segunda-feira, 11 de agosto de 2025

"A 'Subsequência' de Weaver Lima", por Raymundo Netto para O POVO


“A linguagem das Histórias em Quadrinhos trabalha com o tempo”. Com essa frase, o artista multimídia e arte educador Weaver Lima, curador da mostra “Subsequência”, com sede na Caixa Cultural, inicia e conclui a sua apresentação curatorial.  Projetou-me à mente a figura misteriosa de Ouroboros, a serpente – ou dragão – que tenta comer a sua própria cauda. Essa simbologia de origem incerta, encontrada em culturas e tradições, carrega diversos significados, entre eles, a natureza cíclica da existência, as interconexões, mas também a renovação e a transformação de tudo e de todas as coisas.

O título da mostra é intrigante. Subsequência é uma palavra encontrada na matemática e refere-se a “uma nova sequência formada pela seleção de alguns elementos da sequência original, mantendo a ordem inicial desses elementos”. Nas artes visuais, subsequência pode se referir a uma sequência de imagens que se desenvolvem ao longo do tempo. A palavra em si, vai além, naquilo que vem depois, como a consequência da sequência, algo que a sucede. Nos quadrinhos, por exemplo, seria algo que os transcendem, que rompem as suas “fronteiras” ou limites. Aliás, é preciso lembrar que, por definição, o gênero híbrido Histórias em Quadrinhos é uma sequência de imagens e/ou palavras utilizadas para, grosso modo, contar uma história. Esses elementos estão em sequência para que essa narrativa visual possa ser lida. Daí a denominação de “arte sequencial” aos quadrinhos. Contudo, conhecendo o espírito inconformista e iconoclasta do Weaver, imaginei que não encontraria ali nada parecido com Disney, Maurício e muito menos mangás. Estava certo: nada ali se prendia aos que vimos cotidianamente em revistarias. Os homenageados da mostra eram aqueles que abriam a trilha expográfica do Weaver: Marcus Francisco (falecido em 1980), autor do “TIPO blocomagazine” (ali, alguns originais inéditos e impressionantes da década de 1970), e o escultor, ilustrador, artista plástico, muralista, multipremiado e octogenário Hélio Rola, autor de quadrinhos non sense em “Rock’ndRolla and Leviana” (dele, algumas obras em quadrinhos em uma perspectiva bastante singular, sendo a maioria sem título). Ao todo, nove artistas cearenses de distintas gerações, técnicas e estilos, cuja produção transita entre artes visuais e quadrinhos: Felipe Kehdi (mestre em Ilustração e Quadrinhos pela Elisava, em Barcelona, Espanha, com duas animações, uma na parede e a outra no piso, proporcionando uma experiência de grande ludicidade e comunicação, além de leituras múltiplas), Camila Sombra (“Roupa Suja” (óleo e acrílica sobre tela) é incrível, assim como a arte ilustrada na cama e em travesseiros de sua instalação), Juliana Siebra (que abrigou um espaço com um colchão, encimado pela frase em neón: “Preciso de Mais tempo”, e ladeado por dezenas de ampulhetas, uma mesa com carimbos de estrelas, um sketchbook com desenhos da artista, uma linda HQ em P&B, “Sala de Comando”, na prateleira e diversas folhas em pergaminho que caíam do teto – como se o céu desabasse sobre ela, a personagem – com 10.958 estrelas desenhadas, uma por cada dia de sua existência), as gêmeas “Uinverso” (uma telha de vidro ou acrílico na qual eram projetadas imagens com cores e texturas diferentes, conferindo um certo movimento à peça), Érica R. (peças em bordado e crochê – e um “espelho invertido”), Luci Sacoleira (belíssimas capas pintadas da “Revista Caderno”, uma para cada mês do ano, e ilustrações que tomavam as colunas do salão) e Marissa Noana (uma representação dos povos originários, com grande sensibilidade).

Para mim, ficou claro que uma das propostas dessa excelente exposição era justamente revelar que existem outras formas experimentalistas ou não de se contar histórias graficamente. Que é preciso fazer uso da criatividade para a geração de novas possibilidades para essa linguagem, rompendo tabus estilísticos e formais, padrões convencionais da indústria do consumo de massa, muitas vezes focadas apenas no entretenimento puro e besta, mas que não despertam a reflexão ou a crítica e não têm compromisso com a evolução dessa arte. A “leitura” que pudemos fazer nesses quadrinhos pintados, pendurados ou projetados nas paredes, no piso, nas instalações é impactante, provando que devemos explorar mais esses espaços de novas “leituras”, ampliando o nosso repertório criativo e, segundo Fábio Zimbres, “preservando a surpresa da criação”.

Só lamento não ter escrito isso antes da exposição findar...






 

domingo, 10 de agosto de 2025

"Pais", de Raymundo Netto


Hoje é um dia comum como todos que nos amanhecem e nos convidam a viver, sendo o resto, o que vamos fazer com esse dia, absolutamente por nossa conta.

Um sistema consumidor nos diz ser o Dia dos Pais, mas não existe esse dia, porque todos os dias são dias dos pais, de ser pai, de ser filho ou filha de um pai. E esse pai nem precisa estar mais por aqui, nem precisa ser biologicamente o seu, você nem precisa conhecê-lo, também como não é exigido de você que o ame, independentemente da situação de ânimo que existe ou simplesmente pareça não existir entre vocês.

A vida é breve. Certeza única. E tenho a nítida e muito próxima impressão que perdemos tempo demais e que amamos sempre de menos. Dessa vida aproveitamos bem pouco, enquanto tentamos nos distrair para não perceber que temos que fazer alguma coisa que, por algum motivo, nos parece ser difícil demais de encarar, de dizer, de fazer.

O que nos resta são alguns momentos, felizes ou não, mas que podem ser únicos, mesmo quando aparentemente acontecem todos os dias, como ares de ternura, embora monotônicos, o que os tornam especiais.

Às vezes, sem eles, a vida perde o sentido, e voltamos à mesma estrada simplesmente porque nos parece ser o caminho mais seguro a seguir e nós sempre preferimos não arriscar muito. Temos medo do que essa “outra vida” pode nos proporcionar... e somos tristes.

O amor de pais não tem cara de outdoor nem aparece em telas. Existe particularmente no mais profundo de seu coração, e você que é pai não sabe explicar de onde veio, mas se surpreende sempre quando lhe toma os olhos em lágrimas e aperta-lhe o peito de emoções antes não conhecidas.

As filhas e os filhos são presentes que nos tiram de uma outra estrada e nos apresentam novos horizontes, nos tiram de nós mesmos, do nosso conforto, dessa mania de não ser ou viver o outro. Ser pai nos ensina todos os dias – ou deveria nos ensinar – a pensar fora da nossa caixa, a criar empatia, a nos desdobrar para amar a vida que existe lá fora... mas isso não acontece sempre, nem com todos, pois é poderoso demais.  

Para você, pai, um dia a refletir, recordar, para abraçar, beijar e deixar o amor fluir e ser amado. E que todos os seus dias possam ser também assim: de Pais e Paz.