segunda-feira, 21 de setembro de 2026

"Volta ao Mundo com Nellie Bly II", de Raymundo Netto para O POVO


Provavelmente, a última foto de Nellie Bly

Na crônica anterior, falamos de uma Elizabeth Cochrane (1864-1922), a “Nellie Bly”, que as pessoas geralmente conhecem. Hoje, desvendamos parte de seu lado B, ainda silenciado ou, pelo menos, pouco conhecido da jornalista.

Perdeu o pai, juiz de profissão, muito jovem. Sem deixar testamento, a família caiu em penúria, levando a mãe a casar-se novamente. Mas, além de alcoólatra, esse marido se mostrou violento. Passou a agredir e a humilhar a mãe de “Pink” – como Nellie era chamada pela família, na época – e a ameaçá-la de morte toda vez que ela mencionava divórcio. Por isso, aos 14 anos, Nellie precisou depor em tribunal contra o padrasto, revelando as agressões sofridas pela mãe, episódio que tentaria mais tarde apagar de sua história. Determinada a não se casar – afirmava que, ao lado de um pobre viveria como empregada e, ao lado de um rico seria uma “boneca de estimação” –, decidiu ingressar na universidade para se formar professora. Contudo, diante da dificuldade financeira da família, cursou apenas um semestre, despertando-lhe intensa frustração.

Para sobreviver, a família assumiu a direção de pensão modesta destinada a trabalhadores. Lá, Nellie lavava roupas, limpava quartos, banheiros, servia almoço para operários, sem qualquer perspectiva de futuro, até o dia em que leu, indignada, o artigo “Para que servem as meninas”, no Pittsburgh Dispatch. Dali, como já sabem, nasceu a “Nellie Bly”, pseudônimo inspirado numa personagem da música de Stephen Foster (1826-1864), na qual o marido, tocando banjo, dita ordens domésticas: “Nelly Bly, traz a vassoura aqui/ Vamos limpar a cozinha, meu bem./ Pique a lenha, meu amor,/ E faça o fogo arder./ Enquanto eu pego o banjo,/Dá uma mexida na polenta”.

Aos trinta e um anos, reconhecida como grande jornalista investigativa e autora do romance policial O Mistério do Central Park (1889), conheceu Robert Seaman, magnata do ramo de manufatura de ferro esmaltado, quarenta anos mais velho do que ela. Semanas depois, se casaram em Nova York. Houve grande burburinho, não apenas pela diferença de idade do casal, mas por ela deixar o Jornalismo para se dedicar, aparentemente, ao lar e aos cuidados com o marido.

O casamento, no entanto, durou apenas nove anos. Com a morte de Seaman, vítima de complicações de um acidente, Nellie assumiu a empresa. Criativa, embora sem vocação burocrática, passou a desenhar e a fabricar produtos inovadores que ela patenteou, como tambor de aço de costura dupla para transporte de petróleo, latas de leite de aço esmaltado e baldes de lixo automatizados. No contato próximo e com a escuta ativa de seus operários, determinou a instalação de clínicas de pronto-atendimento a eles e às famílias, fundou um clube esportivo, inaugurou uma biblioteca e garantia salários mais justos e férias. Enquanto isso, não sabia, mas a sua notória aversão à rotina administrativa permitiu o desvio de verbas da empresa pela equipe de contadores e gerentes. Durante anos de litígios judiciais, perdeu tudo e só não caiu em miséria porque regressou ao Jornalismo, sua maior paixão, atuando na cobertura da Primeira Guerra Mundial.

Mesmo finda a guerra, residindo sozinha em humilde quarto de hotel em Manhattan, não deixou mais de escrever. Agora, utilizava as suas colunas de jornal para acolher mães solteiras, mulheres desamparadas e crianças órfãs em busca de abrigo. Chegou a apoiar financeiramente – doando seus poucos recursos ou de amigos solidários – a famílias e a órfãos desfavorecidos.

Faleceu em 1922, pobre, sem direito a uma lápide, que só chegaria quase 60 anos depois, em reconhecimento da comunidade a toda a sua curiosa e inspiradora trajetória.

 

A Nellie Bly como deu a volta ao mundo em 72 dias

A ainda jovem Nellie Bly





 

domingo, 6 de setembro de 2026

"Volta ao Mundo com Nellie Bly I", de Raymundo Netto para O POVO


Nellie em 1890.

Elizabeth Cochrane (1864-1922) nasceu na Pensilvânia, na costa leste dos EUA.

Tinha 21 anos quando leu “Para que servem as meninas”, coluna do jornal Pittsburgh Dispatch, na qual se afirmava que cabiam às mulheres apenas o casamento, a maternidade e os afazeres domésticos. Indignada, escreveu ao periódico sob o pseudônimo “Garota Órfã Solitária” contestando a coluna. Impressionado com a sua escrita e veemência, o editor publicou anúncio solicitando à autora a apresentar-se à Redação. Corajosa, assim o fez, sendo convidada para escrever artigo com o mesmo pseudônimo. Pouco depois, sairia no Pittsburgh Dispatch o seu texto, no qual defendia: as mulheres não eram obrigadas a casar e se estavam em casa era por não haver no mercado boas oportunidades de emprego para elas. É compreensível que o artigo “O Enigma da Garota” gerasse polêmica. Daí, um segundo artigo, “Casamentos Loucos”, em que propunha a reforma da lei do divórcio vigente, denunciando o impacto desigual na vida das mulheres. Desta vez, assinaria com novo pseudônimo, aquele que levaria para o resto de sua vida: Nellie Bly.

Integrada ao jornal, Nellie dedicou-se a combater a dura realidade de crianças e mulheres operárias. Para isso, disfarçou-se e conseguiu ser contratada como operária de uma fábrica de cabos de cobre, a fim de sentir na pele as condições de trabalho impostas a elas. Seus artigos tiveram grande repercussão. Ao mesmo tempo que comoveram a opinião pública, enfureceram os industriais – alguns deles deveriam ser anunciantes do periódico – que exigiram providências. Por isso, Nellie seria conduzida às Páginas Femininas, restritas à moda, jardinagem, culinária e a eventos artísticos e sociais. 

Inconformada, dispôs-se a viajar ao México, na condição de correspondente internacional. Em plena ditadura de Porfírio Diaz, cobriu durante seis meses a repressão e a censura à imprensa, recebendo ameaças de prisão antes de escapar às pressas do país.

Em 1887, havia deixado o Pittsburgh Dispatch e tentava carreira em Nova York, enfrentando diversas recusas, até ser aceita no New York World, de Joseph Pulitzer, assumindo missão de jornalismo investigativo: fingir insanidade para ser internada no Asilo de Mulheres Lunáticas na antiga Ilha Blackwell. Aliás, na época, era comum que maridos insatisfeitos com as esposas dessem um jeitinho para interná-las a qualquer pretexto nessas unidades. Eram leitoras, inteligentes, com pretensões intelectuais? Então, não havia dúvida: só poderiam ser malucas! Assim, após vários dias infiltrada, vivenciando os maus-tratos no Asilo, ela quase não obteve alta, sendo necessária a intervenção do jornal para ser liberta e denunciar ao mundo os abusos e as péssimas condutas de atendimento dessas instituições.  

No ano seguinte, ela, então reconhecida como um grande nome da imprensa, resolveu lançar-se a um grande desafio: completar a volta ao mundo, tal qual o protagonista do famoso romance do francês Júlio Verne (1828-1905) publicado 15 anos antes.

Em 1889, seria dada a largada. O New York World acompanharia o feito com distribuição de prêmios, relatos de viagem de Nellie, entre outras promoções. Era a primeira vez que se fazia algo assim. E Nellie Bly realizou a sua volta ao mundo, mas não em 80, e, sim, em 72 dias, estabelecendo um novo recorde mundial!

Casou-se aos 31 anos e enviuvou aos 40. Em 1913, escreveu o famoso artigo “Sufragistas são superiores aos homens” – onde previu com curiosa exatidão que as mulheres americanas conquistariam o direito de voto em 1920 – e foi presa em plena zona de conflito, durante a I Guerra Mundial, ao ser confundida com uma espiã britânica.

Aos 58 anos, residia em um humilde quarto de hotel em Manhattan e ainda colaborava com a imprensa, quando precisou ser internada e faleceu, vítima de pneumonia. Foi enterrada em túmulo modesto e sem lápide no cemitério de Woodlawn, no Bronx. Deixou, contudo, uma marca para a história do jornalismo investigativo e para o avanço dos direitos das mulheres. 

Nellie Bly, presente!