sábado, 18 de fevereiro de 2012

"Asas de Não-Voar", de Raymundo Netto


Eu quis sonhar,
Como um tolo que derrete as ceras no ar
Como uma asa na escuridão triste a ruflar...
Eu quis voar,
Como doce é o beijo salgado do mar
Eu mergulho num verso azul na penumbra...

Quando eu falava em feitos antigos,
Sombras, desejos, velhos amigos,
Recordações que não vogam mais,
De tempos perdidos, meus tempos de paz...
Santana isolada, mãe tão tristonha,
Serena loucura do menino que sonha,
Bebida amarga, prima-estação,
No seio e no ventre do meu coração.
Pessoa calada, poeta matreiro,
Amantes e amores o tempo inteiro
Não carece saber cantar
Para amar e amar e amar
Em cada momento...

Lua formosa, bela, altaneira,
Linda, formosa, rainha primeira,
Bandeiras e ursos suspensos no ar,
Profetas e epístolas no fundo do mar.
Murmúrio de surdos, orvalhos, paixões,
Lágrimas, violas, sons de bordões,
Violões exasperados cantando roucos e desafinados,
Pessoa airada, poeta faceiro,
Amantes e amores o tempo inteiro
Não carece saber fingir
Para sentir e sentir e sentir
O meu sentimento.

AlmanaCULTURA...Simples Assim!


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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

"Moreira Campos", de Pedro Salgueiro para O POVO (15.2)



Conheci primeiro Moreira Campos de livros, na primeira metade dos anos 80 do século XX; quase uma década depois é que fui ter o primeiro contato pessoal com ele. Eu ainda fazia Agronomia na Universidade Federal do Ceará e morava na Residência Estudantil ali na Pracinha da Gentilândia; com o tempo fui fazendo amizade com estudantes de Letras e aumentando meu gosto pela literatura (apesar de adorar livros desde pequeno). E foi numa das minhas andanças pelos sebos atrás de Gabriel Márquez, Júlio Cortazar e Juan Rulfo (um livro novo na época era um sonho impossível, lia-se muito emprestado de amigos e bibliotecas, vivíamos roubando exemplares das livrarias) que me deparei com seu “A Grande Mosca no Copo de Leite” e só o larguei quando uma semana depois encontrei “Os Doze Parafusos” numa calçada da Rua Pedro I, entre revistas e best sellers. Dali em diante passei a ser seu leitor fiel, e lembro que tremi quando folheei o belo volume d’”O Puxador de Terço” (ainda hoje o meu preferido entre seus poucos livros editados).
Cruzávamos sempre o Bosque de Letras indo para o Restaurante Universitário: um belo dia um colega me apontou um senhor muito magro que conversava com vários estudantes debaixo de uma mangueira. Perguntou-me: — Sabe quem é aquele? Respondi que não, ele riu e disse que era o grande contista Moreira Campos. Senti um frio na barriga, mas seguimos adiante, sem coragem de parar ou ficar olhando por mais tempo, assim como continuei a fazer por quase dez anos. Sempre o avistava conversando com estudantes, passando a pé ou no seu conhecido fusca verde (na época ainda morava quase na esquina da avenida Carapinima, numa casa vistosa que tempos depois foi criminosamente derrubada para abrigar um estacionamento). Nunca tive coragem de puxar uma conversa, éramos tímidos demais para isso. E mesmo já tendo lido grande parte de seus livros e de o admira-lo bastante como escritor jamais me aproximei do homem.
Tempos depois, já rabiscando meus primeiros contos e tendo até vencido alguns prêmios literários é que conheci a filha dele, também ótima escritora, Natércia Campos. Da amizade com ela me veio a coragem tardia de confessar que queria conhecer o agora já mestre e inspirador escritor.
Dois dias depois estava eu, nervoso, suado, descendo do ônibus quase na esquina de seu apartamento da rua Beni de Carvalho. Anuncie-me pelo interfone e subi com uma vontade danada de voltar dali mesmo. Em pouco tempo eu estava sendo recebido à porta pela simpática esposa do professor agora aposentado, Dona Zezé, que, sem ligar para o meu acanhamento foi me mandando entrar, sentar, esperar um pouco que o “Zé Maria já vem, acabou de sair do banho”, e enquanto eu esperava fui me deliciando com aquela sala bonita, bem cuidada, cheia de livros e quadros de bom gosto, podia-se dizer sofisticada, muito sofisticada para os meus padrões de estudante pobre vindo do interior. Lembro bem que fiquei olhando para a coleção de miniatura de corujas em cima da estante. Lembranças que os muitos amigos, alunos e familiares traziam de viagem, homenageando o escritor pelo seu belo conto “As Corujas”.
Pouco depois ele entrou na sala, magrinho, um pouco curvado, a fala baixa, mas muito simpática, sintoma já do enfisema pulmonar que o maltratava. Conversamos mais de uma hora, intercalados por visitas ao seu escritório (onde me mostrou os muitos clássicos portugueses) e a um baú no canto da sala, de onde Dona Zezé foi tirando um a um os seus livros mais antigos, edições impecáveis que hoje trago em lugar especial de minha estante, com seu autógrafo já trêmulo. Daí a pouco ele começou a tossir e fui me apressando em ir embora, mas não sem antes prometer voltar qualquer dia desses.
Voltei ainda duas vezes, numa das quais criei coragem e trouxe a cópia ampliada de meu primeiro livro, “O Peso do Morto”, e na maior cara de pau pedi que ele “desse uma olhadinha, se pudesse”. Juro que só tive coragem de tal gesto devido à simpatia com que já era tratado por ele e Dona Zezé naquele agradável encontro.
Tempos depois, num domingo bem cedo, recebi um telefonema de Dona Zezé me dizendo que o “Zé Maria está escrevendo uma crônica sobre seu livro para a Porta de Academia” (coluna que o escritor mantinha neste mesmo O POVO). Agradeci a atenção e passei o resto do dia, da semana embevecido, sem pisar no chão. Esperei uma semana, duas, três, achando estranho não ter mais saído as crônicas dele no referido jornal. Dias depois um amigo me disse que o escritor estava internado. Procurei Natércia que me confirmou muito abatida. Coragem alguma de ligar para Dona Zezé.
Pouco tempo depois soube da notícia de seu falecimento. Não fui ao sepultamento, preferi ficar com as agradáveis lembranças dele vivo.
Fiquei triste por algum tempo, de vez em quando releio seus contos, olho suas últimas fotos tiradas por mim nas poucas, mas agradáveis visitas ao seu apartamento, vejo nos livros sua bela assinatura trêmula e lembro com carinho sua figura gentil, atenciosa e ética. Um dos raros escritores que a valiosa obra ombreia com a personalidade, com o caráter.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

AlmanaCULTURA: divulgue você mesmo!


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"Quando o Amor é de Graça XI: Confissão à Forca", de Raymundo Netto para O POVO (8.2)


Por saber que a saudade traga a gente, o tempo nos ensina que a gente traga sempre uma saudade.
Desde pequeno tenho como regra a saudade de tudo, mesmo daquilo recomendável lançar do parapeito da janela mais distante. Chega-me de Neruda: “saudade é sentir que existe o que não existe mais”. E existo, tão saudoso de um jeito, a sentir saudades até dos meus erros. Sim, por que não? Errei muito na vida. Erros tão conscientes e queridos a não me deixar sequer sombra de arrependimento. Aliás, meus erros me são tão sinceros que sou de não poupar oportunidade de sempre contá-los, no afã de mostrar-me às pessoas para que não se iludam a meu respeito, me entendam e não esperem mais de mim. Afora do que veem, asseguro, sou apenas fama e fantasia.
Mas há, em feliz, quem inda goste de mim assim, sem exigir-me de mais nada. Outros, pensam — e expressam — o que poderia melhorar para estar bem, quase me desenhando outro. No entanto, haveria de haver também aqueles que me têm a mais cordial antipatia e descrédito.
Tenho assim, outra fragilidade a confessar. Creio, e creio de verdade: as pessoas que me gostam são bonitas, simples e especiais. Ao contrário, quem não gosta de mim é porque embriaga-se no seu fel, tem mau caráter e espírito de porco (com todo respeito ao pobre animal). Faz, de fato, um grande favor em revelar-me o seu não-ter-o-que-fazer espiritual.
Mesmo assim, também a estes, curiosamente leitores fieis — sempre esperando escorregões de vírgulas (essa coisinha gibosa, enfisematosa e de baixa autoestima), — denuncio, aqui, minhas incorrigíveis falhas: Não gosto de aparecer, nem de títulos, muito menos crachás. Detesto multidões e falar em público. Sou gago, cheio de tiques, distraído e enjoado. Incompetente nas coisas mais simples, não sei coisas demais. Tenho problema com relógio de ponto e com extratos bancários. Gosto de letras, não de números, por isso não me adapto ao dinheiro. Guardo coisas velhas que não têm valor nem interessam a ninguém. Gosto de andar de ônibus e a pé. Adoro roupa muito usada (as primeiras da gaveta), filmes em preto e branco e mesa de bar de esquina. Não sei nome de carros, não como ao lado de quem não gosto, nem danço coisa nenhuma, além de ter passado da idade de ter que ouvir aquela música que todos ouvem apenas porque é o sucesso do momento. E, para concluir, a mais grave: acredito serem possíveis muitas coisas que todas as outras pessoas já sabem, de berço, que não dão certo, mas eu insisto nelas mesmo assim.
Machado de Assis, ao acaso, concluiu: “Um dos defeitos mais gerais entre nós é achar sério o que é ridículo, e ridículo o que é sério”.
Daí, não me iludo com a vida alheia. Quando falam com muito entusiasmo de personalidades, de seu progresso profissional ou afetivo, olho sempre com desconfiança. Quando me perguntam quem eu gostaria de ser, não cito os grandes nomes, mesmo aqueles cuja plateia ecoa em idolatria, admiração e amor. Ora, cada qual suporta uma sua dor, mas nem sempre ela é sentida pelos outros a apenas enxergar o que se é permitido no olhar da conveniência de todo sempre e de todas as gentes. Não, não gostaria de ser ninguém, não tenho vontade de ser nem de ter nada dos outros. Por outro lado, se me perguntassem: “Quem eu não gostaria de ser”, a resposta pularia do trampolim da língua: Raymundo Netto, esse eu conheço bem. Deus me livre!
De assim, continuo a (prot)agonizar o papel desse sujeitinho ridículo, como as cartas de amor de Pessoa, com a fria esperança de uma dia liberdade, de uma tarde compreensão e de a noite ser em silêncio.
“Eu sei que tudo é como o fumo leve:/Foge... mas, porque a vida seja breve, /Há sempre um dia mais para quem ama”*.

(*) Mário da Silveira (1899-1921)

Raymundo Netto. Contato: raymundo.netto@uol.com.br

domingo, 5 de fevereiro de 2012

“Nova Visitação – DESENHOS”, mostra de desenhos de Eduardo Eloy, no Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar (até 26.2)


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O Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar (MAC Dragão do Mar) fomenta e divulga a arte contemporânea por meio de exposições, visitas guiadas, cursos e debates. Projetos como Arte em Crivo, Sala Experimental, Painel Giratório, Americanidade e Jornada de Criação fazem do espaço referência no acesso democrático aos bens culturais, além de atrair as mais recentes propostas da arte contemporânea mundial ao Ceará. As atividades propõem mecanismos e políticas educacionais que ampliam a compreensão do público acerca deste universo tão emblemático. O espectador tem a oportunidade de visualizar e debater sobre vários recortes da produção de várias partes do mundo.

A mostra “Nova Visitação – DESENHOS” do artista plástico, desenhista, gravador, pintor, criador em processos digitais e fabricante de papel artesanal Eduardo Eloy traz obras produzidas produzidas em exercício intimista em sua produção gráfica ou pictórica. Conforme a profa. Lisbeth Gonçalves, “revelam sua inquietação poética e sua vocação para a pesquisa no exercício da arte”.
“(...) Seus desenhos dialogam fortemente com a cor trazida à superfície do papel pela ‘aguada de café’. De um lado, vemos o artista fiel à sua pesquisa gráfica, à
iconografia simbólica que vem caracterizando seu trabalho ao longo do tempo, tanto na pintura como na gravura e no desenho. De outro lado, nós o vemos imergir em novos problemas estéticos nascidos da técnica, da matéria, problemas estes que
renovam sua reflexão plástica. A chave deste ponto de encontro entre as práticas da pintura e do desenho está no uso da ‘‘aguada’‘, não à maneira antiga, mas a aguada praticada num ato de transgressão, por via de um produto de consumo cotidiano, como é o café”.

Eduardo Eloy estudou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Museu de Arte Moderna e Fundação Calouste Gulbenkian, no Rio de Janeiro, entre 1976 e 1981. È também professor de gravura e materiais artísticos, consultor de arte e curador. Realizador da Oficina Pé no Chão, nos anos 80, fundador do Grupo Aranha, de pintura mural, além de diversos outros projetos. Foi presidente e fundador, juntamente com outros artistas, do Instituto de Gravura do Ceará. Expôs em vários países no exterior e em diversos estados brasileiros. Tem obras em importantes museus, instituições culturais e em acervos particulares.

A exposição de Eduardo Eloy, no Museu de Arte Contemporânea, segue até o dia 26 de fevereiro de 2012.

Contato com o autor: eduardoeloy@yahoo.com.br/ www.eduardoeloy.art.br

AlmanaCULTURA, CLARO!


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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Registro: Festival UFC de Cultura Homenageia a Escritora Cearense Ana Miranda - IV Festival UFC de Cultura: Camiños de Nuestra América


Regina Ribeiro, Ana Miranda, Pedro salgueiro e Raymundo Netto
(foto: Júnior Panela)
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A homenagem à escritora Ana Miranda foi realizada segunda-feira (17) no primeiro dia do Festival UFC de Cultura, no auditório da Reitoria da Universidade Federal do Ceará. O evento fez parte do Seminário América Latina: Bibliotecas, com o tema “A América Latina que escreve e que se escreve”.
A romancista, ilustradora e poetisa foi entrevistada pelos escritores Raymundo Netto e Pedro Salgueiro e pela jornalista Regina Ribeiro. Ana Miranda respondeu perguntas sobre sua relação com a literatura latino-americana, leu trechos de escritores da região e falou também sobre o processo de produção de seus livros. Ana afirmou que precisa de silêncio e solidão para escrever seus romances. Segundo ela, “Todo texto fácil de escrever, no dia seguinte, vai para o lixo”.
A escritora teve sua obra traduzida e publicada em cerca de vinte países, inclusive na América Latina. Ela revelou se incomodar com “cada palavra que é mudada” na tradução de seus livros. Segundo Ana, o significado das palavras se perde durante a tradução. “Nós só realmente podemos compreender o significado de uma obra de arte quando lemos essa obra de arte na nossa língua e quando ela é original da nossa língua”.
Os principais romances da escritora receberam atenção especial dos debatedores durante a conversa. Ana Miranda falou sobre a adaptação para cinema da ficção histórica Desmundo, de 1996, e a inspiração para seu romance mais recente, Yuxin, de 2009, que conta a história de uma jovem índia do interior do Acre. Outras obras de Ana, como Boca do Inferno, 1989; A última quimera, 1995; Amrik, 1998; e Dias & Dias, 2002, que já foi adotado pelo vestibular da UFC, também foram comentados pela escritora e pelos integrantes da mesa.
O escritor Raymundo Netto, que participou da entrevista, destacou a importância de Ana Miranda para a divulgação da literatura cearense no Brasil. Segundo ele, as obras e o processo criativo da escritora precisam ser mais explorados. Para Mayara de Castro, estudante de Letras Português-Espanhol na UFC, a entrevista com Ana Miranda foi uma oportunidade única de adquirir riqueza cultural.
O seminário “América Latina: Bibliotecas” acontece até quinta-feira, 20 [de outubro de 2011], de 9h30 as 12h, no auditório da Reitoria da UFC e no Auditório José Albano. Fernanda Coutinho e Inês Sales, organizadoras do Seminário, destacaram a importância de incluir, pela primeira vez, a literatura na programação do Festival.
Para a Adelaide Gonçalves, historiadora e pesquisadora da UFC, é em momentos como a entrevista que a universidade “se realiza como agente do conhecimento e do saber”. Segundo ela, Ana tem sido “uma das grandes semeadoras da palavra no Brasil”.

Por Alissa Carvalho

Publicado em 17.10.201

http://www.festivalufcdecultura.ufc.br/index.php/noticias/festival-ufc-de-cultura-homenageia-escritora-cearense-ana-miranda/

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

"Quando o Amor é de Graça X: A Dor que Alivia", Raymundo Netto para O POVO (25.1)



Noite alta num bar em fuzilo de chuva, recente e jovem amigo chegou a chorar de bêbado a dor pela perda da “noiva”, namorada eterna, maior amor de toda sua (curtíssima) vida, desde os 18 aos atuais 25 anos.
Assistindo ao choro, percebia-lhe a lágrima sincera a salgar os enegrecidos coraçõezinhos flechados pelo espeto insensível de churrasqueiro. Respeitando sua dor e dela não compartilhando — meus sofrimentos são bastantes para mim —, aboletou-me à cabeça, sei lá o porquê, a lembrança de um primeiro cheque devolvido. Na época, como ele, era muito jovem para entender a perecibilidade dos sentimentos indesejosos, e cria ser aquilo de injustiça tamanha, “logo eu”, homem correto, honesto, trabalhador, no começo da vida, por um descuido do sistema financeiro, ser vitimado pelo atesto em carimbos de incompetência. Não sabia ainda que pessoas assim são merecedoras (e carentes) mesmo de tais adversidades. Pois sim, o primeiro me voltou como beliscão no orgulho. Em seguida, mesmo mês, mais oito se numeraram àquele, até brilhar-me ante a manhã a notícia esparsa de que parecia ter acontecido uma outra vez... Ora, e daí? Devo não nego, pagarei quando puder e pronto! E paguei, sim, por nunca me gostar do dinheiro alheio. Nunca mais tal coisa me foi de sofrimento e, talvez, por isso nunca mais me aconteceu. Quando todas as dores do mundo parecem encontrar aconchego em nosso peito, tudo se torna mais fácil, calejada a alma, rimos até diante dos pequenos padecimentos.
No cérebro, o "hard disk" da natureza humana, também o Criador engendrou mecanismo similar, que os cientistas denominariam de “Portão de Controle”. O que é isso? As fibras nervosas que transmitem ao cérebro os sinais de dor são como "estradas carroçais", enquanto as que carregam os sinais de pressão e de tato são "pistas asfaltadas". Assim, se no corpo houver algum trauma (pancada, corte, etc), mas tiver muitos "estímulos" velozes de natureza de pressão e/ou de tato (impulsos elétricos artificiais, massagem, acupuntura, dô-in, etc), o cérebro fica tão “lotado” deles de não mais abrir seus "portões" aos vagarosos sinais da dor, que, ao chegar em frente ao portão verão apenas o cachorro sorrir latindo...
A respeito da nunca sofismável e ao mesmo tempo caleidoscópica constatação, ao encontrar, nas minhas madrugadas solitárias, o Mário Gomes, o filósofo das calçadas, ele me parou, olhou torto — não só o olhar torto eu diria, devido à desconjuntura de seu esquadro — e disse: “Raymundo Netto, você é um cara simpático, mas não é feliz. Para o artista não é fácil ser feliz, mas você pode conseguir... Pode... Mas tem que cair no fundo do poço primeiro para saber o que é a felicidade.” No fundo do poço, repetiu.
E foi no intervalo desse pensamento que o etílichato amigo, diante da minha aparente insensibilidade, e com anseio de atirar em mim o pouco de sua ingênua tragédia pessoal, sentenciou: "Você não sabe o que é amor, Raymundo, por isso nem liga".
Sorri, com a mais absoluta despretensão diante daquele seu grande e podre amor, e comprovei que o que quero para mim é tão maior que não cabe dentro dele nem um nome.

Raymundo Netto. Contato: raymundo.netto@uol.com.br


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Lançamento e entrevista “Reisado Cearense: uma proposta para o ensino das africanidades”, de Cícera Nunes, no CCBNB (25.1)



Programa Troca de Ideias do CCBNB apresenta

“Reisado Cearense: uma proposta para o ensino das africanidades”
da Profa. Dra. Cícera Nunes

Data: 25 de janeiro de 2012 (quarta-feira)
Horário: às 18h30
Local: Centro Cultural Banco do Nordeste (rua Floriano Peixoto, 941, Centro)
Mediadora: Paula Izabela
Editora: Conhecimento


Sobre o Evento:
Um panorama do reisado expondo os fatos desta prática social organizada pelos brincantes, acompanhado de uma análise desse festejo que compõe a diversificada identidade cultural brasileira. Entrevista seguida pelo lançamento e sessão de autógrafos do livro, fruto da pesquisa acadêmica e da experiência pessoal da autora nas questões históricas e culturais africanas/afrodescendentes no que se refere às conquistas do povo negro brasileiro.


Sobre a Autora: Cícera Nunes é pedagoga e especialista em Arte-Educação pela URCA, mestre e doutora em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará/UFC. Lecionou nas universidades federais de Alagoas e de Campina Grande, sendo hoje efetiva na Universidade Regional do Cariri/URCA.


Apoio Cultural
Centro Cultural Banco do Nordeste

Lançamento de Lourdinha Leite Barbosa no Bazar das Letras do SESC (31.01)



O Projeto Bazar das Letras do SESC Fortaleza recebe como convidada a escritora Lourdinha Leite Barbosa que participará de entrevista e lançará seu livro de contos “Pela Moldura da Janela & outras histórias”, ganhador do VI Edital de Incentivo às Artes da SECULT.

Data: 31 de janeiro de 2012 (terça-feira)
Horário: às 19h
Local: Galeria do Teatro SESC Emiliano Queiroz (av. Duque de Caxias, 1701 — em frente ao DNOCS)
Entrevistador: Carlos Roberto Vazconcelos


Sobre o Livro:

Em cada novo conto, transparece sua habilidade de construir personagens, desembaraçar mistérios e desenredar sentimentos. Sua matéria-prima são as vivências e as relações dos sujeitos com seus objetos internos e externos.

Beatriz Jucá, psicóloga

Em síntese, os contos desse livro são a aventura do humano. Os aparentemente pequenos – no entanto, intensos – dramas existenciais motivam os enredos, fornecem o tom com que se revestirá cada narrativa.

Laéria Fontenele, psicanalista e professora da UFC

É principalmente a alma feminina que se encontra no centro das atenções da autora: é a grandeza trágica da condição de ser mulher (...) Quase sempre uma mulher que luta e encontra uma saída e um novo motivo para continuar a viver. É justamente nas narrativas que expressam a condição feminina que a sensibilidade criadora de Lourdinha Leite Barbosa mais se patenteia.

Vicência Maria Freitas Jaguaribe, Professora da UECE


Sobre a Autora: LOURDINHA LEITE BARBOSA é Mestre em Literatura Brasileira e professora da UECE. Membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste e da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes (AILCA). Tem contos, ensaios e artigos publicados em antologias, jornais e revistas especializadas.
Publicou: Protagonistas de Rachel de Queiroz: caminhos e descaminhos (ensaios, cuja 2ª edição foi publicada pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, série Panorama Nacional, Coleção Nossa Cultura); A arte de engolir palavras (contos) e organizou, com Cleudene Aragão: 100 Anos de Rachel de Queiroz: vida e obra.

Apoio Cultural
SESC
Secretaria da Cultura do Estado do Ceará