quinta-feira, 16 de agosto de 2018

III Feira do Cordel Brasileiro - 16 a 19 agosto - Programação Completa

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De 16 a 19 de agosto, das 14 às 21h (no domingo, das 14 às 19h), acontecerá em Fortaleza, na Caixa Cultural, a III Feira do Cordel Brasileiro. A ação, cuja curadoria é de Klévisson Viana, reunirá cordelistas, pesquisadores, compositores, xilogravadores, declamadores, folheteiros, entre outros, em exposições, apresentações e oficinas.
A ação já faz parte do calendário cultural cearense, um encontro ímpar, reunindo o melhor do Cordel brasileiro.
Contato (e-mail): aestrofe@gmail.com
Telefone: (85) 3023-3064

Confira a Programação Completa
16 de agosto (quinta-feira)
Teatro
14h – Solenidade de abertura com a presença dos mestres do cordel e da cantoria | Apresentação “A Saga de um vaqueiro” – Escola José Antão de Alencar Neto (Pio IX/PI)
15h – Mesa “Literatura Popular, na escola, tem lugar” com o pesquisador Arievaldo Viana (Caucaia/CE) e os professores Stélio Torquato (Fortaleza/CE) e Paiva Neves (Fortaleza/CE) – Mediação: Professor Carlos Dantas(Fortaleza/CE)
Café Luiz Gonzaga
17h – Lançamento do livro “No tempo que os bichos estudavam” de Paulo de Tarso, o poeta de Tauá (Fortaleza/CE)
Palco Leandro Gomes de Barros
17h30 – Recital com Raul Poeta (Juazeiro do Norte/CE), Rafael Brito(Fortaleza/CE) e Pedro Paulo Paulino (Canindé/CE)
18h10 – Show interativo de voz e violão “Cante lá que eu toco cá” com o Mestre Gereba Barreto (Salvador/BA)
19h10 – Cantoria com o Mestre Geraldo Amâncio Pereira (Fortaleza/CE) e Guilherme Nobre (Fortaleza/CE).
20h – Recital com o mestre Chico Pedrosa (Olinda/PE)
20h30 – Show com o rabequeiro e cordelista Beto Brito e Banda (João Pessoa /PB)
17 de agosto (sexta-feira)
Sala de Ensaio
14h – Oficina de xilogravura com os mestres João Pedro de Juazeiro (Fortaleza/CE) e Francorli (Juazeiro do Norte/CE)
Teatro
15h – Aula-espetáculo “Imagens da Ficção Científica no Cordel” com o escritor, compositor e estudioso Bráulio Tavares (Rio de Janeiro/RJ)
Café Luiz Gonzaga
16h20 – Lançamento dos livros “Rapunzel em Cordel” e “A onça com o bode”, de Sérgio Magalhães e Kátia Castelo Branco (CE)
Palco Leandro Gomes de Barros
17h – Recital com os poetas Evaristo Geraldo da Silva (Alto Santo/CE), Julie Oliveira (Fortaleza/CE), Lucarocas (Fortaleza/CE), Antônio Marcos Bandeira (Fortaleza/CE) e Ivonete Morais (Fortaleza/CE)
Café Luiz Gonzaga
18h – Lançamento do livro em cordel “Andei por Aí: Narrativas de uma Médica em Busca da Medicina (2ª edição – revista e ampliada)”, de Paola Torres (Fortaleza/CE)
Palco Leandro Gomes de Barros
18h20 – Apresentação musical de Paola Torres (Fortaleza/CE)
19h – Recital com o mestre Chico Pedrosa (Olinda/PE) e Rafael Brito (Fortaleza/CE), com participação especial do cordelista Beto Brito (João Pessoa/PB)
Café Luiz Gonzaga
20h – Lançamento do livro “Orixás em Cordel”, do mestre Bule-Bule (Camaçari/BA) e de Klévisson Viana (Fortaleza/CE)
20h20 – “Chulas, Sambas e Licutixos” com o mestre Bule-Bule (Camaçari/BA)
18 de agosto (sábado)
Sala de Ensaio
14h – Oficina de cordel com Rouxinol do Rinaré (Fortaleza/CE)
Teatro
15h – Mesa “Cordel – Memória e Contemporaneidade” com a pesquisadora do IPHAN Rosilene Melo (São Paulo/SP), o cineasta Rosemberg Cariry (Fortaleza/CE) e o advogado, documentarista e cordelista Valdecy Alves (Senador Pompeu/CE). Mediação: Cordelista Eduardo Macedo (Fortaleza/CE)
Café Luiz Gonzaga
17h – Lançamento do livro “No Tempo da Lamparina”, de Arievaldo Viana (Caucaia/CE), com participação especial de Gereba Barreto (Salvador/BA)
Palco Leandro Gomes de Barros
17h40 – Recital com o garotinho Moisés Marinho (Mossoró – RN)
18h – Show e lançamento do CD “Marcus Lucenna, na Corte do Rei Luiz”, com Marcus Lucenna (Rio de Janeiro/RJ) – Participação especial de Tarcísio Sardinha (Fortaleza/CE) e Adelson Viana (Fortaleza/CE)
Café Luiz Gonzaga
19h – Lançamento do livro “Poesia em gotas diárias”, de autoria de Padre Tula (Edições Karuá)
Palco Leandro Gomes de Barros
19h30 – Declamação com o mestre Chico Pedrosa (Olinda/PE)
20h – Cantoria com Zé Maria de Fortaleza e Tião Simpatia.
20h40 – Apresentação com os mestres Bule-Bule e Gereba Barreto
19 de agosto (Domingo)
Teatro
14h – Mesa “Cordel Brasil-Portugal: o fio que nos conecta” com os pesquisadores Marco Haurélio (São Paulo/SP) e Antônio de Abreu Freire (Portugal). Mediação: Oswald Barroso (Fortaleza/CE)
Café Luiz Gonzaga
16h – Lançamento dos cordéis “As histórias das plantas” e  “Padagogia do oprimido” de Francisco Paiva Neves (Fortaleza/CE) e do “Amor no tempo de chumbo” por Nando Poeta (Natal/RN)
Palco Leandro Gomes de Barros
16h30 – Recital da despedida com Raul Poeta, Evaristo Geraldo da Silva, Leila Freitas, Arievaldo Viana, Bule-Bule, Lucarocas e Chico Pedrosa
17h30 – Canções de viola com o mestre Zé Viola (Teresina/ PI)
Pátio externo
18h30 – Coco do Iguape (Iguape/CE)

domingo, 12 de agosto de 2018

"Amor Sombrio" (parte I), de Raymundo Netto para O POVO




Você já vai embora? Assim?”
Estava insegura, mas tinha que abordá-lo antes que ele saísse por aquela porteira. Era noite e ela sabia: ele teria que caminhar muito até a estação. Sem entender o porquê da pergunta, o rapaz acomodou a mochila às costas: “Sim, claro. Você não sabia?”
Ofegante, ela mordia o lábio inferior, buscava as pontas dos dedos e das unhas e, depois de apertar os olhos, o fitou novamente, quase não conseguindo lhe falar: “Não está se esquecendo de nada?” Ele colocou as mãos nos bolsos da calça, da jaqueta, e sorriu: “Não, creio que não...” Então, trêmula, pegou a mão dele, passou em seu rosto, acolheu entre suas mãos em um abraço no peito e chorou: “E de mim? Você não está se esquecendo de mim?”
Taveira era jornalista. Designado a fazer uma matéria no interior, hospedou-se em uma fazendola de um casal de agricultores. Eles eram idosos e tinham como única filha e companhia uma moça de 18 anos, Laura, cuja maior parte da vida estava cerceada ali, como aquele terreno de seus pais.
Ele, por indicação e por ser útil à matéria encomendada, quedou-se naquele sítio. Durante 15 dias, seria Laura quem o atenderia em suas necessidades, fazendo-lhe ou lhe trazendo as refeições, preparando seu banho, lavando e passando-lhe a roupa, trazendo-lhe o gostoso café passado no pano, segundo a mãe, a sua especialidade. A moça, quase muda, por vezes, o acompanhava quando precisava se dirigir a qualquer lugar naquela região. Na verdade, a sua presença silenciosa e esguia por pouco não era notada por Taveira, sempre concentrado e envolvido em sua escrita ao computador. Entretanto, quando ele precisava, logo a percebia à sua volta, fazendo qualquer coisa, fosse varrendo, fazendo a cama, bordando, lendo ou mesmo não fazendo nada. Estava sempre ali, orbitando, à disposição dele. Mesmo assim, ele nunca imaginaria que, por trás daquela dedicação, pudesse haver qualquer sentimento. Até que, naquele instante, diante dele, ela, entre soluços suplicantes, lhe confessaria, arrasada: “Eu te amo tanto!” Impactado, ele, que só conhecia o amor de oitiva, paralisou. As nuvens escuras se abriram, revelando uma lua gigante a incendiar um clarão feito holofote no rosto dele, quando respondeu a ela: “Mas eu não amo você...”
Como lancetada pela dureza fria daquelas palavras, tomada de vergonha, ela deu meia-volta e, chorando, correu desabalada ao jardim da sua casa. Sem saber o que fazer, ele chamou por seu nome, uma ou duas vezes, quis acompanhá-la, mas achou por bem abrir a porteira e partir. Tinha que partir.
Na noite seguinte, em seu apartamento, ao deitar, uma surpresa: Laura lhe apareceu em sonho, nua e linda. Num absurdo, podia sentir o calor de seu corpo, de seu hálito, de seu beijo. “Eu te amo tanto!”, repetia ela, com olhar fixo ao seu, enquanto movia lenta e precisamente o seu corpo. Ele não conseguia entender, mas aquela moça, pela qual não sentia nada, o possuía completamente. Estranhava, porém, não querer acordar, e se entregava àquela volúpia a lhe tomar o espírito e a razão. Como fora possível não perceber tanta doçura, tanto encanto nela? E, a partir daquela noite, em todas, todas as demais, nunca mais conseguiu dormir sem ser completamente arrebatado por ela, a extrair dele todos os seus desejos mais secretos.

(CONTINUA EM 15 DIAS)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

"Teatro B. de Paiva", em 3 atos, por Ricardo Guilherme



TEATRO B
Teatro B. de Paiva. Era este o título de um artigo meu, publicado pelo jornal O POVO, em 23 de janeiro de 2011. Reivindicava essa denominação para o Teatro situado entre as duas salas de cinema do Centro Cultural Dragão do Mar, espaço que, aliás, ainda em 2018 continua sem um nome específico.
Porém, agora, com a instalação do projeto Porto Dragão nas dependências do antigo Sesc Iracema (Rua Boris) a figura de B . de Paiva é lembrada para denominar a sala de espetáculos que Dane de Jade e eu implantamos em 3 de outubro de 2005, com material cênico oriundo do Teatro Radical que encerrara atividades em 2000. Nesta data encenei ali o solo “A Divina Comédia de Dante e Moacir” e no dia seguinte iniciei sob o patrocínio do Sesc um projeto de orientação de dramaturgia e encenação denominado Interlocução Teatral
A homenagem ao teatrólogo cearense B. de Paiva procede. E recomendável seria que o Governo do Estado pudesse comprar o prédio, pois a sua ocupação via aluguel não garante de todo a sobrevivência da iniciativa.
B. DE PAIVA
B. de Paiva (de 1932) é de Fortaleza. Em Teatro, sua trajetória começa nos anos 1940, como ponto, soprando as falas dos atores no Conjunto Sacro-Dramático do velho Rufino Gomes de Matos. Era, então, àquela época, apenas o Zé Maria da dona Mazé do Seu Paivinha. A denominação B. de Paiva surgiria na década 1950, sob a inspiração de Cecil B. de Mille. Antes, José Maria Bezerra Paiva, aquele Zé franzino, da perna torta, uma espécie de Mané Garrincha do teatro, vivia mambembeando pelos círculos operários, como um aprendiz de Dionisos.
Gerado na escuridão dos porões da ribalta e parido pelo ventre iluminado à meia luz do buraco do ponto, esse dramaturgo, ator, diretor teatral esteve de 1954 a 1959 trabalhando com Paschoal Carlos Magno no Rio de Janeiro, e, em 1960, voltou à sua pátria-cidade para criar o Curso de Arte Dramática da UFC. Aqui, dirigindo o Teatro Universitário e a Comédia Cearense, liderou não apenas o movimento das artes cênicas do Ceará (até 1967), mas também o processo pela criação em Fortaleza da primeira Secretaria da Cultura do Brasil. Depois, outra vez radicado no Rio, fez-se diretor do Conservatório Nacional de Teatro e, posteriormente (1974-1977), reitor da FEFIERJ (berço da UNI-Rio), quando então tornou-se um dos precursores da implantação do ensino universitário de Teatro.
No início dos anos 1980, e por toda a década seguinte, o nosso B. passou a viver em Brasília onde dirigiu a Fundação Brasileira de Teatro, implantada por Dulcina de Moraes.
B. de Paiva protagonizou, no início do século XXI, ações culturais da Universidade Federal do Ceará e também dirigiu, por certo tempo, o Colégio de Direção do Instituto Dragão do Mar de Arte e Cultura que agora o homenageia.
ACERVO
Atualmente B. De Paiva reside em Fortaleza. Seu acervo (livros, fotos, filmes, vídeos, documentos, cartazes, programas etc.) continua, no entanto, encaixotado no Distrito Federal. Deveria ser assumido pelo Estado, via Secretaria da Cultura. Poderia até estar exatamente no mesmo centro cultural que agora sedia o Teatro B.de Paiva.

Ricardo Guilherme
ator, dramaturgo, contista e pesquisador da memória do teatro


segunda-feira, 30 de julho de 2018

"A Dupla", conto de Raymundo Netto para O POVO




Não tendo outro jeito, separou-se.
No começo, sempre difícil, buscava a companhia solitária e ilusória das multidões. Com o tempo, aquietou-se, arranjou um apartamentinho, organizou-o com suas coisas, acomodou e acostumou-se. Melhor: passou a curtir o silêncio e a sua solidão, esta sim, para ele, libertária.
Numa ironia terrível, bem própria da incoerente existência humana, na qual afirmamos amar a vida, todavia nos deitamos com a morte, enquanto gostava daquela situação, sentia precisar de mais alguém. Apesar disso, ciente de ser um incompreendido e da sua indisposição em acordar qualquer coisa que lhe restringisse o mínimo de espaço – tinha asmas emocionais –, decidiu viver a dois consigo mesmo.
Então, nos restaurantes, bares e cafeterias, passou a pedir tudo em dobro. Dois cafés, dois pães, dois pratos, dois pares de talheres... e até a divertir-se em jogos de tabuleiro, de cartas e palavras cruzadas. Dava gosto vê-lo alegremente falando alto, conversando, lendo livros regados a chás, discutindo o cardápio e planejando viagens juntos. Fazia longas caminhadas no parque pela manhã. Um cuidava da saúde do outro, sempre achando que esse outro, por ser da mesma idade, deveria estar tão bem quanto.
A princípio, os vizinhos e moradores do bairro estranhavam, mas, com a rotina, já os reconheciam como gêmeos, percebendo-lhes nos modos, na fala e até no olhar, naquele instante, quem era quem.
Sabemos, entretanto, que a vida comum é um exercício. Com o tempo, a falta de privacidade e o excesso de intimidade podem pôr abaixo a mais sólida relação. Ele começou a desanimar. Irritava-se com frequência. Diante das discussões, jogavam na cara um do outro os seus mais inconfessáveis e inegáveis defeitos e contradições. Assim, aquela convivência se tornou intolerável. E, um dia, como é comum acontecer nesses momentos, estavam no café, quando surge à luz da manhã uma moça belíssima. Não demorou para que eles chamassem a sua atenção. Ela, curiosa e atrevida, aproximou-se, pediu licença e sentou-se à mesa.
Desacostumados com outro contato que não entre eles próprios, apresentaram-se, atrapalhados, a lhe perguntar coisas, as mais banais e supérfluas. A moça sorria: “Calma, rapazes, um de cada vez...”. Ao sair, colheu os números de seus celulares.
Sim, eles estavam completamente apaixonados. Mas tinha que ser pela mesma mulher? Agora, o que estava ruim ficou ainda pior: evitavam-se, faziam refeições em separado, brigavam para usar o banheiro, trancavam-se em seus quartos à espera daquela ligação. E ela ligava. Incompreensivelmente, para um e logo depois para o outro.
Um dia, ao acordar, ele sentiu um estranho vazio. Correu à sala e encontrou um bilhete. O outro fugira de casa para viver ao lado dela, o seu grande amor. Fizesse o que quisesse com suas coisas. Não queria saber de mais nada. Por fim, desculpasse. Se possível, enviaria notícias.
Aquilo foi demais. Ele, abandonado e irremediavelmente sozinho, não resistiu e se matou, não suportando a inigualável dor daquela dupla traição.



domingo, 15 de julho de 2018

"Padre Cícero está de volta ao Juazeiro", dia 20 de julho. Saiba Mais!


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Padre Cícero de volta ao Juazeiro!

O livro Padre Cícero, o filme, de autoria de Raymundo Netto, inaugura a a Coleção Memória do Audiovisual Cearense, de fomento ao acervo e preservação do patrimônio audiovisual brasileiro. A obra traz uma história breve dos primeiros 50 anos do cinema no Ceará (1924-1974), recorte que vai desde a primeira exibição cinematográfica no estado até o ano em que o diplomata, diretor e roteirista Helder Martins de Moraes se une ao empresário e produtor Francisco Martins de Morais e inicia a sua luta para filmar o primeiro longa-metragem colorido do Ceará e primeira obra audiovisual ficcional sobre a vida de padre Cícero, considerado ainda hoje o maior líder espiritual brasileiro.
Padre Cícero: os milagres de Juazeiro (1976), um filme tão controverso quanto o seu personagem, foi filmado em vários sítios cearenses e teve um elenco composto por artistas de grande nome do cinema nacional da época e atores, hoje referências do teatro e da TV cearenses, como Jofre Soares, Dirce Migliaccio, José Lewgoy, Rodolfo Arena, Manfredo Colasanti, Cristina Aché e os cearenses Ana Miranda, Nildo Parente, Ricardo Guilherme, Seny Furtado, Haroldo Serra, Walden Luiz, Marcus Miranda, além de vinte e cinco técnicos, cem coadjuvantes e cerca de mil figurantes.
O projeto, que contou com o apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e como patrocinadores M. Dias Branco, Estácio, Banco do Nordeste e Empresa Vitória, em vasta pesquisa, conta a sua história, desde a concepção e filmagens ao seu lançamento, incluindo a ficha técnica, curiosidades e fotos. Como anexo, a obra traz o roteiro original do filme (simulação de fac-similar), com notas, e o encarte da reprodução do pôster em tamanho original, com a ilustração de Benício, autor de diversos cartazes de filmes de sucesso na época. Também disponível estojo com 2 DVDs (filme original, trailer e documentário com a participação de membros da equipe técnica e atores, mais de 40 anos depois).

SERVIÇO
1.       Lançamento documentário e livro Padre Cícero, o filme
Com a presença de Renato Casimiro, responsável pela pesquisa na equipe técnica (1975), e Valmi Paiva, membro da equipe de produção e ator coadjuvante (1975).
Quando: 20 de julho, sexta-feira, a partir das 10h
Onde: Fundação Memorial Padre Cícero (Praça do Cinquentenário, s/n, Juazeiro do Norte)
Outras Informações: (88) 3511.4487

2.       Lançamento longa-metragem “Padre Cícero: os milagres de Juazeiro” e livro Padre Cícero, o filme
Quando: 20 de julho, sexta-feira, às 18h
Onde: Teatro Centro Cultural Banco do Nordeste – Cariri (Rua São Pedro, 337, Centro, Juazeiro do Norte)
Outras Informações: (88) 3512. 2855 |    
Investimento: Livro (com roteiro original) + Poster + Kit-estojo (2 DVDs: Filme/Trailer + Documentário): R$ 60,00


sábado, 14 de julho de 2018

"Casamento", de Raymundo Netto para O POVO



Na igreja, as pessoas se reuniam na organização de um bazar para angariar recursos à paróquia. Laura carregava caixas, quando foi abordada por dona Neide, uma das beatas, que percebeu-lhe as mãos: “Você não é casada, minha filha? Cadê a sua aliança?”
Surpresa, Laura apenas balbuciou um tímido e não convincente “Perdi”. Neide, ao contrário, bem vivida e maliciosa, olhou a jovem com desdém e, espalmando a mão esquerda bem à frente de seu nariz, projetou a volumosa aliança dourada: “Pois eu sou casada de papel passado e com as bênçãos de Nosso Senhor. Não sou mulher de sem-vergonhices, não.”
Laura, constrangida e diante de outros olhares fuzilantes, pediu licença e saiu pela escadaria aos prantos. Sim, ela não era casada e isso, ninguém sabia, lhe era uma tremenda frustração. Há anos, conhecera Serafim e logo se apaixonara. Ele propôs: “Amor, vamos morar juntos?” Ela espantou-se. Queria, mas não queria assim. Sonhava-se em véu e grinalda de flores de laranjeira, vestido alvo de cauda longa, diante do padre e da família, com direito a daminhas e pajens, sininhos, chuva de pétalas de rosa e de arroz, mas Serafim insistia: “É uma festa apenas, meu amor. O que é uma festa?”
Laura, mesmo com rigorosa formação religiosa, hesitava. Afinal, era o Serafim “Um fofo!” Até que um dia, convidada a ser madrinha de um casamento de amiga, enamorou-se por tudo: pelas cores e luzes, buffet, balões de gás, discursos e juras de amor eterno, brindes, um milhão de fotos e um buquê. Chorava como se aquela fora a sua tão desejada cerimônia matrimonial. Natural sair de lá decidida a colocar o rapaz na parede: “Só casando!” Entretanto, ele, sofrendo o diabo, afirmou: “Então você não me quer... quer a festa!” Laura, sentindo-se vista de forma tão fútil, irritou-se, gritou aos céus de relampos e temporais: “O que eu quero é não vê-lo nunca mais!”
Parecia uma eternidade, mas poucas semanas depois, Laura soube que a amiga, recém-casada, fugira com um ex-namorado. Perplexa – não dera tempo nem de conferir o álbum de fotografias – e sem pensar, procurou Serafim: “Como pôde? Tudo tão lindo, perfeito, e ela foge... assim?” Ele, um inveterado saudoso e perdido em amores, lhe estampou um beijo de novela: “É só uma festa, meu amor... Uma festa...” Então, sem adiar mais, Laura se entregou a Serafim. Com pouco, alugaram uma casinha e passaram a viver juntos. Porém, mesmo amada e contente, ela tinha suas vergonhas e, daí, naquele mesmo dia em que foi encurralada pela beata, perguntaria ao Serafim: “Querido, um dia nós vamos nos casar?” “Só se for de novo”, respondia ele, sem tirar as vistas do jornal. “E Deus, as suas bênçãos?” Ele beijava delicadamente a sua mão e sorria: “Somos abençoados, meu amor. Eu te amo, você me ama. Deus é amor!” E ficava por isso mesmo.
Até que, no dia seguinte, voltando do mercadinho, ela passou pelo calçadão da praia e viu, para seu espanto, o marido de dona Neide, o velho Olegário, de calção, aos amassos e lambendo os beiços com uma moça em biquíni. A vizinhança comentava: “Que velho mais safado. Todo dia é essa lambança. E na frente de todo mundo!”
No domingo, após a missa, dona Neide, como se esperava, aproximou-se de Laura com outras colegas de fuxicos e lançou: “Ô, Laurinha, me tire uma dúvida, criatura. Você e o seu Serafim são casados, tico-tico no fubá, ou o quê?” Ao que ela, segura e altiva, respondeu: “Nós somos felizes, dona Neide. Só isso: felizes!”




segunda-feira, 9 de julho de 2018

"Cadê a banca de revistas que estava aqui?", de Luiza Helena Amorim para O POVO



Todas as pessoas desse mundo, nas suas vidas virtuais ou reais, se acham no direito de ao menos um dia no ano entregar-se a resmungar por algum motivo, ou protestar contra um mau serviço postando uma denúncia nas redes sociais. Pois bem. Hoje é meu dia.
Quero gritar aos quatro ventos: que fim levaram as bancas de revistas de Fortaleza?
Assumo a mea culpa. Sou de uma geração que passou a consumir informações, literatura, entretenimento em plataformas digitais. Foi um processo tão sutil que nem me dei conta que estava ali a acompanhar quase tudo nos sites e redes sociais. O acesso é rápido, prático, barato. Que pecado há nisso? Contudo, fecham as bancas.
Das lembranças mais agradáveis que eu guardo da infância, as bancas situam-se em um lugar de destaque. Será que esse hábito teria influenciado minha escolha em tornar-me jornalista? Talvez, pois me lembro dos primeiros textos publicados nos encartes infantis. Esperava os finais de semana para andar pelas ruas do bairro, passar no armarinho e comprar papéis de carta, como muitas meninas da minha geração faziam. Para em seguida, ir correndo ver as revistas em quadrinhos da Turma da Mônica ou os novos álbuns de figurinhas...
Depois veio a fase das revistas de adolescentes, dos materiais de estudo, das revistas de culinária e por fim as de literatura e jornalismo... Nas bancas comprávamos os jornais para ver as listas de aprovados no vestibular, se não tivéssemos nervos para ouvir pelo rádio ou pelo simples prazer de guardar aquele documento sentimental.
É contraditório, porém, sou entregue às novas plataformas, mas, não totalmente. Tenho o gosto “antigo” de ser feito traça, de ter a leitura como uma experiência sensorial de tocar o papel. Seguindo sempre um ritual: gosto mesmo é de folhear rapidamente, um jornal ou revista e já selecionar os conteúdos de meu interesse, e depois fazer a leitura cuidadosa dos textos. Quando trabalhei em uma editora, era dia de festa quando as revistas chegavam da gráfica, abrir os pacotes e sentir o cheiro de publicação nova... Novos comportamentos de consumo de informações, baixa demanda por jornais e revistas impressos, a crise. Como sobreviver a essa avalanche? Não sei. Só lamento.

Luiza Helena Amorim
luiza.helena.amorim@gmail.com
Jornalista e escritora


sábado, 30 de junho de 2018

"Infidelidade", de Raymundo Netto para O POVO



Sátiro era realmente de um azar medonho!
Imagine que no escritório, nos bares, cinemas, sebos, no círculo de leitura, até na padaria, e seja lá onde mais estivesse, não era incomum assanhar a mulherada. Sem esforço, as seduzia com a fala mansa, os ouvidos pacientes e o olhar desinteressado. Porém, entre todas as mulheres do mundo, a única que não lhe dava o menor cartaz era justamente Artemísia, a sua esposa. Muito pelo contrário, ela parecia se deliciar em humilhações com o marido. Desmentia o coitado na frente de amigos e o desfazia para as amigas. Não o deixava descansar em casa, sempre reclamando da vida, da sua inutilidade, exigindo-lhe mais do que podia, e, à noite, o rejeitava na cama. Dizia abertamente ter nojo de seus modos, do seu cheiro, além de irritar-se com sua voz e conversa monótona: “Você não presta, Sátiro!” 
Não importava. Ele a amava, e a amava solitário e profundamente, como um coveiro ama a morte.
Os amigos se solidarizavam: “Rapaz, seja homem. Ninguém merece passar por isso. E, tenha dó, se a patroa não se dedica, há de ter aquela amiga...”
Nessas horas, ele deixava escapar um sorrisinho malicioso de coisa guardada a 7 chaves – que ele daria tudo para se lembrar onde esquecera ao menos uma: “ Ah, vocês não entendem... Mas é por que não sabem... e ainda bem que não!” Mesmo ali, em sua miséria pessoal, sorvia a sua cervejinha arrogante, como triunfal, porém incompreendido, vencedor.
Certa noite, após um dia intenso de trabalho, chegou em casa e perguntou pelo jantar. Ela, após um costumeiro “Não sou sua empregada”, pediu que sentasse: “Não gosto de embromação, você sabe. Pois bem, vai ser duro para nós dois, mas sou franca: eu te traí hoje!”
“Traiu?” Aquela palavra rebentou em seus ouvidos como um estampido de revólver, uma bomba atômica, a expulsão do Paraíso. Hesitou: “Como assim, amor?”
A mulher se aborreceu. Colocou as mãos nos quartos: “Como assim? Quer que eu conte em detalhes, seu abestado?”
Sátiro, tremendo-se todo, empertigou-se e levantou rapidamente: “Tenho que tomar um ar”.
Saiu zonzo de casa, enquanto a mulher, exausta, foi-se deitar com a leveza de um querubim.
Chegou ao bar, onde encontrou a turma animada a comemorar o resultado do futebol. Ele, pálido e sem pedir licença, lançou-se por cima da mesinha de plástico, virando copos e espetinhos, caindo num pranto frouxo e dolente de moça largada. Contou seu drama. A mulher tivera coragem de trair o compromisso. Justo com ele, mais fiel do que ponteiro de balança.
Os colegas, pasmos com a pungente confissão, reagiram. O primeiro: “Que piranha! Com todo respeito, Sátiro, mas essa sua mulher não vale o que o gato enterra... Paga na mesma moeda. Reaja, homem, ela está pensando que você é o quê?” Outro dava ideia: “Beba, beba... Isso não pode ficar assim. Joga as tralhas dela na rua. Beba que ajuda.” Aquele era mais enfático: “Se fosse comigo, não estava mais aí para contar história... Acha que vai ficar assim e pronto? Você tem sangue de barata, por acaso?”
Então, súbito, Sátiro pôs-se em pé. “Não, isso não ficaria assim, mesmo. Reagiria!” Sem dizer mais nada, dirigiu-se à saída com uma passada longa e forçosa.
Os amigos pensaram: “Vai fazer uma besteira. Está doido, fora de si.”
Compraram umas latinhas extras de cerveja e correram eufóricos para a casa do atraiçoado, chegando a tempo de assisti-lo, choroso, apertando ao peito um buquê de rosas, de joelhos e prostrado aos pés da mulher, suplicando-lhe o mais sincero e servil perdão.


sexta-feira, 22 de junho de 2018

“Padre Cícero por trás das câmeras”, de Camilo Pestana para "O Mosquitim"


A seguir, entrevista de Raymundo Netto ao jornalista Camilo Pestana, do jornal O Mosquitim.

O projeto “Padre Cícero: o filme” é uma iniciativa da Fundação Demócrito Rocha, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, que resgata uma obra considerada esquecida da historiografia cearense e o faz com muita pompa, em forma de livro, reprodução do pôster em tamanho original e um estojo que acolhe um documentário (45min) e o filme (1976).
Aqui, entrevistamos Raymundo Netto, escritor, editor, pesquisador e coordenador geral do projeto:

O Mosquitim: Raymundo, como você tomou conhecimento desse filme?
Raymundo Netto: Esse projeto já devia ter sido executado há tempos. Conheci a Elvira Sá de Morais, produtora executiva do filme e filha do produtor Francisco Martins de Morais, há muitos anos. Na época, ela tinha uma intenção, quase necessidade, de trazer de volta, de qualquer maneira, esse filme, que tinha, por trás das câmeras, uma história de alegria e de dor, como quase todas, aliás. Eu conheci a escritora Ana Miranda – que representou a beata Maria de Araújo na película –, um pouco antes, e foi ela quem me apresentou a Elvira para um trabalho de edição de livro de dona Celina, sua mãe.

OM: E o que o levou a apresentar esse projeto ao MinC?
RN: A princípio, Padre Cícero é o primeiro longa-metragem colorido do Ceará e a primeira obra audiovisual ficcional sobre a vida do padre. Isso, por si só, já justificaria a sua importância histórica, chamando a atenção do MinC para o registro e resgate dessa obra como forma de fomentar acervo e pesquisa da historiografia audiovisual brasileira. Entretanto, com o tempo, lendo jornais da época, ouvindo relatos de conhecidos que trabalharam na sua execução, ciente do momento histórico em que foi filmado e lançado e percebendo a escassez de informações sobre ela, meu interesse não apenas pelo filme, mas pelo contexto geral que o envolveu foi aumentando, a ponto de desenvolver o projeto e apresentá-lo ao Ministério.

OM: Então o projeto não se reduz a relançar o filme, apresentá-lo nos dias de hoje?
RN: Não. Eu posso até dizer que nesse quesito, poderíamos ter ido mais além, e não fomos. Gostaríamos de ter previsto orçamento para trabalhar no tratamento da peça que se encontra na Cinemateca Nacional, mas exigiria um esforço bem maior, assim como um equivalente aporte financeiro e o envolvimento de técnicos especializados. E, com isso, talvez o resultado fosse bem menor. Decidimos conferir um tratamento de imagem e de áudio da cópia que tínhamos em mão, mas, focado na questão histórica, optamos em reunir o maior número de elementos que contassem essa história, a preservassem, que ela chegasse a um maior número de pessoas. E como fazer? Escreveríamos um livro. Aliás, esse é o produto principal do projeto. Acreditamos que, por meio dele, e do documentário, outras pessoas poderão se encarregar dessa tarefa, mas, necessário se fazia criar essa curiosidade e interesse pela obra, até então, esquecida.

OM: E nesse livro, então, você conta a história do filme?
RN: Pois é. A ideia era essa: contar a história do filme. Mas quem pesquisa sabe como isso se dá. Iria escrever a história dele, iniciando pela biografia breve de seus personagens principais: Francisco Martins de Morais (produtor), Helder Martins de Moraes (diretor e roteirista) e Elvira Sá de Morais (produtora executiva). Depois, avançaria, contextualizando o momento histórico, a Embrafilme, na época, sob o comando de Roberto Farias, durante a Ditadura Civil-Militar. A execução das filmagens, apresentando a equipe técnica e os atores cearenses e de outros estados brasileiros, o percurso da filmagem, seus principais sets, curiosidades de bastidores, ficha técnica, premiações, lançamentos etc. Importante ressaltar a figura de Francisco Martins de Morais, o empresário que acreditou e investiu nesse filme. Uma inspiração de mecenas. Natural de Mauriti, também era devoto do “Padim Ciço”. Não foi muito difícil Helder Martins, diplomata e seu primo, convencê-lo. Dedicamos o documentário, assim como o livro, a ele, por este espírito tão necessário por aqui.

OM: Mas...
RN: Mas eu me perguntei: “Afinal, o que difere Padre Cícero de qualquer outra obra cinematográfica filmada no Ceará e que justifique essa atenção?” Então, me vi obrigado a escrever um breve relato histórico da produção audiovisual não apenas cearense, mas que foi filmada no Ceará, no recorte de tempo de 50 anos (1924-1974), ou seja, desde a primeira exibição do primeiro documentário de Ademar Bezerra de Albuquerque exibido no Cine Moderno, em 15 de outubro de 1924 (daí essa data ser considerada o Dia do Audiovisual Cearense) até o ano em que Helder Martins decidiu fazer um filme tendo como protagonista o maior líder religioso brasileiro. Ou seja, reconhecendo como seu deu toda essa trajetória, percebe-se o marco que foi a produção de Padre Cícero para o Ceará. E, para cumprir essa etapa, passei por algumas obras e consultei alguns amigos que foram fundamentais, como Ary Bezerra Leite, Nirez, Frederico Fontenele, Firmino Holanda, Sânzio de Azevedo, Renato Casimiro... Ah, não posso esquecer, claro, que contei com entrevistas que fiz com todos aqueles que também participaram do documentário, e com outros que, infelizmente, não pudemos trazer, mas que nos contactamos por e-mail, telefone ou por meio de webconferências, como Cacá Diniz (produtor que teve uma participação intensa na “engenharia” do filme), Jefferson Albuquerque Jr (cenógrafo e ator), Emmanuel Cavalcanti (ator), Benício (ilustrador) etc. Não posso deixar de agradecer ao próprio Helder que me enviou diversos jornais da época e Valmi Paiva que me cedeu caixas de slides com fotografias de still de Evaristo Neto.

OM: Você nos disse que juntamente com o livro os leitores teriam outras novidades. Quais seriam?
RN: Graças ao espírito de pesquisador e de colecionador do ator, diretor e escritor Ricardo Guilherme, nós tivemos acesso ao roteiro original do filme. Graças a ele, pudemos comparar esse roteiro com a obra final, descobrir alguns aspectos interessantes que se passaram na cabeça do roteirista Helder Martins, imaginar o que ele desejava a princípio, conferir o que não foi filmado ou o que foi filmado, mas que no momento da montagem decidiram retirar (foram mais de 7 horas de filmagem produzidas). Estudando o roteiro, percebi o quanto de documental havia e, assim, me pus a fazer notas, quase um cotejamento biográfico, com a história do próprio padre Cícero. Esse roteiro, com imitação de fac-símile, é um anexo volumoso do livro.

OM: Curioso... Eu pensei que esse produto fosse encartado ao livro.
RN: Não. O que vem encartado ao livro é outra surpresa: a reprodução do pôster do filme em tamanho original. É um mimo para aqueles cinéfilos que sabem e entendem que, até algum tempo, os fãs, quando sabiam que seu filme preferido – ou todos eles – iria sair de cartaz, corria para o seu cinema de rua e esperava para pedir que lhe dessem aquele cartaz como souvenir. Assim, esse souvenir vem agora para todos que adquirirem a obra. Outro dado importante é o seu ilustrador: José Luiz Benício, que naquele tempo era o maior cartazista, se podemos definir assim, do cinema, sendo o criador de mais de 300 peças, entre elas, as dos filmes dos Trapalhões, Dona Flor e seus Dois Maridos, A Superfêmea, do Zé do Caixão, entre outros. É lindo esse pôster.

OM: E essa pesquisa acabou por gerar o documentário que vai ser lançado no Juazeiro?
RN: Antes, o lançamento do documentário e do filme acontecerá no Festival Vida & Arte, no dia 24 de junho, um domingo, às 20h30. Apenas em julho, dia 20, terá um lançamento no Memorial Padre Cícero pela manhã e, à noite, exibiremos o filme de 1976 no Centro Cultural do Banco do Nordeste, também em Juazeiro. E, sim, essa pesquisa orientou a elaboração do roteiro, a filmagem, montagem e finalização. É um média-metragem e conta com a participação e os relatos de Helder Martins, Elvira Sá de Morais, Ana Miranda, Ricardo Guilherme, Haroldo Serra, Walden Luiz, Nirton Venâncio, Rosemberg Cariry, Valmi Paiva e de moradores de Rosário, a “Juazeiro do século XIX”, intercalados por cenas do filme de 1976. A meu ver, quem assiste ao documentário fica bem curioso de conhecer a obra original.

OM: Impressiona saber de um filme com tantos nomes cearenses de tanto valor, como Haroldo Serra, Walden Luiz, Ricardo Guilherme... E a Ana Miranda como atriz? Que achado! E mesmo assim esse desconhecimento da obra?
RN: Esquecer, Pestana, no Ceará, não é exceção, mas quase uma regra. Temos muita facilidade de esquecer. Não é à toa que a apresentação do livro é intitulada “Cine Amnésia”. Nasceu de uma provocação do pesquisador Firmino Holanda que, em entrevista ao jornal O POVO, fala sobre o desconhecimento quase geral (de crítica e de público) sobre o filme Padre Cícero e lamenta o que denomina “desleixada preservação de nossa memória audiovisual”. Pois bem decidimos criar uma coleção “Memória do Audiovisual Cearense” que estreia, justamente, com essa obra. Para quem gosta e pesquisa cinema, um prato cheio. Aliás, em tempo, na ilustração de Benício, encontramos vários atores do cinema, mas cearenses apenas Ana Miranda e o Nildo Parente, que tinham projeção nacional. Assim, na capa do livro, o ilustrador Karlson Gracie, sobre a ilustração dele, acrescentou Ricardo Guilherme, Haroldo Serra e Seny Furtado, a nosso ver, uma simbólica e merecida contribuição para esse resgate .


OM: E que hoje alguns deles são nossas maiores referências no teatro, como o Ricardo, que criou o Teatro Radical, o Haroldo que, juntamente com a Hiramisa, carrega anos de história na Comédia Cearense, e o Walden, também um dos mais prestigiados no segmento.
RN: O Marcus Miranda também participou, embora com um papel sem falas e curto, assim como José Magestik. O frei Kerginaldo Memória participou na figura do bispo dom Luiz.

OM: Você me lembrou bem. Há um casting impressionante de atores que participaram desse filme além dos nossos, os cearenses. Pode citá-los?
RN: Claro. A Embrafilme estava muito ligada a esse filme, uma superprodução, a primeira grande experiência do ciclo cinematográfico cearense. Havia o interesse de realizações audiovisuais sobre personagens históricos, num clima de nacionalismo próprio do momento político. Padre Cícero, então, pensava Helder, seria apoteótico. Para tal, havia a natural exigência da presença de grandes nomes do cinema da época, e assim foi feito. Entre eles: Jofre Soares, José Lewgoy, Dirce Migliaccio, Nildo Parente, Emmanuel Cavalcanti, Rodolfo Arena, Ana Miranda, Manfredo Colasanti, Cristina Aché, Ângela Valério, Hileana Menezes etc.

OM: Incrível imaginar todas essas pessoas, durante três meses, filmando por aqui, em Fortaleza, Caucaia, Juazeiro, Baturité, Crato, Rosário...
RN: E tão importante quanto o elenco foi a sua equipe técnica: José Medeiros, que Glauber Rocha afirmava ser “o único que sabia fazer uma luz brasileira”, Walter Carvalho, Cacá Diniz, Antônio Luiz Mendes e Walden Luiz. O Walden, inclusive, foi responsável pelo único prêmio recebido pelo filme, o de “melhor figurino”, pela Associação Paulista de Críticos de Arte.

OM: E pelo que me falou, parece que o filme não emplacou no quesito público e bilheteria.
RN: Cinema é acima de tudo o seu fazer artístico. Essa coisa de bilheteria é exigência de mercado. Aliás, um mercado que cria fakes sucessos, em todas as linguagens, afinal, para eles esses “produtos” têm que vender. Não importa se são bons ou ruins, se estiverem nas mãos de uma empresa ou de um agente com essa expertise, tentarão a todo custo enfiá-los na goela das pessoas – meros consumidores – que não têm crítica (o povo subdesenvolvido culturalmente brasileiro), e que precisam ler a assinatura da chancela para “acreditar” neles. Claro, isso aliado à inexistência da crítica isenta e com o apoio bem pago e/ou articulado de uma imprensa deslumbrada que segue sua filosofia de garantir a venda também de seu produto revista/jornal, e por aí vai. Se o seu “produto” não cair nas graças desses tubarões, você poderá até aparecer, mas vai ter que suar bem mais ou morrer clamando no deserto. No caso do Padre Cícero, penso que o problema foi a sua distribuição e a inexperiência da produtora que, sozinha, ao final, tinha que garantir pagamentos e outras responsabilidades, não tendo braços nem apoio para as devidas articulações. Mas, não há dúvida, o filme é ousado.

OM: Para concluir, Raymundo Netto, o que espera afinal do resultado desse projeto?
RN: Nós iremos divulgar esse material em alguns lançamentos que já estão previstos e outros que estão porvir. O documentário e o filme também serão veiculados, a princípio, na TV O POVO (no Canal Futura 48.1, dia 30 de junho, as 17h, o filme “Padre Cícero: os milagres de Juazeiro”), mas estamos articulando para a sua exibição pelo Canal Futura em rede nacional e na TVC. Alguns dos exemplares do livro Padre Cícero (com o pôster) e do estojo (DVD com filme de 1976 e o documentário) já estão sendo disponibilizados a acervos e casas de cinema de todo país. Enfim, fizemos ou tentamos fazer a nossa parte. Esperamos despertar em outros pesquisadores e agentes culturais esse espírito de descobrir, fazer, refazer, registrar e assegurar para as futuras gerações a preservação de nosso patrimônio artístico-cultural . Afinal, o futuro não se espera, mas se faz desde já.