sexta-feira, 14 de setembro de 2018

"Talento", ensaio sobre escrita criativa por Pedro Salgueiro

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Um escritor importante (não lembro se Flaubert) afirmou, certa vez, que o talento, na verdade, não passava de uma longa paciência. A frase ficou rodopiando em minha cabeça desde então, muito mais pelo que ela deixa de dúvida, desconfiança, do que pelas gotas de certeza que traz em suas entrelinhas. 
Já nasceria o artista com uma dose genética, inata, de talento? Uma sensibilidade diferenciada, uma maneira própria de ver o mundo, um ângulo qualquer meio enviesado de perceber certas coisas que a maioria dos mortais não é capaz? No meu modesto entender, acho que "sim" e que "não". Explico: o artista já nasce com essa sensibilidade especial (não diria jamais que ela seja superior) de ver "certas" coisas de um ângulo, digamos, não (ou pouco) convencional. Mas perguntaria: e apenas essa sensibilidade diferenciada seria suficiente para o suposto artista desenvolver com êxito sua arte? Outra pergunta que me persegue quando penso sobre o assunto: somente uma criatura com essa tal característica seria capaz de se desenvolver como artista? Aí que entra a resposta "não", que veio junto com o "sim", um pouco atrás. 
Acredito que mesmo um escritor "naturalmente" talentoso, cheio de "inspirações", não vá muito longe se não tiver toda uma carga de trabalho. E aqui lembro que "trabalho", para mim, não significa apenas o ato em si de escrever, reescrever, lapidar. Mas, bem antes disso, o ato de ler (muito e bem), pensar (muito e bem), ter curiosidade e coragem para aprender sobre "coisas" as quais, muitas vezes, não estão obrigatoriamente e diretamente ligadas à ação imediata de escrever; dialogar com os textos lidos dos grandes autores, os que encontraram suas próprias soluções artísticas, mas, obviamente, não para imitá-los apenas, e pode não conseguir escrever uma grande obra.
A nossa história literária, mesmo o nosso meio artístico contemporâneo, está cheia de exemplos: artistas, que, por um motivo ou outro, deixam de obter êxito em seu ofício. Já outros tantos escritores, mesmo não tendo essa "facilidade" toda do "bom talento de berço", conseguem, através de esforço, dedicação, enfim, do suor de seus corpos e mentes, desenvolver obras importantes, competentes, de mestres, até. 
Trocando em miúdos, acredito que ocorra na arte o que, muitas vezes, vemos acontecer no mundo do futebol. Vou tentar justificar comparação tão esdrúxula. Muitas vezes, acompanhamos aquele jogador visivelmente talentoso, de bom drible, boa habilidade, mas, que, no final da carreira, não consegue uma reputação de craque. Mil também são os motivos que o impedem ou dificultam seu êxito. Por outro lado, quantas e quantas vezes, acompanhamos aquele jogador de qualidades técnicas apenas medianas, mas que, com uma dedicação grande, uma concentração incrível, não consegue muitas vezes ombrear (vejam o caso de jogadores como Vavá, em 1958, Amarildo, em 1962, Dunga, em 2002, e diversos outros) em êxitos com os grandes mestres do gramado? O que não significa que preferimos o jogador esforçado ao craque, claro que o craque esforçado, preparado e num bom time, conseguirá chegar aos píncaros da glória. 
Entremeando estas categorias de craques desleixados, medianos esforçados e craques dedicados está a maioria dos nossos escritores contemporâneos: os sem (ou com poucas) habilidades que não se esforçam. Esses enchem o mundo de livros, escrevem com uma "facilidade" espantosa, exploram o "talento fácil" até a medula, se vangloriam de seus já quase 50 livros.
A maioria de nós (me incluo com unhas e dentes nesta categoria) é dos que levam jeito pra coisa, tem certa habilidade, mas sabe que se não ralar, se não ler muito, se não for curioso, se não dedicar-se com afinco ao ofício, sucumbirá sem ter alcançado sequer o primeiro degrau do êxito. Por sermos maioria, ficaremos a vida inteira lutando com revisões, remendos nos textos, leituras dos mestres, correndo que nem loucos atrás de editoras, que parecem (sempre) correrem bem mais que nós.
Outro assunto que às vezes me vem à cachola é o da originalidade. Sabemos, e acho que a maioria concorda, que pouquíssimos são os artistas realmente originais, que criam algo inteiramente novo. Aparece um ou dois em cada cem anos (pessoalmente acho que um pouco mais, levando-se em contas as diversas artes) e passam a ser imitados por séculos e séculos. São os Dante, Camões, Fernando Pessoa, Proust, Faulkner, James Joyce, Virginia Woolf, Kafka etc. da vida. Pois bem, depois vêm os imitadores, diluidores. Ou será que mesmo um diluidor, imitador, pode chegar a desenvolver melhor do que o criador aquele "tipo novo de arte"? Será que Clarice não foi (sem querer ofender, claro, os claricianistas de carteirinha) uma imitadora do irlandês Joyce? Um amigo diz que ela deve mais a Hermann Hesse. E daí se tiver sido, se ela tiver partido daquela inédita ideia de literatura e pensado, sonhado em cima e conseguido dar sua contribuição pessoal importante, que, mesmo sem ser totalmente inédita, será necessária e terá novos diluidores, que pululam por esse mundão afora. Mas será que o conhecimento humano, a arte em especial, não será uma grande diluição, imitação, continuação; novos pontos de vistas sobre os mesmíssimos caminhos? Quantos de nós, prosadores modernos, não devemos um tiquinho a Kafka, que deveu a Robert Walser, que deveu a... Quantos de vós, pobres contistas modernos, não devem um tantinho a Borges, que deveu a Marcel Schwob... Quantos não devem um neologismozinho que seja a Guimarães Rosa, que deveu a Joyce, que deveu a... Quantos romancistas não devem a Proust, que deveu a Montaigne, que deveu a... Quantos contistas cearenses não devem um tiquinho a Moreira Campos, que deveu a Tchekov, que deveu a... Acho que estaremos sempre tentando subir um degrau, pouquíssimos conseguirão ir além do modelo, do que inventou o "novo". Imagino que, no fundo do fundo, somos todos uns imitadores, uns diluidores. E ainda bem! Mas claro que todos devemos tentar ir além, dar uma contribuição pessoal em sua arte, tentar uma fresta nova na porta, um ângulo nunca antes utilizado, um efeito distorcido na frase, uma sonoridade sugestiva no verso, enfim: ousar encontrar uma voz própria. 
Também ando matutando sobre se nós, escritores, devemos mesmo ter um estilo próprio, inconfundivelmente pessoal, a ponto de que alguém que nos leia saiba logo de quem se trata. Algo assim como a nossa marca registrada. Alguns grandes autores adquiriram uma maneira de escrever que, de tão peculiar, se tornou inconfundível. Uma crônica de jornal de Clarice Lispector é facilmente reconhecida, mesmo que se omita o nome dela. Um poema de Fernando Pessoa (qual deles?, perguntaria alguém mais atento) poderia não ser tão óbvio. Franz Kafka é outro quase inconfundível em suas parábolas. O alemão W.G. Sebald e o italiano Claudio Magris, para quem conhece minimamente suas obras, também são inconfundíveis. Mas talvez a canadense Alice Munro e a escocesa Ali Smith não sejam tão facilmente descobertas. Dalton Trevisan desenvolveu um tipo de enredo que dificilmente não se descobre de quem é o conto. Rubem Fonseca, idem. José J. Veiga nem se fala... 
Mas penso: Cada livro, cada conto, cada poema não exigiria (seria melhor falar "não necessitaria de") uma maneira própria de ser escrito? Acho que "sim" e "não" também. "Sim" porque alguns escritores muitas vezes abusam das "fórmulas" descobertas, do êxito alcançado por determinadas livros seus, e criam assim como uma "fôrma" na qual cabe tudo: um conto alegre e um triste, um de suspense e um de aprofundamento psicológico. Vemos tais características em escritores de renome, mas muito mais em iniciantes, que na maioria das vezes não pensam, antes de escrever uma história, qual "voz" dará ao seu personagem (quando em primeira pessoa).
Ana Miranda certa vez afirmou que só começa um livro quando "descobre" a voz do personagem (que em terceira pessoa pode muito bem ser a do narrador). Certa vez a vi copiando um livro enorme de determinada época histórica somente para tentar adquirir a "voz", a cor, o cheiro, o ritmo, daquela época. Também responderia "não", porque acho importante que, mesmo encontrando uma maneira própria para cada caso literário, o escritor tenha uma característica sua marcante, mesmo que não tão óbvia e superficialmente visível, que permeie seus livros, um a um. Algo como, me falta palavras apropriadas agora, uma "alma subterrânea", que os seus leitores mais atentos, constantes e sensíveis, vão encontrar em qualquer um de seus escritos. Não seriam pontos de vistas contraditórios os meus? Como não sucumbir às armadilhas fáceis de um estilo próprio, de uma "fôrma" pronta a ser usada em situações distintas? E como adquirir essa voz subterrânea pessoal e não parecer que escreve sempre o mesmo livro, o mesmo conto, o mesmo poema? Perguntas difíceis de serem respondidas como uma fórmula. Cada autor deve tentar fazer uma obra singular, sim, pensada com esmero, paciência. Talvez tenha sido isso o que o escritor que afirmou que o talento não é nada mais do que uma longa paciência tenha querido afirmar nas entrelinhas. 
Para fechar essas minhas ingênuas divagações, digo que aprendi uma coisa muito importante com o mestre moderno do conto, o russo Tchekov, ao afirmar que a arte deveria estar mais preocupada em fazer as perguntas certas do que em encontrar respostas verdadeiras.



Mônica e Menino Maluquinho no Troféu HQMIX 2018



Os personagens “Mônica” e o “Menino Maluquinho”, criados respectivamente por Maurício de Sousa e Ziraldo, são temas do Troféu HQMIX 2018, escultura feita pelo artista plástico Olyntho Tahara e reproduzida por Michel Costa.
O Troféu HQMIX, maior prêmio do segmento dos quadrinhos da América Latina, criado em 1988 pelos cartunistas Jal e Gual, a cada ano, por meio da Associação dos Cartunistas do Brasil e do Instituto do Memorial de Artes Gráficas do Brasil, empresta um personagem do universo quadrinístico ao Troféu, homenageando, claro, o seu criador.
Conforme o blog oficial do Troféu HQMIX, que em 2018 atingiu a sua 30ª edição (sempre com a participação de Serginho Groissman como cerimonialista), já “foram 1.271 troféus HQMIX entregues aos vencedores por uma votação nacional entre os próprios autores, editores e pesquisadores na área dos quadrinhos”.
O Troféu tem a finalidade de premiar e divulgar a produção de histórias em quadrinhos, cartuns, charges e as artes gráficas como um todo no Brasil.
É natural que nesses 30 anos, a comenda venha se adaptando, inovando e renovando, inclusive reconhecendo trabalhos de cunho acadêmico e publicações digitais, ampliando o número de categorias contempladas e agregando maior valor ao Troféu e divulgando ainda mais os quadrinhos na sociedade: “são cerca de 20 milhões de leitores de quadrinhos ativos, considerando que quase toda a população do país já leu algum gibi na infância ou em algum momento na vida”, assegura o blog do Troféu: http://hqmix.com.br/blog/



segunda-feira, 10 de setembro de 2018

"Airton Monte: crônica derradeira", de Raymundo Netto para O POVO



Há 6 anos, no oitavo dia de um agosto mês, Airton Monte, cronista-mor deste periódico naquele tempo, assinaria a derradeira coluna de sua laboriosa e diuturna cruzada de 19 anos de publicação. Como essa indigesta e inacabável pausa não se tratasse de uma despedida anunciada e muito menos voluntária, a crônica “Domésticos Percalços” nem de longe poderia ser colocada entre as suas melhores peças literárias. Mesmo assim, podemos encontrar nela os elementos mais frequentes que serviriam de matéria-prima para o cronista: a casa (“simulacro do mundo lá fora”), a família (histórias de Sonia – a sua “amada” e “ministra da Fazenda” –, dos filhos Pablo e Bárbara – a nossa irreverente Babita –, e mesmo do cachorro – do qual não recordo o nome), a incapacidade de lidar com as coisas práticas do mundo (“sujeitos imprestáveis como eu, totalmente desprovidos de qualquer habilidade numa dessas mecânicas atividades, incapaz até de pendurar um quadro na parede sem derrubar a própria utilizando martelo e pregos”) e, claro, a sua rotina (nesse texto, um domingo à tarde, as coisas que quebram, a dificuldade de conseguir profissionais e a crítica a peregrinos do Caminho de São Thiago e a romeiros cearenses, a partir de um documentário que assistia). Também é inegável a dicção de Airton, aquela mesma, adornada de ironias, metáforas e deboche anárquico, a mesma que conquistava a audiência dos amigos e leitores com quem frequentemente dividia mesas de bar, esquinas, botequins (“Somente numa mesa de botequim é que se realiza a verdadeira, legítima democracia”), até mesmo o seu consultório do finado Hospital Mira Y Lopez, e, claro, o tão propalado clã do Solar dos Monte.
Aos 63 anos de idade, alguns meses antes, ele já se queixava: “Vaga tão sem graça o meu cotidiano, tão deserdado de mistérios, tão óbvia e repetitiva a minha vida que nem uma telelágrima das seis, das sete, das oito, das dez, das onze.” E filosofava: “não sei se é uma merda ou uma bênção haver vivido tanto”. Provavelmente, nessa hora, beijava o escapulário do “Chiquinho”, “beque central contra os maus olhados”, que trazia fielmente ao pescoço, colocava um disco na vitrola, acendia um cigarro e se punha a batucar amorosamente à máquina de escrever aquilo que antes rascunhou de punho. Na mesa de trabalho, um dicionário era posto aberto, mesmo quando optava pela “mesmice ramerrã”. Já ali, no legítimo palco dos escritores, o autor conversava com seus leitores. Refletia. Brincava. Sofria. Comemorava. Criticava. Enaltecia. Amava. Convidava um punhado de gente a parar um pouco e simplesmente olhar para cima: “Afora esses pequenos distúrbios, nada mais surge no céu do que os aviões de carreira, além das brancas nuvens polvilhando o azul solar da tarde acima de minha cabeça atarantada.”
Hoje, dia 10 de setembro, no momento em que você leitor(a) estiver lendo isto, completam-se exatos 6 anos de encantamento desse cronista suburbano e “pós-moderno” (por que passara a usar e-mails), frequentador assíduo do Flórida Bar (o “Hezbollah do Clube do Bode”), autor de diversas obras, como O Grande Pânico, Homem não Chora, Alba Sanguínea, Moça com Flor na Boca e Os Bailarinos. Então, continuo sem entender a passagem de pessoas assim. Muito menos entender como é que o mercado editorial, principalmente o local, ignora tal manancial literário. Aqui, do meu palco particular, ouço na voz de Airton Monte: “O meu medo do tempo não é o medo de morrer, não é o medo de envelhecer. O medo da palavra tempo é o de me tornar obsoleto em relação ao presente.” Obsoletos, amigo velho, são aqueles que não ouvem o seu apelo. Viva entre nós. 


terça-feira, 28 de agosto de 2018

Exposição Inédita "O Ordinário Rafael Sica", dia 30.8, às 19h, Caixa Cultural



A CAIXA Cultural Fortaleza apresenta, de 30 de agosto a 4 de novembro de 2018, a exposição O Ordinário Rafael Sica. Com mais de 150 obras, a mostra faz um panorama de 15 anos da trajetória do artista gaúcho, que é um dos principais nomes das histórias em quadrinhos da atualidade.
Rafael Sica é dono de um traço único que preza a riqueza de detalhes em uma narrativa silenciosa, mas extremamente contundente. Grande parte de sua obra é composta por quadrinhos sem textos, característica encarada por muitos críticos como um dos grandes diferenciais de seu trabalho. A ausência dos diálogos se mostra como uma abertura à interpretação do leitor: “Existe uma narrativa, mas é gráfica, visual. Exige que o leitor complete o trabalho. Fui tirando o texto das tiras, diminuindo o número de palavras, fui me dando conta de como isso potencializava as interpretações”, explica Sica.
A produção de Rafael Sica traz questionamentos sobre o modo de vida do indivíduo urbano. Suas tiras são minicontos que fogem do óbvio e da piada, e com um diferenciado tom surrealista, trazem críticas às neuroses das grandes cidades e à massificação das pessoas afogadas na rotina pós-moderna.
Para a abertura da exposição “O Ordinário Rafael Sica”, o quadrinista preparou uma publicação inédita, de tiragem limitada e distribuição gratuita ao público presente. Além disso, nos dias 31 de agosto, 1 e 2 de setembro, Rafael Sica produzirá um painel na galeria, onde os visitantes poderão acompanhar, ao vivo, o processo de criação do artista.
A curadoria é do artista e pesquisador cearense Weaver Lima, que reúne em sua carreira a curadoria de exposições na área dos quadrinhos como “Luiz Sá - 100 anos”, “Monstra Comix”, “HQ CE”, “Desenhomatic LTDA”, “Seres Urbanos - Fanzines 90’s”, entre outras. 

Sobre Rafael Sica
Nascido em 1979, em Pelotas (RS), Rafael Sica é reconhecido como um dos mais importantes autores de sua geração. Começou sua carreira na segunda metade dos anos 1990, publicando charges e tiras em jornais da sua cidade. No início dos anos 2000 passou a publicar no jornal Folha de S. Paulo e na internet lançando o blog “Ordinário”. A página foi criada com o objetivo de ser um portfólio virtual, mas acabou se transformando em um dos mais acessados sites de quadrinhos do país. Venceu por duas vezes o Prêmio HQ Mix nas categorias Novo Talento (2005) e Web Quadrinhos (2009). Em 2008, realizou “Cinza-Choque” sua primeira exposição individual no Museu do Trabalho, em Porto Alegre-RS. Tem livros publicados por diversas editoras do país: “Ordinário” (Companhia das Letras, 2011); “Tobogã” (Ed. Narval, 2013); “Novela” (BebelBooks, 2014); “FIM – Fácil e Ilustrado Manifesto” (Editora Beleléu, 2015); “Fachadas” (Editora Lote 42, 2017). Em 2017, foi convidado para participar do “Projeto Baiacu”, criado por Angeli e Laerte - uma residência artística na Casa do Sol, do Instituto Hilda Hilst, que resultou na revista “Baiacu” (Editoras Cachalote e Todavia, 2017). Sica também é um dos criadores da “Parada Gráfica”, evento anual que acontece em Porto Alegre-RS e reúne artistas da cena gráfica independente brasileira.


 Serviço:
Exposição: O Ordinário Rafael Sica
Local: CAIXA Cultural Fortaleza
Endereço: Av. Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema
Data: 30 de agosto a 04 de novembro de 2018 (abertura no dia 30 às 19h)
Horários: De terça a sábado, das 10h às 20h | domingo, das 12h às 19h
Classificação indicativa: 14 Anos


sábado, 25 de agosto de 2018

"Amor Sombrio" (parte I e II), na íntegra, de Raymundo Netto para O POVO



Você já vai embora? Assim?”
Estava insegura, mas tinha que abordá-lo antes que ele saísse por aquela porteira. Era noite e ela sabia: ele teria que caminhar muito até a estação. Sem entender o porquê da pergunta, o rapaz acomodou a mochila às costas: “Sim, claro. Você não sabia?”
Ofegante, ela mordia o lábio inferior, buscava as pontas dos dedos e das unhas e, depois de apertar os olhos, o fitou novamente, quase não conseguindo lhe falar: “Não está se esquecendo de nada?” Ele colocou as mãos nos bolsos da calça, da jaqueta, e sorriu: “Não, creio que não...” Então, trêmula, pegou a mão dele, passou em seu rosto, acolheu entre suas mãos em um abraço no peito e chorou: “E de mim? Você não está se esquecendo de mim?”
Taveira era jornalista. Designado a fazer uma matéria no interior, hospedou-se em uma fazendola de um casal de agricultores. Eles eram idosos e tinham como única filha e companhia uma moça de 18 anos, Laura, cuja maior parte da vida estava cerceada ali, como aquele terreno de seus pais.
Ele, por indicação e por ser útil à matéria encomendada, quedou-se naquele sítio. Durante 15 dias, seria Laura quem o atenderia em suas necessidades, fazendo-lhe ou lhe trazendo as refeições, preparando seu banho, lavando e passando-lhe a roupa, trazendo-lhe o gostoso café passado no pano, segundo a mãe, a sua especialidade. A moça, quase muda, por vezes o acompanhava quando precisava se dirigir a qualquer lugar naquela região. Na verdade, a sua presença silenciosa e esguia por pouco não era notada por Taveira, sempre concentrado e envolvido em sua escrita ao computador. Entretanto, quando ele precisava, logo a percebia à sua volta, fazendo qualquer coisa, fosse varrendo, arrumando a cama, bordando, lendo ou mesmo não fazendo nada. Estava sempre ali, orbitando, à sua disposição. Mesmo assim, ele nunca imaginaria que, por trás daquela dedicação, pudesse haver qualquer sentimento. Até que, naquele instante, diante dele, ela, entre soluços suplicantes, lhe confessaria, arrasada: “Eu te amo tanto!”
Impactado, ele, que só conhecia o amor de oitiva, paralisou. As nuvens escuras se abriram, revelando uma lua gigante a incendiar um clarão feito holofote no rosto dele, quando respondeu a ela: “Mas eu não amo você...”
Como lancetada pela dureza fria daquelas palavras, tomada de vergonha, ela deu meia-volta e, chorando, correu desabalada ao jardim da sua casa. Sem saber o que fazer, Taveira chamou por seu nome, uma ou duas vezes, quis acompanhá-la, mas achou por bem abrir a porteira e partir. Tinha que partir.
Na noite seguinte, em seu apartamento, ao deitar, uma surpresa: Laura lhe apareceu em sonho, nua e linda. Num absurdo, podia sentir o calor de seu corpo, de seu hálito, de seu beijo. “Eu te amo tanto!”, repetia ela, com olhar fixo ao seu, enquanto movia lenta e precisamente o seu corpo. Ele não conseguia entender, mas aquela moça, pela qual não sentia nada, o possuía completamente. Estranhava, porém, não querer acordar, e se entregava àquela volúpia a lhe tomar o espírito e a razão. Como fora possível não perceber tanta doçura, tanto encanto nela? E, a partir daquela noite, em todas, todas as demais, nunca mais conseguiu dormir sem ser completamente arrebatado por ela, a extrair dele todos os seus desejos mais secretos.
***
“Deixe-me, pelo amor de Deus. Me esqueça, mulher!”
Taveira mais uma vez despertava delirante, em suores, enlouquecido. Há mais de uma semana não dormia uma noite sequer, seduzido pela inquietante e noturna visita de Laura, em sonho, a proporcionar-lhe prazeres antes inconcebíveis. Porém, diante daquela sua dominação, vivia exausto, doído, sem conseguir concatenar qualquer ideia ou escrever qualquer coisa.
Cedo, diante do espelho, a revelar o seu péssimo estado, ainda podia ouvir, pela enésima vez, a voz de sua amante onírica a sussurrar “Eu te amo tanto!”
Arrastava-se sonolento à calçada naquela manhã, quando cruzou com uma mendiga de medonha aparência a esmolar sentada e encostada à parede. Ela o pegou pelo tornozelo e apontando para o chão, anunciou: “Hômi, cê tem mermo duas sombras?”
Taveira, no susto, não conseguiu acreditar: estavam ali, sim, impressas na calçada, as ditas sombras apontadas pela mulher. Saltou para trás, tentou chutá-las, sair de cima delas, mas era impossível se libertar daquilo. A mulher ria: “Cê negou um amô debaixo de luar, pisando na sombra dela, num foi?” Meneou a cabeça como coisa sem jeito: “Nunca mais que ela vai se esquecer docê...”
Ainda admirado com o fenômeno e, de assalto relacionando-o com a suas noites cativas, em desespero, pôs-se a sacudir a velha: “E o que é que eu faço, minha senhora? O que eu devo fazer para me livrar dessa, dessa... maldição?”
A mulher o rejeitou furiosa. Como se enojada, olhou-o de cima abaixo: “Ela deve de tá morrendo, num sabe? Uma pessoa sem sombra num é nem mais gente. Oxe, devolve pra ela o que cê roubou!” “Mas devolver o quê? A sombra?”, insistia ele: “Eu tenho que devolver a sombra dela?”
A velha acocorou-se novamente sobre os tornozelos magros, colocou as mãos em pala na testa e murmurou com estranho desânimo: “O seu coração!”
Naquilo, Taveira sentiu o golpe no peito. Durante os próximos dias, temia e evitava caminhar sob o sol. No escuro do quarto, chorava ao vê-la novamente entrar pela janela, deitar sobre ele, roçar o rosto ao seu, abraçando-o, a revelar sempre como em uma primeira vez: “Eu te amo tanto!”
Não suportando mais a angústia, mesmo sem saber o que iria fazer, se pedir perdão ou ameaçá-la, ainda cedo partiu para o sítio onde a conhecera. Desceu na rodoviária e caminhou algumas léguas de terra batida, aterrorizado, assistindo àquelas sombras projetadas a caminhar lado a lado, se encontrando a cada passo.
Chegando, abriu a porteira e bateu palmas. Não sendo recebido por ninguém, entrou na casa. O pai de Laura estava na sala, sentado em sua poltrona, alheio. Mesmo sendo chamado, não emitiu um som, nem único movimento. A sua esposa, com olhar quebrado, surgiu à porta da cozinha: “Ele não fala, não vê, não faz mais nada desde que a nossa menina se foi. Você não imagina como é duro para os pais ter que enterrar a própria filha.”
Na sequência, sentada ao lado do marido, contou da moléstia repentina que a tomou trágica e fatalmente em poucos dias. “O doutor nunca vira aquilo. E tão moça...” Nisso, Taveira, mudo, se dirigiu à cozinha, passou um café no pano, com estranha habilidade de costume, trouxe ao casal, e os amparou até o resto de seus dias.
Às noites de luar, poderia ser visto, à varanda, bordando qualquer coisa e admirando as teias de aranhas que cresciam e encobriam completamente toda aquela casa.




quinta-feira, 16 de agosto de 2018

III Feira do Cordel Brasileiro - 16 a 19 agosto - Programação Completa

Clique na imagem para ampliar!


De 16 a 19 de agosto, das 14 às 21h (no domingo, das 14 às 19h), acontecerá em Fortaleza, na Caixa Cultural, a III Feira do Cordel Brasileiro. A ação, cuja curadoria é de Klévisson Viana, reunirá cordelistas, pesquisadores, compositores, xilogravadores, declamadores, folheteiros, entre outros, em exposições, apresentações e oficinas.
A ação já faz parte do calendário cultural cearense, um encontro ímpar, reunindo o melhor do Cordel brasileiro.
Contato (e-mail): aestrofe@gmail.com
Telefone: (85) 3023-3064

Confira a Programação Completa
16 de agosto (quinta-feira)
Teatro
14h – Solenidade de abertura com a presença dos mestres do cordel e da cantoria | Apresentação “A Saga de um vaqueiro” – Escola José Antão de Alencar Neto (Pio IX/PI)
15h – Mesa “Literatura Popular, na escola, tem lugar” com o pesquisador Arievaldo Viana (Caucaia/CE) e os professores Stélio Torquato (Fortaleza/CE) e Paiva Neves (Fortaleza/CE) – Mediação: Professor Carlos Dantas(Fortaleza/CE)
Café Luiz Gonzaga
17h – Lançamento do livro “No tempo que os bichos estudavam” de Paulo de Tarso, o poeta de Tauá (Fortaleza/CE)
Palco Leandro Gomes de Barros
17h30 – Recital com Raul Poeta (Juazeiro do Norte/CE), Rafael Brito(Fortaleza/CE) e Pedro Paulo Paulino (Canindé/CE)
18h10 – Show interativo de voz e violão “Cante lá que eu toco cá” com o Mestre Gereba Barreto (Salvador/BA)
19h10 – Cantoria com o Mestre Geraldo Amâncio Pereira (Fortaleza/CE) e Guilherme Nobre (Fortaleza/CE).
20h – Recital com o mestre Chico Pedrosa (Olinda/PE)
20h30 – Show com o rabequeiro e cordelista Beto Brito e Banda (João Pessoa /PB)
17 de agosto (sexta-feira)
Sala de Ensaio
14h – Oficina de xilogravura com os mestres João Pedro de Juazeiro (Fortaleza/CE) e Francorli (Juazeiro do Norte/CE)
Teatro
15h – Aula-espetáculo “Imagens da Ficção Científica no Cordel” com o escritor, compositor e estudioso Bráulio Tavares (Rio de Janeiro/RJ)
Café Luiz Gonzaga
16h20 – Lançamento dos livros “Rapunzel em Cordel” e “A onça com o bode”, de Sérgio Magalhães e Kátia Castelo Branco (CE)
Palco Leandro Gomes de Barros
17h – Recital com os poetas Evaristo Geraldo da Silva (Alto Santo/CE), Julie Oliveira (Fortaleza/CE), Lucarocas (Fortaleza/CE), Antônio Marcos Bandeira (Fortaleza/CE) e Ivonete Morais (Fortaleza/CE)
Café Luiz Gonzaga
18h – Lançamento do livro em cordel “Andei por Aí: Narrativas de uma Médica em Busca da Medicina (2ª edição – revista e ampliada)”, de Paola Torres (Fortaleza/CE)
Palco Leandro Gomes de Barros
18h20 – Apresentação musical de Paola Torres (Fortaleza/CE)
19h – Recital com o mestre Chico Pedrosa (Olinda/PE) e Rafael Brito (Fortaleza/CE), com participação especial do cordelista Beto Brito (João Pessoa/PB)
Café Luiz Gonzaga
20h – Lançamento do livro “Orixás em Cordel”, do mestre Bule-Bule (Camaçari/BA) e de Klévisson Viana (Fortaleza/CE)
20h20 – “Chulas, Sambas e Licutixos” com o mestre Bule-Bule (Camaçari/BA)
18 de agosto (sábado)
Sala de Ensaio
14h – Oficina de cordel com Rouxinol do Rinaré (Fortaleza/CE)
Teatro
15h – Mesa “Cordel – Memória e Contemporaneidade” com a pesquisadora do IPHAN Rosilene Melo (São Paulo/SP), o cineasta Rosemberg Cariry (Fortaleza/CE) e o advogado, documentarista e cordelista Valdecy Alves (Senador Pompeu/CE). Mediação: Cordelista Eduardo Macedo (Fortaleza/CE)
Café Luiz Gonzaga
17h – Lançamento do livro “No Tempo da Lamparina”, de Arievaldo Viana (Caucaia/CE), com participação especial de Gereba Barreto (Salvador/BA)
Palco Leandro Gomes de Barros
17h40 – Recital com o garotinho Moisés Marinho (Mossoró – RN)
18h – Show e lançamento do CD “Marcus Lucenna, na Corte do Rei Luiz”, com Marcus Lucenna (Rio de Janeiro/RJ) – Participação especial de Tarcísio Sardinha (Fortaleza/CE) e Adelson Viana (Fortaleza/CE)
Café Luiz Gonzaga
19h – Lançamento do livro “Poesia em gotas diárias”, de autoria de Padre Tula (Edições Karuá)
Palco Leandro Gomes de Barros
19h30 – Declamação com o mestre Chico Pedrosa (Olinda/PE)
20h – Cantoria com Zé Maria de Fortaleza e Tião Simpatia.
20h40 – Apresentação com os mestres Bule-Bule e Gereba Barreto
19 de agosto (Domingo)
Teatro
14h – Mesa “Cordel Brasil-Portugal: o fio que nos conecta” com os pesquisadores Marco Haurélio (São Paulo/SP) e Antônio de Abreu Freire (Portugal). Mediação: Oswald Barroso (Fortaleza/CE)
Café Luiz Gonzaga
16h – Lançamento dos cordéis “As histórias das plantas” e  “Padagogia do oprimido” de Francisco Paiva Neves (Fortaleza/CE) e do “Amor no tempo de chumbo” por Nando Poeta (Natal/RN)
Palco Leandro Gomes de Barros
16h30 – Recital da despedida com Raul Poeta, Evaristo Geraldo da Silva, Leila Freitas, Arievaldo Viana, Bule-Bule, Lucarocas e Chico Pedrosa
17h30 – Canções de viola com o mestre Zé Viola (Teresina/ PI)
Pátio externo
18h30 – Coco do Iguape (Iguape/CE)

domingo, 12 de agosto de 2018

"Amor Sombrio" (parte I), de Raymundo Netto para O POVO




Você já vai embora? Assim?”
Estava insegura, mas tinha que abordá-lo antes que ele saísse por aquela porteira. Era noite e ela sabia: ele teria que caminhar muito até a estação. Sem entender o porquê da pergunta, o rapaz acomodou a mochila às costas: “Sim, claro. Você não sabia?”
Ofegante, ela mordia o lábio inferior, buscava as pontas dos dedos e das unhas e, depois de apertar os olhos, o fitou novamente, quase não conseguindo lhe falar: “Não está se esquecendo de nada?” Ele colocou as mãos nos bolsos da calça, da jaqueta, e sorriu: “Não, creio que não...” Então, trêmula, pegou a mão dele, passou em seu rosto, acolheu entre suas mãos em um abraço no peito e chorou: “E de mim? Você não está se esquecendo de mim?”
Taveira era jornalista. Designado a fazer uma matéria no interior, hospedou-se em uma fazendola de um casal de agricultores. Eles eram idosos e tinham como única filha e companhia uma moça de 18 anos, Laura, cuja maior parte da vida estava cerceada ali, como aquele terreno de seus pais.
Ele, por indicação e por ser útil à matéria encomendada, quedou-se naquele sítio. Durante 15 dias, seria Laura quem o atenderia em suas necessidades, fazendo-lhe ou lhe trazendo as refeições, preparando seu banho, lavando e passando-lhe a roupa, trazendo-lhe o gostoso café passado no pano, segundo a mãe, a sua especialidade. A moça, quase muda, por vezes, o acompanhava quando precisava se dirigir a qualquer lugar naquela região. Na verdade, a sua presença silenciosa e esguia por pouco não era notada por Taveira, sempre concentrado e envolvido em sua escrita ao computador. Entretanto, quando ele precisava, logo a percebia à sua volta, fazendo qualquer coisa, fosse varrendo, fazendo a cama, bordando, lendo ou mesmo não fazendo nada. Estava sempre ali, orbitando, à disposição dele. Mesmo assim, ele nunca imaginaria que, por trás daquela dedicação, pudesse haver qualquer sentimento. Até que, naquele instante, diante dele, ela, entre soluços suplicantes, lhe confessaria, arrasada: “Eu te amo tanto!” Impactado, ele, que só conhecia o amor de oitiva, paralisou. As nuvens escuras se abriram, revelando uma lua gigante a incendiar um clarão feito holofote no rosto dele, quando respondeu a ela: “Mas eu não amo você...”
Como lancetada pela dureza fria daquelas palavras, tomada de vergonha, ela deu meia-volta e, chorando, correu desabalada ao jardim da sua casa. Sem saber o que fazer, ele chamou por seu nome, uma ou duas vezes, quis acompanhá-la, mas achou por bem abrir a porteira e partir. Tinha que partir.
Na noite seguinte, em seu apartamento, ao deitar, uma surpresa: Laura lhe apareceu em sonho, nua e linda. Num absurdo, podia sentir o calor de seu corpo, de seu hálito, de seu beijo. “Eu te amo tanto!”, repetia ela, com olhar fixo ao seu, enquanto movia lenta e precisamente o seu corpo. Ele não conseguia entender, mas aquela moça, pela qual não sentia nada, o possuía completamente. Estranhava, porém, não querer acordar, e se entregava àquela volúpia a lhe tomar o espírito e a razão. Como fora possível não perceber tanta doçura, tanto encanto nela? E, a partir daquela noite, em todas, todas as demais, nunca mais conseguiu dormir sem ser completamente arrebatado por ela, a extrair dele todos os seus desejos mais secretos.

(CONTINUA EM 15 DIAS)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

"Teatro B. de Paiva", em 3 atos, por Ricardo Guilherme



TEATRO B
Teatro B. de Paiva. Era este o título de um artigo meu, publicado pelo jornal O POVO, em 23 de janeiro de 2011. Reivindicava essa denominação para o Teatro situado entre as duas salas de cinema do Centro Cultural Dragão do Mar, espaço que, aliás, ainda em 2018 continua sem um nome específico.
Porém, agora, com a instalação do projeto Porto Dragão nas dependências do antigo Sesc Iracema (Rua Boris) a figura de B . de Paiva é lembrada para denominar a sala de espetáculos que Dane de Jade e eu implantamos em 3 de outubro de 2005, com material cênico oriundo do Teatro Radical que encerrara atividades em 2000. Nesta data encenei ali o solo “A Divina Comédia de Dante e Moacir” e no dia seguinte iniciei sob o patrocínio do Sesc um projeto de orientação de dramaturgia e encenação denominado Interlocução Teatral
A homenagem ao teatrólogo cearense B. de Paiva procede. E recomendável seria que o Governo do Estado pudesse comprar o prédio, pois a sua ocupação via aluguel não garante de todo a sobrevivência da iniciativa.
B. DE PAIVA
B. de Paiva (de 1932) é de Fortaleza. Em Teatro, sua trajetória começa nos anos 1940, como ponto, soprando as falas dos atores no Conjunto Sacro-Dramático do velho Rufino Gomes de Matos. Era, então, àquela época, apenas o Zé Maria da dona Mazé do Seu Paivinha. A denominação B. de Paiva surgiria na década 1950, sob a inspiração de Cecil B. de Mille. Antes, José Maria Bezerra Paiva, aquele Zé franzino, da perna torta, uma espécie de Mané Garrincha do teatro, vivia mambembeando pelos círculos operários, como um aprendiz de Dionisos.
Gerado na escuridão dos porões da ribalta e parido pelo ventre iluminado à meia luz do buraco do ponto, esse dramaturgo, ator, diretor teatral esteve de 1954 a 1959 trabalhando com Paschoal Carlos Magno no Rio de Janeiro, e, em 1960, voltou à sua pátria-cidade para criar o Curso de Arte Dramática da UFC. Aqui, dirigindo o Teatro Universitário e a Comédia Cearense, liderou não apenas o movimento das artes cênicas do Ceará (até 1967), mas também o processo pela criação em Fortaleza da primeira Secretaria da Cultura do Brasil. Depois, outra vez radicado no Rio, fez-se diretor do Conservatório Nacional de Teatro e, posteriormente (1974-1977), reitor da FEFIERJ (berço da UNI-Rio), quando então tornou-se um dos precursores da implantação do ensino universitário de Teatro.
No início dos anos 1980, e por toda a década seguinte, o nosso B. passou a viver em Brasília onde dirigiu a Fundação Brasileira de Teatro, implantada por Dulcina de Moraes.
B. de Paiva protagonizou, no início do século XXI, ações culturais da Universidade Federal do Ceará e também dirigiu, por certo tempo, o Colégio de Direção do Instituto Dragão do Mar de Arte e Cultura que agora o homenageia.
ACERVO
Atualmente B. De Paiva reside em Fortaleza. Seu acervo (livros, fotos, filmes, vídeos, documentos, cartazes, programas etc.) continua, no entanto, encaixotado no Distrito Federal. Deveria ser assumido pelo Estado, via Secretaria da Cultura. Poderia até estar exatamente no mesmo centro cultural que agora sedia o Teatro B.de Paiva.

Ricardo Guilherme
ator, dramaturgo, contista e pesquisador da memória do teatro


segunda-feira, 30 de julho de 2018

"A Dupla", conto de Raymundo Netto para O POVO




Não tendo outro jeito, separou-se.
No começo, sempre difícil, buscava a companhia solitária e ilusória das multidões. Com o tempo, aquietou-se, arranjou um apartamentinho, organizou-o com suas coisas, acomodou e acostumou-se. Melhor: passou a curtir o silêncio e a sua solidão, esta sim, para ele, libertária.
Numa ironia terrível, bem própria da incoerente existência humana, na qual afirmamos amar a vida, todavia nos deitamos com a morte, enquanto gostava daquela situação, sentia precisar de mais alguém. Apesar disso, ciente de ser um incompreendido e da sua indisposição em acordar qualquer coisa que lhe restringisse o mínimo de espaço – tinha asmas emocionais –, decidiu viver a dois consigo mesmo.
Então, nos restaurantes, bares e cafeterias, passou a pedir tudo em dobro. Dois cafés, dois pães, dois pratos, dois pares de talheres... e até a divertir-se em jogos de tabuleiro, de cartas e palavras cruzadas. Dava gosto vê-lo alegremente falando alto, conversando, lendo livros regados a chás, discutindo o cardápio e planejando viagens juntos. Fazia longas caminhadas no parque pela manhã. Um cuidava da saúde do outro, sempre achando que esse outro, por ser da mesma idade, deveria estar tão bem quanto.
A princípio, os vizinhos e moradores do bairro estranhavam, mas, com a rotina, já os reconheciam como gêmeos, percebendo-lhes nos modos, na fala e até no olhar, naquele instante, quem era quem.
Sabemos, entretanto, que a vida comum é um exercício. Com o tempo, a falta de privacidade e o excesso de intimidade podem pôr abaixo a mais sólida relação. Ele começou a desanimar. Irritava-se com frequência. Diante das discussões, jogavam na cara um do outro os seus mais inconfessáveis e inegáveis defeitos e contradições. Assim, aquela convivência se tornou intolerável. E, um dia, como é comum acontecer nesses momentos, estavam no café, quando surge à luz da manhã uma moça belíssima. Não demorou para que eles chamassem a sua atenção. Ela, curiosa e atrevida, aproximou-se, pediu licença e sentou-se à mesa.
Desacostumados com outro contato que não entre eles próprios, apresentaram-se, atrapalhados, a lhe perguntar coisas, as mais banais e supérfluas. A moça sorria: “Calma, rapazes, um de cada vez...”. Ao sair, colheu os números de seus celulares.
Sim, eles estavam completamente apaixonados. Mas tinha que ser pela mesma mulher? Agora, o que estava ruim ficou ainda pior: evitavam-se, faziam refeições em separado, brigavam para usar o banheiro, trancavam-se em seus quartos à espera daquela ligação. E ela ligava. Incompreensivelmente, para um e logo depois para o outro.
Um dia, ao acordar, ele sentiu um estranho vazio. Correu à sala e encontrou um bilhete. O outro fugira de casa para viver ao lado dela, o seu grande amor. Fizesse o que quisesse com suas coisas. Não queria saber de mais nada. Por fim, desculpasse. Se possível, enviaria notícias.
Aquilo foi demais. Ele, abandonado e irremediavelmente sozinho, não resistiu e se matou, não suportando a inigualável dor daquela dupla traição.