“Idosos,
nãos. O correto é dizer ‘pessoas idosas’”, corrigia a assistente
social dando voltas no ar com a sua caneta.
Nestor,
surpreso, expressou sorriso sem graça: “Danou-se, quero saber é se a velhice
não é a mesma...”. Estava ali, por detrás da esposa cadeirante, ambos
octogenários. Iracema, a esposa, totalmente alheia, trazia o olhar camaleônico
e acinzentado. Magérrima, tinha os braços, punhos e joelhos tensos, fletidos. A
pele lustrosa em verniz era fina e fria. Não respirasse, quem a visse jurava
estar morta.
Nestor,
de vez em vez, passava carinhosamente nos lábios da esposa o lenço de papel
para conter a saliva: “Somos casados há 60 anos. Iracema é o grande amor de
minha vida, doutora. O maior de todos.”
Dito
isso, espremia os olhos por trás dos óculos a fitar a boca entreaberta de sua
amada na tentativa de recordar o sorriso jovial que tanto o cativara. “E eu, Nêga,
ainda sou o seu amor?”
Indiferente
à cena, a assistente insistia: “O senhor não dá conta sozinho, seu Nestor. Tem
filhos?” O sorriso dele se iluminou: “Ah, sim, temos uma filha. Formada em Direito,
graças a Deus! Casada com um dentista, o dr. Gustavo. Excelente profissional. Temos
netos. Um casalzinho. Faz tempo que não vejo meus netinhos... Também, os pais
trabalham muito. Quedê tempo? Mas estão bem de vida, viu? Têm casa de praia, na
serra e tudo. Graças a Deus!”
“E em
casa, alguém mais mora com vocês?”
Medindo
palavras, Nestor abanava o lenço no rosto de Iracema para afugentar uma mosca irritante:
“Nossa casa é grande. Terreno ótimo. Meu sonho é que algum de meus netos more nela
quando a gente partir. É uma casa muito amada. Eu mandei construir tijolo por
tijolo. Minha filha nasceu e cresceu ali. A minha Teresa... A bichinha é a mãe
toda.”
“E o
senhor já pensou em contratar cuidadora?”
Indignado,
empertigou a coluna: “Tive. Não quero mais. Machucava Iracema. Peguei no
flagra. E não a alimentava direito. Eu me garanto, doutora. Asseio com a
esponja e sabão. Vario as posições dela na cama para não criar feridas. Passo o
hidratante. Alimento devagar, senão ela engasga. Os remedinhos na hora. Converso
e leio para ela. A doutora pode nem acreditar: às vezes eu sinto que ela me
entende. Até ri com minhas bobagens.” Emocionado, sorriu, enquanto com os dedos
pinçava as bordas da fralda da mulher. “Sou eu quem as troca. Ela comigo está
bem”.
“O
senhor está dizendo... Assine aqui”. Deslizou o formulário e a caneta no birô.
Continuou: “Mas, olhe, o melhor para ela é estar...” Antecipando-se à assistente,
Nestor completou: “Em casa, doutora. Eu sei o que estou dizendo.” Mesmo
tentando disfarçar, eram visíveis os tremores nas suas mãos ao ajeitar os
óculos e assinar o formulário.
Chegando
em casa, pediu ajuda à empregada da vizinha para, com muito esforço, colocar
Iracema na cama hospitalar: “Eita, sô Nestô. Dona Iracema é maguinha assim, mas
osso pesa, num viu?” “Besteira, Judite. Olhe, no final do mês tem agradinho,
viu?”
Depois,
Nestor largou-se na fiel poltrona ao lado da cama da mulher e cochilou.
Passado
o mês, para surpresa apenas dele, Iracema faleceu. Chorou como criança por
sobre o corpo vazio da mulher. “Eu pedi tanto, meu Deus, para ir antes dela...
pedi tanto, meu Deus...” O quadro era comovente.
Após
o enterro, retornou à casa acompanhado de Teresa. Sentou-se à mesa da cozinha,
alisando a sua borda com a ponta dos dedos. A filha trouxe um copo de água com
açúcar: “Papai, estou preocupada. O senhor ficar aqui sozinho? Pena que não dá
para ficar lá em casa. O senhor sabe... Vai tirar a privacidade. O Gustavo não
gosta. O senhor devia vender essa casa e alugar um apartamento, viu?”
“Daqui
eu não saio, Teresa. Iracema está aqui... em tudo. É a nossa casa, minha filha.
Eu construí essa casa para vocês. Será a casa de meus netinhos...”
Nesse
momento, Gustavo liga. Tem compromisso: um jantar. Ela tem que voltar logo: “Os
meninos vão ficar sozinhos, viu?”
Durante
dias, Nestor recebeu telefonemas. Muito chato ouvir que assim foi o melhor...
Para ele é que não foi!
Dormia
na cama da amada. Procurava no travesseiro o cheiro de sua lavanda inglesa. Ouvia
os LPs que colecionaram juntos. Lia cartas amarelecidas. Revia fotos de uma
vida que prometia nunca se acabar. Só não teve coragem de mexer nas coisas da morta.
Teresa queria doar tudo. Ela não podia estar falando sério...
Um
dia, saturado de tanta solidão, passou a observar o teto. Avaliou com cuidado a
sua altura e a canopla da luminária. Trouxe da cozinha um banco com pernas compridas
e o colocou no centro do quarto. Contemplou com um olhar triste tudo em volta e,
talvez por nossa presença o constranger, fechou a porta. De lá, sozinho, não
mais saiu.
Meses
depois, área nobre, terreno amplo, aquela casa foi vendida e logo demolida para
dar lugar a mais uma frenética academia de ginástica.

