terça-feira, 14 de dezembro de 2010

"Sofreres d'Amor", crônica de Airton Monte para O POVO


Quem porventura acreditar que o romantismo morreu faz tempo, que não é mais crível nem possível a existência de pessoas românticas nesse mundo tão pobre de sentimentos, eu decididamente aconselho, sugiro que pense um pouco melhor, pois pode estar redondamente enganado. E com o empedernido coração pleno de equívocos. Sim, porque há pessoas que pensam de modo muito diferente e apesar da gélida indiferença de alguns de nossos semelhantes, ainda acreditam piamente no existir infindável do romantismo, quer estejam ou não incendiadas de paixão. Eu, mesmo correndo o risco de parecer patético, confesso ser um romântico incurável, sem qualquer pejo nem pudor. Sim, sou tão romântico que até pareço haver saído de um poema de Álvares de Azevedo ou de Lord Byron.


Conheço uma amiga, dessas raras mulheres que envelhecem sem perder o romantismo nem a capacidade de devanear sobre romances fantasiosos ou reais. Outro dia, numa de nossas longas conversas, ela me confessou timidamente que achava lindo um homem sofrer por amor. Não sofrer calado, discretamente, quase às escondidas como quem esconde, envergonhado, um terrível pecado. Admirava com fervor aquele tipo de homem que sofre às escâncaras, ostentando a sua dor-de-cotovelo feito um galardão pelos bares noite adentro, contando seu drama a qualquer desconhecido, com coragem suficiente para mandar a dignidade às favas. Respeito a opinião da amiga que, aliás, já ensandeceu vários homens.


Sei de casos do mesmo gênero, com alguns findando inclusive em suicídio. Nada vejo demais em sofrer por amor, do sujeito sentir-se mutilado ao perder a mulher amada e que a pensava sua para todo o sempre, assim na terra como no céu. Nada há de anormal, de doentio, em se ficar um certo tempo deprimido, na fossa, macambúzio, sem ver nenhuma graça na vida, em outras mulheres, tomar porres homéricos, dar escândalos em público, passar um vexamezinho aqui, outro acolá. Sofrer por amor é, talvez, a mais humana das dores. Entanto, como não creio nem sequer um pingo nesse tal de propalado amor eterno, penso que todas as dores e sofreres d’amor devem ser intensos e passageiros qual chuvas de verão. As musas mudam, se vão, mas o romantismo fica, dura, resiste, permanece.


A amiga, depois de ouvir-me, olhou-me de esguelha como se eu fosse um ser extra-terrestre, um alienígena do sentimento. De infarto você não morre, porque não tem coração, falou-me ela. E retirou-se, incontinenti, de minha incômoda presença. Chamei o garçom, pedi mais um chope e um samba bem triste do Noel. Quedei-me a lembrar amores idos e vividos, ocultos nas brumas do ontem e o quanto sofri, padeci por cada um deles num inventário masoquista. Para alguns escrevi poemas. Para outros, canções. Os versos permaneceram vivos, já os amores não. Meu coração não é besta e por eles não sofre mais. Meu coração é um vasto cemitério sentimental povoado de lápides anônimas, derruídas, soterradas pela poeira do olvido. O vento do tempo, implacável coveiro, felizmente apagou os nomes gravados em cada tumba. Mas não me arrependo de havê-los vivido.

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