sexta-feira, 22 de junho de 2018

“Padre Cícero por trás das câmeras”, de Camilo Pestana para "O Mosquitim"



Lançamento Máster: Dia 24 de junho, domingo, às 20h30, no Festival Vida & Arte
Exibição do documentário e lançamento do livro Padre Cícero, o Filme, de Raymundo Netto
Com a presença de membros da equipe técnica e atores do filme lançado em 1976:
Helder Martins (diretor), Elvira Sá de Morais (produtora executiva), Ana Miranda, Ricardo Guilherme, Haroldo Serra e Walden Luiz (atores)
Um encontro ÚNICO: 43 anos depois... COMPAREÇA.

A seguir, entrevista de Raymundo Netto ao jornalista Camilo Pestana, do jornal O Mosquitim.

O projeto “Padre Cícero: o filme” é uma iniciativa da Fundação Demócrito Rocha, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, que resgata uma obra considerada esquecida da historiografia cearense e o faz com muita pompa, em forma de livro, reprodução do pôster em tamanho original e um estojo que acolhe um documentário (45min) e o filme (1976).
Aqui, entrevistamos Raymundo Netto, escritor, editor, pesquisador e coordenador geral do projeto:

O Mosquitim: Raymundo, como você tomou conhecimento desse filme?
Raymundo Netto: Esse projeto já devia ter sido executado há tempos. Conheci a Elvira Sá de Morais, produtora executiva do filme e filha do produtor Francisco Martins de Morais, há muitos anos. Na época, ela tinha uma intenção, quase necessidade, de trazer de volta, de qualquer maneira, esse filme, que tinha, por trás das câmeras, uma história de alegria e de dor, como quase todas, aliás. Eu conheci a escritora Ana Miranda – que representou a beata Maria de Araújo na película –, um pouco antes, e foi ela quem me apresentou a Elvira para um trabalho de edição de livro de dona Celina, sua mãe.

OM: E o que o levou a apresentar esse projeto ao MinC?
RN: A princípio, Padre Cícero é o primeiro longa-metragem colorido do Ceará e a primeira obra audiovisual ficcional sobre a vida do padre. Isso, por si só, já justificaria a sua importância histórica, chamando a atenção do MinC para o registro e resgate dessa obra como forma de fomentar acervo e pesquisa da historiografia audiovisual brasileira. Entretanto, com o tempo, lendo jornais da época, ouvindo relatos de conhecidos que trabalharam na sua execução, ciente do momento histórico em que foi filmado e lançado e percebendo a escassez de informações sobre ela, meu interesse não apenas pelo filme, mas pelo contexto geral que o envolveu foi aumentando, a ponto de desenvolver o projeto e apresentá-lo ao Ministério.

OM: Então o projeto não se reduz a relançar o filme, apresentá-lo nos dias de hoje?
RN: Não. Eu posso até dizer que nesse quesito, poderíamos ter ido mais além, e não fomos. Gostaríamos de ter previsto orçamento para trabalhar no tratamento da peça que se encontra na Cinemateca Nacional, mas exigiria um esforço bem maior, assim como um equivalente aporte financeiro e o envolvimento de técnicos especializados. E, com isso, talvez o resultado fosse bem menor. Decidimos conferir um tratamento de imagem e de áudio da cópia que tínhamos em mão, mas, focado na questão histórica, optamos em reunir o maior número de elementos que contassem essa história, a preservassem, que ela chegasse a um maior número de pessoas. E como fazer? Escreveríamos um livro. Aliás, esse é o produto principal do projeto. Acreditamos que, por meio dele, e do documentário, outras pessoas poderão se encarregar dessa tarefa, mas, necessário se fazia criar essa curiosidade e interesse pela obra, até então, esquecida.

OM: E nesse livro, então, você conta a história do filme?
RN: Pois é. A ideia era essa: contar a história do filme. Mas quem pesquisa sabe como isso se dá. Iria escrever a história dele, iniciando pela biografia breve de seus personagens principais: Francisco Martins de Morais (produtor), Helder Martins de Moraes (diretor e roteirista) e Elvira Sá de Morais (produtora executiva). Depois, avançaria, contextualizando o momento histórico, a Embrafilme, na época, sob o comando de Roberto Farias, durante a Ditadura Civil-Militar. A execução das filmagens, apresentando a equipe técnica e os atores cearenses e de outros estados brasileiros, o percurso da filmagem, seus principais sets, curiosidades de bastidores, ficha técnica, premiações, lançamentos etc. Importante ressaltar a figura de Francisco Martins de Morais, o empresário que acreditou e investiu nesse filme. Uma inspiração de mecenas. Natural de Mauriti, também era devoto do “Padim Ciço”. Não foi muito difícil Helder Martins, diplomata e seu primo, convencê-lo. Dedicamos o documentário, assim como o livro, a ele, por este espírito tão necessário por aqui.

OM: Mas...
RN: Mas eu me perguntei: “Afinal, o que difere Padre Cícero de qualquer outra obra cinematográfica filmada no Ceará e que justifique essa atenção?” Então, me vi obrigado a escrever um breve relato histórico da produção audiovisual não apenas cearense, mas que foi filmada no Ceará, no recorte de tempo de 50 anos (1924-1974), ou seja, desde a primeira exibição do primeiro documentário de Ademar Bezerra de Albuquerque exibido no Cine Moderno, em 15 de outubro de 1924 (daí essa data ser considerada o Dia do Audiovisual Cearense) até o ano em que Helder Martins decidiu fazer um filme tendo como protagonista o maior líder religioso brasileiro. Ou seja, reconhecendo como seu deu toda essa trajetória, percebe-se o marco que foi a produção de Padre Cícero para o Ceará. E, para cumprir essa etapa, passei por algumas obras e consultei alguns amigos que foram fundamentais, como Ary Bezerra Leite, Nirez, Frederico Fontenele, Firmino Holanda, Sânzio de Azevedo, Renato Casimiro... Ah, não posso esquecer, claro, que contei com entrevistas que fiz com todos aqueles que também participaram do documentário, e com outros que, infelizmente, não pudemos trazer, mas que nos contactamos por e-mail, telefone ou por meio de webconferências, como Cacá Diniz (produtor que teve uma participação intensa na “engenharia” do filme), Jefferson Albuquerque Jr (cenógrafo e ator), Emmanuel Cavalcanti (ator), Benício (ilustrador) etc. Não posso deixar de agradecer ao próprio Helder que me enviou diversos jornais da época e Valmi Paiva que me cedeu caixas de slides com fotografias de still de Evaristo Neto.

OM: Você nos disse que juntamente com o livro os leitores teriam outras novidades. Quais seriam?
RN: Graças ao espírito de pesquisador e de colecionador do ator, diretor e escritor Ricardo Guilherme, nós tivemos acesso ao roteiro original do filme. Graças a ele, pudemos comparar esse roteiro com a obra final, descobrir alguns aspectos interessantes que se passaram na cabeça do roteirista Helder Martins, imaginar o que ele desejava a princípio, conferir o que não foi filmado ou o que foi filmado, mas que no momento da montagem decidiram retirar (foram mais de 7 horas de filmagem produzidas). Estudando o roteiro, percebi o quanto de documental havia e, assim, me pus a fazer notas, quase um cotejamento biográfico, com a história do próprio padre Cícero. Esse roteiro, com imitação de fac-símile, é um anexo volumoso do livro.

OM: Curioso... Eu pensei que esse produto fosse encartado ao livro.
RN: Não. O que vem encartado ao livro é outra surpresa: a reprodução do pôster do filme em tamanho original. É um mimo para aqueles cinéfilos que sabem e entendem que, até algum tempo, os fãs, quando sabiam que seu filme preferido – ou todos eles – iria sair de cartaz, corria para o seu cinema de rua e esperava para pedir que lhe dessem aquele cartaz como souvenir. Assim, esse souvenir vem agora para todos que adquirirem a obra. Outro dado importante é o seu ilustrador: José Luiz Benício, que naquele tempo era o maior cartazista, se podemos definir assim, do cinema, sendo o criador de mais de 300 peças, entre elas, as dos filmes dos Trapalhões, Dona Flor e seus Dois Maridos, A Superfêmea, do Zé do Caixão, entre outros. É lindo esse pôster.

OM: E essa pesquisa acabou por gerar o documentário que vai ser lançado no Juazeiro?
RN: Antes, o lançamento do documentário e do filme acontecerá no Festival Vida & Arte, no dia 24 de junho, um domingo, às 20h30. Apenas em julho, dia 20, terá um lançamento no Memorial Padre Cícero pela manhã e, à noite, exibiremos o filme de 1976 no Centro Cultural do Banco do Nordeste, também em Juazeiro. E, sim, essa pesquisa orientou a elaboração do roteiro, a filmagem, montagem e finalização. É um média-metragem e conta com a participação e os relatos de Helder Martins, Elvira Sá de Morais, Ana Miranda, Ricardo Guilherme, Haroldo Serra, Walden Luiz, Nirton Venâncio, Rosemberg Cariry, Valmi Paiva e de moradores de Rosário, a “Juazeiro do século XIX”, intercalados por cenas do filme de 1976. A meu ver, quem assiste ao documentário fica bem curioso de conhecer a obra original.

OM: Impressiona saber de um filme com tantos nomes cearenses de tanto valor, como Haroldo Serra, Walden Luiz, Ricardo Guilherme... E a Ana Miranda como atriz? Que achado! E mesmo assim esse desconhecimento da obra?
RN: Esquecer, Pestana, no Ceará, não é exceção, mas quase uma regra. Temos muita facilidade de esquecer. Não é à toa que a apresentação do livro é intitulada “Cine Amnésia”. Nasceu de uma provocação do pesquisador Firmino Holanda que, em entrevista ao jornal O POVO, fala sobre o desconhecimento quase geral (de crítica e de público) sobre o filme Padre Cícero e lamenta o que denomina “desleixada preservação de nossa memória audiovisual”. Pois bem decidimos criar uma coleção “Memória do Audiovisual Cearense” que estreia, justamente, com essa obra. Para quem gosta e pesquisa cinema, um prato cheio. Aliás, em tempo, na ilustração de Benício, encontramos vários atores do cinema, mas cearenses apenas Ana Miranda e o Nildo Parente, que tinham projeção nacional. Assim, na capa do livro, o ilustrador Karlson Gracie, sobre a ilustração dele, acrescentou Ricardo Guilherme, Haroldo Serra e Seny Furtado, a nosso ver, uma simbólica e merecida contribuição para esse resgate .


OM: E que hoje alguns deles são nossas maiores referências no teatro, como o Ricardo, que criou o Teatro Radical, o Haroldo que, juntamente com a Hiramisa, carrega anos de história na Comédia Cearense, e o Walden, também um dos mais prestigiados no segmento.
RN: O Marcus Miranda também participou, embora com um papel sem falas e curto, assim como José Magestik. O frei Kerginaldo Memória participou na figura do bispo dom Luiz.

OM: Você me lembrou bem. Há um casting impressionante de atores que participaram desse filme além dos nossos, os cearenses. Pode citá-los?
RN: Claro. A Embrafilme estava muito ligada a esse filme, uma superprodução, a primeira grande experiência do ciclo cinematográfico cearense. Havia o interesse de realizações audiovisuais sobre personagens históricos, num clima de nacionalismo próprio do momento político. Padre Cícero, então, pensava Helder, seria apoteótico. Para tal, havia a natural exigência da presença de grandes nomes do cinema da época, e assim foi feito. Entre eles: Jofre Soares, José Lewgoy, Dirce Migliaccio, Nildo Parente, Emmanuel Cavalcanti, Rodolfo Arena, Ana Miranda, Manfredo Colasanti, Cristina Aché, Ângela Valério, Hileana Menezes etc.

OM: Incrível imaginar todas essas pessoas, durante três meses, filmando por aqui, em Fortaleza, Caucaia, Juazeiro, Baturité, Crato, Rosário...
RN: E tão importante quanto o elenco foi a sua equipe técnica: José Medeiros, que Glauber Rocha afirmava ser “o único que sabia fazer uma luz brasileira”, Walter Carvalho, Cacá Diniz, Antônio Luiz Mendes e Walden Luiz. O Walden, inclusive, foi responsável pelo único prêmio recebido pelo filme, o de “melhor figurino”, pela Associação Paulista de Críticos de Arte.

OM: E pelo que me falou, parece que o filme não emplacou no quesito público e bilheteria.
RN: Cinema é acima de tudo o seu fazer artístico. Essa coisa de bilheteria é exigência de mercado. Aliás, um mercado que cria fakes sucessos, em todas as linguagens, afinal, para eles esses “produtos” têm que vender. Não importa se são bons ou ruins, se estiverem nas mãos de uma empresa ou de um agente com essa expertise, tentarão a todo custo enfiá-los na goela das pessoas – meros consumidores – que não têm crítica (o povo subdesenvolvido culturalmente brasileiro), e que precisam ler a assinatura da chancela para “acreditar” neles. Claro, isso aliado à inexistência da crítica isenta e com o apoio bem pago e/ou articulado de uma imprensa deslumbrada que segue sua filosofia de garantir a venda também de seu produto revista/jornal, e por aí vai. Se o seu “produto” não cair nas graças desses tubarões, você poderá até aparecer, mas vai ter que suar bem mais ou morrer clamando no deserto. No caso do Padre Cícero, penso que o problema foi a sua distribuição e a inexperiência da produtora que, sozinha, ao final, tinha que garantir pagamentos e outras responsabilidades, não tendo braços nem apoio para as devidas articulações. Mas, não há dúvida, o filme é ousado.

OM: Para concluir, Raymundo Netto, o que espera afinal do resultado desse projeto?
RN: Nós iremos divulgar esse material em alguns lançamentos que já estão previstos e outros que estão porvir. O documentário e o filme também serão veiculados, a princípio, na TV O POVO (no Canal Futura 48.1, dia 30 de junho, as 17h, o filme “Padre Cícero: os milagres de Juazeiro”), mas estamos articulando para a sua exibição pelo Canal Futura em rede nacional e na TVC. Alguns dos exemplares do livro Padre Cícero (com o pôster) e do estojo (DVD com filme de 1976 e o documentário) já estão sendo disponibilizados a acervos e casas de cinema de todo país. Enfim, fizemos ou tentamos fazer a nossa parte. Esperamos despertar em outros pesquisadores e agentes culturais esse espírito de descobrir, fazer, refazer, registrar e assegurar para as futuras gerações a preservação de nosso patrimônio artístico-cultural . Afinal, o futuro não se espera, mas se faz desde já.






segunda-feira, 18 de junho de 2018

"Mulher Séria", conto de Raymundo Netto para O POVO



“A minha mulher é o diabo!”
Barata era cabo em uma corporação militar. Há anos, casara com Mafalda, bibliotecária, mulher séria que, de tão séria, beirava a chatice incondicional. Não bastasse ser ela imensa e ele, ao contrário, um tampinha que nem a farda lhe era capaz de oferecer qualquer altivez, o coitado morria de medo da mulher. Isso não era segredo para ninguém e muito menos para ela, a gozar do direito de humilhá-lo publicamente, a qualquer tempo e a qualquer hora. Orgulhava-se de conduzir o infeliz a rédeas curtas e não lhe poupava ameaças. Por qualquer coisa, ouvia-se “Barataaaa!” e, como num deus nos acuda, e “se demorasse era pior”, lá se ia a criatura postar-se diante dela, a se entregar aos seus cascudos.
Em um carnaval, contou-me ela, estavam num sítio com a família. Ele, após o almoço, dormia na rede quando despertou com um baque nos peitos. Era o filho. Zonzo, com as costelas ardendo, ouviu da mulher: “Não fiz esse menino sozinha! Quer moleza? Também mereço!” E saía dali altiva, prendendo os cabelos, deixando para trás o menino berrando no ouvido do pai, o que não o constrangia tanto quanto as gargalhadas de cunhados a caçoar: “Ele é cabo, mas ela, sim, é o sargento!” Barata se sentia um inseto.
Amigas alertavam Mafalda: “Vai perder o marido...” Ela, entretanto, mais segura que uma coluna romana, batia fortemente nos fartos seios: “Sou mulher direita. Nunca traí! Como eu, o traste não encontra!” Sim, Barata ouvia essa lengalenga todos os dias – “Sou fiel! Sou fiel!” – como se isso justificasse aquele inferno sem fim. Até os amigos estranhavam: “Separa, Barata. Mulher boa tem aos montes. A sua, é bucha de canhão!”
Um dia, uma surpresa inédita: Mafalda trouxe um colega de trabalho para almoçar. Era o Pinto. Apresentou-lhe com tão largo sorriso, que o Barata estranhou: “Nem lembrava que tinha dentes...”
Durante as semanas seguintes, a agora falante Mafalda, não dizia nada que não saísse o Pinto no meio. A sua boca era o Pinto! Aquele, às suas vistas, parecia ser o ideal masculino. Então, Barata lampejou: passou a insistir que a mulher trouxesse o Pinto mais vezes: “É raro um bom amigo”. Motivava o convite para irem ao cinema, ao teatro... Não se preocupasse, ele ficaria com o filho: “Nem gostava dessas coisas”. E assim, muitas vezes, aconteceu de ela sair arrumada e cheirosa com o colega. Nessas noites tardas, vinha leve e fagueira e, sem conversa, ia logo dormir sem reclamar de nada.
Uma noite, Barata deixou o filho com a sogra e disse à esposa que, extraordinariamente, estava de serviço no quartel. Então, sugeriu convidar o Pinto, “um jantar talvez”, para que ela não ficasse tão sozinha. Convencida, assim o fez. O que ela não sabia é que durante a noite inteira o ardiloso marido se plantaria de tocaia no jardim. Corria para a janela do quarto de casal, brechava, mas eles não saíram da sala, bebendo e rindo a valer de um filme antigo.  Lá fora, Barata torcia: “É agora, vamos, é agora...” e nada acontecia. Até que, tarde, o Pinto levantou-se, apertou a mão de Mafalda e se dirigiu à saída, sendo, ainda na soleira, arrebatado pelo Barata que, enlouquecido, o esmurrava fartamente.
Escandalizada, Mafalda pegou o marido numa gravata íntima: “O que é isso, Barata? Endoidou, homem?” Chorando e desesperado diante do fracasso a três, rendeu-se com a cara nos seios da mulher e, apontando para a vítima, berrava ao quarteirão: “Esse Pinto é frouxo! É froooouxooo!”



sábado, 16 de junho de 2018

"Crônicas sobre o Talento Cearense", de Rinaldo de Fernandes



Publicado originalmente no jornal Rascunho

Antonio Candido tem um ensaio elucidativo sobre a crônica, no qual afirma que, filha do jornal, comunicativa por pendor, a crônica consegue, com humor, com uma linguagem natural, espontânea, praticamente “conversar com o leitor”. A crônica é leve e, na sua simplicidade, ajuda a dimensionar os temas a que o cronista se dedica. Na mão do cronista, o assunto grave, sisudo, fica ao alcance de todos — enfim, as coisas complicadas da vida descem de seu cume, ficam “ao rés do chão”.
A crônica, que poderia ser descartável como o jornal que a envelopa, ganha sentido de permanência quando transposta para o livro. E se fazem permanentes, têm força de grande literatura, as crônicas do cearense Raymundo Netto enfeixadas no livro Crônicas absurdas de segunda (Edições Demócrito Rocha), ganhador do Edital de Incentivo às Artes da Secult-CE e finalista do Prêmio Jabuti de 2016, que traz um prefácio saboroso e esclarecedor de Ana Miranda e uma introdução do historiador da literatura cearense Sânzio de Azevedo.
Retiro do prefácio de Ana Miranda dois trechos que definem bem a crônica de Raymundo Netto. No primeiro, a autora de Boca do inferno alerta: “O texto de Netto é descansado, sonhador, ambulante e dialogado, nunca em silêncio. Nunca solitário. Não se importa com o realismo e mesmo quando é realista carrega a fantasia da memória”. Adiante, Ana Miranda anota: “O seu narrador me faz lembrar um senhor de chapéu coco e fraque, muito elegante, cortês. Entusiasmado e fervoroso, vaga pelas ruas a olhar tudo e conversar com quem aparece ali. Gosta de conversa. Um narrador carregado de sentimentos, uma afetividade à flor da pele, e um pouquinho de malícia. Fala num tom de certo gracejo inocente, aproveitando todos os momentos para chistes e improvisos”.
Crônicas absurdas de segunda é uma seleção de crônicas que Raymundo Netto publicou no jornal O POVO, de 2007 a 2010. Há no livro uma unidade, uma estrutura eficiente, que decorre dos seguintes elementos:
1) emprego constante de intertextualidade (aproveitamento, através da paráfrase, do pastiche ou mesmo da paródia reverencial, de trechos de obras de autores do passado e do presente);
2) utilização do fantástico nos enredos;
3) telurismo (o Ceará — os seus escritores, mortos e vivos — é o grande protagonista das crônicas);
4) didatismo (para cada crônica, há uma nota biográfica sobre o personagem-tema — o que contribui para tornar o livro também um consistente manual sobre a literatura cearense).
Como a crônica de Raymundo Netto, como bem disse Ana Miranda, traz um narrador que “gosta de conversa” (algo análogo ao que formulou Antonio Candido, ou seja, que o cronista enceta uma “conversa com o leitor”), indico aqui as conversas que mais me chamaram a atenção no livro: a com a estátua de Rachel de Queiroz (“A moça do Zepelim prateado”), de caráter metalinguístico, em que é discutido o fazer do cronista; a que trata de uma “mania” do também cronista Pedro Salgueiro (“A dança das cadeiras”), que, no bar, numa roda de amigos, “é sempre o último a se levantar para ir embora”, evitando assim a “falação” dos outros; a com o poeta Quintino Cunha (“Molequintino”), excelente, exemplo do emprego eficaz do humor na crônica; a com o contista e cronista Airton Monte (“Um monte de barata”), que aparece uma noite metamorfoseado de barata. São ainda conversas constantes do livro Crônicas absurdas de segunda, a com o grande contista Moreira Campos (“A casa vazia”), que chega em seu fusquinha verde no estacionamento de um shopping — a crônica permite uma boa reflexão sobre patrimônio e memória; e a com o “poeta maldito” José Alcides Pinto (“A peleja de Dom Zé Alcides e o Dragão de Sobral”), texto com preciosos elementos fantásticos. São ainda personagens-temas das crônicas, entre outros, o romancista José de Alencar, o dicionarista Raimundo de Menezes, o contista e romancista Eduardo Campos, o contista Jorge Pieiro, o cronista Milton Dias, o poeta Francisco Carvalho, a própria romancista Ana Miranda, o pesquisador, poeta e cronista Audifax Rios, o poeta popular Mário Gomes, o jurista, escritor e crítico Clóvis Beviláqua, o poeta, jornalista e orador Demócrito Rocha, o romancista Antonio Sales, a romancista Socorro Acioli, o poeta Horácio Dídimo, o cronista Lustosa da Costa e o romancista e contista Nilto Maciel. Cearenses notáveis. São muitos os exemplos de crônicas bem compostas no livro de Raymundo Netto. Se não comento todas aqui, é para não apagar a curiosidade do leitor. 
Crônicas absurdas de segunda é um livro precioso. Um livro para ser adotado em escolas, como forma de divulgar o talento da gente do Ceará.

Crônicas Absurdas de Segunda – 2ª edição (232 páginas)
(com ilustrações de Valber Benevides e participação de Ana Miranda, Sânzio de Azevedo e Pedro Salgueiro)
Pode ser encontrado em livrarias, especialmente na Livraria Dummar (sede do jornal O POVO) ou em seu endereço virtual para encomenda:
www.livrariadummar.com.br/cronicas-absurdas-de-segunda



segunda-feira, 4 de junho de 2018

"Maurício Gentil", de Raymundo Netto para O POVO



Maurício Gentil o era tanto quanto o seu nome acusava.
Naquela manhã, à exaustiva esperança de prole pela esposa, adentrava uma clínica a cumprir o espermograma. Tímido, pensava em como falar com a moça da recepção sobre “aquilo”... Nem precisava. Ao vê-lo, lançou à queima-roupa, na frente dos demais clientes, perguntas indiscretas sobre hábitos íntimos e outras coisas do tipo. Gentil travava, murmurando sins ou nãos hesitantes.
Ainda na recepção, disfarçou ler jornal, enquanto assistia à saída de outros homens de uma saleta de porta apertada. Discretos e ligeiros, se dirigiam à mulher, lhe entregavam algo e corriam. Foi quando ela gritou, mortalmente: “Sr. Gentil, é a sua vez, por favor!”
Trêmulo e desajeitado, dirigiu-se a ela, que o entregou um frasco, teceu recomendações de higiene e o conduziu à saleta, lhe fechando a porta na cara. Não havia mais o que fazer. Acuado e em desamparo absoluto, lançou-se, copinho na mão, numa poltrona larga, diante de uma TV que exibia uma frenética e barata cena de sexo, com mulheres de seios enormes gritando por Deus, feito loucas. Ao lado, revistas pornográficas e fotonovelas eróticas, com páginas pregadas, rasgadas provavelmente por algum aspirante a maníaco sexual.
Maurício deprimiu-se. Lembrava-se da mulher em casa, há meses, apontando-lhe a dedo o compromisso conjugal e, naquela manhã, o acordar solícito no preparo de vitaminas e outras misturas exóticas. Estava lá agora, a pouca luz, cercado de mulheres nuas, a calça nos joelhos, distraído no vazio daquele ridículo copinho de plástico, quando despertou ao chamado do celular – o hino do Botafogo! No visor, a foto sorridente daquele insuportável cunhado: “Raimundão, não não po-posso falar agora não, ca-cara. Estou no médico. Liga o-outra hora, tá?” E desligou, justo quando a atendente bateu na porta: “Está tudo bem, seu Gentil?” Ele, vestindo desastradamente a calça, disse que sim. Dirigiu-se à porta. Viu que não tinha como trancá-la. Ficou ainda mais nervoso. Temia que ela ou algum cliente desavisado pudesse abri-la a qualquer momento e flagrá-lo ali, nuzinho, com a mão boba.
Olhou para a TV, vendo aqueles homens mandando ver, despejando virilidade, e ele achando a brincadeira sem graça, querendo morrer, mas sem saber como dizer àquela mulher que daquela vez não deu... e, claro, que isso nunca havia acontecido antes.
Ela já batia à porta outra vez, quando ele desligou a TV, sentou, fechou os olhos e tentou concentrar-se devagarinho, pensar em algo bem sexy e estimulante. Foi quando se deu a tragédia. Numa armadilha do inconsciente, apenas uma imagem tomava conta de seus pensamentos: a maldita foto daquele cunhado em seu celular. Não adiantava, virava para um lado e para o outro, tentava pensar na mulher, na namorada da faculdade, na vizinha, mas aquela imagem, ao som do hino da “Estrela Solitária”, parecia pregada na sua testa.
Desesperado, após uma nova intervenção da atendente na porta, conseguiu num vaivém murcho coletar uma gota, uma única e risível gota! Ah, não, não precisava passar por isso. Ele não. Era tão homem quanto qualquer um ali. Daí, pegou o copinho, abriu a torneira da pia e misturou com o dedo. Respirou fundo e, como a melhor forma de defesa é o ataque, partiu para cima da atendente!
Deixando o seu copinho no balcão ao lado, praguejou contra aquela barulheira na recepção, aqueles filminhos chinfrins, da ausência de uma musiquinha para dar o clima, do excesso de luz e até das cores frias das paredes: “Não sei é co-como vocês a-ainda não fecharam?”
A atendente, com olhar a meio pau, fria como a tal parede, apenas perguntou: “E a sua amostra, afinal, onde está?”
Perturbado, Maurício virou-se, encontrando na mesa onde colocara sua amostra apenas um copinho de plástico com chá, enquanto, pela janela, outro paciente colocava os bofes pra fora.



domingo, 20 de maio de 2018

"Dolorosa", conto de Raymundo Netto para O POVO



A sisuda e determinada viuvez de Dolorosa era de causar espanto até no falecido.
Não fosse para comprar o pão matutino, nunca de sair às ruas, de oferecer-se em janela e muito menos de se desocupar em calçada. Durante o dia, flagrada em oração diante do bem cuidado oratório, onde descansavam aromáticas flores do campo em torno do derradeiro retrato de seu inesquecível amor. Depois, por horas, calava a respiração na imagem do morto, impressa ainda mais no peito em luto. Assegurava cumprir a clausura em vida, pois se dava por jurada ao ser amado, aquele que, dizia, só lhe contrariara uma única vez: na prematura morte!
Assistindo àquele martírio, imploravam os amigos: “Tão moça. Vai, mulher, viva!”. Para Dolorosa, todavia, amor que o tempo consome não é amor. O verdadeiro, único e exclusivo amor, herança maior do Deus que um dia os unira, sobrepujava a tudo, inclusive, a ausência física, merecendo ele toda e qualquer renúncia. Realmente era esse seu pensamento. Uma agonia, porém, a enredara, justo na solidão das eternas noites solitárias, quando suores e desejos eram contidos violentamente a pedradas de vergonha pela casta consciência. Sim, vivia ela um dilema secreto: o despertar do querer por outro homem.
João era um jovem auxiliar de padaria, bem mais moço que Dolorosa. Há meses, naquele estabelecimento, um descuido: trocaram olhares, e, num desses, Dolorosa fraquejou. No momento não sabia, mas João já a observava. Soube ele daquela viuvez defendida a todo custo. Isso o atraía profundamente. Também ele, às noites, em seu catre cheirando a farinha, se via perdido em lençol e no domínio da branquidão do corpo intacto daquela mulher. Imaginava ela entregue e em delírios, por tanto vigor reprimido. Naquelas manhãs, mesmo quando apartados pela lonjura incalculável do balcão, lia, escrito nos olhos divinos dela, a recusa ao toque alheio. Vê-la, sentir a polpa dos seus dedos ao receber os trocados do pão, buscá-la no interior das janelas da casa escura, passaram a ser as suas motivações de existir nesse mundo.
Um dia, Dolorosa despertou lívida e mais cedo que o de costume. Aguardou a abertura das portas de ferro da padaria. Correu ao longo do balcão e dirigiu-se ao rapaz. Entregou-lhe um dinheiro: “Moço, preciso ir à rua. Você poderia levar meus pães mais tarde em minha casa?”
João, surpreso, não recusaria. Assim, ao vê-la passar de volta, imediatamente enrolou os pães e plantou-se à sua porta, cuja soleira, há anos, não cruzava um coração masculino.
Dolorosa o aguardava. Ávida, abriu a porta e, por instantes, os dois permaneceram parados e mudos. O que João não sabia é que ela não o via exatamente como a vida o pintara, mas, sim, um quadro mórbido e repugnante. O corpo em ruínas e farrapos. Os ossos e traços de músculos revelados por entre carnes escuras carcomidas em vermes. A caveira sorridente a denunciar olhos amarelecidos, a língua negra e seca. Apenas os restos da imagem do homem que um dia o marido, e não o João, foi.
Depois, cerrada a porta, a respiração de ambos abrasava a casa de tal modo que os espelhos da sala embaçaram, recusando assistir ao ritual feroz e lascivo daqueles amantes que exalavam, no ardor do suor e do amor, o perfume frio e acolhedor da mais fiel sepultura.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Uane 35 anos: Educação a Distância, mas sem Distância"


UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE (Uane)
35 anos para todo o Brasil!

A Universidade Aberta do Nordeste (Uane) foi criada em 1983, quando a Universidade de Brasília (UnB) disseminou a experiência de educação a distância baseada no modelo da Open University de Londres. A sua primeira aula, do curso “O que é Política”, com apoio da UnB e da Superintendência de Recursos Humanos do Governo do Estado do Ceará, foi encartada em jornal em 8 de maio de 1983.
A Fundação Demócrito Rocha, instituída dois anos depois, assumiu o programa e, desde então, juntamente com vinte universidades brasileiras viabilizaram o projeto de cursos de extensão universitária a distância.
Até 1989, a Fundação Demócrito Rocha seria a única instituição privada não universitária no país a ser convidada para integrar a Rede Brasileira de Educação Superior Aberta e a Distância (Read), na época, recém-criada em Brasília por um circuito de universidades públicas e privadas, sob os auspícios do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB), considerando a Uane “como a maior e mais importante experiência de educação superior não presencial, indicando-a como modelo não só para o resto do país, como também para outros países da América Latina que dispõem de grandes jornais e de um moderno sistema de radiodifusão.” (O POVO, 4 de novembro de 1989), sendo recomendada ao Poder Público e à iniciativa privada o apoio a seus programas educacionais, pela Secretaria do Ensino Superior do Ministério da Educação, por se tratar de “uma experiência pioneira, sem similar no Brasil” (Parecer MEC/SESU nº 263/88).
 Em 1º de novembro de 1989, a Fundação Demócrito Rocha assinou convênio com a Universidade de Brasília (UnB) para o desenvolvimento de um programa de ensino superior a distância no Nordeste por meio da Uane. Pelos termos do convênio, a UnB produziria cursos de extensão universitária, responsabilizando-se pela avaliação e certificação, enquanto a Uane se encarregaria da ampla difusão do Programa em Educação Continuada em Ciência e Tecnologia desenvolvido pela UnB, Universidade de Campinas (Unicamp), Organização dos Estados Americanos (OEA) e Federação Nacional dos Engenheiros.
Inicialmente, a Uane se limitava à publicação dos cursos de extensão universitária editados pela UnB, mas logo criou os círculos de estudos dirigidos, tira-dúvidas por correspondência, biblioteca circulante, serviços de reembolso postal, entre outros recursos.
Em dezembro de 1996, o representante da Unesco no Brasil, Jorge Werthein, assinou convênio com a Fundação Demócrito Rocha de parceria em projetos de Educação, Cultura, Ciências Sociais, Exatas e Comunicação, figurando seu selo nos fascículos e demais materiais produzidos pela Uane até 2015.
Com a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96) e o reconhecimento da educação a distância como modalidade de ensino, a Uane ampliou seu raio de atuação, passando a oferecer além dos cursos de extensão, cursos técnicos profissionalizantes de nível médio e cursos livres.
Historicamente, a Uane utiliza os mais diversos recursos e ferramentas pedagógicas síncronas e assíncronas de ensino-aprendizagem, no intuito de assegurar o máximo de aproveitamento do aluno e mitigar os índices comuns de evasão, promovendo uma “educação a distância, mas sem distância”. Entre eles: material pedagógico impresso, em formato PDF e em html, videoaulas, radioaulas, webconferências, audiofascículos e ambiente virtual de aprendizagem (AVA), tutoria on-line, entre outros.
Os cursos, de forma geral, oferecidos pela Universidade Aberta do Nordeste (Uane/FDR) têm como objetivo primordial qualificar a população por meio da educação continuada e aberta desenvolvendo competências e habilidades articuladas com as premissas apontadas pela Unesco para a educação do século XXI, quais sejam: aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a viver e aprender a ser.
Hoje, aos 35 anos e com muitos motivos e amigos para comemorar, a Uane, filiada a Associação Brasileira de Ensino a Distância (Abed), já ofereceu 68 cursos de extensão universitária, assistindo a mais de um milhão de alunos inscritos em todos os estados brasileiros, formou 24 turmas do curso Técnico em Secretaria Escolar e promoveu 11 cursos livres.
Seja você também mais um(a) amigo(a) da Uane/FDR. Fique com a gente:

ava.fdr.org.br



segunda-feira, 7 de maio de 2018

"Cebola Cortada", de Raymundo Netto para O POVO



“Nossa, você é mesmo dura como pedra!”
Casimiro achava incrível a enfática frieza da noiva. Desde que a conhecera, nunca de tê-la visto derramar uma única lágrima por nada nem por ninguém. Cria ele que, por ser mulher, deveria ela ser a porção sensível do casal. Mas não. Ao contrário, seria ele, no dizer do povo, uma manteiga derretida, enquanto Petra, a noiva, era inabalável: “Se é assim, o que fazer? Adianta chorar, adianta?”
Aquela objetividade o molestava miseravelmente. Dissertava: “O pranto feminino tem um quê de beleza, suavidade, ternura, como se a pedir ninho, proteção, segurança.” Petra ria e fazia pouco: “Não é por ser mulher que tenho que ser assim...” E não precisava mesmo. Contudo, até entre as amigas, era discriminada. Nunca de ser convidada como dama de honra, madrinha de casamento ou dos sobrinhos, nem de receber convite para leituras ou mesmo rodas de oração, simplesmente porque sabiam que Petra sequer umedeceria os olhos e muito menos expressaria qualquer emoção. Aliás, no próprio casamento, Petra não chorou. Todo mundo desmaiando, se descabelando, caindo em prantos mais sentidos e ela lá, devorando a mesa de doces às gargalhadas e enchendo deles os bolsos do paletó do marido que, sem graça, a censurava: “Meu bem, você não tem sentimentos, não?”
Alguns anos vieram, assim como os filhos, mas nenhuma lágrima se viu.
Não percebia ela, mas Casimiro vivia um colapso moral. Sentia-se pequeno e frágil comparado à esposa casca grossa. Os diálogos rarearam e, só assim, Petra se alertou. Decidiu salvar a relação e quis aprender a cozinhar para ele. Sim, até então, tudo que era consumido em casa vinha em quentinhas.
Um dia, estava à cozinha praticando a sua culinária de internet, quando começou a cortar cebolas. Não demorou muito para que estranhasse: e não é que estava chorando? Não acreditou. Enquanto esfregava o dorso da mão por sobre os olhos, ria-se de tanto chorar. Chorava pela primeira vez na vida e o fazia fartamente tal qual torneira arrebentada. “Que sensação maravilhosa!” Foi quando se deu conta do tempo que perdera. Daí, sem saber por que, lembrou-se do pai – morrera tão cedo... – a segurar a sua mãozinha de criança em um passeio na praça. Veio-lhe a saudade dos braços calorosos da mãe a lhe embalar o sono. As horas em cima do muro do colégio à espera dos pais e o medo de ser esquecida. A imagem do Eduardo, o vizinho que amara com todas as suas forças de adolescente, e que nunca lhe dera a menor bola. As amigas que lhe deram as costas. As discussões intermináveis com o marido. As primeiras doenças dos filhos... enfim, a sua vida inteira lhe era revelada naquelas cebolas.
Passou a se entregar a elas. Mal dormia pensando na hora de voltar à cozinha e iniciar o seu corte psicanalítico. A choradeira era tanta, que os filhos em zombaria lhe apontavam o dedo: “Mamãe está chorando! Mamãe está chorando!” E estava mesmo. Berrava e gemia revivendo as suas angústias e a desabafar pelos olhos. Aquilo, sentia, era libertador. E assim lhe foram todos os dias, até aquele em que, descuidosamente, ao remexer na roupa de lavanderia, encontrou um bilhete do dia anterior no bolso de Casimiro: “Meu amor, te espero. De hoje não passa! Beijos”. Logo a seguir, um endereço. Petra não acreditou: “Tanto esforço e o canalha se divertindo com outra? Que desaforado!” Indignada, trocou a roupa e se dirigiu ao covil daqueles amantes.
Não é preciso dizer como se deu estrondosa a sua entrada no apartamentinho. Casimiro e a amante, flagrados em lençóis, assistiam mudos à mulher de olhos coléricos a esbravejar. Petra então sacou da bolsa uma faca. O pânico tomou conta: “Não, querida, não faça isso... Não faça!” Em seguida, ela tirou da mesma bolsa uma enorme cebola, a maior de todas, e começou a cortá-la delirante frente ao casal estupefato, derramando por sobre eles as lágrimas de toda a sua vida.




sábado, 21 de abril de 2018

"Bodas", de Raymundo Netto para O POVO



O assunto de domingo em família não poderia ser outro: as bodas de prata daquele casal. Irmãos, cunhados, filhos, genros, noras e netos, enquanto bebiam e comiam como se o mundo fosse acabar amanhã, abusavam do tema com os protagonistas, exigindo-lhes confissões e histórias do passado – algumas que eles próprios gostariam de esquecer ou das quais não se orgulhavam. Portanto, com todos os detalhes que só os chatos conhecem e exigem, se ocupavam do encontro marcado pelo destino, a chegada dos filhos, as noites em claro, os passeios em grupos e tudo o mais que testemunhasse estar ali um bastião do amor perpétuo.
Conversa vai e a cachaça vem, um cunhado – sempre tem um – saiu com a fatídica e desconcertante pergunta: “E no rala e rola, como anda o casal?”
Átila, na berlinda, assegurou enfaticamente: “É todo dia, meu filho. Sem falta. Bato esse ponto todos os dias!” A aclamação foi imediata, assim como à esposa, a Arlete, que, com sorrisinho sem graça, recebeu palmadinhas nas costas do mesmo maldito cunhado.
Contudo, horas depois, já em casa, o silêncio que preenchia o trajeto se avolumava diante da inquietude de retratos pregados na parede, no console e na cabeceira a denunciar a chegada de estranhos.
Como de costume, Arlete dirigia-se ao quarto e enfiava, como um avestruz na areia, a cabeça no travesseiro. Átila ligava a TV para assistir a qualquer coisa, qualquer mesmo, até dormir e roncar como se estivesse para morrer, mas nunca seguia a esposa àquele quarto. Esperava uma hora, duas ou mais. Daí, sim, dirigia-se a ele e delicadamente deitava-se à cama, na pequena parte que lhe cabia. Ela, por outro lado, assistia à chegada do marido com o mesmo silêncio. Deste modo, durante anos, como num pacto: ele fingia que achava que ela estava dormindo e ela fingia dormir e que não o via chegar. Naquele dia, porém, Arlete sentira uma dor absurda: “É todo dia, meu filho. Todos os dias”. Não saía de seus ouvidos a voz do marido naquele gracejo idiota e inverossímil. Não sabia por que, mas a ideia de deitar-se com ele, de saciar-lhe qualquer desejo ou oferecer-lhe o mínimo prazer, soava como uma ofensa descomunal. Então, durante dias, ela não conseguiria mais falar, sequer olhar para ele.
Na noite da véspera da festa, algo aconteceu. Estava ela deitada a fingir seu sono, quando Átila chegou. Para sua surpresa, ele falou: “Arlete, amanhã é melhor não se esquecer de ligar cedo para o bifê” e se cobriu no lençol. Ela arregalou os olhos. “Então, por todos aqueles anos ele sabia que ela não estava dormindo?”. Ele sabia! Ele sabia... Assim, como se fora toda feita em água, chorou até amanhecer.
Era o dia da festa de bodas. Um investimento absurdo. Amigos, familiares, colegas da empresa, alegres, reuniam-se em torno daquele amor que, gratuito, adoçava com bem-casados a boca de todos. E, na ritual hora do brinde, o prestigiado Átila, felicíssimo em um fraque alugado, segurando a mão de uma apática Arlete, levantou a taça e proferiu um discurso comovente. Ao final, arrematou: “E, o mais importante, mesmo após 25 anos, bato esse ponto todos os dias...” No que a mulher levantou-se, gritando alucinada, como se em humilhação pública: “Mentira! É Mentiraaaaaa!”



segunda-feira, 9 de abril de 2018

"O Plano Materno", de Raymundo Netto para O POVO



“Mulher dormindo com o filho” (1926), de Hermann A. Scherer.

Mamãe, eu não sei mais o que fazer com Imaculada...
Dona Mariquinhas, a mãe, era viúva de longa estrada. Com a morte de Horácio, o venerado esposo, enfrentou a criação e sustento do filho, fruto primeiro e único desse inconsolável amor. Daí, pouco sair à rua. Menos ainda amigos. Mesmo quando do filho em casa, para ajudá-la nas tarefas domésticas, as mais pesadas, tinha apenas o auxílio de Amâncio, um jovem abobalhado e truculento que criara desde menino, acolhido no lar em troca de casa e comida. Depois do casamento do filho com a sua primeira namorada, aquela Imaculada, sofreu horrores de abandono do ninho, até acostumar-se, se é que isso aconteceu.
. Aquele filho, no entanto, cheio de mimos, tornou-se um palerma de primeira. Tirando a instrução, mal sabia amarrar os cadarços. Naquele dia, por exemplo, em meio a dúvidas profundas, largara a clientela do escritório para buscar a barra de sua saia: “Imaculada, há dias, estava irreconhecível. Comprara lingerie indecorosa e uma calcinha que... (enguiou) e, no momento do amor, pôs-se a me dizer obscenidades, sem-vergonhices, palavrões. Pedir coisas. Nunca foi disso antes. Parecia endemoniada.”
A mãe desconfiou: “Tem boi na linha...” Aumentou a pressão dos dedos no cafuné. “Algum cafajeste está na área ou é má influência de amigas solteiras.” Concluiu: “Também, não há mais homens. Como o Horário, que era homem com H maiúsculo, e com 2 H, é bom que se diga, não se encontra mais.”
— Também não se encontra mulher como você, mamãe. Mulher honesta, irrepreensível, fiel até depois da morte. Diz, mãezinha, o que devo fazer?
— Uma prova! Você precisa é de uma prova. Mulher quando se perde, tem jeito não. As sonsas são as piores! Mas deixe que a sua mamãe tem uma ideia...
Então, dona Mariquinhas segredou ao ouvido medroso o terrível plano.
No outro dia, estava o casal na sala. Ele na poltrona e Imaculada deitada no sofá, quando batem à porta: um mensageiro! Vinha lhe entregar um buquê de rosas escandalosamente vermelhas. O canastrão, sabendo do embuste, pediu que ela atendesse. Fingiu surpresa: “Rosas? Deve ser engano. Só pode.” Percebeu ela colher o cartão do pretenso amante – com mensagem que ele mesmo digitara – e o esconder furtivamente ao decote: “Ah, mas são lindas... Vou pô-las no vaso, amor.”
Ainda com teatro, ele anunciou sono e dirigiu-se ao quarto, orelha em pé, ouvindo a esposa falar baixinho ao celular. Logo, confusa e disfarçando o pouco jeito, a mulher entrou no quarto e começou a se despir. Não suportando mais, ele saltou rapidamente, pegou o celular dela e saiu correndo, enlouquecido: “Sua vagabunda! Eu mato ele! Eu mato os dois!
Como sempre, sem saber o que fazer e incapaz de matar uma barata, correu em busca do colo materno que, no adiantado da hora, estava às escuras. Entrou. Sentindo-se irremediavelmente ferido de traição, como um bebê assombrado, se jogou na cama da mãe, sendo violentamente apanhado pelos seus braços:
— Amâncio, seu guloso, quer mais da sua cachorra, né? Vem, tarado, vem!
Então, completamente pasmo e entregue, provou daquele beijo a fórceps, a quase extrair-lhe a alma inteira.