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quinta-feira, 30 de outubro de 2014
sábado, 25 de outubro de 2014
"Porta-Vida", de Raymundo Netto
A
vida se faz mesmo quando não se faz ouvida,
Escorrendo
pelas paredes frias do silêncio
Na
tentativa travosa de ser pensamento.
A
vida se contorce para caber num coração,
Mesmo
quando esse coração já é lamento,
Quando
tange e não vibram as cordas do espírito.
A
vida se apropria da morte
Mesmo
quando nela nada se suporta nem a si.
Quando
o respirar incomoda e a moda
É
a insônia a tomar o assento do sono.
A
vida nada mais é do que uma sequência de vazios
Ornamentada
de espelhos reflexos,
De
brumas a descerem à garganta
E
de um pé que evita o cerrar descuidoso da porta.
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Diário de Bordo: A Livraria Folha Seca (Rio de Janeiro), de Raymundo Netto
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Uma das, apenas uma, surpresas boas
que tive no Rio de Janeiro foi conhecer a Livraria
e Edições Folha Seca, na histórica rua do Ouvidor, quase ao lado da Igreja
de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores.
Fotografava o velho casario, as igrejas,
os passeios de pedra e lajes – algumas construções são tão antigas que nos
reportam aos tempos coloniais – naquela rua estreita, muitas vezes apenas
pedonal ou "pombonal", ou noutras, como diante do bar
"Antigamente", represadas por pequenas mesas e cadeiras onde pessoas,
em pleno meio-dia, conversam, dentre outras coisas, sobre histórias de seus
pais e dos pais de seus pais, além de lendas e anedotas locais. Os bares e
restaurantes, para todos os tipos e gostos, tomam conta do lugar, ornamentado
de coloridos sobradões de dois ou três andares, vistosos em seus balcões de
ferro ou alvenaria, resquícios de uma arquitetura do final de século XIX para o
início do século XX.
Cruzei a 1º de Março, a Travessa do
Comércio a Rua do Mercado, a Gonçalves
Dias... Depois escreverei mais sobre a Ouvidor. Por ora, o que importa, é que
no meio do caminho havia um prédio. Vários andares, cor de rosa, cujo térreo
apresentava quatro portas verdes em madeira encimadas por meias luas
ornamentadas em ferro. Era uma livraria: a Folha Seca. Havia prometido não
entrar em livrarias nessa viagem, entretanto, ela me apareceu num momento de
descuido, após uma fatídica conclusão daquelas que podem mudar o rumo de tudo
ou simplesmente deixar tudo como está, e entrei.
Ali conheci o culpado de tudo, o Rodrigo
Ferrari, no balcão, pronto para contar histórias e a defender a sua resistente Folha
Seca como um Quixote desvairado contra um moinho de megastores que pululam as
capitais. Sentado, ao lado, o jornalista e ghost
writer Zé Sérgio Rocha (O Globo, Jornal do Brasil, Diário de Notícias etc) e,
pouco depois, o também jornalista, escritor e tradutor Archibaldo Figueira, da
União Brasileira de Escritores. No pouco tempo em que lá estive, não faltou
assunto. A própria livraria puxava os temas. Assim, pensava, deveria ser os
convescotes dos escritores, jornalistas e intelectuais naquela rua, naquela
mesma rua, ao encontrar-se nas livrarias do passado. Na minha cabeça, muitas
imagens, que mais tarde revelarei, me fizeram sentir em casa, acolhido por
estranhos amigos, ou melhor, amigos estranhos, versando sobre samba, chorinho,
futebol, carnaval e mais um tudo de bom que a carioca culture pode oferecer.
Minha primeira pergunta na livraria:
"Rodrigo, o que você tem aí sobre Paula Brito?" O homem endoidou. Zé
Sérgio lançou então, com sua voz arrastada e grave, a afirmação moleque:
"Rapaz, você está falando com a reencarnação do Paula Brito!"
Logo o Rodrigo, entusiasmado, colocou à
minha frente um postal comemorativo numerado dos 200 anos do pai dos editores
brasileiros, o Francisco de Paula Brito, impresso pela sua livraria em 2009,
com uma caricatura desenhada por Cássio Loredano, naturalmente carioca, porém,
desenhista d' O Estado de S. Paulo, e
que, nas palavras de Millôr Fernandes (tive o prazer de encontrá-lo no
Arpoador), "Filho de um oficial da cavalaria, desde cedo se sentiu
obrigado a desmontar o ser humano."
E assim, a Folha Seca (mas viva!) traz
na alma a seiva pulsante e aguerrida das pequenas (grandes) livrarias, ciente
de seu papel de centro de difusão e fomento da arte e da cultura (o local
também promove lançamentos e rodas de samba), não apenas se restringindo à
venda silenciosa e frouxa dos mercadões luxuosos de livros, CDs, DVDs que
crescem a cada dia, mas não conseguem encantar e são tão iguais a todas que
nunca merecerão sequer um registro de um viajante-leitor sem direção... como
eu!
Eu (descumprindo promessa), Archibaldo, Rodrigo e Zé Sérgio
domingo, 19 de outubro de 2014
Rio de Janeiro em Outubro: uma expedição improvável
Café, Feira
dos Hippies de Ipanema, Arpoador, Copacabana nessa semana o mar sou eu, muita água e felizes (dez) encontros.
Uma
hora de vida a menos. Muita discussão fútil de políticas. Flashes demais; olhos
de menos.
Uma
lan-house, apenas isso. Hoje é domingo; pés e mãos de cachimbo.
Saudades.
Vai, meu irmão
Pega esse avião
Você tem razão de correr assim
Desse frio, mas beija
O meu Rio de Janeiro
Antes que um aventureiro
Lance mão
Pega esse avião
Você tem razão de correr assim
Desse frio, mas beija
O meu Rio de Janeiro
Antes que um aventureiro
Lance mão
Pede
perdão
Pela duração dessa temporada
Mas não diga nada
Que me viu chorando
E pros da pesada
Diz que vou levando
Vê como é que anda
Aquela vida à toa
E se puder me manda
Uma notícia boa
Pela duração dessa temporada
Mas não diga nada
Que me viu chorando
E pros da pesada
Diz que vou levando
Vê como é que anda
Aquela vida à toa
E se puder me manda
Uma notícia boa
Pede perdão
Pela omissão um tanto forçada
Mas não diga nada
Que me viu chorando
E pros da pesada
Diz que vou levando
Vê como é que anda
Aquela vida à toa
Se puder me manda
Uma notícia boa
Pela omissão um tanto forçada
Mas não diga nada
Que me viu chorando
E pros da pesada
Diz que vou levando
Vê como é que anda
Aquela vida à toa
Se puder me manda
Uma notícia boa
Samba de Orly (Chico Buarque)
domingo, 12 de outubro de 2014
"Dizem que a Literatura Inventa Coisas...", 29 e 30 de outubro na UECE
"Dizem que a Literatura
Inventa Coisas..." é o tema do I Colóquio sobre Literatura Cearense da
Uece, a acontecer em 29 e 30 de outubro de 2014.
Agora é a vez da Uece debater e
discutir a temática, procurando explorar esse mundo durante tanto tempo
esquecido.
Afirmam: "O I Colóquio sobre Literatura Cearense da
Universidade Estadual do Ceará nasce num dos momentos mais
importantes para o debate que é protagonizado pela supervalorização do
cientificismo, a subestimação dos alcances de estudos literários e a
dificuldade de mantermos os olhos voltados, também, para a nossa própria
Literatura.
A UECE constitui, como cenário do evento, uma
das principais motivações para sua realização. É necessário, considerando o
caráter histórico da Universidade Estadual do Ceará, que não falte espaço para
o estudo e debate dos clássicos da Literatura Cearense assim como para a
promoção e o reconhecimento de novos escritores. A fim de pôr em pauta esses
três âmbitos (Literatura Cearense, a Literatura na UECE e a relação entre
clássicos e novos escritores), aproveitamos o ano do centenário de Moreira
Campos e convidamos todos a exaltarem um dos fatores que distanciam,
positivamente, a Literatura do cientificismo absoluto: a expressividade.
Com o tema "Dizem que a Literatura
inventa coisas", jogamos com o título de uma das obras mais marcantes na
biografia de Moreia Campos, "Dizem que os cães veem coisas". Nosso
jogo vai ao encontro do ensejo de unificar os três âmbitos temáticos citados
convocando os participantes a refletirem: a Literatura inventa ou retrata? Até
que ponto a produção literária de um escritor age como registro histórico?"
As inscrições podem ser feitas
on-line a partir do link:
sábado, 11 de outubro de 2014
"Eleitorto", de Raymundo Netto para O POVO
As eleições se abancaram em nossa
porta mais uma vez. Que droga!
Período feliz, entretanto, para
as empresas que trabalham com assessoria de comunicação — principalmente
aquelas que não se vexam com o abuso da capacidade de mentir e enganar por
trinta e poucas moedas; que pagam discretos silêncios dos colegas nos meios de
comunicação; que patrulham aqueles a revelar o já tão sabido: tudo é
espetáculo! O que importa é o partido e o poder. Só! Aliás, não deveriam se
chamar “partidos” e, sim, “unidos”, tão iguaizinhos se tornaram nessas
P-bandas, só se denunciando após desquite amigável e temporário.
Também felizes aqueles que
compensam o marasmo de um ano inteiro na geração de renda palanqueal, tamanho o
investimento dos candidatos. Os cabos eleitorais, aqueles geralmente chatos e
inabilidosos em quaisquer outras coisas, senão em assediar eleitor, que ficam
pendurados nos quadros de gabinetes de órgãos públicos e ninguém sabe
exatamente o que fazem, para que servem e ao que vêm, também se alegram, pois
finalmente “mostrarão trabalho”, lembrando ao gestor-quadrilheiro a razão de
ser carregado no dorso e na cangalha do povo por anos a fio.
Também felizes aqueles que não
deram certo na vida e que veem na política a sua redenção — uma megasena em
prestações não tão suaves —, a oportunidade de, com certo investimento,
conseguir a almejada independência financeira, não pelo salário parlamentar,
claro, mas pelas negociatas ad referendum e favores em frágeis
licitações no exercício do sacrifício público, prática colonial arraigada com
naturalidade, inclusive, na mentalidade do eleitorado que faria exatamente a
mesma coisa, tivesse disposição, tempo e dinheiro para investir nessa
empreitada. Aliás, que lógica há para que se gaste tanto, desfazendo-se
inclusive de patrimônio pessoal para apenas servir ao povo? Da mesma forma, o
que faz com que esses capitalistas ferozes, que não investem em nada que seja
de outrem, abram, de repente, as portas de seus cofres para eleger alguém que
vai APENAS servir ao povo?
Igualmente felizes as strippers e seus bundões de protesto, os
palhaços, os empresários — que o povo inocente acha que por ter dinheiro não haverão
de precisar “roubar” —, os apresentadores de programas baratos e de audiência
na canela — cujos ouvintes e telespectadores foram formados para não ter
crítica —, além dos pastores milagreiros e líderes de associação envenenados
pela popularidade transversa, todos beneficiados pelo sem noção “voto
obrigatório”, grande responsável por centenas a milhares de votos que, num
passar de vistas de jornal, seriam improváveis. Fosse o “voto livre”, os eleitores
“kamikazes” de todos nós — cidadania é conquista e não obrigação — correriam no
feriado para ir à praia, beber cachaça, comer caranguejo, ralar na boquinha da
garrafa e discutir a bunda poliédrica da Gabriela. Nós os deixaríamos lá, onde
seriam felizes, enquanto cairiam nas urnas apenas os votos dos que pensam no
coletivo, que acreditam em alguma coisa e que trazem algum critério na seleção
desses caras. Imagino campanhas e debates, um dia, mais qualificados para,
então, eleitores conscientes e não tão fáceis de levar no bico por maniqueísmos
e promessas tradicionais.
Assisto à propaganda política faz
tempo. O roteiro não muda! Os candidatos, canastrões sorridentes, cruzando
vielas sujas, esgotos a céu aberto, beijando crianças desnutridas — as primeiras
a serem traídas —, brigando por mãos magras, “ouvindo” os idosos — os mais
perigosos tentam andar de skate, sobem em jumento, dançam forró... Chego a ver
a indignação daquele, suando demais em estranha favela, e percebo uma lágrima
quase a cair de seu rosto. Deve pensar: “E ainda existe lugar assim? Eu, hein?
Se for eleito, Deus me livre aparecer por aqui outra vez!” Mas ele voltará,
sim, na próxima eleição, e o quadro não estará diferente... Talvez, pior.
Cinegrafistas presentes, muito
dinheiro gasto em campanhas, no palanque todos adesivados sorriem muito,
pactuando a futura vaga no gabinete. O candidato, inexperiente, cospe no
microfone quase sem voz: “Isso tudo vai acabar, meu povo!”. É aplaudido pela
multidão que ri e sabe: “Mas é claro que não!” Por ora, pedem uma camiseta,
tijolos ou telhas, uns espelhinhos e colares de contas e uma foto banguela ao
lado daquele que nunca mais verão, quando apertam-se afetuosamente para o
retrato: “Ah, doutor, que nós vamos votar é em você... também!”
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
Rádio AlmanaCULTURA: "Noturno", de Raymundo Fagner
Para assistir ao vídeo e ouvir a música:
O aço dos meus olhos
E o fel das minhas palavras
Acalmaram meu silêncio
Mas deixaram suas marcas...
E o fel das minhas palavras
Acalmaram meu silêncio
Mas deixaram suas marcas...
Se hoje sou deserto
É que eu não sabia
Que as flores com o tempo
Perdem a força
E a ventania
Vem mais forte...
É que eu não sabia
Que as flores com o tempo
Perdem a força
E a ventania
Vem mais forte...
Hoje só acredito
No pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia
Em cada ponto de partida
Há muito me deixou
Há muito me deixou...
No pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia
Em cada ponto de partida
Há muito me deixou
Há muito me deixou...
Ai, Coração alado
Desfolharei meus olhos
Nesse escuro véu
Não acredito mais
No fogo ingênuo, da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança...
Desfolharei meus olhos
Nesse escuro véu
Não acredito mais
No fogo ingênuo, da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança...
Nessa estrada
Só quem pode me seguir
Sou eu!
Sou eu! Sou eu!...
Só quem pode me seguir
Sou eu!
Sou eu! Sou eu!...
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
"Prêmio Cidadania Judiciária", da Fundação Demócrito Rocha
O Prêmio Cidadania Judiciária é uma ação da Fundação Demócrito Rocha em parceria com o Tribunal de Justiça do Estado do Ceará.
São distintas as categorias e modalidades (universidades, mídias jornalísticas, escolas etc.).
O Regulamento poderá ser consultado por meio do site www.fdr.com.br/premiocidadaniajudiciaria.
As inscrições deverão ser feitas até o dia 15 de outubro.
Consulte hoje!
sábado, 4 de outubro de 2014
AlmanaCULTURA Super InDICA: "Por Una Cabeza", dance um tango ou cante com Gardel
Por Una Cabeza
Para assistir ao vídeo, acesse e
dance um tango:
ou cante com Gardel (1935):
Por una cabeza
De un noble potrillo
Que justo en la raya
Afloja al llegar
Y que al regresar
Parece decir:
No olvidéis, hermano,
Vos sabés, no hay que jugar.
Por una cabeza
Metejón de un día
De aquella coqueta
Y risueña mujer
Que al jurar sonriendo
El amor que está mintiendo
Quema en una hoguera
Todo mi querer
Por una cabeza
Todas las locuras
Su boca que besa
Borra la tristeza
Calma la amargura
Por una cabeza
Si ella me olvida
Qué importa perderme
Mil veces la vida
Para qué vivir
Cuantos desengaños
Por una cabeza
Yo juré mil veces
No vuelvo a insistir
Pero si un mirar
Me hiere al pasar
Su boca de fuego
Otra vez quiero besar
Basta de carreras
Se acabó la timba
¡Un final reñido
Ya no vuelvo a ver!
Pero si algún pingo
Llega a ser fija el domingo
Yo me juego entero.
¡Qué le voy a hacer!
De un noble potrillo
Que justo en la raya
Afloja al llegar
Y que al regresar
Parece decir:
No olvidéis, hermano,
Vos sabés, no hay que jugar.
Por una cabeza
Metejón de un día
De aquella coqueta
Y risueña mujer
Que al jurar sonriendo
El amor que está mintiendo
Quema en una hoguera
Todo mi querer
Por una cabeza
Todas las locuras
Su boca que besa
Borra la tristeza
Calma la amargura
Por una cabeza
Si ella me olvida
Qué importa perderme
Mil veces la vida
Para qué vivir
Cuantos desengaños
Por una cabeza
Yo juré mil veces
No vuelvo a insistir
Pero si un mirar
Me hiere al pasar
Su boca de fuego
Otra vez quiero besar
Basta de carreras
Se acabó la timba
¡Un final reñido
Ya no vuelvo a ver!
Pero si algún pingo
Llega a ser fija el domingo
Yo me juego entero.
¡Qué le voy a hacer!
"Voto Útil: Eleitor Inútil", por Raymundo Netto
Há muito anos ouço falar na necessidade
da Reforma Política. O negócio é tão sério que é sempre deixado para depois ou
para nunca, apenas lembrado durante essas eleições de araque, de derrama de
dinheiro, de compra e venda de almas. Na verdade, a quem interessa mudar ou
aperfeiçoar o sistema eleitoral nacional e o sistema político se o negócio do
jeito que está beneficia a alguns, os mesmos, principalmente àqueles que detêm
o poder e/ou o capital?
A minha primeira eleição para presidência
do país se deu em 1989. Havia um clima de festa, ares de liberdade, de power to the people ou mesmo de make love not war, ou sei lá mais o quê.
Nas calçadas salpicadas de vermelho, bandeiras tremulavam nas mãos de amigos
com olhares brilhantes (ao contrário dos "escorados" de hoje), soltando canções ou palavras de ordem sufocadas por um "Tempo
Perdido", a engatinhar numa proposta democrática nova, pelo menos para nós
que éramos jovens, tão joveeens...
Naqueles dias, os debates paralisavam as
cidades diante da TV. Os grande nomes da política nacional, porta-vozes de
todos os segmentos — era-se ainda possível falar de direita e esquerda, uma
distinção hoje aparentemente démodé —, estavam lá, e parecia que, mesmo com o eterno e injustificado desequilíbrio de espaços nas propagandas políticas, de volume de
recursos e dinheiros distribuídos de forma antidemocrática e antiética, havia
algo de bem claro no jogo do "quem é quem".
A vitória do Collor, candidato eleito
por meio de "efeito miragem" produzido pela Globo, que enricou
durante a Ditadura, e pelas revistas de "artigos de leilão" (Como a Veja e Isto É), que
ainda se vendem nos dias atuais — lembrando que as mesmas que ajudaram a
elegê-lo, foram as primeiras que revelaram o lado obscuro do outrora "Caçador de Marajás" após o seu "singular" impeachment —, frustrou, ao
mesmo tempo em que parecia ensinar algumas primeiras lições dessa nossa
democracia neófita.
Hoje, as fórmulas, me parece, não
mudaram. Ao contrário, se aprimoraram e aperfeiçoaram as práticas mais
desavergonhadas, ou seja, aquelas que nós, eleitores, estamos sempre provando funcionar!
Basta ver: "eles" continuam lá.
Mesmo com toda boa vontade do mundo, não
posso crer que empresas doem, sem esperar nada em troca, UM MILHÂO DE REAIS
para campanhas de candidato. Essas mesmas empresas que não contribuem, nem por decreto,
com instituições carentes nem financiam artistas por meio de renúncia fiscal,
de repente aparecem em listas de campanha com generosas contribuições, é de
estranhar, não é?
As revistas e jornais apoiam candidatos
com propostas mirabolantes e difusas de "nova política", que, em
tese, só engabelariam os mais ingênuos e tolos, se apoiando em
"fantasmas" e em frases sentimentais, apelando para o lado mais
frágil do ser humano, principalmente aquele que prefere se levar pelo coração
do que pela cabeça. Um pecado mortal quando se pensa em governança.
As pesquisas, que deveriam ser
proibidas, pois são manipuladoras e não confiáveis, principalmente aquelas
divulgadas nos jornais justo no dia da eleição, influenciando aqueles que
estavam no limbo, em dormência letárgica, despertando naquele dia por conta
apenas de outro crime contra a democracia que é o voto obrigatório, razão da participação de centenas de milhares de
moleques, irresponsáveis, ignorantes nas cabines eleitorais. Por mim, esses
poderiam muito bem passar o dia na praia, beber cana, assistir um filminho em
família, passear no parque, pois não se prepararam para o pleito, muitas vezes
sendo responsáveis pelas vitórias de "A Onde é", de Débora Soft, e de
outros "candidatos deboches". O resultado a gente vê e sente depois, mas
creio que os eleitores dessa "tribo" nem lembram em quem votou.
Mas uma coisa que me incomoda muito é o voto útil. Pessoas que, mesmo não
acreditando, nem simpatizando, nem encontrando nos astros ou em folhas de chá,
lagartixas na parede, qualquer coisa de VALOR que justifique votar na criatura,
insiste em fazê-lo apenas "para tirar o outro" ou "porque é ele
que pode ganhar". Isso é antigo, medieval e tem outro nome: harakiri!
(pode chamar de suicídio, se quiser).
Já tomei para mim essa lógica, mas hoje
não dá mais para engatinhar na insuportabilidade dos maus resultados dessa conduta. Temos que
correr porque o tempo está passando e as pessoas estão brincando, vendendo a
nossa paz, a nossa saúde, a nossa educação, a nossa vida em troca de seus
joguinhos partidários, enriquecendo muita gente boa que vai continuar
discursando maravilhosamente, pois somos livres de expressão. Nós precisamos começar
essa tal "reforma política" a partir de nossa mentalidade, repensar essas
estratégias equivocados que herdamos ainda nos nossos primeiros dias
republicanos.
Assim, meus amigos, ninguém precisa
votar no Eunício ou no Camilo, por exemplo, porque estão liderando as pesquisas ou votar
neste para derrubar aquele e vice-versa. Votem naquele que apresenta as
propostas que você quer para seu estado ou país, independentemente se ele pode
ganhar ou não. Não se trata disso. Vote naquele cuja história fala por ele.
Quem nunca fez, ou melhor, quem nada fez ou fez exatamente o contrário do que
hoje prega, esse não vai mudar agora. Penso eu que quem pratica o voto útil é um eleitor inútil. Eu não quero ser
inútil e votarei naquele candidato que, ganhando ou não, não me pesará na
consciência. Para mim, perder o voto
é entregá-lo nas mãos de quem não acredito, isso sim é PERDER e talvez seja o maior
crime que podemos praticar contra o nosso povo, mesmo estando esse mesmo povo
embriagado de promessas e discursos formulados e copiados por assessores caríssimos,
especializados na arte de brincar na lama. Que Deus nos proteja!
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