terça-feira, 29 de abril de 2014

"Os Acangapebas de Raymundo Netto", de Batista de Lima, para o Diário do Nordeste (29.04.14)

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(Fonte: Diário do Nordeste - ilustração de Lincoln Souza)

Raymundo Netto, ao escrever, mergulha na rotina e na depressão, dos outros. Geralmente seus personagens são criaturas maduras que vivem marcando passo numa leseira tão grande que é preciso fustigá-los com o chicote de palavras que se unem, se encompridam para se fortificarem. Por isso que no seu mundo de "águas brumaceiras", "recordações saudadejavam" ao "silhuetarem", "ademanhazinha". Daí que o tempo "jangadeava" lentamente nas "areias madrugueiras" do dia a dia.
Viver é, pois, para ele, sair por aí arrastando feixes de palavras que se amarram, se entrelaçam para não sair do canto em que estão, tipo personagens letárgicas.
Essa letargia é consequência da luta que o autor empreende contra o tempo. Ele se agarra à memória como forma de frear a velocidade de um Kronos desencabrestado. Os acangapebas, esse seu livro de contos, da editora Fundo de Quintal, traz 41 histórias em que uma de suas características é essa luta titânica contra um tempo brabo que não se contenta em ser amarrado por liames de tecidos verbais. Por isso que o conto "O mistério do sótão", logo no começo do livro, se torna um alerta do que vem em seguida em toda a obra. É o tempo destruindo na frente e o escriba calafetando atrás.
A corrosão enfrentada por Raymundo Netto vai recebendo um conserto em que o leitor passa a ser ajudante de obra.
Esse permanente conserto dos estragos causados pelo tempo leva a uma rotina dos personagens que termina por refletir na constituição de seu material linguístico. É necessário fortificar o signo verbal para que a construção seja sólida. É preciso, às vezes, unir palavras em uma só, para que sua força verbal vitamine a argamassa frasal. Daí que aparecem: "porfavores", "dalicenças", "malholhado", "resmoneava", "dançarinava", "tempotodotempo", "calmacalmacalma", "mudice", "pelamordedeus", "malacostado", "vermelhecido", "agonioso", "diluviavam", "bramosas", "brilholhares", "doraguda", "gargalhosas", "modernosidade", "apareciaria", "desjeitosos", "deslembrada", "lembrançoso" e "demorosa". Esses brinquedos verbais, de tanto serem, terminam também por se tornarem rotineiros.
Raymundo Netto se acusa de ter-se graduado em Fisioterapia, tendo abandonado a lida com anatomias humanas para se dedicar às palavras de ossaturas deterioradas e musculaturas viciadas. Hoje é um cuidador de palavras. Sua escritura é uma verdadeira oficina de consertos verbais. Ele conserta tão bem as palavras, que elas passam a concertar nos nossos ouvidos e enfeitiçarem nossos olhos. Esse seu livro, o segundo, veio a lume após ganhar o Prêmio Osmundo Pontes de Literatura no ano de 2011.
Um dos motivos por que arrebatou esse prêmio tão concorrido fica por conta de sua vocação humanizadora na relação com os personagens. A morte não atua na sua obra. E se ocorre, é uma morte antes da morte. É uma rotina que vai envenenando certos personagens de forma tal, que eles não sentem que sucumbem. É o caso daquela dona de casa de "Álbum de fotografias". "Há anos, reclusa à vida doméstica: passava, encerava, cozia, pregava botões e cerzia as meias". Depois disso essa mulher "Revolvia gavetas, revolvia gavetas, procurando nem ela sabia o quê".
A repetição da expressão "revolvia gavetas" é um recurso estilístico para simbolizar a rotina em que está submersa a dona de casa. Por isso que até o gato insinua um movimento calculado. Afinal, no universo da rotina, tudo obedece a uma lógica repetitiva. Cada coisa possui o seu lugar, cada gesto se torna comedido porque é a repetição dos anteriores. Até no domingo, a rotina se faz presente: "Hora do almoço! Todos tomavam seus lugares, os mesmos e respeitados lugares, pequenas hierarquias". Até o estabelecimento de hierarquias termina se tornando um comportamento rotineiro.
Todos esses comportamentos rotineiros são consequência da solidão em que vivem os personagens de Raymundo Netto. Entretanto ele propõe saídas para minorar essa solidão. É a criação de gatos. O gato é o companheiro do solitário, e está muito presente nos seus contos. Em três contos o gato já aparece logo no título. São: "Gato" (página 21), "A mulher dos gatos" (página 31) e "O gato da vovó" (página 54). Isso sem contar os gatos avulsos que aparecem em outras partes de Os acangapebas. Além disso, alguns pássaros marcam presença nas suas histórias. Eles bicam frutos como se bicassem a solidão dos moradores das casas, cultivadores de jardins e pomares.
O bicar dos pássaros é também uma forma de ciscar um passado às vezes bem anterior ao próprio autor. Raymundo Netto não chegou ainda aos 50 anos, mas a leitura dos seus contos dá-nos a impressão de estarmos diante de um narrador com o dobro de sua idade. Há uma correnteza de eras desfilando na sua frase, um mergulho em um passado em busca de uma memória que constatamos não ter sido vivida pelo narrador. Essa impressão provocada ao leitor vem desde o seu primeiro livro, Um conto no passado: cadeiras na calçada, romance de 2005. É tanto que nesse seu Os acangapebas, os contos ainda cheiram a passado, e Raymundo Netto continua com suas cadeiras na calçada, contando-nos suas histórias. Como nos dão conforto essas narrativas!


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