sábado, 7 de janeiro de 2017

"Carta Cansada", de Raymundo Netto para O POVO


Veio-lhe a carta. Poderia ser qualquer uma, mas não, esta era cansada. Exaurida de lágrimas, qualquer resto delas, de fadiga ou de tédio, palavras em desalinho, opressas a batidas quase surdas de um coração ferido.
Ele, nem mesmo para si guardava a dúvida: de nada sabia do amor. Numa arrazoada assertiva o teria como um horizonte distante e inalcançável, como mentira, eternamente paralelo à vida, pelo menos a dele.
Não por isso negasse dias ter pela remetente sacrificado a palavra inda quente entre os dentes, nem sabia o porquê. Seria de mais grado a ambos deixar-se vomitar o “eu te amo”. Mas qual. Fitava-lhe os olhos de âmbar e o sorriso de menina.  Guardava na polpa dos dedos aquele desejo, quase em súplices joelhos, em forma de impressões e ardor da pele dourada. Buscava no lóbulo da orelha sob o cabelos furiosos o corpo que se expandia num abraço de acolhê-lo todo e inteiro – carne, alma e algo mais indescrito – em noites intermináveis de sempre ter um capítulo de fim. Agarrava-se aos cabelos como a tomá-la para si, para dentro de si, beijando-lhes os olhos para não cair de suas lembranças.
No escuro, sua voz ainda corria a curva dos ouvidos: “Eu tentei... ‘Morri no ano passado, mas nesse ano eu não morro’. Talvez eu tenha entendido ter chegado a hora de não querer mais entender. Seja feliz e adeus.”
“Adeus”, repetia, desbastando em retalhos as memórias que lhe vinham uma a uma, atravessando o peito e saltando do trampolim sobre as águas de malogrados esquecimentos.
Noutros dias, ao beijar outra mulher, sua boca estranhou o incômodo da boca distante. Seus dedos, como se perdidos no chão, procuravam encontrar no corpo alheio as mesmas e aquelas impressões e ardores que repousavam à pele dourada. Entretanto, nada encontraram, volvendo-se a noite em escura e desértica. A sua ausência materializou-se e desabou em chuva, a revelar no espelho que o seu pior castigo nem era ser ele mesmo, mas viver sem o perigo daquele abraço.
Do vizinho, uma radiola arranhava em long-play antigo: “entre os defeitos que tenho um é gostar de você.”
“Conte-me uma história...”, indicava no silêncio delicado, enquanto na fúria dos azuis do luar ela despedia-se num abraço calcado quase em morte, em solidariedade de vazios e de saudades, num frouxo rompante:
“Eu te amei, eu te amo, não te amarei nunca mais!”


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