segunda-feira, 27 de março de 2017

"Sertão de Todos Nós", de Pedro Salgueiro para O POVO


Fui, sou e serei, para sempre, apenas um sertanejo exilado no litoral. Nada aqui me diz respeito, por aqui tudo é transitório, passageiro... Apenas espero a triste hora do alegre regresso.
Aos trinta, por puro esnobismo, comprei gaiola na última linha do oceano. Cuidadosamente de costas pro mar, pra que toda manhã pudesse desdenhar meu asco de pequeno-burguês físico mas nunca mental. De lá pra cá andejo em linha reta rumo aos Inhamuns.
Aos quarenta, atravessei a fronteira imaginária da 13 de Maio, linha simbólica de todas as Fortalezas. Em sentido contrário aos tolos, tontos suburbanos mentais.
Meu voo é de avoante ferida, com tiro de chumbo nas c’roas do rio Acaraú, nas quebradas do Riacho do Gado, por trás da Barra da Oiticica, de lado da Caconha de todos os loucos.
Pois em cada quarto de qualquer família pulula um doidinho de testa quadrada, encarnado de sangue da abelha Capuchu... Enquanto o Diabo, rosianamente, redemoinha no terreiro.
Gracilianamente seco, corre meu sangue pelas veredas pedreguentas do Carão. Do outro braço, o direito, o sangue das tristes Oliveiras, dos tontos bons da Curimatã, do Jumentão da Maravilha.
Apenas quando se estende pelas estradas do Canindé, as palavras vão escasseando, até quase sumirem da voz. Água evaporando na língua morna de todos os nós. De marejado apenas os olhos, único órgão úmido do sertanejo que volta.
Sou filho, pelos dois lados, da primeira geração que saiu do campo, que desbravou a cidadezinha no pé da Serra das Matas. Não sou filho de matuto urbano, mas de matuto dos matos, de pés rachados na urina do lajedo quente.
Meu pássaro é o Camiranga de beira de caminho, comedor de Cassaco e Tejubina de grota.
Meu ouvido é de rabeca triste cantada por cego em final de feira.
Minha casinha é branca, de parede grossa, luzindo na sombra de uma Jurema imaginária.
Mesmo longe de nosso chão, formamos confrarias de quase surdos-mudos.
Apenas olhamos para o nascente a perscrutar chuva.
E quando ela vier, é certo que vem, virá sempre!, um dia. Já nos encontrará de mãos trêmulas e mala pronta.


sexta-feira, 24 de março de 2017

"História Secreta de um Livro", de Milton Hatoum


Era um dos livros raros na tenda de um “bouquiniste” à margem do Sena. Em dois ou três sábados gelados daquele inverno distante, passei por lá para admirar as gravuras e a tipografia da edição de 1874. Em fevereiro, o livro sumiu.
Um outro fetiche parisiense era ficar na calçada de um pequeno restaurante da rive gauche e observar a comida fumegante, como se eu estivesse do lado de fora de um aquário aquecido; mas a fome pelo livro raro era mais voraz. Eu o havia lido numa reles edição de bolso, mais barata que um crepe na rue des Écoles, ali ao lado da Sorbonne Nouvelle; ou um croque-monsieur em qualquer padaria do décimo-segundo distrito, onde eu morava.
Um dia, depois de dar uma aula particular num subúrbio rico de Paris, vi meu vizinho brasileiro da rue d´Aligre sair do edifício com um livro apertado contra o peito. Parecia a edição de 1874, que imantava sonhos e desejos. Perguntei se o havia comprado num bouquiniste. Negou com uma expressão confusa e disse: Este livro tem uma história. Eu ia dizer que todo livro tinha uma história, mas o vizinho, esquivo, encerrou a conversa.
Numa noite de março – lembro que nevara nesse sábado e Paris estava branca e triste –, entrei num café do Faubourg Saint-Antoine e vi meu vizinho apoiado no balcão, lendo anotações numa caderneta. Sem mais nem menos, me convidou pra tomar um conhaque no seu “lar”. Eu, que morava num lugar apertado, me surpreendi com esse “lar”: uma ironia ou um eufemismo radical.
Ele dormia num quartinho com uma latrina, que a herança do orientalismo francês chamava de banheiro turco. As quatro paredes pareciam febris e suarentas de tanta nostalgia, e uma lâmpada solitária no teto iluminava as noites mais escuras da alma do expatriado.
Paris, para ele, era mais sombra que luz? Foi o que eu me indaguei ao observar o aposento opressivo. Me ofereceu conhaque, depois se serviu e entornou meio copo, sedento. Sentamos no carpete puído, nós dois cercados de jornais e revistas franceses. O livro raro estava sobre uma mesinha encostada a uma parede cheia de fotografias de amigos. Ele falou um pouco de cada um deles; por fim, movido pelo conhaque, contou com elã a história do livro. Impossível resumir numa crônica essa narrativa de êxtase.
Saí de lá às seis da manhã do domingo, e só tornei a revê-lo numa tarde de abril, quando as árvores esverdeavam, floridas. Ele parecia possuído pela alegria de um viajante que volta para casa. Ajudei-o a carregar uma sacola de lona até o metrô da Bastilha, de onde iria a Châtelet e depois ao aeroporto. Na despedida, perguntei se a sacola estava cheia de pedras parisienses.
“Jornais e revistas”, respondeu. “Selecionei mais de cem exemplares do Le Monde, Figaro e Libération e duas dúzias da Nouvelle Revue Française. É a minha bagagem. Tenho pouca roupa, nenhum objeto. Aquele livro está guardado num estojo, dentro desta maletinha... É o meu amuleto”.
Ri dessa loucura, e ele, talvez por contaminação, ou para não chorar de sua miséria, também riu. Esse rosto risonho no subterrâneo da Bastilha foi a última visão do meu vizinho.
O rosto dele foi borrado pelo tempo, mas não a história do livro. Trinta e cinco anos depois, minha editora francesa me enviou um pacote. O remetente era o ex- vizinho, e o endereço, parisiense: rua Charles Baudelaire, ali perto da rue d´Aligre. No fundo, voltara ao mesmo lugar.
Numa longa carta, rememorou nosso encontro de 1981 e agradeceu mais uma vez minha ajuda naquela tarde de abril. Recontou a história do livro raro, acrescentando detalhes e omitindo alguns, que eu recordava: omissões que atribuo à duvidosa ordem do tempo ou à inevitável desordem da memória. No fim da carta, disse que tinha me visto no Salão do Livro de Paris, em março de 2015.
“Éramos dois velhos... Você não me reconheceu, e eu não quis quebrar o encanto do esquecimento”.
Quando abri o pacote, vi com emoção o livro raro, e tão cobiçado. Era um convite sutil para que eu escrevesse a outra história desse livro: uma narrativa triste e tumultuada de um jovem brasileiro no exílio parisiense.

Publicado originalmente no Caderno 2 do Estadão (2017)


Palestra de Nirez e Exposição do seu Acervo na Caixa Cultural (25.3)

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Quem é apaixonado pela história e curiosidades de Fortaleza tem um encontro marcado no dia 25 de março, às 16h, na CAIXA Cultural Fortaleza: o jornalista, historiógrafo, memorialista e colecionador Miguel Ângelo de Azevedo (o Nirez) vai proferir uma palestra gratuita sobre sua trajetória e sobre o acervo selecionado para a Exposição Arquivo Nirez

Com a curadoria de Nirez e Weaver Lima, a exposição conta com mais de 300 itens do acervo do museu particular do colecionador. Ela fica aberta ao público até 16 de abril de 2017.

Palestra 
Data: 25 de março (sábado), às 16h
Local: CAIXA Cultural Fortaleza - Foyer Superior
Classificação indicativa: Livre
Entrada Gratuita

Exposição: Arquivo Nirez
Data: até 16 de abril de 2017 
Horários: terça-feira a sábado, das 10h às 20h | domingo, das 12h às 19h
Classificação indicativa: Livre
Entrada Gratuita



quinta-feira, 23 de março de 2017

"O (Des) Mundo de Ana Miranda", apresentação de Raymundo Netto



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Chega-nos agora o título de estreia da, esperamos longeva, Coleção Ceará: autor e estudos críticos, organizada por Cintya Kelly Barroso Oliveira e Fernanda Maria Diniz da Silva que, em sua apresentação, confessam o projeto ser “movido pelo amor ao literário, pelo apreço por escritores nascidos no Ceará, pelo respeito ao que é fruto de um território com pouca divulgação crítica sobre a temática”. E vão além: “uma coletânea de textos investigativos que tematizassem a obra de um autor cearense vivo.”
É do conhecimento geral que interessar-se, ler, analisar, investigar, escrever e publicar sobre a literatura produzida no Ceará – para não falar em “literatura cearense” e evitar azedumes e torções de narizes – é um feito e tanto. Entretanto, promover tais estudos e análises de obras de autores cearenses VIVOS é tarefa digna de fazer o rebelde Sísifo se sentir em um playground.
O melhor do melhor é que esse projeto surge da iniciativa e interesse particular – infelizmente as universidades e os órgãos ditos de cultura e seus equipamentos públicos ainda contribuem muito pouco ou nada nesse propósito. Trata-se também de uma ação que soma-se a outras que temos conhecimento desde 2013, com a publicação de Escritores Cearenses: múltiplos olhares, seguida por Literatura em Debate: estudos sobre autores cearenses (2014), depois Ceará em Letras: entre o passado e o presente literário (2015) e Literatura no Ceará: diálogos interdisciplinares (2016). Nelas, podemos encontrar tanto autores do passado como os contemporâneos: Antônio Girão Barroso, Francisco Carvalho, Emília de Freitas, Filgueiras Lima, Patativa do Assaré, Horácio Dídimo, Linhares Filho, Klévisson Viana, Tércia Montenegro, Roberto Pontes, Adolfo Caminha, Pedro Lyra, Jáder de Carvalho, Mário da Silveira, Moreira Campos, Rachel de Queiroz, Arievaldo Viana, Gustavo Barroso, Fran Martins, Antônio Sales, José Alcides Pinto, Pedro Salgueiro, Eduardo Campos, entre muitos outros. Não resta dúvida: uma seleção de valor, porém, invisibilizada (ou quase) – das vezes, propositalmente – por motivos para nós incompreensíveis.
Abrindo a Coleção, recebemos Ana Miranda entre História e Ficções: estudos críticos, apontando 16 novos artigos sobre a escritora e ilustradora, contemplando: o comportamento feminino, a partir da ousada seleção de poemas de freiras e para freiras (por meio dos “freiráticos”, poetas cujas musas habitavam as sagradas celas)  em conventos portugueses e brasileiros, em especial no convento de Odivelas, nos séculos XVII e XVIII, em Que Seja em Segredo (1998); as características históricas, românticas, biográficas e intertextuais de Gonçalves Dias, ao olhar da apaixonada Feliciana, em Dias & Dias (2002); a construção do texto e da identidade, as referências comparativas com a obra Yuxin (2009), também de Ana, e o fantástico no infantojuvenil Menina Japinim (2015); os fenômenos migratórios, a xenofobia, os recursos estilísticos, a linguagem e a “consciência histórica” em Amrik (1997); o espaço simbólico do mundo e das relações humanas, as dualidades, o onírico e a circularidade existencial na poesia, em Prece a uma Aldeia Perdida (2004); a representação do espaço do Ceará, as suas multidimensionalidades e a valorização da arte e da cultura cearense em crônicas escolhidas em sua coluna no jornal O POVO; as características ou a inserção da produção da autora na literatura pós-moderna, a metalinguagem e a estruturação de um “novo romance brasileiro”; a condição e o comportamento da mulher na sociedade brasileira no século XVII, a partir da leitura das personagens (Maria, Anica e Bernardina) de Boca do Inferno (1989); o verbal e o pictórico, o intersemiótico, a ludicidade nos infantojuvenis, em Lig e o Gato de Rabo Complicado (2005); o “exílio”,  o sentimento de pertença, o enraizamento no espaço geográfico-afetivo e a busca e reconstrução de uma identidade no metaromance Semíramis (2014); a narrativa histórica (ficção versus história oficial) nos séculos XIX e XX, as temáticas e o discurso da produção literária feminina moderna e a imigração libanesa ao Brasil, a partir da narradora-personagem Amina de Amrik (1997); o entrelaçamento afetivo, as relações interdiscursivas entre a vida e a obra de Rachel de Queiroz e de Ana Miranda, à luz da semiótica greimasiana (ser/não-ser, parecer/não-parecer); o fenômeno da coerção dos paratextos (peritextos + epitextos) editoriais na literatura infantojuvenil, em Tomie: cerejeiras na noite (2006); a metaficção historiográfica, o parnaso e a Belle Époque na trajetória de vida e de morte de um singular poeta Augusto dos Anjos em A Última Quimera (1995) e o tempo-espaço, foco narrativo, estética, o cronotopo artístico-literário e o caráter crítico-revisional da “história tradicional” em O Retrato do Rei (1991), cujo cenário é a Guerra dos Emboabas, além da biografia, bibliografia, os desenhos, a linguagem, o processo criativo/pesquisa, o onírico, a imagética e a visão sobre o trabalho autoral nos mais diversos gêneros ficcionais, na poesia e enquanto biógrafa. Enfim, na perspectiva de que, como diz Ana, “nunca escrevemos o que queremos, escrevemos o que somos”, podemos imaginar que essa obra é um retrato da rainha, com toda a humildade, acolhimento e a grandeza de uma rainha, figura esta que teve uma evolução rápida e surpreendente no campo literário, sendo em sua primeira publicação, de chofre, aclamada “fenômeno”, o que provavelmente enciumou semideuses do Olimpo da indefinível e por vezes duvidosa literatura nacional. Que assim seja: Ana Miranda!
Ora, para aprendermos é essencial ter olhos e ouvidos abertos. A boca, de preferência, fechada, exceto se soubermos fazer perguntas e não tivermos medo de ouvir respostas. Ao lado da Ana, atenta o tempo inteiro no falar, no vestir, nos jeitos e trejeitos das gentes, colhedora sensível de afetos e sonhos, ledora obstinada, pensadora e imaginadora irrequieta, somos provocados a aprender, duvidar de nossas certezas e a maquinar outras dimensões de nosso próprio pensamento e, claro, a pensar a literatura. À artista, claro, não cumpre provar nada, e a nós?
Ao deter-me sobre os trabalhos que compõem essa coletânea, vivi novamente os sabores das primeiras leituras da vasta bibliografia de Ana, do reconhecimento de uma sua voz (com Desmundo), dos prazeres, das angústias, das experiências, alegrias e saudades. Aqui, algumas de minhas percepções, em meio à urdidura bem feita, a metodologia e semiótica empregadas na elaboração dos artigos, passaram a ter outras denominações, pois a atenção se volta a elementos que muitas vezes são imperceptíveis ou passam à margem do leitor comum (refiro-me àquele que lê por fruição). O que me fez recordar: enquanto leitor, editor e militante na divulgação da literatura produzida em nosso estado – o escritor neste momento dorme – é impossível não lamentar a aparente inexistência ou marginalidade em nossa sociedade das qualificadas, contudo controversas e polêmicas, crítica e historiografia literárias.
Daí, uma grande contribuição que percebo nesse projeto é o fomento à produção e a consolidação dessa crítica e historiografia, exercícios fundamentais de análise – ciente de que, como afirma Massaud Moisés,  “analisar não é criticar”, mas “criticar sempre implica analisar” –, interpretação, registro e investigação histórica e sociocultural do discurso literário, quase uma quimera, sabido que muitos desses agentes – por vezes considerados vozes indesejadas – se foram com o fim dos suplementos literários, com a predominância quase intransigente da superficialidade de resenhas de amigos e da imprensa (muitas vezes sem leitura das obras), com a submissão de críticos aparentemente “respeitáveis e especializados” a se curvarem reverenciosamente à necessidade de impulsionar as vendas editoriais (e são bem remunerados por isso), entre outros aspectos. Na lista dos cearenses indispensáveis nesse território, com maior ou menor intensidade: Araripe Jr, Rocha Lima, Capistrano de Abreu, Guilherme Studart (o barão), Dolor Barreira, Pedro de Queiroz, João Clímaco Bezerra, Aluízio Medeiros, Braga Montenegro, Mozart Soriano Aderaldo, Abelardo Montenegro, Otacílio Colares, F.S. Nascimento, Batista de Lima, Dimas Macedo, Nilto Maciel e Sânzio de Azevedo, este, certamente, um dos maiores e mais honestos historiadores de nossa atualidade.
Newton Gonçalves, na apresentação do livro-aula A Estrutura Desmontada (UFC/Secult, 2009), de F.S. Nascimento, fala sobre dois tipos de crítica: a crítica-arte e a crítica ciência – cita também a “crítica de elogios mútuos” e de “desrespeito recíproco”, ambas de caráter provinciano. Parte-se do princípio que a literatura, esse extenso tecido verbal – mais para “colcha de retalhos” –, enquanto arte, não promove apenas deleite e fruição, mas também provoca reflexão e transformações, além de registrar costumes, culturas, ideologias, convicções etc., o que a coloca no patamar de ferramenta inevitável na elaboração da arquitetura de uma sociedade melhor. Sim, a arte é, por natureza, subjetiva, e defende o seu direito de sê-lo, enquanto a ciência exige critérios, metodologias, objetividade e imparcialidade. Como o erro é um dos frutos mais danosos na nossa pouca prática historiográfica, pois passa de geração a geração na qualidade de “verdade”, tememos que os amantes diletantes dessa literatura, não possuidores dos devidos cuidados, critérios e senso de desconfiança e métodos de investigação, acabem por divulgar monstruosos e, misteriosamente incorrigíveis, equívocos. Por isso, ter a universidade a missão de formar esses profissionais e provocar estudos e pesquisas com a qualidade que eles merecem.
Afinal, diante de uma desmedida prateleira de conteúdos, informações e de milhares e milhares de títulos, quando o mercado editorial cada vez mais assume um papel industrial, na busca de produtos de consumo, de tendências, não importando o seu valor literário – eles denominam essa “literatura para poucos” de “alta literatura” – mas a sua capacidade de venda, de mainstream, nos parece emergente que tenhamos aqueles que se voltem para as entranhas dessa produção literária, que pode até ser vendável ou não, nos seus aspectos mais íntimos, com a capacidade de contextualizá-la e de apontar os elementos que existem de melhor ou de pior, qualificando a sua leitura e olhar, seja em que suporte for, por meio de jornais, revistas, livros, blogues, redes sociais etc.
Assim, a obra que agora temos em mãos, pela diversidade de olhares, de leituras, de reflexões e contextualizações merece aplauso, a atenção e o apoio de todos nós leitores e atores que compomos as cadeias criativa e produtiva do livro (escritores, pesquisadores, editores, ilustradores, gráficos etc.) e mediadora da leitura. Que venham novas coletâneas, que provoquem pasmos e curiosidades. E mais: que arrebatem nossos autores e obras da perversa escuridão que só poderá ser eliminada à luz da inteligência, honestidade e dedicação, coisas que por aqui, até então, somos poucos e avaros.
Urbi et orbi.


sábado, 18 de março de 2017

"Lançamento de Livro II: Omissão", de Raymundo Netto para O POVO




Publicado originalmente em O POVO, em 27 de outubro de 2008

Nos dias atuais, concordemos, é muito fácil se publicar um livro; não publicá-lo, porém, diante do apelo irresistível da vaidade, é que é difícil. Eu mesmo estava tentado a não publicar essa crônica... mas fracassei!
Quando o indivíduo, certo de “querer ser” escritor — aliás, escritor já é “ex” até pelo próprio nome —, decide mostrar sua obra a um editor, descobre que no Ceará não se tem disso não. Dá até para se concluir: editora não é bom negócio, caso contrário, os americanos já estariam por cá.
No entanto, quando o escritor consegue juntar uma mixariazinha, ou a pede emprestada ao emergente cunhado, a fundo perdido, é claro, acaba se entregando nas mãos de donos de gráficas (com soberbas de editora) que batem-lhe às costas e cobram-no o serviço em troca de um “iessebeênizinho” de nada, o que para ele, o sujeito mais solitário e incompreendido do mundo, é motivo de lavar-se em lágrimas. O pior: mal o livro entra no prelo, o desgraçado passa a sonhar com a cerimônia de outorga do famoso e bronzeado quelônio, tão feinho, coitado, que não seria de todo ruim se o deixassem a segurar portas, ao invés das frágeis tartaruguinhas (suas primas) de areia.
Eu mesmo, antes de publicar meu primeiro livro, passei por vários editores, só recebendo, de certo, unânimes parabéns, parabéns, parabéns... Aliás, eles são mestres na técnica de desaparecer após tais parabéns. Conselho: quando for a sua vez, agarre bem a mão de seu editor, senão ele some!
É, vida de escritor não é fácil, mas é criativa. Conheci um que, como muitos, enviava o produto de sua lavra para escritores renomados, aguardando ansioso seus pareceres. Estes, respondiam — pressupomos que deviam ler, mesmo fosse como Jorge Amado (não li, mas já gostei) — por e-mails ou em breves cartas que o autor fotocopiava e distribuía orgulhoso entre amigos e desconhecidos em mesas de bar. Numa dessas, conferi a assinatura de um: “Dr. Scliar”. Ah, e por falar em fotocopiar, outro dia um escritor veterano afirmou que ninguém sabia, mas ele seria o autor cearense mais lido em Pindamonhangaba via “xeróx!
Acontece de tudo um pouco por aqui. Outro autor, por exemplo, revoltou-se com o livro “de papel”, fez uma fogueira no fundo do quintal e decidiu publicar somente em blogues e sites nacionais. Depois disso, orgulha-se, embora agora tenha mais de 200.000 não-leitores habituais. Tem aquele outro que, após sucessivos insucessos (que construção engraçada!), converteu-se em Jesus e chegou à conclusão de que a literatura é coisa do cão, ou mesmo o caso do rapazinho de boca suja que se diz poeta autodidata pós-modernista, pioneiro no Ceará da reforma ortográfica, trocando “j” por “g”, “s” por “z”, entre outros involuntários barbarismos que ele denomina “transgressões”.
A mais trágica história de autor e editora, entretanto, aconteceu ano passado:
Um poeta, por gênero desassistido, angustiado por não exercer sua arte como ofício, abandonou o chapéu panamá, deixou de vender livros artesanais para turistas do Dragão do Mar e decidiu procurar um editor que publicasse o seu livro (sobejamente recheado de rimas melosas: lua com tua, coração com paixão e solidão, amar com cantar e tererê e tarará).
Estava irredutível, disposto inclusive a lançá-lo em local privilegiado cujo apresentador sorridente, apesar de ler muito pouco, não poupa o público de suas súbitas intervenções, antecedendo-as sempre com “eu não sou crítico literário, mas...” e lascando a rouquenta bobagem da noite.
Enfim, voltando ao assunto, certo dia, nosso autor marcou hora e reuniu-se com um editor que, mesmo diante de apaixonadas proposições estéticas, rompeu o silêncio e disse-lhe na lata: “Lamento, não publicamos autores vivos!”
Machucado brutalmente, o poetinha arrastou o caminho de casa. Lá chegando, no centro do quarto vazio e sujo, espertou: “A poesia é minha vida!” Assim, retornou mais que ligeiro à editora, numa inquietação dos diabos, invadindo o gabinete e, diante do assombrado editor, arrematou, do cós da calça, a lâmina brilhante, anunciando num brado de causar inveja a Hamlet:
— Antes a vida pela poesia do que a morte pelo silêncio em agonia!
Dito isso, rasgou, em meio ao pranto soluçante, o pulso magro de escrevente. Encharcado em sangue e lágrimas, antevendo os prováveis estertores finais, lançou-se ainda sobre a mesa editorial, espalhando pelos cantos as canetas e chaveirinhos:
— E agora, senhor editor, morto estando eu, que motivo haveria para não me publicar? 
O editor repôs na calça a fralda da camisa e arqueou as sobrancelhas:
— De fato, você cumpriu o primeiro requisito. Agora, pegue os formulários com a secretária, traga os originais encadernados em seis vias com firma reconhecida em cartório, pague uma taxa simbólica e aguarde o telefonema... Ah, e parabéns.



quarta-feira, 15 de março de 2017

Lançamento CD "Palavra", de Carlinhos Perdigão (24/3), no Teatro do Dragão do Mar




Lançamento
CD “Palavra”, de Carlinhos Perdigão
Data e horário: 24 de março de 2017, às 20h
Local: Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura


Sobre o CD “Palavra”: o álbum prioriza composições musicais baseadas em letras do baterista e arte-educador Carlinhos Perdigão. Assim, as canções deste CD representam uma viagem ao eu-poético do autor, que lançou em 2011 seu primeiro livro: Fragmentos: poemas e ensaios. Nesse sentido, tal obra é a base da produção deste disco, o qual possui poemas de Carlinhos musicados por diversos parceiros como Marcelo Justa, Júnior Boca e Nigroover.
O disco conta também com a participação especial de importantes artistas cearenses, como Aparecida Silvino, Chico Saga, Abraham Paiva, Diogo Farias, Adna Oliveira, Janaína de Paula, Alencar Júnior e George Hendryx, além da produção gráfica de Renata Holanda e Antonio Henrique.
Entre as músicas do CD, “Andanças”, parceria de Carlinhos Perdigão (bateria) e Marcelo Justa (voz e guitarra), tendo o acompanhamento de Rafael Sousa Lima (baixo e voz), David Aragão (teclados) e Janaína de Paula (voz). No link a seguir, você poderá assistir ao clip de “Andanças”, uma produção da Zoom Criativo, com direção de Helton Melo e roteiro de Bruna Marques e do próprio Helton. ACESSE:


Outras Informações:

Luana Oliveira (produtora): (85) 98895.1625.
Carlinhos Perdigão: (85) 98804.7382 | 98815.2701 |3267.6496.






sábado, 11 de março de 2017

"O Cáucaso Baliostro", de Raymundo Netto para O POVO


O céu tardou azulecer de manhãs ao abrir o palmoemeio dos olhizarcos.
Bramia o galo, feito fera, seu cocoricoado de dia pós dia:
“Deixasse de refestelamento, desencostasse as costelas, espichasse as patelas, abrisse dos ombros, armasse as tábuas do queixo. Fosse homem ou o deixasse de ser!”
Medrava pela estrela anônima a sucumbir desassistida quando deslajeou os guias da cara com caldo de cacimba.
Dejetou. Dejejuou. Desejou ali mesmo um fim do mundo, senão da agonia e o mais imediato de si. Do quintal, varejava formigas e assoprava baforadas de fumo cor de jenipapo quando suspirou de doces e limão um gemelancólico “ai!”
Certo se tinha: Baliostro em berros da alma tirocinava um envenenado amor, daqueles que há de suspenso a própria vida, em tum-tuns apenas cochichados no roto e quase morto coração: “Je suis cídio”
Ainda pior, o cáucaso não supunha nem ideia por quem alentava taltanta devoção. Esta, de primeiro, a razão de sua incomportável e solsticial ruína a tomar de brejo o ânimo e a paciência. Donde ser-lhe penitente o renque de dias a contar ocasos do não viver desse irrevelado e desértico amor.
Frustrado, pôs-se ele em joelhos às patas elefânticas do infinitésimo, mente farta do fastio da humanidade, cujo responso lhe chegou em libras: “arrazoa, azoa, azoina, azorata, azia, azáfama, soidão... ê ê ê”
Sucedeu noite há tempo: dormia, distraído como relógio. Um molusco luminoso espreitava os punhos tesos de sua fianga. Era o temível demônio Súcubo, cuja boca de cem dentes se arraigaria ao pescoço do homem, convencendo à mente imagética um absurdo de inevitável mulher a dominá-lo em pesadelos seminais.
Assim, Baliostro, absoluto e entregue aos enleios de Súcubo e à própria libido, se deixou secar, desaguar todo peso do espírito, aquele amor que lhe ardia e coitava o peito em uma conjunção adversativa e proparoxística da carne.
Contudo, o demônio surpreendentemente surpreendeu-se. Já não na milhenar existência experienciara de tão fecunda fonte de paixão e obscenidades.  Foi quando assistiu ao corar de uma mancha rubra prenhe em seu tórax veiado, calando a razão pela sede da cobiça. Ao partir, por pouco à luz da vergonha, entornou uma gosma, feito lágrima príncipe e sem sal, pois entre todas as suas vítimas, desde a fronteira do spiritus e o parir do mal, marcara seu estigma de exclusividade para o proveito daquele servo em bagaço, condenando os dois ad vitam aeternam!
E foi assim que Baliostro despertou quase senil e repleto de obscura saudade:
O céu tardou azulecer de manhãs ao abrir o palmoemeio dos olhizarcos.
Bramia o galo, feito fera, seu cocoricoado de dia pós dia, dia após dia... para toda a eternidade.


sábado, 4 de março de 2017

"Tratado de como não se deve tratar a história e a cultura no país", case do programa #Partiu


Poeta e historiador Nicodemos Araújo, de Acaraú

Dimas Carvalho, poeta, contista e sério estudioso das coisas das letras e da história, em depoimento distribuído nas redes sociais nos ensina e prova que “de boa intenção, o inferno está cheio”. Poderíamos intitular “Tratado de como não se deve tratar a história e a cultura no país”.
Alguns documentaristas e/ou programas de TV, com a boa-fé de realizar um produto de importância cultural, pela falta de uma consultoria competente e qualificada e com tempo sempre reduzido, acabam por distribuir um monte de lixo em embalagem de luxo. Como a maioria de seu público é não leitor e desconhece de sua própria história, passa a engolir aquilo tudo como se assim ela fosse, acreditando que aquilo só pode ser verdade, pois assistiu na TV. Ou seja, essas emissoras prestam um grande DESSERVIÇO à cultura. No caso, o programa “#Partiu” da TV Verdes Mares, canal 10.
FUNDAMENTAL: essa não é uma crítica pela crítica, mas uma chamada de atenção a todas e qualquer emissora bem intencionada. Nesse quesito, não vale de jeito nenhum a expressão “é melhor do que nada”. Ao contrário, nesse caso, vale mais o silêncio. Essa chamada de atenção é válida não apenas para a Verdes Mares, mas a qualquer outra emissora de TV ou veículos impressos, eletrônicos e radiofônicos no Ceará e no Brasil.
Leiam a seguir a análise do programa “#Partiu” veiculado no sábado, dia 4 de março de 2017, no qual Dimas foi um dos entrevistados:
***
Como alguns amigos e amigas me telefonaram perguntando porque a entrevista que eu dei ao programa "#Partiu", da TV Verdes Mares, veiculado hoje, não apareceu no supracitado programa, creio que devo esclarecer o fato em epígrafe, o que passo a fazer agora.
01) TODAS as informações sobre a História do Acaraú que o repórter falou, inclusive com os nomes e as datas precisas, foram dadas por mim, na entrevista que realizou, com mais de uma hora e meia de gravação, na minha residência;
02) Os erros crassos e ridículos cometidos pela professora (?) Márcia Andrade, atual Secretária de Cultura do Acaraú, tal como dizer que o padre Antônio Tomás NUNCA PUBLICOU os seus poemas e que dona Dinorá Tomás Ramos, sobrinha do padre, ainda está viva em Sobral, quando na verdade ela já morreu há mais de 20 anos, apenas revelam o despreparo e o analfabetismo da dita professora(?). O padre Antônio Tomás NUNCA permitiu que se reunisse a totalidade dos seus poemas em livro impresso, mas SEMPRE publicou os seus poemas nos jornais da época, tanto do Acaraú, quanto de Fortaleza e de Sobral. Aliás, esta informação consta do livro "Padre Antônio Tomás: Princípe dos Poetas Cearenses", publicado em 1951, por ocasião dos dez anos de morte do escritor, e que teve duas edições posteriores, cuja autora é exatamente a sobrinha predileta do poeta, que com ele conviveu por vários anos no Acaraú, Dinorá Tomás Ramos. O que demonstra cabalmente que a professora(?) Márcia Andrade sequer se deu ao trabalho de ler o livro que ostenta na entrevista. O padre Antônio Tomás era tão modesto que deixou em testamento o pedido para nunca publicarem LIVRO QUE REÚNA TODA A SUA OBRA, coisa que a dona Dinorá acatou, excluindo do livro alguns de seus poemas.
03) Também errônea é a informação dada pela Secretária da Cultura (“oh tempora oh mores”, diria Cícero, o maior dos oradores latinos), de que o padre Antônio Tomás tenha vivido na clausura, pois só quem vive na clausura, palavra latina que significa "fechamento", são os frades e as freiras, e não os padres ditos seculares, que administram paróquias, como foi o caso do padre Antônio Tomás, que NUNCA foi frade ou monge, mas sim pároco do Acaraú e do Trairi. Ele inclusive foi pai de uma filha, chamada Maria Celeste Peixoto, cuja assinatura eu possuo no antigo Livro de Atas do Recreio Dramático Familiar, clube diversional e teatro do Acaraú entre 1915 e fins da década de 60.
04) Também causa estranheza não ter sido citado uma única vez o nome do homem que escreveu toda a História do Acaraú e da Região, o poeta e historiador Nicodemos Araújo, amigo e sucessor do padre Antônio Tomás na áurea dinastia da poesia acarauense. Nicodemos Araújo, meu avô, publicou 28 livros, pertencia à Academia Cearense de Letras e à Academia Sobralense de Estudos e Letras. É o autor do Hino e também da Bandeira do Acaraú. Figura, portanto, inescapável, quando se trata da História do município.
05) Não bastando a queda, o coice: o cozinheiro do restaurante "Castelo" afirma que o Brasil foi descoberto pelas naus Santa Maria, Pinta e Nina: confundiu Pedro Álvares Cabral com Cristóvão Colombo, descobridor da continente americano.
06) Concluindo, para não me deter nos outros numerosos erros cometidos pelos entrevistados, acho que este programa "#Partiu", que falseou totalmente a História do Acaraú e a História do Brasil, serviu pelo menos para uma coisa: mostrar ao povo acaruense e cearense a inépcia, a ignorância e a falta de conhecimento que norteiam a atual gestão (?) da Cultura e do Turismo do meu amado, querido e tão maltratado torrão natal. Tenho dito!

Dimas Carvalho

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

"Entre Peixes, Museus e Relógios", de Túlio Monteiro



A Gentilândia é um daqueles lugares onde a cidade lembra o que foi lugar onde se vive para conviver, para ver, para sentir, para ouvir, para andar, para conversar. Convivência experimentada no cotidiano, fruto das relações sociais alicerçadas pelo tempo. Por isso, ser gentilandino é um estado de espírito e quem já viveu na Gentilândia sabe que é imprescindível voltar sempre.
Elmo Vasconcelos Júnior, curador do Memorial da Gentilândia.

Começou assim: eram meados 1986 – século passado – quando parti do Farias Brito, colégio onde concluí o segundo grau, para as cadeiras de madeiras toscas do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. Tinha arriscado mais uma vez a Arquitetura já que tinha dado um chute no destino, qual ele poderia ter me tornado também geólogo pela Unifor, mas os deuses do vernáculo cismaram porque cismaram de me enviesarem a vida para as bandas da escrita, crítica literária ou coisas que os valham.
       Outro mundo, outros seres, outros loucos. O impacto de ver tanta gente diferente demorou tanto a passar que lá se foram, no mínimo, uns dois meses para me acostumar com aquele mundaréu de cabeludos pirilampeando – se me faço entender – para um lado e para o outro. Restinho dos bichos soltos da geração riponga que estava dando lugar a umas tais “Diretas Já!”. Os ares eram outros, pois o sopro maldito da fuligem de armas militares da tal falada Ditadura que tomou de um dia para outro, vinte anos de uma geração inteira que ainda assim não passou em brancas porque não sincerizar negras nuvens negras. Era hora de os facínoras recolherem-se às suas casernas.
       Eis que acabei por ir descobrindo coisas em conversas sempre repletas de imagens e símbolos, com interlocutores de todos os níveis de sabença. Viventes que me repassavam informações que só aprendidas na base do vamos destapar os segredos do Benfica? Fui, a princípio, sendo conduzido para depois me transformar no timoneiro desse barco chamado vida, passando a desconstruir e retelhar o casario da Gentilândia – reza a lenda que a família de João Gentil perdeu quase todos os imóveis do local nos jogos de cartas e outros azares – suas nuanças, calçadas, parapeitos e um anônimo peixe que até hoje sobrevive em seu silente mergulhar pétreo. Explico: uma meia-parede foi erguida para proteger o prédio do atual Museu de Arte da UFC (Mauc), inaugurado pelo então reitor Antônio Martins Filho em 18 de julho do ano de 1961, onde antes funcionava o Colégio Santa Cecília.
       Pois bem. Voltemos ao ser aquático que lá está fixado pelo espírito moleque de algum pedreiro que, tendo descoberto alguns pedaços de pedra derivada de xisto percebeu que aquelas possuíam exatamente o formato de um peixe. Certamente para não perder a chacota e o chiste – talvez sabendo que naquele recém-construído edifício cultural iriam ficar expostas obras de grandes nomes da escultura e pintura cearense, quiçá nacionais, o laboral trabalhador meteu sua colher de ferro para cima e pronto – está lá para quem tiver a paciência de procurar em uma extensão de cinquenta metros da parede que cerca o Mauc pelo lado da avenida 13 de Maio, quase esquina com avenida da Universidade, 2854, encontrar o que temei em chamar de pequeno sítio arqueológico acinzelado.
       Outros enigmas estão espalhados pelos arrabaldes da Gentilândia/Benfica, sendo tudo uma questão de procurar nas entrelinhas, nos espaços menos esperados podendo ser encontradas preciosidades iconográficas de real importância histórica. É o caso da torre dos quatro relógios da igreja dos Remédios, que fica bem em frente à faculdade de Ciências Sociais e ao lado do Cetrede.
Aos 14 de agosto de 1910, foi concluída a pequena capela de Nossa Senhora dos Remédios, inaugurada com grande festa da qual participaram mais de duas mil pessoas – evento de grande aporte levando-se em conta que Fortaleza possuía exatos 65.816 habitantes – tendo sido a missa celebrada por Monsenhor Bruno Figueiredo, nascido em Aracati (CE), ordenado que havia sido desde 1875; educador de grande nome, lente do Liceu do Ceará à época, sendo vigário-geral do Bispado do Ceará.
       De início e até 1927, a igreja dos Remédios era uma delicada ermida, até serem erigidos os atuais dois corredores laterais, custeados pelo ainda abastado benfeitor do Benfica coronel João Gentil Alves de Carvalho. É daquela época, também, a instalação do relógio de quatro faces ainda hoje badalando as horas que marcam o compasso dos que deslizam a pé, em seus carros e nos agora chamados VLT’s (Veículos Leves sobre Trilhos), os metrôs, primos atuais dos antigos bondes com seus motorneiros a serpentear Fortaleza afora.
       Os quatro mecanismos têm sua história singular: foram projetados para serem instalados no monumento ao Centenário da Independência (1822/1922), cuja pedra fundamental foi lançada aos 23 de julho de 1922, na então praça do Cristo Redentor, situada onde hoje é o início da avenida Monsenhor Tabosa e defronte ao Instituto Dragão do Mar de Arte e Cultura, inaugurado em 28 de abril de 1999 com seus 30 mil metros quadrados muito bem divididos em salas de cinema, teatro, cafés, anfiteatro, praça verde, planetário, salas de estudo, sendo anexado à Biblioteca Pública Menezes Pimentel com seus 70 mil livros e 40 mil títulos diversos, hoje sendo todos digitalizados para as gerações pósteras.
           Retornemos aos relógios! Como era de se previr o monumento ao Centenário da Independência não foi inaugurado no dia 7 de setembro 1922, mas, sim, na véspera de Natal daquele ano – por volta de cinco horas da tarde – numa provinciana e agradável Fortaleza de 104.852 almas como testemunhas. A obra fora encomendada pelo prefeito Ildefonso Albano que deixou a cargo do seu sucessor o coronel Adolfo Gonçalves Siqueira a finalização da obra, executada que foi pelos mestres de obras Antônio Machado, Domingos Reis e Severino Moura. Por ocasião dos festejos tomou a palavra o então arcebispo da capital dom Manoel da Silva Gomes. Os marcadores das horas, como já sabemos permanecem na cúpula da igreja dos Remédios, enquanto a praça Comendador Machado – hoje praça do Cristo Redentor – que também abriga o Teatro São José desde 1915, encontra-se abandonada e habitada pelos novos excluídos que todos os dias chegam a metrópole. O motivo pelo qual o nobre quarteto simplesmente não ter sido instalado na torre em questão foi o movimento pendular causados pelos fortes ventos Aracati que insistem em açoitar nossa cidade, vindos lá das bandas da África, oceano Atlântico, por caminhos alísios soprados de lá para cá. Ventos Aracati-tupi-guarani – ventos bons que vêm do mar, todas as tardes, como uma brisa marítima que ganha força ao ter por canalizador o rio Jaguaribe, que desemboca no mar pelas cidades cearenses de Aracati e Fortim. Desde lá navegando o sertão jaguaribano.  Esse Vento Aracati amigo que ora areja minha memória sobre o Benfica...



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Campanha de pré-venda e colaboração para "As Cidades de Rubem Braga e W. Benjamim", de Ana Karla Dubiela


As Cidades de Rubem Braga e W. Benjamim
de Ana Karla Dubiela

Apresentação: Ana Miranda
Artes: Mário Sanders
Projeto Gráfico: Gil Dicelli
Previsão de lançamento: abril
Preço no lançamento: R$ 50,00
Preço antecipado (pré-venda): R$ 40,00

Contato com autora para conhecer o trabalho, comprar e/ou contribuir com a obra: 
ou pelo Facebook: www.facebook.com/dubielaana/

Sobre a obra: O livro é o fechamento de dez anos de pesquisa sobre a crônica de Rubem Braga e uma adaptação da tese da autora de doutorado em Literatura Comparada, feita na Universidade Federal Fluminense/RJ (2011). Além da desconstrução do conceito de crônica, da descoberta de que foi Alencar o autor da metáfora sobre a crônica e o colibri esvoaçante sobre a flor (e não Machado de Assis), As cidades é um encontro (fictício) entre Braga, Baudelaire e Benjamin na Paris dos anos 40. Passeia pela tal moderrnidade, pelo brejo da aura, pela história aberta de Benjamin, sem abdicar de uma linguagem poética. Ao final, há um guia para os novos leitores de Braga, com resumo de cada obra dele, e um roteiro para pesquisadores do tema, que reúne o que de mais importante a autora encontrou durante a sua pesquisa, incluindo estudos acadêmicos, entrevistas, livros sobre o autor etc.

Sobre a autora: Ana Karla Dubiela é jornalista, graduada pela Universidade Federal do Ceará. Especialista em Estudos Literários e Culturais (UFC), mestre em Literatura Brasileira (UFC) e doutora em Literatura Comparada (UFF/RJ). Autora dos livros A traição das elegantes pelos pobres homens ricos: uma leitura da crítica social em Rubem Braga, Um coração postiço: a formação da crônica de Rubem Braga e da biografia Pedro Freitas: a vitória do trabalho. É coautora de As mães de Chico Xavier e O poeta da crônica: Rubem Braga: vida e obra. Ministrou cursos e proferiu palestras sobre literatura e crônica no Congresso Nacional, na Fundação Casa de Rui Barbosa (RJ), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Bienal Nacional da Crônica (Cachoeiro de Itapemirim, ES). Publicou diversos artigos sobre literatura em periódicos e revistas especializadas. É editora de livros, faz pesquisa e preparação de texto, além de revisão e adaptação de teses e dissertações para o formato de livro.

Capítulos do Livro
S U M Á R I O
Apresentação – Paixão Eterna – Ana Miranda
Prefácio – O luar banha a prosa de Braga

CAPÍTULO 1 – O GÊNERO CAMALEÃO
Vestígios da crônica na história
Entre o folhetim e o anúncio, uma mina de ouro
José de Alencar, precursor da crônica moderna

CAPÍTULO 2 – ESVOAÇANDO AO REDOR DE UM CONCEITO
Definir-se, a impossibilidade crônica
O gênero “brasileiro” e os cronistas estrangeiros
Impressões sobre a crônica contemporânea

CAPÍTULO 3 – MODERNIDADE, O FENÔMENO LITERÁRIO
Rubem Braga, um modernista de última hora
Baudelaire, Benjamin e Braga – um encontro em Paris
Modernidade, a cornucópia de sonhos coletivos

CAPÍTULO 4 – PAU-BRASIL: BISCOITO FINO OU MASSA PODRE?
Um gato entre pombos antropofágicos
O brejo da aura
Pós-moderna: a crônica no lugar dos afetos esmaecidos

CAPÍTULO 5 – A FLÂNERIE E O DESPERTAR DA METRÓPOLE
Memória: um sonho feliz de cidade
Flâneur: o urso solitário no pequeno jardim da alma
Deus e o diabo nas entranhas das ruas

CAPÍTULO 6 – PINTURA DO COTIDIANO
Curvas, cores e músicas internas
“Notas de Paris”: no porão dos jornais, crônicas inéditas em livro
As crônicas de Paris

EPÍLOGO – O vento e a lua: um segredo de terra anoitecendo
Referências Bibliográficas
Para gostar de ler Rubem Braga

Um roteiro de pesquisa