quarta-feira, 20 de junho de 2012

"Coisas Engraçadas de Não se Rir: O Feio", de Raymundo Netto para O POVO (20.6)



Confesso: sou um feio!, assim como também é feio, às vezes, quem me diz, e não é feliz, nem poderia ser, a não ser que fosse também muito egoísta e, então, seria defeito demais para uma criatura só.
Entretanto, sou um feio aceitável, pelo menos penso que sou, nem horrendo nem bizarro, como alguns de nossos colegas, profissionais involuntários da careta, que se exibem nas ruas da cidade, nos terminais de ônibus, nas praças ou nas emissoras locais de TV.
Não que eu acredite no ideário grego de perfeição, nem vou citar “Don Giovanni”. Pelo contrário. Para mim, ser feio é uma bênção: a beleza se perde, mas a feiura é permanente, e com o tempo e o costume, passa a ser compreendida junto com a paisagem. Já os faustos e belos, coitados, estão fadados à decadência ou ao redesenho hediondo do bisturi. É encontrar aquela mocinha que na juventude era a namoradinha do bairro e tomar susto pelo seu mal traçado destino: “Meu Deus, está acabada... Do que me livrei!” Já o feio, não. O costume e o pouco de atrativos lhe conferem certa jovialidade e simpatia. Eterno em sua rotineira capacidade de passar despercebido e de não gerar expectativas, nos faz parecer até que está “melhorando”...
Temos o feio relativo, aquele que nem é tão feio quanto pinta, e no qual se é possível, ainda, sinalizar que “quem ama o feio, bonito lhe parece.” Há, porém, de encontrarmos por aí o feio vaidoso, aquele cuja feiura não lhe é suficiente, sendo imediatamente valorizada por meio de brinco, cabelo, piercing, óculos (todo feio, geralmente, utiliza-os) ou roupas coloridas e escandalosas.
O “feio inteligente” — tem-se o “feio burro”, um descuido do controle de qualidade divino que não deveria permitir o nascimento de tais seres, assim como também não deveria o “belo inteligente” — tem como ordem do dia conhecer o íntimo das pessoas. É, como forma de defesa, a princípio, um observador por natureza. Presta tanta atenção à sua volta que termina por conseguir decifrar mentes, prever acontecimentos, bolar planos maquiavélicos. Quase — em alguns casos, todo — um bruxo! Muitas vezes, por essa característica, se torna escritor. Este, quando mais famoso, ainda consegue, para insatisfação de seu editor, exigir sua triste estampa na capa de sua obra. Invés disso, os mais inteligentes estudam, prosperam na vida e compram imensos carros e namoradas festeiras: “Sou feio, mas eu posso!” Por questão de ética, nem vou citar exemplos de horrendos na literatura que ainda colocam suas esquálidas imagens em capas. Um real desserviço ao leitor a guardar o livro de bruços na cômoda ou dentro da gaveta para não desestimular a leitura das crianças.
Mendel, que também era um feio, e por isso se divertia no quintal promovendo o coito de ervilhas, descobrira que a feiura não cabia inteira num único rosto e metastatizava pelas veias, disseminando e condenando suas futuras gerações, sendo atenuada apenas quando do encontro casual com aquela bonitinha de pensamento transcendental a amenizar as marcas de uma herança de feiumes ou a expiar seus pecados na visão matutina de um feio despenteado a babar o travesseiro justaposto, no auge da feiura despreocupada e entregue à mosca, de certo, azul.
É sabido que a maior vitória do diabo foi convencer a todos de que era um feio. Pois bem, também é sabido que as proprietárias das grandes agências de modelos são imensas, além de feias. Assim, como vingança, contratam as mulheres mais bonitas e as convencem de que têm que emagrecer, emagrecer, emagrecer, até que sumam de vez das vistas humanas, agora, cadavéricas, paranóicas e tomadas de olheiras.
Mas o feio presta um grande serviço à humanidade, afinal, a beleza só existe quando ao lado da feiura. Muitos dos feios, como já disse, se tornam artistas, pois apenas a arte tem a capacidade de extrair a beleza do feio.  Fica, então, a pergunta quase humbertoecônica: “Será possível que por baixo de uma pátina malfeita possa existir alguma beleza?”

Lançamento "De Olhos Entreabertos", poesia de Aíla Sampaio (21.6)


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domingo, 17 de junho de 2012

"O Poeta Recluso", de Ana Miranda, em homenagem a Francisco Carvalho (17.6)


Gosto desses escritores e poetas tímidos, recatados, reclusos, solitários... São fascinantes pelo mistério que evocam. São uma espécie de sonho a que almejam os outros escritores, sempre necessitados de recolhimento e solidão e arrastados pela vida mundana, sempre com a sensação de estar perdendo tempo, perdendo tempo, a arte é longa, e a vida, breve... O Kafka dizia que seu sonho era viver num subterrâneo abobadado onde haveria apenas uma mesa, cadeira, papel, pena e tinteiro. Ali ele passaria dias e noites vestido num roupão, escrevendo, e teria como único movimento o levantar-se para pegar um prato de comida que alguém depositaria do lado de fora da porta. A que profundezas iria! Que coisas arrancaria dali!, ele diz. São os chamados subterrâneos de Kafka. Talvez uma síndrome, talvez uma paixão, talvez um medo. 

Aqui no Ceará temos um assim, o poeta Francisco Carvalho. Não possui a determinação absoluta de Rubem Fonseca ou Dalton Trevisan, que jamais deram entrevistas, jamais se deixaram fotografar, os cearenses são de espírito maleável, muitos, e parece que Carvalho tem essa doçura que torna difícil dizer Não, e vez em quando sai uma entrevista, uma foto no jornal, alguma imagem na qual que vemos como é inevitável o seu embaraço, como é delicada a sua presença, quase ausente diante do estranho. E suas palavras, diz o jornal, saem em voz baixa, suas frases desaparecem antes do final, “como se interrompidas por reticências, ele se esquiva da conversa, lamenta a memória fraca, a dificuldade em andar e repete: ‘Faltam as palavras’...” Na verdade, dá as entrevistas por escrito. Prefere dar por escrito. Na escrita, no solitário recinto do seu gabinete, não faltam as palavras. Nem sobram. São exatas, contadas, precisas, preciosas. Palavras de poeta. “É verdade que sempre fui arredio. Sempre olhei mais para dentro do que para fora. Sempre fui inquilino da timidez. Fiz esforços para mudar, mas não consegui alterar o desenho do molde primitivo”.

Ele diz que toda grande poesia possui uma relação com o silêncio, o poeta precisa se recolher ao silêncio para ouvir a si mesmo. Sim, a reclusão, o silêncio, a timidez, servem muito bem à palavra escrita. Também às lembranças, e Carvalho tem vivas recordações de sua cidade natal, Russas, que ele achava “triste na quadra invernosa e poeirenta nas tardes de verão, quando o vento do Aracati soprava mais forte”. Ele se lembra de figuras que moravam na cidade, um monsenhor a consolar os pobres, um beato coberto de efígies e medalhas, lembra da sua escola, das matracas berrando nos rituais religiosos, das procissões, da passagem de mortos levados em redes, a um triste dobrar dos sinos, que o marcaram para sempre. “Em vários poemas meus existem vestígios desse tempo e das impressões causadas pela cidade a um menino que, de forma ingênua e talvez equivocada, tentava descobrir o mundo à sua volta”.

Essas recordações deram o belo poema que fez para sua cidade, do qual retiro alguns trechos como se fossem prosa: “Cidade das éguas russas que só pastam saudade ... o repentino crepúsculo dos morcegos ... Os velhos ao gamão, à sombra do tamarindo, monsenhor Vital pastorava o luar como se fosse um rebanho de carneiros balindo. ... Os mortos passam lentamente pela rua principal, do fundo da torre negra o sino os acompanha com lágrimas de metal. ... O tempo passa boiando nas lerdas águas do Araibu ... Cidade das éguas russas que pastam nos campos ralos das éguas que se foram tangidas pelo vento da respiração dos cavalos. ... Cidade das éguas russas que só pastam saudade, os caminhos do morto que vai para a eternidade passam pelo meu corpo”. E da morte de seu pai ele tira uma poesia emocionante: “Volto a ser o menino que segurava o teu braço pelas ruas da cidade vazia. Só a manada dos ventos dialogava com as aldravas que restaram dos antigos invernos e ríspidos estios de pássaros e nuvens que se acasalavam no ar”.

Mas nem só de beleza e memória se faz sua poesia. Há crítica, revolta, ironia, e há o humor da inteligência. Disse ele, um dia, falando da sua construção poética: “Sem indignação não se produz boa literatura”. E ele investe contra o mundo, contra a burocracia, os mísseis, o olho da serpente, as teias de mitos, as vaidades... Contra o fato de não haver mais lugar para a poesia no mundo atual. Mas a matéria de seu canto é o barro, o barro da infância, o barro de Russas, o barro de si mesmo. E escreve poemas tão excelentes e emocionantes que abençoam qualquer timidez ou reclusão. 

"Os cearenses são de espírito maleável e Carvalho tem essa doçura que torna difícil dizer “Não”"

"Ele diz que toda grande poesia possui uma relação com o silêncio. Não só beleza e memória. Há revolta e ironia, e há o humor da inteligência"

"E ele investe contra o fato de não haver mais lugar para a poesia no mundo atual"

ANA MIRANDA é escritora cearense. Autora de Boca do Inferno (1989), Desmundo (1996), Amrik (1997), entre outros

quarta-feira, 13 de junho de 2012

"O Conto na Terra do Conto", Pedro Salgueiro para O POVO (13.6)



O conto é o gênero literário mais cultuado no Ceará (alguém já afirmou que temos mais contadores de histórias que bodegueiros). Rara foi a geração que não nos deu pelo menos meia dúzia de bons contistas. Mas raros são os excepcionais, visto que o gênero é difícil, escorregadio, enganoso, muitos acham que basta contar uma anedota interessante, alinhavar bem um caso curioso, para obter êxito.
Atualmente temos pelo menos quatro gerações produzindo narrativas curtas de boa qualidade por aqui. Não sem tempo, a SecultCE editará em breve edição completa dos contos do saudoso Moreira Campos, trazendo inclusive seu livro inédito “A Gota Delirante”. Em agosto próximo, o nosso maior contista vivo, o oitentão Caio Porfírio Carneiro, lançará em Fortaleza (comemorando 50 anos de sua estreia com o já clássico “Trapiá”) sua nova coletânea: “Veredas da Caminhada”.
Há poucos meses dois escritores que publicaram pela primeira vez nos Anos 70 nos presentearam com dois ótimos livros: Airton Monte lançou o longamente aguardado, “Os Bailarinos”, e Nilto Maciel editou seu nono livro de narrativas, “Luz Vermelha que se Azula”. Obras importantes que solidificam dois dos mais importantes nomes de nossas letras.
Depois de quase 3 décadas afastados da literatura, dois remanescentes dos Anos 80, Eugênio Leandro (que só havia editado “Rei Piau”, acaba de lançar o pujante “A Noite dos Manequins”) e Isa Magalhães (que estreou com “Psiu, o síndico pode estar ouvindo”, editará em breve “O Jogo do Amor”) retornam ao gênero conto.
As ótimas Inês Figueiredo (que estreou maravilhosamente bem no conto com “Palavras por Aí À Ventura”) e Maria Thereza Leite (que com seu terceiro livro de histórias curtas, “Avenida dos Ventos”, a ser lançado brevemente, se solidifica como uma de nossas melhores contistas) enriquecem com seus talentos este gênero que no passado recente recebeu importantes contribuições de escritoras como Margarida Saboia, Natércia Campos, Beatriz Alcântara, Regine Limaverde, Joyce Cavalcante, Angela Gutiérrez, Lurdinha Leite Barbosa e muitas, muitas outras.
De uma geração que estreou nos Anos 90 dois excelentes escritores nos trouxeram obras singulares: os premiadíssimos Joan Edesson de Oliveira, com seu fantástico “O Plantador de Borboletas”, e Tércia Montenegro, com seu belo “O Tempo em Estado Sólido”, que recentemente venceu o prestigioso Prêmio Governo do Estado de Minas Gerais. Geração que já nos deu Ronaldo Correia de Brito, Dimas Carvalho, Luciano Bonfim, Paulo de Tarso Pardal, Jorge Pieiro, Alano de Freitas, Astolfo Lima Sandy...
Outro livro de narrativas breves bastante aguardado foi “Os Acangapebas”, de Raymundo Netto (vencedor do Edital da SecultFOR e do Prêmio Osmundo Pontes de Literatura, da Academia Cearense de Letras), digno representante de uma geração recente que já nos apresentou Fernando Siqueira Pinheiro (com “O Tatuador de Palavras” e “Ao Lado do Morto”), Carlos Vazconcelos (com “Mundo dos Vivos”), Túlio Monteiro (com “Dois Dedos de Prosa com Graciliano Ramos”), Carmélia Aragão (com “Eu Vou Esquecer Você em Paris”), Alan Santiago (com “Lua de Ur num Prato de Terra”), Renato Barros de Castro (com “Dulcineia em Hollywood”), Brennand Bandeira (com “Entre Oito Paredes”), Junior Ratts (com “Sweet Dreams”), Dércio Braúna (com “Como um Cão que Sonha a Noite Só”), Angela Calou (com “Eu Tenho Medo de Gorki”), dentre vários outros.
Através de Edital da SecultCE, recentemente foi publicada a coletânea “Quantas de Nós”, com histórias curtas de Carmélia Aragão, Cleudene Aragão, Vânia Vasconcelos, Ruth de Paula, Maria Thereza Leite e Inês Cardoso.
De uma geração ainda mais nova foi editada a seleta “Metropolis” (Edital da SecultFOR), que traz sete contos de cada um dos sete participantes: Anna Karine Lima, Fernanda Meireles, Flávia Oliveira, Joice Nunes, Mariana Marques, Natércia Pontes (que lançou o livrete “Az Mulerez”) e Jorge Pieiro (único veterano do grupo, que acaba de publicar o livro de contemas, como ele denomina seus relatos breves, “O Outro Dono do Fim do Mundo”), quase todos inéditos em livro e que têm na internet seu principal campo de atuação.
Além dessa quantidade formidável de lançamentos recentes, os contos vêm sendo incansavelmente publicados nas diversas revistas literárias (Corsário, Pajeurbe, Pindaíba, Literapia, Caos Portátil, Singular, Para Mamíferos, Aldeota, Pechisbeque etc.), mas principalmente nos muitos blogs e sites na internet (dentre os quais destacaria os textos em prosa de Ruy Vasconcelos no seu excelente http://afetivagem.blogspot.com//).

P.S.: Não podemos nos esquecer de cearenses que residem há muitos anos em outros Estados, como Caio Porfírio Carneiro, Sérgio Telles, Adriano Espínola, Carlos Gildemar Pontes, Ronaldo Correia de Brito, Rinaldo Fernandes, Everardo Norões, Majela Colares, entre outros, que continuam publicando bons livros de contos com uma regularidade impressionante. 

P.S 2: Quem cita acaba sempre esquecendo nomes, mas eu jamais poderia omitir três recentes lançamentos: "O Romance que Explodiu", de Carlos Emilio Corrêa Lima (que já havia publicado Ofos, de narrativas, nos Anos 70), "Malindrânia", do poeta Adriano Espínola (que faz sua estreia no gênero conto) e "O Professor de Piano", de Rinaldo de Fernandes (maranhense hoje radicado na Paraíba, mas que fez faculdade, co-editou a revista Acauã e publicou seus primeiros livros por aqui).

terça-feira, 12 de junho de 2012

Lançamento "Getúlio", de Lira Neto, na Cultura (14.6)

Foto: Diário do Nordeste


Data: 14 de junho, às 19h
Local: Livraria Cultura
Investimento: R$ 52,50

Sobre a obra: Matéria do Diário do Nordeste

Na próxima quinta (14), o escritor e jornalista cearense Lira Neto vem a Fortaleza para o lançamento de Getúlio: dos anos de formação à conquista do poder, sobre o início da trajetória política do ex-presidente da República. Reconhecido por seu trabalho com biografias, entre elas a de José de Alencar, a da cantora Maysa e do Padre Cícero, Lira optou por explorar a vida de Getúlio em uma trilogia, frente à dimensão de sua figura para a história do País e à complexidade do personagem.
Os segundo e terceiro volumes já estão em produção e devem ser lançados em 2013 e 2014, respectivamente (com os subtítulos (1930-1945): do governo provisório à ditadura do Estado Novo e (1945-1954): do retorno pelo voto até o suicídio).
Pouco usual para um projeto no gênero de biografia, a escolha pelo formato de trilogia, aliada à importância de Getúlio, já seria suficiente para chamar atenção do público.
O impacto do lançamento, porém, foi ampliado a partir de questionamentos suscitados por outros pesquisadores, historiadores e escritores sobre as afirmações de Lira Neto quanto ao ineditismo de documentos levantados durante pesquisa para o livro.
Segundo o historiador e jornalista Juremir Machado, um dos principais divulgadores do imbróglio, Lira não poderia afirmar, como fez em entrevistas a diferentes veículos de comunicação, que foi o primeiro a analisar determinados documentos citados em Getúlio, ou, ainda, a trazer à tona os fatos a eles relacionados.
Em posts publicados nos dias 18 e 23 de maio, em seu blog vinculado ao jornal Correio do Povo (RS), Machado detalha quando, em que obras e por quais autores esses documentos e fatos sobre a vida do ex-presidente já foram explorados.
O também escritor e jornalista Fernando Jorge, Lutero Vargas (filho de Getúlio), o escritor e roteirista José Louzeiro, o jornalista e historiador Antônio Augusto de Lima Júnior, o memorialista Ciro Arno e o autor Pedro Rache são alguns dos nomes citados por Machado.
Um dos documentos da polêmica é o discurso de formatura de Getúlio, então com 25 anos, na Faculdade de Direito de Porto Alegre, em 1907. Sobre o documento, Machado ressalta que Fernando Jorge já o havia evocado e analisado no segundo volume de seu Getúlio Vargas e o seu tempo, publicado em 1994 e ganhadora do Prêmio Clio, da Academia Paulistana de História.
O próprio Fernando Jorge chegou a enviar carta à revista Veja, com o objetivo de rebater informações veiculadas em nota sobre o livro, na qual era exaltado o ineditismo do teor do discurso.
Os outros dois casos dizem respeito a acusações por parte de adversários de Getúlio (em especial o jornalista e político Carlos Lacerda), sobre sua participação em dois assassinatos - um aos 15 anos, junto com os irmãos, de um estudante paulista, durante uma briga em Ouro Preto (MG); outro quando já era político, de um índio no Rio Grande do Sul. Nos dois casos, era inocente; no segundo o condenado era um homônimo.
Machado ressalta que, no livro Getúlio Vargas, a revolução inacabada, de 1988, Lutero Vargas esclarece as acusações, no item no item "Os quatro crimes da Tribuna de Imprensa". A passagem é citada pelo próprio Machado, em seu romance biográfico Getúlio.
"O processo de Ouro Preto inclusive encontra-se analisado folha a folha no livro de Augusto de Lima Jr., Serões e Vigílias. A descoberta de que um homônimo de Getúlio assassinou um índio no RS também saiu em vários livros", frisa o gaúcho. "Álvaro Larangeira também publicou no site do Observatório de Imprensa, texto sobre esse falso ineditismo", complementa Machado. Larangeira é jornalista, professor da Universidade Tuiuti do Paraná e organizador, com o historiador Décio Freitas, de Getúlio Vargas - A Serpente e o Dragão: dissertações acadêmicas (2003).

Discussão

As críticas de Machado e os autores por ele citados dizem mais respeito às declarações de Lira durante a divulgação do livro do que à obra propriamente dita, ou mesmo à velha discussão em torno da oposição do fazer jornalístico e historiográfico.
"O livro tem texto agradável, tem riqueza de detalhes, é uma boa obra. Mas não tem ineditismo. Não tenho nada contra Lira, mas o que não se pode fazer é dizer que se fez descobertas inéditas quando elas não são", alfineta.
Para Machado, "um jornalista pode fazer ótimos trabalhos de história, desde que aceite as regras desse campo. O que Lira está fazendo é tentar requentar determinados assuntos para transformar em manchete, esquema típico para atrair leitores. Tem a ver também com a ignorância dos próprios jornalistas, que compram gato por lebre", complementa o gaúcho.
De 2011 para cá, Lira Neto mudou um pouco o tom de suas declarações, passando do "ineditismo" para um certo "pioneirismo". Em janeiro de 2011, o cearense concedeu entrevista ao jornal Folha de São Paulo, na qual afirmava, sobre as acusações de assassinato de Getúlio, que "se tratava de um erro histórico que estava sendo perpetuado".
Quase um ano e meio depois, em meio ao lançamento do primeiro volume da trilogia, novamente em entrevista à Folha, Lira explica que não foi o primeiro a dizer isso (sobre os fatos envolvendo Getúlio), "mas o primeiro a fazê-lo com base em provas documentais”. "Desafio qualquer pessoa a mostrar onde estão as citações ao inquérito original. Os documentos estavam intactos nos arquivos, fui o primeiro a manuseá-los", ressaltou.
Ontem, o autor falou sobre o imbróglio mais detalhadamente ao Caderno 3: "Na biografia que escreveu sobre o pai e que é citada em meu trabalho, Lutero Vargas defendeu a tese de homonímia no caso do assassinato do índio Tibúrcio. Mas não apresentou nenhum documento. Como jornalista, rigoroso no tratamento das fontes, jamais poderia me contentar apenas com a versão familiar. Localizei não só os autos do processo como o registro de nascimento do homônimo, ambos inéditos em livro", esclarece.
No caso do discurso de formatura, Lira explica que "os fragmentos que se conheciam desse texto, publicados em outras obras igualmente citadas por mim, omitiam um dado fundamental: o anticlericalismo extremado do jovem Getúlio, tema delicado, que até então condenara a íntegra do discurso ao esquecimento da história. Por fim, no caso de Ouro Preto, o filho do juiz encarregado do processo, Augusto de Lima Jr., reproduziu em um livro publicado em 1952, indicado nas notas bibliográficas do meu, frações dos depoimentos das testemunhas, para tentar absolver o pai da acusação de ter sido conivente com os Vargas. Mas o conjunto dos autos do crime também permanecia inédito e desconhecido do público, sem nunca ter sido trabalhado e detalhado antes por fonte isenta", complementa o escritor.

Trabalho

Polêmicas a parte, a trilogia de Lira Neto sobre Getúlio Vargas promete fincar lugar em meio à coleção de obras já existentes sobre o ex-presidente. Não por acaso, o escritor vem se dedicando ao trabalho desde 2009. "O primeiro ano consistiu em fazer uma exaustiva revisão bibliográfica de tudo o que de mais relevante existe na caudalosa bibliografia em torno de Getúlio", recorda.
"Outro ano foi consumido na tarefa de organizar o roteiro geral da trilogia e na busca de fontes primárias que ajudassem a reconstruir a trajetória do biografado desde o nascimento até sua chegada ao poder, em 1930. Das 632 páginas do livro, pelo menos 100 são de notas e referências às fontes de pesquisa", contabiliza o autor.
A ideia de biografar Getúlio já era antiga. "É o principal personagem - e o mais controvertido - de toda a história brasileira. Desde meu livro sobre o marechal Castello Branco, até o mais recente, sobre Padre Cícero, ele vinha sendo personagem presente nas tramas. Decidi trazê-lo para o centro da cena após receber carta branca de meu editor, Luiz Schwarcz, para me entregar ao projeto da trilogia em regime de dedicação exclusiva", conta.

LIVRO

Getúlio (1882-1930) - Dos anos de formação à conquista do poder
Lira Neto
Companhia das Letras
2012, 656 páginas
R$ R$ 52,50
Mais informações

Lançamento do livro "Getúlio", de Lira Neto. Dia 14 (quinta), às 19 horas, na Livraria Cultura (Shopping Varanda Mall - Av. Dom Luís, 1010, Meireles). Contato: (85) 4008.0800

Adriana Martins para o Diário do Nordeste

segunda-feira, 11 de junho de 2012

"Aula de leitura com Monteiro Lobato", de Socorro Acioli, na Cultura (17.06)



Lançamento-Palestra
Aula de leitura com Monteiro Lobato,
de Socorro Acioli
Data: 17 de junho de 2012 (domingo), às 16h
Local: Livraria Cultura (Avenida Dom Luís, 1010 - Shopping Varanda Mall) 
Informações: 4008.0800

Sobre a Obra: Apresentado inicialmente como Dissertação de Mestrado à Universidade Federal do Ceará, esta Aula de leitura Monteiro Lobato  de Socorro Acioli ilustra bem uma das mais atuais e promissoras vertentes dos estudos literários. Ao incluir a leitura entre seus objetos, a Teoria Literária dialoga de forma produtiva e sedutora com outras áreas das ciências humanas particularmente com a História e com a Educação. É esta última área a grande parceira e , de certa forma, a destinatária privilegiada desta obra, que tem por tema a leitura .
Aula de leitura com Monteiro Lobato acerta ao eleger como porta de entrada para questões de leitura a obra de Monteiro Lobato. Debruça-se particularmente sobre seus livros infantis e mais particularmente ainda sobre a adaptação lobatiana de D. Quixote.
Com efeito, pontilhadas de cenas de leitura, as histórias do sítio constituem – como discute a autora deste belo livro- variado pano de amostra de práticas leitoras. Tais práticas, ao longo das histórias, recobrem amplo arco de modos, pressupostos, projetos e comportamentos inspirados em livros, que sugerem à autora uma original classificação de modos de ler. E, embora contextualizados nos anos 40 do século XX - época da escrita da versão definitiva das histórias- as cenas de leituras representadas são bastante atuais.
Apresentando Dona Benta como figuração de uma competente mediadora de leitura, a análise a que Socorro Acioli submete a obra infantil lobatiana permite que seus leitores encontrem no comportamento da avó de Pedrinho e Narizinho, princípios que até hoje parecem caracterizar atitudes recomendáveis a quem tem por objetivo difundir a leitura.

Em certa altura do texto, Socorro Acioli considera que a obra infantil lobatiana faculta a seus leitores a “história da vida privada de uma família de leitores”.
Beleza de formulação! 
Relativamente a este tópico e da perspectiva da qual Socorro Acioli lê as histórias do Picapau Amarelo é possível encontrar na obra do criador de Tia Nastácia vários dos temas que – sabe-se hoje- constituem questões fundamentais dos estudos da leitura.
Estão aí incluídas -entre outras- a questão da circulação do livro ( os livros vinham de um livreiro da capital) , das diferentes formas de recepção de um mesmo livro ( a reação de Pedrinho e a de Emília à leitura de D. Quixote), características da leitura do mediador ( o respeito de Dona Benta pelos textos) , ou a ainda hoje polêmica discussão da adaptação dos clássicos . 
Entabolando profícuo diálogo com a melhor tradição recente dos estudos literários  —  Roger Chartier, Regina Zilberman e H.R.Jauss para mencionar apenas três deles — “Formação de leitores: as lições infalíveis de Monteiro Lobato” vai, com certeza, marcar seu leitor com o selo de qualidade que marca o promissor encontro entre bons livros (como este) e seus leitores.

Marisa Lajolo é professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Unicamp.

"Dev(oração)", de Magna Moraes (10.6)



 
Para a carne branca do anjo
a boca que se abre
não morde
 
A fenda que se derrama
é um rio seco
que corre
 
Da garganta subterrânea
a palavra é uma rosa
que brota
 
Para a fome bruta de anjo
meus dentes brancos
são pétalas

domingo, 10 de junho de 2012

"Sólida como Pedra e Vento", Carlos Vazconcelos em especial de aniversário de Francisco Carvalho em O POVO (10.6)



Nem poeta municipal nem poeta federal, poeta de Língua Portuguesa, desses que elevam a expressão poética da flor do Lácio ad infinitum. Em um mundo globalizado, que transformou tempo em ouro, sexo em luxo e liberdade em utopia, a humanidade necessita de poetas que lutem contra a pedra no caminho, que sonhem com Pasárgada, que cantem porque o momento existe; poetas que mirem as coisas mínimas, pois quem não há de desconfiar que não existem coisas máximas, exceto o respirar tão frágil e o fechar dos olhos tão miúdo depois da cortina da noite?

Que acontece quando silêncios e vozes se entretecem? A poesia. E se o poeta é da estatura de Francisco Carvalho? A celebração. O que leva um teatro inteiro a declamar versos? O êxtase. Nos dias 21 e 22 de maio, no IV Seminário SESC Revelando a Literatura Cearense, celebramos os silêncios e vozes do poeta Francisco Carvalho. Instigamos e vimos o teatro inteiro declamando poesia, vozes de todas as idades e tons, a ala de cima, a ala de baixo, alunos, professores, escritores, leitores e simpatizantes, todos repetiram, como em oração, a “Canção do Irmão”: “Alguém tem de celebrar a paz/ pelos que pelejam/ Alguém tem de assumir a infância/ pelos que não sonham/ Alguém tem de rezar um salmo/ pelos que morreram/ Alguém tem de escrever um verso/ pelos que não amam”.

Francisco de franciscana vaidade e fortuna crítica estelar. Que alguém ainda não diga que poesia não se põe no púlpito. Repitamos com Carvalho esses paradoxos: “Fazer um poema não é dizer coisas profundas. É ver as coisas como as coisas não são”. É nessa gratuidade que reside todo o legado da poesia, desde Homero, desde Dante, desde o primeiro fiat lux. Poeta silencioso em seu estar no mundo, Carvalho atinge plena eloquência na sua poética, pois composta de vozes e de silêncios, aqueles silêncios de ouro, que valorizam as palavras. Silêncios a la Mallarmé, que dão voz aos anjos, que dão alma aos objetos.

Poética que decanta o fracasso da palavra enquanto sublima a língua: “A aranha não tece em vão/ sua secreta parábola/ em vão gastamos o ferro/ o ouro da nossa fala.” Poética que discorre sobre a inutilidade da poesia enquanto pratica sua essência: “O sentido da poesia é não ter sentido algum”. Poética que consagra o abismo enquanto constrói a ponte: “Alguns me lembram que ainda/ existe a possibilidade do amor./ Mas o amor não é uma saída/ o amor é um mergulho.” Poética que desromantiza o poema para altear a voz contra o sistema: “Quebra o teu alaúde de poeta romântico/ quebra o cristal dos teus desvarios/ e vai semear esperança nas favelas/ de pés descalços e olhos vazios”.


Poesia que esvoaça como o vento mas é sólida como a pedra, que esmiúça o cotidiano mas flerta com o metafísico, que se nutre com o erudito mas desabotoa o fardão, que decifra a esfinge mas elabora o próprio enigma. Adolfo Casais Monteiro parecia falar de Carvalho quando escreveu que “o artista-poeta é aquele que do fundo dos seus abismos e do alto dos seus céus nos comunica a expressão da sua essencialidade humana”. A poesia de Francisco Carvalho diz muito quando emudece e às vezes é impactante como as sentenças do Velho Testamento: “Perde teu olho/ mas não perde a tua liberdade”.

Nobre poeta de carvalho e nuvem, que floresce a cada livro para ofertar a todos o imenso banquete da poesia. Nos seus oitenta e cinco anos, celebraremos os séculos que se derramarão sob o porvir dos teus poemas. Nessa pastoral dos dias maduros, sob a rosa dos minutos que se alongam, repetiremos com você que “ser poeta é repartir o pão com os humilhados e ofendidos, ser poeta é fingir que o sonho é real e acreditar que a pedra pode se transformar em pássaro”.

Carlos Vazconcelos, escritor, autor de O Mundo dos Vivos, coordenador e apresentador do projeto "Bazar das Letras do SESC" e mestrando em Literatura pela Universidade Federal do Ceará.

Multimídia
Para ver - Confira, no canal do portal O POVO Online no youtube (http://www.youtube.com/portalopovoonline), a série de vídeos com o ator Ricardo Guilherme e os jornalistas Demitri Túlio (foto), Ivonilo Praciano e Michel Victor fazendo leituras dramáticas dos poemas de Francisco Carvalho.

Para ver - No programa Viva Domingo, da TV O POVO (UHF 48, NET 23 e TV Show 11), o historiador da literatura Humberto Pinheiro fala sobre a obra de Francisco Carvalho. O programa vai ao ar nesse domingo às 20h30min. Reprise amanhã às 7h.


"Memórias de Nós, Pobres Espantalhos", homenagem feita ao poeta Francisco Carvalho há cerca de três ou quatro anos. Ainda está valendo!



Nasci, à noite, num dia de São Pedro. Minha mãe sempre contou: “enquanto você estava nascendo, meu filho, eu ouvia os fogos a estourar no céu!” Deva ser daí, creio, a paixão que sinto pelas festas juninas, pelas músicas em volta da fogueira, por bandeirinhas de papel penduradas — ainda com grude — em cordões de palha, e pelos “anavans” e “anarriês” dos tempos de rapaz...

sexta-feira, 8 de junho de 2012