sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Diário de Bordo: A Livraria Folha Seca (Rio de Janeiro), de Raymundo Netto


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Uma das, apenas uma, surpresas boas que tive no Rio de Janeiro foi conhecer a Livraria e Edições Folha Seca, na histórica rua do Ouvidor, quase ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores.
Fotografava o velho casario, as igrejas, os passeios de pedra e lajes – algumas construções são tão antigas que nos reportam aos tempos coloniais – naquela rua estreita, muitas vezes apenas pedonal ou "pombonal", ou noutras, como diante do bar "Antigamente", represadas por pequenas mesas e cadeiras onde pessoas, em pleno meio-dia, conversam, dentre outras coisas, sobre histórias de seus pais e dos pais de seus pais, além de lendas e anedotas locais. Os bares e restaurantes, para todos os tipos e gostos, tomam conta do lugar, ornamentado de coloridos sobradões de dois ou três andares, vistosos em seus balcões de ferro ou alvenaria, resquícios de uma arquitetura do final de século XIX para o início do século XX.
Cruzei a 1º de Março, a Travessa do Comércio a  Rua do Mercado, a Gonçalves Dias... Depois escreverei mais sobre a Ouvidor. Por ora, o que importa, é que no meio do caminho havia um prédio. Vários andares, cor de rosa, cujo térreo apresentava quatro portas verdes em madeira encimadas por meias luas ornamentadas em ferro. Era uma livraria: a Folha Seca. Havia prometido não entrar em livrarias nessa viagem, entretanto, ela me apareceu num momento de descuido, após uma fatídica conclusão daquelas que podem mudar o rumo de tudo ou simplesmente deixar tudo como está, e entrei.
Ali conheci o culpado de tudo, o Rodrigo Ferrari, no balcão, pronto para contar histórias e a defender a sua resistente Folha Seca como um Quixote desvairado contra um moinho de megastores que pululam as capitais. Sentado, ao lado, o jornalista e ghost writer Zé Sérgio Rocha (O Globo, Jornal do Brasil, Diário de Notícias etc)  e, pouco depois, o também jornalista, escritor e tradutor Archibaldo Figueira, da União Brasileira de Escritores. No pouco tempo em que lá estive, não faltou assunto. A própria livraria puxava os temas. Assim, pensava, deveria ser os convescotes dos escritores, jornalistas e intelectuais naquela rua, naquela mesma rua, ao encontrar-se nas livrarias do passado. Na minha cabeça, muitas imagens, que mais tarde revelarei, me fizeram sentir em casa, acolhido por estranhos amigos, ou melhor, amigos estranhos, versando sobre samba, chorinho, futebol, carnaval e mais um tudo de bom que a carioca culture pode oferecer.
Minha primeira pergunta na livraria: "Rodrigo, o que você tem aí sobre Paula Brito?" O homem endoidou. Zé Sérgio lançou então, com sua voz arrastada e grave, a afirmação moleque: "Rapaz, você está falando com a reencarnação do Paula Brito!"
Logo o Rodrigo, entusiasmado, colocou à minha frente um postal comemorativo numerado dos 200 anos do pai dos editores brasileiros, o Francisco de Paula Brito, impresso pela sua livraria em 2009, com uma caricatura desenhada por Cássio Loredano, naturalmente carioca, porém, desenhista d' O Estado de S. Paulo, e que, nas palavras de Millôr Fernandes (tive o prazer de encontrá-lo no Arpoador), "Filho de um oficial da cavalaria, desde cedo se sentiu obrigado a desmontar o ser humano."
E assim, a Folha Seca (mas viva!) traz na alma a seiva pulsante e aguerrida das pequenas (grandes) livrarias, ciente de seu papel de centro de difusão e fomento da arte e da cultura (o local também promove lançamentos e rodas de samba), não apenas se restringindo à venda silenciosa e frouxa dos mercadões luxuosos de livros, CDs, DVDs que crescem a cada dia, mas não conseguem encantar e são tão iguais a todas que nunca merecerão sequer um registro de um viajante-leitor sem direção... como eu!


Eu (descumprindo promessa), Archibaldo, Rodrigo e Zé Sérgio

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