segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

"A Despedida da Livraria Feira do Livro", por Raymundo Netto


A Livraria Feira do Livro, em 1956, na praça do Ferreira.

Manuel Coelho Raposo nasceu em Crateús, Ceará, em 24 de abril de 1933. Entre outras e tantas coisas, foi poeta, editor, livreiro e, acima de tudo, um revolucionário. Era aquele a quem José Alcides Pinto denominaria de “Poeta da Liberdade”. Sobre ele, escreveu Alcides Pinto: "Manoel Coelho Raposo é de uma dignidade a toda prova, e isso faz dele um intelectual raro nos dias de hoje. É que sendo um poeta genuíno e gerúndio, se identifica com o mundo e tudo que lhe cerca nessa dramática aventura de viver. Ele assume a adversidade e os perigos que por ventura cruzem seu caminho. É um homem destemido e que jamais fugiu da luta. Pelo contrário, prefere o desafio, seja ele qual for, cara a cara, frente a frente, venha de onde vier, trocando a espada pela pena, única arma que carrega como escudo e talismã em toda a sua vida. E por ser um guerreiro invicto, nada teme. A tristeza não encontra espaço em seu caminho, a presença desta é substituída pela luta de classes, a luta popular."
Sobre a sua juventude e a descoberta do livro, nos conta o próprio Manuel Coelho Raposo: "muito jovem, na pequena cidade de Crateús no sertão do Ceará, enxerguei nos livros a minha janela para o mundo, lia tudo que vinha às minhas mãos e como achava que os outros também deviam participar desse maravilhoso mundo da leitura criei uma pequena biblioteca, a qual mantinha graças a algum dinheiro apurado na venda de frutas nas ruas da cidade. De repente, achei que somente ler era pouco, tinha que escrever, que passar a outros minhas impressões sobre tão variados temas e, aí pelos dezoito anos, já participava de um concurso literário, tirando o primeiro lugar. Daí para frente nunca mais parei."
O certo é que em 1951, quando residia no Crato, ainda comerciário, participou da campanha em prol da redução da jornada de trabalho, na época chamada "Semana Inglesa”. Pelo apoio à justa campanha foi demitido: “Vá ser comunista!”. Pois bem, vendeu toda a sua biblioteca a um amigo de Cratéus e, em 1952, veio a Fortaleza, ingressando assim no Partido Comunista, o antigo “Partidão”.
Nele, foi designado para trabalhar em O Democrata, jornal do Partido. O partido teria também uma livraria e, percebendo no jovem essa paixão pelos livros, a deixou aos seus cuidados. Ali, naquela livraria, mergulhou na leitura marxista, além de acompanhar as revistas que chegavam da antiga União Soviética e da China. Assim, daqui a pouco já escreveria seus próprios artigos n’O Democrata, utilizando o pseudônimo de “Petrônio”.
Além de O Democrata, vendia o Classe Operária, Voz Operária e a revista Problemas.
Mais tarde, deixaria a livraria e passaria a vender livros de porta em porta. O primeiro livro vendido foi O Cavaleiro da Esperança, biografia poética de Luiz Carlos Prestes, escrita por Jorge Amado.
Passou a se contactar com outras editoras e a receber e comercializar mais livros. Decidiu, conselho de um amigo, criar uma livraria ambulante, isso mesmo, uma espécie de guarita sobre rodas, que transitava por toda a cidade, ficando até meia-noite na praça do Ferreira. E ali, naquele ponto, passaram a se reunir amigos, colegas e correligionários, discutindo sobre literatura e sobre socialismo, fazendo inclusive lançamentos de livros e sessões de autógrafos de autores como Jorge Amado e Jáder de Carvalho, ambos com mais de 800 exemplares vendidos numa única noite. Com esse sucesso, se empenharia para conseguir o alvará da prefeitura, e fez-se ali, em 1956, a sua livraria: a Feira do Livro.
Carismático, inteligente e idealista, cultivou grandes amigos e fregueses, se tornando um dos empresários do ramo de livros mais bem sucedido no estado do Ceará.
Conta-nos o próprio Raposo: “Assim nasceu a livraria Feira do Livro, que tornou-se, para a época e lugar, uma grande rede de livrarias nos estados do Ceará e Rio Grande do Norte. Éramos distribuidores das editoras Civilização, Vitória e São Paulo, portanto o maior distribuidor e vendedor de livros marxistas na região. Tudo isso durou de 1956 a 1964. Com o Golpe militar de 64, todo o acervo foi apreendido pelo Exército, eu fui para a cadeia e, além do prejuízo que significou o golpe para a luta do nosso povo, tivemos a irreparável perda dos livros."
De fato, em 1964, Raposo seria preso e encarcerado no 23º Batalhão de Caçadores, onde passou 33 dias. Lá ele escreveu seu poema “Treme o lado direito da rua”.
“... O silêncio / do silêncio surge a "profecia" / "toda noite tem aurora" / quebra-se o silêncio / do lado esquerdo da rua / rompe o sol no horizonte / os raios invadem o lado / esquerdo da rua / a liberdade se anuncia / treme o lado / direito da rua.”
Com o golpe e com dificuldade de continuar no ramo, mas com o coração repleto de livros, em 1968 decidiu escrever o seu primeiro livro, Cantos para o bem dizer, e, juntamente com outros artistas locais, começou a planejar o lançamento de uma revista cultural que, mais tarde, em 1975, se denominaria O Saco. A revista, que era editada por Nilto Maciel, Carlos Emílio Correia e Lima e Jackson Sampaio, chegou a ter distribuição nacional, mas, por questões financeiras, não durou muito, sendo, porém, um feito para a época.
Em 1978, ajudou a criar, em Fortaleza, a Frente Sindical dos Trabalhadores Rurais e Urbanos, uma precursora da Central Única dos Trabalhadores (CUT), também uma antecipação da fundação do PT. 
Em 1980, rompeu definitivamente com o PCB, acompanhando o posicionamento autocrítico de Luís Carlos Prestes, embora, mais tarde, criticou o próprio Prestes por não ter assumido a reorganização do Partido Comunista Brasileiro.
Em 30 de abril de 1983, publicou, pela Popular Editora, com redação e administração na rua Liberato Barroso nº 1093, o primeiro número do jornal O Popular, de ideais socialistas, que era dirigido por ele, Paulo Verlaine Coelho e Rosana Coelho Raposo Gomes, sendo redatoriado por Jader de Carvalho, Durval Aires de Menezes, Fenelon Almeida, Gervásio de Paula, Lúcio Lima, Olavo de Sampaio e Rogaciano Leite Filho. Na mesma época, imprimia e distribuía o jornal cubano Granma Internacional. O Popular, pelo mesmo motivo de O Saco, não teve muitos números.
Em 1993, diante do colapso da União Soviética e das críticas veementes ao socialismo, Raposo voltou a defender o comunismo, lançando a obra Stalinismo, reforçando o pensamento de Lenin e Stalin.
Em 2009, assumiu o conselho editorial do jornal A Nova Democracia. Mais tarde, adotando o maoísmo, trabalharia em prol da Reforma Agrária e da luta pela defesa dos direitos indígenas.
Seu camarada José de Brito, assim resume os últimos 20 anos de vida de Raposo:
“Nas duas últimas décadas lutou pela autodeterminação das nações indígenas e particularmente pela imediata demarcação das terras do povo Tapeba. No último período de sua vida lutava tenazmente pela reconstituição do Partido Comunista do Brasil, como um autêntico partido revolucionário do proletariado, e por uma revolução agrária diferente desta enganosa reforma agrária, que no essencial não passa de um corrupto negócio agrário para enriquecer os latifundiários.”
Entre seus livros, destacamos: Socialismo ou Genocídio, Golpe Soviético: a farsa do século XX, Poemas de uma Alma de Outono, Cantos de Amor e Liberdade, e o seu último Caminhos Paralelos.
No dia 10 de novembro de 2009, no Hospital de Messejana, faleceu Manuel Coelho Raposo, vítima de um parada respiratória, resultado de um enfisema pulmonar que o maltratou durante 20 anos.
Os funerais de Raposo, no dia seguinte de seu falecimento, foram realizados na funerária Alvorada. Foi um ato político com pronunciamentos de amigos e companheiros, declamação de poemas e com o canto da Internacional e outras canções revolucionárias. Seu corpo foi cremado e as cinzas, como era de sua vontade, entregue aos índios Tapebas, que realizaram uma belíssima cerimônia em sua homenagem, no dia 21 de novembro, jogando parte de suas cinzas no rio e a outra sendo enterrada junto às raízes de um novo cajueiro. Nova vida e esperança: “Terra e Liberdade!”

Texto lido durante a reunião do Clube Ponto de Leitura, realizada em 3 de dezembro de 2016, no quintal da Feira do Livro, livraria que completou 60 anos de exercício ao mesmo tempo em que cerrou as suas portas. A reunião foi um momento de abraço e gratidão à Feira do Livro e à família de Raposo, entre os quais, Mileide Flores e Jackson Sampaio, presentes no encontro.

PS: Um amigo contou sobre ele uma história humorada: Raposo resolvera casar na Igreja Católica. No dia do casamento com Maria do Carmo, a cerimônia teve de ser interrompida. Tudo corria de acordo com o manual católico até o padre perguntar se o noivo havia confessado os pecados e comungado. “Não senhor”. “Então, o senhor não pode se casar”. O ritual foi suspenso. Todos ficaram sem saber o que fazer. O padre pergunta, perplexo: “Por que o senhor não cumpriu os mandamentos?” “Porque não acredito neles”. Mais alguns minutos de agonia e o clérigo, vencido, decidiu casar o “ateu”.
Raposo mais tarde confessou que ainda havia convidado o padre para tomar umas cachaças com ele depois da cerimônia.

"O Mundo segundo Ferreira Gullar", de Raymundo Netto (2009)


Numa palavra: intraduzível.
Semiótica às favas, e com ela a “estupidez” conceitual e seus tangentes quadradismos, você perpassa por extremos que se comungam com desembaraçado misto de criatividade e lógica. A primeira, traço que, para mim, é a marca maior de sua natureza indomável, e a segunda, fruto da sua impossível busca de segurança.
Como do mar a onda que verdeja silenciosa na areia àquela que se rasga em ribombos, forte e irrefreável, nos diques, em ressaca, nos chega: a voz neutra modulada pela fala com correção em tom professoral, o castanho olhar analítico, o pensamento encadeado por reminiscências selecionadas da infância de quem era feliz e o sabia, a sensibilidade aguçada e a memória musical pulsante viva e apaixonada quase a gritar (ou a literalmente gritar).
Quando em olhar distante a acompanhar, no corredor “do café”, a fumaça sinuosa do “Carlton vermelho”, a rigorosa inquiridora e voluntariosa inquirida se abraçam, os conflitos se arraigam e se dissipam na cabeça corajosa de uma menina moleque de Noronha que desfila, magra, alta e bela, num corpo flor, ou à la fleur de la peau, de mulher. Assim como “a poesia que não respeita nada, que beija, acolhe no colo e promete incendiar o país” você vem e o tédio do dia se entorna em cor.
De tudo o quanto a comporta o coração encoberto, intenso, seletivo, quase impenetrável e só (mesmo fiel, você é sempre só, como as onças), é presente e subversiva como a boa poesia (e daí Gullar), sua certeza é perturbadora, sua doçura é envolvente, sua presença é inquietante.
“Uma parte de si é permanente, outra parte se sabe de repente. Uma parte de si é só vertigem; outra parte, linguagem.”
Impulsionada por desejo enleado em razão explícita, quando sorri o mundo inteiro delira em seu rosto. Quando acolhe, seus braços são nuvens. Quando explode, é furacão.
Dentre as coisas de todas, conhecê-la, aos poucos e sem pretensão de sabê-la inteira e toda, encanta-me, revela a visão de um mundo largo, arrebatante e original no qual ingresso, muitas vezes, na tentativa de margear a dor da obviedade institucionalizada de nosso mundinho, mesmo passeando despreocupados (e atrasados) pelos corredores quando “nos seus olhos também posso ver as vitrines lhe vendo passar”...
“Sabe, no fundo eu sou um sentimental” que fica feliz por tê-la por perto, inclassificável sobrevivente barroca, tão perto, e longe, a assistir a sua vida caminhar a passos de tango, disciplinados e de rompantes.

 “Sem música, a vida seria [e é] um erro.” (Nietzsche)


domingo, 4 de dezembro de 2016

Poesia para a Vida não ser Tão Vazia: Toques de Manoel de Barros

Manoel de Barros, por Roberto Higa
(imagem escolhida apenas porque adoro janelas)

O Apanhador de Desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Retrato do Artista Quando Coisa
A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

Os Deslimites da Palavra
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas


Manoel de Barros (Cuiabá – 19.12.1916 | Campo Grande – 13.11.2014) é certamente um dos mais originais poetas que passou por esta Terra. Autor de várias obras, entre as quais: Livro de pré-coisas (1985), O guardador das águas (1989), Concerto a céu aberto para solo de aves (1993), Ensaios fotográficos (2000), O fazedor de amanhecer (2001), Menino do mato (2010)... enfim, como não sou besta, tratei de comprar a sua obra completa. Melhor presente ainda, é você poder ler com a namorada (ou o namorado) diante do mar, em noite de lua e em paz. TENTE pôr poesia na veia!


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Rádio AlmanaCULTURA: "Todo mundo está mudando" (Everybody’s Changing), com Keane




Para ouvir a música e assistir ao vídeo, ACESSE:



Everybody’s Changing/Todo mundo está mudando

Você diz que perambula em sua própria terra,
Mas quando eu penso nisso eu não vejo como você pode.
Você está sofrendo, você está quebrado,
E eu posso ver a dor em seus olhos.
Diz que todo mundo está mudando e eu não sei por quê...

Tão pouco tempo.
Tente entender que eu estou
Tentando fazer um movimento só para continuar no jogo.
Eu tento ficar acordado e lembrar meu nome
Mas todo mundo está mudando e eu não sinto o mesmo.

Você se foi daqui.
Logo você irá desaparecer,
Sumindo em uma luz bonita
Porque todo mundo está mudando e eu não me sinto bem.

Tão pouco tempo.
Tente entender que eu estou
Tentando fazer um movimento só para continuar no jogo.
Eu tento ficar acordado e lembrar meu nome,
Mas todo mundo está mudando e eu não sinto o mesmo.
Oh, todo mundo está mudando e eu não sinto o mesmo.

Tão pouco tempo.
Tente entender que eu estou
Tentando fazer um movimento só para continuar no jogo.
Eu tento ficar acordado e lembrar meu nome,
Mas todo mundo está mudando e eu não sinto o mesmo.



"Pacote de Textos", clube de assinatura de livros, CONHEÇA!


Uma dica para quem curte clubes de assinaturas de livros é um produto cearense criado e executado pelo escritor e amigo Rafael Caneca: o Pacote de Textos: um pacote. uma surpresa.
A iniciativa teve início em julho de 2016 e funciona da seguinte forma: a cada mês o assinante recebe em sua casa ou endereço solicitado UM título, que pode ser de qualquer gênero, de qualquer nacionalidade (mas sempre em português) ou de qualquer época (clássico ou contemporâneo).
O LIVRO DO MÊS é uma surpresa, pois não é divulgado previamente, mas não é a ÚNICA. O assinante, com seu kit-pacote receberá: (1) carta personalizada (justificando o porquê da escolha do título, uma espécie de bate-papo e resenha), (2) um marcador de página e (3) um brinde temático.
Desde julho, alguns dos títulos enviados para seus leitores-assinantes foram: “A Metamorfose”, de Kafka, “A Morte de Ivan Ilitch”, de Tolstoi, “Todos os Fogos o Fogo de Júlio Cortázar, e “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto.
E mais: você pode fazer essa assinatura para você, como também você pode presenteá-la a alguém que esteja se inserindo no circuito de leituras ou que você tenha interesse de incentivá-la para tal. Não é uma ótima ideia, um valioso presente?
Valioso? Ops, aí você me pergunta quanto custa para fazer essa assinatura? O melhor é que esse INVESTIMENTO é do preço de um sanduíche (por vezes até mais barato...):
1. Para quem mora em Fortaleza, o valor é de R$ 29,90 mensais, que devem ser pagos até o dia 5 de cada mês, para que, até, no máximo, o dia 15 do mesmo mês, o assinante possa receber o seu kit daquela edição;
2. Para moradores dos demais estados/municípios brasileiros, o valor é de R$ 35,90 mensais, já incluído o custo do envio pelos Correios.

Detalhe: O pagamento pode ser feito via PagSeguro no site da página Pacote de Textos: pacotedetextos.wordpress.com
Tenha mais informações acessando a própria página ou na página do Facebook, no e-mail e no contato a seguir:
(85) 98819.8643 (Rafael Caneca – também WApp)

Esse PACOTE, eu recomendo!

"Tudo é narrativa: Verlaine e seu fantasma", de Tércia Montenegro para o blogue da Cia das Letras

Detalhe do quadro de Henri Fantin-Latour com Paul Verlaine e Arthur Rimbaud.
Em janeiro passado eu estava em Mons, na Bélgica. Minha visita foi especialmente motivada pela exposição em cartaz no museu de Belas Artes (BAM) sobre Rimbaud e Verlaine. Este último poeta ficara preso na cidade durante os anos de 1873 e 1875, acusado por haver atirado no seu jovem amante, Arthur Rimbaud. O período no cárcere lhe inspirou ótimos textos; talvez por isso, Mons jamais se tornou um lugar de tristes associações, e um dos meus prazeres (nada mórbido) foi caminhar pelas ruas lendo os versos, colados nos muros ou pintados no chão, dos poemas feitos por Verlaine naquela época.
A exposição, porém, trouxe um conflito que ainda persegue meus pensamentos. Até onde a biografia de um artista deve ser exposta, exibida como matéria de interesse para a compreensão da obra? A mostra não poderia ter sido mais completa em fortuna literária e iconográfica: pelas salas do BAM, o visitante encontrava estímulo didático, estético, lúdico… Mas também (e esta é a questão) um certo fetichismo. De que outra maneira eu catalogaria a atenção aguda com que vários senhores fitavam as páginas de um processo criminal, em folhas amareladas, dentro de vitrines? A letra do juiz acusava Paul Verlaine de sodomia e tentativa de assassinato – e as palavras polêmicas faziam os óculos dos senhores escorregarem, com maior voracidade do que aplicavam diante dos originais na minúscula grafia do poeta preso.
O ponto máximo – inclusive pelo destaque físico – foi conferido ao revólver. Dentro de uma redoma alta, incrustada numa parede pintada de vermelho, víamos a autêntica arma da qual saíram as balas que atingiram Rimbaud, não fatalmente, como sabemos. O objeto, assim posto, parecia resumir toda a vida impetuosa de Verlaine, os seus tormentos e excessos. Diante dele, os visitantes passavam em completo silêncio, lentamente contemplando o revólver como se ele fosse uma relíquia, um tesouro resgatado das profundezas.
Aquele símbolo, que tão ostensivamente associava o desregramento à genialidade, para mim fez a exposição derrapar no sensacionalismo. Nunca aceitei crimes ou atos insanos enquanto sintomas de talento. Qualquer pessoa – seja ou não especialmente inteligente ou dotada – pode sofrer de descontroles. O problema é quando estes passam a ser celebrados como gesto essencial para a arte: uma justificativa que endossa a velha aliança entre criatividade e loucura. Óbvio que cada obra é produto de um ser individualíssimo, impregnado por cada uma das suas circunstâncias, mas (aqui entra de novo o tal conflito) em que medida a posteridade, a crítica ou qualquer sujeito alheio àquela existência pode manipular seu trajeto íntimo?
Se a vida parece seguir um percurso narrativo – embora cheio de sinuosidades (e várias surrealidades, para alguns eleitos) –, quero defender que as biografias permaneçam histórias secretas, pelo menos na sua maior medida. Não se trata apenas de um pudor como resguardo ao mistério (elemento que, confesso, sempre me fascina), mas sobretudo da certeza de uma impossibilidade na execução da pesquisa. Uma vida não pode ser contada. Pode ser inventada ou interpretada a partir de certos episódios – mas estes não bastam. Os ingênuos acreditam que a intimidade autoral pode ser devassada e que, fazendo isso, tem-se uma melhor ou mais profunda interpretação da arte. Para os demais, conhecer uma biografia equivale ao prazer construído pela ficção: imagine esta época, faça de conta que conhece esta pessoa, finja que penetra nos seus sentimentos etc.
Se alguns dados biográficos são essenciais como âncoras de compreensão de um texto, eles não podem – da mesma forma que as âncoras – impedir o livre navegar. O revólver no BAM (para aproveitar o trocadilho) teve o disparo mutilador de um resumo. Foi tão impactante a sua presença, que ameaçou reduzir dois poetas a um único evento. É a esse sentido restritivo – escolhendo o supérfluo como máscara que ofusca a riqueza – que me oponho. O caminho da vida é muito mais rico. É também filosoficamente inviável de ser comunicado por inteiro, mas isso não se torna desculpa para que simplifiquemos o processo de investigar ou obtenhamos saciedade através de um rótulo.
Verlaine e Rimbaud serão, como indivíduos, para sempre inacessíveis a mim e meus contemporâneos. A proximidade ocorre por meio de seus personagens, suas figuras históricas construídas, em parte por fatos cronológicos, em parte por suposições e fantasias. Verlaine virou um fantasma, tanto quanto Dom Quixote, Raíssa Mikháilovna ou Alberto Caeiro, por exemplo. É um tipo de ancestral, de quem distingo as feições (descritas ou fotografadas) e os relatos. Por mergulhar em suas ideias e palavras, posso cultivar a ilusão de conhecê-lo – mas no fundo não esqueço que o tempo nos distanciou definitivamente. Jamais apertarei sua mão, saberei a forma com que seu sorriso crescia no rosto ou poderei observá-lo de costas, enquanto caminha. Realizou-se o que ele afinal previu nos versos de Lettre:
“Si bien qu’enfin, mon corps faisant place à mon âme,
Je deviendrai fantôme à mon tour aussi, moi,
Et qu’alors, et parmi le lamentable émoi
Des enlacements vains et des désirs sans nombre,
Mon ombre se fondra pour jamais en votre ombre.”

Enquanto leitores, estejamos satisfeitos por meramente alcançar esta fusão de sombras.

Tércia Montenegro é escritora, autora do romance Turismo para Cegos, entre outros (Companhia das Letras, 2015).

sábado, 26 de novembro de 2016

"Vida Linda de Morrer!", crônica de Raymundo Netto para O POVO


A dona Morte estava triste. Tirante uns diligentes suicidas – muitos deles querem se matar, mas não querem morrer –, era mesmo a indesejada das gentes.
Há zilhanos, desde que o mundo é mundo vasto mundo, transitava ela por aqui, sempre à espera do instante solene de sua existência. Sim, existência, porque vida mesmo ela não continha. Seria quase uma condição sine qua non para ela, declinar de qualquer estertor de vidas, não se apegar a nenhuma delas, ser no mundo a grande cultora de cascas vazias. Assim, pensava-se, fora ela criada e experimentada na mais suprema incompreensão, sem possibilidade sequer de curtir seus frios seguidores e sem nunca se permitir prazer nenhum. Afinal, o prazer, assim como a alegria e o amor, dizem, é condição de vida. Entretanto, no nada absoluto do mundo, mantinha ela um segredo: morrera de amores uma única vez na vida. Fora pelo poeta Dante, que conseguira convencê-la, numa promessa de Vita Nova, que o amor seria o prelúdio da morte, estratagema depois revelado para aproximar-se da sua amada Beatrice. Daí, sepultou de vez todas as afeições e o seu coração traído com Dante foi-se. E a foice com Dante.
É raro que as pessoas dediquem seu tempo – de vida, porque o tempo da morte é o silêncio – em aprender a morrer. Já dizia Sêneca, o moço desafeto de Messalina, “quem não souber morrer bem, terá vivido mal”.
Aliás, a dona Vida, sua irmã, ao contrário, vivia em regalos, quase uma parteira, celebrada e lembrada em festejos, desejada e aplaudida por todos em sopros de velinhas e de línguas de sogra, estampada em camisetas de feira e panos de prato. Sucesso de público e de crítica – mais dessa segunda, pois criticar a vida alheia é quase um exercício, sabido que a língua é um músculo.
A pobre dona Morte, não negava, colhia invejas da irmã. Com os pés calejados de tanto acompanhar despojos, sem qualidade de vida ou autoestima, vista com temor e desconfiança – há quem diga que é ilusão, uma espécie de “black-fraude” –, a Morte naquele dia rebelou-se. Plantou o pé e bradou ao infinito: “Nem morta!” E nós sabemos que juramento de morte sempre foi coisa que deu certo – ou muito errado – por aqui.

O fato é que durante esse tempo, o sofrimento do mundo aumentou. Ora, a imortalidade é um inferno! Foi quando ela percebeu que, mesmo contra a sua vontade, sua presença inda seria sentida por todos. Pessoas sofriam a perda de amores, de amigos, de afetos, das horas e de outros bem-quereres na distração eterna de todos os dias. Sim, ela seria o que há de mais presente e definitivo na rotina mundana. Pôs-se a sentir na carne a dor mortal dos corações feridos a suspirar diante de porta-retratos, de reflexos em espelhos, do convite para o café que não chegou, na audição daquela música da juventude, no ecoar das gargalhadas daqueles filhos, agora adultos, que não moram mais ali. Perder é a morte em prestações. A Vida, chama breve, uma sala de estar das tintas pálidas da Morte, servindo-lhe aos poucos – às vezes, aos montes. O que fica é a dor. E a dor que não passa nunca se chama saudade, e como sussurrou em seu ouvido o cronista, é na morte onde ela mora! Foi quando a Morte despertou e se viu, em essência, tão igual a todos os mortais, no vagar aprendiz do cortejo a caminho da solidão.


sábado, 12 de novembro de 2016

"I Diálogos com o Feminino", GRATUITO e IMPERDÍVEL (17 a 19 de novembro)


Clique na imagem para ampliar!

I Diálogos com o Feminino*,
da Sociedade Cearense de Ginecologia e Obstetrícia (Socego)
Programação GRATUITA e sem necessidade de INSCRIÇÃO!
Data: 17 a 19 de novembro de 2016
Local: Faculdade de Medicina Christus – Sala 5
(rua João Adolfo Gurgel, 133, Cocó)
Mais Informações: (85) 4011.1575
Programação COMPLETA

(*) O I Diálogos com o Feminino integra a programação do XXIX Congresso Nordestino de Ginecologia e Obstetrícia e IV Congresso Cearense de Ginecologia e Obstetrícia, sendo aberto e gratuito a tod@s @s interessad@s.

Exposições Fotográficas Permanentes (17 a 19 de novembro):
·         “Florescer”, de Roberta Martins, um olhar artístico sobre o parto humanizado.
·         “Sereias”, de Fernanda Oliveira, o universo das mulheres trabalhadoras do mar.
17/11 – Quinta (Sala 5)
14 às 16h:
Cine-Materno: “O Começo da Vida” – com análise ecomentários de Bernadete Porto (pedagoga e professora da UFC) e Álvaro Leite (médico e professor da UFC). O Começo da Vida é um filme de Estela Renner.
SINOPSE: Uma análise aprofundada e um retrato apaixonado sobre os primeiros mil dias de um recém-nascido, o verdadeiro começo da vida de um ser humano, tempo considerado crucial pós-nascimento para o desenvolvimento saudável da criança, tanto na infância quanto na vida adulta, onde os pais precisam ter o maior cuidado, amor e carinho possível. O filme nos convida a refletir juntos, enquanto sociedade: será que estamos cuidando bem deste momento único da vida que determina tanto o presente quanto o futuro da humanidade?
16 às 17h:
Atividade Banco de Cordão Umbilical (BCU)
Diálogo sobre aleitamento materno –Thalita Cavalcante (enfermeira)
Coleta de cordão umbilical – Fabrício Martins(médico)
Mesa Redonda: “Redes Sociais e o universo do parto humanizado” – como debatedoras: Monique Lima(doula, fisioterapeuta, PHC), Krys Rodrigues (doula, psicóloga, PHC), Roberta Martins (doula e fotógrafa de partos, autora da exposição “Florescer”, em cartaz durante o Congresso) e Emily Gama (videomaker de partos).
18/11 – Sexta (Sala 5)
8 às 11h:
Sessão Pública do Comitê de Mortalidade Materna do Estado do Ceará
(1) apresentação do último boletim epidemiológico das mortes fetais, maternas e infantis do estado do Ceará; (2) apresentação do consolidado trimestral das macrorregionais.
11 às 12h:
Roda de diálogo sobre a feminização da infecção por HIV – como debatedoras: Iolanda Santos (assistente social, educadora, facilitadora de grupos, profissional da área de saúde pública com foco na prevenção DST/Aids/HIV, gênero, saúde sexual e reprodutiva e prevenção de violência) eKitah Soares (filósofa, astróloga, psicopedagoga, educadora e facilitadora de grupos).
14 às 16h:
Filme-provocação: “Olmo e a Gaivota” – com análise ecomentários de Beatriz Furtado, professora do curso de Cinema da UFC. Olmo e a Gaivota é o premiado filme de Petra Costa e Serge Nicolai.
SINOPSE: Uma travessia pelo labirinto da mente de uma mulher, O Olmo e a Gaivota conta a história de Olivia, atriz que se prepara para encenar A Gaivota, de Tchekov. Quando o espetáculo começa a tomar forma, Olivia e seu companheiro Serge, que se conheceram no Théâtre du Soleil, descobrem que ela está grávida.
16 às 17h:
Bate-Papo e Lançamento: “O Instante-Quase” – com participação de Juliana Diniz, autora do livro de contos O Instante-Quase (editora 7 Letras), professora do curso de Direito da UFC e mãe de gêmeos.
SINOPSE da Obra: Doze nomes, doze mulheres, doze histórias: a prosa certeira de Juliana Diniz nos envolve a cada conto de O instante-quase, revelando um olhar feminino ao mesmo tempo múltiplo e singular, pelas lentes de cada uma de suas protagonistas. Com amplo domínio da língua e das técnicas narrativas, Juliana é uma autora estreante que escreve como veterana – alternando o foco entre narrador e personagem, valendo-se de cartas, diálogos ou confissões para expor variados pontos de vista, e sempre conduzindo com maestria o leitor até a conclusão, muitas vezes inesperada (da Editora).
O livro estará disponível para venda e autógrafos no local.
17 às 19h:
Mesa Redonda: “Ser mulher na cidade” – como debatedoras: Silvania de Deus (designer de moda e coordenadora do grupo de artesãs que confeccionou a bolsa adotada para o Congresso), Fernanda Oliveira (professora de fotografia, autora da exposição fotográfica “Sereias”, em cartaz durante o Congresso), Jamile Menezes (estudante de medicina, em relato sobre sua experiência do ser mulher no curso) e Valéria Pinheiro (planejadora urbana, pesquisadora e militante do direito à cidade).
19/11 – Sábado (Sala 5)
8 às 10h:
Filme-provocação: “No Limite do Silêncio” – comanálise e comentários de Priscila Campos, fundadora e psicóloga na empresa CASULO (Centro de Apoio ao Sujeito no Luto). No Limite do Silêncio, de Tom McLoughlin.
SINOPSE: Psiquiatra fica arrasado quando seu filho adolescente se suicida, fato que provoca a sua separação. Três anos depois, ele não mais consulta, até ser provocado a acompanhar um caso que o surpreende e pode mudar o rumo de sua vida e profissão. Uma travessia de contornos complexos e psicológicos.
10 às 12h:
Mesa Redonda: “As mulheres, a depressão e a prevenção do suicídio” – Projeção do filme "Elena", de Petra Costa – como debatedoras: Priscila Campos(psicóloga), Mirela Hipólito (psicanalista, professora do curso de Psicologia da Unichristus), um(a) representante do Centro de Valorização da Vida (CVV) e um(a) representante do Projeto de Apoio a Vida (Pravida).
19/11 – Sábado (Auditório principal) - programação paralela à Sala 5, excepcionalmente no Auditório, juntamente com os demais participantes do Congresso Nordestino de Ginecologia e Obstetrícia.
8h – 8h40: Conferência: “Os direitos humanos das mulheres” - com Marinina Gruska.
8h40 – 9h30: Conferência Magna: “Os médicos não temem o sangue, por que temem falar de sexo?” - com Ricardo Cavalcanti.
10h – 10h30: Conferência: “Gênero, saúde e cidadania” - com Aline Veras Brilhante.
10h30 – 12h: Fórum: “Enfrentamento à Violência contra a mulher” - Organização da rede de assistência à mulher vítima de violência nos serviços de saúde (Léa Dias) | Violência obstétrica (Liduina Rocha) | Bioética e assistência obstétrica (Humberto Chaves)

Promoção e Realização
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo)
Associação Cearense de Ginecologia e Obstetrícia 

Apoio
Cooperativas de Ginecologistas e Obstetras do Ceará

Unichristus: Centro Universitário Christus