“A linguagem das
Histórias em Quadrinhos trabalha com o tempo”. Com essa frase, o
artista multimídia e arte educador Weaver Lima, curador da mostra
“Subsequência”, com sede na Caixa Cultural, inicia e conclui a sua apresentação
curatorial. Projetou-me à mente a figura
misteriosa de Ouroboros, a serpente – ou dragão – que tenta comer a sua própria
cauda. Essa simbologia de origem incerta, encontrada em culturas e tradições, carrega
diversos significados, entre eles, a natureza cíclica da existência, as
interconexões, mas também a renovação e a transformação de tudo e de todas as
coisas.
O título
da mostra é intrigante. Subsequência é uma palavra encontrada na matemática e
refere-se a “uma nova sequência formada pela seleção de alguns elementos da
sequência original, mantendo a ordem inicial desses elementos”. Nas artes
visuais, subsequência pode se referir a uma sequência de imagens que se
desenvolvem ao longo do tempo. A palavra em si, vai além, naquilo que vem
depois, como a consequência da sequência, algo que a sucede. Nos quadrinhos,
por exemplo, seria algo que os transcendem, que rompem as suas “fronteiras” ou
limites. Aliás, é preciso lembrar que, por definição, o gênero híbrido
Histórias em Quadrinhos é uma sequência de imagens e/ou palavras utilizadas
para, grosso modo, contar uma história. Esses elementos estão em sequência para
que essa narrativa visual possa ser lida. Daí a denominação de “arte
sequencial” aos quadrinhos. Contudo, conhecendo o espírito inconformista e
iconoclasta do Weaver, imaginei que não encontraria ali nada parecido com
Disney, Maurício e muito menos mangás. Estava certo: nada ali se prendia aos
que vimos cotidianamente em revistarias. Os homenageados da mostra eram aqueles
que abriam a trilha expográfica do Weaver: Marcus Francisco (falecido em 1980),
autor do “TIPO blocomagazine” (ali, alguns originais inéditos e impressionantes
da década de 1970), e o escultor, ilustrador, artista plástico, muralista, multipremiado
e octogenário Hélio Rola, autor de quadrinhos non sense em “Rock’ndRolla and
Leviana” (dele, algumas obras em quadrinhos em uma perspectiva bastante
singular, sendo a maioria sem título). Ao todo, nove artistas cearenses de
distintas gerações, técnicas e estilos, cuja produção transita entre artes
visuais e quadrinhos: Felipe Kehdi (mestre em Ilustração e Quadrinhos pela
Elisava, em Barcelona, Espanha, com duas animações, uma na parede e a outra no
piso, proporcionando uma experiência de grande ludicidade e comunicação, além
de leituras múltiplas), Camila Sombra (“Roupa Suja” (óleo e acrílica sobre
tela) é incrível, assim como a arte ilustrada na cama e em travesseiros de sua instalação),
Juliana Siebra (que abrigou um espaço com um colchão, encimado pela frase em
neón: “Preciso de Mais tempo”, e ladeado por dezenas de ampulhetas, uma mesa
com carimbos de estrelas, um sketchbook com desenhos da artista, uma linda HQ
em P&B, “Sala de Comando”, na prateleira e diversas folhas em pergaminho
que caíam do teto – como se o céu desabasse sobre ela, a personagem – com 10.958
estrelas desenhadas, uma por cada dia de sua existência), as gêmeas “Uinverso”
(uma telha de vidro ou acrílico na qual eram projetadas imagens com cores e
texturas diferentes, conferindo um certo movimento à peça), Érica R. (peças em
bordado e crochê – e um “espelho invertido”), Luci Sacoleira (belíssimas capas pintadas
da “Revista Caderno”, uma para cada mês do ano, e ilustrações que tomavam as
colunas do salão) e Marissa Noana (uma representação dos povos originários, com
grande sensibilidade).
Para mim,
ficou claro que uma das propostas dessa excelente exposição era justamente
revelar que existem outras formas experimentalistas ou não de se contar
histórias graficamente. Que é preciso fazer uso da criatividade para a geração
de novas possibilidades para essa linguagem, rompendo tabus estilísticos e
formais, padrões convencionais da indústria do consumo de massa, muitas vezes
focadas apenas no entretenimento puro e besta, mas que não despertam a reflexão
ou a crítica e não têm compromisso com a evolução dessa arte. A “leitura” que
pudemos fazer nesses quadrinhos pintados, pendurados ou projetados nas paredes,
no piso, nas instalações é impactante, provando que devemos explorar mais esses
espaços de novas “leituras”, ampliando o nosso repertório criativo e, segundo
Fábio Zimbres, “preservando a surpresa da criação”.
Só
lamento não ter escrito isso antes da exposição findar...