terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

INSCRIÇÕES ABERTAS Concurso Literário Pague Menos (1º de abril)



Estão abertas as inscrições para o 7º Concurso Literário Pague Menos, promovido pela Farmácia Pague Menos.
O edital tem como objetivo selecionar textos literários no formato poesia, para participarem da composição do livro do concurso. Serão selecionados textos que tenham como temática “Amor é o que nos faz gigantes”, uma celebração a esse sentimento que acompanha nossas vidas.
Serão aceitas inscrições de autores brasileiros (maiores de 18 anos), com poesias inéditas ou não, podendo enviar apenas um texto. Esse edital irá selecionar 100 obras, sendo que cada autor receberá 10 exemplares. Os 5 melhores irão receber também:
·         1º lugar: R$ 2.500
·         2º lugar: R$ 1.500
·         3º lugar: R$ 1.000
·         4º lugar: R$ 700
·         5º lugar: R$ 550
Os textos devem ser enviados na seguinte formatação: fonte Arial, tamanho 12, sem espaçamento entre linhas, tamanho máximo de 1 lauda em A4.
As inscrições podem ser realizadas até o dia de abril pelo site oficial (clique em “Acessar” para ser redirecionado).

Saiba mais e inscreva-se: 





segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

"Olhos Azuis", de Raymundo Netto para O POVO



Mas eu a amo até o fim dos tempos... e você não pode fazer nada para mudar isso!”
Aquela severa e quase heroica confissão rasgaria os curiosos ouvidos do condomínio inteiro. Mas quem poderia imaginar que ela partiria da quitinete tão silenciosa, cheirando a urina, e logo daquele inquilino, um homem de mais de 80 anos, baixinho, magro, quebrantado e que parecia mal se sustentar nas próprias pernas, tão raro de sair de casa ou de ser visto pelas áreas comuns do prédio?
Souberam depois que seu filho, contrariado com uma possível aventura de seu velho pai, discutia e ameaçava: se ele não se afastasse daquela “piranha”, o colocaria num asilo e tiraria dele o pouco do dinheiro que ainda lhe restara.
“Tenha modos, Ozires Filho! Você nem a conhece e a julga desse jeito”, desiludia o pai.
O filho, entretanto, não se comovia, mesmo assistindo ao belo par de olhos azuis – “herança do vovô, que era holandês” – a derramar em lágrimas a súplica por piedade. “Tenho certeza que a sua filha pensa da mesma forma, papai. Da próxima vez que eu souber que saiu e que deu dinheiro para aquela, aquela... – moderou –... já sabe: asilo! Temos dinheiro para bancar seus remédios e plano de saúde, não. E muito menos festejo de velho sem-vergonha.”
Resoluto, o filho dirigiu-se ao quarto para deixar as fraldas descartáveis e os medicamentos que havia trazido da farmácia, quando viu a sala vazia e a sua porta aberta. Correu e ainda assistiu ao pai, em desabalada carreira, vestindo a camisa e pegando um táxi que, por ventura, passava à porta. Ele correu atrás, gritou. Os vizinhos saíram à janela e acudiram nos “Pega! Pega ele!”, mas o veículo mouco ao tumulto partiu levando o velho resfolegante.
Ozires era comerciário aposentado e viúvo. A esposa vivera enquanto pudera com ele – um câncer a descansou –, mas o sabia cobiçado pelas mulheres no trabalho e no entorno. Galanteador, abusava de perfume e de palavras adocicadas em mentiras para tê-las próximo de si. Amava à debalde. Nunca alguém mais apaixonado. O casal de filhos, ainda adolescentes, a pedido da mãe, ia resgatá-lo no bar do seu Natanael, completamente bêbado, cantando a dor de cotovelo mais tórrida e incurável, chorando horrores: “Eu quero morrer. Me deixem morrer em paz! Eu mereço morrer...”
De fato, há meses, à surdina noturna de uma casa de shows, deu-se com Setembrina: “Mas me chamam por Seth”. Sentiu seu coração pulsar a paixão dilacerante, uma lambança espiritual. Desde então, com os seus insuficientes recursos, passou a ser seu protetor. Ela ligava todos os dias, por meio do celular novo pago pelo velho, assim como também ele a regalava com perfumes, sapatos, acessórios, roupas e bebida... em troca de uns poucos afagos, de um ouvido mesmo que desatento, daquela sensação gostosa de remoçamento e do fim de uma solidão.
Então, com a fuga do pai, Ozires Filho chamara logo a polícia. Estava furioso com ele, mas só o veria novamente na manhã chuvosa do dia seguinte, apenas em fraldas, no abandono da travessa escura e enlameada de um bairro distante. O corpo inerte, frio, roxo de pancadas e com os olhos cuidadosamente arrancados e desaparecidos.



sábado, 2 de fevereiro de 2019

"Lamparina de Histórias: Festival Internacional de Contos" (14 a 16 de fevereiro)


Lamparina de Histórias: Festival Internacional de Contos, uma realização da Casa da Prosa, tem o apoio da Enel Geração e do Banco do Nordeste, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. Esta edição de 2019, com homenagem à tradição oral africana e à cultura afro-brasileira, conta com a parceria da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).
Idealizado em 2009, pela narradora e educadora Júlia Barros, o festival completa 11 anos de atuação e ganha sua primeira edição internacional. O objetivo é valorizar o registro e a preservação da memória oral dos contadores de histórias tradicionais espalhados pelo mundo. Nesta edição, traz pela primeira vez a Fortaleza, o escritor e narrador Boniface Ofogo. Toda a programação é gratuita e acontecerá de 14 a 16 de fevereiro, no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza, e na Escola Euclides Pereira Gomes, no Pecém.
A ação reúne narração oral, apresentação de teatro de bonecos, mesas redondas, oficinas, apresentações artísticas, shows de Tambor de Crioula, lançamentos literários, feira de livros e artesanato e, ainda, maratona de contos africanos com estudantes da Unilab.

Linete Matias

Entre os destaques da programação, estão os espetáculos com o narrador Boniface Ofogo da República de Camarões (África Central) e com a escritora e arte-educadora Madu Costa (MG) sobre as Histórias de Orixás Femininas. Além da apresentação, “Encantados das Águas” de Linete Matias (AL).
                                                            Madu Costa

Mais do que uma rica programação cultural com atividades para todos os públicos, o Festival também oportuniza a troca de saberes entre a plateia e os convidados que trazem em seus repertórios de apresentações ensinamentos e vivências das várias comunidades em que atuam.

SERVIÇO
Lamparina de Histórias: Festival Internacional de Contos
Local: Centro Cultural Banco do Nordeste Fortaleza e Escola Euclides Ferreira Gomes no Pecém.
Endereço: Rua Conde d’Eu, 560, Centro.
Datas: 14, 15 e 16 de fevereiro de 2019.
Horários: quinta, sexta e sábado, das 10h às 19h.
Classificação: Livre. 
Informações: (85) 98526-1201/ (85) 3252-3343 Casa da Prosa
Acesso para pessoas cadeirantes pela Rua General Bezerril.
Paraciclo disponível no pátio interno.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA
14 de fevereiro (quinta-feira), na E.E.F. Euclides Pereira Gomes, no Pecém
Local: Escola Euclides Pereira Gomes (Pecém/São Gonçalo do Amarante)
9h - Contação de histórias Encantados das águas com Linete Matias (AL).
14h - Apresentação de teatro de bonecos Bicho do Rio com Cia. Chacoalho (CE).

15 de fevereiro (sexta-feira),
10h - Maratona de Contos Africanos com os estudantes da Unilab, no palco principal.
12h - Apresentação da Banda Cabaçal Palmares com estudantes da Unilab.
14h - Contação de histórias Encantados das águas com Linete Matias (AL), no palco principal.
15h - Bate-papo: Raízes dos contos africanos no mundo com Hilário Ferreira (CE), Madu Costa (MG) e Boniface Ofogo (Camarões), no palco principal.
16h30min - Apresentação do Maracatu Rei Zumbi.
18h - Contação de histórias Ayabás: Histórias de Orixás Femininas com Madu Costa (MG), no palco principal.

Dia 16 de fevereiro (sábado)
10h - Maratona de Contos Africanos com os estudantes da Unilab, no palco principal.
12h - Grupo de dança Vozes d’África com estudantes da Unilab.
14h - Oficina Como se forma um contador de histórias na África com Boniface Ofogo (Camarões).
15h - Espetáculo teatral Livrolândia: o reino da Leitura, da Cia. Camarim de Teatro, no palco principal  (programação do CCBNB).
16h - Lançamento do livro Outra vez Mariana, de Madu Costa (MG), no palco principal.
17h - Contação de Histórias O elefante que perdeu o seu olho com Boniface Ofogo (Camarões), no palco principal.
18h - Apresentação do Tambor de Crioula Filhos do Sol, no palco principal.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

"A Paixão", de Raymundo Netto para O POVO



Envelhecera 10, 15, 20 anos, desde a última provocação: "Perverso!"
Com o ânimo de uma traça, ele carregava um sentimento sem nome e sem cor desde a última vez que a vira, há muito tempo.
Andaram juntos por aí sem nominar a relação, sem horas para os encontros e despedidas. Não carecia, ele pensava, de tão sinceramente espontâneas: eram amigos, mais do que amigos, menos que namorados – às vezes mais do que isso, mais do que tudo de bom acima desse chão.
Para ela, confessava todos os seus pecados, contava as suas histórias, desfiava seus medos, abria um rombo em seu coração minado. Em troca do ouvido atento e despretensioso, a tratava com gentilezas, dava-lhe presentes, aconselhava, apresentava-lhe todo um mundo que ela jamais poderia conhecer não fora a sua companhia. E se iam num vaivém de ternuras e afetos, despejando sorrisos quase juvenis e cantando o amor febril, sem impor nas costas um do outro nenhum peso de mentiras, falsas convenções ou pregar ilusões melosas ou palavras desnecessárias, até o derradeiro dia quando, num heroísmo quixotesco, para preservar aquela tão querida, a lhe confessar um súbito amor, concedeu-lhe a liberdade: "Vai, é melhor, nem eu gosto de mim!"
Ela não engoliu isso e transfigurou-se. Acabou-se o encanto e a boca antes suculenta do beijo falseou-se em mordida amara. Encerrada a princípio numa implosão brutal, a questionar a relação entre céu e inferno, a afogar-se no travesseiro, a escrever suas mágoas todas, a tatuar seu ódio no corpo, a livrar-se de cada lembrança sua, como se fora possível embrulhar numa caixa os seus mais arraigados sentimentos. Diante do seu fracasso, fez-se invisível. Mas não era a única. Outra, de um passado anterior, também há anos tentava colocar em ordem seus pensamentos e angústias, culpando aquele mesmo homem por tudo de ruim que acontecera e que ainda aconteceria com ela, além do tempo perdido, a unha encravada, uma dor no dente, os gastos com remédios e o barulho no túnel carioca.
Elas se descobriram na internet – a primeira orbitava a segunda – e, logo, também a primeira, em fúria, cuspia para ele: "Por que você não morre logo?"
Entre elas, foi amor à primeira vista. Compartilhando suas dores comuns, passaram a se corresponder, trocar ideias, confessar com uma curiosa disposição o discurso consensual: "Perverso!" Certas de que ele era um acidente, mas sendo possível sobreviver a ele, crucificaram-no, torceram-lhe a perna e o juízo, desejaram-lhe todo o mal do mundo. A primeira ainda se ria quando afirmava com toda ridícula certeza: "Nada não. O pior castigo para ele é ser ele próprio..."
O rapaz, entretanto, trazia o defeito imperdoável da sensibilidade. Sentiu naquele dia uma coisa ruim a tomar-lhe a cabeça. Angustioso, pôs-se a pensar na febre a calcinar-lhe o espírito e, ao analisar-se de raiz deu-se a conhecer um sentimento até então desconhecido: o arrependimento!
Arrependeu-se por cada minuto devotado àquelas mulheres, de cada beijo dado, cada abraço, cada minuto em suas companhias. Essa rejeição pungente o devorou por dentro e acinzentou seu olhar. Em pouco tempo, deixou-lhe no espírito um oco de labirintos, profundamente perdido numa confusão louca de ruim e a certeza de que a mulher apaixonada é um perigo.
Livrai-o, Senhor, da mulher que lhe dedica a paixão...



sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

"Vida Linda de Morrer!", de Raymundo Netto para O POVO



A dona Morte estava triste. Tirante uns diligentes suicidas – muitos deles querem se matar, mas não querem morrer –, era mesmo a indesejada das gentes.
Há zilhanos, desde que o mundo é mundo vasto mundo, transitava ela por aqui, sempre à espera do instante solene de sua existência. Sim, existência, porque vida mesmo a Morte não tinha. Seria quase uma condição sine qua non para ela, declinar de qualquer estertor de vidas, não se apegar a nenhuma delas, ser no mundo a grande cultora de cascas vazias. Assim, pensava-se, fora ela criada e experimentada na mais suprema incompreensão, sem possibilidade sequer de curtir seus frios seguidores e sem nunca se permitir prazer nenhum. Afinal, o prazer, assim como a alegria e o amor, dizem, é condição de vida.
Entretanto, no nada absoluto do mundo, mantinha ela um segredo: morrera de amores uma única vez na vida: pelo poeta Dante, que conseguiu convencê-la, numa promessa de Vita Nova, que o amor seria o prelúdio da morte, estratagema depois revelado para aproximar-se da sua amada Beatrice. Daí, sepultou de vez todas as afeições e o seu coração traído com Dante foi-se. E a foice com Dante!
É raro que as pessoas dediquem seu tempo – de vida, porque o tempo da morte é o silêncio – em aprender a morrer. Já dizia Sêneca, o moço desafeto de Messalina, “quem não souber morrer bem, terá vivido mal”.
Aliás, a dona Vida, sua irmã, ao contrário, vivia em regalos, quase uma parteira, celebrada e lembrada em festejos, desejada e aplaudida por todos em sopros de velinhas e de línguas de sogra, estampada em camisetas de feira e panos de prato. Sucesso de público e de crítica – mais desta, pois criticar a vida alheia é quase um exercício, sabido que a língua é um músculo.
A pobre dona Morte, não negava, colhia invejas da irmã. Com os pés calejados de tanto acompanhar despojos, sem qualidade de vida ou autoestima, vista com temor e desconfiança – há quem diga que é ilusão, uma espécie de “black-fraude” –, a Morte naquele dia rebelou-se. Plantou o pé e bradou ao infinito: “Nem morta!” E nós sabemos que juramento de morte sempre foi coisa que deu certo – ou muito errado – por aqui.
O fato é que durante esse tempo, o sofrimento do mundo aumentou. Ora, a imortalidade é um inferno! Foi quando ela percebeu que, mesmo contra a sua vontade, sua presença inda seria sentida por todos. Pessoas sofriam a perda de amores, de amigos, de afetos, das horas e de outros bem-quereres na distração eterna de todos os dias. Sim, ela seria o que há de mais presente e definitivo na rotina mundana. Pôs-se a sentir na carne a dor mortal dos corações feridos a suspirar diante de porta-retratos, de reflexos em espelhos, do convite para o café que não chegou, na audição daquela música da juventude, no ecoar das gargalhadas daqueles filhos, agora adultos, que não moram mais ali. Perder é a morte em prestações. A Vida, chama breve, uma sala de estar das tintas pálidas da Morte, servindo-lhe aos poucos – às vezes, aos montes.
O que fica é a dor. E a dor que não passa nunca se chama saudade, e como sussurrou em seu ouvido o cronista, “é na morte onde ela mora”! Foi quando a Morte despertou e se viu, em essência, tão igual a todos os mortais, no vagar aprendiz do cortejo a caminho da solidão.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

"Desejo Secreto", de Raymundo Netto para O POVO



Susanabela nem não acreditava, senão o homem do noticiário insistia: “Papai Noel estará neste domingo no shopping, aquele mesmo pertinho de você!”
Por trás dos olhos arregalados soluçava a duvidar do aparelho de TV: “Ele? Aqui?”
Trazia, no pouco mais de trinta anos, uma beleza sofrida e esquiva. Após ser largada por Genésio, o único e infeliz amor de sua existência, que a trocou  justamente pela irmã, a caçula, decidira largar de vez a sua cidadezinha de sempre e buscar sustento em casa de família na capital, à custa da necessidade, rotinando as únicas prendas de sua vida: varrer, lavar, passar e cozinhar.
Fazia apenas alguns meses. Morava num quartinho reversível dos fundos, ao lado da área de serviço, por trás do tanque. Sem família, sem amigos, sem ninguém, abria mão até dos finais de semana, simplesmente por não ter, ou saber, o que fazer fora dali. Não besta, a patroa a explorava carinhosamente, rasgando-a de cínicos elogios toda vez que a surpreendia passando as roupas no perfeito domingo, de costas para o café da manhã bem-posto, inda quentinho, na mesa de vista para o céu mais azul e livre deste mundo.
Mas naquele domingo, não. A patroa acordou de cara emburrada, estranhando a empolgação da empregada no enfeito em tamancos, e o nada de café nem de janela azul.
“É namorado, não é? Olhe, tome cuidado com os rapazes daqui, Susanabela. Só querem mesmo é tirar uma casquinha... E você, me desculpe, é uma tonta!”
“É hôme não, dona Rubi. Deus me alivre. É mais que isso... é um sonho!”
Não ouvia, pois estava cheia de seus próprios sons. A patroa resmungava: “Serviço bom como este aqui vai ser difícil conseguir outro, visse?”
Susanabela quase abria os portões do shopping. Desfiava conversa com o segurança, os zeladores e taxistas. Mais ansiosa que caldeira de trem, numa felicidade estranhamente sincera, perguntava: "Vocês não vão falar com o Papai Noé, não?"
Riam-se. Entre eles, apontavam para ela, meneavam a cabeça: “Não pode ser desse mundo.”
Com pouco, a fila se esticou de crianças e de pais sonolentos de boa vontade. Ao fim, chegava ele, o tal Noel, passando por ela num acolchoado encarnado e luminoso sem dar-lhe a mínima atenção, rumo ao seu trono. Ela, a primeira da fila, postava-se passiva e trêmula, enquanto as ajudantes do velhote lhe perguntavam pelos filhos: Não os tinha.
Daí, o canastrão, desconfortavelmente sentado na poltrona decorada, pôs-se ao papel, lançando um afônico Hou-hou-hou e chamando Susanabela: “E então, minha filha, o que você quer de seu Papai Noel?” Era o que faltava. Susana livrou-se dos tamancos, saltou em seu colo, beijou o blush de seu rosto e, num abraço caloroso e fatal, sussurrou-lhe ao ouvido: “O senhor se alembra quando eu pedi uma irmãzinha? Agora quero que você morra ela.... Morra ela, pra mim, Papai Noé, por favor!” 


segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

"Enlutada", de Raymundo Netto para O POVO



Safira seguia a passo vago ao lado do caixão do marido. Olhava Edmundo de cima abaixo, de baixo para acima, como se a qualquer momento fosse de sua providência acertar o véu, recompor um detalhe, apertar os cadarços, ajeitar-lhe as mãos pesadas no peito mudo. Como se ele, dali a pouco, pudesse lhe pedir qualquer coisa, qualquer uma. Ela o faria, certamente, o faria como sempre.
No mesmo passo, desviava a atenção dos olhos úmidos para as paredes nuas, às imagens de um Cristo triste e rendido a esvair-se em sangue, enquanto a mocinha da funerária, que interrompia o silêncio com irritantes saltos ligeiros, trazia os copos descartáveis e o café para as visitas:
"Não tem ninguém, senhora?"
"Ninguém, por quê?"
O casal se bastava em si, nem filhos, orgulhavam-se, lembrou. Foram morar longe: "Família só serve para dar pitaco!" O amor lhes era tudo. Era o teto, o chão e o cobertor do casal. O que poderia faltar diante do amor de duas almas tão sinceras?
Durante algumas horas, apenas uns poucos, menos de dez, colegas do trabalho, passariam por ali. Alguns deles, cerrados em óculos escuríssimos, mal emitiriam palavras, apenas grunhiam. Poderia ser qualquer coisa, de "lamento" a "ainda bem". Perguntariam:
"Como foi que aconteceu? Tão jovem..."
"Não sei. Ele estava tão bem, feliz, e de repente... Foi-se."
Não demorariam. Teriam outros compromissos, qualquer um, senão ficariam, mas ligasse — se tivesse deles sequer algum número. Entretanto, trariam a mais bela e única coroa de flores. Nela, uma cor clichê: "Saudades".
Ficaria por horas novamente só, imutável, sentada numa incômoda poltrona de viúva a rememorar o sorriso elevado que ora jazia ali, sepultado em algum lugar daquele cadáver, objeto repulsivo a caminho dos vermes que conduzem à desintegração terrena.
Por vezes, tomava coragem, levantava-se e parava diante do corpo do marido. Espalmava a mão na testa lânguida e uma ânsia lhe tomava o corpo em arrepios lancinantes. Como seria possível amá-lo assim? Como poderia guardar na lembrança aquele homem? "Morto!" Punha-se em soluços de agonia. O peito arfava em espasmos sucessivos e ela tremia, esfregando as mãos na saia: "Que nojo! Nojo! Nojo!"
Mais tarde da noite apareceu da penumbra outra mulher. Chegou ao portal do salão e estacou. Vestia o negro na corrente de profundo abatimento. Olharam-se. Não se conheciam decerto, mas era como se se soubessem. Aproximou-se, margeou o esquife, como chegasse aos pés de um precipício, e deitou a mão levemente na perna esquerda do falecido. Com breve, seu olhar transmudou de grave a enlouquecido, desesperado. Deitava em lágrimas convulsas, num choro pesaroso e inconsolável de encontrar eco nas demais cabinas mortuárias. Mais um pouco, até seria possível invejar Edmundo na sua condição de morto.
Safira assistia passiva, comovida e atônita. Por um momento, não se sentia mais só. Na verdade, não sentia nem o próprio corpo, nem a mesma dor.
Aproximou-se da outra, tocou-lhe os dedos e pronunciou-lhe um beijo na testa. Voltou à poltrona, tomou a bolsa e, num suspiro profundo e sem olhar para trás, se foi, enquanto a enlutada subia, ainda trêmula, no caixão de Edmundo, aninhando a face saudosa sobre o seu peito e, como uma jura imortal, morreu com ele.


domingo, 18 de novembro de 2018

"Redenção", de Raymundo Netto para O POVO



Gedeão incomodava-se. Passasse à calçada, a vizinhança logo lhe apontava olhos censurosos. Era um desgraçado, sabiam mais do que ele próprio. Sabiam sempre mais, de não entender como não haveria de saber nada. Pois sim, a sua mulher o traía às ventas e ele nada! Como poderia?
Já havia de telefonemas anônimos. Bilhetes de solidária maldade lhe chegavam. Os colegas e mesmo os familiares mais próximos, com vexame, insinuavam desconfianças... Era de tão claro, mas Gedeão parecia receber tudo com a naturalidade de um Jó, incompreensível ao geral pensamento humano e, ademais, masculino.
Diante da porta da casa, torcendo a chave, a curiosidade de uma rua despontava aos ouvidos: haveria ali outro alguém? seria daquele dia a desforra? falaria à sonsa da mulher as verdades? surraria aquela vagabunda? acabaria dali, de vez, a pouca vergonha?
O silêncio frustrante de um nada acontecia.
Naquele dia, entretanto, após minutos, saía ela, a esposa jovem e imperdoavelmente linda, pela mesma calçada, acompanhada de estranho. A lágrima descia única e atrevida à face, a luzir do suor vertido no calor da hora. O homem ao lado nem não tinha cor. Fosse outra, dignaria vaia, mas ela, não, era diferente. Temiam-na.
No vento de sua passagem, correram todos à janela da casa. Gedeão, magro ao paletó, cruzava os dedos nos cabelos da cabeça reclinada. “O desespero corroía o peito”, pensavam todos a suspirarem dós da sua inocência. Homem estudado, embora simples e apaixonado, trouxera aquela moça inda adolescente, virgem parecia, do interior, mal sabendo as palavras de boca. Deu-lhe nome, casa, comida. E agora, era de pagar esse preço. Por tanto a enganar olhos e ouvidos, a vadia aproveitou-se.
Como tudo na vida, menos na morte, o tempo passou. Gedeão, acolhido com disfarce generoso pela vizinhança, encontrou breve outra mulher. Esta, filha única da vizinha, a mais cruel algoz de sua outrora companheira. Via na filha a redenção daquele corno, pois nela o exemplo quase litúrgico de virtude e fidelidade.
Gedeão casara assim em festa de rua. Nunca mais que ficara só. A sogra, entretanto, não deixava o casal esquecer a outra. Sempre a relembrar de suas imperfeições e a ostentar a compensação na excelente escolha a remir o seu passado.
Foi-se a novidade. Gedeão atravessava a calçada, incomodado. Era de um encabulo só. Olhos demais, palavras demais, amigos demais e algo mais lhe pedia a vida. A esposa já percebia. Acolhendo-o em seus braços, buscava chegar à sua dor, lhe preencher o vazio de seu coração choroso.
E foi numa noite que Gedeão abriu, com sorriso, a porta da alcova, e apresentou à mulher um homem sem cor, e ela, compreensiva em seu sublime e devoto amor, abriu os braços, como numa cruz, para o seu mundo.

domingo, 4 de novembro de 2018

"A Voz de meu Pai", de Raymundo Netto para O POVO



José Pedro, o Deca (29.6.1939 - 25.10.2018)

“Vejo meu pai como um artista. Saber viver é uma arte. De todas, a mais difícil! Ele era semianalfabeto, nascido numa cidadezinha que nunca eu ouvira falar e, mesmo assim, conseguiu um emprego seguro, casou-se e teve nove filhos, criando e educando a todos. Em seu emprego, era querido e respeitado tanto pelos chefes como pelos subalternos. Quando ia ao Quartel era recebido como uma celebridade. Até o general o tratava com cortesia – chamava-o de mestre Raymundo – e sempre se oferecia para ajudar-lhe quando precisasse. Hoje, quando penso como papai conseguia conquistar todas essas pessoas, independentemente de patente ou de nível social, percebo que tinha muita sabedoria.”
Há apenas 12 anos, o meu pai, José Pedro, passou a me visitar quase que diariamente pelas manhãs. Ele, mais acostumado a dar do que a pedir, chegava humilde, quase litúrgico, em gestos e palavras. Trazia debaixo do braço um caderno velho de apontamentos onde montava uma espécie de autobiografia. Precisava de minha ajuda para “ver se estava tudo certinho”. Minha missão, quase a de um escrivão: sentar ao seu lado, digitar o que escrevera e melhorar aqui e acolá, sem alterar o texto, a sua “voz”, tornando-o bem compreensível ao expressar o que acontecera e o seu sentimento a respeito. Então, enquanto eu digitava, lia em voz alta. Ele, ao lado, acompanhava. Explicava-me, quando achava necessário, as entrelinhas daquela história, confirmando-a com lamento, certa timidez ou mesmo se divertindo muito.
O menino, que nascera no Dia de São Pedro, na rua das Neves, s/n, em Casa Amarela, no Recife, falava sobre a infância, as escolas, as aventuras e travessuras, a juventude no Largo da Paz, os carnavais, os primeiros amores, o trabalho – desde os 13 anos –, a vinda a Fortaleza, o casamento, a família, as dificuldades financeiras, as escolhas, as renúncias, a sua vida religiosa, entre outras delícias.
Naqueles dias, visivelmente emocionado ao passar a limpo aquelas memórias, quase toda passagem do texto gerava uma nova história, uma vida que mais parecia ter 100 anos (tinha 67). Eu questionava, pedia-lhe para repetir aquilo, tentava situar historicamente, enquanto na minha cabeça tudo se transformava em imagens de filme antigo, um drama humano, que, aparentemente, poderia ser a história de qualquer um, mas não o era para aquele homem.
No trecho acima, em que descreve o pai – quando pequeno, por perceber que a maioria das pessoas gostava mais das mães, decidiu gostar mais do seu pai –, ele, sem o perceber, retratou-se como nós, filhos, o vemos. Sim, aquele “artista” era ele mesmo. Daí, ao final, outro trecho: “A maior lição que recebi, e esta, veio do exemplo de meu pai, é procurar ser o pai que ele foi, fazendo tudo pelos filhos.” E o fez, assim como pelos seus netos, enquanto pôde. As lições que nos deixou comprovam isso.
Até que na manhãzinha de 25 de outubro de 2018, ele descansou desse mundo, deixando agora as suas memórias, como as folhas de outono, ao vento, espalhadas entre as nossas e as de outras tantas pessoas que nos chegam e sorriem ao falar o seu nome, a nos provar que a vida não cabe no tempo, apenas se alimenta dele, assim como aquilo que insufla o corpo, quando muito, transborda dele, resistindo ao esquecimento e nos acolhendo naqueles momentos em que achamos não existir nada mais na estrada que valha uma vida.


Meu pai, eu e minha mãe (Zenaide), em um dia dos pais

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

"O Tiro (voto) que não sai pela Culatra", de Raymundo Netto para O POVO



Interrompemos a nossa programação literária normal para o pronunciamento de um autor, eleitor e trabalhador brasileiro: Minhas amigas e meus amigos, no momento dramático, atípico e histórico pelo qual passamos, como seria possível debruçar-me sobre a ficção quando a realidade me parece ainda mais fantástica e absurdamente irreal?
Votei pela primeira vez aos 21 anos. Até lá, não poderia votar, não porque não o quisesse, mas por que em meu país, em 1964, houve um golpe de estado. Depois veio a ditadura civil (a elite econômica, os poderosos que tiveram vantagens com o regime implantado no país) e militar, a repressão, as perseguições aos intelectuais, aos artistas, aos veículos de comunicação de oposição (os favoráveis ao golpe, ao contrário, enriqueceram), aos movimentos sociais, a censura, a perda dos direitos civis, a tortura, os assassinatos, o medo, o terror e, por fim, o silêncio.
Algumas pessoas, covardemente, decidiram cuidar da sua própria vida e pronto. Não reclamariam, deixariam que o governo fizesse o que bem entendesse. Outros sabiam de familiares e amigos desaparecidos – alguns  até hoje – ou torturados com elevado nível de barbaridade.
Hoje, 30 anos depois, vejo "emergir o monstro da lagoa". O pior, o mais desqualificado e despreparado candidato ao maior posto executivo do país fala claramente, sem vergonhas ou temor, de ser a favor da tortura e do assassinato de seres humanos. De não aceitar a democracia e não respeitar voto. De ser contra os direitos trabalhistas e desfavorável a trabalhadores, principalmente as mulheres, privilegiando empresários inescrupulosos. Que prega um discurso repleto de violência, de homofobia, de racismo, de misoginia e preconceito, enquanto é associado à corrupção (afirma ter recebido propina por meio de seu partido, assume a sonegação de impostos) e, misteriosamente, agora, nos aparece em uma campanha milionária de disparos em massa bancada por empresas divulgadoras de Fake News. E com que objetivo? Por amor a esse país? E afinal, a quem esse candidato fascista, que nada fala de educação e de cultura, realmente representa? Os nomes que se aliam ao dele são os de pessoas tão oportunistas e de caráter tão duvidoso quanto o próprio, também radicais, extremistas e autoritários. Pergunto: será que teremos que passar por isso de novo e desta vez entregando a nossa democracia e o nosso país de bandeja?
Não defendo o PT. Sou contra a ditadura, seja de direita ou de esquerda. Não sou ligado a nenhum partido, mas como artista, brasileiro e trabalhador, sou favorável à democracia, à ampla liberdade de expressão, à pluralidade de ideias, à diversidade, à maior igualdade social, à justiça e aos direitos humanos, à solidariedade, à educação acima de tudo, à cultura para união dos povos e à disseminação do amor, da gentileza, da paz e da liberdade.
Assim, HOJE, não vejo alternativa a não ser votar em HADDAD, um democrata, independentemente de seu partido. Ex-ministro da Educação, que ali deixou um legado impressionante de aumento de orçamento, expansão e interiorização do ensino superior e ampliação do número de matrículas escolares. Daí, peço a você, leitor(a), que reflita, dispa-se de seu ódio e antipetismo. Acredite que com Haddad, esse tiro (voto) não sairá pela culatra.