sábado, 7 de maio de 2016

"Parlamento Muito!", crônica de Raymundo Netto para O POVO


Cunha, entre acunhadores, sendo convidado a desacunhar

O Brasil, como pátria educadora que nunca foi, abriu a grande sala de aula ao vivo e em cores no temível domingão da Câmara de Deputados que, com ares de um stand-up comedy de mau gosto, saiu do anonimato para mostrar sua carantonha, envergonhando-nos colonialmente perante o mundo.
Quem acompanha noticiários e/ou lê jornais mais regularmente, sabe bem que a Câmara, e nosso legislativo como um todo, nos prova: há pelo menos 3 coisas que não tem competência para fazer: representar o povo brasileiro, legislar sobre os assuntos de interesse nacional e fiscalizar a aplicação dos recursos públicos.
Não seria extravagante se perguntar que tipo de representação essa Câmara sustenta, quem afinal é esse “povo brasileiro”, se algum deles tem noção do que se configura como interesse nacional e, quanto ao último item, vale a máxima de que não se deve colocar lobos para tomar conta de ovelhas.
Tirando o Sérgio Reis, que provavelmente estava ali por engano para uma palhinha de Jeca triste, e assim o foi, os demais chegaram ao microfone cercados por homens e mulheres que, buscando o cinegrafista, vaiavam, assobiavam, aplaudiam e cuspiam numa balbúrdia de bingo de centro da cidade.
O burlesco Plenário – não ouso dizer “palhaçada”, pois esses artistas são sérios e o Brasil, num dito francês, não o é –, como de costume, usou da espetacularização do momento. Coisa preparada para o álbum dos quinze minutos de fama e de sem noção. Cada um que saudava a Deus, à família, ao gato e ao papagaio e aqueloutros que ainda tinham estômago para “recadinhos do coração", comprovava a sua inobservância da causa, da sua função de representatividade e do seu papel de servidor público.
No Domingão da Câmara foi perceptível para as pessoas que não estavam apenas interessadas no placar de seu “time” – muito no nível de torcida organizada de equipe em terceira divisão –, a falta de decoro, a descompostura, a improbidade e a não idoneidade. Pior: o resultado da ausência de educação de cidadania para o exercício do poder. E, convenhamos, não há como falar em civilidade e progresso num país no qual pelo menos metade de seu Congresso Nacional responde (alguns já condenados em primeira instância) a inquéritos, ações criminais e cíveis, entre outros. Dizem até que aqueles que nessa lista não constam, já se consideram “classificáveis”.
Para não sair da harmonia dessa bizarra orquestra, o presidente-maestro também traz um currículo invejável de alta propinagem. Durante o show, apresentava uma fingida apatia de quem percebe que a cacetada vai ser grande, mas que não teria como escapar da sua, o que acontece agora, por unanimidade, com um supremo pé na bunda. O seu substituto também é investigado e, em breve, o presidente do Senado também cairá. E nisso, numa democracia de instrumentos e defensores acanhados, a política é engenhosamente articulada para não permitir mudanças, propiciando a corrupção de praxe, em nome da governança dessa pátria mãe tão distraída sempre mercadejada em acordos, a maioria, para não gastar saliva, imorais. A nossa Independência foi golpe, a proclamação da República, outro, assim como o Estado Novo, a “Revolução” de 64, a chacina do Curió – só para não cair em esquecimento – e o processo desse impeachment.
Infelizmente, o maior e melhor golpe poderia emanar do povo, mas isso só com muita educação, o que nunca fez bater panelas por aqui. #ocupemasescolas!


5 comentários:

  1. Raimundo Netto.
    Você me representa. Deixe eu assinar com Você.
    Que vamos fazer por esse País?
    Desanimador!
    Custa crer que esse é o País que tanto amamos!

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  2. Respostas
    1. Obrigado, Miguel. Às ordens. Abração, garoto.

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  3. Luzia, feliz por sua gentil leitura. Olha, na verdade, tirando os humores, o país está passando por uma fase de muito aprendizado. Pena que muitos ousam dispensar aprendizagens, já até o pescoço de preconceitos e medos descabidos, frutos de um país que insiste a viver democraticamente a democracia. Estamos no beabá dela, engatinhando, então a crise pode ser de grande importância, mesmo sendo um remédio tão amargo e tendo que passar por tantas privações. Mas tenho fé de que aos poucos a sua cultura conseguirá se consolidar e nem precisemos chegar a tão fundo. Grande abraço, professora.

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  4. Ah, corrigindo: "um país que parece que resiste a viver democraticamente a democracia"

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