domingo, 4 de janeiro de 2015

"O Amor é de Graça", crônica de Raymundo Netto para O POVO (3.1)


Eu podia estar roubando, poderia estar matando, mas, ao revés disso tudo, estou amando! Sim, falo em amor, essa coisa tão contrária a si mesmo, porque o sinto tomando o meu passo do caminho fácil, a transbordar generoso no olhar, no calor das mãos, na coragem de sorrir mesmo quando ainda me pesa uma lágrima no seu tilintar de pedra na janela esquecida de sol.
Entretanto, é sabido que amar para alguns é quase como pentear cabelos diante do espelho. Coisa banal, rotineiro-mecânica, que se faz (e se diz) sem muito pensar, mirando o tempo todo para si. “Eu amo porque existo, e só.”
Hoje, percorrendo a vista numa das mil e duzentos e trinta e três pesquisas que orientam as matérias e artigos desse mundo “ZapZap”, complexo e perplexo de informação e comunicação instantânea, encontrei uma que assegurava: “aumenta cada vez mais o número de pessoas que vivem sozinhas!”
De primeiro, a inquietação da classificação de “arranjo unipessoal”. Taí, se eu não sabia se queria ser gauche na vida, me chamar Raymundo, a me comover como o diabo ao luar melalcóolico, seria então, humildemente, um arranjo desses tais unipessoais, marca essa devido “ao envelhecimento da população, da queda das taxas de fecundidade e da elevação na esperança de vida”. Segundo a pesquisa, mais de sessenta por cento de nós “arranjos” têm cerca de 50 anos e, claro, a maioria da maioria é constituída por mulheres, pois os homens desistem antes da vida e da tal esperança.
Num contraste essencial das coisas verdadeiras, o amor é de graça e, por isso mesmo, não sai barato! Ora, a gratuidade é dentre os pincéis o mais raro na arte de amar. Por alguns, um eterno desconhecido, persona non grata, ou, no mínimo, a cereja de um bolo nem sempre de casamento. Experimentar essa gratuidade na relação é como tirar o anjo torto das sombras e sentir o azular da tarde drummoniana desse mundo vasto mundo.
Proclamam-se felizes os nerudamantes que “não têm fim nem morte,/ nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem,/ têm da natureza a eternidade.”
Há uma categoria de seres que fantasiam o amor de forma brutal, quase como sentença, a corrompê-lo, a extasiá-lo, a lançar da chaminé a fumaça branca só que sem papa. O ser amado – às vezes a vítima – é sempre a mais completa figura da ilusão, incapaz de corresponder aos anseios sufocantes do sentimento incendiário e fumegante de um monóculo camônico, assumindo o papel ad eternum de vetor de infelicidade do casal. Imagino um pórtico cabal: “Há de amares sempre as estátuas, frias, rijas e incompletas, mas sempre idealizadas e de preferência... mortas!” Daí, todos os dias, passionais crimes e arroubos cometidos em nome destoutro amor.
Também casais permanecem a vida inteira a golpear-se – ou mesmo a se ignorarem – na alcova, a sufocarem o desejo de envenenar o prato do ser amado, talvez por medo da solidão futura, da insegurança financeira ou pela mais pura covardia. O fato é que amam, disso têm a certeza absoluta, o que lhes basta e justifica qualquer tipo de barbárie ou sacrifício. No retrato de honra da sala, poderia até ler a legenda escrita abaixo do casal sorridente: “Quem mandou?”
De dar dó os amantes shakespearianos, envoltos num cobertor de tragédias, impossível de protegê-los do frio que a realidade da noite lhes reserva. Nem vou mentir, um dia eu também amei gente morta, mas era muito criança ainda e cria em fantasmas.
Hoje, com tempo de adquirir vergonha – embora por instinto de sobrevivência não o devesse –, ainda creio no amor e amo, incondicionalmente, numa gratuidade frouxa de rir, claudicante, mas livre, contra moinhos de vento. Coração para um lado, olhos para outros, numa intensa e torrente ternura a afogar-me os desejos e quereres e a me deixar na mais fronteiriça companhia e à deriva dos meus eus...


7 comentários:

  1. Meu amigo, Raymundo Netto, considere-se feliz por amar! Esse belo sentimento é essencial à vida. Como diz a canção: "...quem nunca amou não merece ser amado"! Todas as formas de amor são presentes de Deus.

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Descobri, Lourdinha, que é o que melhor faço na vida. Amo como respiro, discretamente, sem suspiros espetaculosos, embora tenha um vasto nariz e fôlego curto. Ah, não é fácil.

    ResponderExcluir
  4. Meu amigo, Nirton Venâncio. Gostei do seu amor de graça também. Você é artista. Entendeu o espírito da coisa.

    ResponderExcluir
  5. Notícia alvissareira... Bem-aventurados os que amam, e amam sob todos os aspectos. Crônica muito bem escrita, leve, sensível e poética. Abraço, caro escritor, JG.

    ResponderExcluir
  6. João, muito obrigado pela sua leitura. Seja sempre bem-vindo, meu amigo.

    ResponderExcluir