sábado, 22 de fevereiro de 2014

"A Cabeça do Santo", de Socorro Acioli, Lançamento na Cultura (23.2)


Lançamento
A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli
Data: 23 de fevereiro (domingo), às 17h
Local: Livraria Cultura (Av. Dom Luís, 1010 – Meireles)

Sinopse:
Pouco antes de morrer, a mãe de Samuel lhe faz um último pedido: que ele vá encontrar a avó e o pai que nunca conheceu. Mesmo contrariado, o rapaz cumpre a promessa e faz a pé o caminho de Juazeiro do Norte até a pequena cidade de Candeia, sofrendo todas as agruras do sol impiedoso do sertão do Ceará.
Ao chegar àquela cidade quase fantasma, ele encontra abrigo num lugar curioso: a cabeça oca e gigantesca de uma estátua inacabada de santo Antônio, que jazia separada do resto do corpo. Mas as estranhezas não param aí: Samuel começa a escutar uma confusão de vozes femininas apenas quando está dentro da cabeça. Assustado, se dá conta de que aquilo são as preces que as mulheres fazem ao santo falando de amor.
Seu primeiro contato na cidade será com Francisco, um rapaz de quem logo fica amigo e que resolve ajudá-lo a explorar comercialmente o seu dom da escuta, promovendo casamentos e outras artimanhas amorosas. Antes parada no tempo, a cidade aos poucos volta à vida, à medida que vai sendo tomada por fiéis de todos os cantos, atraídos pelo poder inaudito de Samuel. Em meio a esse tumulto, ele ainda irá se apaixonar por uma voz misteriosa que se destaca entre as tantas outras que ecoam na cabeça do santo.
***

Já consagrada por seus livros infantojuvenis, a escritora Socorro Acioli apresenta este seu primeiro romance dirigido ao público adulto, desenvolvido na oficina "Como Contar um Conto", promovida por Gabriel García Márquez em Cuba.

"Sociedade Violentada", de Raymundo Netto


De nossas janelas gradeadas, todos os dias todos, a violência nos conduz à insegurança e ao medo. São muitas as desculpas e mais ainda as mentiras. O descaso, o pouco caso ou nenhum caso, a inconsciência, a inconsequência, a essência do mal-estar social. Eu mesmo perdi as contas de quantas vezes fui assaltado. Na maioria das vezes por jovens, quase adolescentes, quase crianças, mas sempre armados. Nos acostumamos com o tempo, mas a dor dói mais, pois a ferida que não sangra, também não sara.
Os criminosos são encorajados por um paraíso de orientações ilusórias de segurança: Não reaja, entregue suas armas, entregue tudo, não se meta com eles, finja que não os viu, que não viu nada, finja que vive e respire só se for preciso, e, de preferência, não saia de casa... apenas!
Pior também é ser assaltado diante de um juiz, cúmplice em nome de uma estranha lei que privilegia quem mente, por entender numa arrogância pedante que está cumprindo seu papel, quando, fosse honrado, procuraria um lugar impotente entre as pernas para enfiar seu vergonhoso cabedal de códigos caducos de tempos.
Violada nos é a democracia, achincalhada nos gabinetes, nas câmaras e assembleias por bate- bocas teatrais, pela imposição do voto obrigatório, por caras eleições de indecorosas alianças, pelo sistema único de licitações fraudulentas, pela carnavalização dos interesses mesquinhos em troca de pão, pela esbórnia partidária de "destros" e "sinistros" cujo gozo se dá à custa da carne cheia de erupções cutâneas de nossas crianças, pelo Estado capitalista que vende tudo e se vende, e que um dia há de explodir, antes mesmo de assumir-se podre, gordo, a boca escancarada e cheia de dentes cariados de seu próprio deboche de promover a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, com a erradicação da pobreza e da marginalização, com a redução das desigualdades sociais, das discriminações de qualquer tipo e a promoção do bem-estar geral.

As praças tomadas à espera da sopa e do aguardente, os valores esquecidos, os parques e rios sendo devastados, o rolezinho da cultura do concreto e a majestade do lixo, todo ele, a humanidade inteira de resíduos. Uma Fortaleza chinfrim, feia e enlameada, de braços abertos e a bunda arrebitada nas coxias, pedindo esmolas padrão FIFA, enquanto em seus terminais o estranhamento e o medo vêm acompanhados de impossibilidades e da correria histérica em seus túneis e corredores: usuários apavorados, nem eles sabem do quê, tentam preservar o único bem que lhe resta: a vida. Sete assaltos por dia nos ônibus da cidade, sem contar os assédios, o trânsito difícil, os perigos de se andar nas ruas. À noite, por conta de incêndios, podem não voltar para casa. Passageiros, homens, mulheres e crianças, chegam aos terminais, mas não vai ter ônibus hoje. E quem quer saber? Cansados, catam o fundo dos bolsos. Às vezes, nem pra água dá. Deitam num banco, colocam a bolsa embaixo da cabeça e, porque não conseguem mais chorar, culpam-se por sonhar em como seria bom não acordar para um novo dia.

(*) quando escrita a crônica, não havia acontecido ainda a vergonhosa desapropriação da comunidade do Alto da Paz, no Vicente Pinzon.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"I Colóquio Literatura, Narrativa e Medicina: diálogos transdisciplinares" (26.02)

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Data: 26 de fevereiro de 2014 (quarta-feira)
Local:
Manhã - Auditório do ambulatório de Pediatria da UFC
Tarde - Museu de Arte Contemporânea da UFC (MAUC)
Participações:

Henry Campos (Vice-Reitor UFC), Fabiana Carelli (Letras USP), Fernanda Coutinho (Letras UFC), Álvaro Madeiro Leite (Medicina UFC), Jennifer Pereira Gomes (Letras UFC), Cid Ottoni Bylaardt (Letras UFC) e Orlando Luiz de Araújo (Letras Clássicas UFC).

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Lançamento "Trânsitos de Leituras: antologia de textos breves em cartaz", no Centro (Domingo - 23.2)

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Lançamento "Trânsitos de Leituras: antologia de textos breves em cartaz"
Data: 23 de fevereiro de 2014 (domingo), a partir das 17h
Local: Salão das Ilusões (rua Coronel Ferraz, 80 - ao lado do Colégio Imaculada Conceição)
Página do evento no Facebook:
Organização: Érica Zíngano e Flávia Memória

Autores convidados: Ylo Barroso, Tércia Montenegro, Diana Melo, Lucas de Medeiros, Ayla Andrade, Uirá dos Reis, Mariana Marques, Raphael Barros Alves, Tito de Andréa, Érica Zíngano, Tânia Lima, Nathan Matos, Júlio Lira, Alexandre Barbalho, Eduardo Escarpinelli, Flávia Memória, Ícaro Lira, Ruy Vasconcelos, Márcia Sucupira, Natércia Pontes, Pedro Salgueiro, Webston Moura, Cláudio Portella, Mardônio França, Jorge Pieiro, Léo Mackellene, Cândido Rolim, Joice Nunes, Dércio Braúna, Eduardo Jorge, Diego Vinhas, Virna Teixeira e Henrique Dídimo.
Apoio: SecultFOR



Rádio AlmanaCULTURA: "Sentinela", com Milton Nascimento


Quem quiser ouvir a música, acesse:
http://www.youtube.com/watch?v=pv2VBaoyE3U

Morte vela, sentinela sou do corpo desse meu irmão que já se vai.
Revejo nessa hora tudo que ocorreu, memória não morrerá.

Vulto negro em meu rumo vem,
Mostrar a sua dor plantada nesse chão.
Seu rosto brilha em reza, brilha em faca e flor,
Histórias vem me contar.

Longe, longe, ouço essa voz
Que o tempo não vai levar...

Precisa gritar sua força, ê irmão, sobreviver,
A morte inda não vai chegar, se a gente na hora de unir
Os caminhos num só, não fugir e nem se desviar.

Precisa amar sua amiga, ê irmão, e relembrar
Que o mundo só vai se curvar
Quando o amor que em seu corpo já nasceu
Liberdade buscar
Na mulher que você encontrar.
Morte vela, sentinela sou
Do corpo desse meu irmão que já se foi.
Revejo nessa hora tudo que aprendi, memória não morrerá.

Longe, longe, ouço essa voz
Que o tempo não vai levar...


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Lançamento "Rodolfo Teófilo e a Saga de Jesuíno Brilhante", no Espaço O POVO de Cultura & Arte (20.2)


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Lançamento, bate-papo e sessão de autógrafos
Rodolfo Teófilo e a Saga de Jesuíno Brilhante
(Prêmio Braga Montenegro da Secult/CE)
de
Sânzio de Azevedo

Data: 20 de fevereiro de 2014 (quinta-feira), às 19h
Local: Espaço O POVO de Cultura & Arte (a. Aguanambi, 282, Joaquim Távora - anexo do jornal O POVO)
Preço especial de lançamento: R$ 20,00 (vinte reais)
Entrevistador: Raymundo Netto

Importante
O Estacionamento Central, ao lado do jornal, dispões de vagas gratuitas limitadas para os participantes, convidados e demais interessados. 


domingo, 16 de fevereiro de 2014

"D.Zenaide e o Carnaval", de Pedro Salgueiro, para O POVO


Dona Zenaide é minha vizinha, dessas que não vivem “propriamente” numa cidade, porém se orgulham de dizer que habitam um bairro. Pois para ela um bairro é uma cidade dentro da cidade, simples assim. Já foi moradora do Parque Araxá, muito antes de jogarem um morto no cacimbão da José Sombra, maculando a fama da região de lugar pacífico com águas milagrosas; veio de marido e cuia para a Gentilândia (nunca a ouvi falar em Benfica) e daqui só sai para o “campo santo”.

Ela é a criaturinha mais charmosa da Gentilândia, capital do Benfica (ri muito quando atribuo essa função ao nosso complicado bairro), mesmo com seus quase noventa anos. Não aceita que ninguém mexa na sua cozinha, apenas ela sabe o lugar de todos os utensílios, quando muito pede a alguém que pegue algo na prateleira mais alta da despensa.

Criou os filhos todos nessa mesma toada, sem afobação nem melindres de mãe coruja (“essas mães exibicionistas que andam por aí se arvorando de boa”, como ela costuma dizer sem afetação), e hoje vive sozinha; mas é a pessoa mais bem acompanhada desse lado da cidade, que não há um único dia que sua casa não tenha gente, seja uma nora saudosa, uma amiga de longas datas, um parente do Interior... e até vizinhos bisbilhoteiros iguais a mim, que passo somente para um dedinho de prosa, uma xícara de chá de capim-santo ou cidreira (do seu café nem falo, para não atrair concorrentes, mas adianto que ainda é torrado e pilado no quintal e tem um sabor divino).

Quando desejo algum conselho, passo pela sua calçada como quem não quer nada, o que ela parece sempre adivinhar, pois nesses dias puxa logo conversa; mas nunca vou direto ao “mote”, circulo pelos arredores; minto: ontem, como não tinha lá muito tempo, fui logo assuntando: “E de Carnaval, dona Zenaide, como tem passado?”, e não sentindo boa recepção em seu semblante, sempre tão sereno, tentei consertar: “Aliás, de pré-carnaval... pois mal viramos o mês”... Ela meio que riu, ou fez uma caretinha antes de balançar bem de leve a cabeça.

Juro que, pela sua fisionomia inexplicavelmente calada, me arrependi da pergunta besta (pela primeira vez em muitos anos fugi dos arrodeios) e tentei mudar logo de assunto... Mas ela já recobrava a calma de sempre, o sorriso entre enigmático e bondoso; então fiquei imaginando que ela devia detestar aquela barulheira de jovens, ou pelo menos a sujeira que ficava nas ruas, o odor de urina e bebidas... enfim, que devia ter um pouco daqueles velhos que inevitavelmente vão envelhecendo ranzinzas, com raiva da juventude...

Ela simplesmente me olhou bem no olho e admitiu, assim no natural, que nunca havia gostado de folia, não, e até desconfiava de gente que necessitava de muita festa para ser feliz. Eu senti a frase dela na moleira, uma pancada para mim, que adoro “sereno” de forró, qualquer festa mesmo, de carnaval a folia de reis, que comemoro meu aniversário o mês de novembro inteiro.
Mas do alto de sua sensibilidade (deve ter percebido o desconcerto em meus olhos) ela mudou logo de assunto: “E a chuva, hein? Parece que não quer vir...”


sábado, 15 de fevereiro de 2014

AlmanaCULTURA IN DICA: "Ela", de Spike Jonze


Caso queira assistir ao trailer, acesse:
http://www.youtube.com/watch?v=gSxW32C7mjo

Ela é impressionante. O filme, dirigido e roteirizado por Spike Jonze, é uma dramocomédia. "Drama", porque expressa a parca existência humana; "comédia", porque, vaidade às favas, nós somos todos muito ridículos e risíveis.
Ela se passa no futuro, numa espécie de ficção científica barata, no sentido de realista e sem aberrações megahard, onde o mundo virtual cada vez é mais presente, ou seja, as pessoas perdem a capacidade de discernir o real, o verdadeiro, do que é produto wireless, artificial, meio que uma verdade facebook, onde todos são maravilhosos, se curtem, viajam muito, são repletos de amigos que, também felizes, não esquecem do aniversário de ninguém. Assim, como no nosso mundinho egotrip as pessoas nem se percebem e estão cada vez mais solitárias.
O cenário futurista mostra, num figurino meio retrôtech e num andamento melancólico que nos remete a O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Theodore (Joaquin Phoenix), um funcionário em uma empresa que vende cartas. Pois é, Theodore, assim como outros colegas, escreve cartas virtuais, com fontes manuscritas, simuladas em papéis ilustrados como antigamente, encomendadas por namorados, pais e filhos, amigos que não se veem há tempos, etc. Ele é triste e solitário e, ao contrário de suas letters-fake, tem uma grande dificuldade de expressar os próprios sentimentos em sua vida marcada por uma separação doída e não resolvida. Sua ex-mulher, Catherine (Rooney Mara), também não aceita com facilidade a separação, mas é mais "cerebral", professora universitária, certa de que o ex-companheiro não consegue transitar com facilidade por um mundo real.
Certo é que o escritor, embora seja "popular", tem, de fato, apenas uma amiga, Amy (Amy Adams), e fora do serviço brinca com videogames e é usuário insatisfeito de chats de bate-papo e sexo virtual. Dizendo-se confuso, mal resolvido, inseguro, não consegue dar passo, encaminhar relacionamentos, arriscar-se, até adquirir um novo sistema operacional de inteligência artificial: "Samantha" (a voz de Scarlett Johansson). Uma novidade comercial, o software é aparentemente humano, capaz de, além de atribuições mecanicistas, interagir, de ter curiosidade, aconselhar, contar piadas, preocupar-se, e, numa perspectiva darwinista ciborgue, capaz de evoluir e apresentar uma individual visão de mundo com muito mais rapidez do que o mísero projeto Homo Sapiens. Então, nada mais natural que eles se apaixonem, levando em consideração que o amor é uma insanidade possível e aceitável, assim como acontece hoje nos logros e paixões fantasiosas das redes sociais.
O comportamento humano e o "quase-humano", os ciúmes, o amor, o desejo, o sexo, a ilusão, a posse, o divórcio, a dor e a angústia da inconfessável solidão e todas as mazelas dos que amam e são amados (ou não) são discorridos de uma forma menos corpórea, mais nua, portanto também mais crua, embora com tintas otimistas, sem ser piegas ou melodramático.
Não me prendendo à perspectiva da análise da praxis dos relacionamentos futuros (leia-se "presentes"), às perguntas óbvias de não se ter respostas ("Como é estar vivo neste quarto agora?") e o "querer", verbo dificílimo de resolver e verbalizar sem medos, é um filme sensível, um romance inteligente, que faz pensar, passando por dentro, ressoando nas paredes de lembranças e tocando de leve as cúspides de quem vive ou viveu qualquer dúvida em relação à temática afetiva.
Vale demais assisti-lo sem pressa, se estiver amando ou pensando no suicídio.

Dica: leve com você uma garrafa d'água!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

"Jornalista da BBC descreve caos em tentativa de socorro a cinegrafista da Band", para BBC Brasil

Fonte: BBC Brasil
Hoje, fui ao funeral de um homem que eu não conhecia. Mas tudo o que ouvi e li sobre Santiago Andrade nos últimos dias me faz desejar tê-lo conhecido e passado mais tempo na companhia dele.
Os poucos minutos nos quais nossos caminhos se cruzaram em uma praça no Rio de Janeiro na semana passada foram caóticos, confusos e, em última análise, fúteis. Por talvez uma hora e meia, eu fiquei com aquele pai de família de 49 anos de idade em um hospital no centro da cidade enquanto médicos lutavam para salvá-lo.
Santiago Andrade não saiu do hospital com vida.
Faz exatamente uma semana desde que o cinegrafista da Rede Bandeirantes caiu com a explosão de um artefato, um tipo de sinalizador ou peça de fogos de artifício, atrás de sua cabeça enquanto ele cobria um dos protestos contra o governo no Rio de Janeiro.
Menos de quatro segundos depois, meu colega da BBC, Keith "Chuck" Tayman, e eu estávamos a seu lado.
Antes de chegar ao Brasil há cerca de cinco meses, eu passei os últimos três anos baseado no Oriente Médio cobrindo, entre outros eventos, as quase sempre traumáticas revoltas árabes. No Egito, em Gaza e na Líbia, eu presenciei cenas chocantes, emocionalmente aflitivas e vi, com muita frequência, as terríveis consequências dos conflitos.
Então, quando ajoelhei ao lado do corpo de Santiago, não fiquei congelado ou em dúvida sobre o que deveria fazer, mesmo vendo seus ferimentos terríveis. A explosão deixou uma enorme ferida em sua cabeça, através da qual o sangue já começava a escorrer.
Todos os funcionários da BBC que trabalham em áreas de conflito passam por um treinamento chamado "hostile environment" (ambiente hostil) – cuja parte mais valiosa é, sem dúvida, a preparação para prestar primeiros socorros. Tendo trabalhado anteriormente como guia de expedições em montanhas, eu também já havia usado esse conhecimento em outras ocasiões.
Na falta de um kit de primeiros socorros ou de bandagens apropriadas, Chuck instintivamente retirou sua camiseta e a pressionou contra a ferida na cabeça de Santiago para estancar a hemorragia. Apesar de inconsciente, Santiago respirava pesadamente. Em meio ao caos, fizemos o melhor que podíamos para estabilizá-lo.
Eu já vi muitas vítimas de violência deixadas deitadas no chão enquanto policiais e transeuntes ficam imóveis, por relutância ou incapacidade de ajudar, durante aqueles que podem ser os momentos mais críticos para a sua sobrevivência.
Na hora em que a ajuda médica profissional chega, frequentemente, é muito tarde; a vítima pode ter morrido pela perda de sangue, insuficiência cardíaca ou simplesmente porque ninguém verificou se ela continuava respirando.
Os ferimentos de Santiago eram tão graves que nós sabíamos que deveríamos levá-lo ao hospital imediatamente. Mas alguns policiais – talvez não percebendo a gravidade da situação – acabaram dificultando nossa passagem enquanto muitos manifestantes protestavam e gritavam culpando a polícia pelo ataque. Foi demonstrado, de forma quase inegável, que o artefato foi disparado por uma dupla de manifestantes que acabou sendo identificada.
Enquanto tratávamos de Santiago no chão, também tivemos que "controlar" a situação. Após alertar diversas vezes os policiais sobre a urgência do momento, carregamos cuidadosamente seu corpo, de 82 quilos, para a parte de trás de um carro de polícia e corremos para o hospital mais próximo.
O tempo pareceu uma eternidade, mas, desde o momento em que vi Santiago soltar sua câmera e cair no chão até a corrida contra o fluxo do tráfego pela principal avenida do Rio para o hospital, passaram-se apenas seis minutos.
Eu e Chuck esperávamos que tivesse sido tempo suficiente para ajudar a salvar a vida de Santiago Andrade.
Sabendo que aquela provavelmente seria a última vez que veria seu pai com vida, Vanessa Andrade também passou bastante tempo ao lado de seu leito no hospital nesta semana.
Escrevendo com o coração, mas com a consciência de alguém que quer dizer as coisas certas e relembrar momentos preciosos, a jovem de 29 anos falou sobre o pai e sua última "conversa" com ele.
"Ele me ensinou muitas coisas, que pessoas de origem humilde têm que trabalhar duas vezes mais duro para vencer na vida", disse Vanessa, que deu continuidade à vocação do pai como profissional de mídia.
Em uma homenagem comovente, ela continuou: "Hoje, eu disse adeus, só eu e ele. Com minha cabeça em seu ombro, falamos de muitas coisas. Eu pedi perdão pelas minhas falhas... . Eu sei que ele está bem. Claro que ele está. E eu sou a continuação da vida dele".
Em uma sociedade frequentemente brutal e polarizada, muitos colegas descreveram Santiago como um homem grande e gentil que odiava violência e fazia todo o possível para evitar confrontos.
Durante seu velório e funeral lotados hoje no subúrbio do Rio, colegas da Band News e dezenas de outros jornalistas brasileiros relembraram um homem que trabalhou para minimizar as ameaças a profissionais de mídia.
Aqui na América Latina, onde jornalistas frequentemente correm o risco de se tornarem alvos, em vez de poderem operar como livres observadores independentes, o conceito de direitos legais para profissionais de mídia ainda não está enraizado.
De acordo com números divulgados recentemente, mais trabalhadores da imprensa foram mortos no Brasil do que em qualquer outro lugar na região, incluindo o México, onde repórteres são frequentemente intimidados e forçados a trabalhar de forma anônima.
"No Brasil, jornalistas trabalham sob uma ameaça generalizada de violência e grande operações repressivas da polícia", afirmou o 2014 World Press Freedom Index (Índice de Liberdade de Imprensa no Mundo), que foi divulgado nesta semana.
É uma curva de aprendizado para jornalistas também. Permanecer como observadores imparciais de eventos complicados e traumáticos é a melhor maneira de se conseguir enxergar o cenário como um todo.
Infelizmente, nos dias após a morte de Santiago, partes da imprensa brasileira correm perigo de serem usadas e manipuladas por forças políticas para demonizar o movimento de protestos como um todo, não apenas os poucos sem consciência que estão empenhados em ações de violência e confronto.

Esses têm sido dias perigosos porém fascinantes para ser um jornalista no Brasil – um assunto que eu teria adorado conversar com um homem comprometido com seu trabalho e sua família.

Wyre Davies
Coorespondente da BBC no Rio de Janeiro

FlashBack-Bloc: "Carne Vale: a Copa Africana do Mundo", Raymundo Netto, para os 5 anos de AlmanaCULTURA



Publicado originalmente em O POVO em 2010.

Era uma vez um carnaval, porém, não era um carnaval qualquer, não. Tinha um jeitão de... de... como poderia dizer... ah, já sei... com jeitão de partida de futebol! O nome era por demais sugestivo: Copa! Ora, todos sabem que melhor do que a copa só a cozinha... E não era uma copazinha mixuruca, nem copaíba, nem copacabana dessas que a gente vê por aí... era a suprema copa, a magnânima, a disputada e incomparável Copa do Mundo. O nome, evidente, já diz tudo: temos que Coparticipar!
Entretanto, ao invés do cinza concreto de uma passarela-sambódromo, à guisa de uma quiçá proposta ecológica, no meio do gramado — nem importa se tal grama seja ou não artificial — de um iluminado campo de... futebol, claro!
Está feita a Mardi Gras! E, para abrir a festa, Zakumi, o Rei Momo desse carnaval, mascote dessa Copa, um leopardo com cara de “emo”.
Os torcedores, grandes mantenedores da imensa festa popular, vindo de todas as partes do mundo — bloco dos endividados e bloco dos endividandos (ou não...) — distribuem-se nas arquibancadas. São foliões animados — muitos à custa de goles de cerveja (somente da patrocinadora Bud...) — com sorrisos máscaros, de bochechas inchadas de soprar longas cornetas zoadentas (as vuvuzelas africanas), outros com perucas coloridas, suores que brilham como lantejoulas, fantasias variadas, crianças na cacunda, todos à espera da passagem de ricos cordões (põe ricos nisso!!!) que, enfileirados, logo saem de estratégicos túneis em mãos dadas. Os “bafana bafana” (ou “Hakuna Matata”?) de nossa América tropical imediatamente se postam com a mão no peito a disfarçar o canto pátrio de um hino cuja letra é tão linda quanto desconhecida: “verás que os filisteus não fogem a luta!” Veremos?
Como escolas de samba, os times desfilam, uns por terra, outros pelo ar. O enredo é um só: “A taça do mundo é nossa!” Em vez de Mestre-Sala, Ponta-de-Lança; de Porta-Estandarte, o Centro-Avante. Apito de um lado, bandeirinha de outro. De repente, a uma bola, vejam só, uma coisinha aparentemente tão insignificante, a atenção de bilhares de pares de olhos — uns mais abertos que outros — num mesmo momento convergem. Na geral de Soccer City, ou mesmo no sofá, para aqueles que ficaram em casa ou na velha churrascaria (básico esquema-espetinho...), não importa, a batucada e as gritarias atentam à alegria desprezando, por tensos momentos dramááááticos, a melancolia, quase triste, das misérias daqueles que inda choram, ou dos que sorriem banguelas diante do insucesso em ruas descalças e enlameadas, disfarçadas por varais de fitinhas de plástico e a cal fininha verde e amarela, vítimas da promoção daquela emissora de tevê que os esperançou de levar aquela ruela à África do Sul...
Deve rezar na cartilha de toda boa Copa: é a celebração da vida e da união dos povos do planeta em prol da paz mundial. Honrosa proposta... Mas é a busca incessante de prazeres que move os desprendidos foliões desse carnaval. “É melhor ser alegre que ser triste. Alegria é a melhor coisa que existe. É assim como uma luz no coração.”*
Nosotros brasileiros, heroicos sobreviventes e galhofeiros de plantão, deixamos a dor esperando em casa, embaixo do travesseiro, esfriando na geladeira — às vezes à cama —, no espelho do banheiro, na cueca que fizemos de pano de prato e comemoramos a NOSSA vitória.
É emocionante perceber que também o medo do rebaixamento, ou da eliminação da sua escola, ou de seu time, faz com que alguns de nós, românticos, fechem-se em copas e chorem lágrimas dificilmente vertidas em momentos de fome, de miséria, de morte ou de tragédias. É um sofrimento exclusivo para momentos abnormes. A Psicopatologia deve ter explicação...
Mesmo assim, como inventaram as micaretas, carnavais fora de época, que nada mais são que “nostalgias” das passageiras alegrias do “carnaval que passou” até o despertar de que “nada será como antes”, o etnofutebolistas criaram os desanimados “amistosos” que, da mesma forma, chegaram-nos com a missão de não nos deixar esquecer que mesmo sofrendo se é possível comemorar. De preferência entre nós mesmos, para tudo ficar em família...
Ao final desse imenso carnaval, o mundo volta a ser como antes, sem confetes (a não ser diante de patrões) e serpentinas. Os Pierrôs apaixonados, tristes e taciturnos, continuarão a escrever crônicas para o jornal sabendo que sua eterna Colombina nunca as lerá, pois tem olhos fitos nos solares olhos de jovens Arlequins que continuam fazendo pegas nas noites à beira-mar entre os séquitos de magros torcedores com bandeiras amarradas ao pescoço a arrastar as poeiras das calçadas sem cadeiras, sem marchinhas nem vitórias que valham a pena viver ou lembrar. E seja, sempre, o que Deus quiser “porque o samba é a tristeza que balança/E a tristeza tem sempre uma esperança/A tristeza tem sempre uma esperança/De um dia não ser mais triste não.”*

(*) "Samba da Bênção", de Vinícius de Moraes e Baden Powell

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

"Urbanices: joias da memória", por Mariana Freire, para O POVO


Entra na cabine, puxa uma porta, puxa outra. A manivela é quem comanda o destino. Resistindo às caixas metalizadas de proteção automática e painéis inteligentes, Fortaleza ainda sobe andares em elevadores do passado. Um deles continua firme depois de um século. 
Muitos já se foram para a modernidade. Alguns, porém, com a história que carregam, continuam em segurança. “Antigamente, as coisas eram feitas para durar a vida inteira”, comenta Neudson Braga, professor aposentado de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará. 
A Reitoria da UFC abriga um dos mais antigos elevadores residenciais da Capital, segundo Neudson, desde a construção da chácara que havia ali, em 1918. “Não tenho informação de outra residência nessa época que tenha um elevador, talvez esse tenha sido o primeiro”, sugere. 
Todo mês, para garantir a longevidade, ele é vistoriado, mas ninguém lembra a última vez em que teve de ser consertado. Nele, só cabem três pessoas. O forte não é a velocidade, mas a memória da cidade que já foi antiga. 
Instalado em 1898 com cabine de jacarandá e detalhes de bronze, o elevador da Associação Comercial do Ceará (ACC) é um dos mais antigos do Estado, segundo o presidente João Porto Guimarães. “Já sugeriram trocar por outro, mas nós não quisemos. É uma peça antiga, mas não é velha, e eu enxergo como uma joia”. 
O maquinário, de acordo com Guimarães, fica longe dos problemas, apesar de passar de 100 anos. Neste tempo, pouco foi trocado, só por segurança. “Ele nunca deu problema. Ainda é mais bonito, melhor e mais seguro que os outros”. 
Os elevadores que contam a história um dia foram sinônimo do futuro. “No final do século XIX e início do século XX, a cidade macaqueava as modas estrangeiras, e o elevador não deixava de ser uma delas”, explica Romeu Duarte, professor de Arquitetura da UFC. 
Cerca de 50 anos antes, o equipamento fora criado nos Estados Unidos e se massificou, especialmente em Chicago. As empresas americanas Otis e Atlas eram as principais fornecedoras de elevadores para o país. De lá, vinham para ser instalados nos poucos prédios de Fortaleza, ainda predominantes no Centro. O equipamento da Associação Comercial foi colocado pela Otis, enquanto a Atlas instalou o primeiro por aqui só em 1941, onde hoje é a Superintendência da Polícia Civil, no Centro. 
“Tem gente que tem medo de andar nele porque é antigo”, conta Silas Coelho, ascensorista no prédio da Federação das Associações do Comércio, Indústria, Serviços e Agropecuária (Facic). Em 34 anos operando os dois elevadores, não viu nenhum deles parado por mais que uma semana. 

E olha que estão por lá desde que “o prédio é prédio”, na década de 1930, segundo Francisco Barreto, presidente da Facic. Um funciona pela manhã, outro à tarde, para que continuem em atividade sem desgastar as peças. “Eles fazem parte da história. Não podemos deixar isso morrer”.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

FlashBack-Block: "Molequintino", de Raymundo Netto, para os 5 anos de AlmanaCULTURA


Publicado originalmente em O POVO em 2008
No passado, eu afirmava com tolos ares de uma pretensa certeza, que só me faria presente a casamentos e funerais quando fosse o convidado principal. Meus amigos, a vida ensina: nem sempre cumprimos o que dizemos; nem temos a obrigação de fazê-lo, porém, devemos, sim, falar menos!
Estava no Cemitério São João Batista, a seguir com a família ao derradeiro cortejo de um amigo, quando perto da “Alameda da Saudade”, percebi que alguém por trás de mim olhava, pelos ombros, curioso. Era magro, moreno, cabeleira e farto bigode prateados, e, sobre o narigão, um par de óculos redondos que não disfarçava os olhos míopes piscantes. Ao pescoço, pendia a medalha de ouro recebida do rei d. Manuel II * — mistérios d’além túmulo. Estava com os polegares enterrados no bolso do colete e, descalço, brincava com os artelhos dos pés:
— “O Padre Eterno, segundo refere a História Sagrada, tirou o mundo do nada, e eu nada tirei do mundo!”
Sem perder tempo com cerimônias e apresentações — não que fosse necessário — pôs-se a matraquear:
— Sabe, quando eu era menino, lá em Baturité, o padre Dantas, novo na cidade, precisava colocar umas cartas no correio, só que ele não sabia onde ficava. Encontrou-me brincando na rua e perguntou como fazia para chegar lá, e eu o ensinei. Satisfeito, o coitado logo me convidou para fazer o catecismo na sua paróquia. “Mas para que, seu padre?”, perguntei. “Para lhe ensinar o caminho do Céu, meu filho”... Aí eu falei para ele: “Ora, ora, mas se o senhor não consegue chegar sozinho nem no correio!”
Indevidamente, rimos. Os familiares do falecido passaram a nos reprimir com os indicadores cerrando os lábios, e, mesmo assim, ele continuou:
— Você é daqui, mesmo? Nasceu onde?
— No Ceará, felizmente! — orgulhei.
— Mas felizmente para quem, para você ou para o Ceará? Porque você sabe que para ser feliz no Ceará, é preciso nascer burro, viver ignorante e morrer de repente!
Embaraçado pelo tom da conversa, adiantei o passo, distanciando-me. Percebendo minha estratégia, perguntou se estava me aborrecendo, ao que respondi, para a minha infelicidade:
— Ah, claro que não... Que é isso, doutor? Pode dizer aí mais umas quatro besteiras...
— Ah, posso? Então lá vai: Raymundo, Alves, Ferreira e Netto. Quatro besteiras das grandes, ouviu?
Prevendo uma resposta à altura da grosseria, rápido, tentou emendar:
— Ah, sim, ia até me esquecendo de falar... Eu li o seu livro, sabia?
— O senhor o leu? — surpreendi-me.
— Sim, sim... Mas comecei do final para ver se valia a pena perder tempo lendo o resto. — ele era um caso sem jeito... —  Olha, Raymundo Netto, também tenho saudades das rodas de cadeiras na calçada. Mas, uma vez, eu morei numa casa tão pequena, mas tão pequena, que parecia não ter o lado de dentro.  E a cidade, então? Era tão miserável que nas ruas a gente não encontrava o lado da sombra!
— E por falar em casa: ouvi dizer que, após a morte de sua esposa, o senhor se casou com sua cunhada, é verdade?, perguntei.
— Mas é claro, meu filho, temos que fazer economia de sogra!
O caixão estava baixando à sepultura, quando o padre, já incomodado, pediu, uma última vez, para que ele falasse mais baixo, ao que ele rebateu, agitando os braços nervosos:
— E o senhor, seu padre, por favor, fale mais alto! — demonstrando indignação, voltou-se para mim — Mas, afinal, Nettinho, quem é o morto, mesmo?
— Bem, doutor Quintino, eu acho que o morto é aquele que vai lá dentro do caixão...
Vinguei-me!

(*) Quintino recebeu essa medalha, quando em viagem à Europa, das mãos do rei de Portugal,  como reconhecimento de seu talento poético, mas, devido às más finanças, teve de vendê-la ao dr. Meton de Alencar.


Quintino Cunha (24.02.187501.06.1943) nasceu em São Francisco de Uruburetama (atual Itapajé), Ceará. Advogado, poeta e escritor ficou mais conhecido pelo seu gênio para chistes e improvisos. Autor de Pelo Solimões (poesia – publicado em Paris, 1907), Diferentes (contos, 1895) e outros.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

"Diz que Fui por Aí", com Fernanda Takai


Se quiser assistir ao vídeo, acesse:
http://www.youtube.com/watch?v=NNGfxU7PArY
 Se alguém perguntar por mim,
Diz que fui por aí
Levando o violão debaixo do braço.
Em qualquer esquina eu paro.
Em qualquer botequim eu entro.
Se houver motivo,
É mais um samba que eu faço.
Se quiserem saber se eu volto,
Diga que sim,
Mas só depois que a saudade se afastar de mim.
Tenho um violão para me acompanhar.
Tenho muitos amigos, eu sou popular.
Tenho a madrugada como companheira.
A saudade me doi, o meu peito me roi,
Eu estou na cidade, eu estou na favela,
Eu estou por aí
Sempre pensando nela.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

"Os Acangapebas: narrativas topofílicas", por Carlos Carvalho, para seu blog


blogdocarloscarvalho.blogspot.com.br

Das mais variadas formas de narrativas, confesso ser apaixonado, primeiramente pela crônica e, em seguida, pelo conto. Embora a "prima pobre" seja minha grande paixão, o conto se revela ao meu ser como um dos mais belos amantes. E o que é mesmo que mais me atrai no conto? É sua capacidade de dizer tudo o que se pretende com a maior economia possível de palavras. Ora, se não é Tchekhov quem nos diz que se uma determinada  arma não será usada no decorrer da narrativa, por qual razão mantê-la na história?
É claro, porém, que nem todo contista consegue colocar em prática a ideia de Poe (1809-1849), quando discorre sobre a necessidade que deve existir entre o tamanho do conto e a reação que ele consegue causar em quem o lê. Eis a famosa  "unidade de efeito" defendida pelo autor norte-americano. Para ele, a obra precisava ser dosada, para que a excitação provocada pela leitura perdurasse por um determinado espaço de tempo. Dessa forma, se o texto fosse muito longo, o efeito (a excitação) seria diluído. A unidade de efeito seria alcançada, então, quando de uma só assentada, nós, leitores, déssemos conta daquilo a que se propôs o autor. 
Não podemos afirmar que o ponto de vista de Allan Poe não proceda. Contudo, tendo em vista a correria para o nada do nosso dia a dia, torna-se quase impossível lermos o que quer que seja duma assentada só, quando dificilmente temos tempo para sequer sentar. Pela teoria proposta pelo contista, O Alienista, de Machado de Assis, jamais seria um conto, como não o é, mas uma novela. E, nem de longe, podemos reproduzir e aceitar a proposição de Mário de Andrade, quando diz que "um conto é aquilo que o autor chama de conto". Mas o conto, e aí concordamos com Cortázar, está para a fotografia assim como o romance está para o cinema. O conto é o instante, narrado com o maior poder de objetividade, sem a necessidade de "floreios" de qualquer espécie. É o que conseguimos perceber nas narrativas contidas em Os Acangapebas (2012), livro de contos do escritor Raymundo Netto, que se insere na leva dos autores recentemente surgidos no Ceará.
Raymundo Netto incursiona com considerada desenvoltura pela literatura infantojuvenil, pelo romance e pelo conto. Estaria ele também flertando com a poesia? É bem provável que sim! Vencedor de inúmeros prêmios e figura de extrema relevância na Cultura da cidade de Fortaleza, o referido escritor brindou a todos, em 2012, com as narrativas contidas no seu Os Acangapebas
O livro saiu pelo selo "Fundo de Quintal" e traz trinta e nove contos, sendo vencedor do Edital de Incentivo à Literatura da Secretaria de Cultura de Fortaleza, de 2007, e do Prêmio Osmundo Pontes de Literatura da Academia Cearense de Letras, de 2011. E você, caro leitor, pode estar se perguntando  que diabos significa "acangapebas". Pois bem, para poupar-nos o trabalho de sairmos à caça de tal significado; na abertura da obra, o próprio autor já nos instrui, dizendo tratar-se de um termo oriundo do Tupi-Guarani, sendo, "acangapeba"  o mesmo que "cabeça-chata". De acanga, cabeça; peba, peva, chata. Trata-se, é óbvio, de uma clara alusão a alcunha pela qual são tratados os cearenses mundo afora. Isso, no entanto, não implica em uma geografia, na acepção própria da palavra, seja ela feita de gente, de terra ou de palavras. Longe disso! O que se tem, na verdade, é uma espécie de topofilia, tal qual nos propõe Yi-Fu Tuan, ancorada nas percepções, atitudes e valores do homem cotidiano na sua lida diária com o meio ambiente, com a vida, com as coisas, com a comunicação ou com a ausência dela.
A epígrafe que abre o livro é de Dante Alighieri, contida na Divina Comédia,e diz: "lasciate ogni speranza, voi ch'entrate": "Abandonai todas as esperanças, vós que entrais" (tradução nossa). A escolha feita pelo contista não foi à toa. Compreendemos que sua mensagem é deixar claro que leitor deverá começar sua leitura de coração aberto, sem o pré-conceito que costuma se ter frente à uma obra nova. Quando diz para entrarmos na leitura sem esperanças, infere-se que não há receitas prontas para a feitura da literatura, cabendo ao leitor descobrir os caminhos propostos pelos imbricamentos da teia narrativa, sendo perfeitamente possível um estranhamento em qualquer um dos sentidos existentes.
E assim sendo, a contística de Raymundo Netto discorre sobre o amor, a vida e a morte por meio de uma simbologia que nos remete à mitologia daltoniana. Se por um lado Dalton Trevisan construiu toda uma simbologia que serve de arcabouço para sua literatura, Raymundo Netto parece trilhar caminho semelhante. Dessa forma, o narrador de Os Acangapebas visita espaços-lugares que são tão nossos, enquanto cabeças-chatas que somos. A cidade, "O circo" (p.102) e "A bodega" (116), por exemplo. E "Vassourando" (p.111), bem que poderia se chamar "Barrendo".
É perceptível a tentativa do autor em fazer com que seu texto dialogue com outras obras, outros autores e outras ideias. Como não lembrar, por exemplo, de Moreira Campos (1914-1994) em "Portas fechadas" (p.51) ou ainda de Pedro Salgueiro, em "Cabelos azuis" (p.62)? Ao propor tal aproximação, extremamente profícua, ao nosso ver, Raymundo Netto demonstra estar em dia com as mais novas formas de ver, de sentir e registrar o mundo.
No que diz respeito à presença recorrente de símbolos nas narrativas d'Os Acangapebas, há um mundo deles à espera de decifração. O gato, por exemplo surge em três contos (p.21, p.31 e p.54); a mulher, em dois (p.31, p.34). Há ainda o sótão (p.16), o estandarte (p.80), o espelho (p.83) e o relógio (p.90), entre muitos outros. O próprio termo "acancapeba", que dá nome ao livro, é eivado de uma imensa gama de possibilidades de compreensão. Contudo, cabe ao leitor não se limitar àquilo que apenas se mostra, pois, como bem afirma Fernando Pessoa: "tudo que vemos é outra coisa". Assim sendo, cabe a esse leitor mergulhar e descobrir a imensidão do iceberg de interpretações possíveis nas narrativas topofílicas contidas em Os Acangapebas
E assim, leitura feita, tal qual acangapebas, vamos nos chegando às janelas da literatura de Raymundo Netto. Através da sua maneira de contar histórias, assistimos à novela, pedimos um cafezinho e quase nos vemos escorados nas portas dos bares e dos cabarezinhos desse mundo de meu Deus. E dessa forma, a leitura d'Os Acangapebas de Raymundo Netto é como aquele amanhecer capaz de despertar os passarinhos adormecidos nas nossas mentes em pífanos alegres, no cheiro quente do cuscuz e do café, proporcionando mais luz, como nos diz Goethe, para que não terminemos nossos dias a tiquetaquear a vida de forma mecânica e quase absurda.


Carlos Carvalho é pesquisador e mestre em Literatura Brasileira, professor da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Serão Central (Feclesc), autor do livro de crônicas Memória de Peixe.