quinta-feira, 24 de novembro de 2011

"O Mundo Coberto de Penas", crônica de Pedro Salgueiro para O POVO


O sujeito vai envelhecendo e, crente de que a velhice por si só vai lhe dando sabedoria, passa a criar para si inúmeras (e inúteis) teoriazinhas. Uma delas, e das mais bestas, me assegura que os amigos e familiares se dividem em dois grupos distintos e opostos: O dos que adora o fim de ano – são os “puros de espírito”, os que tiveram uma infância feliz, os que sentem saudades de tudo (especialmente da meninice); estes mal veem chegar o novembro e já adquirem um estranho brilho nos olhos, riem (e choram) por qualquer coisa, ficam mais pacientes e ternos, passam a se preocupar com coisas bobas, como lavar o cachorro, fazer listas de presentes. Mas não só isso: revivem o ano todo de modo mais otimista: fazem balanços, estilam promessas, enfim, escrevem de letra vermelha na agenda frases edificantes que sugerem a si e ao mundo que se tornarão pessoas melhores e mais felizes. O segundo grupo detesta qualquer rito de passagem, seja ele religioso ou mesmo o da mera marca do calendário – são os de “almas pesadas”, os que carregam nos ombros o peso do mundo, os que têm aftas no coração: estes só veem interesses comerciais nas mil luzinhas de Natal em cada janela de subúrbio, apenas vislumbram hipocrisias nos cumprimentos risonhos e nos apertos de mão entre vizinhos e colegas de trabalho: repassam em suas mentes as infinitas mazelas do ano que passou, as inúmeras tristezas que carregam no coração, as matrículas do colégio dos filhos, o negrume que a luz deixa por trás de qualquer objeto.

E para tornar mais baratas as muitas teoriazinhas que me povoam a desocupada cabeça chego rapidamente à conclusão de que o mundo se divide entre os otimistas e os pessimistas.

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Entre os bobões românticos e os chatos realistas.

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Entre os Fabianos e as Sinhás Vitórias. Entre as Cachorras Baleias e os Soldados Amarelos*.


* Referências a personagens do livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que inicialmente se chamaria O Mundo Coberto de Penas.

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