segunda-feira, 27 de abril de 2026

Lançamento "Fortitudine: Reino de Luz", de Diego Pontes, em 29 de abril, às 19h, no foyer do Theatro José de Alencar


Fortitudine: Reino de Luz (Armazém da Cultura, 2026), de Diego Pontes, 

novela do gênero fantasia juvenil

LANÇAMENTO

Data: 29 de abril de 2026, a partir das 19h

Local: Foyer do Theatro José de Alencar (rua Liberato Barroso, 525, Centro, Fortaleza – CE)

Preço de capa: R$ 65,00

 

SOBRE A OBRA

Fortitudine: Reino de Luz revisita a história e a memória cultural de Fortaleza em seus 300 anos. O novo livro do escritor Diego Pontes cria um reino encantado inspirado na Fortaleza da Belle Époque e propõe um olhar contemporâneo sobre identidade, patrimônio e pertencimento.

Em 2026, ano em que Fortaleza celebra seus 300 anos, o escritor cearense Diego Pontes lança essa novela de fantasia juvenil que transforma elementos históricos e culturais da cidade em um universo simbólico voltado para jovens leitores.

Publicado pela Editora Armazém da Cultura, o livro combina imaginação literária, pesquisa histórica e reflexão sobre memória e identidade cultural.

Ambientada em um reino fictício inspirado na Fortaleza entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX — período marcado pelas transformações da Belle Époque — a narrativa constrói uma espécie de conto fundacional para a cidade. A história acompanha personagens que atravessam paisagens encantadas e conflitos simbólicos, enquanto lidam com temas universais como amadurecimento, pertencimento e a busca por identidade.

No centro da narrativa está Fortitudine, um reino sustentado pela luz e pela memória de seu povo, cuja existência é ameaçada por um antigo pacto com a bruxa Sarsalina, figura que simboliza o apagamento das lembranças e a erosão das histórias coletivas.

É nesse cenário que surge Eudine, herdeira da luz e marcada por uma profecia, e Benício, jovem cordelista que atravessa a mata branca em busca de prosperidade. Quando seus caminhos se cruzam, o destino do reino — e da memória que o sustenta — entra em jogo.

Ao utilizar a fantasia como linguagem narrativa, Diego Pontes propõe uma aproximação entre ficção e história. O universo de Fortitudine incorpora referências à geografia, à memória urbana e aos processos de transformação vividos por Fortaleza ao longo de sua história, dialogando também com o imaginário cultural e com a presença dos povos originários do Ceará, inspiração para o povo ficcional Guarilum, que habita o livro.

A obra também toca em temas contemporâneos como o apagamento do patrimônio cultural — material e imaterial — e a necessidade de preservar as memórias que constituem a identidade de uma cidade. Em vez de apresentar uma reconstituição histórica tradicional, o autor utiliza símbolos, arquétipos e elementos do fantástico para sugerir novas formas de olhar para o passado e compreender o presente: “Fortitudine nasce do desejo de olhar para a cidade onde nasci e reconhecer nela as camadas de história que muitas vezes passam despercebidas no cotidiano. A literatura tem o poder de criar pontes entre memória e imaginação, permitindo que novas gerações se aproximem da história de forma viva e sensível”, afirma o autor.

Com leitura ágil, Fortitudine: Reino de Luz também dialoga com questões psicológicas próprias da adolescência, como a construção da identidade, o autoconhecimento e a passagem para a vida adulta. Ao mesmo tempo, convida os leitores a refletir sobre sua relação com o lugar onde vivem e sobre a importância da memória coletiva na construção de uma cultura. Mais do que uma narrativa fantástica, o livro se apresenta como um gesto simbólico de celebração e reflexão sobre Fortaleza em seus três séculos de história — um convite para redescobrir a cidade por meio da literatura.

 

SINOPSE

Fortitudine é um reino sustentado pela luz e a memória de seu povo. Esculpido pelo vento e a dança entre terra e oceano, vê sua existência ameaçada por um antigo pacto feito com a bruxa Sarsalina, cuja presença seca as lágrimas, apaga as lembranças e transforma tudo o que reluz em sal.

Eudine, herdeira da luz e marcada por uma profecia, cresce sem conhecer a verdade sobre o seu destino, até o momento em que a sobrevivência do reino passa a depender de sua coragem. Enquanto isso, Benício, um jovem cordelista, atravessa a mata branca em busca de prosperidade. Em sua jornada, descobre que a poesia também é capaz de alimentar a alma. Quando seus caminhos se cruzam, o futuro de Fortitudine entra em suspensão. Em meio ao apagamento, a seres encantados e às memórias que resistem, a história revela o mistério de como manter a luz acesa e restaurar o equilíbrio entre o reino e a claridade que o ilumina.

 

SOBRE O AUTOR

Diego Pontes é escritor e criador do universo literário Reino Fortitudine. Nascido em Fortaleza e radicado em Paris, desenvolve uma obra que une imaginação narrativa, sensibilidade e reflexão sobre as experiências da infância e da juventude. Desde cedo, se relaciona com as histórias por meio de múltiplas linguagens — quadrinhos, charge, teatro, artes visuais e literatura — que moldaram sua forma de construir narrativas e mundos atravessados por conflitos internos e transformações subjetivas.

A partir da observação do humano, primeiro na arte e depois na clínica, desenvolveu um interesse profundo pelas narrativas invisíveis — aquelas em que os sentidos buscam as palavras.

Em 2015, publicou seu primeiro livro, O Diário Gráfico de Kitty (Armazém da Cultura), no qual revisita a memória de Anne Frank por meio de uma narrativa visual sensível. A obra marca o início de um percurso literário comprometido com temas que convidam jovens leitores à reflexão sobre valores humanos universais.

Formado em Psicologia, com mestrado em psicopatologia infantojuvenil pela Université Paris Cité, integra sua experiência clínica à escrita, influenciando a construção de personagens e suas jornadas de amadurecimento.

Diego acredita no espaço potencial criativo que a arte e a literatura oferecem à vida do sujeito — especialmente aos mais jovens. Por isso, tanto na clínica quanto na escrita, busca criar ambientes seguros onde seja possível sonhar e se desenvolver.







 




 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

"A revisão de Vida", de Raymundo Netto para O POVO (resenha)


Muita gente ignora, mas o Ceará é sede de fértil manancial de artistas de quadrinhos, alguns deles reconhecidos e em exercício, inclusive, no mercado europeu, norte-americano e australiano. Eles transitam entre nós, frequentam os mesmos bares, cafeterias, praças e shoppings, mas anônimos, sem assédios e selfies de fãs deslumbrados, mesmo por aqueles que curtem as HQs nas quais participaram. Na verdade, há até quem duvide, quando se apresenta alguém aqui da terrinha que desenhou ou arte-finalizou o Batman, Superman, Mulher Maravilha, X-Man, Fantasma...

Ao conhecer esse filão, nos é revelado um paradoxo: são raras as publicações editoriais e não independentes em quadrinhos no Ceará. Existem vários motivos desencadeadores dessa realidade, mas, por ora, não iremos nos deter à “gourmetização” dos quadrinhos, da extinção das bancas de revistas e escassez de publicações a preço popular, a falta de políticas públicas para a produção específica do segmento e da incompreensão/preconceito da sociedade em torno das diversas possibilidades que essa mídia pode ofertar como recurso de formação de leitores, de construção de conhecimentos e até de estímulo ao debate social.

Prefiro contar a você que existe no Ceará a Avoante, editora determinada a publicar quadrinhos e dos bons. Entre outros, este ano, publicou Revisão, de Luís Carlos Sousa, com desenhos de Rodrigo Matos e arte-final do Camarada Pedro, além da contribuição de diversos outros atores da cena contemporânea dos quadrinhos cearenses.

É uma graphic novel de 98 páginas em P&B, com excelente qualidade editorial e gráfica na qual se percebe na sua execução a intimidade com o gênero e o adequado emprego dos recursos gráficos, dos elementos visuais e narrativos da Arte Sequencial.

No roteiro sensível, fluido e muito bem construído, acompanhamos o personagem Carlos, a princípio em sua infância, tomando conta de Onofre, um pai conflituoso, difícil, e sofrendo o injustificado abandono de Rosa, sua mãe. Depois, na atualidade, o encontramos trabalhando como revisor de textos em editora e vivendo uma relação tóxica e ausente com seu companheiro Eduardo, até um fato promover encontros e desencontros e o desenrolar de uma série de angústias, revelações inesperadas e as consequentes tomadas de decisão do protagonista diante do seu drama familiar.

De forma lúdica e sem precisar empregar discursos enfadonhos, a obra desperta reflexões no leitor, ao mergulhar em questões psicológicas profundas, versando sobre os people-pleasers (agradadores compulsivos), a codependência funcional e os impactos de relacionamentos abusivos.

No desenrolar da história, Carlos vive uma experiência de empatia e de resgate de seu amor-próprio, provocando nele uma “revisão” de si mesmo, ao compreender que as suas atitudes – ou a falta delas – e o seu comportamento – insegurança, ansiedade, baixa autoestima, medo do abandono e de rejeição – eram as raízes de seu sofrimento.

Acredito que existam muitos “Carlos” por aí que precisam urgentemente fazer também essa revisão de si, e ler “Revisão”.

A obra está disponível na revistaria Reboot Comics Store no Shopping Benfica ou no site da Avoante (avoanteeditora.com.br).

Uma ótima leitura para você.




 

domingo, 12 de abril de 2026

"A Fortaleza das Cadeiras nas Calçadas", de Batista de Lima para o Diário do Nordeste


Por Batista de Lima

Publicado originalmente no Caderno 3 do Diário do Nordeste, em 24 de julho de 2007. 

Houve um tempo em Fortaleza, em que as pessoas colocavam as cadeiras nas calçadas e contavam histórias umas às outras. Os mais velhos contavam e os mais jovens ouviam extasiados. Era um tempo em que a televisão ainda não havia alienado nossos ouvidos e nossos olhos.

Foi partindo desse referencial que Raymundo Netto escreveu seu livro Um Conto no Passado: cadeiras na calçada. Escreveu e inscreveu na Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, sendo então ganhador do Prêmio de Incentivo à Publicação e Divulgação de Obra Inédita na categoria Romance.

Publicado em 2005 pelas Edições Livro Técnico, na ficha catalográfica está escrito “conto cearense”. Essa falta de uma definição do gênero pode até ser proveitosa, pois cabe ao leitor rotular do que quiser. Eu chamaria apenas de “Narrativas”.

O importante nesse livro é a viagem que o autor faz por uma Fortaleza que não existe mais, começando por um tempo em que a Barão do Rio Branco ainda se chamava Rua Formosa e em que as fachadas das casas apresentavam frontões, cimalhas, jacarés na platibanda e arabescos que o tempo se encarregou de devastar pelas mãos destruidoras de seus moradores.

Raymundo Netto, no entanto, reconstrói esse contexto devastado. Restaura a antiga paisagem, usando seus chinelos de cordovão, como fazia aquele esperto novo rico personagem machadiano. Depois acende um candeeiro para verificar as rótulas das janelas, as taramelas das portas, os punhos das redes, feitas com algodão do seridó. Vai em seguida à pensão de dona Amélia Campos, sem esquecer uma passada no Café Java para um dedo de prosa com Antônio Sales e Mané Coco.

Isso torna-se possível quando o jovem escritor, de posse de seu candeeiro de porcelana com manga de vidro, começa a clarear um passado que teima em se esconder na penumbra do tempo. Daí ele se dirige de fraque e com o cabelo besuntado de brilhantina para um baile na Itapuca Villa, na Guilherme Rocha, um pouco antes do aristocrático Jacarecanga, onde o morador se distinguia pelo tamanho do seu bangalô ou pelo número de compartimentos de sua mansão. É então que todo um clima da belle époque fortalezense é criado pelo autor ao som da música “Ontem ao luar”, tomando champagne, usando pincenê e transitando na rua de cabriolet.

Raymundo Netto consegue estabelecer um diálogo da ficção com a realidade. Para que o real se imponha sobre o ficcional ele acrescentou à sua narrativa, imagens fotográficas da Fortaleza histórica. Ícones da arquitetura fortalezense ilustram quase todas as páginas do livro e conferem ao leitor a possibilidade de, mesmo enveredando pelo enredo fictício, não desgrudar do nosso patrimônio cultural. É por isso que os bancos da Praça do Ferreira recebem os nomes que um dia ostentaram para o público e entraram para o folclore: “Banco da Opinião Pública”, “Banco da Democracia”, “Banco dos Comunistas” e o “Banco que não teve nome”.

Nessa mesma Praça do Ferreira ainda se mantém de pé, abrigando uma agência da Caixa Econômica, o Palacete Ceará. Ali, no andar térreo, funcionava a Confeitaria Rotisserie e na parte superior o animado Clube Iracema. Isso tudo no tempo em que motorista era chofer, a Major Facundo era Rua do Palma, o Majestic era o cinema chique e Ponce de Leon era o Rei Momo do Carnaval. Todos esses acontecimentos ocorrendo quando o Estoril ainda era Vila Morena, a Segunda Guerra nem havia começado, a morte do bode Yoyô causava consternação na cidade e Manezinho do Bispo, semianalfabeto, lançava livros de moral e humor.

Ao lado do caminho ficcional do livro, trafega uma via histórica e real da cidade de Fortaleza. O hospital principal é a Santa Casa de Misericórdia, fundada em 1861. O Passeio Público vai dando espaço para a Praça do Ferreira. A estátua de Nossa Senhora da Paz se ergue defronte à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no Centro, e não em frente da Igreja da Paz, na Aldeota. As praças são iluminadas por combustores de gás carbônico que em dia de lua cheia não eram acesos, por economia. E essa penumbra que se instalava, vai se instalando à proporção que mergulhamos no passado.

Nesse passado não tão remoto abrem-se as cortinas da década de 1930 e ocorrem várias mudanças sociais a partir da Revolução que depôs o Presidente da República, no caso, Washington Luiz. Aqui no Ceará terminava o mandato de Matos Peixoto que, à frente do governo do Estado, destacava-se pelos bailes que promovia no Palácio da Luz e no Clube Iracema. O seu grande destaque era o fato de ser exímio dançarino.

É no início dessa década, mais precisamente em 1931, que aos noventa e cinco anos, falece Juvenal Galeno, que deixa sua casa como ponto de encontro até hoje de intelectuais e artistas, na rua General Sampaio, 1128. E vem a descrição do poeta “sentado numa rede, de gorro azul na cabeça e provando seu rapé, enquanto ditava para Henriqueta, sua filha, alguns versos”.

No ano seguinte, 1932, perdíamos Rodolfo Teófilo, o benemérito da pátria. Essas personalidades e os fatos históricos vão sendo tratados ao longo da narrativa.

Finalmente chega-se ao final do livro como quem acaba de fazer um passeio pela Fortaleza dos tempos idos. Pensa-se tratar-se, o autor, de um velho fortalezense revivendo seu passado. Raymundo Netto, no entanto, ainda não chegou aos quarenta anos. É, todavia, amante desta cidade. E sofre com a sua descaracterização. Daí justifica porque escreveu o livro: “Escrevi porque me dói no coração o abandono e a ingratidão mesquinha por parte dos filhos dessa cidade que não aprenderam a amá-la... É a nossa Fortaleza como uma mãe esquecida”.



 




 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

"Invasão", de Raymundo Netto para O POVO


Foto: Imago/ZUMA Press/U.S. Army

À madrugada, telejornais anunciavam a ocupação de Burak, um paisote totalmente ignorado, não fosse um tabloide sensacionalista revelar ali a existência de uma riqueza ímpar na Terra, misteriosamente intacta, tomando quase todo o seu solo.

Havia um príncipe, diziam “ditador”, que, embora desconhecido, provavelmente não respeitava os direitos civis e usava de força e tirania para dominar o seu povo. Algo assim afronta sempre os Estados Unidos, desinteressado e incondicional defensor da democracia e dos povos sofridos deste Planeta. Não faltaria muito – não tinham provas, mas convicções – para que Burak ameaçasse a vida humana com armas de destruição em massa. Assim, o presidente americano, em seu Oval Room, decidiu enviar tropas para invadi-lo. A ONU, após caríssimos meetings, não concordou, mas eles não quiseram nem saber – afinal a sede da ONU é onde mesmo? – e, sem pudor algum, noticiaram a convocação de toda a inteligência e de seu poderio bélico em uma operação cívica e patriótica – e por que não Cristã? – contra o “inferno terrorista” de Burak. Os jornais de todo o mundo se dirigiram às estreitas fronteiras tentando registrar o conflito. O embate estava lançado, o “grande furo”, o maior massacre da história transmitido via satélite.

A invasão se deu à noite. Confiante, a força militar chegava por terra, pelo céu e pelo mar. Um desfile de tanques blindados, milhares de soldados descendo em flores de paraquedas. Uns, por trás de escudos, munidos de metralhadoras, granadas e bazucas, se jogavam e arrastavam-se pelas areias e por trás de rochas negras. Outros, desciam velozes de tanques anfíbios pelo mar. Aviões reluzentes iniciaram o bombardeio aéreo. Uma produção digna de Hollywood. Os oficiais, com trajes de segurança, falavam de liberdade aos jornalistas: “Não iria custar aquela rendição. Seria uma revolução sem sangue!”

Porém, após tanto barulho, em meio à fumaça que se espalhava inofensiva, todos se perguntavam: “Cadê o Exército buraquiano?”. Os soldados, confusos e ansiosos para mandar bala, se angustiavam com o silêncio sem fim. Queriam aparecer na TV, heróis que eram... ou que afirmavam que eles seriam. Os repórteres entediavam a audiência com reclames de sabão em pó. Um suspense literalmente de matar, mas ninguém morria, ninguém aparecia, ninguém se dignava a morrer em Burak.

Ao comando, os soldados adentraram o terreno cada vez mais. Já entravam em palhoças, apontando as armas, sedentos de qualquer coisa – inclusive de pequenos saques ou abusos de mulheres, afinal, eram apenas inimigas –, mas nada encontravam. Nem soldados, nem civis. Ninguém. Nada. Já temiam e tremiam à espera do aguardado momento.

Na escuridão quente como brasa, imagine que um por um daqueles soldados começaram a tombar. Ouviu-se um primeiro grito antes do papocar insano de metralhadoras: “He is dead! Deaaad!” 

Ninguém via o que os acertava, de onde vinha, se vinha, eles caíam ou sumiam, restando-lhes apenas os trajes semienterrados nas areias. Com pouco, em meio ao pânico e à cegueira da noite, os soldados acertavam uns aos outros. Granadas e armas explodiam em cadeia. Em toda a parte, pessoas em chamas. O pavor só não era maior que a carnificina. Homens fortemente armados corriam no cessar fogo. As câmeras de TV, como espalha-brasas, mexiam-se em vão para todos os lados, só conseguindo registrar mesmo a retirada em fuga, o choro em calças borradas num escandaloso pânico não americano.

Nunca se soube explicar o que aconteceu. No geral, pessoas comentavam: “Como aquele povo insignificante e invisível ao mundo, pôde chutar os fundos da maior Potência Mundial, herdeira da Terra e de seus quiosques em shoppings?”

Em Burak, distante das câmeras de TV, aquele povo emergia das areias: eram crianças, apenas elas, todas cegas, pálidas, magérrimas e sorridentes, encordoadas com pedras e paus, se amostrando então em trajes novos de assassinos e com a mais rara e legítima vontade de viver.