segunda-feira, 11 de junho de 2012

"Aula de leitura com Monteiro Lobato", de Socorro Acioli, na Cultura (17.06)



Lançamento-Palestra
Aula de leitura com Monteiro Lobato,
de Socorro Acioli
Data: 17 de junho de 2012 (domingo), às 16h
Local: Livraria Cultura (Avenida Dom Luís, 1010 - Shopping Varanda Mall) 
Informações: 4008.0800

Sobre a Obra: Apresentado inicialmente como Dissertação de Mestrado à Universidade Federal do Ceará, esta Aula de leitura Monteiro Lobato  de Socorro Acioli ilustra bem uma das mais atuais e promissoras vertentes dos estudos literários. Ao incluir a leitura entre seus objetos, a Teoria Literária dialoga de forma produtiva e sedutora com outras áreas das ciências humanas particularmente com a História e com a Educação. É esta última área a grande parceira e , de certa forma, a destinatária privilegiada desta obra, que tem por tema a leitura .
Aula de leitura com Monteiro Lobato acerta ao eleger como porta de entrada para questões de leitura a obra de Monteiro Lobato. Debruça-se particularmente sobre seus livros infantis e mais particularmente ainda sobre a adaptação lobatiana de D. Quixote.
Com efeito, pontilhadas de cenas de leitura, as histórias do sítio constituem – como discute a autora deste belo livro- variado pano de amostra de práticas leitoras. Tais práticas, ao longo das histórias, recobrem amplo arco de modos, pressupostos, projetos e comportamentos inspirados em livros, que sugerem à autora uma original classificação de modos de ler. E, embora contextualizados nos anos 40 do século XX - época da escrita da versão definitiva das histórias- as cenas de leituras representadas são bastante atuais.
Apresentando Dona Benta como figuração de uma competente mediadora de leitura, a análise a que Socorro Acioli submete a obra infantil lobatiana permite que seus leitores encontrem no comportamento da avó de Pedrinho e Narizinho, princípios que até hoje parecem caracterizar atitudes recomendáveis a quem tem por objetivo difundir a leitura.

Em certa altura do texto, Socorro Acioli considera que a obra infantil lobatiana faculta a seus leitores a “história da vida privada de uma família de leitores”.
Beleza de formulação! 
Relativamente a este tópico e da perspectiva da qual Socorro Acioli lê as histórias do Picapau Amarelo é possível encontrar na obra do criador de Tia Nastácia vários dos temas que – sabe-se hoje- constituem questões fundamentais dos estudos da leitura.
Estão aí incluídas -entre outras- a questão da circulação do livro ( os livros vinham de um livreiro da capital) , das diferentes formas de recepção de um mesmo livro ( a reação de Pedrinho e a de Emília à leitura de D. Quixote), características da leitura do mediador ( o respeito de Dona Benta pelos textos) , ou a ainda hoje polêmica discussão da adaptação dos clássicos . 
Entabolando profícuo diálogo com a melhor tradição recente dos estudos literários  —  Roger Chartier, Regina Zilberman e H.R.Jauss para mencionar apenas três deles — “Formação de leitores: as lições infalíveis de Monteiro Lobato” vai, com certeza, marcar seu leitor com o selo de qualidade que marca o promissor encontro entre bons livros (como este) e seus leitores.

Marisa Lajolo é professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Unicamp.

"Dev(oração)", de Magna Moraes (10.6)



 
Para a carne branca do anjo
a boca que se abre
não morde
 
A fenda que se derrama
é um rio seco
que corre
 
Da garganta subterrânea
a palavra é uma rosa
que brota
 
Para a fome bruta de anjo
meus dentes brancos
são pétalas

domingo, 10 de junho de 2012

"Sólida como Pedra e Vento", Carlos Vazconcelos em especial de aniversário de Francisco Carvalho em O POVO (10.6)



Nem poeta municipal nem poeta federal, poeta de Língua Portuguesa, desses que elevam a expressão poética da flor do Lácio ad infinitum. Em um mundo globalizado, que transformou tempo em ouro, sexo em luxo e liberdade em utopia, a humanidade necessita de poetas que lutem contra a pedra no caminho, que sonhem com Pasárgada, que cantem porque o momento existe; poetas que mirem as coisas mínimas, pois quem não há de desconfiar que não existem coisas máximas, exceto o respirar tão frágil e o fechar dos olhos tão miúdo depois da cortina da noite?

Que acontece quando silêncios e vozes se entretecem? A poesia. E se o poeta é da estatura de Francisco Carvalho? A celebração. O que leva um teatro inteiro a declamar versos? O êxtase. Nos dias 21 e 22 de maio, no IV Seminário SESC Revelando a Literatura Cearense, celebramos os silêncios e vozes do poeta Francisco Carvalho. Instigamos e vimos o teatro inteiro declamando poesia, vozes de todas as idades e tons, a ala de cima, a ala de baixo, alunos, professores, escritores, leitores e simpatizantes, todos repetiram, como em oração, a “Canção do Irmão”: “Alguém tem de celebrar a paz/ pelos que pelejam/ Alguém tem de assumir a infância/ pelos que não sonham/ Alguém tem de rezar um salmo/ pelos que morreram/ Alguém tem de escrever um verso/ pelos que não amam”.

Francisco de franciscana vaidade e fortuna crítica estelar. Que alguém ainda não diga que poesia não se põe no púlpito. Repitamos com Carvalho esses paradoxos: “Fazer um poema não é dizer coisas profundas. É ver as coisas como as coisas não são”. É nessa gratuidade que reside todo o legado da poesia, desde Homero, desde Dante, desde o primeiro fiat lux. Poeta silencioso em seu estar no mundo, Carvalho atinge plena eloquência na sua poética, pois composta de vozes e de silêncios, aqueles silêncios de ouro, que valorizam as palavras. Silêncios a la Mallarmé, que dão voz aos anjos, que dão alma aos objetos.

Poética que decanta o fracasso da palavra enquanto sublima a língua: “A aranha não tece em vão/ sua secreta parábola/ em vão gastamos o ferro/ o ouro da nossa fala.” Poética que discorre sobre a inutilidade da poesia enquanto pratica sua essência: “O sentido da poesia é não ter sentido algum”. Poética que consagra o abismo enquanto constrói a ponte: “Alguns me lembram que ainda/ existe a possibilidade do amor./ Mas o amor não é uma saída/ o amor é um mergulho.” Poética que desromantiza o poema para altear a voz contra o sistema: “Quebra o teu alaúde de poeta romântico/ quebra o cristal dos teus desvarios/ e vai semear esperança nas favelas/ de pés descalços e olhos vazios”.


Poesia que esvoaça como o vento mas é sólida como a pedra, que esmiúça o cotidiano mas flerta com o metafísico, que se nutre com o erudito mas desabotoa o fardão, que decifra a esfinge mas elabora o próprio enigma. Adolfo Casais Monteiro parecia falar de Carvalho quando escreveu que “o artista-poeta é aquele que do fundo dos seus abismos e do alto dos seus céus nos comunica a expressão da sua essencialidade humana”. A poesia de Francisco Carvalho diz muito quando emudece e às vezes é impactante como as sentenças do Velho Testamento: “Perde teu olho/ mas não perde a tua liberdade”.

Nobre poeta de carvalho e nuvem, que floresce a cada livro para ofertar a todos o imenso banquete da poesia. Nos seus oitenta e cinco anos, celebraremos os séculos que se derramarão sob o porvir dos teus poemas. Nessa pastoral dos dias maduros, sob a rosa dos minutos que se alongam, repetiremos com você que “ser poeta é repartir o pão com os humilhados e ofendidos, ser poeta é fingir que o sonho é real e acreditar que a pedra pode se transformar em pássaro”.

Carlos Vazconcelos, escritor, autor de O Mundo dos Vivos, coordenador e apresentador do projeto "Bazar das Letras do SESC" e mestrando em Literatura pela Universidade Federal do Ceará.

Multimídia
Para ver - Confira, no canal do portal O POVO Online no youtube (http://www.youtube.com/portalopovoonline), a série de vídeos com o ator Ricardo Guilherme e os jornalistas Demitri Túlio (foto), Ivonilo Praciano e Michel Victor fazendo leituras dramáticas dos poemas de Francisco Carvalho.

Para ver - No programa Viva Domingo, da TV O POVO (UHF 48, NET 23 e TV Show 11), o historiador da literatura Humberto Pinheiro fala sobre a obra de Francisco Carvalho. O programa vai ao ar nesse domingo às 20h30min. Reprise amanhã às 7h.


"Memórias de Nós, Pobres Espantalhos", homenagem feita ao poeta Francisco Carvalho há cerca de três ou quatro anos. Ainda está valendo!



Nasci, à noite, num dia de São Pedro. Minha mãe sempre contou: “enquanto você estava nascendo, meu filho, eu ouvia os fogos a estourar no céu!” Deva ser daí, creio, a paixão que sinto pelas festas juninas, pelas músicas em volta da fogueira, por bandeirinhas de papel penduradas — ainda com grude — em cordões de palha, e pelos “anavans” e “anarriês” dos tempos de rapaz...

sexta-feira, 8 de junho de 2012

quarta-feira, 30 de maio de 2012

"Bem Antes", Pedro Salgueiro para O POVO (30.5)



Ele nunca fora caseiro; antes passava em casa apenas para trocar de roupa — resmungava um desaforo à esposa enquanto se encharcava de perfume. Os antigos olhos tristes, distantes na direção da porta que ele logo atravessaria para voltar apenas na manhã seguinte. Agora fingia não notar que ela escondia na sala sua melhor roupa, disfarçava no vestido a colônia de alfazema; cuidando resignadamente dos mínimos detalhes: — querido, se precisar do penico me chame. E ela de sono tão profundo bem no quarto ali de lado: — se eu não escutar, Lucinha acode, que ela tem o sono mais leve. Na manhã seguinte também fingia não perceber seus olhos inchados, o nervosismo das mãos, a solicitude gratuita, o amor eterno...
— Querido, dormiu bem!? — E afirmava ele com a cabeça, o olhar distante; o lençol escondendo a mancha de urina.
Ultimamente nem a filha mais acordava, com o mesmo sono pesado da mãe — na hora do almoço vislumbrava seus belos olhinhos vermelhos, que não mais o miravam de frente, mas sempre procurando algo para fazer.
Também fingia não notar o jeito cúmplice das duas; no passado: tão distantes — agora altivos, mais de irmãs. Não ligava para o estacionar dos carros na frente da casa, antes bem calma — pois sabia que inevitavelmente elas já estavam dormindo no quarto ao lado: e quão inútil seria chamá-las.

"A geografia verbal de Raymundo Netto", Dellano Rios para o Caderno 3 do Diário do Nordeste (30.5)


Não faltam aqueles que tomem um lugar qualquer por um ser vivo. Com humores, personalidade, pensamento e sentimento. Muitos escritores trabalharam, obsessivamente, na recriação de seu berço - caso do polonês Bruno Schulz, do irlandês James Joyce e do mineiro Guimarães Rosa.

O cearense Raymundo Netto não chega a tanto. Contudo, ele também se atem a uma geografia - mas uma geografia distinta, não aquela feita de gente e de terra. A geografia que explora é, pois, a das palavras. Em seu novo livro, Os Acangapebas, que será lançado hoje, a partir das 19h30, no Plenário da Câmara Municipal de Fortaleza, ele constrói um lugarejo linguístico, que remete ao Ceará - em tempos e espaços múltiplos, a se entrecruzarem na busca de uma harmonia.

Os Acangapebas é um livro de contos, com a uniformidade de um romance. Raymundo Netto, aliás, já havia tencionado estes limites em seu trabalho anterior, o romance Um Conto no Passado: cadeiras na calçada, ganhador do I Edital de Incentivo às Artes da Secretaria da Cultura do Estado - Secult (2004). O novo trabalho também já coleciona dois prêmios, o Edital de Literatura da Secretaria da Cultura de Fortaleza - Secultfor (2007) e do Prêmio Osmundo Pontes de Literatura da Academia Cearense de Letras - ACL (2011).

A palavra real

Se a coleção de contos se assemelha a um romance fragmentado, tamanha a unidade de estilo e conteúdo das histórias ali contadas, também é necessário acrescentar à equação literária de Os Acangapebas a poesia.

Essa ligação, aliás, é sugerida pelo autor logo no início da obra, ao citar os versos do italiano Dante Alighieri, inscritos na entrada do Inferno, em seu clássico poema A Divina Comédia - "Lasciate ogni speranza, voi che entrate" (Abandone toda a esperança aquele que por aqui entrar", em tradução livre).

E como todo bom poema, fica a cargo do leitor encontrar uma resposta para o que é dito. Afinal, de que esperança o escritor espera que seus leitores abdiquem, antes mesmo de atravessar suas páginas? Para arriscar uma resposta (e, portanto, sem garanti-la), ficaríamos tentados a identificar, aí, uma antecipação do estado de ânimo de boa parte das histórias ali contadas.

Netto as costura com uma melancolia persistente. Não chega a explodir em tristeza ou qualquer outro estado de alma mais sombrio. Contudo, está ali, a escorrer por este e aquele episódio, em pequenos dramas que, tal qual pedras colossais, não podem ser removidos. Talvez seja por isso que Raymundo Netto tenha escolhido "Luzeiros" para abrir o livro. A história é exemplar nesta melancolia: um velho pescador, que sempre enfrentou o incomensurável oceano, não consegue enfrentar os problemas que o dia a dia lhe traz. Destacam-se, ainda, histórias como "Ode ao Amor e à Morte" e "O Circo".

Homenagem

O autor lança seu novo livro em um dia especial. Netto será homenageado, em sessão solene na Plenário da Câmara Municipal de Fortaleza, com a entrega da Medalha Boticário Ferreira - comenda instituída para premiar o mérito cívico do cidadão que, em Fortaleza, se distingue pela notoriedade do seu saber, relevantes serviços à coletividade, dedicado à causa do município. O escritor trabalhou na Secult na gestão Auto Filho (2007-2010) e na atual gestão, sempre em coordenadorias dedicas ao incentivo do livro e da leitura.

Mais informações:
Sessão Solene de entrega da Medalha Boticário Ferreira ao escritor; seguida de lançamento do livro "Os Acangapebas". Às 19h30, no Plenário da Câmara Municipal de Fortaleza (R. Thompson Bulcão, 830, Luciano Cavalcante). Contato: (85) 3444.8300

LIVRO
Os Acangapebas
Raymundo Netto
Fundo de Quintal
2012, 150 páginas - R$ 20

"Raymundo Netto recebe Boticário Ferreira", Pedro Rocha para o Vida & Arte de O POVO (30.5)


Raymundo Netto, 44, lança Os Acangapebas hoje, às 19h30, no Plenário da Câmara Municipal de Fortaleza. Na verdade, trata-se de sessão solene em que o autor receberá a Medalha Boticário Ferreira e à qual decidiu juntar o lançamento dos contos da obra. Selecionado no Edital de Incentivo à Literatura da Secretaria de Cultura de Fortaleza, em 2007, e vencedor do Prêmio Osmundo Pontes da Academia Cearense de Letras de 2011, o livro estava teoricamente pronto, mas o autor não o considerava assim, até o convite para o recebimento da maior comenda do legislativo municipal.
“Foi uma surpresa boa, porque eu tenho muita admiração pelo Boticário Ferreira, gosto muito da história da cidade”, fala Raymundo sobre a medalha, lembrando a figura de Antônio Rodrigues Ferreira, prefeito de Fortaleza entre os anos 1843 e 1859. “Fico feliz pelo reconhecimento do trabalho na literatura e mais ainda pela oportunidade de lançar o livro”.

Os Acangapebas é o primeiro de contos do autor, que estreou na literatura em 2005 com o romance Um Conto no Passado: cadeiras na calçada, depois de abandonar de vez a carreira de fisioterapeuta em meados da década de 1990. De lá pra cá, escreveu ainda os infanto-juvenis A Bola da Vez (2008), A Casa de Todos e de Ninguém (2009) e Os Tributos e a Cidade (2011) – todos lançados pelas Edições Demócrito Rocha.

“Eles surgem muito da minha observação das pessoas, é um fato que me chamou a atenção, um medo estranho, uma situação estranha e a partir daí eu vou colorindo as histórias com as palavras”, conta o autor sobre a escrita dos contos. Em sua maioria, texto curtos, condensados.
Atualmente editor adjunto das Edições Demócrito Rocha, Raymundo Netto também é designer e quadrinista – produziu a capa de Os Acangapebas e dos vários livros editados pela Secretaria de Cultura do Ceará quando comandou a Coordenadoria de Políticas do Livro e de Acervos, de 2009 a 2011. O escritor também assina quinzenalmente, às quartas-feiras, uma crônica no Vida & Arte. Estes textos, adianta, devem integrar suas próximas obras, mais precisamente outros três livros – um já concluído e que será lançado ainda este ano; outros dois por dar o ponto final.
“O terceiro, eu digo, vai ser minha obra póstuma, os amigos é que vão publicar, Quando o Amor é de Graça, que são crônicas mais biográficas, em que eu falo dos meus sentimentos e da minha vida pessoal”, adianta. Nos planos de Netto ainda estão duas biografias de personalidades já mortas, mas que ele não revela os nomes.
Mais novo condecorado da cidade, Raymundo Netto largará seu hábito de estar presente em qualquer evento que diga respeito à literatura em Fortaleza, incluindo lançamentos de autores obscuros da cidade e visitas a grupos de culto à arte literária. “Ando demais em vários ambientes, ando nos ambientes mais acadêmicos, como também ando nos marginais, nos bares... Conheço muita gente.”
 SERVIÇO 
Medalha Boticário Ferreira

O quê: Entrega do título ao escritor Raymundo Netto, que lança o livro Os Acangapebas
Quando: hoje, às 19h30
Onde: Plenário da Câmara Municipal de Fortaleza (rua Thompson Bulcão, 830 – Luciano Cavalcante)

Outras informações: 3444 8300

quarta-feira, 23 de maio de 2012

AGENDE-SE: Entrega da Medalha Boticário Ferreira a Raymundo Netto e lançamento de "Os Acangapebas", de contos (30.5)


Clique na imagem para ampliar!
Convite

O Presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, vereador Acrísio Sena, convida para Sessão Solene de entrega da Medalha Boticário Ferreira a
Raymundo Netto
Requerimento de autoria do vereador Machadinho Neto, aprovado pelos demais vereadores da Câmara.
Na ocasião, será lançado o livro Os Acangapebas, de autoria do homenageado,
ganhador do Edital de Literatura da Secretaria da Cultura de Fortaleza (2007) e do Prêmio Osmundo Pontes de Literatura da Academia Cearense de Letras (2011).

Contamos com a divulgação e presença dos familiares e amigos.

Data: 30 de maio de 2012 (quarta-feira), às 19h30
Local: Plenário da Câmara Municipal de Fortaleza (rua Thompson Bulcão, 830, Luciano Cavalcante – Informações: 3444-8300 ).
Traje: Esporte fino

Sobre a Medalha Boticário Ferreira: A Medalha Boticário Ferreira, maior comenda da casa, foi instituída em 1981 pela Câmara Municipal de Fortaleza para premiar o mérito cívico do cidadão que, em Fortaleza, se distingue pela notoriedade do seu saber, relevantes serviços à coletividade, dedicado à causa do município e exemplos de dedicação ao serviço público da cidade. O nome da comenda homenageia Antônio Rodrigues Ferreira, o Boticário Ferreira, político que se destacou como bom administrador quando exerceu o cargo de prefeito de Fortaleza (1843-1859).






"Quando o Amor é de Graça XV: Palavras Mortas", Raymundo Netto para O POVO (23.05)

Piaf


Um dia aconteceu de a manhã anoitecer.
Na mente muda de pensamentos, apenas estrelas calçavam ideias.
Estas não me diziam nada, nem hálito ou hiato de luz, nada!
Pus-me na condição de pensador: à coxa, o cotovelo; o punho, como um Atlas, sustentava, acima do queixo, o grande cogumelo de Hiroshima e tudo mais que me restava.
Ouvia, como ao longe, a marcha de “Je ne regrette rien”, estivesse ela tão perto, tão perto, de pôr unhaduras no coração.
Perdeu-me o tempo nos lábios das palavras a lançar perfumes de se ouvir em pupilas.
“Non... je ne regrette rien/ Ni le bien qu'on ma fait/ Ni le mal - tout ça m'est bien égal!”

***
  Ante manhã tão original, escandalizavam-se as vontades desapropriadas de si.
(AR) Risquei uma lua no céu e ela estava lá: fria como uma pedra de gelo; branca como uma nódoa de esquecimento. “Je me fous du passé!”

***
Enquanto pintava em verso o intervalo de Deus, meu espírito esmolava uma ou outra palavrinha esmorecida tão logo a desmanchar-se perdida num infinito vialático do amanhã ser.
Olhei novamente para cima, pelas frinchas do nubiloso céu, nem sequer bandalhos. 
A pele adormentava o desejo enquanto a mente construía mosaicos ligeiros, recortes que são como hastes de sobrevivência para mim.
Centenas de relógios em mostradores brancos despertavam como sonhos que não podem ser descritos.
Entre muros, à calçada, a palavra rouca mal se ouvia.
Sentia, novamente das letras daninhas, o desejo de um fim que nem começara.
De repente, o velho rangido por detrás da parede a acompanhar a velha história que se esgotou aparecia novamente a dizer-me os passos, a pegar-me a mão cega, a espremer-lhe o dom.
Espalhava-se a febre que não ardia, o bafejo do falto de tempo num miasma de solidão.
Escrever era ulcerar-se em latejo, na terra sem piso, um amor descabido e roto bandeirante ao célebre mastro imanifesto.
Vali-me da ternura linda de dois rostos pequenos sempre a apaziguar meu coração e a torcer-me na vida. Gravei uma a uma das palavras inumadas, enquanto me enchia de vazios.
Abriram-se os umbrais azuis do horizonte. As palavras, em esquifes enfileiradas, vinham em andores de flandres, sustentados por anjos. Os demônios regicidas, logo atrás, compunham a bandinha a marcar o rasto desta vida.
  Tomada pela sede e pela fome, minha alma os engolia, quase liberta de mágoas, tristezas e arrependimentos, abraçando do funeral a voz roufenha de um cânone sonoro:
“Balayé les amours/Avec leurs trémolos/Balayés pour toujours/Je repars à zéro”.*

Contato: raymundo.netto@uol.com.br

*“Je ne regrette rien”, por Edith Piaf