segunda-feira, 23 de março de 2026

Campanha de Pré-Venda: "Um Conto no Passado: cadeiras na calçada", de Raymundo Netto, edição DEFINITIVA


CAMPANHA DE PRÉ-VENDA:

Um Conto no Passado: cadeiras na calçada (independente), obra de estreia de Raymundo Netto, ROMANCE inaugurador e ganhador do I Edital de Artes da Secult-CE, lançado originalmente em 2005, agora em 3ª edição comemorativa aos 300 ANOS DE FORTALEZA.

Quem não leu, poderá conhecer a obra agora. E quem já leu, terá acesso à obra REVISTA em edição definitiva.

Preço de Capa:

R$ 40,00 (para quem residir em Fortaleza) e

R$ 50,00 (para o frete, para quem o adquirir de qualquer outro lugar do país).

O pagamento poderá acontecer por PIX, por meio da chave-PIX (chave: livrodoray@gmail.comao pagar, me envie o seu endereço pelo mesmo e-mail) ou apontando o seu celular contra o QR Code do card da Campanha.

IMPORTANTE: A campanha será CURTA. Conto com a sua aquisição e amizade.

Não perca a maior história de amor a Fortaleza de todos os tempos!

PARA SABER MAIS SOBRE A OBRA, leia a crônica a seguir: “A Casa Virou História e o Amor Virou Livro”



 

domingo, 22 de março de 2026

"A Casa Virou História e o Amor Virou Livro", de Raymundo Netto para O POVO


Quando adolescente, voltando de ônibus do colégio para casa, no caminho me deparava com uma construção de arquitetura única: a “Itapuca Villa”.

Deslumbrante, triste e abandonada, ela pertenceu a uma família importante da cidade. Trazia extensa varanda de madeira no andar superior, centrada com um frontão decorado em lambrequins, com mãos francesas e treliças, tudo sustentado por vigas também de madeira robusta e rodeada por muitas portas com bandeiras envidraçadas e coloridas. Não havia um dia sequer em que eu não me sentasse à janela, ansioso para revê-la.

Ao final dos anos 80, a casa foi aos poucos desmontada, resistindo até ser demolida no início da década de 90. Hoje, o terreno é ocupado por uma escola assombrada por insaciáveis cupins.

Alguns anos depois, em 2004 – quando já havia trocado a minha profissão pelo cinema, quadrinhos, artes gráficas, magistério e por outras fatalidades –, decidi cumprir a ingênua promessa de escrever sobre aquele absurdo: a demolição de tamanho patrimônio.

Foi quando conheci o sr. José Américo Lopes, um homem de 90 anos, portador de memória prodigiosa. Numa tarde preguiçosa em sua casa na Barão de Aratanha, no Centro, me confidenciou ter lembranças “daquela casa”. Nela, dizia, vivera uma grande história de amor. “Como assim?”, perguntei, incrédulo. Sorrindo, pediu à filha, Cristina, que nos trouxesse determinada pasta com papéis. Era a tal história, só que escrita por ele mesmo: “Você gostaria de ler?” Em seguida, me falou um pouco sobre o que encontraria ali. “Você já escreveu algum livro, meu filho?”, perguntou-me. “Não, eu nunca”, respondi, enquanto folheava com vagar algumas páginas datilografadas por Cristina. Ela, temendo por aquele material, advertiu: “Pai, nós não temos cópia...” Ele tentou tranquilizá-la: “Filha, eu confio no moço.” Na pasta, também repousavam cartas antigas. Quando as toquei, ele imediatamente as pediu: “Não vai precisar delas. Deixe-as comigo.” Entreguei-lhe as cartas. Ele as acolheu com sorriso afetuoso e delicado, como quem recebe uma joia, e tirou do peito um nome sussurrado: “Olívia”. Com carinho, acomodou o maço no colo e arrematou: “A história toda está aqui.”

Saí de sua casa tomado de curiosidade, porém nem tanto pelo original que trazia em mãos, mas pelas cartas, aquelas as quais não pude ler. Afinal, que segredos trariam?

Na época, eu morava na Vila Doutor Alencar, um conjunto de casas geminadas no Monte Castelo, onde as crianças brincavam na estreita rua e os vizinhos, ao entardecer, colocavam as cadeiras na calçada. Ali, naquela calçada, sentei-me em minha cadeira de palhinha e pus-me a ler “Um Conto no Passado”, a história de Américo Lopes: “Eu era um menino como qualquer outro que crescia, até então, em pequena cidade de ruas descalçadas, a me entreter sentado no cume de frade-de-pedra, esquecido do mundo...” Incrível, a história me envolveu de tal forma que não consegui parar até a sua última página. Nela, encontrei aquele homem ainda garoto e o acompanhei pela vida afora: os dramas, conflitos, a juventude e o primeiro amor: Olívia! E o mais interessante é que, enquanto Américo narrava a sua trajetória, revelava uma outra paixão: a sua cidade. Sim, a grande personagem do livro.

Voltei a conversar com ele e decidimos publicá-lo. Assim, por meio de um edital público, a obra “Um Conto no Passado: cadeiras na calçada” teve o seu primeiro lançamento em 2005, estando esgotada há bastante tempo.

Em 2026, passados 20 anos, a saga de Américo retorna em campanha de pré-venda, em edição comemorativa aos 300 anos de nossa cidade. Você precisa conhecer esta que é a maior história de amor a Fortaleza de todos os tempos.

Acesse o meu Instagram: @raymundonetto67




 

segunda-feira, 9 de março de 2026

"Entre Estetoscópios e Batarangues", de Raymundo Netto para O POVO


1975. Morávamos em quitinete no Realengo... Aquele abraço! Últimos dias de Guanabara em janeiro, fevereiro e março, sem régua ou compasso.

Meu pai fora transferido para a “cidade maravilhosa” da qual ouvia horrores. Obrigado a prestar curso de seis meses, não teve jeito. Temeroso da responsabilidade, determinou-se a enfrentar essa quimera sozinho, deixando a esposa e os seis filhos menores no Ceará – a mais velha tinha apenas 10 anos. Porém, não suportou de solidão, e, logo, pegamos um “pau de arara” da Itapemirim e fomos ao seu encontro. Como o seu soldo não era dos melhores, conseguiu nos instalar na suburbana quitinete aos fundos de uma casa em Vila Militar.

Durante meses, minha mãe seria a nossa professora em casa, criando em cartolinas dominó, cartelas de bingo, jogos de memória e outros recursos lúdicos educativos para que não tivéssemos que ingressar em colégios cariocas. Afinal, além de nos poupar dos supostos perigos da urbe, a ideia seria voltar em breve ao Ceará trazendo nas malas bastantes saudades. Todavia, o que fazer com aquela meninada agitada, aprontando todas, exaurindo durante o dia inteiro a esposa, mas também babá, cozinheira, faxineira, professora, costureira...? Meu pai encontrou a solução: revistas em quadrinhos!

Comprou uma primeira leva dos populares “gibis”. Naquele tempo e durante muitos anos era possível encontrar boa diversidade de títulos: Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey, Almanaque Disney, Zorro, Carequinha (depois, Pinduca), Recruta Zero, Família Buscapé, Heróis da TV, Sacarrolha, Tininha, Bolota, Riquinho, Gasparzinho, Brasinha, Brotoeja, Bolinha, Luluzinha, Fantasma, Heróis da DC e da Marvel, Pimentinha, Popeye e tantos outros. Depois, meu pai “trocava” as revistas: levava as que tínhamos lido e, pagando um valor bem menor, conseguia nos trazer outras. Era grande a alegria da casa.

Costumo dizer: foi com elas que iniciei meu gosto pela leitura, assim como pelo desenho e, claro, pelos quadrinhos, costume que me segue ainda hoje – embora leia outros títulos.

Falar ou escrever sobre essas leituras infantojuvenis me traz sempre bons sentimentos e felizes recordações. Guardo algumas dessas revistas em minhas estantes. Ao lê-las ou simplesmente folheá-las, chegam-me memórias, sons, músicas, sabores de tempos há muito passados: “Não ligue pra vida, resto de amor./Não importa o mundo a se revelar./Eu vou ampliar sua vida/Em alto contraste com a volta/Close em preto e branco com muito amor.”

Um dia, já formado e atuando como fisioterapeuta, soube que saíra nova revista em que o terrível vilão Bane destroçara a coluna do Homem-Morcego. Como assim? Fiquei tão ansioso que, saindo do atendimento de paciente, corri para a banca de revistas para comprá-la. Nela, vinha como brinde um batarangue de plástico – espécie de bumerangue à moda Batman. Pois bem, li em pé, lá mesmo na banca da 13 de Maio, todo de branco, com estetoscópio no pescoço, o ridículo batarangue empunhado em uma mão e, na outra, a trágica revista, sendo surpreendido com a vergonhosa vontade de chorar ao ler o final de carreira do meu herói preferido, aquele colecionado desde os meus descomplicados 11 anos.

Essa história, claro, não terminou ali, assim como este texto, que nasceu do desejo tão egoísta de me devolver às próprias lembranças.