terça-feira, 26 de novembro de 2013

Leitura crítica de Lúcia Facco para "Os Acangapebas", de Raymundo Netto (26.11)


Raymundo, seu texto é excepcionalmente bom. Um dos grandes prazeres em trabalhar com leitura crítica é justamente a oportunidade de me deparar com textos como o seu.
Para começo de conversa, devo dizer que tenho uma grande simpatia pela narrativa curta. Gosto muito do formato "conto". Logicamente, apesar dessa "preferência", o que me agradou no seu livro foi muito mais do que isso.
Sua escrita é impecável. O léxico utilizado é excelente, inclusive com a ousadia (especialmente se tratando de um autor iniciante) de criar neologismos, como um "aprendiz (ou antes, discípulo) de Guimarães Rosa". Você maneja as palavras com desenvoltura e criatividade, explorando toda a gama possível de significados.
Sem dúvida alguma, sua maneira de escrever deixa claro que você é um leitor treinado, íntimo de textos de autores sofisticados.
Sua linguagem é bastante expressiva e os temas tratados têm o caráter universal da "grande literatura". Cada conto é um mergulho na alma humana com suas peculiaridades, seus segredos, como o da mulher que guarda uma singela boneca no sótão, deixando a todos intrigados, ou o da cruel velhinha que, como a bruxa de João e Maria, cuida e alimenta os gatos para poder devorá-los. Há um desfile de personagens que nos emocionam com suas frustrações, decepções, seus despertares para um auto-conhecimento triste e para a sua invisibilidade e insignificância para o mundo que os cerca.
Podemos encontrar também contos que trazem uma amarga ironia, como o da mulher que, no fundo, no fundo, fica feliz por descobrir que o marido tinha um caso com a empregada, por sentir-se livre de um fardo: o sexo com um homem a quem não ama mais.
Enfim, seus contos exploram a complexidade humana de uma forma profunda e criativa.
Eu analiso os textos em dois níveis: o da forma e o do conteúdo. Os seus contos são excelentes nos dois aspectos da leitura.
Não me admiro nada com o fato de você ter recebido o prêmio da Academia Cearense de Letras.
Se seu livro não tivesse sido publicado, com certeza eu daria uma belíssima carta de recomendação para as editoras.
Não percebi nenhum aspecto negativo no seu texto e, portanto, tenho apenas uma sugestão a fazer: continue escrevendo!

Um abraço, Lúcia Facco.

Lúcia Facco é graduada em Letras (português-Francês), especialista e mestre em Literatura Brasileira, doutora em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), crítica literária e escritora. Tem Várias publicações técnico-científicas, além de livros de ficção. É autora dos livros As heroínas saem do armário (GLS, 2004), Lado B (GLS, 2006) e Era uma vez um casal diferente (Summus, 2009). Ganhadora do Prêmio Alejandro Cabassa (Melhor Livro de Contos), da União Brasileira de Escritores, e o Prêmio Arco-Íris de Direitos Humanos, na categoria “Literatura”. Editora da “e-mosaicos”: Revista Multidisciplinar de Ensino, Pesquisa, Extensão e Cultura do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAP-UERJ)

Um comentário:

  1. Amigo, sou fã de Lúcia Facco, da mesma forma que sou tua fã de carteirinha. Ambos são ótimos escritores!

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