sábado, 11 de fevereiro de 2017

"Chuvantiga: crônica nº 1", de Raymundo Netto




Seria uma crônica sobre a chuva? Mais uma, dentre tantas, não fosse o fato de que, ao entranhar a lembrança no pensamento, senti chover-me no peito a chuvantiga. A quedar-me assim, comecei:
Numa das ruas do Monte Castelo, seguia um barquinho de papel a correr-lhe pelas águas frias das coxias. Sem pressa, sem pressa, chuá, chuá, imaginava: todas as aventuras do mundo cabiam naquele barco a desmanchar-se lentamente enquanto vaguejante por sobre um céu baço que parecia ser, na meninice, tão grande.
Nas calçadas, buscando bicas, outros meninos e meninas saltavam felizes a tiritar, braços cruzados ao peito, inda livre, crentes na simplicidade de uma vida a viver ainda distante e muita.
À praça redonda, as peladas nas areias corriam entre pernas ligeiras. Os menores piscinavam no antigo chafariz coberto em mosaicos vermelhos que nem vi crescer, assim como aquelas crianças.
Em volta, pretos guarda-chuvas cumprimentavam-se com bons-dias domingosos; o peixeiro a cantar para as freguesas aos portões; encimando os muros baixos, verdes em limos, as buganvílias, afirmando um vaivém, dançavam; os cães a ladrar o estranhamento; as águas cortinavam, de cores, arco-íris na varanda; as empregadas corriam a desroupar o varal: “Chega, menina!”; o cheirinho de terra molhada entupia as narinas quando os respingos frios — vinham das venezianas do quarto — jaziam no travesseiro; o tactac repenicado no telhado acompanhava o grito do vizinho no alto do muro do quintal; o quintal avermelhecido em acerolas.
Era manhã e na sala inda escura o café esperava — passado no pano —, com leite, o pão francês quentinho e a manteiga de lata.
O pai, a mãe, os irmãos: nunca a mesa fora tão pequena.
Chovi com a chuva a tarde que ribombava.
“Mundo, mundo, vasto mundo”... Ah, se eu não me chamasse Raymundo, como vento gemeria, não em prosa, mas em poesia, todo o vivido retrato que, só no escuro deste quarto, a rasgar os céus azula-me o clarão, pela janela distraída do nublado coração.



"Um Amor, uma Cabana", de Ana Miranda


Nossos pais diziam que para nos tornar seres completos era preciso escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Meu pai, que era engenheiro, acrescentava: construir uma casa. Escrevi livros, até demais, tenho um filho e plantei uma árvore, no jardim da casa onde cresci, uma muda de pau-rosa, ou flor-do-paraíso, que havia sido esquecida ao lado de uma cova estreita e funda, uma muda frágil, com poucas folhas, mais alta do que a menininha que a salvou. A muda cresceu, transformou-se em um majestoso flamboyant, coberto de flores vermelhas.
Mas nunca construí uma casa. Sonho com isso. Gostaria de construir uma casa de taipa, com as próprias mãos, amassar o barro, atirar o barro nos enxaiméis e fasquias de madeira. Não se trata de uma idiossincrasia, nem de um gesto poético, muito menos uma visão religiosa. A taipa é um material apaixonante. Tem uma nobreza histórica. As reforçadas casas e igrejas coloniais brasileiras foram feitas de taipa de pilão, há ainda hoje na Alemanha casas em taipa construídas no século 13, a própria muralha da China, símbolo da solidez, é taipa. A taipa tem mais de 9.000 anos, serviu a construções no Egito, na Mesopotâmia.
Um amigo meu, arquiteto, projetou e construiu belíssimas casas de taipa. Ele se chama Cydno da Silveira e o conheci em Brasília, poucos anos depois de plantar meu flamboyant. Cydno estudava na UnB quando, observando residências rurais, surpreendeu-se com a quantidade de casas de taipa, feitas de maneira intuitiva, quase como as abelhas fazem suas colmeias. Nunca tinha ouvido falar naquilo em seu curso, e percebeu o quanto era elitista o ensino de arquitetura. Fotografou as casas de taipa todas que encontrava. Ele se formou, passou a trabalhar com as técnicas industriais, como concreto armado, mas nunca esqueceu a taipa. Deu-se conta de que não sabia construir da maneira mais rudimentar e resolveu aprender. Estudou durante anos a técnica. Descobriu taipas diversas, como a de pedra, usada no Piauí, a de madeira com bolas de barro, vista no Maranhão, a taipa de carnaúba, a taipa mista de moldura de tijolos, a taipa feita com sobras de madeira e sucata. Descobriu a maleabilidade incrível do barro, novas estruturas, novos dimensionamentos do espaço e imensas possibilidades de melhoria na técnica tradicional. Estudou a combinação com elementos da cultura industrial, mas sem descaracterizar a antiga construção de estuque. 
A casa de taipa nasce do chão, vem da natureza, é construída com o material que está ali, a terra e as árvores e tem uma grande contribuição a dar a um país que não oferece moradia para todos, como o Brasil. O projeto de casas populares, que Cydno afinal desenvolveu, ensina o homem a construir sua própria casa e a cuidar dela. Tem o sentido de manter viva a sabedoria popular da taipa. Está sendo feita uma experiência na cidade de Bayeux, Paraíba, para treinamento de pessoas no projeto, construção, melhoria e restauração de edificações em taipa de pau-a-pique. Não recebendo a casa pronta, mas construindo-a, o dono toma por ela mais amor. Se for privado de sua terra, ele saberá construir uma nova habitação. O saber lhe pode servir como meio de vida, e a profissão tem um nome: taipeiro.
A casa de taipa é uma grande alternativa para a habitação no meio rural e nas periferias urbanas. Típica das populações mais pobres, é uma forma de independência, uma estratégia milenar de abrigo, preservada nos sertões brasileiros especialmente pelas mulheres. O sistema de autoconstrução elimina a aquisição de material, o transporte, o crédito, elimina o BNH e o processo industrial de construção, permite o mutirão e, principalmente, educa. É rápida a construção, usa-se mão de obra não qualificada, e é um instrumento para a posse imediata da terra. Permite uma construção tanto de caráter provisório quanto perene e a técnica pode ser levada a lugares onde não chega o material industrializado. Uma simples caiação evita a umidade e basta fechar as frestas onde o barbeiro gosta de fazer seu ninho. Integra a família, as mulheres e as crianças trabalham na construção e integra o grupo na sociedade quando em regime de mutirão. Apesar de tudo isso é completamente ignorada pelos meios administrativos, considerada subabitação, não há nem mesmo linha de crédito nos órgãos do governo para casa de taipa. Marcos Freire, antes de morrer, estava tratando de corrigir esse lapso. Nas esferas “civilizadas” há dificuldade em compreender a taipa. Não há legislação nem a favor nem contra. Quando da construção de Carajás, Cydno realizou um projeto de moradias em taipa de pau-a-pique para os empregados, utilizando o fartíssimo material do lugar. Seu projeto não foi aceito e os tijolos, o cimento e o ferro viajaram de avião até Carajás. 
Na taipa não há desperdício de material e nem agressão ecológica, a madeira usada nas estruturas é em quantidade cinco vezes menor do que a necessária na queima de tijolos para uma parede das mesmas dimensões. “A tomada de consciência ecológica, surgida como uma ponte de luz no extremo mais estreito do túnel da crise de energia, vai servindo para provar-nos que nem sempre o habitat humano está condenado a ser feito de concreto, aço e vidro. Assim, quando tudo em arquitetura parecia dirigir-se para uma negação sempre maior da natureza que volta a oferecer uma saída diante das agruras da crise. E o faz com aquilo que lhe é primeiro e essencial, a terra, o elemento mais fecundo de tudo o que nos cerca”, escreveu o arquiteto Roberto Pontual.
Quando, nos anos 1930, Lúcio Costa projetou uma vila operária, em Monlevade, toda em taipa de pau-a-pique, escreveu: “...faz mesmo parte da terra, como formigueiro, figueira-brava e pé-de-milho – é o chão que continua... Mas justamente por isso, por ser coisa legítima da terra, tem para nós, arquitetos, uma significação respeitável e digna, enquanto que o pseudomissões, ‘normando ou colonial’, ao lado, não passa de um arremedo sem compostura”. E aconselha: devia ser adotada para casas de verão e construções econômicas de um modo geral. É uma técnica muito mais barata, atende aqueles casais remediados que desejam uma casinha de campo. O projeto de Lúcio Costa, claro, não foi aceito pela Belgo Mineira.
O Cydno vai projetar a minha casa de taipa. Vou querer na casa uma lareira, um fogão a lenha e uma vassoura daquelas de gravetos. Uma árvore frondosa por perto, pode ser flamboyant, um gramado na sombra para piquenique, contemplação ou leitura. Também dizia meu pai, nas coisas mais simples está o sentido da vida. 


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

"O que é pós-verdade" (parte 1), de João Soares Neto


Estou estudando o adjetivo pós-verdade (post-truth), considerado pelos Dicionários Oxford, da Universidade de Oxford-Inglaterra, como a palavra do ano de 2016. A expressão pode ter sido criada em 1992 pelo sérvio Steve Tesish, dramaturgo. O que me alerta é o dístico  da Oxford ser Dominus illuminatio mea, a nos remeter ao Salmo 27.
Agora, ninguém nos ilumina. Vejamos o que o  dicionário  Oxford  diz sobre a pós-verdade: “Um adjetivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm  menos influência em moldar a opinião pública do que o apelo à emoção e as crenças pessoais”.
 Desejo historiar – audácia minha – acerca desse fenômeno que se difundiu de forma exponencial em camadas cultas, na área filosófica e na política de grandes jornais.  
A aceleração da divulgação da pós-verdade decorre das divulgações em todos os modais da internet (e-mail, whatsApp, facebook, instagram, blogs etc) e das mídias convencionais que se renderam ao uso.
Refleti, e resolvi pedir a amigos doutos que dissertassem sobre o assunto. Esta é a primeira parte. Alguns pedem para não citar o nome. Respeito. Direi algo sobre a formação de cada um:
Um PhD em História: “Já é tão usado aqui. Ninguém que escreve bem o usa.  Mas meu neto adolescente – já sabe tudo –, ontem, ficou assustado se isso seria uma palavra que não existe. Nem a sua máquina falante, nem seus amigos nos EUA a conhecem.  Quer dizer, quando você escrever sua coluna sobre essa palavra, o uso dela vai revelar para muita gente no Brasil uma novidade. Nós, aqui, na Alemanha, estamos curiosos. O físico e filósofo suíço Eduard Kaeser vê na era postfaktisch o perigo de uma “democracia de uma sociedade que não quer saber nada/prefere ficar ignorante dos fatos”, como consequência da avalanche de informações no mundo digital, a diluir padrões essenciais e básicos como a objetividade e a verdade.
O estilo de fazer política de Trump muitas vezes é entendido como post-truth.”
Um Romancista: "A filosofia sempre se ateve a discussões sobre o significado da verdade, da justiça, da ética, dentre outros termos de não somenos importância para a condição humana. Em 2016, a pós-verdade ganhou destaque. No mundo moderno agitado e movido pelas redes sociais, a verdade perdeu status, cedendo espaço para a pós-verdade. O que se posta adquire significado de verdade quase absoluta, quase incapaz de ser desmentida ou questionada. Curiosamente, a pós-verdade está aquém da própria verdade, e não além, como o termo supõe".
 Ednilo Soárez, historiador: "A expressão pos-truth pode ser uma consequência do universo que vivemos nas comunicações digitais, nas quais as pessoas não se conformam mais em ser apenas “figuração”. Quase todas aspiram ao papel de protagonistas, daí, querem interpretar os fatos lastreados nas suas emoções, dando-lhes suas interpretações próprias". 
Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes, PhD, emérito da UFC: “Não sei para que inventar um ‘conceito’ novo se estamos em face de fenômeno tão antigo. Em seus processos cognitivos, a humanidade sempre se debateu com a intervenção dos aspectos emocionais, cuja importância de fato é imensa, pois que razão pura só existe na cabeça de Kant ou é como água destilada, que é pura, mas ninguém bebe.
Estou mais ou menos convencido de que esse rótulo de pós-verdade aguarda sua vez na lata de lixo da História, visto fazer parte de muitos outros ‘pós’ que andam por aí a poluir o ambiente.
Todavia, louvo seu esforço em busca de esclarecimento. Mas não se esqueça da palavra de Max Weber, em sua célebre conferência Wissenschaft als Beruf (1917): ‘Pois nada que ele não possa fazer com paixão tem valor para o homem enquanto homem.’”
Este não é o final.  Temos outras reflexões a apresentar. Aguardem.


sábado, 28 de janeiro de 2017

"Dia do Quadrinho Nacional - Gustavo Barroso: Herói?", de Raymundo Netto para O POVO


Oscar, personagem de Gustavo Barroso em O Tico-Tico (1908)

Dia do Quadrinho Nacional
Gustavo Barroso: herói?

No Sul e Sudeste do nosso país, pesquisadores e aficionados do universo dos quadrinhos se perguntam: seria realmente um brasileiro o criador do primeiro super-herói do mundo? Não me interessando em desfiar a polêmica, o que tenho a acrescentar é que esse brasileiro é um cearense e que se chama Gustavo Barroso (1888 – 1959). Sim, um dos escritores que mais produziu obras no país – cerca de 128 –, entre contos, romance, poesia, crítica, estudos, ensaios, além de cenografia, xilogravura, caricatura e... histórias em quadrinhos!
No período em que podemos constatar a participação de Barroso na “O Tico-Tico”, primeira revista em quadrinhos brasileira, esse rapazola de apenas 20 anos, aluno da Faculdade de Direito do Ceará, colaborava em periódicos não apenas em Fortaleza, onde residia, mas no Rio de Janeiro, como ele mesmo nos diz em seu “O Consulado da China” (1941): “Enviava caricaturas e trabalhos literários a jornais e revistas do Rio de Janeiro [...] A ‘Careta’ estampou vários contos humorísticos meus [...], entre 1907 e 1910. De fins de 1908 a princípio de 1909, a primeira página de ‘O Tico-Tico’ foi tomada pela história ‘O Anel Mágico’, ‘textos e ilustrações de João do Norte’ [em vez de ‘João do Norte’, pseudônimo usado por Barroso em algumas composições, vemos a sua assinatura ‘G. Barroso’] que fez as delícias da meninada daquele tempo, segundo o depoimento pessoal de Luís da Câmara Cascudo [...]”
Sua estreia se deu na “O Tico-Tico” nº 161, Ano IV, numa quarta-feira, dia 4 de novembro de 1908, estampando a capa da famosa e popular revista com o seu “O Anel Mágico”, narrativa em capítulos, que, em 1924, seria publicada na íntegra sob o título “O Anel das Maravilhas”, talvez a primeira graphic novel nacional, mais tarde um dos prêmios ofertados em concursos pela própria “O Tico-Tico”.
Mas do que se tratava tal história? Conta o narrador existir num tempo distante um reino dominado pela mais absoluta paz. Ali, as pessoas entravam e saiam com a maior liberdade, bastando atravessar uma pesada ponte levadiça que há anos não se via sair do chão. O seu soberano era o bondoso e justo rei Canuto XXX, pai do casal: Borboleta (19) e Oscar (18).
Entretanto, no entorno do reino, havia outro, tenebroso e horrendo, regido por Higino, um gigante feroz que, sabiam, possuía um anel mágico que lhe conferia grande poder. Um dia, não tão belo, o gigante deu pelo encanto da princesa Borboleta e decidiu tomá-la como esposa, claro, ansiando também pela riqueza do rei Canuto que, certamente, rejeitou a proposta do vilão.
Higino, furioso, convocou toda uma legião de espíritos do mal que, em covarde investida, avançou sobre as muralhas despreparadas do castelo e matou um a um de seus habitantes, com exceção de Borboleta, agora prisioneira na torre, e de Oscar, o nosso herói, que mesmo ferido consegue escapar na densa floresta onde encontra a fada Mariposa. Ela, então, revela ao cavaleiro que a única forma de ele libertar a irmã é conseguir se apoderar do anel mágico de Higino, oculto na torre do cume da montanha Zohnomin, guardada pelo terrível dragão Pyrogrulos. Para tal cruzada, a fada oferece relíquias mágicas: um carbúnculo (talismã), um cavalo (que não se alimenta) – não sei o porquê do cavalo, pois Oscar voa em estrelas, águias gigantes, entre outros seres fantásticos – e uma espada (que nunca perde o fio). Depois, aponta o primeiro de uma série de obstáculos que terá de desafiar para conseguir encontrar a irmã, vingar a morte do pai e derrotar o gigante de uma vez por todas. De posse do carbúnculo, no caminho mostrava-o a seus aliados, como o duque da Prata, guardião da Porta de Ouro, a rainha Batrachia, senhora da Lagoa dos Encantos, São Pedro – que o ensinaria a vencer o dragão –, o rei dos cometas, Volantina, a rainha das águias, entre outros. É curioso perceber que aquele jovem e talentoso jornalista criou e quadrinizou – ilustração, roteiro e história –, há mais de 100 anos, uma narrativa de fantasia que hoje impulsionaria best-sellers e a bilheteria de cinemas...



sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

"As Flechas de Sebastião e o dia T de Trump", de João Soares Neto


É hoje, 20 de janeiro de 2017, a data em que o Rio de Janeiro, em pleno verão, se esbalda pelas praias e morros face o feriado pela morte de são Sebastião, duplamente festejado pelos católicos e umbandistas. Viva Oxóssi.
 São Sebastião, século IV, possui história controversa. Na iconografia em que aparece preso a uma árvore e flechado, não foi o dia de sua morte. Conta a história que uma mulher, Irene, o viu exangue, retirou as flechas, uma por uma, e o curou. Irene virou santa Irene. Sebastião voltou ao rei Diocleciano e o afrontou.
Assim, pela segunda vez, o monarca mandou exterminar, a pancadas, o intrépido combatente da fé. Morto, jogado aos esgotos de Roma.
Voltando ao Rio: reza a lenda que são Sebastião, espada em punho, teria lutado quando da expulsão dos franceses. Os padres Anchieta e Manoel da Nóbrega, o fundador do Rio de Janeiro, Estácio de Sá, com a ajuda milagrosa dos gentios e de são Sebastião (que desviava as flechas desferidas pelos índios tamoios, aliados dos franceses) conseguiram, enfim, retomar a cidade dos calvinistas huguenotes, em um dia 20 de janeiro.
 A cidade é, entretanto, chamada de são Sebastião do Rio de Janeiro, desde 1565, em homenagem ao monarca d. Sebastião I (introdutor do sebastianismo, mas isso é outra conversa). O povo, até hoje, vela e acredita na espada milagrosa de são Sebastião.
Em razão disso, e por ser feriadão a prenunciar longo dolce far niente nas praias e nos morros, nos botecos e nas tabernas no Rio, de todos nós, o povo estará tomando cervejas e cachaças com tira-gostos de todos os tipos, esquecendo os dramas brasileiros e as dívidas do governo Pezão. Saravá.
Enquanto isso, neste mesmo dia, a bela esplanada da capital dos Estados Unidos, Washington, D.C, planejada com arrojo e classe pelo arquiteto francês Pierre Charles L’ Enfant, inaugurada em 1800, estará recebendo a cerimônia pública da posse do Trump, como o 45º. presidente dos Estados Unidos. Tudo será visto ao redor do mundo, inclusive no Rio, e mostrará temperatura de 40 graus, com possibilidade de chuva, e vento frio soprado do Rio Potomac.
Não devemos antecipar como será a cerimônia, mas nos cabe, neste dia, torcer para que os espíritos de A. Lincoln, G. Washington, H.Truman e do imolado J.F. Kennedy possam sobrepairar, tal como são Sebastião fez com o Rio de Janeiro, e dar ao novel ocupante da Casa Branca o equilíbrio necessário para a condução dos Estados Unidos, neste mundo em que qualquer nerd ou fanático pode precipitar acontecimentos indesejáveis.
Que as trombetas deem discernimento e equilíbrio a Trump. Na maturidade dos seus 70 anos, recostado nos novos travesseiros e colchão da suíte presidencial, invocar os antepassados ocupantes daquele aposento, ora retrofitado. Possa, enfim, dormir em paz e acordar ciente das duras responsabilidades que lhe cabem pelos próximos quatro anos.
Good Luck!  


sábado, 14 de janeiro de 2017

"Feliz por Tudo, por Nada e Platão", crônica de João Soares Neto


Vou ficar contente por estar vivo, por morar em um país em que não há terremotos e avalanches de neve, as novelas de TV são picantes e coloridas, há bons jogos de futebol onde as torcidas são animadas, mas corteses. Vou usar o grande tempo em que passo dirigindo para ouvir as músicas pacientemente escolhidas: Tiririca, Wesley Safadão e duplas sertanejas.
Tampouco, reclamarei se me oferecerem água “mineral” a R$1,00 a garrafa batendo no vidro do meu carro. Tirarei fotos dos comedores de fogo, dos esquálidos meninos acrobatas com roupas esfarrapadas e dos afáveis “flanelinhas” sempre risonhos, com suas bisnagas e apetrechos.
Escolhi “A Voz do Brasil” como programa de rádio favorito ao começo de cada noite. Aos domingos, optarei pelo Faustão, tão bem vestido, educado e legítimo representante do humor cordial. Ouvirei prédicas em emissoras pentecostais e as compararei com as suas congêneres católicas.
Anotarei todas as contas bancárias para onde deverei mandar dízimos e comprarei terços, medalhas e imagens pela internet. Estou pensando seriamente em fazer uma nova excursão à Terra Santa, quando arriscarei fazer as pazes entre alguns judeus e palestinos.
Na volta, pararei em Roma onde há um curso sobre “Desburocratização do Vaticano”. Gravarei esses ensinamentos e repassarei para alguns coachings, exímios resolvedores de problemas empresariais, familiares e pessoais.
Pagarei, sem reclamar, os juros altos do meu cartão de crédito e ficarei feliz em colaborar para o desenvolvimento do sistema bancário brasileiro, tão solidário com o povo sofrido.
Ouvirei palestras de ex-diretores do Banco Central e me encantarei em ler artigos de ex-detentores de cargos públicos, sempre disponíveis para solucionar os fáceis problemas que encontraram e não resolveram.
Acreditarei em todas as reformas propostas e aplaudirei os que, aos domingos, tomam banho de sol na avenida Paulista. Uns de bicicleta, outros empurrando carrinhos de bebês que não choram e até aquele ex-bancário gorducho sentado na velha espreguiçadeira deixada pela tia setentona abrigada em excelente casa de repouso para idosos.

Nada de falar de Gramsci, Marx, Deleuse e Guattari, dou a palavra a Platão na República, quando diz: “aquele que verdadeiramente gosta de saber, tem uma disposição natural para lutar pelo Ser, e não se detém em cada um dos aspectos que existem na aparência, mas prossegue sem desfalecer nem desistir de sua paixão, antes de atingir a natureza de cada Ser em si”. 
Falou!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

HOJE (12/01): Roda de Conversa: “A Encantadora Alma das Ruas”


HOJE: Roda de Conversa: “A Encantadora Alma das Ruas”
Data e Horário: 12 de janeiro de 2017 (quinta-feira), às 14h
Local: Biblioteca Pública (Espaço Estação)
GRATUITA e aberta ao público.
Saiba Mais:
Jorge Gouveia, em situação de rua, criador e agitador do Movimento Loucos por Praças, Parques, RUAS e Cultura e do Coletivo Cultural Poeta Mário Gomes, coordena a roda de conversa "A Encantadora Alma das RUAS" (título do livro de João do Rio, famoso jornalista e membro da ABL), com a presença de estudantes do ensino médio da Escola Prof.  Plácido Aderaldo Castelo, do Conjunto Ceará, e de moradores de RUA,  integrantes do Movimento e do Coletivo Cultural Poeta Mário Gomes. A iniciativa foi do prof. Marcos Vinicius.
Na ocasião, o Movimento e o Coletivo lançarão mais dois projetos:
1- Biblioteca "Peregrina", ou seja, itinerante, em um carrinho de catador de lixo.

2- O jornal dos moradores de rua, denominado “A Sopa, o Pão e o Papelão”.

sábado, 7 de janeiro de 2017

"Carta Cansada", de Raymundo Netto para O POVO


Veio-lhe a carta. Poderia ser qualquer uma, mas não, esta era cansada. Exaurida de lágrimas, qualquer resto delas, de fadiga ou de tédio, palavras em desalinho, opressas a batidas quase surdas de um coração ferido.
Ele, nem mesmo para si guardava a dúvida: de nada sabia do amor. Numa arrazoada assertiva o teria como um horizonte distante e inalcançável, como mentira, eternamente paralelo à vida, pelo menos a dele.
Não por isso negasse dias ter pela remetente sacrificado a palavra inda quente entre os dentes, nem sabia o porquê. Seria de mais grado a ambos deixar-se vomitar o “eu te amo”. Mas qual. Fitava-lhe os olhos de âmbar e o sorriso de menina.  Guardava na polpa dos dedos aquele desejo, quase em súplices joelhos, em forma de impressões e ardor da pele dourada. Buscava no lóbulo da orelha sob o cabelos furiosos o corpo que se expandia num abraço de acolhê-lo todo e inteiro – carne, alma e algo mais indescrito – em noites intermináveis de sempre ter um capítulo de fim. Agarrava-se aos cabelos como a tomá-la para si, para dentro de si, beijando-lhes os olhos para não cair de suas lembranças.
No escuro, sua voz ainda corria a curva dos ouvidos: “Eu tentei... ‘Morri no ano passado, mas nesse ano eu não morro’. Talvez eu tenha entendido ter chegado a hora de não querer mais entender. Seja feliz e adeus.”
“Adeus”, repetia, desbastando em retalhos as memórias que lhe vinham uma a uma, atravessando o peito e saltando do trampolim sobre as águas de malogrados esquecimentos.
Noutros dias, ao beijar outra mulher, sua boca estranhou o incômodo da boca distante. Seus dedos, como se perdidos no chão, procuravam encontrar no corpo alheio as mesmas e aquelas impressões e ardores que repousavam à pele dourada. Entretanto, nada encontraram, volvendo-se a noite em escura e desértica. A sua ausência materializou-se e desabou em chuva, a revelar no espelho que o seu pior castigo nem era ser ele mesmo, mas viver sem o perigo daquele abraço.
Do vizinho, uma radiola arranhava em long-play antigo: “entre os defeitos que tenho um é gostar de você.”
“Conte-me uma história...”, indicava no silêncio delicado, enquanto na fúria dos azuis do luar ela despedia-se num abraço calcado quase em morte, em solidariedade de vazios e de saudades, num frouxo rompante:
“Eu te amei, eu te amo, não te amarei nunca mais!”


sábado, 31 de dezembro de 2016

"2017: Ano-Novo de Novo", de Raymundo Netto



Meus amigos(as), leitores(as), conhecidos(as), colegas e gentes em geral da calçada digital deste feicebuquioceano.
2016 se despede pela compulsória e abre as portas para um inexperiente 2017. Ele chega, como toda criança, com promessas tão belas que de jamais poder cumprir – o que não deixa de ser uma grande promessa.
Decerto, somos meninos e meninas crescidos, mesmo quando nossa vida é apenas uma agulha dispensável nesse palheiro de controversas atitudes e discursos retóricos, ensaiados e repetidos todos os anos, todos os anos, todososanos.
Aprendi: a passagem do Ano-Novo é apenas uma vírgula no calendário. E, como todas as vírgulas, umas incompreendidas.
Alguns abusam de seu uso, enquanto outros as ignoram, no mesmo instante que aqueles, entre os quais me incluo, por não saber o que fazer com elas, têm a ciência de que, na dúvida, melhor esquecê-las.
Esqueço assim que essa noite é diferente, pois não é, mesmo com a faixa impensável colada no peito. Logo mais o céu será tarjado em cores de apocalipse, num colorido de festa popular, paga em troca de altos tributos e ao som de música de qualidade magérrima. Sim, são fogos do bem, felizmente, quando poderiam ser fogos em Aleppo, destruindo esperanças e vidas.
Comemoro, então, ser testemunha do hoje, ainda por aqui, na esperança caduca de poder abrir a minha janela amanhã. Farei o meu possível. Tenho tanto para fazer amanhã...
Em minha cabeça, juro que nem sei, a descrença fora arrebatada por planos e ideias de futuro glorioso, correndo junto aos ponteiros do relógio. Num outro instante, senti falta de muita gente, mas todos de uma só vez, democraticamente, sem hierarquias, hegemonias ou pretensões. Gente querida e saudosa. Gente que faz falta e que, de uma forma ou de outra, figura – às vezes protagoniza – a minha história.
Tive a felicidade de viver muita coisa, de errar muito – e acertar às vezes –, de não estar em dia com minha idade. Olho para o mundo em minha volta e percebo a finitude de tudo, menos dos sentimentos, pelo menos daqueles verdadeiros, mais sólidos do que aquelas promessas.
No exercício de perder, assisti a algumas perdas irreparáveis. Tenho saudades que me chegam a doer no fundo dos olhos, mas que, como as águas do Velho Chico, não chegam. Não as digo aqui, porque não há transcrição possível.
Mas apesar de tudo, a esperança, como aquela bactéria incômoda, não me deixa e provoca todo tipo de alucinação. Viver, viver... até quando? Pouco importa. A esperança está ali, do lado de fora da minha janela. E eu, debruçado no seu peitoril, esqueço que ouço a mulher que grita “Hoje a farsa vai acabar” e curto o balançar das folhas distantes a anunciar, como ventríloquo, que o que é bom está para começar agora...
Agora, faz-se a hora, e temos a chance de tentar mais uma vez. É só isso. Mais uma vez. Tentar! Que venha mais uma nova manhã... e que seja leve.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

"A Luneta Mágica", de Raymundo Netto


Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), médico, escritor, dramaturgo e jornalista carioca, famoso autor de A Moreninha, obra que em 1844 traçou a estreia do romance nacional brasileiro, escreveu em 1869 (século XIX) A Luneta Mágica, menos conhecida do que a primeira, mas cabendo aqui sobre ela uma boa “matutada”.
A obra tem como narrador e personagem central Simplício, que inicia: “Chamo-me Simplício e tenho condições naturais ainda mais tristes do que o meu nome. Nasci sob a influência de uma estrela maligna, nasci marcado com o selo do infortúnio. Sou míope; pior do que isso, duplamente míope, física e moralmente.”
De fato, Simplício não enxergava a um palmo do nariz (miopia física), o que não permitia que visse imagens e aparências, ou seja, não teria condições de “julgar pelas aparências”. E, sabe-se lá, devido a isso ou à coisa nenhuma, também não conseguia associar ideias (miopia moral), o “Lé com o cré”, como dizem na boa e colorida linguagem do cotidiano, dando a impressão de ser um parvo, um bobo, não ter opinião sobre nada, absolutamente. Daí, seu maior sonho: poder ver as coisas como elas realmente eram – como se fosse isso possível...
Aparentemente – irônico isso – lhe bastaria um par de óculos. Como tinha recursos, não seria problema, mas já havia experimentado vários e nada. Foi quando lhe apresentaram um mago Armênio, residente na rua do Hospício, que se dizia com o poder de lhe oferecer uma luneta mágica –entendendo que a “luneta” a que se refere o livro é um monóculo – que deveria ser usada apenas durante três minutos, advertência do mago, pois a partir de então, seu possuidor passaria a ter a “visão do mal”, ou seja, ver o mal de todas as coisas e pessoas. E, com mais de 13 minutos, ele teria também o poder de enxergar o futuro e, então, a luneta se despedaçaria. Huuummm.
Foi quando Simplício, como é absolutamente humano e imperfeito, desobedece a ordem de não ultrapassar os três minutos e descobre então toda a maldade e rudeza de um mundo, despertando o seu espírito de sonolenta inocência.
Num segundo momento, recebe outra luneta, com os mesmos atributos, só que, ao invés de ter a “visão do mal”, tem a “visão do bem”, passando a ver apenas o lado bom de tudo e de todos.
Não irei oferecer aqui mais spoilers. Já basta. Que os interessados leiam Macedo, ele merece. Comecemos então a pensar nessa simplícica visão do bem e do mal.
Ora, Macedo, em um momento de seu livro, como costume, filosofa:
“A exageração degenera os sentimentos, desvirtua os fatos, desfigura a verdade. Exagerar é mentir. No mundo há o bem e o mal, como há na vida o prazer e a dor. Mas o bem é o bem, o mal é o mal como eles são e não podem deixar de ser para a humanidade que é imperfeita: perfeito bem, absoluto mal não há para ela. [...] homens absolutamente maus ou absolutamente bons não são possíveis, nem se compreendem. Estudar o mundo e os homens, observando-os pela enfezada lente do pessimismo é tão perigoso e falaz como estudá-los observando-os pelo imprudente prisma do otimismo.”
O povo também brasileiro, tão incipiente de leitura e de maquinário intelectual, sem opiniões ou julgamentos próprios – pelo menos os mais elaborados –, como Simplício, tão facilmente conduzido por aquilo que aparentemente se vê, ou pelo que as suas lunetas televisivas e/ou midiáticas apresentam num alardeado pessimismo ou otimismo, conforme interesses e objetivos de quem as dominam [refiro-me, prestem atenção, às lunetas], parece perdido, numa caravana de ódio e de desespero, precipitado como os bárbaros nos tempos mais remotos, movido por instinto de sobrevivência, raivoso e aguerrido numa batalha gratuita em campo aberto – porém com protetor solar de farmácia –, numa disseminação de inverdades, tomado pelo show pirotécnico do grande coliseu judiciário, embasbacado com o espetáculo da corrupção, como se, pela primeira vez, lhe fosse desvendada a maldade humana. Haja Cabral... Quanta inocência.
O povo noveleiro, sempre imerso na sua ridícula vida individual, com a barriga cheia de si e dos seus, na busca dos penduricalhos materiais, de repente se vê convocado pelos titãs – os manda-chuvas e pais adotivos da maracutaia – que sempre lhe comandaram a vida. E ele, povo ignaro, de então, acha-se militante, coloca a camisa da corrupta CBF, representando o que chama de sua pátria, “ó mãe tão esquecida”, mas sem reconhecer-lhe a maternidade, a agride com verborragia desnecessária, contraditória, ensandecida, nunca que preocupado com seu país, com os famintos ou desassistidos, mas com o calo que lhe é apertado por aquele Nike comprado no shopping dos brilhantes.
Ou aquele povo, aquele que se insere nas ditas lutas sociais, que grita, berra, anda de alpercatas – porque esconde os sapatos italianos para outras ocasiões – mas que na verdade tem pretensões de vagas e cargos no governo, que defende a SUA camisa, o SEU partido e não o seu país e/ou aqueles filhos mais explorados ou excluídos. Aquele que se diz – e às vezes acredita mesmo – “politizado”, mas na verdade é apequenado pelo seu ideal individual de crescimento ou parasitismo político, tal qual aqueles que ali estão desembarcando do atual governo, feito ratos, sem merecer os votos que receberam nem as calças que vestem.
São iguais. Ambos os “povos”. Usando as lunetas que lhes deram, veem o bem e/ou o mal a seu bel prazer, como lhe convém. Julgando-os como absolutos, criando uma batalha sem sentido com palavras bonitas como “democracia”, que poucos sabem o que representa a não ser o seu querer único e indivisível. Seu egoísmo pátrio de torcida organizada.
Resta-nos saber que entre um povo e o outro existem pessoas dignas, honradas, críticas, sérias. Pessoas com princípios que não precisam ou não vivem para uma coisa ou outra, mas têm a noção do outro, da divisão, são sensíveis e defendem o seu país por entenderem o que é chão, semeadura e colheita. São pessoas bem formadas, não necessariamente com diplomas ou letradas, com caráter, curiosas e sedentas da descoberta da liberdade, da fraternidade e da união.
A guerra que assistimos hoje é insana e nós a criamos durante anos, como uma doença que silenciosamente nos toma de repente, fruto de um movimento histórico e social de alienação, de capitalismo predador –como se existisse outro tipo –, ganância, ambição, de adoração e manutenção daquilo que nos consome, que consumimos e que desperdiçamos, numa mentira não tão dura até ser contada para nós mesmos.
Quanto de mal ou de bem trazemos conosco? Quem é bom ou ruim nessa história?
A luneta do bom senso é a melhor, mas pertence a poucos. Cuidado, meus amigos e amigas: “Exagerar é mentir!”
(*) Publicado originalmente no blog "Matutando o Brasil", em 2 de abril de 2016.