quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Orelhas de Raymundo Netto para "Miudezas do Azul", livro de poemas de Diogo Fontenelle


“Abro meu coração para o azul-sonhar.”

“Toda distância é azul.”
Otto Lara Resende

Miudezas do Azul, obra dividida em três azuis – azul-infância, azul-dia a dia e azul-amém –, é o 17º livro publicado deste profícuo – e, desnecessário dizer, sempre onírico – poeta das estrelas: Diogo Fontenelle.
Em “Miudezas do azul-infância”, sob o luar ou copa de árvores, regressa ao imaginário infantil, embalado por “Conceição”, tangendo em linhas melódicas, “feito um bandolim”, os acordes de seu passado, cosidos em coloridos e alegóricos versos de lembramentos e agonizantes saudades, a ondular toda a obra como bolhas de sabão no ar: quintais, jardins, árvores de estimação, piões e pipas, doce de leite, sonhos, objetos afetivos, alfenim, a rede branca de cordas, pregões de rua, contos infantis, personagens, cartas, telegramas, fotografias, folguedos, as cadeiras nas calçadas, lendas, leituras, pessoas queridas – entre elas, claro, dona Carmelita, mulher, mãe e guardiã, marchetada na caligrafia amorosa do poeta –, para imprimir num suspiro desabafado: “Hoje, desfolho-me em lamentos de antessala/Hoje, toureio razões de um desamado ancião.”
“Miudezas do azul-dia a dia” também leva o poeta ao passado, entretanto, não é mais a nostalgia que nos escreve, mas, sim, o gole amargo da desilusão, do desperdício, de juízos e a dor da incompreensão num “reino do não agendado”, vertido em sua “lágrima de pierrô”, que reside em uma Fortaleza que “virou mais uma metrópole banal de almas desencantandas.”: “Meu olhar infantil se foi: vejo tudo pequeno demais.”
Atentemos que nessas miudezas é possível perceber e compartilhar os aspectos sinestésicos que provocam e apuram seus poemas, além de causos, histórias e até anedotas transformadas em poesia, o “sumo de afeto em gota com bagaço de melancolia.”
Há, entre os poemas, a expressão de sua insubmissão à desigualdade social: “Sonho de menino pobre é luz de fósforo na escuridão.”
Engana-se quem pensa que “Miudezas do azul-amém” versa sobre doutrina ou religião. Essa tércia parte, embaciada pelo chuvisco nas vidraças de sua janela, se destina a amigos, a crenças de seu viver-sonhar, aos mortos, à sua leitura do mundo e à certeza de ser impossível aprender “as medidas dos afetos”: “Nem sei se o tempo passa, ou se sou eu que passo./ Nesse mistério sem proporção nem luz na escuridão,/ Vou eu ser vagalume pelo desvão do tempo-espaço/ Na desproporção de um poeta sem voz nem canção.”
Há em “Miudezas do azul-amém” a insistência obstinada do “nunca mais”, representada na certeza de Otto Lara Resende – pelo que nos lembra Diogo –, ao clamar: “toda distância é azul”. Aliás, também é Otto que diz: "Uma criança vê o que um adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que de tão visto ninguém vê.” E, por isso, nosso poeta-menino ainda assegura: “Quando os ventos me chamarem, serei caravela”.
Como o sol que se afoga na tarde e a noite que desliza nos telhados, os versos azuladores de Diogo sangram afetos e vaporam alfazemas, plenos de amores. Impossível não provocar as nossas próprias recordações diante de quadros tão bem produzidos em seus matizes pessoais. Apesar da maturidade de sua poesia, Diogo consegue imprimir nela o encanto e a doçura necessários ao olhar de criança. Como ele mesmo diz: em sua “alma de menino-ancião”.
Para o leitor, seguramente, deparar-se com essas páginas de desmedidas miudezas será como encontrar, a germinar em silêncio, uma rica botija enterrada no coração do poeta.



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