segunda-feira, 5 de outubro de 2026

"Velharia", de Raymundo Netto para O POVO


“Idosos, nãos. O correto é dizer ‘pessoas idosas’”, corrigia a assistente social dando voltas no ar com a sua caneta.

Nestor, surpreso, expressou sorriso sem graça: “Danou-se, quero saber é se a velhice não é a mesma...”. Estava ali, por detrás da esposa cadeirante, ambos octogenários. Iracema, a esposa, totalmente alheia, trazia o olhar camaleônico e acinzentado. Magérrima, tinha os braços, punhos e joelhos tensos, fletidos. A pele lustrosa em verniz era fina e fria. Não respirasse, quem a visse jurava estar morta.

Nestor, de vez em vez, passava carinhosamente nos lábios da esposa o lenço de papel para conter a saliva: “Somos casados há 60 anos. Iracema é o grande amor de minha vida, doutora. O maior de todos.”

Dito isso, espremia os olhos por trás dos óculos a fitar a boca entreaberta de sua amada na tentativa de recordar o sorriso jovial que tanto o cativara. “E eu, Nêga, ainda sou o seu amor?”

Indiferente à cena, a assistente insistia: “O senhor não dá conta sozinho, seu Nestor. Tem filhos?” O sorriso dele se iluminou: “Ah, sim, temos uma filha. Formada em Direito, graças a Deus! Casada com um dentista, o dr. Gustavo. Excelente profissional. Temos netos. Um casalzinho. Faz tempo que não vejo meus netinhos... Também, os pais trabalham muito. Quedê tempo? Mas estão bem de vida, viu? Têm casa de praia, na serra e tudo. Graças a Deus!”

“E em casa, alguém mais mora com vocês?”

Medindo palavras, Nestor abanava o lenço no rosto de Iracema para afugentar uma mosca irritante: “Nossa casa é grande. Terreno ótimo. Meu sonho é que algum de meus netos more nela quando a gente partir. É uma casa muito amada. Eu mandei construir tijolo por tijolo. Minha filha nasceu e cresceu ali. A minha Teresa... A bichinha é a mãe toda.”

“E o senhor já pensou em contratar cuidadora?”

Indignado, empertigou a coluna: “Tive. Não quero mais. Machucava Iracema. Peguei no flagra. E não a alimentava direito. Eu me garanto, doutora. Asseio com a esponja e sabão. Vario as posições dela na cama para não criar feridas. Passo o hidratante. Alimento devagar, senão ela engasga. Os remedinhos na hora. Converso e leio para ela. A doutora pode nem acreditar: às vezes eu sinto que ela me entende. Até ri com minhas bobagens.” Emocionado, sorriu, enquanto com os dedos pinçava as bordas da fralda da mulher. “Sou eu quem as troca. Ela comigo está bem”.

“O senhor está dizendo... Assine aqui”. Deslizou o formulário e a caneta no birô. Continuou: “Mas, olhe, o melhor para ela é estar...” Antecipando-se à assistente, Nestor completou: “Em casa, doutora. Eu sei o que estou dizendo.” Mesmo tentando disfarçar, eram visíveis os tremores nas suas mãos ao ajeitar os óculos e assinar o formulário.

Chegando em casa, pediu ajuda à empregada da vizinha para, com muito esforço, colocar Iracema na cama hospitalar: “Eita, sô Nestô. Dona Iracema é maguinha assim, mas osso pesa, num viu?” “Besteira, Judite. Olhe, no final do mês tem agradinho, viu?”

Depois, Nestor largou-se na fiel poltrona ao lado da cama da mulher e cochilou.

Passado o mês, para surpresa apenas dele, Iracema faleceu. Chorou como criança por sobre o corpo vazio da mulher. “Eu pedi tanto, meu Deus, para ir antes dela... pedi tanto, meu Deus...” O quadro era comovente.

Após o enterro, retornou à casa acompanhado de Teresa. Sentou-se à mesa da cozinha, alisando a sua borda com a ponta dos dedos. A filha trouxe um copo de água com açúcar: “Papai, estou preocupada. O senhor ficar aqui sozinho? Pena que não dá para ficar lá em casa. O senhor sabe... Vai tirar a privacidade. O Gustavo não gosta. O senhor devia vender essa casa e alugar um apartamento, viu?”

“Daqui eu não saio, Teresa. Iracema está aqui... em tudo. É a nossa casa, minha filha. Eu construí essa casa para vocês. Será a casa de meus netinhos...”

Nesse momento, Gustavo liga. Tem compromisso: um jantar. Ela tem que voltar logo: “Os meninos vão ficar sozinhos, viu?”

Durante dias, Nestor recebeu telefonemas. Muito chato ouvir que assim foi o melhor... Para ele é que não foi!

Dormia na cama da amada. Procurava no travesseiro o cheiro de sua lavanda inglesa. Ouvia os LPs que colecionaram juntos. Lia cartas amarelecidas. Revia fotos de uma vida que prometia nunca se acabar. Só não teve coragem de mexer nas coisas da morta. Teresa queria doar tudo. Ela não podia estar falando sério...

Um dia, saturado de tanta solidão, passou a observar o teto. Avaliou com cuidado a sua altura e a canopla da luminária. Trouxe da cozinha um banco com pernas compridas e o colocou no centro do quarto. Contemplou com um olhar triste tudo em volta e, talvez por nossa presença o constranger, fechou a porta. De lá, sozinho, não mais saiu.

Meses depois, área nobre, terreno amplo, aquela casa foi vendida e logo demolida para dar lugar a mais uma frenética academia de ginástica.





3 comentários:

  1. A solidão de estar só, a solidão das companhias que não dizem nada. O luto. A indiferença.. bem ditas, colocadas. Aplausos . Lucirene

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  2. Dói cada palavra! E nós reconhecemos cada um desses sentimentos. O amor, o luto, o etarismo, a pressa, a ausência... Envelhecer é um privilégio para o quem conseguiu pagar o custo de viver mais!

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  3. Estou deveras emocionado. Sua crônica me fez refletir muito a velhice e o amor.
    Grande abraço

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