segunda-feira, 27 de julho de 2026

"Loas a Pedro Salgueiro", de Raymundo Netto para O POVO


Conheci o contista e cronista Pedro Salgueiro em uma van rumo ao Aracati, em 2005, quando lancei meu primeiro livro: “Um Conto no Passado: cadeiras na calçada”.

O Pedro é funcionário público. Na época, tinha parte das tardes livres e eu estava terrivelmente desempregado. Assim, passei a encontrá-lo muito frequentemente, fosse em sua casa – e até participando das festas de sua família, pois ele ama a sua família –, em livrarias, sebos e bares ou em lançamentos, onde ele me apresentava a escritores cearenses e aos escritores do mundo, em horas e horas de conversas sem pressa em alguma calçada de bar. Além de ter uma biblioteca imensa, ele compra livros para distribuir aos amigos e chegados. Sensível, inteligente e generoso, ele lê as obras desses amigos, percebe-lhes as tendências, estilos e afinidades e oferece a eles livros que crê serem indispensáveis à sua formação literária. Acompanhado de copos de cerveja e de tripa assada, em seus grupos – é muito gregário – ele é apenas um leitor, mas um grande leitor. Sem pedantismo, analisa as obras, destrincha narrativas, discorre sobre a biografia e particularidades daqueles autores, quase como se fossem vizinhos ou amigos, numa naturalidade de quem vive o que diz e o que faz.

Na época que o conheci, ele estava com a coletânea de contos “Dos Valores do Inimigo” no Vestibular da UFC. Diversas vezes, pude assistir ao brilho do olhar dos jovens estudantes que se reuniam em grupos para conversar com ele. Eram rodas alegres, e não havia ali uma estrela, um escritor sobre pedestal, mas um homem simples que ama a literatura que lê – e como lê – e que produz, mas em um ritmo descansado, pois sempre preferiu viver do que cultuar a viciosa sede da fama. Com seu boné sobre a cabeça, o copinho americano de cerveja em uma mão e pendendo na ponta do indicador da outra um saco plástico com mais livros adquiridos de sebos da região, Pedro desmitificava a figura do escritor. Expunha sobre sua escrita, suas influências e seus mestres em uma conversa tão despretensiosa a deixar claro para aqueles jovens que a leitura e a escrita são manifestações e expressões humanas, e é nisso que reside a sua arte e magia.

Ensimesmado em meu canto, podia imaginar o menino que acordava no fundo encardido da rede, despertando o olhar para os caibros tortos com ripas de marmeleiro de sua casinha humilde no Alto das Pedrinhas de Tamboril, sob as bênçãos do Serrote do Feiticeiro. Aquele que trazia no peito em lágrimas a grande admiração pelo pai, o seu Arimateia, que fora agricultor, comerciante, prático de farmácia e que, na experiência de ser candango em Brasília, aprendeu a “arte das solas, vaquetas, pregos e virolas”, vivendo e morrendo sapateiro, ainda jovem, aos 58 anos. Um menino grande e ainda malino cujo sangue do braço esquerdo corria “pelas veredas pedreguentas do Carão. Do outro braço, o sangue das tristes Oliveiras, dos tontos bons da Curimatã, do Jumentão da Maravilha”. Sua escrita é atraída pelos “minúsculos seres que sobrevivem nas sombras”, e seu tema predileto é a morte e os “assassinatos verbais”, assombrado que é pelo som de badalos e chocalhos tinindo no escuro.

É provável que sua escrita, principalmente das crônicas, se dê tomando o cafezinho coado da vó Candinha e comendo as bruacas assadas de dona Geny em cadeiras de balanço à sombra de castanholeiras, ao lado do avô Chico Inácio, a prosear sobre seus livrinhos de caubói e assistindo ao “diabo que, rosianamente, redemoinha no terreiro”.

Eu tive muita sorte de ingressar no meio literário com a colaboração, incentivo e a amizade desse “sertanejo exilado no litoral”. Aprendi e sempre aprendo muito com ele. É uma grande figura, inegavelmente escritor dos melhores já nascidos no Ceará. E aqui carimbo essa homenagem sincera de gratidão e respeito para esse meu grande amigo.




 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

"Doa a quem Doer... Cid Carvalho", de Raymundo Netto para O POVO


Foto: Talita Rocha/Acervo O POVO

Alô, amigos. Aqui, Cid Carvalho.”

Assim começava por numerosos anos, no pingo do meio-dia, um dos quadros de maior audiência e credibilidade do rádio cearense. O radialista, jornalista, advogado, ex-senador da República, professor e poeta Cid Saboia de Carvalho veio à luz em Fortaleza, em 25 de agosto de 1935, despedindo-se desse mundo com grande pesar e repercussão em 10 de julho de 2026, prestes a completar bem vividos 91 anos.

Começou muito cedo, aos 12, a trabalhar em comunicação, como um dos redatores do jornal de seu pai, o combativo Diário do Povo, resistência aos arbítrios do Estado Novo. É preciso dizer: no sangue, o jornalismo gritava, sendo filho de um casal brilhante de jornalistas, Jáder de Carvalho e Margarida Saboia de Carvalho, e neto de Eduardo Saboia, o “Brás Tubiba” da Padaria Espiritual, que, como Cid, foi jornalista, escritor, professor da Faculdade de Direito e político.

Mas não se deteve a jornais, adotando desde a juventude outra tribuna, a mais legítima de sua vida: o microfone de rádio. Aos poucos desenvolveu estilo próprio de narração e expunha o seu ponto de vista sobre os mais diversos assuntos e denunciava, primeiramente nas rádios Uirapuru e Assunção, e depois na Dragão do Mar, atuando como comentarista político e esportivo – era torcedor do Fortaleza. Mais tarde, em emissoras de televisão, quando inaugurada a TV Uirapuru, canal 8, em 1978, e a TV Cidade, em 1981.

Graduou-se em Direito pela UFC, em 1966, onde atuaria no magistério, assim como ministrou aulas nas Ciências Econômicas, na Filosofia e na Comunicação Social.

Como senador, eleito em 1986, participou ativamente na Assembleia Nacional Constituinte, que originou a “Constituição-Cidadã” de 1988. Outro orgulho seu: a cocriação da Advocacia-Geral da União (AGU).

Em sua trajetória, desde sempre se orgulhou de dizer ser independente, honesto e defender os princípios e valores humanos, entre eles, espírita que era, a caridade.

Outro grande amor na sua vida, além da família – e de seus almoços de domingo –, era o livro. Adorava viver, ouvir música, dar aula e ler livros. Tanto os amava, que até aprendera com artesãos a encadernar e a restaurá-los. Lia e escrevia. Entre suas obras, publicou ensaios, discursos e textos jurídicos, mas também inventava tempo, no meio de inúmeras atividades, para encontrar as musas de sua poética. Daí, ingressou na cadeira nº 20 da Academia Cearense de Letras, assim como no Instituto do Ceará, na Academia Cearense de Retórica, Academia Cearense da Língua Portuguesa, Associação Brasileira de Bibliófilos e na Academia Fortalezense de Letras, na qual foi o seu primeiro presidente.

Durante uma homenagem da “Feira do Sebo” na praça do Ferreira, o assisti dizer que ainda haveria de escrever uma biografia de seu pai, Jáder de Carvalho. Ouvir aquele homem, popularmente reconhecido, em seus 70 anos, embargar a voz entre lágrimas ao proferir essa “promessa” de admiração foi tocante. Era absoluta e justificadamente fascinado pela figura paterna, seguindo-a em seus passos. Assim, também se comoveu ao receber O Canto Novo da Raça (1928), marco do modernismo cearense, do qual o pai foi coautor, editado por mim durante minha passagem pela Secult. Hoje, com a sua partida, imensa lacuna foi aberta no Ceará. Porém, nas palavras do seu “Pássaro de Fogo”, o alento: “[...] se no teu morrer diário,/na tua angústia noturna/pensares que ele se foi,/ele ainda restará no coração.”

Diria o Cid: “É o amor que me move... DOA A QUEM DOER!”




 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

3ª Edição da Feira Literária de Mangabeira - 16 a 18 de julho de 2026 em Lavras da Mangabeira (CE)


Foto: portal PrimeiroAqui (divulgação)

3ª Edição da Feira Literária de Mangabeira

Lavras da Mangabeira (CE) – 16 a 18 de julho de 2026

 

Mangabeira se prepara para a 3ª FLIMAN, um dos maiores eventos literários do Cariri cearense.

Com aproximadamente cinco mil habitantes, o distrito de Mangabeira ocupa uma posição privilegiada: fica praticamente equidistante dos três maiores municípios da região: Lavras da Mangabeira, Cedro e Várzea Alegre. Essa localização estratégica, aliada à sua tradicional vocação para as letras e as artes, que já produziu artistas de renome internacional, tem permitido que o distrito se consolide como um importante polo cultural do interior.

Nos dias 16, 17 e 18 de julho de 2026, Mangabeira sediará a 3ª edição da Fliman: Feira Literária de Mangabeira, um dos maiores eventos literários do Cariri cearense.

O evento bienal consolidou-se como uma das iniciativas culturais mais importantes da região, reunindo literatura, arte, educação e cultura popular em três dias de intensa programação gratuita.

 

CONCEPÇÃO

Idealizada pelo escritor Batista de Lima, da Academia Cearense de Letras, junto com a professora e escritora Fátima Lemos e pelo escritor Pedro Luiz Cândido de Oliveira, a Fliman busca valorizar a literatura, fortalecer a identidade cultural da região e promover o acesso ao livro e à leitura.

“As edições de 2022 e 2024 mostraram que a região ansiava por um evento cultural de qualidade. A Fliman ganhou corpo a partir dessa vontade coletiva e, agora na terceira edição, queremos consolidá-la como um dos eventos culturais mais respeitados do Ceará, saindo de uma pequena comunidade interiorana para ganhar projeção estadual”, afirma Batista de Lima, um dos idealizadores.

 

TEMA DA EDIÇÃO 2026: “PALAVRAS QUE CELEBRAM SABERES”

O tema propõe uma reflexão sobre a literatura como celebração dos múltiplos conhecimentos: acadêmicos, populares, afetivos e ancestrais. A Fliman 2026 será um espaço de encontro, memória e construção de futuro por meio da palavra.

 

DESTAQUES DA PROGRAMAÇÃO 2026

·     20 lançamentos de livros, incluindo a Flimantologia, antologia oficial com textos de autores da região;

·     Homenagens a personalidades da Educação, Literatura e Artes, com entrega de comendas;

·     Premiação do Concurso Literário para estudantes do 4º ao 9º ano, com entrega de notebooks e tablets;

·     Ônibus Biblioteca do Instituto QAIR com contação de histórias, exibição de documentários (na praça central de Mangabeira) e peças teatrais;

·     12 estandes temáticos e 2 grandes tendas de artesanato local;

·     Palestras e atividades para professores e estudantes;

·     Shows musicais todas as noites com artistas da região;

·     Torneio de futebol Copa Fliman.

 

APOIOS CONFIRMADOS

A 3ª edição conta com o apoio institucional da Prefeitura de Lavras da Mangabeira e o apoio corporativo do Instituto QAIR e da Indústria Peter Chemical, além de outros apoiadores corporativos e individuais.

 

OBJETIVO

Além de promover a leitura e a cultura, a Fliman gera impacto econômico positivo para a região, movimentando o comércio local, o artesanato e o turismo cultural. Os idealizadores pretendem consolidar a ação como um dos eventos culturais mais respeitados do Ceará, mesmo partindo de uma pequena comunidade interiorana.

A organização reforça o caráter plural e apartidário da Fliman e ressalta que a realização de um evento desta magnitude só é possível com o apoio da iniciativa privada e da própria comunidade.


Se estiver na região, vá à Fliman, convide amigos, compartilhe!


Informações para a imprensa:

Pedro Luiz Cândido de Oliveira

E-mail: pl.pedroluiz@gmail.com

Celular/WhatsApp: (85) 99992-2869


 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

"Gilmar de Carvalho: uma homenagem", de Ieda Estergilda de Abreu


Gilmar de Carvalho e Sérgio Pinheiro

Intelectual cearense, o brasileiro Gilmar de Carvalho foi professor, pesquisador, jornalista e poeta. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, nasceu em agosto de 1949 em Sobral e morreu em 2021, vítima da pandemia.

Deixou importante legado na comunicação, na cultura popular e no ensino de jornalismo. Integrou o grupo de professores dos programas de comunicação da UFC no período de consolidação, impregnando sua visão humanista e interdisciplinar, com rigor acadêmico e sensibilidade artística.

Gilmar de Carvalho não se limitava às salas de aula, encontrava alunos, ex-alunos em locais públicos fora da universidade. Conversava, mostrava livros estimulantes, presenteava, sugeria, revelando-se um incansável pesquisador da cultura cearense, do cordel, do teatro popular, das manifestações tradicionais e das relações entre arte e sociedade.

Com dezenas de livros e artigos, foi referência nacional em jornalismo cultural, patrimônio imaterial e comunicação comunitária, sempre com um olhar afetuoso e crítico sobre o Nordeste.

Luciana Novo, professora de música da UFC e também jornalista, conta que “mesmo depois de formada, frequentava a sala do prof. Gilmar, no curso de jornalismo. Ele me convidou para vários projetos importantes dele, como o Sarau das Rabecas; me indicou para ser jurada do Projeto Pixinguinha no Rio de Janeiro; tocamos na Bienal do Livro, participava dos eventos culturais, incentivava muito. Minha dissertação de mestrado foi inspirada nele, conversávamos sobre o que eu queria fazer: pesquisar as relações do Nordeste com a música de câmera, as culturas híbridas, me apresentou ao grupo Ânima, me emprestou discos do grupo. Na véspera de falecer, me convidou para viajarmos depois que acabasse a pandemia, viajar por várias cidades, tocar...”

Para o compositor e intérprete Graco Braz Peixoto, parceiro de Belchior, Fagner, Ednardo, Zeca Baleiro e outros, “Gilmar de Carvalho foi acima de tudo um grande amigo, intelectual com sólida formação para a cultura cearense. Além de ter sido muito ativo no jornalismo, desempenhou papel importante na academia, na cultura popular, e faz muita falta...”

Para a cantora e compositora Mona Gadelha, a perda de Gilmar de Carvalho,  “um amigo muito querido com quem me encontrava quase toda semana, seja no almoço do Passeio Público, seja nas ruas da Aldeota, foi desconcertante, até lembra aquela canção do Chico Buarque, “é desconcertante perder um grande amor...”. Era um amigo que sobretudo me incentivava a criar, a pesquisar, a permanecer inquieta diante da estranheza do mundo, um amigo cujo lugar na cultura do Ceará não tem substituição. Sempre lembro do Gilmar e acredito que a legião de amigos, alunos, alunas e discípulos que ele deixou deve sentir o mesmo, essa ausência a cada ano de sua morte que nos surpreendeu, a mim que o acompanhava com mensagens durante a pandemia, me surpreendi com Gilmar internado no hospital, achei que logo retornaria. Ele deixou um legado de publicações, pensamentos, um conjunto de obras extraordinário. Sinto uma saudade imensa do meu amigo, é sempre emocionante falar dele. Que sua memória seja preservada. Era um guardião da memória e ao mesmo tempo antenado, atento ao contemporâneo".

Mantive contato por e-mail com Gilmar de Carvalho durante um período, sobre presépios de Natal, pastoris, reisados, ele sabia de tudo. “Temos belos reisados no Cariri, inclusive um que tem a Embaixada de Carlos Magno, onde o imperador dança de manto, cetro e coroa. O homem é meio chato, deixei de entrevistá-lo, queria dinheiro e não tenho dinheiro para dar pra entrevistados, mas vale a pena pelo inusitado, deve ser dos poucos do Brasil onde Carlos Magno dança”.

Sobre o padre Cícero, “o árbitro de tudo que acontecia na cidade”, como costumava dizer, o livro Madeira Matriz-Cultura e Memória (1999), trata da construção desse ícone fundador de Juazeiro do Norte. Foi sua tese de Semiótica da Cultura, defendida na PUC-SP, prêmio Silvio Romero (1998, MEC/Funarte).

Nas suas inúmeras publicações fez com que estudantes vissem a comunicação como ferramenta de registro da cultura, memória e das identidades regionais; e que a formação jornalística tivesse base na realidade social e no respeito às narrativas populares.

Passados cinco anos de sua morte, a vida e a obra de Gilmar de Carvalho permanecem como um farol, vive em cada pesquisa que valoriza a cultura local, cada projeto, cada aluno que entendeu que “comunicar é, antes de tudo, escutar”.

 

Ieda Estergilda de Abreu, São Paulo, 12 de junho de 2026.