domingo, 17 de janeiro de 2021

"Peso Leve", de Raymundo Netto para O POVO


 “Como é gostooosa!”. A fala saía lenta, quase soletrando, ilustrada em sorriso malicioso por um dos rapazes da turma de “pesos pesados”, os saradões daquela academia de ginástica. Os demais colegas, em círculo, aprovavam, como calangos, com a vazão de outras palavras e observações pervertidas sobre aquela mulher, uma Vênus a reinar naquele Olimpo cafuçu.

Úrsula, em seu desfile e graça, ouvia tudo, percebia os olhares, sabia ser cobiçada, e achava justíssimo, afinal, muito bela, seu corpo era até confessamente invejado pelas colegas que repetiam a bulir em seu relevo tonificado por Deus: “Amiga, ah, se eu tivesse um corpão desses...”

Nas suas despretensiosas passagens pelas fuças dos rapazes – suor descendo-lhe o pescoço, a blusa fina encharcada, a retaguarda que era quase uma bateria de Escola de Samba – era de costume as cantadas, os convites indecorosos, a oferta de números de celular.

Contudo, o que nos importa saber é que, logo ali do outro lado desse salão, encontramos outra pessoa, um homem muito magro, comprido, feio até, do time “peso leve”, daqueles que mais repetem do que puxam ferro, que não chamam nenhuma atenção num ambiente desses, nem a nossa, não fosse por uma particularidade: é ele o marido de Úrsula!

Sim, Leopoldo, no passado não distante, num ato de coragem despropositada ou durante uma oportuna vantagem de momento, conseguiu levar Úrsula ao altar. Mas, para resumir, ela seria profundamente infeliz nessa união. Não admirava o marido, não curtia a sua companhia, não sentia por ele a mínima atração. Achava mesmo que estava era doida quando consentiu nesse casamento, para ela, uma expiação.

Ali mesmo, naquela academia, só chegava sozinha, ele que fosse depois, não queria ninguém no seu pé. Pior: não permitia que lhe dirigisse a palavra, pois as pessoas – que nem sabiam serem eles casados – poderiam achar que ele a vigiava: “Não me envergonhe, senão eu não sei do que serei capaz!”

Leopoldo a obedecia fiel e mansamente. Evitava falar com ela e assistia com muita resignação aos olhares lascivos sobre aquele corpo que, até então, achava possuir. Por outro lado, compreendia os rapazes, pois ele também o desejava e, há tempos, não conseguia sequer aproximar-se sem o risco de morte.

Noite dessas, estava ela inconsolável, buscando roupa para ir a um shopping. Insatisfeita, quase chorava, diante da constatação das “malditas celulites”. Leopoldo, com a meiguice de uma mãe, tentou contornar: “Meu bem, só quem acha celulite é mulher. Homem não repara nisso, não...” Para quê? Ela começou a agredi-lo com cabides, portarretratos, vasos e o que mais tivesse a mão: “Saia daqui, cafajeste! Você não entende nada de mulher meeesmo!!!” Então, mais uma vez o marido se recolhia, rabinho entre as pernas, e voltava ao trabalho, a sua cachaça de esquecer a vida de rejeição e humilhações impostas pela mulher amada.

Tanto trabalhou e produziu que um dia foi chamado pela Diretoria da empresa. Ganhara um aumento, uma promoção, proposta de morar no exterior. Naquela noite, nem dormiu.

Na manhã seguinte, Leopoldo estava na academia, quando, subitamente, Úrsula atravessou ligeira o Salão sem dar a menor bola para o grupo de rapazes, e se dirigiu a ele carinhosa, trazendo-lhe um squeeze de água gelada. Deu-lhe um beijo, um abraço apertado, disse que não fosse embora sem ela, e voltou às máquinas.

A turma de rapazes não entendeu nada. Eles olharam basbaques para aquele nunca notado fiapo de homem: como? quando? por quê? E nós?

Leopoldo olhou para eles e, pela primeira vez, abriu um sorriso luminoso e seguro. Mirou aquela mulher linda, soberba, desmanchando-se em suor divinamente perfumado no reles colchonete e, voltando-se aos rapazes, balançou a cabeça com desdém: “Celulite demais!”



quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

"Demócrito Rocha, o pai d' O POVO: 93 anos


“(...) É no jornal que o povo encontra o seu pão espiritual de cada dia. O jornal descortina-lhe o mundo, vencendo distâncias. É a lanterna mágica do progresso. É a força propulsora e condutora das massas insatisfeitas, para as grandes reivindicações de seus direitos postergados pela cáfila absorvente dos magnatas de todos os tempos. Quando o povo geme escravo, entorpecido pelas algemas do cativeiro, indiferente à violência paralisante do grilhão, o jornal é o sangue novo, forte e generoso a nutrir-lhe as células dormentes, a despertar-lhe os neurônios amortecidos, a ondear-lhe, nas veias, a torrente vigorosa e enérgica da revolta. O povo precisa de mais gritos que o estimulem, de mais vozes que lhe falem ao sentimento. Eis por que surgimos...” (Editorial de Demócrito Rocha para o primeiro número do jornal O POVO, em 7 de janeiro de 1928)

 

Foi assim que, em 7 de janeiro de 1928, há 93 anos, surgia O POVO, a mais tradicional, democrática e conceituada folha do Ceará, na voz corajosa e ousada de Demócrito Rocha, seu sonhador-mor.

Como era bem de Demócrito, tanto o nome do jornal como o seu logotipo foram escolhidos por meio de concurso. Ele gostava de ouvir a “voz do povo”, e, durante o período que dirigiu o jornal, escrevia, fazia enquetes, criava outros concursos, provocava o leitor, ao mesmo tempo em que liderava o “banco da Opinião Pública”, um dos integrantes das “sociedades dos banquistas” — pequenas agremiações que nasciam em torno dos bancos da praça do Ferreira, reunindo membros de diversos segmentos da sociedade (jornalistas, poetas, comerciantes, professores, políticos, profissionais liberais etc.) a discutir de um tudo: das coisas mais importantes ao trivial anedotário.

Demócrito teve origem humilde, cedo ficou órfão e teve que trabalhar duro (aos 12, era operário), fortalecendo-se em caráter, idealismo e senso de justiça e liberdade. Assim, não temia o debate, ao contrário, se alimentava da polêmica, tinha gosto pela interatividade, pela participação popular, pela opinião de outrem.

As primeiras edições de O POVO saíram de uma impressora de segunda mão, na sede alugada no entorno da praça dos Leões. Já no segundo ano de jornal, Demócrito, também poeta e notável cronista, lançou o suplemento literário Maracajá, veículo que revelou os nossos autores modernistas para todo o Brasil (Rachel de Queiroz, Jáder de Carvalho, Mozart Firmeza, Mário de Andrade do Norte, Heitor Marçal, Edigar de Alencar, Suzana de Alencar Guimarães e o próprio Demócrito, sob o pseudônimo de “Antônio Garrido”, entre outros), numa época onde isso dificilmente aconteceria (alguns dos textos foram reproduzidos na Revista de Antropofagia de São Paulo, e há matérias sobre o Maracajá em diversos dos grandes jornais do país).

Justamente no primeiro aniversário de O POVO, em 7 de janeiro de 1929, Demócrito presentearia seus leitores com “O rio Jaguaribe é uma artéria aberta”, poema que o consagrou, sendo um dos mais representativos do modernismo cearense. Apaixonado pelas palavras, mesmo quando extinto o MaracajáO POVO continuou durante toda a sua existência, até hoje, sendo a grande janela da literatura.

Também foi Demócrito o criador do título e do sistema eleitoral do “Príncipe dos Poetas Cearenses”, quando na sua Revista Ilustrada (1924-1925), além de promover concursos de versos na rádio PRE-9, de João Dummar.

Li, há mais de 20 anos, um livro do jornalista Daniel Carneiro Job, que nos conta algumas histórias de Demócrito, entre elas, a de uma emboscada no centro da cidade, em 1927, quando por ordem do governador (presidente da província) Moreira da Rocha, 12 policiais o encurralaram e deram-lhe murros, pontapés e golpes de rebenques, afastando os populares, indignados diante da covardia, com ameaça de revólveres. Não bastasse, arrastaram-no, sangrando, a Photo Salles, na praça do Ferreira, para tirar uma “prova da eficiência da lição”... O jornalista, com 39 anos, foi levado nos braços do povo para sua casa, onde até a madrugada, diversas personalidades, amigos, representantes de entidades e/ou partidos políticos, além de professores e estudantes de odontologia (ele era cirurgião-dentista) uniram-se em oratórias e em vigília ao seu bravo porta-voz. Anos antes, em 1922, em represália ao seu apoio ao comitê de Nilo Peçanha e J.J. Seabra, recebeu notificação de transferência (atuava como telegrafista, à época) de Fortaleza ao Mato Grosso, o que só não aconteceu devido à intervenção de dom Manuel e de Antônio Sales.

Da mesma forma, perseguido pela polícia, foi ele, em 8 de outubro de 1930, a anunciar no Palacete Ceará (prédio da Caixa Econômica do Centro) a vitória da Revolução e a deposição do presidente Matos Peixoto, o “dançarino”, sendo levado nos braços do povo para o coreto da praça onde discursou sob aplausos efusivos: “Como um tubo de matéria fecal jogada ao monturo, caiu o governo podre que infelicitava o Ceará!”, bradava.

Em 2021, o jornal O POVO aniversaria: 93 anos, dia a dia, de histórias do Ceará, o seu maior acervo jornalístico, seja na cultura, na arte, na política, na economia, nos esportes, na ciência e em todas as demais áreas, além de consolidar o seu papel de grande prestador de serviços ao povo cearense.




 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Mostra Especial Rogério Sganzerla: 75 anos, no Cine São Luiz (programação de janeiro)

 


Para aumentar, clique na imagem!

Em JANEIRO, o Cineteatro São Luiz coloca em cartaz GRATUITAMENTE a Mostra Rogério Sganzerla - 75 anos.

Serão exibidos seis filmes deste que é um dos cineastas mais importantes do Brasil.

Sganzerla é sinônimo de genialidade. Em 1968, aos 22 anos de idade, realizou o filme “O Bandido da Luz Vermelha”, indicado pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade.

Durante todo o mês a mostra estará em cartaz. Serão adotadas medidas de segurança sanitária, com limitação da capacidade de acolhimento de público.

Confira, abaixo, os títulos e horários:

·       O Signo do Caos: 7/1 às 17h

·       Tudo é Brasil: 8/1 às 16h45

·       O Bandido da Luz Vermelha: 9/1 às 16h45

·       Nem tudo é verdade: 14/1 às 17h15

·       Sem Essa, Aranha: 15/1 às 17h

·       Copacabana Mon Amour: 16/1 às 14h

·       O Signo do Caos: 21/1 às 17h

·       Tudo é Brasil: 22/1 às 16h45

·       O Bandido da Luz Vermelha: 23/1 às 16h45

·       Nem tudo é verdade: 28/1 às 17h15

·       Sem Essa, Aranha: 29/1 às 17h

·       Copacabana Mon Amour: 30/1 às 14h



“Pretende Ser Escritor?”, de Rinaldo de Fernandes para o “Rascunho”


Publicado originalmente no jornal Rascunho, edição de janeiro/2021.

 

A escrita literária nunca resulta só do impulso, da inspiração. Precisa também de processos racionais, de técnicas, enfim, de uma elaboração consciente. O escritor que se apressa em publicar, sem lapidar ou pensar exaustivamente o seu texto, corre o risco de apresentar para o seu eventual leitor material de pouca ou nenhuma qualidade.

Não se faz literatura só com os sentimentos, com as emoções, mas sobretudo com a linguagem, com a palavra bem pensada, com muita elaboração textual. Todo escritor, por outro lado, precisa ter como base a obra de outros escritores. Ser influenciado por um bom autor, pelo menos no início da carreira, é positivo. Depois é preciso encontrar uma dicção própria.

Para o jovem que pretende se enveredar pela ficção, por exemplo, ler Graciliano Ramos poderá ser muito proveitoso. Graciliano é um autor de estilo conciso, de frase enxuta, sem derramamentos. Também será extremamente benéfica a leitura de Machado de Assis, autor de estilo clássico, límpido, comunicativo.

Outro autor de prosa enxuta, elíptica, é o contista paranaense Dalton Trevisan. É muito importante para quem escreve ter boas ou consagradas referências literárias. E sempre estar lendo certos autores contemporâneos ou mesmo relendo seus autores preferidos.

Por fim, a questão do prazer da escrita. Além de lidar com a materialidade da língua, de se expressar através das palavras, há ainda, para o ficcionista, o imaginário, a fantasia com que ele trabalha. Manejar palavras é algo de fato trabalhoso, mas que dá muito prazer ao ficcionista. Assim como é prazeroso mobilizar a fantasia, coabitar os mesmos ambientes de seus personagens, entrar na pele de cada uma das figuras que ele cria em suas ficções.



 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

"Pandemia Didática", de Raymundo Netto para O POVO


     O ano de 2020 não foi apenas o ano da pandemia, mas de aprendizado.

É certo que a história mundial desse nefasto agente agressor não será esquecida, em especial por aqueles que perderam familiares e/ou amigos durante a sua vigência. Também como é certo que culturas, estratégias e hábitos “novos” deverão permanecer e outros serão criados na iminência de prováveis – por que não? – novos agentes potencialmente perigosos em um futuro – se deixarmos esse futuro acontecer.

É incrível que um germe tenha o poder de fazer sumir os sorrisos, não apenas pelo uso protocolar das máscaras, mas pela insegurança, pelo medo, pela constatação de nossa pequenez e fragilidade diante do universo.

Infelizmente não pensamos nisso todos os dias, pois se o fizéssemos não teríamos coragem nem de jogar papel no chão, desperdiçar água na lavagem de carros ou de calçadas e das torneiras de casa, entre outros maus costumes que nós ainda teremos que assistir, pois com tudo isso que aconteceu e que acontece, homens e mulheres ainda se unirão todos os dias, na sua irresponsabilidade e descompromisso rotineiros, para transformar esse mundo num local pior e impossível de viver.

A hipocrisia, o consumismo, a ignorância, o preconceito, a violência, entre tantos outros atributos de uma não civilização, em pleno século XXI, são encontrados em cada esquina, muito bem maquiados e vestidos, com ares de bem-sucedidos, privilegiados muitas vezes por “padrinhos” ou eleitos em “temerosas transações”, bastando um pouquinho de convivência ou a emissão de umas poucas frases para se perceber tratar-se de uma farsa, alguém “que se passa”, vazia e inútil.

Muitas dessas pessoas (parasitas) agem toxicamente na sociedade, contaminando a outros iguais na sua incapacidade de leitura de mundo ou de empatia, sem chance de reflexão e/ou de crítica, prisioneiros do seu exclusivo querer, do seu individualismo, da sua mania de julgar os outros pela sua história cômoda de privilégios.

Contudo, disfarçam bem, sorriem bastante, aparentam generosidade e fé, porque necessitam de aprovação, precisam ser reconhecidos. Eles, muitas vezes, ocupam cargos em instituições públicas e privadas – e pasmem: até educacionais e órgãos do Poder Público – e nelas atuam como capachos, uns lambe-botas, prontos a servir e a vender a alma se preciso para não perder o assento que, pela competência e talento, jamais conseguiriam. Porém, estarem lá já denuncia o nosso fracasso.

Muitos, em atitude fascista e em prol de fomentar a sua cruel e tirânica perseguição social – compreender a democracia para eles é impossível –, usam a bandeira de suas pátrias e o discurso religioso como escudos, conquistando milhares de pessoas anestesiadas pelo ideal da salvação espiritual ou cantadores automáticos de hinos. Não entendem que a bandeira de um país é apenas um trapo velho se não tratamos de cuidar daquilo que ela representa, que é o seu povo, as suas riquezas (naturais, materiais, imateriais), a sua cultura, a sua identidade, elementos hoje que estão sendo covardemente abatidos.

A pandemia nos revelou muita coisa sobre essa gente. Muitos dos seus (des)valores nos foram revelados. “Caíram as máscaras” (essas máscaras) e só não vê quem não quer, quem não aprendeu ou não consegue mais aprender nada, que vive nesse mundo plano da Idade Média, propagando um deus particular que serve unicamente a seus propósitos de ostentação e poder.

Eu acredito em mudança, no aprendizado planetário. Naqueles outros. Acredito em 2021.

 

domingo, 27 de dezembro de 2020

"A Sombra e sua Claridade", de Pedro Salgueiro para O POVO


No meio de tantas notícias ruins, tragédias públicas e privadas, governo necrófilo negacionista das ciências e pastores (também padres) charlatães, nos deparamos com diversas reações ao caos, desde o desespero à improvável tranquilidade; para procurar uma sociabilidade que se tornou difícil com as restrições de uma pandemia, vamos enchendo os muitos grupos das redes sociais na internet com nossa presença excessiva, onde gritos de dor e lamentos convivem com a pilhéria e ódio de outros, o desespero com a fé (nem sempre somente a religiosa, mas das artes, da política etc.), o riso inocente se mistura com o palavrão... o escárnio com o otimismo... infinitas são as misturas possíveis, quase todas explosivas, vezes cínicas, excludentes noutras.

Não há grupo, familiar ou de amigos, de reles conhecidos, de superficiais partidários dos mesmos afãs, que não tenha paredes trincadas, laços eternos azedados, amizades desfeitas, parentescos renegados, juras eternas esquecidas... Novos pactos de amor e ódio, união ou intolerância vão fincando raízes: nunca mais seremos os mesmos!, dizem uns; com o sofrimento havemos de melhorar!, esperam outros... Ah, não, o ser humano será sempre o mesmo!, desdenham os pessimistas... Deus está na frente de tudo!, acreditam outros... E dessa mistura ampla e rasa vão surgindo verdades provisórias e ligeiras... que não sabemos aonde vão dar.

Nosso humor estará refém dessa rede de intrincada de opiniões, suas intrigas e soluções: estou triste e procuro um amigo ou grupo mais leve que me libere o enorme peso; quando mais revoltado vou às cavernas da ira de outros nichos buscar pólvora para meus estopins... Vivo, pois, a mercê dos meus e dos outros humores (não seriam horrores?). Não só nas gentes de carne e osso procuro âncoras, trisco nas músicas, peças e livros: dia desses desisti de conversar com um amigo quase sempre bem-humorado, mas que nesse dito dia estava deverasmente intratável: “Tudo em paz por aí?”, iniciei otimista. “Como assim?”, me respostou com outra pergunta. “Como poderia, né!?”, apaziguou... Mudei de assunto, percebendo que não teria arrego nem consolo. Desisti e fui para um dos meus livros de segurança à cabeceira (O Barril Mágico, de Bernard Malamud); olhei onde o marcador estava e continuei a leitura: “Davidov, escrivão, abriu a porta sem bater, entrou mancando no cômodo e sentou-se, cansado. Pegou o caderno de anotações e pôs-se a trabalhar. Rosen, ex-vendedor de café, abatido, com olhos sem esperança, estava sentado, imóvel, com as pernas cruzadas em sua cama estreita. O cômodo era quadrado, limpo, porém frio, iluminado por um globo de luz fraca. Eram poucos os móveis: a cama, uma cadeira dobrável, uma pequena mesa, velhas cômodas sem pintura – não havia armários, tampouco havia necessidade deles – e uma pequena pia com um pedacinho de sabão verde barato na saboneteira. O cheiro forte do sabão se espalhava no ar. A velha persiana preta estava totalmente baixada, o que surpreendeu Davidov.

      – Por que não levanta a persiana? – perguntou ele.

      – Deixe como está.

      – Por quê? Está claro lá fora.

      – Quem precisa de claridade?

      – Então do que é que o senhor precisa?

      – De claridade é que não é – respondeu Rosen.”

Percebi que mesmo no livro continuava conversando com o amigo depressivo, então larguei o volume e fui tentar um cochilo.




 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

"O Espelho", de Raymundo Netto para O POVO


 

Circulou em vermelho o anúncio de jornal.

Viera do sertão esperançando melhoras de vida. À procura de um emprego, tinha passados os dias e, mesmo batendo em diversas portas, só recebia nãos.

Fora acolhido à casa de um irmão e passava bem tantas e quantas vezes, porém, de um momento para outro, ansiou empregar-se sem tardança.

Tudo porque percebera que a cunhada se dava ao entusiasmo de sua presença. Dias-há, a sonsa dera para cruzar seu caminho a camisolas e distraía-se: porta do banheiro aberta quando a feita do banho. Ademais, nunca levava a toalha para o banheiro. Era chegar ao chuveiro e gritar: “Fulano, traz a minha toalha... Eu esqueci!”

Temia que seu irmão percebesse a folga da esposa e viesse lhe tomar satisfações.

Decidiu: tão logo arranjasse um emprego, fosse qual fosse, alugaria um cantinho, um quarto-e-sala qualquer, mas sairia dali antes que o pior se abancasse.

Naquele dia, então, acordara mais disposto, diferente, entusiasmado. Refletia esperanças!

Cedo, encaminhou-se ao endereço do anúncio: um escritório. Cerrou com os dedos o nó meio que penso da gravata, sacudiu a mão nos ombros, segurou firme a pasta do currículo e adentrou.

Sentou-se na recepção entre outros candidatos e esperou a sua vez.

Por motivo ignorado, a secretária logo lhe devotou um olhar sorridente e sedutor, desusando o recato. Encabulado, respondeu com falsa simpatia e polidez.

Chegara a sua vez, finalmente. Ela o pegou pela mão e o encaminhou, com olhos fitos nele, à gerente. Esta, por sua vez, pareceu surpresa, admirada com sua presença e, imediatamente, para seu estranhamento, pôs-se a tratá-lo com gentilezas explícitas.

Ela o ouvia, o ouvia, mas limitava-se a observá-lo em olhar profundo, tão íntimo e contemplativo que o confundia. Foi quando ela moveu os lábios uma única vez e sussurrou suspirosa: Já está contratado! Só!

Sem acreditar, ele perguntou o que iria fazer, qual a sua função, mas ela insistia: não importava, faria qualquer coisa, ou coisa nenhuma; poderia, se assim o quisesse, e se não, que não o fizesse... Estava contratado!

Agradeceu e, quando quis sair, ainda ouviu a insistência da gerente e da secretária: ficasse mais um bocadinho...

Na rua, deu-se o mesmo: as mulheres, de todos os lados, miravam-lhe com sorrisos desvelados, irrefletidos, sem pudores, enternecidos... Esbarravam-se nele, como ao acaso, como quisessem vê-lo mais de perto, tocar-lhe, senti-lo.

Correu para casa, trancou a porta e foi ao banheiro. Torceu para que a cunhada ali não estivesse.

Encostando-se à pia, teve a conclusiva revelação: ante o armário do banheiro, percebeu que, ao invés de sua costumeira face, havia apenas um espelho!



 

sábado, 14 de novembro de 2020

"Se o Amor Fosse de Graça", de Epitácio Macário para o AlmanaCULTURA


Epitácio Macário e Raymundo Netto

Haveria algo nesse mundo que não seja informado pela busca e pelo gasto do dinheiro? Fui à leitura do livro de Raymundo Netto (Quando o amor é de graça – Editora Demócrito Dummar) com essa pergunta em mente.

A escrita inteligente com que me deparei não apenas indicou propostas para a questão, como me conduziu, a refletir, pelos dutos da existência. Mediados pelas crônicas, fatos corriqueiros foram sendo reconstruídos na tessitura humana que lhes faz serem acontecimentos, conteúdo e forma.

O domínio da língua, a sagacidade, a crítica mordaz, o lirismo, a ironia, o humor... tudo se mistura e faz o leitor transitar do riso à circunspecção num estalo de dedos.

Como é próprio do gênero, cada crônica encerra um posicionamento do escritor que, no caso desse livro, é sempre inquietante. Quem gosta de livros confortantes, sugiro que leia... outro. Pois, ao meu ver, o trato daquilo que nos aparece como banal – e muito propício ao fuxico e à autoajuda – aqui é a maneira de Netto disfarçar algo de profundo.

Ao que me pareceu, nada é de graça nesse livro.

Declaro-me, desde já, muito satisfeito por saber de outro cara para quem ser feliz, em meio ao sofrimento em escala social, é egoísmo em estado puro. Um sujeito condenado à treva por preferir falar da vida e do amor gratuito, num mundo onde a glória performática, o “dinheiro e o poder” são os “verdadeiros deuses”. Encontro-me nesse compadre Raymundo que tem “problema com relógio de ponto e com extratos bancários”, que gosta “de letras, não de números” e por isso “não se adapta ao dinheiro” – este que é o “grande olho da providência”, fomentando a “selvageria entre os iguais numa sociedade desigual”.

Deparei-me com um cabra ciente de que a fealdade é uma bênção, pois “a beleza se perde, mas a feiura é permanente, e com o tempo e o costume passa a ser compreendida junto com a paisagem”. Ora, não depender dos bisturis, do Botox e das longas sessões em salões “de beleza”, para manter o que se acha que tem, não já é algo para se comemorar?! Além do mais, temos tido prova de sobra no Brasil de que tudo pode piorar... Então, compadre Raymundo, o melhor é deixar como estamos!

O que me prende nessas passagens é a profunda verdade escondida na molecagem: a autenticidade requer a coragem de assumir-se como se é. Isto não é fácil para quem traz em si uma pulsão para o diferente do costumeiro, um olhar agudo sobre tragédia e glória humanas.

O sujeito lírico que aparece e se esconde no livro é um destes que remam contra a maré montante.

Este leitor experimentou lambendo os beiços os disparos satíricos  contra a performance de escritores que jamais se perguntaram “literatura para quem?”. Os ditos intelectuais que se acham cultos “no sentido erudito do termo e escrevem com monotonia ou ilegibilidade, em experimentalismos a lhes acobertar a ausência ou excessos de conteúdo pelo garimpo artificial do vernáculo”.

Eu sei que essa maneira de questionar seu próprio mister é ácida e causa efeito no meio que Raymundo Netto frequenta. Com essa falta de modos, “esse sujeitinho ridículo” abre o maior pau. Comprazo-me com isto não somente porque estou assistindo na arquibancada, pois no meio acadêmico a briga é a mesma, mas pela razão da crítica e também porque confusão só presta grande!

Ora, ladys and gentlemen, não seria o caso de assumir a condição de escritor num país de não-leitores?! Para que a empáfia e o hermetismo? Não seria melhor expressar, mesmo que doa, o “drama do escritor” em dia de lançamento?... Esperar o público com mesas replenas de salgados e guaranás, atender a um, dois ou três com autógrafos – e quando for mais de cinco, pode ter certeza que são familiares que jamais lerão o livro. E depois carregar as caixas de exemplares que sobraram – quase, quando não, todos! – de volta para o porta-malas do carro, utilizando-se, inclusive, da força de trabalho da esposa, que é “a maior vítima de todo autor”.

Pois sob o lápis de Netto, o reconhecimento desse drama se derrama como crítica social na epopeia do autor que tem de morrer para ver sua obra publicada. Ora, “Escritor bom é escritor morto”. E naquele que, “após sucessivos insucessos, entregou-se a Jesus e chegou à conclusão de que a literatura é coisa do cão”. Sim, só pode ser coisa do demônio a derrotar alguns, matar outros e corroer o caráter de tantos no inebriante sonho do sucesso editorial. A trágica condição de seu mister aparece ainda no relato do congresso de escritores em “Brás ilha” onde os poetas “reunidos em palestras se perguntavam – com a pouca audiência presente era quase ‘se’ mesmo – por que não conseguiam se projetar nacionalmente”.

Para este leitor, o que temos produzido nesse país é precisamente a barbárie em escala social: a que se abate sobre os ilustrados e endinheirados, desprovidos de qualquer senso ético, e a que se alastra sobre as maiorias que vivem da mão para a boca.

Incrustado nessa díade, onde o atraso alimenta e é base do moderno diria Francisco de Oliveira, o escritor labuta com os mais difíceis demônios. Parafraseando Carlos Nelson Coutinho, diria que um deles é a quase sempre necessidade de se mover sob a sombra do poder dominante. Servo culto, mais servo do que os outros, pois em condições de saber-se assim e escolher. Se a opção for outra, a busca da verdade e da autenticidade, o preço a pagar não é barato.

A mim me pareceu que Raymundo Netto saltou para dentro dessa arena e escolheu seu lado.

A sátira e a ironia são o método e o instrumento com que o autor dessas páginas esgrima a situação nacional e a sua inserção – nela – e dos seus irmãos de ofício. E, assim, se há duas maneiras de se tornar escritor – “a primeira é escrevendo, que é a mais difícil e demorosa” e a “segunda é entrando em academias”, ele optou pela terceira: escrever com verdade e autenticidade.

Esta sua escolha o autor revela nas confissões à forca, onde se diz um “sujeitinho ridículo, como as cartas de amor de Pessoa, com a fria esperança de um dia liberdade, de uma tarde compreensão e de uma noite ser silêncio”. Alhures, se declara “ligado a saber mais, e não só, das coisas do âmago das gentes, de suas vidas corriqueiras, das coisas engraçadas de não se rir, ou mesmo daquelas de se lascar de rir, mas de íntimas humanidades, folhas de não se deixar levar ao vento”. Falar das gentes, das íntimas humanidades... eis a matéria do livro.

E se é assim, não poderia deixar de tratar do amor, que é mote da obra, insumo e invento das íntimas humanidades.

As cuteladas contra a alienação em sua crítica social não é já, de início, uma declaração de compromisso – de amor? – para com as gentes postas à margem do progresso econômico e das letras?

Há de se dizer que a severidade da crítica e a ironia ácida não rimam com o amor – que é sempre sublime e desliza leve em nuvens de contentamento. O reflexo lírico seria o estilo mais adequado para falar desta que é, na Filosofia, uma das grandes virtudes.

Ora, ora, meu compadre, para Raymundo Netto não é assim, não! Nem o amor é apenas doce ou azedo, tampouco devem ser as metáforas que dele sejam o signo.

Este leitor compreendeu que em Quando o amor é de graça tudo tem um preço: o pão e o livro, as calcinhas e a poesia, a felicidade e a dor, o ser e o existir. Preço que se mede em moeda, em reprovações, no investimento de energia física, moral e psíquica.

É como quando ele trata de vida e morte com a inteligência mordaz de quem sabe que a primeira é o início da segunda e esta o fim daquela. Siamesas! Assim é o amor na barulhenta conversa entre pacientes numa antessala do consultório psicanalítico. O preço para eles: a dor. “Aqueles que lhes estão à sombra são inevitavelmente arrastados à rósea infelicidade”, vaticina um paciente.

Uma contradição interna, amor e felicidade vs dor e tristeza caminham de par nas páginas lidas e sentidas.

Há nessas paragens, num “Coração de bolso”, uma tristeza de quem já perdeu ao ganhar, pois se é uma ferida que dói e não se sente – o amor – às vezes a dor permanece quando ele acaba.

Esta lembrança que fica precisa ser lavada com água pura da literatura para, assim, escorrer em correnteza demorosa. Da mesma maneira que “a conquista de afeto se dá nos degraus do calendário, na ciranda do relógio”, a reconversão de sua perda em pulsão de vida segue o mesmo ritmo. Não se pode arrancar a golpes de automação as reminiscências do tempo em que se amou e foi amado.

Daí a contradição do amor: exigir do amante a mobilização de todas as forças para erguê-lo e, depois, para desconstruí-lo. Custa caro! Fica o desejo, porém, da conquista do afeto “que se dá com gratuidade e tolerância, no reconhecimento de nossas existências, imperfeições e afinidades”.

A teimosia dessa busca encontra amparo na prosa poética de Raymundo Netto. Sua literatura planta na aluvião e irriga na aridez dos tempos do amor, sem deixar de registar acidentes e dores do percurso. Mais que um atirar-se numa jornada rumo ao outro, o amor é busca da felicidade num caminho para o si-mesmo do ser amante. Para nosso escriba, “Quando nós conseguirmos ser nós mesmos, nos encontrarmos, fatalmente ela também nos encontrará, e se deitará conosco em estrelada noite de esfuziante e perfeito amor”.

Que edificante!

Os escaninhos da escrita nos conduzem ora ao mar, ora à terra, ora ao espaço, ora a lugar nenhum quando se trata do amor romântico. Em “Crônica desamada”, o sujeito lírico posiciona-se, mais uma vez, entre o talvez e o provavelmente. O amor é possibilidades...

Eis que irrompe, porém, um tipo de sentimento que prende sem exigir, ata nas cordas do coração e desata os nós da existência a facilitar o viver as horas, os dias. E o faz com tamanha força e sem alarde, como quando deitados na sala, numa tarde de domingo, experimentando uma “renúncia espontânea, nem de doer, sem cobrança de nada em troca”, pai e filhas gêmeas.

Assim, vai emergindo das linhas, corajoso e sem armaduras, um amor de dar as mãos no pôr do sol, gratuito, espontâneo como a brisa. Talvez o mesmo que experimentara como filho de mãe que nunca se desmanchou em afagos, mas havia dias que lhe chegava com um potinho enrolado num pano, cheio de farofa – o cuidado!

Quando o amor é assim, os amantes o vivem como estado de graça. Poetas enxergam na escuridão. Cânticos transportam-nos para alhures. E é como a chuva fina regando os torrões ressequidos do ser-tão, escoando nos corações que se aninham como passarinhos.

“Ó, mio babbino caro”!

 

Epitácio Macário é graduado em Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará (1995), mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará (1999) e doutor em Educação pela Universidade Federal do Ceará (2005). Atualmente é professor adjunto da Universidade Estadual do Ceará na Graduação em Serviço Social e no Mestrado Acadêmico em Serviço Social, Trabalho e Questão Social (Mass/Uece). Membro-fundador do Centro de Estudos do trabalho e Ontologia do Ser Social (Cetros). Tem experiência na área de Economia Política e Fundamentos da Educação. Atua principalmente nos seguintes temas: trabalho, educação superior, desenvolvimento econômico e questão social.



 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

"O Estandarte do Coronel", de Raymundo Netto para O POVO


Coronel Oswaldo era um viúvo octogenário. O síndico perfeito. Homem de temperamento forte e austero, se distinguia pela invulgar habilidade de comando, fruto de anos dedicados às Forças Armadas de um Brasil. Procurassem, fosse na hora que fosse, acolhia pacientemente as lamentações das moradoras — os maridos não lhes davam a menor bola — que o palmeavam e o exaltavam na hora da janta: “Que homem esse é o seu Oswaldo!”

Entretanto, guardava ele um silêncio: a doraguda de um falo desanimado. Para o orgulhoso militar, imperdoável. Soube, porém, num fortuito dia, e decidiu implantar uma prótese peniana. Tudo envolto no mais absoluto sigilo, claro, e que Deus o livrasse se alguém supusesse um dia daquela sua vergonhosa fragilidade!

Com a tecnologia a seu favor, Oswaldo não deixaria mais de bulir em seu brinquedo. Nem acreditava naquilo. Soubesse, teria feito antes... Passou a querer a toda hora, a todo instante. Fosse mulher, passasse por sua revista, agora sabia: apertava aquela bombinha na mais segura possibilidade.

As domésticas, diaristas, as mocinhas da rua e mesmo uma ou outra colega de faculdade da filha, vacilassem, o coronel as colocava em sua linha de fogo.

Mas, iniciada a brincadeira, ao acionar a bombinha milagrosa, tinha ele a mania de exigir da companheira a apresentação de continência ao “glorioso estandarte”, como assim apelidara o membro ora ascendente e vigoroso.

As coitadas, a princípio, o faziam por graça, depois percebiam-lhe o modo estranho, exigido cerimonialmente a cada nova intervenção. Atrevessem dispensar-lhe tal continência, o desagrado era profundo, de esboçar uma carantonha, puxar as parceiras ao colo e dar-lhes tapas vigorosos na bunda, que era para discipliná-las. A ordem, então, seria no tapa!

Daí, em pouco, a mania do coronel passou a povoar o clássico fuxico das áreas de serviço do prédio. As senhoras fingiam, outras nem tanto, mas enojavam-se da tara do velho. Os moleques de rua, montados em bicicletas, passavam-lhe a prestar continências gargalhosas. Os maridos não deixavam mais suas mulheres trocarem miúdos com aquele homem, outrora muleta útil do matrimônio alheio, que, por fim, teve a sua primeira grande derrota em campanha sindical, desde que passara a residir no “Morada das Palmeiras”. Estava, enfim, des-mo-ra-li-za-do!

Sem o posto sindical, vítima de chacotas, amargando a solidão da popularidade, o pobre e inútil coronel tombou. Encostou os coturnos.

A cerimônia fúnebre se deu no salão de festas do condomínio. As senhoras rezavam pela alma daquele pecador que, apenas em seus últimos tempos, seduzido foi pelo mundano. A filha era, de fato, a única a dispensá-lo o pranto sincero. Foi quando o absurdo se deu: ao jogar-se com uma coroa de flores sobre o corpo paterno, sabe-se lá como, acionou a dita bombinha e o velho "estandarte", resistindo à morte, apontou ao céu. Abismada e sem saber o que fazer, a filha caiu para trás numa vergonha não apenas tão grande quanto à da plateia feminina que, maquinalmente, batia a última e desejada continência ao coronel.