Rio,
31 de dezembro de 1854.
José
de Alencar, em seus 25 aninhos, cronista do Correio Mercantil, nos conta
que havia acabado de concluir a leitura de contos de E.T.A. Hoffman e se
preparava para escrever a crônica de final de ano, quando bateram à sua porta.
Ficou bastante irritado e escreveu: “Se algum dia fordes jornalista, haveis de
compreender como é importuno o homem que vem distrair-vos justamente no momento
em que a primeira ideia, ainda no estado de embrião, começa-se a formar no
pensamento, e quando a pena impaciente espera o primeiro sinal para lançar-se
sobre o papel”. Diz não haver nada tão ruim que se compare a isso, nem mesmo quando
o interrompem no momento de uma declaração de amor ou quando o seguram na hora
de tomar o ônibus ou a barca. Existe, contudo, exceção: quando for uma mulher
bonita, “para quem estou persuadido que não se inventaram relógios.”
Pois
sim, mal-humorado, abriu a porta e, veja só, era apenas o Ano Velho, magro
“como um varapau”, vestido em preto e com “certo ar de ministro demitido, de
deputado não reeleito ou diplomata em disponibilidade”.
Trazia
por debaixo do braço grande maço de jornais, planos e projetos realizados ou
não. Mas, afinal, o que ele queria? Vinha, muito humildemente, reconhecendo o
jovem jornalista, suplicar-lhe a sua indulgência para com ele, sabido que,
naquele período, emitiria juízos sobre o ano que se findava, ou seja, ELE
próprio!
Alencar,
que antes desconfiara ser o visitante um paciente de hospício, assim mesmo não
o poupou: boa vontade só não bastava, exigia fatos. E daí deu-se início ao
divertido debate no qual o pobre Velho tentou defender os seus atos, enquanto
Alencar, em seus apontamentos, repelia a maior parte de seus argumentos: a
estrada de ferro não construída, os maus cuidados à cidade, o advento da
iluminação a gás – que além de ser uma ideia do outro Velho, o de 1853, teria
“roubado o encanto dos belos luares, e de haver privado os namorados daquelas
noites escuras tão favoráveis a uma conversinha de rótula ou a um passeio de
rua na Ouvidor” –, a demora da instalação de ruas, a reorganização da Academia
das Belas-Artes, o risco da cólera... No entanto, quando o Velho de 54 o
lembrou que esse “risco” rendeu matéria para um folhetim justamente quando o cronista
estava bem “apertado”, acabou perdoando. Mas havia algo que Alencar não o
perdoaria jamais: “Ter-me feito mais velho um ano!”
Continuou:
passou a bradar de seu desprezo pelas glórias, ambições e pela política, em
detrimento às doces ilusões da mocidade, “as primeiras lágrimas do coração, que
perfumam os sonhos mais belos desta vida”, as verdadeiras afeições, “as mais
belas expansões de nossa alma”, afinal, para que tantas honras e celebrações, se
podemos “colher numa linda boquinha rosada duas palavras que nos abrem o céu”?
Não
sabendo mais se dizia aquilo tudo ou se apenas pensava, e em compaixão ao
hóspede – teria apenas mais dois dias de vida –, acendeu o seu charuto na vela
quase a apagar-se, estalou as juntas, e continuou a palestrar com ele sobre as
guerras e o futuro do país. Ao final, sem perceber, Alencar adormeceu e não
sabe mais o que se passou.
E
nós: 2025 finda, como tudo no mundo que nasce e inevitavelmente morre, mas
ninguém pode nos tirar a vida vivida, o beijo roubado, o abraço apertado e a
palavra sofrida.
Apesar
do cânone dos ressentidos, José de Alencar é um dos maiores cronistas
brasileiros.
E,
com licença, pois alguém me bate à porta... Logo agora?

