domingo, 19 de setembro de 2010

"Ouro aos Bandidos", crônica de Ana Miranda para O POVO (17.9)


Lembro que, faz alguns anos, em São Paulo chamaram um especialista que havia trabalhado na reconstrução olímpica de Barcelona, a fim de se verificar novas possibilidades de despoluição do Tietê. O espanhol concluiu que despoluir o rio não era tão difícil. O difícil era despoluir a paisagem. No trecho em que a capital paulista é cortada pelo rio, aquela imensa reta cercada de rodovias, a paisagem era uma das mais feias do mundo, agravando a sensação de mal estar para os milhares de moradores engarrafados a respirar e contemplar uma espécie de inferno urbano. Melhoraram as águas do rio, ajardinaram suas margens, construíram uma ponte metálica decorativa, alguns proprietários de imóveis marginais trocaram muros por gradis e jardins, e com esse esforço comum a paisagem vai se amenizando, aos poucos.

Lembro, também, quando no Rio de Janeiro o Jockey Clube entregou à cidade um belíssimo presente: na parte que dá para a lagoa, substituíram os muros, que viviam sujos e pichados, por grades no estilo oitocentista, adornadas por renques de lindas plantas. Uma festa para a cidade. Em Seul a recuperação do centro urbano com paisagismo em torno do rio Cheonggyecheon é uma aula para todo o mundo. Assim, as cidades vão enfrentando os desafios da modernização, criando o seu futuro. As cidades feias, sujas, áridas, mal cuidadas, vão ficando para trás.

Acabo de chegar de Santa Monica, onde fui deixar os netinhos, após férias no Ceará. Com os olhos acostumados à lindeza e ao capricho de cada casa, todas bem cuidadas e ajardinadas, de cada rua com suas alamedas e renques de espécies californianas, senti mais fortemente a poluição visual de nossa querida cidade. Fortaleza é cortada pelo rio Cocó, numa das suas partes mais exuberantes. A avenida Washington Soares é feita dentro de padrões atuais de urbanização, com áreas ajardinadas, ciclovias, e outros aspectos. A beira-mar possui a beleza marítima, uns coqueirais... Mas ao adentrar as ruas de Fortaleza vemos quase sempre um desfile de indiferença pelo espaço público. Há ruas que lembram um estado de guerra. Muros altíssimos se multiplicam a cada dia, como se fossem uma solução de segurança; sem nenhuma vegetação, encimados pelas sinistras concertinas, que são aquelas espirais metálicas com garras, parecem campos de concentração; outras ruas lembram desertos, sem uma árvore sequer.

Alguns moradores têm a delicadeza de plantar buganvílias por trás dos muros, e as concertinas ficam escondidas por floridos tufos. Uns plantam hera nos muros. Uns fazem canteiros com arbustos. A cidade agradece. Vemos fachadas ladrilhadas e gradeadas, quase sempre áridas e feiosas; casas avançam sobre calçadas; há fachadas em ruínas, material de construção na rua, empresas com letreiros, propagandas, emaranhados de fios em postes, parques abandonados, rampas de lixo... A Domingos Olímpio, por exemplo, por onde passo quando vou visitar minha tia ou meu amigo Pedro Salgueiro, é de uma feiura indescritível, apesar de ser uma rua importante, movimentada, que acolhe eventos turísticos. Deveria receber tratamento paisagístico e incentivos para que os proprietários de imóveis reformem suas fachadas e calçadas. As praças, tão abandonadas... A cultura da preservação por aqui é restrita a alguns heróis, como os moradores de uma rua no Papicu, que se cotizam e desdobram para manter limpa, ajardinada, agradável, segura, a pracinha de suas imediações. Num prédio ou outro, copas de vegetação despencam graciosamente pelos gradis. Numa casa ou outra vemos um muro baixo, ou jardins ornando a fachada. São presentes para a cidade.

A Prefeitura pode fazer muito. Educar, orientar, explicar, fiscalizar. Descontos no imposto predial, concursos de “Os mais belos quarteirões”, “As mais belas ruas”, campanhas de amor pela cidade, de amor pelas árvores e pelos jardins, de amor pelas praças, campanhas de alargamento de calçadas, de restauração de fachadas, corredores culturais... Exigir consciência ambiental das empresas e sua responsabilidade pelo entorno...

Campanhas de caminhadas a pé pela cidade, de ocupação das ruas pelos moradores... Campanha das simpáticas cadeiras nas calçadas ao entardecer, costume a ser preservado. Os cursos de arquitetura podem pensar em aplicação prática de ideias de paisagismo. Estive no Rio, recentemente, e o tema das conversas era o arrependimento por terem se encerrado entre grades e deixado as ruas a quem quisesse se aventurar. “Entregamos o ouro ao bandido”, diziam. O “ouro” é a nossa vida.

ANA MIRANDA é autora de Boca do Inferno, Desmundo, Dias & Dias, Yuxin, entre outros romances, editados pela Companhia das Letras

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