sábado, 18 de março de 2017

"Lançamento de Livro II: Omissão", de Raymundo Netto para O POVO




Publicado originalmente em O POVO, em 27 de outubro de 2008

Nos dias atuais, concordemos, é muito fácil se publicar um livro; não publicá-lo, porém, diante do apelo irresistível da vaidade, é que é difícil. Eu mesmo estava tentado a não publicar essa crônica... mas fracassei!
Quando o indivíduo, certo de “querer ser” escritor — aliás, escritor já é “ex” até pelo próprio nome —, decide mostrar sua obra a um editor, descobre que no Ceará não se tem disso não. Dá até para se concluir: editora não é bom negócio, caso contrário, os americanos já estariam por cá.
No entanto, quando o escritor consegue juntar uma mixariazinha, ou a pede emprestada ao emergente cunhado, a fundo perdido, é claro, acaba se entregando nas mãos de donos de gráficas (com soberbas de editora) que batem-lhe às costas e cobram-no o serviço em troca de um “iessebeênizinho” de nada, o que para ele, o sujeito mais solitário e incompreendido do mundo, é motivo de lavar-se em lágrimas. O pior: mal o livro entra no prelo, o desgraçado passa a sonhar com a cerimônia de outorga do famoso e bronzeado quelônio, tão feinho, coitado, que não seria de todo ruim se o deixassem a segurar portas, ao invés das frágeis tartaruguinhas (suas primas) de areia.
Eu mesmo, antes de publicar meu primeiro livro, passei por vários editores, só recebendo, de certo, unânimes parabéns, parabéns, parabéns... Aliás, eles são mestres na técnica de desaparecer após tais parabéns. Conselho: quando for a sua vez, agarre bem a mão de seu editor, senão ele some!
É, vida de escritor não é fácil, mas é criativa. Conheci um que, como muitos, enviava o produto de sua lavra para escritores renomados, aguardando ansioso seus pareceres. Estes, respondiam — pressupomos que deviam ler, mesmo fosse como Jorge Amado (não li, mas já gostei) — por e-mails ou em breves cartas que o autor fotocopiava e distribuía orgulhoso entre amigos e desconhecidos em mesas de bar. Numa dessas, conferi a assinatura de um: “Dr. Scliar”. Ah, e por falar em fotocopiar, outro dia um escritor veterano afirmou que ninguém sabia, mas ele seria o autor cearense mais lido em Pindamonhangaba via “xeróx!
Acontece de tudo um pouco por aqui. Outro autor, por exemplo, revoltou-se com o livro “de papel”, fez uma fogueira no fundo do quintal e decidiu publicar somente em blogues e sites nacionais. Depois disso, orgulha-se, embora agora tenha mais de 200.000 não-leitores habituais. Tem aquele outro que, após sucessivos insucessos (que construção engraçada!), converteu-se em Jesus e chegou à conclusão de que a literatura é coisa do cão, ou mesmo o caso do rapazinho de boca suja que se diz poeta autodidata pós-modernista, pioneiro no Ceará da reforma ortográfica, trocando “j” por “g”, “s” por “z”, entre outros involuntários barbarismos que ele denomina “transgressões”.
A mais trágica história de autor e editora, entretanto, aconteceu ano passado:
Um poeta, por gênero desassistido, angustiado por não exercer sua arte como ofício, abandonou o chapéu panamá, deixou de vender livros artesanais para turistas do Dragão do Mar e decidiu procurar um editor que publicasse o seu livro (sobejamente recheado de rimas melosas: lua com tua, coração com paixão e solidão, amar com cantar e tererê e tarará).
Estava irredutível, disposto inclusive a lançá-lo em local privilegiado cujo apresentador sorridente, apesar de ler muito pouco, não poupa o público de suas súbitas intervenções, antecedendo-as sempre com “eu não sou crítico literário, mas...” e lascando a rouquenta bobagem da noite.
Enfim, voltando ao assunto, certo dia, nosso autor marcou hora e reuniu-se com um editor que, mesmo diante de apaixonadas proposições estéticas, rompeu o silêncio e disse-lhe na lata: “Lamento, não publicamos autores vivos!”
Machucado brutalmente, o poetinha arrastou o caminho de casa. Lá chegando, no centro do quarto vazio e sujo, espertou: “A poesia é minha vida!” Assim, retornou mais que ligeiro à editora, numa inquietação dos diabos, invadindo o gabinete e, diante do assombrado editor, arrematou, do cós da calça, a lâmina brilhante, anunciando num brado de causar inveja a Hamlet:
— Antes a vida pela poesia do que a morte pelo silêncio em agonia!
Dito isso, rasgou, em meio ao pranto soluçante, o pulso magro de escrevente. Encharcado em sangue e lágrimas, antevendo os prováveis estertores finais, lançou-se ainda sobre a mesa editorial, espalhando pelos cantos as canetas e chaveirinhos:
— E agora, senhor editor, morto estando eu, que motivo haveria para não me publicar? 
O editor repôs na calça a fralda da camisa e arqueou as sobrancelhas:
— De fato, você cumpriu o primeiro requisito. Agora, pegue os formulários com a secretária, traga os originais encadernados em seis vias com firma reconhecida em cartório, pague uma taxa simbólica e aguarde o telefonema... Ah, e parabéns.



3 comentários:

  1. Raymundo Netto, apesar de já nos havermos cruzado por algum dos corredores onde queimam as fogueiras da vaidade, nunca paramos para conversar.Chegamos no máximo a um cumprimento.Já publiquei alguns livros para adultos e para crianças, mas não me considero uma escritora. Já disse aos meus amigos que quero ser lembrada como professora, o que sou na realidade. Aliás, não gosto de ser tratada como escritora. Envergonho-me, inclusive. Ser escritor é ser mais do que aquilo que eu posso ser. Clarice Lispector (longe de mim querer comparar-me a Clarice), certa vez, em uma entrevista, respondeu a uma pergunta do entrevistador sobre o momento em que ela havia assumido a posição de escritor. A grande contista (para mim, ela é mais contista do que romancista) disse que jamais assumiria essa posição. O profissional é aquele que escreve por compromisso consigo mesmo ou com um outro; ela, não. Era somente uma amadora e continuaria uma amadora. Quando vejo alguém, que nem ao menos domina o idioma em que escreve, vangloriar-se de ser escritor, tenho vontade de sumir, de tanta vergonha que sinto. Obrigada por me ler. Boa noite.

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  2. Eita, Netto. Essa crítica foi um tanto desconcertante.

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