sexta-feira, 23 de junho de 2017

"Os Pobres Diabos": o drama e o circo, de Raymundo Netto para O POVO


“E o palhaço o que é? É ladrão de mulher!!!!”, clama à corneta um Daniel Diaz sobre pernas de pau cambaleantes e sob a pele de um desromântico palhaço Pororoca – para nós, os palhaços e o circo foram muito ilustrados pelo cronista Ciro Colares –, assediado por crianças curiosas e ao som do tambor de Meio Quilo, personagem de Sâmia Bittencourt, composta em delicadeza imagética e ambígua – era um palhaço ou uma palhaça? –, nas ruas quentes e luminosas do povoado aracatiense, anunciando não Os Pobres Diabos, mas, sim, o Circo, que sempre foi e sempre será “o maior espetáculo da Terra”.
O longa, cuja direção e roteiro são de Rosemberg Cariry, é uma clara e reflexiva homenagem aos artistas circenses – ou à sua capacidade de sobrevivência – que ainda hoje transpõem as porteiras e veredas das cidades mais esquecidas e carroçais do interior nordestino a comungarem a sua arte. No centro das atenções: o Gran Circo Teatro Americano! Muito feliz a alusão à “Santa Ceia”, onde o milagre da multiplicação do pão pode não acontecer amanhã. Protesto poético pela forma como se faz e promove a arte no país: de pires na mão, joelho ralado e mostrando os fundos, sem saber se amanhã o show continua. E o que é pior: sem público e sem aplauso!
Inevitável – penso que não apenas para mim –, diante da grandeza do tema, trazer ao picadeiro outros filmes cuja mágica nos cirquearam um dia, como: O Circo (1928), de Charles Chaplin – o maior de todos, o fura-bolo e o cata-piolho, tudo junto –, O Rei do Circo (1954), com Jerry Lewis, Bye Bye Brasil (1979), de Cacá Diegues – uma delícia a história da famigerada “Caravana Rolidei”, película que conquistou o ingresso na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, da Associação Brasileira de Críticos de Cinema –, Os Saltimbancos Trapalhões (1981), de JB Tanko, e O Palhaço (2011), de Selton Mello  – no qual o ator interpreta o palhaço Pangaré a contracenar com o grande Paulo José, o palhaço Puro Sangue. No filme, a participação engraçadíssima de Moacir Franco.
No elenco de Os Pobres Diabos: Sílvia Buarque, no papel de Creuza de Guadalajara – sem dúvida, uma nova versão de “Salomé”, personagem de Betty Faria em Bye, Bye Brasil –, uma cantora e dançarina de rumba, mãe da menina Izaura – o futuro do Circo –, infeliz com as condições precárias impostas pela vida. É casada com Zeferino, vivido por Gero Camilo, sua primeira participação em longa-metragem na terrinha natal, que apesar de demonstrar ciúmes dos galanteios de Lazarino (Chico Diaz) para a sua amada – algumas das sequências mais humoradas do filme são provocadas pelo triângulo amoroso –, nos parece mais apegado à cabra Genoveva, que é quem garante o seu leitinho “milagroso”. Zezita Matos, que recentemente protagonizou o surreal Mãe e Filha, de Petrus Cariry, interpreta a irmã de Arnaldo, o proprietário (Everaldo Pontes), aquele que diz acreditar que a arte é capaz de vencer a tudo. Com a arte e muita paciência... Daí, na trilha sonora, surge em meio à lona velha, remendada, às gambiarras naturais da itinerância e do nomadismo frequente, principalmente sob o escaldar do sol intolerante, a melancólica canção de Gardel: “El Día que me Quieras”. Fantásticos o clima de realismo do filme e as sequências de ”bastidores”.
Ganhador do Prêmio de Melhor Filme, pelo júri popular, e Prêmio TV Brasil do Festival de Brasília, Os Pobres Diabos apresenta uma fotografia, direção de arte, figurino e cenografia deslumbrantes. O elenco se expressa notadamente teatral, acentuado, naturalmente, na encenação do drama da crise no inferno, no qual todos daquela família circense assumem um papel à luz mais do que legítima da boa literatura de cordel. Nos princípios do circo brasileiro, uma de suas maiores atrações era a representação de dramas, coisa que a Associação dos Proprietários, Artistas e Escolas de Circo do Ceará (Apaece) já vem há algum tempo tentando resgatar. Textos adaptados do romanceiro e da tradição popular, provocantes de lágrimas e/ou gargalhadas. Sucesso para garantir o reingresso do público.
Por ser obra de Rosemberg, contista, poeta, cineasta, pesquisador e promotor da tradição popular nordestina, não poderia dar em outra: cinema, literatura, teatro e resgate. Aliás, em Os Pobres Diabos, assim como as demais produções da Cariri Filmes, o resultado é uma estética autoral de cinema independente, de experimentação (com licença ao improviso), de construção de linguagem, ambientada no espaço do regional e conferindo visibilidade à cultura do povo nordestino.
Vida longa ao Gran Circo d'Os Pobres Diabos, e que se abanque nos melhores cinemas do Brasil.

Atenção:
Estreia nos cinemas no dia 6 de julho de 2017.

Assista ao trailer oficial
https://www.youtube.com/watch?v=oWU4tgxHEuo

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sábado, 3 de junho de 2017

"Adolfo Caminha: 150 anos", de Sânzio de Azevedo para O POVO

Ilustração: Carlus Campos

       Temos um sesquicentenário: Adolfo Caminha, que nasceu no Aracati em 29 de maio de 1867, honra as letras de sua terra, e veio a falecer no Rio de Janeiro em 1º de janeiro de 1897, portanto antes de completar trinta anos de idade.
       Notável ficcionista, dois livros seus, A Normalista (1893) e Bom-Crioulo (1895), garantem sua presença na literatura brasileira.
       Foi oficial da Marinha, fez parte do Centro Republicano do Ceará e, apesar de ter tido uma polêmica com Antônio Sales, foi convidado por Sales para ser um dos membros da Padaria Espiritual, o mais original dos grêmios cearenses do século XIX. No jornal do grupo, O Pão, escrevia a secção “Sabatina” com o nome de guerra Félix Guanabarino.
       Mas antes disso foi protagonista de um escândalo, ao se ligar a uma mulher que o amava, mas que era casada, e com um alferes do Exército. Depois de idas e vindas, como seus superiores quisessem mandá-lo à Europa, decidiu se demitir e foi ser funcionário do Tesouro.
       Começou romântico na literatura, mas seu primeiro romance, A Normalista (1893), é obra naturalista, como o segundo, Bom-Crioulo (1895), tendo este último sido traduzido para o inglês, o francês, o alemão, o turco e não sei mais quais idiomas...        
       Para dar uma ideia de sua prosa, leiamos o início d’A Normalista: “João Maciel da Mata Gadelha, conhecido em Fortaleza por João da Mata, habitava, havia anos, no Trilho, uma casinhola de porta e janela, cor d’açafrão, com a frente encardida pela fuligem das locomotivas que diariamente cruzavam defronte, e donde se avistava a Estação da linha férrea de Baturité.”  
       Várias edições desse livro foram publicadas com alterações indevidas, mas, com a ajuda do saudoso José Bonifácio Câmara, pude preparar em 1998 uma edição com base na primeira, de 1893.
       Aliás, o Armazém da Cultura, dirigido por Albanisa Lúcia Dummar Pontes, está editando esse livro, assim como a 3ª edição de Adolfo Caminha: vida e obra, escrito por mim em homenagem a esse escritor, que é o Patrono da Cadeira nº 1, que tenho a honra de ocupar na Academia Cearense de Letras.
       O escritor publicou ainda um livro de viagem, No País do Ianques (1894) e um de crítica, Cartas literárias (1895). Após sua morte saiu, com a data de 1896, Tentação, seu último romance.
       Graças a Ítalo Gurgel, a Coleção Nordestina publicou, pela UFC, a 2ª edição das Cartas literárias (1999) e o livro Contos (2002), com onze narrativas do escritor.

Sânzio de Azevedo
Doutor em Letras pela UFRJ;

membro da Academia Cearense de Letras



O Ficcionista Escandaloso: Adolfo Caminha, de Raymundo Netto para O POVO


O professor Sânzio de Azevedo, em suas “Palavras Prévias” à biografia Adolfo Caminha: vida e obra*, observa: “Poucas são as vidas de romancistas do Realismo brasileiro que se relacionem estreitamente com a sua obra ficcional. Uma delas é a de Adolfo Caminha, uma existência breve e ao mesmo tempo atormentada.”
Nascido há 150 anos, em Aracati, e falecido há 120, no Rio de Janeiro, Caminha alcançaria o prestígio de ser, mesmo sem ultrapassar os 30 anos de vida, e com três romances (A normalista, Bom-crioulo e Tentação – este, póstumo), um livro de viagem (No país dos ianques) e outro de crítica (Cartas Literárias), um dos maiores nomes da corrente realista-naturalista no país.
Aos 13 anos, órfão de mãe, foi levado ao Rio de Janeiro, onde iniciou-se no exercício literário escrevendo poemas para as revistas Fênix Literária e Revista Escola de Marinha. Lá, na Escola da Marinha, cometeu seu primeiro grande ato de rebeldia quando da, então recente, morte de Vitor Hugo. Convidado a discursar como representante do grêmio literário a seus colegas, autoridades da marinha e ao imperador Pedro II, ao final, bradou: “Ah, não poder ele assistir à nossa marcha triunfal para a Abolição e à República!”. Como o imperador compreendera ser aquele apenas um arroubo da mocidade, a constrangida direção deixou passar. Entretanto, também em 1885, escreveu um manifesto e recolheu assinaturas contra o tradicional “castigo da chibata”, decidido a publicá-lo em jornal, não fosse descoberta a sua intenção pela direção que novamente o repreenderia, agora cogitando a sua disciplinar expulsão, o que não aconteceria.
Em 1888, já oficial, por motivo de saúde, pediu transferência a Fortaleza. Com tanta paixão à literatura, não demorou para envolver-se e conquistar a admiração de seus pares, participando e fundando agremiações e publicando em periódicos, até que a sua “paixão” voltou-se também a jovem Isabel, o que não seria de se estranhar, não fosse ela casada, inda mais com um oficial do Exército. Uma das cenas que se destaca em sua história, é quando Isabel, após uma briga com o marido enciumado, deixa a sua casa, de braços dados, à luz do dia e de todos, com o amante, indiferente às ameaças de morte e aos receios de amigos. Caminha, mais tarde, diante das insistentes pressões de comando, acaba por pedir demissão da Marinha, em prol de assumir de vez o seu maior romance.
Em 1891, com a certeza de não existir crítica literária no Ceará, Adolfo lançaria a sua Revista Moderna. E é nela que iniciaria extensos embates com reconhecidos autores da época, como Antônio Sales – que mesmo assim o convidaria para integrar a Padaria Espiritual – e Rodolfo Teófilo, ao mesmo tempo que protestaria contra a construção da estátua de um governador falecido, o paulista Caio Prado, enquanto José de Alencar, escritor a quem o Ceará tanto devia, nunca, até então, havia recebido similar homenagem.
Em 1893, já residindo no Rio de Janeiro, lançaria A normalista: cenas do Ceará, sentida por alguns críticos como uma vingança do autor contra a “barbaria semicivilizada de uma capital provinciana”, como Araripe Júnior descreve a Fortaleza de então. Dois anos depois, O bom-crioulo, por ter como temática o homossexualismo, em pleno século XIX, como protagonista um negro e como cenário a mais antiga das Forças Armadas brasileiras, causou repulsa e a incompreensão social, a “execração pública”, como afirmou o próprio autor, vítima de “ato inquisitorial da crítica”. Curiosamente, nos anos de 1930, durante o Estado Novo, o Bom-crioulo chegou a ser confiscado sob a alegação de ser obra “comunista” e mesmo nos próximos 30 anos, renomados críticos não recomendariam a sua leitura.
Enfim, muitos são os fatos que nos comprovam a personalidade controvertida de um temperamental e abusado Adolfo Caminha, de forma que, ao mesmo tempo que demonstra em alguns momentos a presença de espírito e caráter, noutros parece não ter nenhum, entretanto, é impossível tirar-lhe o mérito de ficcionista criativo, audacioso, experimentalista, que nos legou obras que marcam seu merecido assento na literatura brasileira.

(*) Em breve, a editora Armazém da Cultura divulgará o lançamento de Adolfo Caminha: vida e obra, de Sânzio de Azevedo, revisto e atualizado, fonte de referência para o estudo sobre o personagem.




quarta-feira, 31 de maio de 2017

"As Subjetividades da Estética Amorosa" em "Quase Que", de Gylmar Chaves


Lançamento
Quase Que:
cem poemas e suas possibilidades afetivas
de Gylmar Chaves

Data e horário: 7 de junho (quarta-feira), a partir das 19h30
Local: Ideal Clube (av. Mons. Tabosa, 1381 – Meireles)
Apresentação: escritor e crítico literário Dimas Macedo
Contatos: (85) 99737-8877/98959-0171

Sobre a obra: Quase que é o título do livro de autoria do escritor Gylmar Chaves, publicado em Portugal e distribuído no Brasil, pela Chiado Editora. A obra é composta de cem poemas e suas possibilidades afetivas. Versa sobre o amor, suas afinidades, empatias, desapegos e contradições.

O livro começou a ser escrito quando o autor ainda morava no Rio de Janeiro. Com ilustração da capa feita especialmente para esta edição, pelo arquiteto Oscar Niemeyer, e design de Flávia Lamas Portela, a maioria dos poemas é resultado da pesquisa “Vamos Falar de Amor”, que Gylmar Chaves vem desenvolvendo, nos últimos anos, sobre a estética amorosa observada como potência das subjetividades. Estética essa construída em tempos históricos diversos, absorvida pelo ser humano em todos seus estágios de vida.

 A pesquisa fará parte do ciclo de palestras que o autor pretende realizar em escolas públicas e particulares da capital e interior cearense. Uma conversa fluida sobre as crenças amorosas limitantes, a cultura íntima imposta por hábitos e acordos históricos, o que pode mudar e ainda não oferecemos um nome! “(...) O amor é um ato de rebelião, uma revolta contra a razão, uma insurreição no organismo político, um motim particular (...)”, afirma a escritora Diane Ackerman.

Sobre o autor: As produções artísticas, editoriais, literárias e jornalísticas de Gylmar Chaves estão estampadas em dezenas de livros e catálogos. Autor de 21 livros, publicados por editoras locais, nacionais e estrangeiras, elaborou a concepção e coordena a Coleção Pajeú, proposta editorial que pretende reafirmar a memória material e imaterial dos bairros de nossa cidade, permeada por uma consciência cidadã e histórica.

Nos últimos anos também tem se dedicado ao projeto Literatura Cidadã, que possibilitou o autor percorrer mais de quinze mil quilômetros a partir de Fortaleza a lugares de difícil acesso localizados nas diversas regiões do Estado do Ceará, além das cidades de Olinda-PE, Exu-PE, Sousa-PB,  Niterói-RJ e São Paulo-SP, realizando assim mais de trezentas palestras sobre Bárbara de Alencar e a construção do sentimento de cidadania, constando ainda da distribuição gratuita do livro infantil (“para todas as idades”) A Invenção de Bárbara de Alencar nesses espaços de educação, com o intuito de despertar nos alunos à construção de um mundo mais solidário por meio da leitura e da partilha do conhecimento.

Depoimentos sobre o livro:
Quase Que, de Gylmar Chaves, é um livro de muitas perguntas e algumas respostas sobre a experiência das relações sentimentais. Generosa, ágil, direta, a lírica de Gylmar Chaves modula, em cem poemas, a teia de ansiedades, encantamento e dor que marcam o encontro amoroso. Uma poética para ser lida atenta e prazerosamente.
Heloísa Buarque de Hollanda

Escrever sem medos é, provavelmente, o único desafio a abraçar na literatura. Quase Que convida a um regresso à estranheza da simplicidade. Ler estes poemas é como invadir o domínio privado de um indizível em ebulição permanente, descobrir aqui e ali a pólvora e depois não poder comentar com ninguém. Afinal de contas, quem beija o outro pela metade, mente para o céu da boca. Quem beija o outro com tudo fica com o quê? Recomenda-se a leitura pela madrugada.

Patrícia Portela, escritora portuguesa

Apoio Cultural
Ideal Clube
Expressão Gráfica




domingo, 28 de maio de 2017

"Nilto Maciel", perfil biográfico por Raymundo Netto, à venda em livraria virtual




Clique na imagem para ampliar!


Para adquirir o livro (valor atual: R$ 16,90):




Não sou escritor por querer. Fui feito assim, desse jeito, como há abestados desse mesmo feitio: músicos, pintores, dançarinos, atores. Deus me quis escritor. Eu bem poderia ter sido apenas um advogado, um funcionário público, um açougueiro.
(“Confissão Pública”, Nilto Maciel, em 7 de março de 2014)

Nilto Maciel é, certamente, um dos mais fecundos, criativos e enigmáticos escritores que o Brasil já produziu. Publicou 8 romances, 8 coletâneas de contos, 8 novelas (Vasto Abismo reúne 7), 1 seleção de poemas, 3 de crônicas, 2 de artigos, resenhas e notas literárias e 2 de ensaios, além da colaboração em diversas revistas, jornais, sites, blogues e antologias, inclusive no exterior, traduzidas para o espanhol, italiano, francês e esperanto. E tanto mais faria se a vida não lhe fosse ainda tão curta.
Beirando os 70 anos, entusiasmava-se com a “nova fase”, descobria-se, explorava os recursos tecnológicos sem abandonar o método analógico e até radical de viver a sua literatura, coisa que fez incessantemente e quase em gritante silêncio – que o digam os seus diários – durante uma carreira de cerca de 40 anos respirando, urdindo e conduzindo palavras.
Embora não se tornasse um nome midiático, teria prestígio e reconhecimento de autor nacional por escritores e críticos dos mais diversos rincões brasileiros, o que pode ser constatado em A Arquitetura Verbal de Nilto Maciel, fortuna crítica organizada ao lado do amigo e poeta “risonho e carinhoso” João Carlos Taveira.
Em 2013, em meio a publicações diversas, pediu a um amigo em comum, o também escritor Pedro Salgueiro, que me sondasse para escrever a sua biografia. Como se adivinhasse, determinava-se a registrar em publicações as suas memórias, seus artigos, sua produção literária, o que pode ser facilmente comprovado pelo número e natureza das obras publicadas – a maioria por conta própria – nos dois últimos anos de existência física, principalmente em Menos Vivi do que Fiei Palavras (2012), Como me Tornei Imortal (2013) e Quintal dos Dias (2013). Não esquecendo as correções e alterações que faria em suas em suas primeiras produções por meio da publicação de Contos Reunidos I e II.
Entretanto, não conseguindo resposta, um dia, em uma de nossas conversas de sala, ao me oferecer outra Coca-Cola, diretamente me perguntou se eu o faria, e propôs “negócio”. Afinal, “ninguém conhecia a sua vida. Ninguém.” A seu modo, respondi: “Nilto, não seria melhor esperar a sua obra completa?” Ele desconversou, lançou alguma piada mordaz, de costume, acomodou-se em sua cadeira de balanço – a perna esquerda fletida e abraçada pelas mãos entrançadas –, coçou o nariz com o indicador nervoso e concluiu: “Pense nisso.” Meses mais tarde, publicaria Quintal dos Dias, uma espécie de autobiografia, como o Menos Vivi do que Fiei Palavras, na realidade, apenas recortes dos cadernos que compunham o seu diário íntimo ou pessoal, um hábito que cultivava desde a sua adolescência.
Desse modo, caros leitores, amigos ou não de Nilto Maciel, vai-se assim esse perfil biográfico muito breve e afetivo, revolvendo em especial as suas, mas também as minhas lembranças, na tentativa de apresentá-los fielmente ao sedutor personagem do homem das letras, longe de qualquer pretensão maior que não seja apenas a de provocar a quem se perceba capacitado e competente ao estudo, pesquisa e publicação de sua obra, campo vário, fértil e inexplorado.
Ao final, deixo uma trilha cronológica biobibliográfica que o próprio autor – porque os espelhos sempre nos distorcem ou enganam – teve dificuldade de traçar corretamente.
Que a literatura lhe seja justa e o silêncio, breve.

O Autor

Tahyba, 2017.


sexta-feira, 26 de maio de 2017

"Normal, Normal!", de Henrique Beltrão


Eu pensava que eu era normal. (Risos.) Normal, normal! Mas o papai, que é sabido, quero dizer, sabe muito mais que muitos lentes, me explicou que não existe isso de ser normal. E o meu filho, que é psicólogo, inteirou dizendo que, se existisse isso de normal... normal, normal ninguém seria. E minha amada, que também é psi, disse “psiu, vem cá”, fomos namorar na rede na varanda sob o luar e eu esqueci o assunto.
Porém, entre tantos, todas as vias, sabe como é a prosa na cabeça de poeta e o dia a dia da poesia: o tema voltou à baila numa mesa de bar em que eu me encontrava rezando um pai-nosso e tentando convencer o Pedro Salgueiro, o Jorge Pieiro e o Carlos Nóbrega a não bebermos naquela noite, assumindo uma postura de “voyeurs” da embriaguez alheia enquanto o Raymundo Netto e o Poeta de Meia-Tigela enchiam a lata (e meia), rompendo ambos todo prosa com a poesia da sua abstemia. Besteira minha! O Carlos Vazconcelos veio chegando e foi logo falando dum livro novo e o povo ergueu um brinde, me engabelaram e pediram em minha homenagem um tira-gosto beleza, da maior leveza, que tinha palmito, alface e eu adorei, mas não comi pra deixar pra eles enquanto saía a costelinha de porco na brasa, mora?
Foi nessa hora que um de nós caiu na besteira (vixe, eu já empreguei essa palavra no parágrafo anterior) de dizer por algum motivo etílico, “pardon”, idílico (do ponto de vista grego): “isso é normal”. Raymundo a todo o mundo (pra rimar) perguntou o que era normal, mas eu acho que ele sabia o que era. E o Pieiro piolhou, digo, piorou as coisas dizendo que as coisas e a maioria dos animais podem ser normais, mas não os seres humanos – que até desumanos conseguem ser. Faz sentido.
Vocês sabem: uma mesa com uma ruma de escritores ensina / sempre alguma divagação traz / e do primeiro que se retira jaz / a ilibada conduta posta à prova das línguas ferinas. A noite estica, o tempo faz curva, a gente pede outra e, enquanto espera partir o incauto primeiro, fala mal do garçom.
Pior que se pelo menos a Tércia Montenegro tivesse vindo... Mas não, eu fiquei ali sem saber o que calar, no meio daquele macharal feio (à exceção de mim, normalmente bonito, digo, simplesmente bonito), falando mel da vida.
Insistiram no assunto! Pra mim, até discussão tem de ser de coração. (Sou um romântico mesmo.)
Então... disse eu: como ser “conforme a norma” conforme (acho que já usei essa palavra também, mas a memória recente anda indecente) a primeira definição do dicionário? O Carlos pediu o sal e o Pedro Sal achou que era uma onda com ele e respondeu: Vaz, vais te lascar! O Poeta DMT colocou DDT na discussão e o outro Carlos nobregamente ergueu outro brinde enquanto o Netto que se chama Raymundo neste vasto mundo pedia mais duas cocas para ele e o Poeta. Eu estava ficando sóbrio.
Foi quando o dito DMT lembrou do cabra da história do compadre Jessiê Quirino que fumou maconha e disse que estava normal, normal, normal... Vendo uma ruma de jacaré e achando que um deles estava comendo o pé dele, a mulher perguntando qual e ele dizendo que não sabia, já que jaca e jacaré é tudo igual.
A essa altura eu recordei aos comparsas, digo, aos companheiros que justamente a injustiçada maconha, por exemplo, é “natural”, portanto “usual e comum”, de acordo com a segunda definição de “normal”. Eles riram, mangando de mim, eu fiquei emburrado, que eu não sou burro, e só não enrolei unzinho porque estava sem seda e sem erva, eras! Também, muito embora agora quase não role da solta, o conversa, esta rolava solta até o Poeta de Meia-Tigela e o Carlos Nóbrega lembrarem e falarem ao mesmo tempo a mesma coisa que nem no livro deles “acidade” em que eles escrevem juntinhos e nós outros aproveitamos pra fazer “humrum” e dizer em coro “já entendi”...
 Certo é que a primeira página se foi, a segunda está acabando e eu com medo de perder as poucas leitoras e leitores que normalmente não têm paciência pra ler coisa comprida, saquei a definição 3: “sem defeitos ou problemas físicos ou mentais”. Eles responderam: “Iiiiiirrrriiiii!” Eu não entendi, mas o Vaz me esclareceu com aquele tom cavalheiresco e didático dele que, como eu faço o programa Todos os Sentidos na Rádio Universitária FM 107,9 ao vivo às quartas às 14 horas levando ao ar a voz das pessoas com deficiência, não fazia sentido nenhum citar essa definição. Mas divulgar o programa pode!
Eu me defendi dizendo que só citara, se aquela gente se excitara, era por conta da garçonete e pedimos a primeira saideira. O Poeta DMT... deu mais tempo...  Escutou calado. Foi a vez do Vaz erguer um brinde. Eu já estava ficando bonzinho, bonzinho. Não normal. Fazia um 4 e um 44. Tigela resolveu de novo meter a colher no caldeirão da conversa falando de filosofia. Todos se olharam em silêncio e fizemos uma reverência ao final. Ele se encabulou tanto que se enganou e bebeu meu copo de cerveja. Todo. Eu não achei aquilo aceitável e comum.
“É isso!” – disse o Sal apimentando o colóquio colocando textualmente: “normal: cujo comportamento é considerado aceitável e comum”. E acrescentou solene e pausadamente: “(diz-se de pessoa)”. Jorge riu à beça, ninguém entendeu direito por quê. Salvo a leitora, o leitor que normalmente, ops, comumente, não, frequentemente espera um final decente. Que nada! A gente pediu a conta, foi saindo de fininho e deu um xexo no Pedro que ficou falando com a garçonete sobre os valores do inimigo – e dos amigos.
Sabe como é nosso lema, ou melhor, um deles: Somos absolutamente a favor de tudo que for contra. E mais! Somos absurdamente contra tudo que for só de favor. “Quem conta um conto aumenta um ponto” e não acerta as contas. De minha parte, fiz Letras pra não ver mais números e assumi minha discalculia. Não sei fazer contas, mas sei fazer poesia.

Henrique Sérgio Beltrão de Castro

quarta-feira, 24 de maio de 2017

"José Albano: versos de 1906", de Sânzio de Azevedo para o jornal O POVO


Sânzio de Azevedo

Doutor em Letras pela UFRJ e
membro da Academia Cearense de Letras

sanziodeazevedo@gmail.com

Rodrigo Marques, meu amigo e professor da Uece em Quixadá, presenteou-me com um exemplar do Almanaque Brasileiro Garnier de 1908, sob a direção de João Ribeiro. Sabendo-me estudioso da literatura cearense, a razão do presente é o fato de nesse livro haver umas “Redondilhas de José d’Abreu Albano”. Como esta “Esparsa”: “Há no meu peito uma porta / A bater continuamente, / Onde a esperança jaz morta/ E o coração jaz doente; / Em toda parte em que eu ando, / Oiço este murmúrio infindo:  / São as tristezas entrando /   E as alegrias saindo.”
Possuo três opúsculos sob o título geral Rimas de José Albano, editados em 1912, em Barcelona, Espanha, nas oficinas de Fidel Giró. Num deles, Redondilhas, esta “Esparsa” traz no verso 4º “coraçam” e, no penúltimo, “sam”, em vez de “são”. Houve quem achasse que o poeta queria salientar o caráter arcaico do poema.  Mas na Antologia Poética publicada em Fortaleza, em 1918, deixaram de aparecer essas formas, o que me levou a concluir que se tratava de recurso para contornar o problema tipográfico de não haver na Espanha o til sobre vogais.
Os outros opúsculos são Alegoria e Cançam a Camoens e Ode à língua portuguesa. Note-se que o nome de Camões está grafado à maneira espanhola.
O menos desconhecido texto de Albano é o soneto que se inicia assim: “Poeta fui e do áspero destino / Senti bem cedo a mão pesada e dura. / Conheci mais tristeza que ventura / E sempre andei errante e peregrino.” Manuel Bandeira, que em 1948 organizou as Rimas de José Albano, disse que esse soneto “nos soa em verdade como um soneto póstumo de Camões”. Prefiro ficar com Braga Montenegro, que escreveu: “assim como Camões imitando Petrarca redigiria o soneto camoniano, José Albano imitando Camões comporia o soneto à própria maneira”.
Desconsiderando os fracos poemas nos jornais de Fortaleza em 1901, creio que essas redondilhas do almanaque presenteado por Rodrigues Marques são os primeiros poemas de Albano publicados no Rio de Janeiro.
Mesmo escrevendo no século XX à maneira quinhentista, José Albano (1882-1923) foi considerado por Manuel Bandeira “um altíssimo poeta”. E o grande Manuel Bandeira era um vanguardista.     


sábado, 13 de maio de 2017

"Mãe de Coração", de Raymundo Netto para O POVO


Para Cleide e Sabrina

Li ontem, estampada em camisa escolar comemorativa do dia das mães: “Mãe, o amor que se expressa por meio do dom de GERAR a vida!” Logo que a vi, pensei: “Fazer” filhos é a coisa mais fácil do mundo, até por ser, na maioria dos casos, frutos de um instante prazeroso. Gestá-los, todavia, não é tão simples – como não sou mulher, não correrei o risco de avançar nesse tópico –, mas, dependendo dos fatores de entorno, qualquer complicação, mesmo às de acentuado grau, quando diante desse significante acontecimento, pode ser completa e absolutamente irrelevante.
Cientes, aqui, que nenhuma mulher tem a obrigação de ser mãe para ser plena ou realizada. Aliás, seria um grande favor às futuras gerações que algumas reconhecessem a sua inabilidade, inaptidão ou consciente malquerer ao exercício, em vez de ouvir ao clamor da opressora e inconsequente práxis social.
Algumas mães, entretanto, ou nunca experienciaram esse momento gestacional ou mesmo que o tenham vivido, sobra-lhes ainda amor suficiente para dividir com outro(a) filho(a), sendo este “de coração”. Sim, “mães de coração”, como são comumente denominadas as mães adotivas, aquelas que ousam crer ser possível uma história de AMOR superar a de abandono de berço.
Atualmente, no Brasil, existem cerca de 37 mil crianças distribuídas em unidades de acolhimento institucional – antigos “abrigos” –, mas apenas 7 mil são consideradas aptas a serem adotadas. Entre as 30 mil, algumas ainda têm vínculo com a família biológica – mesmo que não afetivo – e outras aguardam a tardíssima Justiça na conclusão da destituição do poder familiar, processo este que, por lei, deveria durar até 120 dias, mas que, na “vida real”, muitas vezes chega a 5 anos. Dá para imaginar o imenso prejuízo que essa lentidão traz para a vida de uma criança?
Por outro lado, o número de famílias habilitadas para adoção é bem superior: 36 mil. Daí a dúvida: se temos 7 mil crianças querendo ser adotadas e 36 mil famílias querendo adotar, por que ainda encontramos crianças esperando nessa fila? Desconsiderando a questão dos trâmites legais, entre as respostas, a mais comum: cerca de 70 a 80% desses pais preferem crianças – geralmente meninas – brancas, com, no máximo, 3 a 5 anos – quando a maioria tem entre 6 e 17 anos –, e que não tenham problemas de saúde nem irmão(s) – cerca de 36% das crianças habilitadas têm irmãos também inscritos no Cadastro Nacional de Adoção.
A “gestação” da mãe de coração, para quem não vive essa realidade, não é nada fácil, correspondente a um fórceps legal – a parteira, no caso, é a assistente social; e a sentença de habilitação, o parto.
A princípio, caberia ao leitor sentir na pele empática a história muitas vezes marcada por frustradas tentativas convencionais ou não e/ou mesmo por experiências de luto. Depois, transcender aos preconceitos, ao inesperado julgamento familiar – às vezes, familiares não entendem e a recriminam –, à(s) culpa(s), possíveis fragilidades e ao exercício de paciência e resignação diante das visitas e despedidas dolorosas, da coleta documental, de infindáveis entrevistas e a perda do irrecuperável tempo.
Contudo, o mais importante é o reencontro, o momento único de definitivo amparo, acolhida e de aceitação um do outro, ação movida pelo amor, independentemente da forma como este lhe chega e que, portanto, não há menor diferença, pois adoção nada tem a ver com caridade e nenhuma dessas maternidades é menor do que as biológicas, já que o amor que nasce desse coração não se limita aos esboços do sangue nem ao umbigo.
Neste Dia das Mães, preferia ter lido: “Mãe, o amor que se expressa por meio do dom de APOSTAR na vida!” Nossas vidas e vivas às mães e filhos do coração.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

"Fotografia 3 x 4", de Raymundo Netto em "Para Belchior com Amor", org. Ricardo Kelmer, ed. Miragem


Publicado originalmente em Para Belchior com Amor, organizado por Ricardo Kelmer.

Quanto amei ou deixei de amar,
é a mesma saudade em mim.
Fernando Pessoa

“Sobral?”, riu-se. “E existe isso?”
“Existe, seu guarda. E não é só no Norte, não, viu? Na Europa também. O senhor já deve ter estado por lá, claro.”
O policial que, tirando a farda e a arrogância, não era muito diferente daquele moço encantado, de cabelos ventaneados, basto bigode e surrado pela cidade grande, percebeu a mangação, lhe devolveu o documento e advertiu:
“Tome juízo, rapaz. Assim como você, tem muitos aqui no xilindró.”
Não era mentira. Sozinho, tarde da noite, numa esquina deserta da Lapa, sem dinheiro no bolso e com perversa juventude sobrando no peito, caminhava no descompromisso do tempo para a praça Mauá, ou na direção de onde nasce o Sol, esperando a noite passar – aprendera com a noite fria a amar mais o seu dia, assim como pela dor o poder da alegria – ao encontro de um camarada, como ele, a morar na filosofia (leia-se “na rua”), sustentando-se da venda de cachorros-quentes e refrigerantes na av. Atlântica.
Levando o violão debaixo do braço, arranhando um acorde aqui e acolá, arrastava-se aquele moço de tantas tristezas pelo abismo e pelas vertigens de sombras do abandono de sobrados inda em sacadas de ferro, cruzando com taxistas nas calçadas a discutir o futebol, com amantes em bancos apertados e abraços espaçosos, com damas noturnas de mãos nos quartos, ilustradas apenas por tímidos lampiões em seu tempo negro: “É, sir Newton já sabia: o que pesa no Norte, pela lei da gravidade, desce para o Sul grande cidade...”
Sentou-se num degrau de escadaria e retirou a cansada alpercata, comprimindo calos de léguas tiranas, enquanto observava à frente o burburinho nos bares e inferninhos, revelando a cinzenta alegria da solidão carioca.
Ali, desapontado e desnorteado (sem o Norte), saudoso de casa, de afetos, dos quintais, da rede branca, da mulher que amou e que não pôde, ainda bem, lhe seguir, cantarolava num dedilhado baixinho: “Nam... na, na, na, na, na, na, nam... nam, nam...”
Enfadado e ferido às costas pelo peso das escolhas, tirou do bolso um livrinho, quase sua oração, onde se lia: “A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.” Enchia os olhos de lágrimas, fortes como um segredo e verdes como o doce da cana, e, num poço qualquer de seu coração selvagem e repleto de dias de ironias, lhe saltava a certeza de que, como “a eterna novidade do mundo”, tinha coisas novas, coisas novas para dizer.
Levantou-se e meteu o pé na estrada de não poder parar mais – na cabeça canções de rádio e de discos –, a curtir o teimoso violão, aceso pelo cigarro, livre pelas palavras, sonhos e sons, sem regras nem reverências, lembrando-se de um tempo de cantoria em feira e o desejo de esquecer o que lhe era antigo, deixadas as suas mágoas todas naquelas águas fundas e distantes dos verdes-marinhos mucuripes: “Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar/ Que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar”.
A madrugadinha já despertava os primeiros cantares de galos de sua memória sertaneja. Veio-lhe com ela um trecho de carta a um colega – “Veloso, o Sol não é tão bonito pra quem vem do Norte e vai viver na rua” –, quando deparou-se com o olhar desconfiado de outro policial na curva do caminho, cumprindo o seu duro dever: “Por gentileza, seus documentos.”
O poeta repetiu o mesmo gesto de todas as vezes e de todas as noites, retirando o registro do bolso traseiro de seu blue jeans e lhe entregando, enquanto trastejava um dedo de violão: “Eu sou como você, eu sou como você, eu sou como você...”
“Sobral?”, estranhou.
“Sim, senhor. Mas Sobral do Ceará. Soy latino-americano.”
“Carlos Gomes? O músico famoso, é?”, gargalhou, estalando o indicador na fotografia mal impressa.
“Sim, Carlos Gomes Belchior. Mas pode me chamar de Belchior, também músico, ainda não famoso. Mas vamos logo, seu guarda, que o Sol está nascendo e eu não tenho nada, nadinha, a não ser uma puta pressa de viver!”

“Amar e mudar as coisas”

Belchior finalmente voltou (1946-2017)


sexta-feira, 28 de abril de 2017

"O Progresso que Engana", de Milton Hatoum



Foto: K.Jhones

Há poucos dias visitei uma casa na rua Saldanha Marinho, no centro de Manaus, que é também o centro da minha infância e, portanto, da minha memória.
Vi a mesma biblioteca com livros brasileiros, portugueses e franceses, a escrivaninha de cedro, os lustres antigos, os vitrais coloridos em forma de ogiva. Atravessei o longo corredor lateral que dá acesso aos quartos e à cozinha e termina num pátio cheio de vasos com avencas e tajás. No fim desse corredor, sentada numa austríaca, vi dona Maria Luiza Freitas Pinto, a professora que me alfabetizou.
Aos 97 anos, com uma lucidez invejável, ela relembrou cenas de um passado remoto. Disse que eu sentava num banquinho feito por índios da Colômbia e conversava com Anna Telles, mãe de dona Maria Luiza.
“Tu também gostavas de ver meu pai limpar discos com o rabo de um macaco barrigudo.”
Olhou para mim, viajando no tempo, e prosseguiu, orgulhosa:
“O grupo escolar Barão do Rio Branco ainda está de pé”.
De fato, o edifício antigo resistiu à barbárie que usurpou a memória urbana de Manaus. Comparado com a atual arquitetura da cidade, o estilo neoclássico do grupo escolar esbanja refinamento. Parece que os arquitetos se esqueceram do clima do equador. Mais fácil é projetar caixotes vedados, banindo varandas e janelões.
Disse à professora que o jambeiro ainda sombreia o pátio do grupo escolar, que, hoje, é uma escola estadual; nos meses de inverno, o chão ficará coberto de flores vermelhas, os leões de pedra da entrada vão perder sua cor de açafrão, os pilares serão manchados de limo.
“Naquela época”, ela disse, folheando o livro de crônicas que lhe ofereci, “havia respeito mútuo… E uma boa biblioteca em cada escola”.
Ela mencionou o prestígio do corpo docente, os exercícios em sala de aula – ditados, leituras, tabuadas e redações –, o mapa colorido do Brasil, com seus estados e capitais, que os alunos deviam nomear.
Mas ao lado desse mapa pendurado na parede, havia uma palmatória, eu disse.
“Sim”, ela concordou. “Quando eu olhava para a palmatória, os alunos mais endiabrados se acalmavam. E tu não eras um santo. Naquele tempo, a disciplina… Mas havia educação doméstica, a disciplina começava em casa. Tudo isso acabou. E já não há mais amor na aprendizagem.”
Recordei alguns amigos do Barão do Rio Branco: os mais pobres moravam em palafitas na beira dos Igarapés de Manaus e dos Educandos; arregalavam os olhos quando viam a merenda dos que moravam em terra firme: banana frita, tapioquinha, queijo coalho, suco de graviola, guaraná Tuchaua. Eu invejava a caligrafia caprichosa de Paulo Tarso, e imaginava que ele tinha uma maquininha na mão direita.
“A caligrafia era um exercício necessário”, disse a professora. “Hoje em dia, poucos jovens usam um lápis ou uma caneta… O mais importante é saber ler e escrever. Saber pensar…”
Foi uma visita breve: não queria interromper a sesta da professora. Antes de sair da casa verde, prometi a dona Maria Luiza que voltaria a Manaus sem muita demora.
“Guardaste a redação?”
Claro, eu disse.
A professora referia-se à primeira redação que escrevi no Barão do Rio Branco. Ela me entregara a folha amarelada em 1989, quando lancei em Manaus meu primeiro romance. O texto descreve uma viagem ao Careiro e é ilustrado por um desenho de uma fazendola.
Numa viagem recente a uma comunidade rural do Amazonas, visitei uma escola pública, cujo estado era lamentável. Parecia um chiqueiro.
Pensei nas crianças humildes dessas comunidades ribeirinhas, crianças e jovens sem qualquer futuro, ou proibidas de sonhar com o futuro. Mais de 10% da população do Amazonas é analfabeta. Enquanto me distanciava da casa da professora, pensava nas armadilhas do “progresso”, nas contradições entre a economia dinâmica da zona franca de Manaus e as desastrosas e ineficientes políticas públicas. Pensava nesse impasse, andando na rua sem sombra, porque na cidade equatorial, tão briosa de seu crescimento exuberante, não há calçadas nem árvores.

Publicado originalmente em O Estadão.