quarta-feira, 24 de maio de 2017

"José Albano: versos de 1906", de Sânzio de Azevedo para o jornal O POVO


Sânzio de Azevedo

Doutor em Letras pela UFRJ e
membro da Academia Cearense de Letras

sanziodeazevedo@gmail.com

Rodrigo Marques, meu amigo e professor da Uece em Quixadá, presenteou-me com um exemplar do Almanaque Brasileiro Garnier de 1908, sob a direção de João Ribeiro. Sabendo-me estudioso da literatura cearense, a razão do presente é o fato de nesse livro haver umas “Redondilhas de José d’Abreu Albano”. Como esta “Esparsa”: “Há no meu peito uma porta / A bater continuamente, / Onde a esperança jaz morta/ E o coração jaz doente; / Em toda parte em que eu ando, / Oiço este murmúrio infindo:  / São as tristezas entrando /   E as alegrias saindo.”
Possuo três opúsculos sob o título geral Rimas de José Albano, editados em 1912, em Barcelona, Espanha, nas oficinas de Fidel Giró. Num deles, Redondilhas, esta “Esparsa” traz no verso 4º “coraçam” e, no penúltimo, “sam”, em vez de “são”. Houve quem achasse que o poeta queria salientar o caráter arcaico do poema.  Mas na Antologia Poética publicada em Fortaleza, em 1918, deixaram de aparecer essas formas, o que me levou a concluir que se tratava de recurso para contornar o problema tipográfico de não haver na Espanha o til sobre vogais.
Os outros opúsculos são Alegoria e Cançam a Camoens e Ode à língua portuguesa. Note-se que o nome de Camões está grafado à maneira espanhola.
O menos desconhecido texto de Albano é o soneto que se inicia assim: “Poeta fui e do áspero destino / Senti bem cedo a mão pesada e dura. / Conheci mais tristeza que ventura / E sempre andei errante e peregrino.” Manuel Bandeira, que em 1948 organizou as Rimas de José Albano, disse que esse soneto “nos soa em verdade como um soneto póstumo de Camões”. Prefiro ficar com Braga Montenegro, que escreveu: “assim como Camões imitando Petrarca redigiria o soneto camoniano, José Albano imitando Camões comporia o soneto à própria maneira”.
Desconsiderando os fracos poemas nos jornais de Fortaleza em 1901, creio que essas redondilhas do almanaque presenteado por Rodrigues Marques são os primeiros poemas de Albano publicados no Rio de Janeiro.
Mesmo escrevendo no século XX à maneira quinhentista, José Albano (1882-1923) foi considerado por Manuel Bandeira “um altíssimo poeta”. E o grande Manuel Bandeira era um vanguardista.     


sábado, 13 de maio de 2017

"Mãe de Coração", de Raymundo Netto para O POVO


Para Cleide e Sabrina

Li ontem, estampada em camisa escolar comemorativa do dia das mães: “Mãe, o amor que se expressa por meio do dom de GERAR a vida!” Logo que a vi, pensei: “Fazer” filhos é a coisa mais fácil do mundo, até por ser, na maioria dos casos, frutos de um instante prazeroso. Gestá-los, todavia, não é tão simples – como não sou mulher, não correrei o risco de avançar nesse tópico –, mas, dependendo dos fatores de entorno, qualquer complicação, mesmo às de acentuado grau, quando diante desse significante acontecimento, pode ser completa e absolutamente irrelevante.
Cientes, aqui, que nenhuma mulher tem a obrigação de ser mãe para ser plena ou realizada. Aliás, seria um grande favor às futuras gerações que algumas reconhecessem a sua inabilidade, inaptidão ou consciente malquerer ao exercício, em vez de ouvir ao clamor da opressora e inconsequente práxis social.
Algumas mães, entretanto, ou nunca experienciaram esse momento gestacional ou mesmo que o tenham vivido, sobra-lhes ainda amor suficiente para dividir com outro(a) filho(a), sendo este “de coração”. Sim, “mães de coração”, como são comumente denominadas as mães adotivas, aquelas que ousam crer ser possível uma história de AMOR superar a de abandono de berço.
Atualmente, no Brasil, existem cerca de 37 mil crianças distribuídas em unidades de acolhimento institucional – antigos “abrigos” –, mas apenas 7 mil são consideradas aptas a serem adotadas. Entre as 30 mil, algumas ainda têm vínculo com a família biológica – mesmo que não afetivo – e outras aguardam a tardíssima Justiça na conclusão da destituição do poder familiar, processo este que, por lei, deveria durar até 120 dias, mas que, na “vida real”, muitas vezes chega a 5 anos. Dá para imaginar o imenso prejuízo que essa lentidão traz para a vida de uma criança?
Por outro lado, o número de famílias habilitadas para adoção é bem superior: 36 mil. Daí a dúvida: se temos 7 mil crianças querendo ser adotadas e 36 mil famílias querendo adotar, por que ainda encontramos crianças esperando nessa fila? Desconsiderando a questão dos trâmites legais, entre as respostas, a mais comum: cerca de 70 a 80% desses pais preferem crianças – geralmente meninas – brancas, com, no máximo, 3 a 5 anos – quando a maioria tem entre 6 e 17 anos –, e que não tenham problemas de saúde nem irmão(s) – cerca de 36% das crianças habilitadas têm irmãos também inscritos no Cadastro Nacional de Adoção.
A “gestação” da mãe de coração, para quem não vive essa realidade, não é nada fácil, correspondente a um fórceps legal – a parteira, no caso, é a assistente social; e a sentença de habilitação, o parto.
A princípio, caberia ao leitor sentir na pele empática a história muitas vezes marcada por frustradas tentativas convencionais ou não e/ou mesmo por experiências de luto. Depois, transcender aos preconceitos, ao inesperado julgamento familiar – às vezes, familiares não entendem e a recriminam –, à(s) culpa(s), possíveis fragilidades e ao exercício de paciência e resignação diante das visitas e despedidas dolorosas, da coleta documental, de infindáveis entrevistas e a perda do irrecuperável tempo.
Contudo, o mais importante é o reencontro, o momento único de definitivo amparo, acolhida e de aceitação um do outro, ação movida pelo amor, independentemente da forma como este lhe chega e que, portanto, não há menor diferença, pois adoção nada tem a ver com caridade e nenhuma dessas maternidades é menor do que as biológicas, já que o amor que nasce desse coração não se limita aos esboços do sangue nem ao umbigo.
Neste Dia das Mães, preferia ter lido: “Mãe, o amor que se expressa por meio do dom de APOSTAR na vida!” Nossas vidas e vivas às mães e filhos do coração.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

"Fotografia 3 x 4", de Raymundo Netto em "Para Belchior com Amor", org. Ricardo Kelmer, ed. Miragem


Publicado originalmente em Para Belchior com Amor, organizado por Ricardo Kelmer.

Quanto amei ou deixei de amar,
é a mesma saudade em mim.
Fernando Pessoa

“Sobral?”, riu-se. “E existe isso?”
“Existe, seu guarda. E não é só no Norte, não, viu? Na Europa também. O senhor já deve ter estado por lá, claro.”
O policial que, tirando a farda e a arrogância, não era muito diferente daquele moço encantado, de cabelos ventaneados, basto bigode e surrado pela cidade grande, percebeu a mangação, lhe devolveu o documento e advertiu:
“Tome juízo, rapaz. Assim como você, tem muitos aqui no xilindró.”
Não era mentira. Sozinho, tarde da noite, numa esquina deserta da Lapa, sem dinheiro no bolso e com perversa juventude sobrando no peito, caminhava no descompromisso do tempo para a praça Mauá, ou na direção de onde nasce o Sol, esperando a noite passar – aprendera com a noite fria a amar mais o seu dia, assim como pela dor o poder da alegria – ao encontro de um camarada, como ele, a morar na filosofia (leia-se “na rua”), sustentando-se da venda de cachorros-quentes e refrigerantes na av. Atlântica.
Levando o violão debaixo do braço, arranhando um acorde aqui e acolá, arrastava-se aquele moço de tantas tristezas pelo abismo e pelas vertigens de sombras do abandono de sobrados inda em sacadas de ferro, cruzando com taxistas nas calçadas a discutir o futebol, com amantes em bancos apertados e abraços espaçosos, com damas noturnas de mãos nos quartos, ilustradas apenas por tímidos lampiões em seu tempo negro: “É, sir Newton já sabia: o que pesa no Norte, pela lei da gravidade, desce para o Sul grande cidade...”
Sentou-se num degrau de escadaria e retirou a cansada alpercata, comprimindo calos de léguas tiranas, enquanto observava à frente o burburinho nos bares e inferninhos, revelando a cinzenta alegria da solidão carioca.
Ali, desapontado e desnorteado (sem o Norte), saudoso de casa, de afetos, dos quintais, da rede branca, da mulher que amou e que não pôde, ainda bem, lhe seguir, cantarolava num dedilhado baixinho: “Nam... na, na, na, na, na, na, nam... nam, nam...”
Enfadado e ferido às costas pelo peso das escolhas, tirou do bolso um livrinho, quase sua oração, onde se lia: “A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.” Enchia os olhos de lágrimas, fortes como um segredo e verdes como o doce da cana, e, num poço qualquer de seu coração selvagem e repleto de dias de ironias, lhe saltava a certeza de que, como “a eterna novidade do mundo”, tinha coisas novas, coisas novas para dizer.
Levantou-se e meteu o pé na estrada de não poder parar mais – na cabeça canções de rádio e de discos –, a curtir o teimoso violão, aceso pelo cigarro, livre pelas palavras, sonhos e sons, sem regras nem reverências, lembrando-se de um tempo de cantoria em feira e o desejo de esquecer o que lhe era antigo, deixadas as suas mágoas todas naquelas águas fundas e distantes dos verdes-marinhos mucuripes: “Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar/ Que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar”.
A madrugadinha já despertava os primeiros cantares de galos de sua memória sertaneja. Veio-lhe com ela um trecho de carta a um colega – “Veloso, o Sol não é tão bonito pra quem vem do Norte e vai viver na rua” –, quando deparou-se com o olhar desconfiado de outro policial na curva do caminho, cumprindo o seu duro dever: “Por gentileza, seus documentos.”
O poeta repetiu o mesmo gesto de todas as vezes e de todas as noites, retirando o registro do bolso traseiro de seu blue jeans e lhe entregando, enquanto trastejava um dedo de violão: “Eu sou como você, eu sou como você, eu sou como você...”
“Sobral?”, estranhou.
“Sim, senhor. Mas Sobral do Ceará. Soy latino-americano.”
“Carlos Gomes? O músico famoso, é?”, gargalhou, estalando o indicador na fotografia mal impressa.
“Sim, Carlos Gomes Belchior. Mas pode me chamar de Belchior, também músico, ainda não famoso. Mas vamos logo, seu guarda, que o Sol está nascendo e eu não tenho nada, nadinha, a não ser uma puta pressa de viver!”

“Amar e mudar as coisas”

Belchior finalmente voltou (1946-2017)


sexta-feira, 28 de abril de 2017

"O Progresso que Engana", de Milton Hatoum



Foto: K.Jhones

Há poucos dias visitei uma casa na rua Saldanha Marinho, no centro de Manaus, que é também o centro da minha infância e, portanto, da minha memória.
Vi a mesma biblioteca com livros brasileiros, portugueses e franceses, a escrivaninha de cedro, os lustres antigos, os vitrais coloridos em forma de ogiva. Atravessei o longo corredor lateral que dá acesso aos quartos e à cozinha e termina num pátio cheio de vasos com avencas e tajás. No fim desse corredor, sentada numa austríaca, vi dona Maria Luiza Freitas Pinto, a professora que me alfabetizou.
Aos 97 anos, com uma lucidez invejável, ela relembrou cenas de um passado remoto. Disse que eu sentava num banquinho feito por índios da Colômbia e conversava com Anna Telles, mãe de dona Maria Luiza.
“Tu também gostavas de ver meu pai limpar discos com o rabo de um macaco barrigudo.”
Olhou para mim, viajando no tempo, e prosseguiu, orgulhosa:
“O grupo escolar Barão do Rio Branco ainda está de pé”.
De fato, o edifício antigo resistiu à barbárie que usurpou a memória urbana de Manaus. Comparado com a atual arquitetura da cidade, o estilo neoclássico do grupo escolar esbanja refinamento. Parece que os arquitetos se esqueceram do clima do equador. Mais fácil é projetar caixotes vedados, banindo varandas e janelões.
Disse à professora que o jambeiro ainda sombreia o pátio do grupo escolar, que, hoje, é uma escola estadual; nos meses de inverno, o chão ficará coberto de flores vermelhas, os leões de pedra da entrada vão perder sua cor de açafrão, os pilares serão manchados de limo.
“Naquela época”, ela disse, folheando o livro de crônicas que lhe ofereci, “havia respeito mútuo… E uma boa biblioteca em cada escola”.
Ela mencionou o prestígio do corpo docente, os exercícios em sala de aula – ditados, leituras, tabuadas e redações –, o mapa colorido do Brasil, com seus estados e capitais, que os alunos deviam nomear.
Mas ao lado desse mapa pendurado na parede, havia uma palmatória, eu disse.
“Sim”, ela concordou. “Quando eu olhava para a palmatória, os alunos mais endiabrados se acalmavam. E tu não eras um santo. Naquele tempo, a disciplina… Mas havia educação doméstica, a disciplina começava em casa. Tudo isso acabou. E já não há mais amor na aprendizagem.”
Recordei alguns amigos do Barão do Rio Branco: os mais pobres moravam em palafitas na beira dos Igarapés de Manaus e dos Educandos; arregalavam os olhos quando viam a merenda dos que moravam em terra firme: banana frita, tapioquinha, queijo coalho, suco de graviola, guaraná Tuchaua. Eu invejava a caligrafia caprichosa de Paulo Tarso, e imaginava que ele tinha uma maquininha na mão direita.
“A caligrafia era um exercício necessário”, disse a professora. “Hoje em dia, poucos jovens usam um lápis ou uma caneta… O mais importante é saber ler e escrever. Saber pensar…”
Foi uma visita breve: não queria interromper a sesta da professora. Antes de sair da casa verde, prometi a dona Maria Luiza que voltaria a Manaus sem muita demora.
“Guardaste a redação?”
Claro, eu disse.
A professora referia-se à primeira redação que escrevi no Barão do Rio Branco. Ela me entregara a folha amarelada em 1989, quando lancei em Manaus meu primeiro romance. O texto descreve uma viagem ao Careiro e é ilustrado por um desenho de uma fazendola.
Numa viagem recente a uma comunidade rural do Amazonas, visitei uma escola pública, cujo estado era lamentável. Parecia um chiqueiro.
Pensei nas crianças humildes dessas comunidades ribeirinhas, crianças e jovens sem qualquer futuro, ou proibidas de sonhar com o futuro. Mais de 10% da população do Amazonas é analfabeta. Enquanto me distanciava da casa da professora, pensava nas armadilhas do “progresso”, nas contradições entre a economia dinâmica da zona franca de Manaus e as desastrosas e ineficientes políticas públicas. Pensava nesse impasse, andando na rua sem sombra, porque na cidade equatorial, tão briosa de seu crescimento exuberante, não há calçadas nem árvores.

Publicado originalmente em O Estadão.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

"Tiradentes: o herói do feriado de sexta-feira", por João Soares Neto


Cartaz do filme "Joaquim", de Marcelo Gomes

Assista ao trailer: 

“JUSTIÇA que a Rainha Nossa Senhora manda fazer a este infame réu Joaquim José da Silva Xavier pelo horroroso crime de rebelião e alta traição de que se constitui chefe e cabeça na capitania de Minas Gerais, com a mais escandalosa temeridade contra a Real Soberania e Suprema Autoridade da mesma senhora, que Deus guarde”. Parte da sentença de morte contra Tiradentes.
Que continua: “Mando que com este baraço e pregão seja levado pelas ruas públicas desta cidade ao lugar da forca e nela morra de morte natural para sempre e que a cabeça separada do corpo seja levada à Vila Rica...” (Boletim da Polícia Militar do Rio de Janeiro, no. 53, em 18.04.2008).
Em 1776 aconteceu a Independência da América. Jovens brasileiros, filhos de abastados nacionais, estudavam na Europa, mormente em Portugal. Eles resolveram, seguindo a senda iluminista, aspergir a ideia da libertação da Coroa, através de cartas e de palavras candentes, quando das férias ou dos seus retornos.
 Anos depois, alvitrou-se, em Vila Rica (hoje, Ouro Preto), capitania das Minas Gerais, fazer um movimento social libertário, juntando parte do clero, da intelectualidade e da burguesia. A esse movimento, a dita “Inconfidência Mineira”, aderiu Joaquim José da Silva Xavier, alferes pouco lido, de poucas posses, também protético, profissão aprendida em família, que recebera a alcunha de "Tira-Dentes”, o Tiradentes.
Esse movimento sequer prosperou, ficando morno. Joaquim era um boquirroto, mas também gostava de ouvir. Soube haver cheiro de traição no ar. Estava com problemas afetivos sérios, apesar de nunca haver casado. Largou o movimento, a corporação Dragões de Minas e fugiu para o Rio de Janeiro. Mesmo assim, em 1789, Joaquim Silvério dos Reis, falido e ciente do favor à Coroa, fez a denúncia sobre a possível e nunca realizada insurreição.
Dou a palavra a Otávio Frias Filho em artigo nominado de “Ainda que tardia”, publicado na Folha de São Paulo, em 26 de fevereiro passado, escrevendo sobre o filme “Joaquim”, lançado ontem em circuito nacional. Diz Frias: “Não existe história mais recoberta de ferrugem verde-amarela, depositada em tantas décadas de reiteração escolar, que a de Tiradentes. O frescor acre que exala de “Joaquim”, exibido na semana passada no Festival de Berlim, decerto tem a ver com a opção do diretor Marcelo Gomes... Quando começa a acontecer o que aprendemos na escola, o filme termina”.
Como se sabe, mesmo tendo sido o único morto, por conta da Inconfidência, a mando da rainha Dona Maria I, cognominada a “Rainha Louca”, Tiradentes, ou Joaquim, ficou no limbo da história até o albor do movimento  republicano, em 1870.
Procurava-se um herói nacional. Consta que usaram o Tiradentes. É a versão tida como requentada nos fornos da “consentida” República. Não há na historiografia do tempo imperial menção alguma à tal Inconfidência. Frias, no artigo já referido, diz: “Em seu livro sobre o personagem (Tiradentes: o corpo do herói, Martins Fontes), a historiadora Maria Alice Millet demonstra como a sua mitologia foi elaborada...”.

O fato é que Tiradentes, três anos preso, foi degolado em 21 de abril de 1792 e os autos da sua condenação duraram 18 horas de alocução. Ora, se ele fosse tão desimportante assim por que o Império gastaria tantas laudas com ele?  

Para ler crítica do filme pelo Adorocinema:
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-246133/criticas-adorocinema/


sexta-feira, 14 de abril de 2017

"Nilto Maciel", perfil biográfico do autor, por Raymundo Netto, para a coleção "Terra Bárbara"


Clique na imagem para ampliar!

Não sou escritor por querer. Fui feito assim, desse jeito, como há abestados desse mesmo feitio: músicos, pintores, dançarinos, atores. Deus me quis escritor. Eu bem poderia ter sido apenas um advogado, um funcionário público, um açougueiro.
(“Confissão Pública”, Nilto Maciel, em 7 de março de 2014)

Nilto Maciel é, certamente, um dos mais fecundos, criativos e enigmáticos escritores que o Brasil já produziu. Publicou 8 romances, 8 coletâneas de contos, 8 novelas (Vasto Abismo reúne 7), 1 seleção de poemas, 3 de crônicas, 2 de artigos, resenhas e notas literárias e 2 de ensaios, além da colaboração em diversas revistas, jornais, sites, blogues e antologias, inclusive no exterior, traduzidas para o espanhol, italiano, francês e esperanto. E tanto mais faria se a vida não lhe fosse ainda tão curta.
Beirando os 70 anos, entusiasmava-se com a “nova fase”, descobria-se, explorava os recursos tecnológicos sem abandonar o método analógico e até radical de viver a sua literatura, coisa que fez incessantemente e quase em gritante silêncio – que o digam os seus diários – durante uma carreira de cerca de 40 anos respirando, urdindo e conduzindo palavras.
Embora não se tornasse um nome midiático, teria prestígio e reconhecimento de autor nacional por escritores e críticos dos mais diversos rincões brasileiros, o que pode ser constatado em A Arquitetura Verbal de Nilto Maciel, fortuna crítica organizada ao lado do amigo e poeta “risonho e carinhoso” João Carlos Taveira.
Em 2013, em meio a publicações diversas, pediu a um amigo em comum, o também escritor Pedro Salgueiro, que me sondasse para escrever a sua biografia. Como se adivinhasse, determinava-se a registrar em publicações as suas memórias, seus artigos, sua produção literária, o que pode ser facilmente comprovado pelo número e natureza das obras publicadas – a maioria por conta própria – nos dois últimos anos de existência física, principalmente em Menos Vivi do que Fiei Palavras (2012), Como me Tornei Imortal (2013) e Quintal dos Dias (2013). Não esquecendo as correções e alterações que faria em suas em suas primeiras produções por meio da publicação de Contos Reunidos I e II.
Entretanto, não conseguindo resposta, um dia, em uma de nossas conversas de sala, ao me oferecer outra Coca-Cola, diretamente me perguntou se eu o faria, e propôs “negócio”. Afinal, “ninguém conhecia a sua vida. Ninguém.” A seu modo, respondi: “Nilto, não seria melhor esperar a sua obra completa?” Ele desconversou, lançou alguma piada mordaz, de costume, acomodou-se em sua cadeira de balanço – a perna esquerda fletida e abraçada pelas mãos entrançadas –, coçou o nariz com o indicador nervoso e concluiu: “Pense nisso.” Meses mais tarde, publicaria Quintal dos Dias, uma espécie de autobiografia, como o Menos Vivi do que Fiei Palavras, na realidade, apenas recortes dos cadernos que compunham o seu diário íntimo ou pessoal, um hábito que cultivava desde a sua adolescência.
Desse modo, caros leitores, amigos ou não de Nilto Maciel, vai-se assim esse perfil biográfico muito breve e afetivo, revolvendo em especial as suas, mas também as minhas lembranças, na tentativa de apresentá-los fielmente ao sedutor personagem do homem das letras, longe de qualquer pretensão maior que não seja apenas a de provocar a quem se perceba capacitado e competente ao estudo, pesquisa e publicação de sua obra, campo vário, fértil e inexplorado.
Ao final, deixo uma trilha cronológica biobibliográfica que o próprio autor – porque os espelhos sempre nos distorcem ou enganam – teve dificuldade de traçar corretamente.
Que a literatura lhe seja justa e o silêncio, breve.
O Autor

Tahyba, 2017.



quinta-feira, 13 de abril de 2017

"O Homem que Virou Relógio", de Raymundo Netto


13 de abril, aniversário de Fortaleza, 291 anos.
Conto “O Homem que virou relógio”, de Raymundo Netto,
para Os Acangapebas (2012),
ganhador do Edital de Literatura da SecultFOR (2007)
e do Prêmio Osmundo Pontes de Literatura
da Academia Cearense de Letras (2011).

Cruzava a praça da igreja matriz quando, súbito, estacou e dali não mais deu único passo.
As pessoas o viam, perguntavam “passa bem?”, ele de apenas tiquetaquear palavras mecânicas, quase absurdas.
Os dias passaram. Ele, inda imóvel na praça, empoleirado por pássaros e pombos. Movimento apenas o de sua sombra a alongar-se pelos mosaicos de cimento, servindo de relógio aos moradores da cidade.
Com o tempo e o costume, aperfeiçoou-se na função: anunciava as horas, aniversários e datas festivas, cantava músicas de meia em meia hora, enfeitava comícios, despertava a cidade, acalentava os bêbados dela aos seus pés.
Levou um tempo. As crianças e a cidade cresceram. Aquele homem no meio da praça parecia antiquado à modernosidade invadida e dominante da região. As mentalidades ditavam-lhe o futuro de consumo.
Tempos-há, olhavam-no com desdém, logo aqueles que, há pouco, lhe precisaram tanto.
De outro lado, não era mais o mesmo... atrasava!
Os mais saudosistas inda tentaram, levaram-lhes medicamentos, assistência médica, mas era de certo a sua debilidade. Sabia-se ser o rastro das horas implacável até com quem devotara a própria vida à sua causa.
Dia, à tristeza de alguns — poucos —, operário veio à praça e o picaretou a não deixar-lhe sequer lembrança.
Noutro, muito rápido assim, rapazinho de pele úmida surgia e se fixara em semelhante local.
Olhos brilhantes, digitais, e lume no sorriso, anunciava de o tempo não poder parar, ao final, é do futuro chegar sempre, devastando o entulho da humanidade.


sábado, 8 de abril de 2017

"Flavio Colin: 15 anos sem o mestre dos quadrinhos"


Quando passei a ler quadrinhos de forma mais crítica e analítica, se isso for possível e/ou necessário, cruzei no caminho com a obra de Flavio Colin (1930-2002). Fiquei irresistivelmente impressionado com a beleza e a originalidade de seu trabalho, com a riqueza simples de seu traço e estética.
Hoje, lembrando dos 15 anos de sua passagem (em agosto) ao céu dos quadrinistas, uma espécie de dimensão extra-mancha no template da vida eterna, que ele conquistou na vida gráfica terrena, registro no AlmanaCULTURA a entrevista concedida ao Universo HQ, um ano apenas antes de seu desaparecimento.
Vale a pena conhecê-lo aqui, e depois, se nunca o tiver lido, não espere: o faça! e conheça o melhor dos quadrinhos nacionais.
Raymundo Netto

Flavio Colin: uma lenda viva dos quadrinhos,
e brasileiro, com orgulho!
Por Samir Naliato, em 31.3.2001, para o Universo HQ

Ele é simplesmente o maior mestre da nona arte no Brasil, ainda na ativa. Possui um traço único, diferente, estilizado. Já desenhou de tudo um pouco, passando por tiras, HQ’s de terror, eróticas e até álbuns com obras históricas. Em fevereiro de 2001, ganhou o troféu Angelo Agostini de melhor desenhista de 2000, com Fawcett.
Aos 70 anos, é um defensor exacerbado dos quadrinhos nacionais. Não gosta do Batman, nem do Super-Homem. Acha que são coisas dos gringos. Nas suas HQ’s podemos encontrar a mula-sem-cabeça, o saci Pererê, caboclos, mulatas, samba, macumba, cerveja, enfim, tudo aquilo que tiver raízes em nossa cultura.
Conheça um pouco mais sobre o mestre Flávio Barbosa Mavignier Colin, ou simplesmente, Flavio Colin, em suas próprias palavras!


Universo HQ: Como foi o seu início de carreira? Em que ano isso aconteceu? Como era o mercado de quadrinhos no Brasil naquela época?
Flavio Colin: Eu iniciei nos anos 50, na Rio Gráfica Editora, no Rio de Janeiro. O quadrinho brasileiro nunca foi essas excelências, não é? Mas as revistas que eram publicadas, inclusive as da Rio Gráfica, vendiam bem. Tinha Fantasma, Cavaleiro Negro… e depois as nacionais: “O Anjo” e o “Jerônimo”, que também vendiam bem. Pelo que eu me lembro!
UHQ: Que artistas influenciaram seu estilo?
Colin: Eu admirava muito o trabalho do Milton Caniff, que desenhava “Terry & Os Piratas”; Chester Gould, que fazia Dick Tracy; Alex Raymond, de Flash Gordon, um dos maiores desenhistas americanos, se não for o maior; e Burne Hogarth, que fez Tarzan.
UHQ: Poderia fazer um pequeno resumo de sua trajetória no meio? Editoras e títulos para os quais trabalhou, principais obras etc…Você publicou fora do país?
Colin: Não sei qual foi minha principal obra… Alguns dizem que realmente foi “O Anjo”, aquela novela de rádio adaptada para HQ, lançada pela Rio Gráfica, que durou mais e me projetou no mercado de quadrinhos. Mas depois eu também fiz muita coisa para a Editora Outubro, de São Paulo, do Jayme Cortez e do Miguel Penteado. Eram histórias de Terror. Além disso, fiz os primeiros números de “O Vigilante Rodoviário”, que foi o primeiro seriado nacional de televisão.
Depois, houve um período para a publicidade. Durou uns 12 anos, e parei até de fazer quadrinhos. Aí, voltei para a Grafipar, do Paraná, com histórias eróticas; para a editora Vecchi; e fiz o Lobisomem para a editora Bloch. Então, fui pegando trabalhos avulsos, pois não tinha mais uma série completa. Sempre fiz quadrinhos.
Cheguei a publicar na Bélgica, na Itália e até em Portugal, pela Meribérica.


UHQ: Como você comentou, no início de sua carreira fez uma adaptação da série policial de rádio O Anjo e, posteriormente, um seriado de TV (O Vigilante Rodoviário). Como eram as vendas desses títulos? Qual a dificuldade em se fazer esse tipo de adaptação?
Colin: O Vigilante era negociado em São Paulo, pela Editora Outubro e, até onde eu sei, vendia muito bem. O Anjo também, porque tinha a cobertura da novela radiofônica, e faziam aqueles cartazes em bancas e pontos de vendas.
A dificuldade era que “O Anjo”, no rádio, se passava nos Estados Unidos e, por isso, todos os nomes e cidades eram americanos. Mas, nos quadrinhos, houve um acordo entre a Rio Gráfica e o Álvaro Aguiar, o autor, para tudo ser transferido para o Brasil. Então, era a mim que competia receber os capítulos da novela, e colocar aquilo tudo em HQ, com nomes brasileiros e cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre etc.
UHQ: Você foi um dos pioneiros no Brasil em fazer adaptações históricas para os quadrinhos. Esse tipo de trabalho exige muita pesquisa visual?
Colin: Eu fiz alguns trabalhos de episódios históricos. Sempre tive preocupação em fazer algo o mais bem documentado possível. O brasileiro é tão ignorante sobre as suas coisas, sua história, que é bom fazermos algo o mais próximo da verdade possível, para informar direito. Pra não fazer igual a algumas novelas por aí, que misturam índio americano com o índio brasileiro, e o povo não fica sabendo como é o índio brasileiro.
Não fiz muito, porque não apareceram mais oportunidades, mas é algo que eu gosto, porque instrui e diverte também.
UHQ: Há desenhistas que simplesmente ignoram a pesquisa na hora de conceber suas páginas. Qual o seu recado para esses “artistas”?
Colin: Eu acho que a pesquisa é fundamental, porque a memória é falha. A pesquisa te leva, não só a valorizar o trabalho e passar uma informação mais precisa e correta, como também a aprendermos. É subsídio para nossos futuros trabalhos.
Os quadrinhos são uma arte muito complexa. As pessoas, às vezes, não se dão conta disso, e acham que é algo infantilóide. Não! Existem muitos tipos de quadrinhos, assim como existem muitos tipos de filme e de música. Nem toda história em quadrinhos é infantil! Agora, eu acho que o desenhista tem que ler e, se puder, viajar. No meu caso, nunca pude viajar, porque sempre fui um “durão”, mas comprava livros, sempre! Leio livros sobre tudo.
Isso porque, por exemplo, se pintar uma história passada na China, e eu não li nada sobre o lugar, claro que vou fazer uma pesquisa, mas já terei um registro na memória. E assim por diante.

UHQ: O maior volume do que você produziu foi, sem dúvida, histórias de terror. Por que optou por trabalhar especificamente com terror? Você curtia bastante o gênero?
Colin: Ah, eu curtia muito! Há quem diga que não é terror, é “terrir” (risos). Mas acontece que o terror era o que tinha na época, e o que vendia bastante, principalmente em São Paulo. Era um mercado em que o americano e seus copyrights não entravam. Então, era um espaço para o artista brasileiro.
O terror é bom de fazer, muito gostoso, porque incita sua imaginação. Você pode criar monstros e situações, inventa em cima de várias coisas. Fiz também muitas histórias de terror para a Editora D-Arte, do Rodolfo Zalla: Calafrio, Mestre do Terror… que também fechou, para variar!
UHQ: Monstros diversos, vampiros, lobisomens, zumbis, tarados sexuais, duendes, extraterrestres e muito mais. A inspiração para a criação visual das centenas de personagens que você já desenhou veio de onde? Do cinema? Dos livros?
Colin: Sim, de tudo! Essas histórias de Lobisomem, fantasma, almas de outro mundo, de visões, estão todas no folclore brasileiro, a gente as escuta desde de criança. Todos já ouviram falar disso! Isso é muito do brasileiro, do caboclo e do índio. Quem vive no mato, na selva, tem muito disso, acaba vendo coisas. É um bicho que passa, a sombra de uma árvore… Então, para justificar o medo deles, falam que é o Saci Pererê, uma alma de outro mundo etc… É assim que surgem essas figuras. O americano não tem muito disso. Quer dizer, eles têm lá os fantasmas dele. Gostam muito de vampiro, mas vampiro é universal. E depois partiram para a ficção científica.


UHQ: Hoje, você acredita que exista espaço para o terror nos quadrinhos?
Colin: Olha, eu acho que existe SEMPRE! As gerações se renovam, caramba! Falam que não vão fazer mais histórias de faroeste. Por quê? Sempre que passa um faroeste no cinema ou na televisão eu vou ver. Claro que isso não é um exemplo, porque foi assim que me criei. Atualmente é ficção científica, mas, na minha época, era faroeste. Todo mundo desenhava isso.
Até hoje se desenha faroeste. Grandes artistas na Europa desenham esse estilo. Como também desenhariam terror, por que não? Desde que seja conduzido com competência, inteligência e coragem. Mas falta editor, poxa. Os caras querem mole, trazem aquela titica toda prontinha, coloca balãozinho, roda e tchau!
UHQ: É possível perceber, notadamente, na extinta revista Spektro, da Vecchi, que o material nacional continha sempre uma boa dose de sexo e sacanagem. Qual a reação dos leitores com relação a isso, na época?
Colin: Eu acho que reagiam muito bem, porque todos gostam de sacanagem (risos)! Se você olhar a história do mundo, verá que gregos, romanos, egípcios… todos eram chegados a uma bandalhazinha.
O que acontece é o seguinte: de uns tempos pra cá, o erotismo tomou conta. No meu tempo de rapaz, não tinha revista de mulher nua, nem nos quadrinhos. Dick Tracy, Flash Gordon… eles não tinham. Nem mesmo no terror daquela época. Mas, com essa onda, os editores achavam que se não tivesse pelo menos uma sequência erótica, não venderiam as revistas. Por isso, era quase obrigatório se desenhar isso.
UHQ: Como foi trabalhar com o Ota (nota do UHQ: atual e eterno editor brasileiro da MAD, que, na época, respondia pelas edições de terror da Vecchi)?
Colin: Foi tudo bem, enquanto durou. Eu tinha trabalho pra fazer, e não tinha problema. Eu ilustrei várias histórias foram por ele mesmo, embora usasse pseudônimo. Depois, fizemos até uma revista chamada “Hotel do Terror”, que, infelizmente, não foi pra frente, e ficou no primeiro número. Foi uma série que fizemos na Vecchi, que depois ele tentou fazer em formato de revista.
UHQ: Qual foi o motivo da falência da Editora Vecchi?
Colin: Olha, cada um tem uma versão. A que eu soube, é que o filho do dono da Vecchi começou a fazer gastos em investimentos, acima do possível. A estrutura da editora não aguentou e arrebentou.


UHQ: Você chegou a sofrer algum tipo de censura, em sua carreira? Se sim, fale-nos um pouco dessa época.
Colin: Nunca. Censura nenhuma. Bom, censura houve quando eu desenhei o Sepé para a CETPA (Cooperativa Editora de Trabalho Porto Alegre S.A.), uma cooperativa em Porto Alegre, do tempo do Leonel Brizola. A CETPA fazia coisas regionais. Por exemplo, eu desenhava o Sepé, um personagem real. Era um índio missioneiro. No Rio Grande existe até uma cidade e um rio chamados São Sepé.
Ele era meio canonizado, porque tinha um sinal na testa, uma meia lua, que era uma falha na pele, que brilhava quando o Sol batia. Então, viam nele uma figura mística. Como missioneiro, ele defendeu os padres jesuítas naquela guerra das missões. Tinha também “O Aba larga”, que era a polícia montada do Rio Grande, desenhado pelo Getúlio Delphin, e “O Gaúcho“, do Júlio Shimamoto.
Era uma cooperativa que publicava temas nacionais. Mas, como estava interligada ao Brizola, quando houve a rebordosa, fechou; e os desenhistas que faziam aquilo ficaram meio marginalizados.
UHQ: Um artista que podemos colocar como tendo uma carreira em paralelo com a sua, é Júlio Shimamoto. Em praticamente todas revistas que você trabalhou, também encontramos obras dele. Qual sua relação com Shima? O que você acha do estilo dele?
Colin: Meu relacionamento com ele, felizmente, é fraternal. Sou um admirador dele, pela cultura que ele tem, pela sua simpatia, pela pessoa que é. Não nos vemos com a mesma frequência, porque moramos longe um do outro, mas quando pegamos no telefone é quase uma hora de papo, porque falamos quase de TUDO. Sempre estou aprendendo alguma coisa com ele, com certeza.
Quanto ao trabalho dele, sou um admirador. É engraçado, nossos estilos são tão diferentes, mas eu gosto da maneira que ele desenha. Dinâmico, contrastado. Desenha muito bem, desenha a arte muito bem. É um grande desenhista, um dos maiores que eu conheço.
UHQ: Você chegou a fazer uma tira em quadrinhos chamada Vizunga, que, para nosso orgulho, está sendo republicada no Universo HQ. Qual a história dessa tira? Foi publicada em quais jornais ou revistas? O que levou ao cancelamento?
Colin: A história é que eu fui procurado pelo Mauricio (Nota do UHQ: Maurício de Sousa, criador da "Turma da Mônica") pra fazer um trabalho para publicar na Folha de São Paulo. Então, criei o Vizunga porque sempre gostei de natureza, animais etc. Acho que tem muito desenhista e roteirista focando temas urbanos. Como eu, que, embora carioca, fui muito menino para o interior de Santa Catarina, e lá era mato mesmo. Meu pai foi trabalhar em uma madeireira. Acabei tendo um convívio muito direto com os animais e a natureza. Desgraçadamente, havia muito caçador. Existe aquela brincadeira de que todo caçador e pescador é mentiroso, exagerado; e isso me deu a ideia de criar o Vizunga.
Tem uma parte mais “séria”, mais “acadêmica”, onde ele recebe os amigos, conversa e começa a contar suas pescarias e caçadas, eu entrava com o cartum, a caricatura, para poder exagerar no tamanho do animal.
Pelo que eu sei, só a Folha publicou. Quer dizer, que eu vi. Dizem que saiu em outros lugares, mas isso eu não tenho conhecimento.
O cancelamento aconteceu porque eu ganhava muito pouco com aquilo, e o Maurício ainda descontava a parte de distribuição dele. Aí, eu entrei para a agência de publicidade McCann Erickson e comecei a ganhar dinheiro. Um quadrinho de storyboard pagava o mês do Vizunga.


UHQ: Você teve alguma decepção nessa época?
Colin: Todo quadrinista brasileiro já nasce decepcionado. Não pude publicar mais em lugar nenhum. Adorava e adoraria fazer isso. Gastei muito dinheiro em livros, documentação, mapa, guia etc. Mas, infelizmente, não paga a esquine, e eu tenho família para sustentar.
UHQ: Podemos notar, no decorrer de seus trabalhos, uma grande mudança nos traços, chegando ao seu incrível estilo pessoal, quase caricato, na década de 70. Como foi essa mudança?
Colin: Olha, eu primeiro fui procurando um traço pessoal, algo que me identificasse. Mas um traço onde eu me sentisse à vontade, porque não adianta fazer algo que é pretensamente pessoal, mas você não se sinta confortável. Então, eu tinha que fazer alguma coisa que me agradasse, estética e artisticamente. Fui e sou um adepto da simplicidade. Acho que a coisa tem que ser simples.
UHQ: O Ivo Milazzo também comentou isso conosco. Ele disse que faz várias coisas em um traço o que outros fariam em 3 ou 4.
Colin: Exatamente! É o meu caso. Eu não rabisco muitas coisas. Uso muito contraste, mas procuro sintetizar, fazer a coisa simples. Talvez seja por isso que dizem que eu sou moderno, eu estilizo, às vezes meio caricato. Por exemplo, eu acho que se você for desenhar um bandidão, ele tem que ter no traço, na figura, alguma coisa truculenta, que o leitor olhe e diga ‘Esse aí é o bandido; e não o mocinho’.
Mas a simplicidade é muito difícil, porque é muito mais fácil colocar do que tirar. Agora, eu digo o seguinte, a base tem que ter estudo, tem que ser acadêmica. Meu esboço é quase acadêmico, a estilização é feita depois. Você não pode partir direto para o cartum, e eu vejo muito disso, principalmente, em fanzines. Mas o cartunista sabe que tem que ter essa base de anatomia. Estilizar direto é muito difícil e o desenho não fica completo.
UHQ: Qual é a recompensa em ter uma grande parte da vida dedicada aos quadrinhos, no Brasil?
Colin: Se for falar em termos de ser conhecido e ter conseguido um certo renome, tudo bem. Agora, financeiramente, é um desastre. Uma catástrofe. Pior que terremoto em El Salvador. É vergonhoso, humilhante.
UHQ: Em algum momento de sua carreira, foi possível viver apenas dos quadrinhos? Quando você enveredou pra ramo da publicidade? Fale-nos um pouco de suas outras atividades.
Colin: Eu não vivo apenas de quadrinhos, eu vivo, em grande parte, dos quadrinhos, mas quero mudar, porque não dá mais para aguentar. Eu sempre que posso ilustro um livro, e faço um freelancer para a área de publicidade. Fui mais para essa lado em 1964 ou 65.
Houve um concurso na McCann Erickson, do pneu Atlas. O tema era “Deixe o macaco em paz”. Eles queriam um macaco, o animal, e eu consegui fazer como eles queriam. Fiz toda a campanha, ganhei dinheiro. Não tinha vaga pra entrar na agência, mas fiquei conhecido por lá, pelo diretor de arte, o Oscar Gosso, um argentino.
Aí, aconteceu que um desenhista chinês resolveu sair, para ir pro Canadá, onde morava sua mãe, e abriu uma brecha. Eu trabalhava na TV Rio, e nunca tinha visto um storyboard, nem sabia o que era. Conheci lá, na hora. Mas como eu fazia quadrinhos; e storyboard tem muito a ver com HQs, não foi muito difícil.
Além disso, faço quadros, de vez em quando, e já fiz até exposição. Quero me dedicar mais a isso, porque talvez fazer “quadrão” dê mais lucros do que fazer quadrinhos (risos). Eu pinto com acrílico, sobre telas. Faço também esculturas de madeira, que é uma paixão que eu tenho.
UHQ: Quais prêmios você ganhou em sua carreira?
Colin: Já ganhei três HQ Mix, um em 1990 (Grande Mestre dos Quadrinhos), e outros em 1994 (Desenhista Nacional) e 1997 (como homenageado). Recebi também dois prêmios Angelo Agostini, sendo que o segundo foi esse ano, pelo meu trabalho em Fawcett. Ganhei um troféu do XII Salão Carioca de Humor, como homenageado, e um prêmio da Gibiteca de Curitiba.
Tem ainda outros, do Salão Internacional de Piracicaba; Press 1986, pelo conjunto da obra; e do Museu da Imagem e do Som. Houve também uma homenagem da Laura Alvim.
UHQ: De tantas e tantas histórias que ilustrou, qual sua favorita? Por quê?
Colin: A favorita seria “O Caraíba”. Chegou a sair na Itália, mas não deu certo por aqui. Ele não nasceu com uma boa estrela, e resolvi não fazer mais.
UHQ: Qual sua opinião sobre os quadrinhos de super-heróis?
Colin: Olha, quadrinho pra mim é uma coisa fantástica. Com certeza é um dos maiores veículos de comunicação. É imagem e texto sucinto, que você diverte e instrui. No Brasil, um país de semianalfabetos e analfabetos, o quadrinho tem uma importância muito grande, mas é pouco usado.
UHQ: Até porque existe muito preconceito, considerado subarte…
Colin: Isso, exatamente! Subarte, coisa de criança, de maluco. Já aconteceu de me perguntarem o que faço da vida, e quando digo que desenho quadrinhos, me olharem como se eu fosse um retardado, um débil mental. Mas é o que eu faço, e gosto! Aqui, isso tem uma importância muito grande, porque pode ser usado didaticamente e de várias outras maneiras.
Mas, tirando isso, se deveria mostrar o Brasil para o brasileiro. Existia uma série na TV chamada “Carga Pesada”. Eles eram caminhoneiros que percorriam todo o País. A Rio Gráfica tentou fazer em quadrinhos, mas cancelaram. Uma pena, porque era uma beleza. Mostrava todo o País, seus costumes, comidas, paisagens… O brasileiro não conhece o Brasil e não sabe NADA de Brasil também. Se for atrás de novela de Rede Golobo, então, tá roubado…
Mas isso é ideologia, um sonho, uma utopia… Mas, de médico, poeta e louco, todo mundo tem um pouco. Como não sou médico, sou poeta e louco (risos).
Super-herói não dá! Artista brasileiro consegue publicar, com alguns rapazes de talento desenhando pros EUA, mas, muitas vezes, fazem anonimamente. No molde americano, como eles querem. Mas eu acho uma questão de mentalidade. O americano adora isso. É de sua cultura, porque o americano é o super-herói. Para eles, são os donos do mundo, os xerifes do planeta. Dominam tudo e são os mais bonitos, inteligentes e poderosos.
Então, super-herói vem a calhar. Eles se veem num Super-Homem, Batman, Homem-Aranha, sei lá… Capitão América! Olha só o nome: Capitão América! Mas nós não somos nada disso! Então, é uma forçação de barra. Em compensação, somos mais inteligentes e temos mais noção de ridículo do que eles (risos).
UHQ: Seu estilo lembra mais os traços europeus. Que tipo de quadrinhos você curte? Você acompanha algum tipo de publicação de quadrinhos atualmente?
Colin: Sim, meu estilo é assim porque eu queria fugir do padrão americano. Muitas pessoas já me falaram que eu me daria bem na Europa, mas como não fui…
Eu não leio quadrinhos. Raramente leio algo. De vez em quando, uma tirinha do jornal O Globo, com o Hagar. Eu gosto de quadrinhos quando eles têm um conteúdo. Recebi um álbum do André Toral. Ele é um grande desenhista, com um estilo totalmente diferente do meu. O álbum é muito bom, muito bem documentado, sobre a Guerra do Paraguai. Deu um enfoque muito legal. Isso eu gosto de ler!


UHQ: Você soube do projeto do jornalista Marcelo de Andrade de adaptar obras de Machado de Assis para quadrinhos?
Colin: Eu já ouvi falar nisso! Aliás, me ligaram outro dia perguntando se eu tinha ficado chateado por não terem me convidado. Eu disse que chateado não, mas lamento não participar, porque eu sempre gostei de fazer temas brasileiros. É coisa nossa! Quando se trata de tema nosso, eu gosto de participar, me sinto gratificado.
UHQ: Quais são seus artistas favoritos nos quadrinhos?
Colin: Eu confesso que dos estrangeiros conheço poucos, e dos brasileiros também, porque não leio tanto assim. Mas conheço alguns rapazes, como o Watson Portela; Klévisson Viana, que está começando, e é muito bom; o velho Shima, companheiro e mestre; Mozart Couto, que agora parece estar se voltando mais para mangá, mas houve uma época que o desenho dele era primoroso, acadêmico. Ah, tem também o Mutarelli.
UHQ: Você chegou a participar de um movimento em prol da nacionalização dos quadrinhos, na década de 70. Como foi isso? Por que não deu resultado?
Colin: Não deu resultado, porque não podíamos competir com a Abril e a Globo. Era uma dificuldade encontrar as revistas. Depois, começou o problema político no Rio Grande, além das dificuldades de patrocínio e distribuição.
UHQ: Em seu trabalho mais recente, Fawcett, da Editora Nona Arte, seu domínio das técnicas de luz e sombras, que sempre foi a sua “marca registrada”, está soberbo! Você está como o vinho? Quanto mais velho melhor? Acha que os anos de experiência se traduzem em mais qualidade na hora de transpor pro papel as ideias de um roteiro?
Colin: Não sei se estou como vinho, mas vou desenhar até onde o meu sentimento, talento e minha mente disserem ‘Faz!’. O dia que eu começar a ficar muito repetitivo, sentir que chegou minha hora, penduro meus pincéis e vou vender pipoca na esquina. Faço meus desenhos da maneira que eu sinto. Às vezes, agrada! Olha, não se faz nada sem alma. Ou coloca a alma, ou não faz.
UHQ: O que você acha da nova geração de desenhistas brasileiros? E da “velha guarda”, quem você não pode deixar de citar?
Colin: Da velha guarda, estão todos meios parados, com exceção do Shimamoto. Ele lançou agora “Volúpia”, que é uma beleza. Dos outros, eu não tenho visto mais nada… pararam ou ficaram ricos, em outras atividades mais lucrativas.
UHQ: O que acha do fenômeno da segmentação dos quadrinhos, com tiragens menores e vendas em lugares especializados ou livrarias?
Colin: Olha, eu não sei explicar muito bem. Isso é um problema editorial. Eu vejo o seguinte: as bancas começaram a encher, de repente. Isso satura e confunde o leitor. Pouca opção é ruim; e muita, atrapalha. Ninguém tem verba para comprar tudo, e as revistas ficaram umas muito parecidas com as outras. Já em formato de livro, é mais seletivo. Não tem uma tiragem fantástica, mas é regular e possui um público cativo, assim como o europeu faz com Asterix e Tintin.
UHQ: Com essa “transformação” que o mercado nacional está experimentando, quadrinhos nacionais têm aparecido com boa freqüência. Você vê chances de uma retomada da produção brasileira de HQs? O que seria necessário para isso acontecer?
Colin: Eu sempre que escrevo e me correspondo com André Diniz, Sibeck e todos que começaram fazendo fanzines. Dou a maior força e sempre desejo que, um dia, eles consigam furar esse bloqueio dos copyrights, publicando coisas deles. Para a minha satisfação, eles estão fazendo temas nossos. Isso é importante! Torço de coração que consigam comover os editores a abrir as portas para os quadrinhos.
Não sei se estarei vivo até lá, mas… Vivem falando que não existe mercado pra quadrinhos brasileiros. Existe, poxa! Com todo respeito, mas se fizerem HQS nacionais de boa qualidade, vai vender! Agora, é Pokémon, mangá… pegam aquelas coisas tudo prontas, com cobertura da televisão, são distribuídos no mundo inteiro e entram aqui com preço miserável. Aí não dá pra competir.
UHQ: Um recado para quem pretende trabalhar como desenhista de quadrinhos?
Colin: É difícil (risos). Procure sempre aprimorar o traço, porque um verdadeiro artista nunca está pronto. Tem que estar aprendendo sempre, evoluindo sempre. No dia que achar que está pronto, começa a morrer.
E que usem os temas nacionais!
Há algum tempo recebi um fanzine de Fortaleza. Os desenhos deles eram estilo mangá. Com tanto tema nordestino, e não estou falando necessariamente em cangaceiros. Existem várias outras figuras, até da cidade. O Brasil tem um litoral imenso, e não existe história sobre isso. Faz coisas do nosso povo!
O brasileiro é um contador de “causos”. Pega isso e faz em quadrinhos. Deixa Pokémon pra japonês. Tinha uma revista chamada “Capitão Rapadura”. Aquilo era um barato, eu me deliciava! Tudo bem brasileiro. Mas os editores não veem isso.
E leiam bastante. Há desenhistas que são bons, mas não têm cultura. Você percebe que falta algo no traço deles. Isso enriquece o trabalho.
UHQ: Obrigado, Colin. Foi uma honra para o Universo HQ entrevistá-lo!

Colin: Eu é que agradeço! Foi um prazer pra mim, e espero não ter dito muita besteira (risos).