segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

"Abdias Lima e um Livro de 1946", por Sânzio de Azevedo, para a OPINIÂO de O POVO

Sânzio de Azevedo

Falo de um marco esquecido da literatura cearense.
Crítico literário, estudioso da gramática portuguesa e romancista, Abdias Lima deixou obra vasta, mas a cultura do Ceará ainda não lhe fez justiça.
Quero destacar dele aqui um livro praticamente desconhecido, que está completando 70 anos, pois é de 1946. Falam os intelectuais do Ceará é um inquérito com escritores do Estado, “de julho de 1944 a fevereiro de 1945”, sendo um retrato do pensamento de 24 escritores na época da Segunda Guerra Mundial. Só tem precedentes nos livros Enquete sobre a evolução literária (1891), de Jules Huret, na França e, no Brasil, O momento literário (1908), de João do Rio. Abdias Lima contempla poetas, ficcionistas, sociólogos, jornalistas etc.
Para não citar os 24 autores, direi que são poetas Cruz Filho, Filgueiras Lima, Otacílio de Azevedo e Artur Eduardo Benevides; jornalistas João Jacques, Paulo Sarasate, Perboyre e Silva; contistas, Eduardo Campos, Braga Montenegro; filólogo, Martinz de Aguiar; sociólogo, Joaquim Alves, e assim por diante.
Amigos meus do Grupo Clã (que firmou o Modernismo no Ceará) costumavam dizer que o grupo era de 1942; para mim, o grêmio ganhou maior força em 1946. Por isso, exultei quando li, no livro de Abdias Lima, entrevistas com Braga Montenegro, Joaquim Alves, Eduardo Campos e Artur Eduardo Benevides, e nenhum deles se refere a um grupo chamado Grupo Clã, o que é sintomático.
Na abertura do livro, põe o autor as entrevistas entre 1944 e 1945. E acrescenta: “O mundo estava mergulhado em sangue e por toda a parte, desde as planícies geladas da Rússia às terras generosas da América, só se ouvia a voz do canhão.”
E no final da “Apresentação” diz o escritor: “Sabemos que há falhas nesse inquérito. Que a crítica honesta as emende, ‘não murmurando em sua casa porque desfaz em si’.”
Como me informou a filha do escritor, professora Claudete Lima (que foi minha colega quando eu lecionava literatura na UFC), Abdias Lima nasceu em Massapê, Ceará, no dia 29 de janeiro de 1911, vindo a falecer na Capital cearense no dia 6 de julho de 2004, com 93 anos de idade.

Sânzio de Azevedo é doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da Academia Cearense de Letras.
Contato com o autor: sanziodeazevedo@gmail.com


sábado, 27 de fevereiro de 2016

"A Mulher e o Poeta", de João Soares Neto



Apenas em torno de uma mulher que ama pode surgir uma família.
 (F. Von Schlegel)

Esta semana fui ver fábrica comandada por uma mulher de fibra e talento. Fica no lado oeste da praça Presidente F. D. Roosevelt, no Jardim América. Roosevelt, como se sabe, foi presidente dos Estados Unidos até quase o final da Segunda Guerra. A ele foi prestada essa homenagem pela cidade. Aqui, no Pici, por acordo entre o oscilante mando de Vargas e a América do Norte, foi montada base de apoio – por ser próximo da África e da Europa – na travessia pelo céus do Atlântico Sul e reabastecimento das tropas contra os integrantes do Eixo, composto por Alemanha e Itália. Isto sem falar do Japão, pois situado no outro lado do mundo, a Ásia.
Essa digressão singela é apenas para dizer da alegria ao ver a coroação do esforço de Maria Soares Leitão, mulher, amiga e confidente de Juarez Leitão. Juarez teve livrarias, foi vereador e professor reconhecido de História Geral. Por fim, o casal montou uma fábrica de fardamentos profissionais e escolares. Na verdade, “montou” é licença poética. À frente de tudo está essa mulher destemida, bem vestida, no albor da sua maturidade e amor visível por aquilo que sabe fazer.
É encanto ver a sala de demonstração ou, como falam os anglicistas, o show-room. Centenas de modelos com pluralidade de cores e estilos. Cada peça, seja camisa, calça, jaleco, paletó, avental, macacão e outros que tais, tem corte perfeito, costuras retas e curvas com esmero. Tudo contém o toque pessoal da estilista que Maria Leitão se tornou. E é.
Ela traduz, em palavras adequadas, traçados, talhes, costuras e pespontos com sensibilidade e alegria. Quiçá o convívio com o inquieto bardo inoculou-se em seus gestos. Por trás de suas dioptrias emolduradas por óculos, ela vai dissertando sobre o fardamento escolar e a roupa profissional. As fardas exibem a imagem e o cuidado que empresas têm, respectivamente, com seus alunos e colaboradores.
Não sem razão, Maria Leitão é hoje empresária de sucesso para a dimensão que definiu. Parece artesania mecanizada com costureiras em filas simétricas, sob claras luzes a produzir beleza a influir no amor próprio daquelas pessoas que as vestirão.
Ainda não falei com o Juarez sobre as impressões que ora estão sendo escritas na pressa semanal de entregar o texto ao jornal. Agora, entendo, as confissões – não as de Santo Agostinho – que o poeta, professor, biógrafo e contador de “causos” me fez ao ter o seu coração renovado por bisturis, pontes e pontos. Era a consagração do liame que o atava, sem sufocar, à companheira de décadas concebendo família equilibrada e o aceitava, com ou sem versos, seus horários peculiares de sono e vigília.  Maria cuida até dos sucos e da goma para as tapiocas publicitadas por infiltrado em convescotes do Juarez com amigos palradores.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

"Lindo Pendão da Esperança", de Pedro Salgueiro para O POVO


Parafraseando o americano John Fante: 2015 foi um ano ruim! A economia saiu do eixo, depois de mais de uma década sob controle; a situação política, então, nem se fala – as frágeis máscaras de nossa recente democracia caem a cada dia: alianças pregadas com cuspe derretem ao mínimo “bafo”; sobram lamas e detritos pelos riachos desse pobre projeto de país. Poucos escapam deste lado e do outro do balcão. Eleitores aos borbotões apontam o indicador para os políticos, esquecendo dos outros três dedões voltados pra si (e o “mata-piolho” cruelmente cravado pra Deus). Velhos fantasmas teimam em sair dos armários: moralismos baratos, soluções radicalmente fáceis; aves de rapina disfarçadas de pássaros exóticos espreitam seus imensos bicos tortos, sentindo já bem perto o cheiro do sangue, cutucam a onça com suas garras sujas. 
Nasci em pleno golpe militar de 1964, na falsa ordem dos porões velados; bem disfarçados em figurinhas de generais, poetas e educadores distribuídos pelas escolas; colecionei muitas de Costa e Silva, Geisel, criminosamente misturados com Castro Alves e Marechal Rondon; trocávamos pelas de Jairzinho, Gerson, Tostão e Pelé, que eram mais valiosas para a molecada que já rolava a bola “canarinho” (mas nela injetávamos óleo queimado para que ficasse pesada e parecendo com a “dente de leite”, que só os mais abastados podiam comprar) pelos muitos campinhos da cidade.
As comemorações do Dia da Bandeira, da Proclamação da República e, principalmente, do movimentado 7 de Setembro eram sempre muito esperadas pela meninada; a plateia agitando bandeirinhas, os soldados do Tiro de Guerra de Crateús fazendo malabarismos, manobras e demonstrações arrojadas: nós, os menores, sonhando em sair da rabeira da fila e ir para frente, lugar sempre destinado aos mais altos e bonitos; já quem tinha alguma habilidade disputava lugar na “banda”, que orgulhosamente ostentava seus instrumentos pelas ruas principais. 
Somente nos tempos de estudante em Fortaleza foi que essa imagem idílica da minha infância foi sendo desconstruída, vieram as primeiras leituras sugeridas pelos novos amigos – recordo bem de Cartas da Prisão e Batismo de Sangue, do Frei Betto, A Ilha, de Fernando Morais, dentre outros; apenas na universidade é que essas leituras mais políticas foram dando lugar à paixão pela literatura, desde o apaixonante Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, ao Cem Anos de Solidão, recém-lançado por Gabriel Garcia Marquez... 
De todas essas memórias, verdadeiras e falsas, da meninice, coladas e despregadas depois, ficou um gosto meio dúbio pela falsa ordem, pelo moralismo barato, pelo discurso nacionalista, que sobem das pernas, passando pelo intestino, escorregam estômago acima, inflam o peito, mas que, felizmente, rebatem no cérebro, que tenta, coitado, nem sempre com êxito, desconstruir todos esses perigosos mitos da infância.


sábado, 6 de fevereiro de 2016

"Cartas de Amor", de Ana Miranda para O POVO



Ilustração: Carlus Campos

Algo que me admirou, quando voltei a morar no Ceará, foi o amor de homens por suas esposas. Notei logo, desde quando assisti a uma festa em que senhores discursavam. Era uma festa de trabalho. Mas cada um deles aproveitou o momento para fazer uma declaração de amor. Verdadeiras cartas de amor ditas em voz alta. Isso pode ter vários significados, mas como meu pai foi a vida toda apaixonado por minha mãe, e assim aprendi a acreditar no amor matrimonial, interpretei como gestos de puro sentimento.
Guardo uma coleção de cartas de amor escritas por meus pais, nos anos 1930, 1940. Estavam noivos e se separaram por um período, quando ela foi estudar na Escola Doméstica de Natal, preparando-se para o casamento; ou, depois de casados, durante alguma viagem de trabalho do “doutor”. As cartas de amor são sempre saudosas, doloridas, porque são escritas quando o ser amado está distante. Tratavam-se por “minha filhinha”, “meu filhinho”, usavam diminutivos carinhosos: “Aceite mil beijos e saudades do maridinho só seu”. E ela, com uma letra harmoniosa e delicada: “Bem, meu futuro maridinho, aceita muitas saudades e beijos da tua noivinha que muito te quer”. Ele estava sempre preocupado com a saúde dela, e ela, com o excesso de trabalho a que ele se dava. Pode-se perceber que ele ainda era senhor de si, quando noivos, mas depois do casamento demonstra o quanto está arrebatado pela paixão. Por essas cartas, redescubro meu pai como um novo homem.
Lembrei-me dessas cartas e da festa noturna de declarações de amor quando estive a folhear um livro com as cartas trocadas, desde 1882, pelo estudante de direito, Clóvis Beviláqua, com sua “boa e querida” musa, a escritora Amélia de Freitas, após se conhecerem numa praia do Recife – ela quase se afogava e ele a salvou. Ainda uma vez, a emoção destrona a razão, e o rapaz escreve “como quem conversa, sem método, sem concatenação, sem mesmo pensar no que disse nem no que vou dizer”, achando-se um tolo. Nas cartas, um pouco de filosofia, de usos e costumes, de paisagens, sobretudo a história de um eterno amor, que ficou registrado nesta jura: “Juro por quanto há nobre e grande ... que te adoro, que te idolatro, que és o meu mundo e a minha glória, minha ambição e o alvo de meus anelos, juro que jamais se apagará em meu seio este ardor que me é alento e vida...”. Essa jura me faz lembrar as declarações de amor, naquela noite de discursos, assim que cheguei ao Ceará.
Há toda uma literatura de missivas de amor, como as cartas de Graciliano Ramos para a noiva, Heloísa Medeiros. Ela era uma moça de 18 anos, e Graciliano, um viúvo de 35, pai de quatro filhos, empregado na Prefeitura de Palmeira dos Índios. As sete cartas, publicadas em livro, impressionam pelo derramamento de Graciliano; ele, sempre tão contido, reclama da frieza de sua pretendida que lhe mandava cartas de duas linhas; provam que não há matemática na psicologia de um ser apaixonado. “Adeus, minha noivinha amada”. “Adeus, minha santa”. Mas ele continua a ser o homem de poucas palavras, mordaz, negativista: “Eu te procurei porque endoideci por tua causa quando te vi pela primeira vez. É necessário que isto acabe logo. Tenho raiva de ti, meu amor.” Ele diz que não sabe mentir, e “os outros me veem por dentro melhor do que por fora”. Com uma série de confissões amargas, as cartas não esclarecem o “mistério” Graciliano, mas ficamos conhecendo melhor seu temperamento. São conhecidas cartas de amor de Machado de Assis a Carolina, de Dostoievski a Anna Grigoriévna, de Victor Hugo a Juliette Drouet, de Plínio a Calpúrnia; de Mark Twain, de Flaubert, Mozart, Darwin, Beethoven, lord Byron, Robert Browning, a suas amadas, ou de mulheres a seus amados, como Florbela Espanca e Mariana de Alcoforado.
Mas não é preciso ser um escritor para arrancar suspiros do ser amado. A carta de amor pertence a todos os que amam. Ao contrário do que disse Fernando Pessoa, que todas as cartas de amor são ridículas, e se não fossem ridículas não seriam cartas de amor... Ele mesmo escreveu a sua amada Ofélia: “Meu Bebezinho, minha almofadinha cor-de-rosa para pregar beijos (que grande disparate!)” Nenhuma carta de amor provoca riso ou escárnio, a não ser naqueles que têm medo de amar. Portanto, escrevamos cartas de amor, ainda que fiquem guardadas nas gavetas, sem endereço. Escrevamos para a pessoa amada, para nós mesmos. Guardemos nossas cartas de amor em maços perfumados, em caixinhas macias, elas serão a lembrança mais doce de um tempo que nunca passou.


Obs: O livro em questão é De Clóvis para Amélia, org. José Luís Lira, Ed. UVA/ASEL.


"Consuelo", conto de Raymundo Netto para O POVO


Deoclécio casara com Consuelo inda muito jovem. Tinham filhos e contavam mais de 45 anos em comum, o que sempre parecia impressioná-lo: “Quem diria...”
Na cozinha, por horas, detinha a atenção naquela mulher a varrer, passar o pano, catar feijão e cortar cebolas. Ansiava pela hora em que reencontraria nela a mocinha de olhar brilhante que vira pela primeira vez na pracinha a semear gargalhada inconfundível, a propor ingênuo futuro de amores e a beijá-lo demorosamente como se o mundo fosse acabar ali, naquele instante. Ao contrário, então, sorria quase nunca, pouco se expressava, chegava ao ponto de parecer não ter nenhum querer ou esperança na vida. Se o ouvia? Não sabia. O rosto, geralmente sisudo, era sulcado de rugas. O corpo, frio e flácido. Olhava para ela e via a sua mãe. Pensava: “Como tocar em minha mãe?”
Consuelo, também com o tempo, recusava apetites. Quando de muita insistência, se dava a qualquer coisa, muito pouca e tímida, quase ausente, numa friúra de má atuação. O desejo trocado por frustração e impotência. Uma desgraça seguida de boa noite.
A fome e a longa jornada de rejeição deu portas para um inesperado caso. Deoclécio sabia: “A amante não era metade da Consuelo de sua lembrança, mas o fazia homem de novo, achamado em paixão e ardor.”
Naturalmente, os arranjos se avolumaram e foi difícil manter a discrição: a filha o encontrara ao telefone público diante do bar. A outra, no carro parado em quarteirão escuro. O filho ouviu da vizinha que “parecia” ter visto seu pai com outro alguém num calçadão de praia. As filhas nunca, mas o filho o abordou. Ambos envergonhados, sem jeito, se encaravam: “Você é muito novo para entender.” “Eu não quero entender nada. E a minha mãe, como fica?” Olhavam para Consuelo sentada na sala e alheia a tudo. Apenas duas coisas lhe pareciam fazer algum sentido: a missa e a novela.
Deoclécio continuou vendo a amante, entretanto, o conflito o corroía. Não permitia que ela falasse de Consuelo, uma santa! Nem de longe criticar aqueles filhos. Ela silenciava, mas se impacientava diante daquela imprevista insegurança.
Um dia, a notícia: Consuelo morreu! “Foi o câncer”. Em meio ao sofrimento e à culpa, ainda ouviu da caçula: “Pai, você conseguiu. Agora está livre para sem-vergonhice!” Os outros filhos silenciaram. Nada mais importava agora.
Deoclécio quedou-se em cacos. Chorava a soluçar, feito menino. Esforçava-se, mas não conseguia se lembrar da última vez que conversaram nem sobre o quê. Morria com Consuelo a sua melhor porção.
Deitaram os anos. O homem envelhecera tudo o que podia na vida. A amante desaparecera há tempo. Porém, um dia, no bar, a encontrou agarrada a outro, chamando pelo mesmo apelido de cama que outrora lhe pertencera. Fitava-a e pensava como pôde: “Tão sem graça aquela...” Voltou para casa escura e vazia. Com a ponta dos dedos acompanhava o desfile de porta-retratos a relembrá-lo da irreparabilidade de uma vida, o desencontro, o desamor, a insuportável saudade daquilo que foram e tiveram.
Daí quando o fulminante silêncio tomou seu peito, ao ouvir uma alegre gargalhada chegar daquela cozinha: “Consuelo? É você, meu amor?”


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Prof. Myrson Lima sobre sua leitura de "Crônicas Absurdas de Segunda"

Raymundo Netto,
Encerrei a leitura do Crônicas absurdas de segunda, que gentilmente me presenteou. Por que absurdas? De início, admirei-lhe a refinada apresentação, o excelente projeto gráfico, a capa dura com as ilustrações do Valber Benevides, que enriquecem também o miolo, a qualidade da impressão, a leveza da disposição dos capítulos, com a sintética e útil informação dos biografados, a escolha das cores, que já chamam a atenção até do mais distraído frequentador de livrarias.
A surpresa maior foi, no entanto, o conteúdo. Você me lembrou de me haver enviado os primeiros textos, no início da carreira, o que depois me despertou a lembrança. Não me lembra que me tenha na época provocado espanto, como dessa vez. Surpresa agradabilíssima! Não imaginava que iria encontrar textos tão ricos, leves, cheios de verve e de humor. Percebem-se o alto nível de leitura, o culto pela palavra exata e sonora, os criteriosos e eruditos recortes da história da cidade, a realidade e a fantasia interlaçadas em cada página. Parabéns, rapaz!
As apresentações da Ana Miranda e do Sânzio estão à altura do livro, ricas, felizes, justas, carinhosas. O “Dândi pós-moderno” de Salgueiro corrobora a imagem que aos poucos você já criara no confidente leitor de escritor versátil e de adorável figura humana.
Cumprimento-o com entusiasmo e admiração.

Myrson Lima

Serviço:
Crônicas Absurdas de Segunda, de Raymundo Netto
Apresentação: Ana Miranda
Prefácio: Sânzio de Azevedo
Posfácio: Pedro Salgueiro
Ilustrações (capa e miolo): Valber Benevides
Det: Capa dura | 231 páginas | colorido | Formato: 15,5 x 21,5cm
Investimento: R$ 30,00
Compra On-Line: livrariadummar.com.br
Contato com o autor: raymundo.netto@gmail.com




quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

"A Carta", de Pedro Salgueiro para O POVO


— Vinte anos de saudades, amiga —.
Por que temos que guardar o segredo de uma história sempre para o final? — não seria melhor nos livrarmos logo dele; aí então o relato fluiria de maneira mais honesta e tranquila, sem o trunfo incômodo de um mistério apenas conhecido por nós!?

Sempre me impressionaram os que começam seus enredos desvendando esse enigma: tiram um peso das costas, desprezando assim toda a nossa ansiedade — jogam as armas fora, lançam-se de peito aberto ao leitor. Torna-se, então, mais difícil construir uma aventura abrindo mão deste trunfo?... Não temos nada além das palavras, a não ser a própria aventura, e o nosso pouco talento.

A verdade é que decidi dizer logo que Suely morreu — e morreu de morte besta, dessas que não se encontra justificativa senão no acaso, ou no destino, ou… Sabe-se lá o que rege o mundo. Terminou os estudos, casou, teve dificuldades financeiras, mudou-se junto com o marido para uma terra distante. Todo mês a cartinha certa aos pais, o papel embebido em lágrimas — a promessa constante de uma visita no fim do ano. Não fosse o implicante destino.

Uma festinha de aniversário, uma briga louca de bêbados na calçada, um tiro errado e uma bala na nuca; logo a dela. Sexta à noite. Telefone deixando recado para os pais. Arrodeios, depois a notícia triste. Providência dos amigos. Vaquinha para o avião. Embalsamado o corpo — hospitalizado o sogro. Domingo de noite o corpo chegando (a promessa finalmente cumprida), a cidadezinha inteira acordada, desmaios, sofrimento prolongado. Segunda-feira pela manhã o caixão na cova. As lágrimas finas sem serventia. O cansaço, a casa vazia, um silêncio fundo: essa mistura de frustração e revolta. Tarde dessa mesma segunda: a carta inesperada. O carteiro, também, incrédulo. Olhos nas janelas. O choro recomeçado, sem fim, a imagem do Coração de Jesus no abraço apertado da mãe.

Carta, sim! Remetida por Suely — a última, feliz, desta vez perfumada, prometendo a eterna visita no fim do ano, dizendo da gravidez —, que a pôs nos correios na sexta pela manhã. No final até consola a mãe da doença grave de uma vizinha: sofresse não, a vida era assim!

A carta, pois, remetida na sexta pela manhã: Recebida na segunda à tarde.

Antes dela, Suely.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Inscrições Abertas: Prêmio SESC de Literatura - 2016



Estão abertas até o dia 12 de fevereiro as inscrições para o Prêmio Sesc de Literatura 2016, categorias Conto e Romance. Poderão concorrer escritores brasileiros e estrangeiros, residentes no Brasil, com mais de 18 anos. O candidato deverá adotar um pseudônimo, não podendo assinar a obra com o nome verdadeiro. A coautoria é aceita na categoria romance e não serão aceitas inscrições de obras póstumas.
O livro deve ser inédito e o candidato não poderá ter nenhuma outra obra publicada na categoria em que se inscrever. Na categoria Conto o trabalho deverá ter entre 140 a 400 mil caracteres e na categoria Romance entre 180 e 600 mil caracteres. Vale lembrar que será permitida a inscrição de título cuja pequena parcela do conteúdo tenha sido publicada em blogs pessoais ou revistas eletrônicas, desde que não ultrapasse 25% do total da obra.
Os textos serão analisados por uma comissão julgadora composta de escritores, jornalistas, críticos literários e especialistas em literatura. Não podem concorrer funcionários, estagiários e parentes (até segundo grau) de funcionários do Sesc, da Confederação Nacional do Comércio e das Federações do Comércio, da editora Record, bem como estagiários e parentes (até segundo grau) de funcionários e nem dos envolvidos no processo de julgamento do concurso.
O Prêmio Sesc já revelou 21 novos escritores. Em 2015, os livros vencedores foram: o romance Desesterro da paulista Sheyla Smanioto; e na categoria Conto o Antes que seque, da carioca de 49 anos, Marta Barcellos.
A inscrição será online pelo site:

Um código identificador é gerado automaticamente e, com esse, o inscrito poderá acompanhar o processo de avaliação.

O resultado será divulgado em junho os vencedores terão as obras publicadas pela editora Record com uma tiragem inicial de dois mil exemplares.



sábado, 16 de janeiro de 2016

"A Biografia", de Ana Miranda para O POVO


Ilustração: Carlus Campos

Mesmo sendo tão apreciada e frequentadora das listas de best-sellers, a biografia é tida como um gênero menor. Maiores, sabemos, apenas os PEN (do PEN Club): poetry, essay, novel. Poesia, ensaio e romance. Mas os leitores amam as biografias, querem conhecer a vida de gente célebre, como Getúlio Vargas, Carmem Miranda, Padre Cícero, Garrincha... Porém, o melhor efeito da leitura de uma biografia é que, enquanto temos a sensação de vivermos uma vida alheia, relembramos a nossa própria vida. Podemos, mesmo, reconstruir nosso percurso sob novos olhares.
É um dos gêneros literários mais antigos, e dos mais diversos. Há biografias literárias, genealógicas, militares, políticas, psicológicas, romanceadas, até mesmo as que omitem a obra do biografado, como uma de Poe, em que o autor, fascinado pelas mudanças de casa do contista, mal consegue reservar uma linha para os contos. Ou uma de Bolívar, outra de Napoleão, que não mencionam absolutamente nenhuma batalha desses militares.
As primeiras biografias eram tendenciosas, escritas com um intuito certeiro. As escritas por Plutarco sobre romanos e gregos tinham o interesse didático de comparar as virtudes das duas nações. As de Suetônio, sobre doze césares romanos, foram escritas como denúncia da tirania. Os flos-santórios, biografias de santos, no Cristianismo primitivo e no medieval, tratavam de dar exemplos de virtude religiosa e garantir seus resultados milagrosos. Apenas na Renascença foi descoberto o indivíduo como ser autônomo, quando se escreveram biografias de grandes artistas italianos e holandeses. Os protestantes aprofundaram, com as biografias dos reformadores, aspectos da psicologia e do exame de consciência. Só depois disso foi que surgiram as biografias de escritores, como a Vida dos poetas ingleses, de Samuel Johnson. Muitas delas eram escritas por admiradores incondicionais de seus biografados, como a de Dickens por J. Forster, e tinham cunho apologético, omitindo tudo o que fosse menos edificante.
A biografia hoje pretende ser documental, jornalística, desfiando os fatos, buscando a “verdade”, a “realidade”, tentando comprovar cada afirmação com documentos ou com testemunhos. E a sensação é mesmo de acompanharmos uma “realidade”, e de que tudo o que lemos é “verdade”. Mas, como disse Borges, “tão complexa é a realidade, tão fragmentária e tão simplificada a história que um observador onisciente poderia escrever um número indefinido, e quase infinito de biografias de um homem destacando fatos independentes, e só depois de ler muitas delas perceberíamos que seu protagonista é o mesmo”.
Pode-se escrever uma biografia dos sonhos de uma pessoa, outra, das mentiras que ela disse, outra, dos momentos em que ela imaginou pirâmides... Será que podemos confiar nas biografias? Do mesmo modo que confiamos nos historiadores, sim. E nos ficcionistas. Costumo dizer que os historiadores são ficcionistas que fingem estar dizendo a verdade; e os ficcionistas, historiadores que fingem estar mentindo.
A biografia de “desmascaramento” surgiu com a publicação de Vitorianos eminentes, sobre a rainha Vitória, escrita por Lytton Strachey. Ele usa o estudo psicológico para desvendar a verdade histórica, um método biográfico que exige as artes do romancista, tanto na análise como na narração.
O mais confiável biógrafo seria o próprio biografado, ele é quem mais se conhece e sabe sobre sua vida. Por outro lado, é o menos confiável, pois pode cair na tentação de, numa autobiografia, falsear sua vida e esconder fatos que o magoam ou envergonham. E, mesmo sendo uma pessoa honesta, vai selecionar os elementos que compõem o melhor – ou o pior – retrato de si mesmo.
Há biografias tão pequeninas que cabem numa frase. O Otto Lara Resende dizia que a sua era: Nasceu em São João Del Rei, viveu e morreu. Outras ocupam volumes de mil ou mais páginas, como a de Joyce, escrita por Richard Ellmann. A maior de todas, consta ser a de Samuel Johnson, composta por seu discípulo, Boswell, que chega a transcrever toda a correspondência do biografado, assim como muitas de suas longas conversas. E a melhor de todas, no meu entender, é a de Sir Richard Burton, escrita por Edward Rice. Burton foi um agente secreto que fez a peregrinação a Meca, descobriu o Kama Sutra e trouxe as Mil e uma noites para o Ocidente; explorador, aventureiro, militar, naturalista, falava 29 línguas, viveu o cotidiano de povos exóticos e deixou diários fabulosos.
A melhor biografia é aquela da vida que alguém gostaria de viver.


Resenha de Rinaldo de Fernandes para "Crônicas Absurdas de Segunda", de Raymundo Netto


Crônicas sobre o Talento Cearense

Antonio Candido tem um ensaio elucidativo sobre a crônica, no qual afirma que, filha do jornal, comunicativa por pendor, a crônica consegue, com humor, com uma linguagem natural, espontânea, praticamente “conversar com o leitor”. A crônica é leve e, na sua simplicidade, ajuda a dimensionar os temas a que o cronista se dedica. Na mão do cronista, o assunto grave, sisudo, fica ao alcance de todos – enfim, as coisas complicadas da vida descem de seu cume, ficam “ao rés do chão”.
A crônica, que poderia ser descartável como o jornal que a envelopa, ganha sentido de permanência quando transposta para o livro.
E se fazem permanentes, têm força de grande literatura, as crônicas do cearense Raymundo Netto enfeixadas no livro Crônicas absurdas de segunda, que traz um prefácio saboroso e esclarecedor de Ana Miranda e uma introdução do historiador da literatura cearense Sânzio de Azevedo.
Retiro do prefácio de Ana Miranda dois trechos que definem bem a crônica de Raymundo Netto. No primeiro, a autora de Boca do inferno alerta:
“O texto de Netto é descansado, sonhador, ambulante e dialogado, nunca em silêncio. Nunca solitário. Não se importa com o realismo e mesmo quando é realista carrega a fantasia da memória.”

Adiante, Ana Miranda anota:

“O seu narrador me faz lembrar um senhor de chapéu coco e fraque, muito elegante, cortês. Entusiasmado e fervoroso, vaga pelas ruas a olhar tudo e conversar com quem aparece ali. Gosta de conversa. Um narrador carregado de sentimentos, uma afetividade à flor da pele, e um pouquinho de malícia. Fala num tom de certo gracejo inocente, aproveitando todos os momentos para chistes e improvisos.”

O livro é uma seleção de crônicas que Raymundo Netto publicou no jornal O POVO, de 2007 a 2010. Há no livro uma unidade, uma estrutura eficiente, que decorre dos seguintes elementos:

·         emprego constante de intertextualidade (aproveitamento, através da paráfrase, do pastiche ou mesmo da paródia reverencial, de trechos de obras de autores do passado e do presente);
·         utilização do fantástico nos enredos;
·         telurismo (o Ceará – os seus escritores, mortos e vivos – é o grande protagonista das crônicas);
·         didatismo (para cada crônica, há uma nota biográfica sobre o personagem-tema – o que contribui para tornar o livro também um consistente manual sobre a literatura cearense).

Como a crônica de Raymundo Netto, como bem disse Ana Miranda, traz um narrador que “gosta de conversa” (algo análogo ao que formulou Antonio Candido, ou seja, que o cronista enceta uma “conversa com o leitor”), indico aqui as conversas que mais me chamaram a atenção no livro: a com a estátua de Rachel de Queiroz (“A moça do Zepelim prateado”), de caráter metalinguístico, em que é discutido o fazer do cronista; a que trata de uma “mania” do também cronista Pedro Salgueiro (“A dança das cadeiras”), que, no bar, numa roda de amigos, “é sempre o último a se levantar para ir embora”, evitando assim a “falação” dos outros; a com o poeta Quintino Cunha (“Molequintino”), excelente, exemplo do emprego eficaz do humor na crônica; a com o contista e cronista Airton Monte (“Um monte de barata”), que aparece uma noite metamorfoseado de barata; a com o grande contista Moreira Campos (“A casa vazia”), que chega em seu fusquinha verde no estacionamento de um shopping – a crônica permite uma boa reflexão sobre patrimônio e memória; a com o “poeta maldito” José Alcides Pinto (“A peleja de Dom Zé Alcides e o Dragão de Sobral”), texto com preciosos elementos fantásticos.
São ainda personagens-temas das crônicas, entre outros, o romancista José de Alencar, o dicionarista Raimundo de Menezes, o contista e romancista Eduardo Campos, o contista Jorge Pieiro, o cronista Milton Dias, o poeta Francisco Carvalho, a romancista Ana Miranda, o pesquisador, poeta e cronista Audifax Rios, o poeta popular Mário Gomes, o jurista, escritor e crítico Clóvis Beviláqua, o poeta, jornalista e orador Demócrito Rocha, o romancista Antonio Sales, a romancista Socorro Acioli, o poeta Horácio Dídimo, o cronista Lustosa da Costa e o romancista e contista Nilto Maciel. Cearenses notáveis.      
São muitos os exemplos de crônicas bem compostas no livro de Raymundo Netto. Se não comento todas aqui, é para não apagar a curiosidade do leitor.
Crônicas absurdas de segunda é um livro precioso. Um livro para ser adotado em escolas, como forma de divulgar o talento da gente do Ceará.  

Rinaldo de Fernandes, para o Blog da Beleza (http://rinaldofernandes.blog.uol.com.br/)
Escritor e crítico. Doutor em Letras pela UNICAMP e professor de Literatura da Universidade Federal da Paraíba. Organizador do livro O Clarim e a Oração: cem anos de Os Sertões (Geração Editorial, 2002). Como pesquisador, fez os textos da antologia Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século, organizado por José Nêumanne Pinto (Geração Editorial, 2001). Autor de diversos livros de contos, como O Caçador (1997), O Perfume de Roberta(2010), Rita no Pomar (2009) e O Professor de Piano (2011) – os dois últimos foram finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura. Organizador das antologias Contos Cruéis (Geração Editorial, 2006), Quartas Histórias (Garamond, 2006) e Capitu Mandou Flores (Geração Editorial, 2008). Escreve para os suplementos Rascunho (Curitiba) e Correio das Artes (João Pessoa). A Novo Século acaba de lançar seus Contos Reunidos, mais um sucesso desse autor.
    
Serviço:
Crônicas Absurdas de Segunda, de Raymundo Netto
Apresentação: Ana Miranda
Prefácio: Sânzio de Azevedo
Posfácio: Pedro Salgueiro
Ilustrações (capa e miolo): Valber Benevides
Det: Capa dura | 231 páginas | colorido | Formato: 15,5 x 21,5cm
Investimento: R$ 30,00
Compra On-Line: livrariadummar.com.br
Contato com o autor: raymundo.netto@gmail.com