.

Fica a dica. Celebre a sua vida, pois ela tem sempre razão.