sábado, 10 de fevereiro de 2018

"Em Louvor a Jáder de Carvalho", por Bruno Paulino

Jáder de Carvalho, por Audifax Rios, para O Canto Novo da Raça

O escritor, poeta, político e jornalista Jáder de Carvalho é um dos maiores nome da história da literatura cearense, seu poema “Terra Bárbara”, indispensavelmente evocado quando se pensa e discute a identidade do povo do Ceará é a síntese de um sertão que não existe mais, e que, no entanto permanece vivo em muitas marcas e símbolos.
Jáder de Carvalho era quixadaense, nasceu na Serra do Estevão em 1901, e mudou-se para Fortaleza em 1915, no ano da grande seca que inspirou o romance de Rachel de Queiroz. Jornalista combativo, fundou o jornal A Esquerda, depois foi preso por 364 dias durante o Estado Novo (1943) implantado por Getúlio Vargas. Logo que conseguiu liberdade fundou o jornal Diário do Povo (1947). Esse período é estudado pelo historiador João Alfredo Montenegro no livro Jáder de Carvalho e o Diário do Povo (2011).
Hoje em dia muitos dos livros que publicou precisam ser reeditados. Dos seus romances apenas Aldeota consegue ser encontrado com certa facilidade em sebos e livrarias. De vasta produção poética, é apontado como um dos precursores do modernismo nas letras cearenses, com a publicação em 1927 do livro Canto Novo da Raça, em parceria com Franklin Nascimento, Sidney Netto e Mozart Firmeza. Porém o poema que mais gosto de Jáder de Carvalho, e que parece ser também um dos que o próprio poeta mais gostava, é de outra safra, e trata-se de “Em Louvor de Quixeramobim”, na qual a voz daquele que confessadamente foi “um menino lírico” consegue misturar seus sentimentos e impressões ainda vivos da infância com personagens e passagens da história da cidade:

“Não quero gravata. Não me tragam o relógio de pulso. Quero o gibão, quero as perneiras. Quero o chapéu de couro. Quem vai a Quixeramobim não é o professor, o bacharel, o jornalista Jáder de Carvalho.
Quem vai é o neto de vaqueiro, o menino que não esqueceu o pátio das fazendas.
Quem vai é o rapaz que, longe do mato, longe do Banabuiú, punha o ouvido na areia da capital e ouvia (ah, como ele ouvia!) o tropel de certo poldro ‘Andorinha’.
O mugido da vaca ‘Esperança’.
Quixeramobim, fala do coronel Jucá!
Fala de Antônio Conselheiro!
Conta-me a história do infeliz Luciano e da famosa Joana Batista Barreira! (Aqui no ouvido, Quixeramobim: Estavas no juízo, quando no papel, destronasse o imperador Pedro I e, de uma pernada só, derrubaste a dinastia de bragantina e proclamasse a república em 24)
Olha, no chão, que os teus gados pisam com ternura andou o pé revolucionário do meu bisavô João Aires de Olival.
Rapazinho, vindo do sertão para o Liceu, não vi nada de novo nos teus rios, nas tuas serras, nos teus campos. Tudo era conhecido velho. Até a cruz, gravada na pedra, perto do trem, me pareceu familiar. Eu não vira a todos, com antecipação de quase um século, pelos olhos de João? Às vezes, pego a pena e me sinto o padre Mororó, Às vezes, de pálpebras fechadas, sou um vaqueiro de Muxuré. Às vezes, ardo em rancor: limpo então o bacamarte, selo o cavalo, sou um Maciel a quem tomaram a terra. Um Maciel a quem mataram um parente. Ah, Quixeramobim, eu adivinho poesia, Até na vida dos teus ladrões de gado! Até na vida dos teus escravos! Até no adultério das senhoras das casas grandes! Até na sentença de morte dos teus primeiros jurados! Até nos despachos – ásperos e rápidos despachos – do juiz leigo, meu parente capitão Antonio Duarte de Queirós! Até na tosse dos tísicos que te procuram!
Chegou a hora, outra vez chegou a hora de pôr o ouvido no chão da capital: lá vem o tropel do podtro ‘Andorinha!’. Lá vem os aboios dos vaqueiros do Muxuré e do Logradouro, Lá vem a súplica do matador de Luciano ao pelotão de fuzilamento:
– Meus amigos, eu só peço que não me deixem sofrer!
Lá vem mais perto o poldro ‘Andorinha!’, Meninas, tragam o meu gibão! Tragam as perneiras! Tragam as esporas! Tragam o meu chapéu de couro! É assim eu vou a Quixeramobim.”

Sobre o poema acima transcrito, o próprio Jáder Carvalho comentou depois o seguinte: "[...] eu amo esse poema por dois motivos: porque ele saiu do sertão, saiu da minha alma e foi ouvido pela primeira vez em Quixeramobim numa festa centenária do município, em que esse poema foi lido na rádio para todos os quixeramobienses que se encontravam na cidade. É um poema consequentemente que tem sua razão de ser, preso a minha vida, está preso à história do Ceará e que está dentro da emoção do poeta, emoção que nunca morreu em mim"
Pois bem: a poesia da história se tece e Jáder de Carvalho vive em poesia!

Bruno Paulino, escritor




segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

"Amor para Toda uma Vida", de Raymundo Netto para O POVO



“Não e Não! Nem viesse! Só se entregaria ali com a garantia de casar no papel!”
Ela, enconchada em uma cama de motel – visão digna de Boticelli –, cobria o pelo com lençol branco e higienizado quando lançou no ar de espelhos o bombástico decreto.
O namorado, ainda que surpreso, não se abalou. Levantou-se rapidamente, descartou de um cardápio de cabeceira uma folha de papel e lançou-a no carpete com a delicadeza quase solene de um Romeu. Daí, extraiu a moça dos lençóis ainda frios para juntos se postarem nus por sobre aquele mísero espaço A4 de vida e anunciou: “Se é assim, pronto: agora estamos casados no papel!” Ela enlouqueceu. Ele enlouqueceu com ela. E era tanta loucura que se podia prever dali uma demência eterna, sem precedentes na desumana história da humanidade, desde que Adão atentou contra a maçã da Eva.
Porém, tempos depois, quem os visse, assim durante o dia, diria que eram de uma incompatibilidade medonha: o leite e a manga, a chuva e a fogueira, a fome e a dor de barriga! Não concordavam absolutamente em nada. O casal parecia compartilhar de um amor quase danação, a devorar o ânimo um do outro numa gula feroz de quem ataca um prato de brigadeiro.
Para piorar, além da sociedade conjugal, determinaram a profissional, o que os mantinham 24 horas numa rinha penosa e inclemente.
Nas reuniões de trabalho, poderiam estar diante de dezenas de pessoas, funcionários, fornecedores, clientes e, no entanto, parecia que estavam sempre a sós, na intimidade de seus bate-bocas. O volume da voz de um excedia à do outro com uma segurança de um tenor. Não se viam em beijos, mas a troca de salivas era uma constante.
Com os filhos não era diferente. Discordavam de tudo quanto, perturbando-lhes o juízo e as epífises. Na escola, eram vistos como sonolentos, apáticos, dispostos apenas a não aprender nada que lhes fosse ensinado.
Os casais de amigos, aos poucos, constrangidos com a companhia desvairada do casal, distanciaram-se. De positivo mesmo, é que qualquer casal que conseguisse conviver ao seu lado, mesmo os mais desapaixonados, logo se sentiam em lua de mel. Diante deles, até a sangrenta Batalha de Stalingrado parecia brincadeira de carimba!
E nos aniversários? Despertavam aos beijos de hálito adormecido, como em trégua, mas logo um queria impor ao outro como se daria tal comemoração: “Aniversariante não tem opinião!” Dali, a promoção, talvez, do mais humilhante dia de suas vidas, o desdém a cada detalhe, além de o bolo sempre trazer o sabor preferido do patrocinador da vez.
E por aqui poderíamos encerrar esse enredo que justifica ser o matrimônio a maior causa do divórcio, não fosse sabermos que, à noite, naquela casa, era enlouquecedora a tentativa de dormir dos filhos, criados, visitas e até de vizinhos, mediante a violência de balidos e súplicas, de pregões de feira a dança de tamancos, a eclodir daquele aposento nupcial, a esgotar-se apenas no raiar da manhã, entre heréticas faíscas que se espremiam entre as brechas das portas e janelas, revelando o mais autêntico, escandaloso e nunca-acabável amor.



sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

"O Tempo Passa Depressa Demais", de Ana Miranda



Tic tac tic tac cada segundo que passa tic tac tic está perdido... versos que escrevi na infância, lembra? Eu já sentia que o tempo passa e não tem jeito, passa, e está perdido.
Acho que escrevi estes versinhos depois de ler o romance O tempo e o vento, de Érico Veríssimo. Ele dizia que o tempo custa a passar quando a pessoa espera, principalmente quando venta. Mas é só uma miragem.
Na verdade, o tempo sempre passa depressa demais, e é breve a nossa vida. E jogamos tanto tempo fora, Ah eu podia ter feito isto e não fiz, ah eu podia não ter feito aquilo, e fiz, Ah como perdi meu tempo!
Aproveitar o tempo é uma arte difícil. Exige atenção, controle de si, disciplina, e é preciso aprendermos uma espécie de arte da escolha. Isto sim, isto não, isto talvez...
As delícias do mundo são amigas do tempo, e inimigas de quem quer fazer alguma coisa em sua vida. Tantas ofertas, tantas obrigações, tantas responsabilidades... Perdemos tanto tempo com mundanismos que queremos e não queremos!
Quem não prefere passear na praia, tomar um vinho com amigos, ou uma boa mesa de conversas, e outros prazeres? Melhor do que enfrentar uma página em branco, ou uma decisão complicada, ou um olhar sobre si mesmo.
O tempo passa depressa demais e a cada dia passa mais e mais depressa, quanto mais temos memórias, menos prestamos atenção ao momento, e nos perdemos nos rios de lembranças e nas gavetas das recordações, e nas janelas abertas para o amanhã. E assim, não vemos o dia passar.
Vemos apenas o tempo que já passou. Tic tac e se foi. Temos um relógio de cuco em nossa mente. Quando o passarinho canta, canta o tempo que passou. Adeus, dia. Mas o tempo da vida não pode ser medido nos relógios.
Acreditamos no amanhã. E o amanhã se torna ontem. O tempo passou e nem percebemos, quando nos damos conta, o dia já se foi, e nem sabemos quanto tempo ainda temos. Vamos entrar em 2018! Quando eu era mocinha e queria dizer que algo estava tão longe que talvez jamais acontecesse, dizia: Só no ano 2000.
Ainda bem que existe o tempo literário. No tempo literário, nem sempre as coisas acontecem na ordem do tempo ou do espaço. Leio a última página hoje, amanhã releio o começo do livro: tudo recomeçou.
O maravilhoso escritor argentino e universal, Jorge Luís Borges, escreveu uma narrativa em que mostra os descendentes de Kafka. Só que muitos desses descendentes, escritores com uma literatura intensamente kafkiana, viveram séculos antes de Kafka. Mas se tornaram descendentes de Kafka pela força da sombria atmosfera kafkiana.
Isso quer significar: eu posso ser neta de meus netos ou avó de meus avós. Uma outra contagem de tempo, não cronológica. O tempo da vida não se passa nos relógios tic tac tic tac... Mágica.
Também nosso pensamento não se passa cronologicamente e somos, mesmo, capazes de mudar a ordem dos fatos em nossa memória. O que aconteceu antes passa a acontecer depois.
“O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolida pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto (Clarice, no romance Um sopro de vida).
Mas, como viver muitos minutos num só minuto? Tenho um plano para aproveitar o tempo: todos os dias, preciso realizar algo, seja uma página escrita, um desenho, ou a resolução de um problema. Modesto consolo, pequena ilusão.
“Cada tic tac é um segundo da vida que passa, foge, e não se repete. E há nele tanta intensidade, tanto interesse, que o problema é só sabê-lo viver. Que cada um o resolva como puder”. Palavras da artista Frida Kahlo, um quase poema, parecido com o meu, porém, mais vivido.
O tempo resolve! Dizia meu pai, quando aparecia um problema que ninguém conseguia resolver. O tempo vai resolver! O tempo passa, mas tudo pode ser inesquecível. E a lembrança recolhe o tempo, o tempo retorna, e não passa mais.




"Salve o Triste Pendão da Esperança", de Pedro Salgueiro



Parafraseando John Fante: 2017 foi um ano terrível! A economia saiu do eixo, depois de mais de uma década sob controle; a situação política, então, nem se fala – as frágeis máscaras de nossa recente democracia caem a cada dia: alianças pregadas com cuspe derretem ao mínimo “bafo”; sobram lamas e detritos pelos riachos desse pobre projeto de país. Poucos escapam deste lado e do outro do balcão de negócios que se tornou a “república-das-bananas”. Eleitores aos borbotões apontam o indicador para os políticos, esquecendo-se dos outros três dedões voltados pra si (e o “mata-piolho” cruelmente cravado pra Deus). O “Golpe Branco” dado pelas velhíssimas oligarquias políticas e judiciárias está em plena execução. Velhos fantasmas teimam em sair dos armários: moralismos baratos, vinganças sociais, soluções radicalmente fáceis; aves de rapina disfarçadas de pássaros exóticos espreitam seus imensos bicos tortos, sentindo já bem perto o cheiro do sangue, cutucam a onça com suas garras sujas.
Nasci em pleno golpe militar de 1964, na falsa ordem dos porões velados; bem disfarçados em figurinhas de generais, poetas e educadores distribuídos pelas escolas; eu mesmo colecionei muitas de Costa e Silva, Geisel, criminosamente misturados com Castro Alves e Marechal Rondon; trocávamos, ainda bem, pelas de Jairzinho, Gerson, Tostão e Pelé, que eram mais valiosas para a molecada que já rolava a bola “canarinho” (mas nela injetávamos óleo queimado para que ficasse pesada e parecendo com a “dente de leite”, que só os mais abastados podiam comprar) pelos muitos campinhos da cidade.
As comemorações do Dia da Bandeira, da Proclamação da República e, principalmente, do movimentado 7 de Setembro eram sempre muito esperadas pela meninada; a plateia agitando bandeirinhas, os soldados do Tiro de Guerra de Crateús fazendo malabarismos, manobras e demonstrações arrojadas: nós, os menores, sonhando em sair da rabeira da fila e ir para frente, lugar sempre destinado aos mais altos e bonitos; já quem tinha alguma habilidade disputava lugar na “banda”, que orgulhosamente ostentavam seus instrumentos pelas ruas principais.
Somente nos tempos de estudante em Fortaleza foi que essa imagem idílica da minha infância foi sendo desconstruída, vieram as primeiras leituras sugeridas pelos novos amigos – recordo bem de Cartas da Prisão e Batismo de Sangue, do Frei Betto, A Ilha, de Fernando Morais, dentre outros; apenas na universidade é que essas leituras mais políticas foram dando lugar à paixão pela literatura, desde o apaixonante Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, ao Cem Anos de Solidão, recém lançado por Gabriel García Márquez...
De todas essas memórias, verdadeiras e falsas, da meninice, coladas e (felizmente) despregadas depois, ficou um gosto meio (e perigosamente) dúbio pela falsa ordem, pelo moralismo barato, pelo discurso nacionalista, que sobem das pernas, passando pelo intestino, escorregam estômago acima, inflam o peito, mas que, felizmente, rebatem no cérebro, que tenta, coitado, nem sempre com êxito, desconstruir todos esses perigosos mitos da infância.




segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

"Despudorada", de Raymundo Netto para O POVO


“Não é possível isso. Que desaforo!”. Sacudia veemente o sonolento marido que dormia como se aquela fora a sua última noite. “Está ouvindo não, Queiroz? Os gritos dessa devassa, imoral, fingida?”
Jandira estava com os nervos e ouvidos tomados pelos ais, uis e outras exclamações libidinosas da namorada do vizinho de prédio: “Quer aparecer, só pode. E ele, se esqueceu de que aqui mora família? Quer sem-vergonhice, vai para um motel!”
Queiroz, mais para lá do que para cá, amainava: “Deixa, criatura... Que é que tu tens com isso?”
Logo cedo, ela já compartilharia com as vizinhas a sua indignação. Algumas haviam ouvido, mas pensavam ser assalto, estupro ou outra costumeirice da rotina urbana. Mas não, era pior, era safadeza pura: “Uma afronta. Vamos deixar barato, meninas, vamos?”
Entretanto, como também da rotina, ninguém fez nada, resumindo-se à delícia da fofoca gratuita: “Criar confusão com vizinho? Deus me livre... Vai que, né?”
Tadeu, agora um afamado fornicador, passava pelo hall e corredores do condomínio inocente como um querubim, distribuindo respeitosos bons-dias sem desconfiar dos comentários belicosos: “Hummm... Você ouviu também? Será que ele é tão bom assim? Não tem quem diga...” “Essas coisas não têm cara, não. Homem é tudo sem-vergonha. E vai que essa mulherzinha é biscateira...”
Jandira, não conseguindo o apoio que esperava, tomaria as suas providências. À noite, grudou-se à janela e pôs-se a alardear gemidos, palavreados dos mais cabeludos e outras promiscuidades próprias do amor ardente de botequim. Queiroz estranhou: “Minha filha, o que é isso? Endoidou de vez? O povo quer dormir!”
“Quero saber, não”, asseverou, “ele gosta de grito, pois tome grito!” E continuou a berradeira desatada, a não poder mais, batendo pratos, chutando parede, lançando tamancos no guarda-roupa, numa zoada capaz de acordar o diabo: “Vai, Queiroz... Meu amor, ai, ai, ai... Sou tua, toda tua! Que homem...ahhhh”
Pela manhã, toda a vizinhança vinha falar com Jandira: “Aquela indecência não podia ser.” Afinal, a emenda saía pior do que o soneto: “Vocês não me ajudaram, então aguentem!”
Às noites seguintes, a vizinhança pediria ajuda na portaria, para o síndico, pediria à ONU, mas nada fazia calar a mulher que, frustrava-se, pois até então só não havia recebido queixas do Tadeu. Logo ele, o principal alvo.
Dias depois, um fato curioso se deu: não dormindo, diante do alvoroço lascivo e insistente de Jandira, os casais passaram a sentir despertar em si um calorzinho esquecido de alcova nupcial. Com pouco, uma nova gemedeira, pouco a pouco, corria assanhada e em coro pelo condomínio.
Jandira, em algum momento, até pensou ter conseguido, finalmente, adesão à sua causa, o que a fazia estranhar o silêncio e a ausência das vizinhas nas manhãs seguintes. Quando inevitável o encontro, elas passavam depressa, desviando ou baixando a cabeça na tentativa de disfarçar sorrisinhos contidos.  Ela não recebia mais visitas nem telefonemas. Quando batia nas portas, sentia que os vizinhos se calavam, como se não houvesse ninguém em casa. Fechavam-lhe as janelas: “Talvez tivesse ido longe demais”, pensava a mulher.
Queiroz, naqueles dias, não conseguindo dormir, entocava-se todas as noites na casa da mãe. Naquele dia, porém, danada de solidão, Jandira trancou a porta da sala: “Hoje, você não sai. Não ouse botar os pés fora dessa casa!” Dito isso, jogou-se toda por sobre o marido, não lhe deixando tempo nem de pensar, tascando-lhe um beijo de juventude, penetrando as unhas de porcelana, nunca mais encontradas, nas sobejas carnes do marido. Com pouco, era ela a gritar estardalhante e violentamente, em pleno deleite e felicidade, quebrando o braço da cadeira, o vaso da mesa de apoio, desimplantando o incisivo de Queiroz, enquanto ouviam pela janela a vizinhança: “Dááá-lhe, Queiroz!!!”



segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Ensaio: "A casa que via muito além da estrada", de Maria Bevenuta Sales de Andrade


De acordo com Marisa Martins Gama-Khalil (2009, p. 64), para a literatura fantástica, “o espaço desempenha uma função fundamental: a de ser o elemento instigador da ambientação fantástica”, de modo que as espacialidades passam a figurar, dentro do fazer artístico, como gatilho desencadeador dos efeitos fantásticos. Por essa diretriz, encontramos uma confluência entre essa assertiva e a colocação de Claudia Barbieri (2009, p. 105, grifo nosso), de que: “A construção espacial da narrativa deixa de ser passiva [...] e passa a ser um agente ativo: o espaço, o lugar como um articulador da história”. Assim, fundamentado por esses pressupostos, nosso trabalho tem por objetivo discutir o protagonismo espacial no conto “A casa vista da estrada”, do autor cearense Luís Marcos da Silva (2011).
O enredo é construído a partir da relação de um homem e uma casa que, possivelmente, fora recebida de herança de seus avós; é interessante pontuar o fato de a personagem ter duas formas de interação com a casa, sendo uma pelo expediente da vigília, quando apenas observa a distância: “Observou a casa lá do alto, soberba, e pensou que ela devia ter sido ainda mais no tempo dos seus avós” (SILVA, 2011, p. 419); e a outra no modo onírico, quando alcança os espaços internos do imóvel: “A sala era ampla e ele estava posicionado no centro da mesma. [...] Seu sono é interrompido abruptamente [...]” (SILVA, 2011, p. 419). Embora por duas perspectivas distintas, a impressão que a personagem tem da casa parece convergir para uma única leitura, a de que essa não é uma habitação comum. Tal discrepância com a normatividade pode ser aferida pela adjetivação empregada, pois, tratando-se de uma casa soberba, essa característica a coloca em plano superior, há uma elevação não explicada. Ademais, há ainda a suposição de ela ter sido mais altiva no passado, sem que seja revelada a motivação para essa hipótese, se por sua localização, sua dimensão ou uma causa secreta.
Quanto ao segundo tipo de interação, é digno de atenção o fato de a personagem estar no centro de uma sala ampla. Tal posicionamento sugere que o domínio, tanto do espaço quanto do sujeito, pertence a casa, ela é, proporcionalmente, superior e envolve a personagem, impõe limites, ou seja, a espacialidade é dominada pela casa, o homem está e é em função dela. Desse modo, o espaço torna-se um articulador de posicionamentos e age nas instâncias do ser e do estar, determinando comportamento e entendimento. A espacialidade é, portanto, um “conjunto de indicações – concretas ou abstratas – que constitui um sistema variável de relações” (SANTOS; OLIVEIRA, 2001, p. 67). Sendo assim, compreendido enquanto sistema relacional, o espaço funciona para o fantástico como contraponto no estabelecimento da ruptura com o cotidiano. É pelas espacialidades ocupadas e suas indicações que determinado fenômeno ganha a dimensão da incompatibilidade, da inadequação com o cotidiano reconhecido. De tal maneira, o domínio exercido pela casa é a condição para a existência do fantástico no conto, isto é, o tratamento dispensado ao espaço torna-se fundamental para que a incompatibilidade com o naturalmente possível se estabeleça.  
Vale ressaltar que nesses dois níveis de contato percebe-se um misto de fascínio e resistência em relação à propriedade. No campo da observação fica claro que o homem, embora tendo se recusado a visitar a casa, pois “Havia sempre algo que o sobressaltava” (SILVA, 2011, p. 419), não consegue ignorar sua existência e segue fazendo incursões aos arredores para, de alguma forma, estabelecer contato com a edificação. Essa aproximação acontece em um movimento crescente e a cada nova inspeção ele se depara com uma versão alterada dessa construção indecifrável. Assim, no primeiro contato ele apenas dá “voltas pelas cercanias”, depois “por outro ângulo, fica observando a casa” (SILVA, 2011, p. 419). Na sequência, “um pouco mais de perto ele observa a casa mais uma vez” e, por último, “de ângulo mais alto fitava a casa” (SILVA, 2011, p. 420).
A casa vai atraindo o seu observador e esse enleio se intensifica a cada passo dado em sua direção. Tal ênfase fica evidente tanto pelo advérbio de intensidade quanto pelos indicativos de acercamento contidos nas posições adotadas em relação a casa: mais perto e mais alto. Existe, portanto, uma força dominante que alicia o homem, poderes que se agigantam contra sua vontade, conduzindo-o para o lugar do desejo e, ambiguamente, de sua negação. De acordo com Filipe Furtado (1980), a manifestação fantástica será sempre superior à personagem que, por sua vez, adotará uma postura subalterna diante do fenômeno, ou seja, no modo fantástico o acontecimento é privilegiado em detrimento da ação da personagem.
No campo onírico é acrescido a esse duo, desejo/resistência, um novo sentimento que vai avultando em tamanho e efeito. Em termos de episódio, a personagem, que passa a transitar pelo interior da casa, se vê diante de um negro que traz um baú cheio de vermes e ouro, no segundo sonho o mesmo negro reaparece, agora trazendo “um pombo branco ensanguentado entre os dentes” (SILVA, 2011, p. 420) e, na última narrativa, é surpreendido com “uma cabeça humana decepada” (SILVA, 2011, p. 420) que cai sobre ele. Experienciar esses fatos causa uma visível perturbação e esta se traduz pela condição em que o homem desperta, sempre molhado de suor, indicando o desconforto provocado pelo sonho: “Novamente ele acorda atordoado” (SILVA, 2011, p. 420). Sendo assim, proporcionalmente à bizarrice da cena cresce a aflição do testemunho e diminui a distância entre ele e a memória do espaço; há, pelo alarme, uma espécie de familiarização, uma integração do homem em relação a casa. É importante sublinhar que tanto o movimento de retorno, ação predominante no expediente de vigília, quanto à presença no interior da casa, uma constante no nível onírico, são realizações determinadas pelo espaço. É a casa quem delibera sobre as ações, as reações e os sentimentos presentes na narrativa, de modo a tornar-se protagonista da história. São, pois, as impressões causadas por esse espaço o motivo norteador de todos os episódios, sejam eles acontecidos dentro ou fora das suas delimitações.
Aqui fica evidenciada a existência de duas dimensões, bem como o seu ponto de encontro. Sobre essa condição fronteiriça, Remo Ceserani (2006, p. 73) diz que a “passagem de limite, por exemplo, da dimensão da realidade para a do sonho, do pesadelo [...]” é uma opção estética frequente nas narrativas fantásticas. Ainda segundo o autor, dentro desses dois espaços a personagem se depara com códigos distintos para se orientar e tentar compreender os acontecimentos que o envolvem. No caso do conto em análise, há uma dupla ruptura de fronteiras feita em pares opositores: desperto/adormecido e ignorância/conhecimento. Em cada um desses estados são apresentadas pistas ao homem que o vão direcionando para mais perto das possíveis verdades da casa e é assim que, enquanto acordado, ele mantém contato com pessoas que parecem saber sobre a edificação, mas essas informações são fragmentadas, desconexas e incapazes de formar um desenho elucidativo do imóvel e sua história. Na verdade, a regularidade dessa mensagem acontece, embora ainda envolta em certo grau de opacidade, no viés onírico da narrativa e é, justamente, depois do último sonho que se formaliza uma contação obedecendo uma linha de causalidade e coerência. Dessa maneira, surge um emparelhamento improvável, pois estar acordado mantém sua ignorância ao passo que adormecido os fatos fazem mais sentido, já que há uma espécie de continuidade narrativa a partir da retomada de elementos. Os fatos são apresentados no sonho; ademais, é por esse meandro inusitado que o homem entra na edificação e pode integrar o seu cenário, presenciando aquilo que compõe a essência da casa.
É válido pontuar que é a casa quem domina os espaços de tensão do texto, esteja a personagem no campo da vigília ou no estado onírico, toda a movimentação é determinada pela existência dessa construção. Ela se mantém imperiosa e ao homem resta seguir, qual marionete, os chamados dessa espacialidade antropomorfizada que impera nos dois domínios. Por essa constituição incomum, a casa pode ser vista como a representação de um espaço descontínuo, aquele que rompe com o reconhecível pela razão, uma irrupção do desconhecido no meio do mundo cotidiano (VAX, 1960). Além disso, merece atenção a organização estética do texto, a opção por intercalar os níveis sugere o passar do tempo e assim, interpolando dia e noite, reitera a ideia de que a casa é uma constante na vida do homem, ela domina seus pensamentos e sonhos. Há, portanto, uma espécie de retorno temporal pelo sonho, de modo que a personagem consegue resgatar os acontecimentos e rompe com a causalidade racional. Essa ruptura promove um tipo de reversibilidade que impõe o estranhamento para a ordem das coisas. Dessa maneira, a casa exerce ascendência também sobre o tempo que, embora siga uma linha crescente, é para o todo da narrativa uma categoria reversível, condição utilizada pelo modo fantástico para ampliar a contradição das certezas pretendidas (VAX, 1960).  
Há, ainda, que se ressaltar as participações dos interlocutores existentes no texto: o negro, o menino com o bode, a velha senhora com o cachorro e uma jovem mulher; todos eles, de alguma maneira, estão interessados ou têm conhecimento sobre a propriedade. O negro, que só aparece no sonho, traz sempre uma mensagem cifrada e, em termos gerais, dialética pelos elementos conflitantes apresentados. No primeiro sonho ele mostra um baú cheio de ouro e vermes; segundo Jean Chevaliere e Alain Gheerbrant (2007), enquanto o ouro é visto como símbolo de perfeição, iluminação e conhecimento, os vermes são, quando encontrados em sonho, interpretados como intrusos indesejáveis. Há, assim, um tipo de negação imbrincada na invalidação de sentidos: ao homem são, simultaneamente, oferecidas e negadas informações sobre a casa, essa que se estabelece como mistério. Para Filipe Furtado (1980) o espaço casa tem aparecido como uma das escolhas mais frequentes para a fenomenologia do fantástico e, nesse caso específico, ela passa a ser o próprio fenômeno de ruptura dentro da legalidade cotidiana. Quanto ao segundo contato com o negro, neste ele traz um pombo branco ensanguentado. Aqui, o que seria a alegoria da pureza e da simplicidade surge maculada e a nulidade de sua significação se concretiza pelo adjetivo ensanguentado. É uma morte figurada das expectativas, pois todas as promessas de acesso vão sendo suspensas ao passo que se apresentam. Esses dois encontros acontecem, conforme já mencionado, nos domínios do onírico e, por conseguinte, em uma ambientação noturna, o que indica a predominância de uma linguagem específica do inconsciente, em contrapartida aos demais diálogos da narrativa, onde prevalece a linguagem do dia, ou seja, a linguagem da racionalidade. Essa oposição entre claro e escuro, dia e noite é muito recorrente no modo fantástico, bem como o duelo entre realidade e abstração (CESERANI, 2006).
Desperto, o homem encontra primeiro com um garoto que “tange um bode grande com uma enorme cabeça preta e uma mancha branca em todo o dorso” (SILVA, 2011, p. 419). Esse menino pergunta sobre uma possível transação de venda da propriedade e o homem diz ainda não haver pensado nisso. Novamente uma colocação inusual vem alargar o mistério que envolve a casa; essa indagação pode ser interpretada por dois vieses, um o de que há alguém tentando alertar o homem sobre possíveis problemas advindos da posse da casa ou, seguindo outra vertente, um artifício para afastá-lo do lugar e garantir a intocabilidade do espaço. Pois bem, a pergunta do garoto tanto pode ser um esforço para proteger o homem da casa quanto o contrário, proteger a casa do homem. Somado a essa dualidade vem o desaparecimento repentino da criança: “De repente uma lufada de vento levanta uma imensa nuvem de poeira, e, quando ele se recupera do susto, o garoto e o animal já têm desaparecido” (SILVA, 2011, p. 419). Aqui tem início um jogo de aparições e desaparecimentos repentinos que terá continuidade com a figura de uma “velha senhora trazendo consigo um cachorro de raça indefinida” (SILVA, 2011, p. 420). Usando extremos da vida, um garoto e uma velha, o narrador estabelece a ideia de circularidade, isto é, a obsessão e o domínio da casa não terão fim. De acordo com Louis Vax (1960), “o fantástico se nutre do escândalo da razão”[1] e é justamente esse inesperado que suscita a descontinuidade da ordem, é o surgimento e sumiço desses interlocutores a ferramenta que desencadeia a inquietude por levantar suspeita sobre a procedência dessas personagens. A esse respeito David Roas (2014, p. 59) diz que a transgressão provocada pelo modo fantástico gera inquietude diante da possibilidade “de que o irreal pode irromper no real”. Sendo assim, são os movimentos do garoto e da velha senhora que promovem o estranhamento, pois, além disso, não há nada de sobrenatural no garoto nem na anciã.
Para o último encontro foi reservada a participação de uma jovem que, metaforicamente, poderia ser entendida como uma alusão ao tempo presente. Tal referência encontra respaldo na comparação com os dois outros interlocutores: o garoto e a velha senhora. Ademais, é com a participação dessa figura que o narrador localiza o tempo dos acontecimentos em um passado indeterminado e o tempo da narrativa no momento em que escreve os fatos: “Ele sorriu, ela apenas arqueou as sobrancelhas e, sem demora, relatou o que escrevo-lhes agora” (SILVA, 2011, p. 420). Vale destacar o embaralhamento temporal predominante no conto, condição que dilata a opacidade e, por conseguinte, dificulta a identificação tanto do tempo da narração quanto da narrativa, isto é, o tempo em que se situa o narrador da história e o tempo da história. Parece haver uma construção temporal em encaixes, reforçando a ideia de rompimento de fronteiras já mencionada anteriormente. Assim, o quesito temporalidade é, mais uma vez, usado em favor do rompimento com a norma, é esse esfacelamento da periodicidade, elemento tão caro ao cotidiano, uma das escolhas estéticas afiançadoras do fenômeno fantástico verificado no texto em análise.
Cada um desses encontros acontece em um ângulo de visão diferente da casa, indicando o fracionamento da focalização, ou ainda, a impossibilidade de erigir uma totalidade espacial, dificultando, assim, uma explicação que responda à normalidade estabelecida e reconhecida pelo cotidiano. Além disso, essas reuniões são sempre um movimento de negação que se estabelece na oposição formada entre as marcas caracterizadoras dos seus participantes ou do espaço-temporal em que esses contatos acontecem. Essas assimetrias são mais um aspecto demarcador para o afastamento imposto pela casa, conforme se observa nos blocos do preto e branco do cachorro, nas marcas temporais dia e noite, nos espaços de atuação que se apresentam em duas dimensões: a primeira assinalada pelos cenários internos e externos da casa e pelas instâncias sonho e realidade. Em todos esses duos é possível verificarmos traços de desarmonia e, por consequência, incompletude assegurando a ambivalência do texto que, esteticamente, se estrutura de forma dialética.  
Outro aspecto relevante envolvendo esses interlocutores é a inserção de informações sobre o espaço e seu suposto passado. Como exemplo destacamos o relato transcrito pelo narrador, onde uma jovem reconta uma cena já referida por outra personagem, relacionada a uma tentativa de compra dessa propriedade por um homem misterioso, porém com detalhes diversos. Há, portanto, uma espécie de legendário em torno da existência dessa casa, a formação de um passado que funciona como “[...] memórias de pedra, depositárias de segredos sombrios que fazem nascer uma concepção antropomorfa do local [...]” (CAMARANI, 2014, p. 127). É esse espaço personificado que atua como agente da ação dentro do conto; é, pois, na ruptura com a passividade do tradicional – contextualização e cenário –, que surge o protagonismo da casa vista da estrada.  

Maria Bevenuta Sales de Andrade
Universidade Estadual do Rio Grande do Norte/
Fundação de Apoio à Pesquisa do Rio Grande do Norte


REFERÊNCIAS

BARBIERE, Cláudia. Arquitetura literária: sobre a composição do espaço narrativo. In: FILHO, O. B. BARBOSA, S. (orgs.). Poéticas do espaço literário. São Carlos-SP: Editora Claraluz, 2009.
CAMARANI, Ana Luiza Silva.  A literatura fantástica: caminhos teóricos. São Paulo: Cultura acadêmica, 2014.
CESERANI, Remo. O fantástico. Tradução de Nilton Cezar Tridapalli. Curitiba: Ed. UFPR, 2006.
CHEVALIER, J. GHEERBRANT, A. [et al]. Tradução de Vera da Costa e Silva [et al]. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.
FURTADO, Filipe. A construção do fantástico na narrativa. Lisboa: Livros Horizonte, 1980.
Gama-Khalil, Maria Martins. Espacialidades geradoras da ambientação fantástica em A invenção do Morel. In: FILHO, Ozíris Borges; BARBOSA, Sidney (Orgs.) Poéticas do espaço literário. São Carlos, SP: Editora Claraluz, 2009.
SILVA, Luis Marcos da. A casa vista da estrada In: SALGUEIRO, Pedro (org) O cravo roxo do diabo: o conto fantástico do Ceará. Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2011.
SANTOS, Luis Alberto Brandão; OLIVEIRA, Silvana Pessoa de. Sujeito, tempo e espaços ficcionais: introdução à teoria da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
VAX, Louis. Arte y literatura fantásticas. Traducción de Juan Merino.  Argentina: EUDEBA, 1965.




[1] No original: “el fantástico se nutre del escándalo de la razón” (VAX, 1960, p. 29). 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

"Natal bem Simples", de Ana Miranda


Guardo lindas lembranças dos natais de minha infância, em Fortaleza. Nossa árvore era um pinheiro natural, alta, ainda mais aos olhos de uma menininha. Tenho até hoje uma lata com adornos dos natais de minha infância, delicadas peças embrulhadas em papel de seda.
Talvez eu as tenha guardado por sua extrema fragilidade, são quase películas de vidro em forma de alaúde, sino, rosa, estrela... O mais surpreendente e belo da árvore eram uns apliques de metal presos nas pontas dos galhos, como pequenos candelabros com uma base de flor que suportava velinhas brancas acesas, todas elas, antes da ceia, de uma em uma.
Era preciso apagar as luzes da sala para vermos a árvore com sua luz tremulante, mais poética do que as mimosas lampadinhas de hoje. Lembro de alguns presentes, claro, porém ainda mais do momento em que o embrulho ia sendo aberto e o brinquedo revelado!
O Natal cristão é medieval, foi o ato de um papa que desejava cristianizar, em vez de oprimir os ritos dos pagãos, ou os cultos solares comemorados pelos romanos, pelos celtas, pelos germânicos, em que se ofereciam sacrifícios propiciatórios e se suplicava pelo retorno da luz.
Os nossos símbolos natalinos são ecléticos: a árvore, dizem ser luterana, mas também egípcia, e ainda, romana, quando se dependuravam máscaras de Baco em pinheiros nas festas a Saturno. Papai Noel é um desenho de cartunista americano, mas a partir da tradição de um arcebispo na Turquia, são Nicolau, que jogava um saco com moedas de ouro pela chaminé de quem estivesse em dificuldades financeiras, em particular três órfãs de um homem pobre.
Os cartões com mensagens de paz e felicidades são invenção de ingleses do século 19. A data vem de quando povos antigos comemoravam o solstício do inverno e o nascimento do deus Mitra, em 25 de dezembro. O Menino Jesus não nasceu nessa data, que foi preferida num processo de sincretismo.
As clássicas imagens de Madonas com filho já existiam antes do nascimento de Jesus. As velas são de origem pagã. As guirlandas à porta adornavam lugares de adoração pré-cristã. As comidas, das mais variadas origens.
As leituras folclóricas, como as nossas pastorinhas, são imaginativas. Mesmo o presépio, criado por são Francisco de Assis, único símbolo verdadeiramente inspirado nos Evangelhos, tem alguma ambiguidade, pois a presença do boi e dos carneiros é registro de evangelhos apócrifos. A natureza real da estrela de Belém continua motivo de debates entre biblistas.
E os magos não eram reis, mas sacerdotes astrólogos zoroastristas, conselheiros de reis, vindos da Babilônia, Pérsia e Arábia, e os nomes, Gaspar, Melchior e Baltazar, constam apenas em evangelhos apócrifos. Talvez essa amplidão de significados seja a grande força do Natal, hoje comemorado não apenas por cristãos, mas por pessoas de outras crenças, ou descrenças. O Natal deixou de ser um ritual religioso para se tornar uma festa da família, de aproximação familiar.
Os natais mais bonitos de minha vida adulta foram os de frei Betto. Durante anos, comemoramos juntos essa festa, que ele tratou de espiritualizar. Mandava com antecedência as receitas, as instruções, os textos, as músicas. Chegava cedo, ele mesmo cozinhava, nós em volta ajudando a descascar batatas, lavar alfaces ou cortar cebolas.
Minha irmã, cantora, ensaiava músicas com as crianças, vozes de comover qualquer coração de pedra. Na sala arranjávamos uma mesa com toalha branca, um pão e um cálice com vinho, apenas. As crianças cantavam com suas vozes puras e irradiadas. O texto escolhido por frei Betto era lido, frase por frase, pelas pessoas em torno da mesa.
Depois cada uma dizia uma palavrinha, se quisesse. E cada uma comia do pão e tomava do vinho. Ao final, era posta uma mesa com alguns pratos, sem excessos. Presentes, somente para as crianças. A simplicidade era o nosso luxo.
Íamos em seguida levar presentes e alimentos para o porteiro, para as pessoas que estavam trabalhando naquela noite de festa, distantes de sua família.
Feliz Natal para todos!


sábado, 30 de dezembro de 2017

"2018: 130 anos de Demócrito Rocha", de Raymundo Netto para O POVO


“(...) É no jornal que o povo encontra o seu pão espiritual de cada dia. O jornal descortina-lhe o mundo, vencendo distâncias. [...] Quando o povo geme escravo, entorpecido pelas algemas do cativeiro, indiferente à violência paralisante do grilhão, o jornal é o sangue novo, forte e generoso a nutrir-lhe as células dormentes, a despertar-lhe os neurônios amortecidos, a ondear-lhe, nas veias, a torrente vigorosa e enérgica da revolta. O povo precisa de mais gritos que o estimulem, de mais vozes que lhe falem ao sentimento. Eis porque surgimos...”
Esse é um fragmento do primeiro editorial d’ O POVO, o jornal mais antigo e o único diário em exercício no Ceará, publicado em 7 de janeiro de 1928, ou seja, há 90 anos. Foi escrito pelo seu criador, o jornalista, telegrafista, odontólogo e poeta baiano Demócrito Rocha (1888-1943), que, em 2018, se vivo fosse, celebraria 130 anos.
Quem conhece um pouco da história do Ceará sabe que é impossível se passar pelas décadas de 10 a 40 do século XX sem tocar em seu nome. Na década de 20, em especial, por meio de suas “Notas”, era, em um tempo sem rádio, TV ou internet, a legítima voz do povo que acolhera em seu coração, razão pela qual teria sido, na época, covardemente surrado e humilhado em praça pública por 12 policiais armados a mando do governador.
Daí, fundaria o periódico na marra, por atrevimento, com pouquíssimos recursos e quase nenhuma condição, movido pelo sonho de edificar o jornal que ele queria, mais justo, livre e independente, inovando o fazer da imprensa desde então.
Com início num sobradinho da praça dos Leões, um gregário Demócrito criava campanhas, concursos, promoções, poemas, lia caligrafias, atraía intelectuais e escritores, idealizava projetos musicais na recente rádio PRE-9, elaborava estratégias comerciais, participava de reuniões artísticas, políticas e sociais de toda natureza. Durante algum tempo, exerceu concomitantemente as carreiras de dentista e de professor da Faculdade de Odontologia – do qual também foi defensor – para ajudar a pagar a folha do jornal e manter a sua família: a esposa Creuza e as filhas Albanisa e Lúcia.
Assim, com muita resiliência – e forte dose de teimosia e idealismo – conseguiu sobreviver à quebra da bolsa de Nova York, logo no ano seguinte, além de duas grandes guerras mundiais, às censuras e golpes de estado e a todas as crises nacionais e internacionais que elevavam os preços dos insumos e equipamentos, entre os quais, o imprescindível papel.
O POVO, ele sabia, seria amado e odiado, aclamado e perseguido, de modo que habilmente pressentia quando reagir e/ou quando recuar, tudo ao seu tempo, e nada mais natural para uma folha que trazia entre seus princípios a democracia. Princípio esse que Demócrito levou às tribunas quando deputado federal, até ser deposto durante a ditadura Vargas. Idealista, Demócrito não visava ao poder, morrendo sem nunca ter tido uma casa própria ou publicado um único livro seu, ao tempo que publicava e promovia os de outros talentos locais.
Entendo que o jornal O POVO, aos 90 anos, não é a sua diretoria, assim como também não é apenas o seu corpo funcional, menos ainda o edifício que o acolhe. Corre nele a seiva de Demócrito Rocha e de todos os seus sucessores: Creuza do Carmo Rocha, Paulo Sarasate, Albanisa Sarasate, Demócrito Rocha Dummar e, hoje, Luciana Dummar. Vai mais além, trazendo nessa artéria aberta o espírito de todos aqueles que por essa escola passaram um dia. De personalidades reconhecidas a pessoas comuns que encontramos nas ruas, nos bares, nas igrejas, nas praças e que, ao saberem que fazemos parte do O POVO, nos relatam histórias suas ou de parentes e amigos que ali escreveram ou trabalharam, ou mesmo as de assinantes históricos e de matérias que os impactaram. Já conheci jornalistas, editores, gráficos e até ex-gazeteiros que se recordam do som das pesadas máquinas ou das campainhas que indicavam a hora de distribuir o vespertino.
O jornal de Demócrito, acessível em grande audiência pelos impressos, celulares, tablets, computadores, rádio e TV, é presente em 90 anos de história de todos os dias e em todos os segmentos, fazendo as contas para além do calendário, significando e revelando muito mais do que podemos ver, ler, ouvir ou tocar. E, tudo isso, acredite, a partir de um sonho.


sábado, 9 de dezembro de 2017

"Sonho que não se Sonha Só"*, de Raymundo Netto para O POVO


Ela passa ao lado de um botequim de mercado, um daqueles cheirando à gordura, a caldo de cana e a suor farto de carregadores, agricultores, caminhoneiros. Vinha com sede, muita sede. Cria coragem, entra e pede um copo de água.
Diante de olhares lascivos ao seu colo branco de estudante, toma à mão o copo americano, limpa o bordo com a ponta dos dedos compridos e o leva à boca vermelha. Enquanto bebe, vê a imagem dele no fundo do copo. A imagem também a reconhece e a abraça com saudade plena. Juntos, de mãos dadas, saem do botequim, sem se importar com o mundo ao redor, mesmo se havia mundo, e caminham se expressando apenas por sentimentos.
Assim, atravessam a cidade. As casas e edifícios se curvam ao seu rastro, deitando telhas e segredos nas ruas e por cima de seus moradores de calçada. No meio do caminho, um portal os devora. Lá dentro, descobrem o teto marchetado em cristais coloridos e espelhados. Olhando para cima, eles se veem, se encontram e se encantam de novo. Ele, subitamente, sente sua mão reclamar uma dor. Ela se preocupa. Toma a mão dele e a coloca entre as suas, quentes e febris: “Vou tirar essa dor de você... para sempre.” Então, como se o mundo fosse de vidro e o tempo coubesse num único ponteiro, eles trocam olhares, se emprestam e se amam.
Depois, ela diz ter que ir embora, não lembra o porquê, mas se fazia hora: “Eu vou esquecer você.” Pede um táxi, que logo chega, todo envolto em néon. Ela acena um beijo para o amante. É quando percebe o rosto embaçado, como uma digital. Entra e senta na poltrona de trás, pois aquela ao lado do motorista está ocupada por uma pessoa morta, coberta por um lençol, com quem o motorista conversa.
No meio do caminho, sem lhe perguntar, o táxi toma outro destino. Ela chama pelo motorista, mas ele só tem ouvidos para o morto. Param em uma travessa e o taxista começa a gritar com ela: “Saia do meu carro! Saia, vamos, e não me procure mais!”
Apavorada, desce e escorre pela primeira porta. Ali, encontra quatro mulheres negras e mudas, cobertas de sal, expostas em uma vitrine escura. Por detrás dela, surge um homem, arranca a sua roupa, cobre de sal o seu corpo e a coloca na vitrine junto com as outras. 
Dias-há, o silêncio e o incômodo de uma luz intensa e amarela sobre elas. Então, não se lembra como nem quando, quebram o vidro e todas saem correndo confusas e peladas pelas ruas desertas.
Ela chega a um hotel, sendo recebida pela gerente a falar por um idioma estranho – que mais parecia desenho – a recender no ar. A anfitriã pega-lhe pela mão, a deita em uma banheira de louça transbordando lágrimas, esponja seu corpo demoradamente, penteia as ondas de seus cabelos e a veste um robe de celofane revestido de estrelas. Ela, quase adormecida, fita e pergunta ao espelho: “E ele?” – “Ainda está aqui, em seu quarto.” – Seu coração distraído exulta: “Preciso vê-lo agora!”
Sem sentir o chão em que pisa, acompanha a gerente por desvãos escuros, úmidos e cheio de escadas. Nas paredes, o papel ressoa o som de asas coloridas por borboletas. Entretanto, à porta do aposento, enquanto a mulher bate, ela prevê: “Não é ele quem está por trás dessa porta, mas a esposa dele. É ela!” Começa a chorar... e a rir... a puxar os cabelos por trás do pescoço comprido. Sente uma intensa dor nos olhos e esfrega-os. Eles descem pelo dorso de suas mãos e ela se vê completamente cega.
Tem sede, pede um copo de água. Olha para o fundo e não vê mais nada: “Ela o esqueceu? Mas se o esqueceu, por que ainda de tanta sede?”
Sai do botequim e traz a imagem do morto envolto em lençol pelo resto de seus dias. 


(*) escrito a partir de uma narração de sonho que ouvi.