sábado, 24 de fevereiro de 2018

V Seminário da Rede de Leitura Jangada Literária (27 e 28 de fevereiro)



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O V Seminário da Rede de Leitura Jangada Literária será realizado nos dias 27 e 28 de fevereiro de 2018, na cidade de Fortaleza/CE, no Auditório Valnir Chagas da FACED- Faculdade de Educação/UFC.
Terá como tema principal Bibliotecas Comunitárias em Conexão pela Leitura como um Direito Humano, que promoverá um diálogo entre o poder público, a sociedade civil e os seus diversos atores das cadeias criativa, produtiva e mediadora do livro. Serão discutidos temas que buscam conscientizar sobre a importância da leitura como um direito humano e a necessidade de políticas públicas que promovam a democratização do acesso ao livro e à leitura, tendo como foco a construção e aprovação do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (PMLLLB) e as Bibliotecas Comunitárias como símbolo de resistência.
Inscrições
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PROGRAMAÇÃO
27/02/2018 - Terça-feira - Manhã
08:00 - Credenciamento/Café
09:00 - Abertura
09:10 - Conferência com Cida Fernandez (CCLF/Olinda-PE) 
09:50 - Intervenção Poética
10:00 - Mesa 1
Biblioteca comunitária como símbolo de resistência
Objetivo da mesa: Promover a troca de experiências entre as bibliotecas comunitárias
·         Carlos Honorato — RNBC/Conexão Leitura - RJ
·         Viviane Siade — Casa Camboa de Sabiaguaba
·         Argentina Castro — Papoco de Ideias
·         Emiliana Nunes — JangadaLiterária
·         Sâmia Ellen — Mediadora/Jangada Literária
11:40 - Plenária
12:00 - Encerramento
27/02/2018 - Terça-feira - Tarde
13:30 - Credenciamento
13:45 - Apresentação Cultural com Cantando e Contando (Jangada Literária)
14:00 - Mesa 2. O PELLLB e o PMLLLB na garantia da sustentabilidade das bibliotecas comunitárias
Objetivo da mesa: A construção e efetivação do PMLLLB de Fortaleza
·         Jaqueline Gomes — MINC
·         Ana Paula Carneiro — RNBC
·         Fabiano dos Santos — Secretário de Cultura - CE
·         Evaldo Lima — Secretário de Cultura - Fortaleza
·         Alilian Gradela — Jangada Literária
·         Cida Fernandez — Mediadora/CCLF/Olinda-PE
15:30 - Plenária
16:20 - Bate-papo com o escritor com Raymundo Netto, mediação de Lílian Martins
17:30 - Encerramento/Coffee Break
28/02/2018 - Quarta-feira - Manhã
08:30 - Credenciamento/Café/Visita guiada às Bibliotecas Comunitárias da Rede de Leitura Jangada Literária
·         1ª visita: Biblioteca Comunitária Jardim Literário
·         2ª visita: Biblioteca Comunitária Prof. Leônidas Magalhães
11:30 - Encerramento das visitas.
28/02/2018 - Quarta-feira - Tarde
13:30 - Credenciamento para oficinas
14:00 - Oficinas
·         Oficina 1 -  Conectando bibliotecas e unindo leitores (sala da FACED/ UFC) 
·         Facilitadora: Sâmia Ellen (Jangada Literária)
·         Oficina 2 - Mediação de Leitura e formação do leitor (Auditório Valnir Chagas FACED/UFC)
·         Facilitadora: Érica Verçosa (Ekó Educação e Cultura)
·         Oficina 3 – Tira- dúvidas Mapa Cultural  (UTD prédio do Cine São Luiz 9º andar)
·         Facilitador: André Lopez (Secretaria de Cultura - CE)
Oficina 4 – Narrando Histórias: A Mitologias dos Orixás (Praça do Chão/ UFC) 
·         Facilitador: Ana Paula Carneiro (RNBC)
17:00 – Apresentação Cultural de encerramento “Bordador de Histórias” com Rafael Brito
17:40 – Encerramento/Coffee Break

domingo, 18 de fevereiro de 2018

V FEIRA DO LIVRO E V JORNADA DAS LETRAS DE LIMOEIRO DO NORTE (22,23 e 24 de fevereiro)


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Lançamento de livros, oficinas, palestras, rodas de conversa com autores, recitais e apresentações musicais, acesso a estandes de exposição e venda de livros, apresentações de teatro, música e homenagens a Belchior, ao centenário do poeta Hercílio Pinheiro (1918-2018) e ao poeta Louro Branco.
Essa é a proposta da V Feira do Livro de Limoeiro do Norte e da Jornada das Letras de Limoeiro do Norte, uma realização do Instituto Brasil de Dentro, em parceria com a Academia Limoeirense de Letras, Enel e Secretaria da Cultura do Estado do Ceará.
Parte da programação acontecerá na Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos (FAFIDAM), campus da Universidade Estadual do Ceará (Uece) em Limoeiro. Com o tema Literatura: Múltiplos Olhares, a roda de conversa vai reunir os professores Fernanda Cardoso, Francisco Romário Nunes e Sarah Maria Forte Diogo.
Uma das principais homenagens programadas para a edição de 2018 é a do centenário do repentista norte-rio-grandense Hercílio Pinheiro (1918 - 1958), considerado, até hoje, uma das maiores expressões da arte popular nordestina.
Também homenageado o repentista, poeta e compositor Francisco Maia de Queiroz, o Louro Branco, natural de Jaguaribe, que faleceu em 18 de janeiro deste ano em curso, aos 75 anos.
Entre os títulos que serão lançados: Aventura Jaguaribana, num ano de Estio, de Agamenon VianaSimplesmente Tião, de Avanir Fernandes MaiaA tragédia dos mil dias: a seca de 1877-79 no Ceará, de Cicinato Ferreira NetoPara Belchior Com Amor, organizado por Ricardo KelmerAs cidades de Rubem Braga e W. Benjamin, de Ana Karla Dubiela; e Livro Zero, de Denis Akel.
 E, como parte da programação musical, apresentações de Agamenon Viana, Banda Aécio de Castro (alunos do colégio Diocesano), Maracatu Nação Jaguaribe, Banda Big Head, Deilson Rabelo, Celinha Guará e Gildomar Marinho (os três últimos, além de apresentarem o cancioneiro autoral e sucessos da MPB, prestarão homenagens ao cantor e compositor cearense Belchior).

SERVIÇO
V FEIRA DO LIVRO E V JORNADA DAS LETRAS DE
LIMOEIRO DO NORTE
Data: 22, 23 e 24 de fevereiro de 2018
Local: Praça da Igreja Matriz (José Osterne) de Limoeiro do Norte/CE
Horários: De 9h as 11h e de 17h as 23h.
Informações: (88) 99661-0512

PROGRAMAÇÃO COMPLETA (GRATUITA)

22.02 (Quinta-feira) 
FAFIDAM – Sala Multimídia
19h – Jornada das Letras – Roda de Conversa, tema: Literatura: Múltiplos Olhares; Participantes: Profa. Me. Fernanda Cardoso Nunes (UECE-FAFIDAM); Prof. Me. Francisco Romário Nunes (UECE-FAFIDAM) e Profa. Dra. Sarah Maria Forte Diogo (UECE-FAFIDAM)
Tenda das Artes
17h – Praça livre, início exposição e venda;
18h – Professores da Escola Reinações – Brincanças, Dinâmica na Praça, Contação de Histórias, Cantinho da Matemática, Testes Piagetianos;
19h – Apresentação do Boizinho da Faceira, crianças do bairro Luiz Alves e comunidade Faceira;
20h – Abertura Oficial da Feira - Realizadores, apoiadores e convidados;
20h – Autores no Tablado, lançamentos: Avanir Fernandes Maia, Simplesmente Tião;  Agamenon Viana, Aventura Jaguaribana, num Ano de Estio; Francinilto Almeida, autografa Geografia do Amor em Transe e outros títulos de sua autoria. Sessão de Autógrafos na Sala dos Autores;
21h – Cordel e Cantoria – Paiva Neves, lança O Mundo Perdido, adaptado da obra de Arthur Conan Doyle para Cordel; Homenagens, Centenário do poeta Hercílio Pinheiro e ao Poeta Louro Branco; cordelistas Paiva Neves, Rafael Brito, participação do cantador Zé Cardoso;
22h – Música na Praça, apresentação de Agamenon Viana.

23.2 (Sexta-feira)
Tenda das Artes/ Manhã
08h – Contação de História - Historias só fazem sentido quando nos faz Sentir, com a Professora Luci Oliveira e alunos  da escola Pe. José Anchieta, comunidade Cercado do Meio, Quixeré (CE);
09h  – Oficina de arte, pintura, com Luci Oliveira;

Tenda das Artes/ Noite
17h – Praça livre, início exposição e venda
19h – Banda Aécio de Castro, alunos Colégio Diocesano, regência Bergson de Castro;
19h30 – Grupo de Teatro A Vida é Uma Peça, alunos do Colégio Diocesano, com a peça O Pequeno Príncipe;
20h – Escritores no Tablado/ lançamentos: Cicinato Ferreira Neto, A tragédia dos Mil Dias: a Seca de 1877-79 no CearáAna Karla Dubiela, As cidades de Rubem Braga e W. BenjaminDenis Akel, Livro Zero, prosa, poesia, ilustração livre. Sessão de Autógrafos na Sala dos Autores;
20h30 – Apresentação do Maracatu Nação Jaguaribe, da comunidade Arraial, Limoeiro do Norte CE.
21h – Cordel no tablado – Adriano Deodato, Quixeré CE; Sessão de Autógrafos na Sala dos Autores;
22h – Música na Praça - Show Banda Big Head, cancioneiro popular brasileiro, participação Gilson Saraiva.

23.2 (Sábado)
Tenda das Artes/Manhã
08h30 –  Oficinas de artes e brincanças;

Tenda das Artes/Noite
17h – Praça livre, início exposição e venda
19h30 – Atores e Brincantes na Praça
20h – Grupo Turma da Alegria, com o musical O Mundo Encantado da Leitura, por Missielma e Nivia;
20h30 – Escritores no Tablado, lançamentos: Bruno Paulino, Pequenos AssombrosCarlos Vazconcelos, Os Dias RoubadosRicardo Kelmer, Para Belchior Com Amor. Sessão de Autógrafos na Sala dos Autores;
21h – Grupo Cena’s de Teatro, com Leituras e Loucuras, de Tércia Montenegro;
21h30 – Cordel no Tablado – Com Rafael Brito e Paiva Neves;
22h – Música na Praça - Show Deilson RabeloCelinha Guará e Gildomar Marinho, com canções autorais, Música Popular Brasileira e homenagens a Belchior.


sábado, 10 de fevereiro de 2018

"Em Louvor a Jáder de Carvalho", por Bruno Paulino

Jáder de Carvalho, por Audifax Rios, para O Canto Novo da Raça

O escritor, poeta, político e jornalista Jáder de Carvalho é um dos maiores nome da história da literatura cearense, seu poema “Terra Bárbara”, indispensavelmente evocado quando se pensa e discute a identidade do povo do Ceará é a síntese de um sertão que não existe mais, e que, no entanto permanece vivo em muitas marcas e símbolos.
Jáder de Carvalho era quixadaense, nasceu na Serra do Estevão em 1901, e mudou-se para Fortaleza em 1915, no ano da grande seca que inspirou o romance de Rachel de Queiroz. Jornalista combativo, fundou o jornal A Esquerda, depois foi preso por 364 dias durante o Estado Novo (1943) implantado por Getúlio Vargas. Logo que conseguiu liberdade fundou o jornal Diário do Povo (1947). Esse período é estudado pelo historiador João Alfredo Montenegro no livro Jáder de Carvalho e o Diário do Povo (2011).
Hoje em dia muitos dos livros que publicou precisam ser reeditados. Dos seus romances apenas Aldeota consegue ser encontrado com certa facilidade em sebos e livrarias. De vasta produção poética, é apontado como um dos precursores do modernismo nas letras cearenses, com a publicação em 1927 do livro Canto Novo da Raça, em parceria com Franklin Nascimento, Sidney Netto e Mozart Firmeza. Porém o poema que mais gosto de Jáder de Carvalho, e que parece ser também um dos que o próprio poeta mais gostava, é de outra safra, e trata-se de “Em Louvor de Quixeramobim”, na qual a voz daquele que confessadamente foi “um menino lírico” consegue misturar seus sentimentos e impressões ainda vivos da infância com personagens e passagens da história da cidade:

“Não quero gravata. Não me tragam o relógio de pulso. Quero o gibão, quero as perneiras. Quero o chapéu de couro. Quem vai a Quixeramobim não é o professor, o bacharel, o jornalista Jáder de Carvalho.
Quem vai é o neto de vaqueiro, o menino que não esqueceu o pátio das fazendas.
Quem vai é o rapaz que, longe do mato, longe do Banabuiú, punha o ouvido na areia da capital e ouvia (ah, como ele ouvia!) o tropel de certo poldro ‘Andorinha’.
O mugido da vaca ‘Esperança’.
Quixeramobim, fala do coronel Jucá!
Fala de Antônio Conselheiro!
Conta-me a história do infeliz Luciano e da famosa Joana Batista Barreira! (Aqui no ouvido, Quixeramobim: Estavas no juízo, quando no papel, destronasse o imperador Pedro I e, de uma pernada só, derrubaste a dinastia de bragantina e proclamasse a república em 24)
Olha, no chão, que os teus gados pisam com ternura andou o pé revolucionário do meu bisavô João Aires de Olival.
Rapazinho, vindo do sertão para o Liceu, não vi nada de novo nos teus rios, nas tuas serras, nos teus campos. Tudo era conhecido velho. Até a cruz, gravada na pedra, perto do trem, me pareceu familiar. Eu não vira a todos, com antecipação de quase um século, pelos olhos de João? Às vezes, pego a pena e me sinto o padre Mororó, Às vezes, de pálpebras fechadas, sou um vaqueiro de Muxuré. Às vezes, ardo em rancor: limpo então o bacamarte, selo o cavalo, sou um Maciel a quem tomaram a terra. Um Maciel a quem mataram um parente. Ah, Quixeramobim, eu adivinho poesia, Até na vida dos teus ladrões de gado! Até na vida dos teus escravos! Até no adultério das senhoras das casas grandes! Até na sentença de morte dos teus primeiros jurados! Até nos despachos – ásperos e rápidos despachos – do juiz leigo, meu parente capitão Antonio Duarte de Queirós! Até na tosse dos tísicos que te procuram!
Chegou a hora, outra vez chegou a hora de pôr o ouvido no chão da capital: lá vem o tropel do podtro ‘Andorinha!’. Lá vem os aboios dos vaqueiros do Muxuré e do Logradouro, Lá vem a súplica do matador de Luciano ao pelotão de fuzilamento:
– Meus amigos, eu só peço que não me deixem sofrer!
Lá vem mais perto o poldro ‘Andorinha!’, Meninas, tragam o meu gibão! Tragam as perneiras! Tragam as esporas! Tragam o meu chapéu de couro! É assim eu vou a Quixeramobim.”

Sobre o poema acima transcrito, o próprio Jáder Carvalho comentou depois o seguinte: "[...] eu amo esse poema por dois motivos: porque ele saiu do sertão, saiu da minha alma e foi ouvido pela primeira vez em Quixeramobim numa festa centenária do município, em que esse poema foi lido na rádio para todos os quixeramobienses que se encontravam na cidade. É um poema consequentemente que tem sua razão de ser, preso a minha vida, está preso à história do Ceará e que está dentro da emoção do poeta, emoção que nunca morreu em mim"
Pois bem: a poesia da história se tece e Jáder de Carvalho vive em poesia!

Bruno Paulino, escritor




segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

"Amor para Toda uma Vida", de Raymundo Netto para O POVO



“Não e Não! Nem viesse! Só se entregaria ali com a garantia de casar no papel!”
Ela, enconchada em uma cama de motel – visão digna de Boticelli –, cobria o pelo com lençol branco e higienizado quando lançou no ar de espelhos o bombástico decreto.
O namorado, ainda que surpreso, não se abalou. Levantou-se rapidamente, descartou de um cardápio de cabeceira uma folha de papel e lançou-a no carpete com a delicadeza quase solene de um Romeu. Daí, extraiu a moça dos lençóis ainda frios para juntos se postarem nus por sobre aquele mísero espaço A4 de vida e anunciou: “Se é assim, pronto: agora estamos casados no papel!” Ela enlouqueceu. Ele enlouqueceu com ela. E era tanta loucura que se podia prever dali uma demência eterna, sem precedentes na desumana história da humanidade, desde que Adão atentou contra a maçã da Eva.
Porém, tempos depois, quem os visse, assim durante o dia, diria que eram de uma incompatibilidade medonha: o leite e a manga, a chuva e a fogueira, a fome e a dor de barriga! Não concordavam absolutamente em nada. O casal parecia compartilhar de um amor quase danação, a devorar o ânimo um do outro numa gula feroz de quem ataca um prato de brigadeiro.
Para piorar, além da sociedade conjugal, determinaram a profissional, o que os mantinham 24 horas numa rinha penosa e inclemente.
Nas reuniões de trabalho, poderiam estar diante de dezenas de pessoas, funcionários, fornecedores, clientes e, no entanto, parecia que estavam sempre a sós, na intimidade de seus bate-bocas. O volume da voz de um excedia à do outro com uma segurança de um tenor. Não se viam em beijos, mas a troca de salivas era uma constante.
Com os filhos não era diferente. Discordavam de tudo quanto, perturbando-lhes o juízo e as epífises. Na escola, eram vistos como sonolentos, apáticos, dispostos apenas a não aprender nada que lhes fosse ensinado.
Os casais de amigos, aos poucos, constrangidos com a companhia desvairada do casal, distanciaram-se. De positivo mesmo, é que qualquer casal que conseguisse conviver ao seu lado, mesmo os mais desapaixonados, logo se sentiam em lua de mel. Diante deles, até a sangrenta Batalha de Stalingrado parecia brincadeira de carimba!
E nos aniversários? Despertavam aos beijos de hálito adormecido, como em trégua, mas logo um queria impor ao outro como se daria tal comemoração: “Aniversariante não tem opinião!” Dali, a promoção, talvez, do mais humilhante dia de suas vidas, o desdém a cada detalhe, além de o bolo sempre trazer o sabor preferido do patrocinador da vez.
E por aqui poderíamos encerrar esse enredo que justifica ser o matrimônio a maior causa do divórcio, não fosse sabermos que, à noite, naquela casa, era enlouquecedora a tentativa de dormir dos filhos, criados, visitas e até de vizinhos, mediante a violência de balidos e súplicas, de pregões de feira a dança de tamancos, a eclodir daquele aposento nupcial, a esgotar-se apenas no raiar da manhã, entre heréticas faíscas que se espremiam entre as brechas das portas e janelas, revelando o mais autêntico, escandaloso e nunca-acabável amor.



sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

"O Tempo Passa Depressa Demais", de Ana Miranda



Tic tac tic tac cada segundo que passa tic tac tic está perdido... versos que escrevi na infância, lembra? Eu já sentia que o tempo passa e não tem jeito, passa, e está perdido.
Acho que escrevi estes versinhos depois de ler o romance O tempo e o vento, de Érico Veríssimo. Ele dizia que o tempo custa a passar quando a pessoa espera, principalmente quando venta. Mas é só uma miragem.
Na verdade, o tempo sempre passa depressa demais, e é breve a nossa vida. E jogamos tanto tempo fora, Ah eu podia ter feito isto e não fiz, ah eu podia não ter feito aquilo, e fiz, Ah como perdi meu tempo!
Aproveitar o tempo é uma arte difícil. Exige atenção, controle de si, disciplina, e é preciso aprendermos uma espécie de arte da escolha. Isto sim, isto não, isto talvez...
As delícias do mundo são amigas do tempo, e inimigas de quem quer fazer alguma coisa em sua vida. Tantas ofertas, tantas obrigações, tantas responsabilidades... Perdemos tanto tempo com mundanismos que queremos e não queremos!
Quem não prefere passear na praia, tomar um vinho com amigos, ou uma boa mesa de conversas, e outros prazeres? Melhor do que enfrentar uma página em branco, ou uma decisão complicada, ou um olhar sobre si mesmo.
O tempo passa depressa demais e a cada dia passa mais e mais depressa, quanto mais temos memórias, menos prestamos atenção ao momento, e nos perdemos nos rios de lembranças e nas gavetas das recordações, e nas janelas abertas para o amanhã. E assim, não vemos o dia passar.
Vemos apenas o tempo que já passou. Tic tac e se foi. Temos um relógio de cuco em nossa mente. Quando o passarinho canta, canta o tempo que passou. Adeus, dia. Mas o tempo da vida não pode ser medido nos relógios.
Acreditamos no amanhã. E o amanhã se torna ontem. O tempo passou e nem percebemos, quando nos damos conta, o dia já se foi, e nem sabemos quanto tempo ainda temos. Vamos entrar em 2018! Quando eu era mocinha e queria dizer que algo estava tão longe que talvez jamais acontecesse, dizia: Só no ano 2000.
Ainda bem que existe o tempo literário. No tempo literário, nem sempre as coisas acontecem na ordem do tempo ou do espaço. Leio a última página hoje, amanhã releio o começo do livro: tudo recomeçou.
O maravilhoso escritor argentino e universal, Jorge Luís Borges, escreveu uma narrativa em que mostra os descendentes de Kafka. Só que muitos desses descendentes, escritores com uma literatura intensamente kafkiana, viveram séculos antes de Kafka. Mas se tornaram descendentes de Kafka pela força da sombria atmosfera kafkiana.
Isso quer significar: eu posso ser neta de meus netos ou avó de meus avós. Uma outra contagem de tempo, não cronológica. O tempo da vida não se passa nos relógios tic tac tic tac... Mágica.
Também nosso pensamento não se passa cronologicamente e somos, mesmo, capazes de mudar a ordem dos fatos em nossa memória. O que aconteceu antes passa a acontecer depois.
“O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolida pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto (Clarice, no romance Um sopro de vida).
Mas, como viver muitos minutos num só minuto? Tenho um plano para aproveitar o tempo: todos os dias, preciso realizar algo, seja uma página escrita, um desenho, ou a resolução de um problema. Modesto consolo, pequena ilusão.
“Cada tic tac é um segundo da vida que passa, foge, e não se repete. E há nele tanta intensidade, tanto interesse, que o problema é só sabê-lo viver. Que cada um o resolva como puder”. Palavras da artista Frida Kahlo, um quase poema, parecido com o meu, porém, mais vivido.
O tempo resolve! Dizia meu pai, quando aparecia um problema que ninguém conseguia resolver. O tempo vai resolver! O tempo passa, mas tudo pode ser inesquecível. E a lembrança recolhe o tempo, o tempo retorna, e não passa mais.