sábado, 31 de julho de 2021

"Bagulho", de Raymundo Netto para O POVO


Essa mulher é um bagulho! Olha só, gente! Ha, ha, ha...”

No bar, sede maior da democracia e da galhofa brasileira, onde também as mesas masculinas esticam as noites mais simplórias de pileques, carros, futebol e mulheres, a atenção daqueles amigos voltava-se à calçada para conferir o alvo da maldosa pilhéria.

Entre eles, Jurandir, o sempre alegre e carismático motorista de Uber, que, como os outros, correu à janela. Todavia, enquanto todos a apontavam, rindo a valer, deliciando-se daquela cruel mangação e, por tabela, imaginando o triste par daquele “bagulho”, ele voltou-se, de fininho, e correu ao banheiro. Ali, a postos e diante do mictório, Jurandir, envergonhado, se punia: “O bagulho é a minha mulher!”

Suzete, era esse o nome de sua sua esposa, foi a inapelável paixão de sua juventude. E não só a dele. No furor destemperado de hormônios contidos de adolescentes, era cobiçadíssima pelos garotos do bairro, por conta da sua beleza e da volumosa retaguarda, sendo por eles apelidada de Suzy Locomotiva ou Su Tanajura.

Não raro, na época, Jurandir ouvia os lamentos de recusas que ela distribuía soberbamente à rapaziada mais ousada, o que conferia a ela uma aura quase divinal.

Daí estranhar que, em uma festinha num clube mixuruca de bairro, ela mesma tenha dado bola a aquele jovem extremamente tímido e gorducho.

Durante meses, Jura assistia, com o orgulho de ganhador de loteria, aos colegas inconformados: “O que diabos essa mulher viu em você?” Ora se ele sabia! Estava feliz, despudoradamente fascinado pela namoradinha a quem dedicava declarações de amor eterno, decoradas de falas de telenovelas. 

Com ela, sua primeira vez e todas as demais de sua vida. Assim, casaram-se, e na fúria de seus impulsos de paixão alucinada, que fazia tremer as paredes finíssimas da casa de conjunto sem forro e geminada comprada a perder de vista, colheram cinco filhos, quase que em escadinha, isolando-os do convívio social.

Num ato de bravura e para dar conta, Jurandir trabalhava todos os dias, antes, como motorista de ônibus e, depois, taxista, enquanto Suzete enfrentava o pandemônio da rotina da filharada e da casa, alimentando-se de comida barata, servida a granel, e descuidando-se completamente de si.

Ainda no banheiro, o velho Jura via passar por seus olhos, e pela parede marcada por impropérios, números telefônicos e propostas indecorosas, o filme do romance de sua vida. Fechou a braguilha, saiu dali e, sem pagar a conta nem falar com seus colegas de mesa, voltou para casa.

Ao chegar, Suzete já dormia, enrolada na colcha extravagante. Admirava-a, em silêncio: “Bagulho... Bagulho?” Aquela palavra, para ele incompreensível e ultrajante, trazia uma gravidade a ferir mortalmente o mais íntimo de sua alma.

Naquela noite mesmo, resolveu: romperia com aqueles homens, passaria a frequentar outro bar e até deixaria de beber... Claro, mas isto só no caso de um fatalismo profético!

No dia seguinte, ainda consternado com o acontecimento, cumpria sua rotina de Uber quando atendeu ao chamado de um jovem, estilo jamaicano, descolado, colorido e com um gorro forrado de dreads. O rapaz o achou disperso, meio de bode, e, tirando da mochila uma sacola surrada de papel, sondou: “E aí, coroa, tu curte um bagulho?”

Jura, diante de inusitado questionamento, sentiu uma vertigem absurda, desequilibrou na direção, subiu a calçada e, ao brecar drasticamente, gritou com seu assustado passageiro: “Eu AMO o bagulho, entendeu? Eu AMOOO!!!”




 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Seleção para novos Agentes de Leitura (até dia 2 de agosto)


INSCRIÇÕES PARA O PROJETO AGENTES DE LEITURA DO CEARÁ

Até dia 2 de agosto de 2021

Mais informações e INSCRIÇÕES, ACESSE:

http://editais.cultura.ce.gov.br/2021/07/19/i-editalagente-de-leitura-formadora/

SELEÇÃO de:

1.     AGENTES DE LEITURA MEDIADORES:

·       Remuneração: 75 bolsas no valor de R$ 600,00 para atuar em seu próprio bairro (sendo um dos listados a seguir).

·       Residência: Em Fortaleza, obrigatoriamente nos bairros Bom Jardim (comunidade Alto da Paz e São Francisco), Praia de Iracema (comunidade Poço da Draga), Pan Americano, Vicente Pinzón (comunidade Castelo Encantado), Moura Brasil (comunidade Oitão Preto) e Curió (Curió, São Miguel e Palmeirinha).

.·       Idade dos candidatos: 18 a 29 anos

·       Instrução: Conclusão de Ensino Médio (em escolas públicas) – não pode estar cursando faculdade nem ter emprego.

2.     AGENTES DE LEITURA MONITORES:

·       Remuneração: 4 bolsas no valor de R$ 1.100,00.

·       Residência: Em qualquer bairro de Fortaleza.

·       Idade dos candidatos: 18 a 29 anos

·       Instrução: Conclusão de Ensino Médio (em escolas públicas) – CURSANDO no mínimo o 5º semestre da faculdade (Letras, Pedagogia, Psicologia, Sociologia e áreas afins e, de preferência, que goste muito de ler literatura.

3.     AGENTES DE LEITURA MONITORES DE CULTURA DIGITAL:

·       Remuneração: 3 bolsas no valor de R$ 1.100,00.

·       Residência: Em qualquer bairro de Fortaleza.

·       Idade dos candidatos: 18 a 29 anos

·  Instrução: Conclusão de Ensino Médio (em escolas públicas) – com FORMAÇÃO TÉCNICA na área de TI ou em cursos livres na área de Tecnologia.

OBSERVAÇÃO: a edição dos agentes de leitura de 2021 acontecerá ONLINE, utilizando aplicativo e tablets fornecidos para os selecionados e às famílias envolvidas. Ofereceremos suporte às famílias com os equipamentos utilizados nesta edição piloto.

"O Programa Agentes de Leitura tem por finalidade promover a democratização do acesso ao livro e aos meios da leitura como ação cultural estratégica de inclusão social, desenvolvimento humano e cidadania, com ênfase na formação de leitores, incentivando o aprimoramento da interpretação de textos, e na fruição da leitura literária no âmbito familiar das comunidades de baixa renda."

 


 

segunda-feira, 19 de julho de 2021

"Resignada Mente", de Raymundo Netto para O POVO

 

Jacó era um bruto, mas só dentro de casa. Na rua, era conhecido pelo seu coração amantíssimo, vivendo na comovente disciplina do pecado, mais plural do que a letra “S”, talvez a mesma usada pelos sultões sauditas ao amealhar seu vasto harém.

Disposto e com tempo de sobra, lançava-se ao vento, principalmente quando este lhe chegava com fragrâncias femininas. Para elas, tinha um faro extraordinário. Então, o homem se entregava molinho, molinho, feito almofada de sofá antigo.

Não raro, algumas se interessavam incondicionalmente por sua perfeita cafajestice. Outras, porém, ao perceberem a larga aliança dourada na mão esquerda, quase sempre enfiada no bolso, se frustravam: “Só podia ser... um tipão desses, né?” Mas Jacó não perdia a pose e contornava a situação com uma rodrigueana de efeito: “O casamento é o máximo da solidão com o mínimo de privacidade. É ou não é?”

Amélia, a esposa, era manicure, pedicure e designer de sobrancelhas. Não fosse atender a domicílio, mal saía de casa, arrumando-a, lavando roupa e preparando a refeição para quando o marido chegasse e se chegasse.

Você pode até pensar o quão infeliz ela deveria ser, contudo, dizia-se a mulher mais feliz do mundo. Às clientes, confessava numa sinceridade suicida: “É o amor da minha vida. A melhor coisa que me aconteceu. Sem ele não sei viver.”

De fato, durante o namoro e nos primeiros anos, poderia até ser possível uma tal felicidade, mas o tempo, associado a dividas intermináveis, à rasa e abundante programação da TV e uma boa dose de tédio, massacra qualquer boa intenção.

No caso, Jacó se rendeu a uma liberdade promíscua, enquanto coube a Amélia suportar esse amor de casal inteirinho para si. Era, como toda mocinha de novela, feliz e pronto, apesar da rádio calçada, ao pé da janela da cozinha, anunciar-lhe em detalhes megafônicos as aventuras do marido. 

Também as irmãs, amigas, vizinhas, clientes, mesmo quando tinham maridos tão ruins ou piores do que Jacó, insistiam no papo reto, de mãos dadas à liturgia divorcial – alguém, que não serei eu, tem que se separar primeiro... – e apontavam os defeitos do marido alheio, com rancor e intolerância, além de uma curiosa propriedade.

Numa roda de salão improvisado, uma das clientes apontou que o carro de Jacó fora visto estacionado na esquina de um tal apartamento. Sem tirar a vista da serrinha de unha, Amélia justificou: “Ele adora caminhar na praça em frente. Quer manter a forma. Um lindo!”

Outra vira Jacó em um telefone público a poucos quarteirões de casa. Preocupou-se: “Meu Deus, será que esqueceu novamente o celular no trabalho? Ele é tão responsável...”

Seria verdade que ela encontrara uma mancha de batom no colarinho dele? Até riu: “Sim, mulher, a minha sogra adora usar batons extravagantes. Ele deixa. É desapegado e tão amável...”

Dizem que ele estava na praia, conversando com aquelazinha, conhecida pela má fama... Claro: “Ah, ele adora pegar um solzinho e não tem preconceito, não. Dá atenção a todo mundo.”

Você sabia que ontem ele estava entrando com umas compras no apartamento daquela sirigaita? Quase bateu nos peitos: “Humm, acho que ele me disse... É tão altruísta. Um cavalheiro.”

Exasperada com a ingenuidade da moça, uma delas rosnou: “Abre os olhos, criatura, só você não vê que ele não te ama!!!.

Nessa hora, todas se calaram estupefatas diante da ousada e medonha sentença da amiga. Amélia, como se despertasse de um sonho de algodão doce, levantou-se de seu banquinho, atirou para o lado a toalhinha e a ternura e, indignada, tascou: “Ah, minha filha, aí já seria sorte demais!”



"Distrações", de Pedro Salgueiro para O POVO


Percebi o poder e o mistério de se estar perigosamente distraído num instante banalíssimo de um jogo de futebol, explico: não encontrando lugar nas arquibancadas do Estádio Presidente Vargas, procurei uma fresta entre os que se espremiam ao pé do alambrado junto ao campo; a partida corria solta num empate disputado, com perigo de ambos os lados; eu mal avistava o gramado, levando esbarrões laterais dos nervosos torcedores, então fiquei num misto de distração entre ouvido acompanhando as emissoras de rádio, xingamentos vindos das arquibancadas e força de ombro para não ser jogado pra fora do campo de visão do espetáculo...

Fiquei num estado de sonambulismo de atenções, não sabia em que plano sobrevivia naquela loucura, se no auditivo, no visual ou no meramente corporal, nisso fui perdendo as rédeas da partida e imaginando situações noutros níveis mentais; fechasse os olhos não saberia se estava numa feira, show musical, corrida de cavalos ou...

De repente estiquei o pescoço para a trave que estava à minha esquerda, logo percebi envergonhado que o ataque estava do outro lado, meu lado direito, então balancei a cabeça e me afastei um pouco, envergonhado pelo meu erro... Mas foi somente o tempo de ter que esticar novamente o pescoço e ficar na ponta dos pés, para ver ainda o gol... Desta vez, verdadeiro, um gol, sim!, num rápido contra-ataque o time visitante fez seu tento... lá na trave esquerda... Isso mesmo, aquela mesma trave com a qual me enganara segundos antes.

Na hora as vaias da torcida, os protestos e reclamações dos jogadores, objetos jogados no campo, não me deixaram pensar no assunto, mas chegando a casa, e até hoje, lembro essa pequena premonição proporcionada pela minha máxima distração.

Décadas após, numa daquelas crônicas/poemas de Clarice Lispector (“Por não estarem distraídos”, do livro A Descoberta do mundo: crônicas, de 1984.), encontrei uma possível explicação: “Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos”.

Outros anos depois, encontrei no texto “Cristal com uma rosa dentro”, do Tomo II, do livro Último Round, de Julio Cortázar, esta pérola: “O estado que definimos como distração poderia ser de algum modo uma forma diferente da atenção, sua manifestação simétrica mais profunda situada em outro plano da psique; (...) Não é raro que no indivíduo acostumado com tal tipo de distrações a apresentação sucessiva de vários fenômenos heterogêneos crie instantaneamente uma apreensão de homogeneidade deslumbrante”.

E hoje sei que – parafraseando Leminski – “distraídos enxergaremos” bem mais.




 

segunda-feira, 5 de julho de 2021

"Pretume", de Raymundo Netto para O POVO

A mulher só se vestia de preto. Assim como pretos eram os seus móveis, os talheres, pratos, as cortinas, o abajur, os estofados, a graúna, o sorriso e o gato. Nada de flores na janela, nem folguedos de crianças, beijos de novelas ou esperanças. Pior: a casa toda era esmorecida, rancorosa, viciada em grave e infindável melancolia. Imersa na solidão das horas vãs, maisqueria se jogar pela vidraça, sentir o gume ligeiro dos seus estilhaços, apartar-se mole pelas coxias, diluir-se entregue nas bocas de lobo, acolher de bom grado o peso imposto do telhado carcomido, eriçar o pelo na tomada da parede, engolir trufas até docemente estourar, calar de vez o vazio do peito e a loucura a pinçar-lhe obscuras e desgrenhadas ideias.

No seu quarto, asilo maior daquele mal-estar olímpico, a cama nunca feita, o travesseiro enfronhado de mágoas. Via-se ao corredor de tacos frouxos roupas urdidas e abandonadas em sujidades pretéritas pelo caminho. No banheiro, o espelho coberto por toalha e o chuveiro inútil. À cozinha, a torneira pingando na louça desapressada e a umidade pustulando nas paredes rotas em papel.

Ao longo dos dias, a graúna sem canto, o gato sem língua, o silêncio apenas cortado pelo, então, estrondoso zunir de asas de insetos. Livres, apenas os insetos.

Anos-há, ali, a mulher não concederia abrigo a ninguém, nem ao Sol nem à Lua.

À Martir, sua irmã, apenas a ela, permitia o ingresso naquela casa, e unicamente quando trazia os suprimentos para a despensa ou eventuais mezinhas.

Martir, abafada de calor, sentava-se na marquesa ao lado da janela e ensaiava abrir as cortinas, quando imediatamente reprimida pela irmã: “Não abra! Doem-me os olhos. Deixa assim, deixa!”

Martir insistia: “Mas o ar, mulher, como você suporta isso?”

“Que ar? É ar que você quer? Então vai lá fora, vai. Lá fora tem de sobra!”, respondia, apontando-lhe impaciente a porta da sala.

A irmã se calava, resignada como estátua de jazigo. Detinha-se, porém, no instante de um suspiro. Sempre ansiou por uma palavra, qualqueruma: confissão, recomendação, curiosidade, descuido ou o que quer que fosse, mas nunca. Não suportando tanta mudez e o olhar quase de vidro, despedia-se, a prometer a si mesma nunca mais pôr os pés naquele ninho da morte: “Você é louca, só pode ser... E eu devo ser mais se um dia eu ainda voltar aqui!”

Uma manhã, a mulher acordou e viu, de relance, os pés escuros como tisne. Esfregou as mãos nos olhos na tentativa de enxergar melhor, quando percebeu, também elas, mãos e unhas estranhamente enegrecidas. Pensou em gritar, pedir socorro, mas para quem? Não havia outra alma em casa. Não sabia o nome dos vizinhos e mesmo se os tinha. Mesmo assim, gritou, mas a voz não lhe saía, e, sim, uma névoa espessa como a fumaça abundante de velhas locomotivas.

Correu ao banheiro para lavar o rosto e descerrou o espelho coberto há anos. Aterrorizou-se pela própria imagem: apenas os olhos, ainda que cinzentos, reconhecia. Os cabelos grossos e rentes lhe desciam como raízes rijas pelos ombros, pelo peito e abdome.

Amolecida, ela deitou em sua cama e, aos poucos, sua pele pôs-se a descamar. Como cinzas de uma fogueira, esses restos de corpo se deslocavam flutuantes e leves pelo ar. 

Aos poucos, o seu ser, todo ele, se confundia com as folhas da mais absoluta escuridão, a ponto de não restar dela sequer o nome, a história, uma saudade nem pensamento.

 

 


quinta-feira, 24 de junho de 2021

Live de Lançamento "Santuário", de Maria de Fátima Maia


Clique na imagem para ampliar!

Para adquirir o livro Santuário, de Maria de Fátima Maia


Com a autora: mfmaia@hotmail.com

Pela Editora Confraria do Vento:

https://www.confrariadovento.com/editora/catalogo/item/291-santuario.html


 

SOBRE SANTUÁRIO

Santuário (Confraria do Vento, 2020), de Maria de Fátima Maia, me chega pelas mãos da autora, assim como me chegou, anos passados, sua primeira publicação, Borboletário (Confraria do Vento, 2011), também de poesia.

Em formato pocket e com um design que exala beleza e apuro – do nosso querido amigo Geraldo Jesuíno –, a obra tem o prefácio do prof. Sânzio de Azevedo, outro querido amigo, maior fomentador da pesquisa em literatura cearense, poeta e professor durante anos da disciplina Teoria do Verso na Universidade Federal do Ceará. O professor conclui seu texto com a seguinte afirmação: ““Trata-se de mais um nome que se soma aos muitos que formam o melhor da poesia cearense de nosso tempo.”

Não é pouca coisa.

Também na apresentação, a presença de Ionilton Pereira do Vale e, ao final, o posfácio é da própria autora.

O livro, como o todo, é uma edição muito interessante.

A começar do próprio título, “Santuário”, palavra que evoca “lugar sagrado”.  A obra é para autora esse lugar sagrado, onde as relíquias dessa devoção são as palavras, os versos, a poesia.

Soma-se a isso a predominante cor roxa/lilás, que entre as cores litúrgicas, se refere ao recolhimento, a uma profunda interiorização que leva à esperança.

No processo de seu recolhimento e interiorização literária, Fátima espraia por toda sua obra uma sequência de sonetos – ao todo, 21 – que, mesmo trazendo notas românticas e vocábulos não usuais (“maneiras do século passado”), viola os moldes rigorosos, por exemplo, dos parnasianos. Não se preocupando excessivamente com métricas ou rimas – embora lá estejam – e retirando de todos eles os espaços não preenchidos de intercalação entre quadras e tercetos, mesmo assim não perdendo a cadência gostosa de sua produção.

Não é difícil perceber na voz da autora a semelhança com outra sonetista: Florbela Espanca, que ao defender que “Há uma primavera em cada vida”, encerra seu “Amar!” com “E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada/ Que seja a minha noite uma alvorada,/ Que me saiba perder... pra me encontrar...”

Outro detalhe interessante é que o livro se trata de uma poesia-narrativa, quase um cântico, no qual Fátima, com lirismo sensível e delicado, narra um grande drama de amor a partir do encadeamento de fases, sem de maneira alguma perder a eficácia estético-rítmica esperada de poemas, fazendo jus ao “Santuário”, denominadas: (1) Celebração, (2) Reflexão, (3) Contrição, (4) Remissão e (5) Enlaces.

De forma geral, e podendo conter spoilers, as apresentamos:

CELEBRAÇÃO

Numa contemplação barroca, percebe-se o momento de celebrar a vida, por entender a finitude das coisas e, ao mesmo tempo, desejar a sua eternidade

“Por sabermos o preço deste instante/ confirmamos no aperto de um abraço/ mil atávicas juras dos amantes”, concluindo: “Tu serás para sempre o meu regaço”.

Apesar da voz melódica, perceptivelmente branda, como a confessar um segredo para si mesma, há um forte teor físico, de mãos, pernas, corpos, bocas, desejos e carícias: “Tens o melhor de todos os sabores, /o que excita os sentidos sem pudores/ e alucina a pessoa mais discreta.”

Mas, mesmo quando ele pede que ela não vá embora e confessa “só teus beijos, enfim, calar-me-ão”, ela volta ao “leito-desengano” para “verter teu perfume no soneto”. Amá-lo, percebe, é ferir-se.

Ela é felina, tal qual onça, “uma fera segura e decidida” que pede ao vento – o vento é uma terceira personagem da obra, surgindo como conselheiro, companheiro ou apenas como espectador – que a ajude a guardar as suas garras e que sejam doces os seus versos e seus momentos.

REFLEXÃO

Na sua reflexão, ela volta ao profundo de sua consciência e às lembranças.

É menina, no sertão onde viveu, “crescida entre os espinhos”, andando “sempre descalça”, na “lonjura de quem nunca se aproxima”, com “apetites abafados” e um “coração desconfiado”: “seria pudente crer em ti?”

A verdade: “estamos sempre sós” E chega-nos, em dourada chave: “Nunca mais haverá um outro agora!”

CONTRIÇÃO

Num momento de contrição, sua alma geme arrependida “de escolher o teu peito como sede”. Porém, a resignação: “Minha sina será como Deus queira!”

Ele volta, utilizando as artimanhas que “sequer coram tua face”. Não é o mesmo e está mais velho: “Vejo as cãs do ignóbil cavaleiro.”

Ciente dessa certeza, ela sofre por trazer ainda “O vício de andar aonde tu fores.” Então, como em um sonho, sente um “galope no peito” e “Na garupa da mente ele vai vivo”.

Há muita hesitação, medo, dúvida. Ela percebe haver “sangue na lágrima que espreme” e uma “culpa acesa/que não finda na insone madrugada”.

REMISSÃO

Sente-se humanizada, curada, quiçá, perdoada.

Perdeu o “medo da altura das estrelas”. Objetivamente sente a perda do tempo ao olhar no espelho. Entende o poema que a ele pertencia, como a “carcaça de sonho”.

O perdão, renovado todos os dias, vem com a despedida: “o fatídico dia-desenredo”

ENLACES

Refere-se às gerações, a origem de tudo, a sua família primitiva. O desenrolar da vida que se repete e também se renova. A esperança e a fé que brotam, mesmo nos mais áridos terrenos.

É, no livro, o momento do grande abraço, ou enlace, da autora a todos os peregrinos desse Santuário, que somos nós, os seus leitores, na certeza de que, como a oração sincera, a poesia também enternece e consola a alma.

 

Raymundo Netto

Editor e escritor e dublê de resenhador

 

Sobre a Autora

Maria de Fátima Maia afirma veementemente ser cearense, precisamente, de Pouso Alegre, Minas Gerais. Tanto o é, que nasceu no dia do padroeiro do Ceará, São José, quando sua mãe estava a passeio nas alterosas terras dos inconfidentes. Sua ascendência familiar é de Limoeiro do Norte/CE, onde, hoje, a autora ocupa o cargo de Procuradora Geral do Município. Porém, residiu muitos anos em Fortaleza, onde se preparou para o então denominado vestibular. Cursou Direito, na Universidade Federal do Ceará, e pós-graduações jurídicas. Em 2010, recebeu prêmio Costa Matos de Poesia, promovido pela Alane, Academia de Letras e Artes do Nordeste. É também autora do livro de poemas Borboletário, de 2011.

 


 

sábado, 19 de junho de 2021

"Abusiva", conto de Raymundo Netto para O POVO


“Não há no mundo quem te ame mais do que eu! Não tem, viu?”

Augusto ouvia essa cerimoniosa, sonora e indefectível declaração todos os dias durante anos de casamento. Sabia: depois dela, inútil argumentar. Assistiria, então, à saída dramática da esposa, dando-lhe as costas e enxugando os olhos correntes. Depois, ela se enfurnaria no banheiro por horas, como a contar diante do espelho uma a uma das lágrimas roubadas. Mesmo assim, ainda o despertaria, a hora que fosse, abandonada de si, rogando quilométricas desculpas e promessas em nome daquele imorredouro amor.  

Camila o amava demais. Mais do que o permitido por lei, de forma quase abominável. Maior do que ele, apenas a insegurança e o ciúme devotados àquele marido severamente asfixiado: “Te respeita, mulher... Me deixa em paz!”

Noites demais, Augusto despertaria subitamente por Camila, em olhos transfigurados: “Você ainda me ama? Eu te amo, te quero tanto...”.

No começo, ele achava aquilo “engraçadinho”, “fofo”, mas com o tempo e a insistência, tornou-se in-to-le-rá-vel: “Meu Deus, eu não posso nem mais dormir?”. Também quando assistia às partidas de futebol ou lia atento o seu jornal, era comum ela inventar motivos para ficar passando na frente da TV, mudar o canal ou enganchar-se ao seu pescoço, cobrindo-lhe de beijos caudalosos, a tentar levá-lo para cama.

Com o tempo, Augusto passaria a chegar mais tarde em casa, fazendo qualquer coisa ou coisa nenhuma, na vã tentativa de ela já estar dormindo. Mas Camila o esperava sempre. E, com o entusiasmo de abertura de loja em promoção, jogava-se em cima dele – mais e mais beijos –, trançava um rol de perguntas incômodas, comia do seu prato, fuçava sua mochila, os bolsos da calça, cheirava suas roupas. Uma obsessão medonha.

Quando encontrava a mãe, irmãs ou nora, aflita, exasperava-se no relato da incompreensível agonia do marido. Elas recomendavam fosse devagar, com calma, afinal, ele não lhe dava motivos para ciúmes ou desconfiança. Ela revoltava-se: “Coitadas de vocês que nunca sentiram um amor assim como eu. Eu morro de amor. Morro!” Entreolhavam-se em silêncio e com certo pavor.

Um dia, ele chegou mais cedo em casa. Calado, desviou-se dela e dirigiu-se ao quarto do casal. Lá, começou a sequestrar as roupas do armário e lançá-las numa velha mala. Camila, perplexa, o questionava. Augusto, numa sinceridade perversa, bradou: “Não te aguento mais! Vou-me embora daqui antes que...” Nem concluiu. Ela já estava aos seus pés, súplice como uma escultura de Claudel, na defesa de seu amor eterno. Mal sabia ela que, para ele, “eterno” soava como “inferno”. O inferno daquele amor.

Com a mala em punho, empurrou a mulher e correu para a escada. Camila, desesperada, saltou e agarrou-lhe as pernas, fazendo com que ele tombasse pelos degraus até o encontrarmos estatelado no soalho frio, ora tinto de sangue entornado da cabeça.

Meses depois, Augusto voltaria a casa. Com o trauma, imóvel do pescoço para baixo. Não conseguia falar e, agora mais do que nunca, era-lhe difícil engolir. Porém, enquanto todos cuidadosamente tentavam consolar a esposa, dar-lhe força, parecia ser ela a menos abalada. Sorria com mais frequência no desvelo exemplar ao seu marido paralítico.

À noite, então, do nada, acordaria com forte abraço o indefeso Augusto, entregue e inerte na sua cama-cárcere: “Está sonhando com o quê, amor? É comigo, não é? É comigo?”

 


 

domingo, 6 de junho de 2021

"Noite e Dia", de Raymundo Netto para O POVO


O amor que corre dencanto dobrado em limalhas de pensamento regurgita à tua face de lamento, quando num momento te vestes num sorriso.

Como em margens seguras do sonho impreciso que me te tens às mãos, figura nos chãos debaixos pés uma canção de amor em teu juízo.

Por onde passas és redemoinho. Tua liberdade furiosa, sei, a ninguém pertence. Arrastas e vences o que te importas no caminho e assopras com as pernas as poeiras do teu tempo.

Forte e frágil és sombra de vento. És nubem, és contento, quando deságua de chuva irisa-se em luar. É teu corpo onírica paisagem, tua pele enluarada mingua como a noite a gozar.

Por onde ondeia és maraberto, verde e silente de amaresiar...

Engolindo toda a vida em ti descoberta. Devorando-te pensamentos. Te devorando, Dvorak. Sorris e teus sorrisos são as chaves e achaques.

Por onde teus olhos passam, constelações como em pálpebras declinam. No alvorecer, no arvorescer, noite coroa dia; dia entorna noite e se animam.

Na casta cobiça de construir peça a peça o mosaico de tua alma canora, segredo-lhe meu silêncio. Tu me ouves muda, não o abraças, não o choras.

As palavras são forjadas uma a uma pela língua mais branca, na frase cuidadosamente pró-ferida, na cautela exaurida que a tudo sublima, na neblina que acompanha a mais prenhe solidão.

Preciso de ti... ah, como te preciso... precisamente ou não.

E o horror da confissão me vem como uma dentada, minha alma dilacerada, parto de tudo na vida, o meu bálsamo e a minha dor.

E tu sempre distante, entre risos e risadas, como as frias estrelas a fingir luz e calor.

A minha penitência decora as paredes do meu coração onde sulco teu nome, em gravação, com cinzéis de saudade.

Não é, porém, meu nome que vejo em teus olhos nem de a felicidade. Pois, como no poema, repouso em tua janela, tu és meu in verso, és ela: a minha condenação.

Encontrei-te por dentro em teu corpo desabotoado e na mais linda aflição, de repente, me tomastes ao teu lado.

E eu que não te amava, agora até teu era, e lancei para o céu a tarda espera das alegrias em troca da grande novidade de ver-te nua todos os dias.

Teus olhos de chama que acastanham meu desejo, teu batom na cama a negar-me o teu beijo e no latejo da tua mão na minha, vermelha e quente, a sentença incontinente de teu coração feraz: que enquanto de longe pareces deus, de perto, meu amor, és muito, muito mais.

 


"Sandra", conto de Raymundo Netto


Ernesto mal chegou à praça e foi acolhido por Pedro num entusiasmo delirante: “Cara, sabe quem marcou comigo aqui hoje? A Sandra! Acredita?”

Ernesto, numa aparente indiferença, estranhou: “Pedro, você está lembrado que a Sandra... morreu, né?”

Ernesto, Pedro e Sandra eram na faculdade um trio inseparável. Entre os colegas, sempre à margem daqueles afetos públicos, havia quem garantisse: os rapazes eram jurados de paixão pela moça, e que, em meio à doce e até invejada amizade, travava-se uma aguerrida disputa amorosa a resultar, a qualquer instante, em uma crise dramática. Para isso, bastasse a moça se decidir por um ou por outro.

Sabia-se que os três, além do grude na sala de aula, estudavam juntos, saíam para beber e se divertir, viajavam, compartilhavam quartos – e até camas – de pousadas e hotéis, numa obscenidade de querubins.

Na tão certa e temida noite de formatura, algo aconteceu. Pedro e Ernesto estavam intranquilos, reservados e separados. Criam: a partir de então a chave viraria e cada um seguiria o seu caminho profissional e a sua própria vida. Sandra, pelo contrário, estava exultante, distribuindo vigorosos sorrisos e olhares para o futuro que se anunciava, confraternizando com todos os colegas e misteriosamente dispensando a costumeira e exclusiva atenção à dupla.

Poucos meses depois, veio a bomba: uma doença incurável, repentina e dolorosa tomou conta de Sandra. A notícia se espalhou ligeira, os colegas a socorreram, chegaram junto, choraram juntos, e ela, mesmo morta e recolhida no derradeiro leito na lama, após uma noite quente e sem ar, esculturava a beleza risonha de um amor quase virginal.

Ernesto, logo à primeira notícia, abandonara tudo. Não saía de sua cabeceira por nada, envolvendo-a em carinhos e mentiras esperançosas. Muitas vezes ela perguntava: “E Pedro, onde está que não vem, aquele ingrato?” Nunca soube, mas Pedro sofria horrores. Trancara-se no seu quarto, inconformado, a beber e a chorar noite e dia. Na época, como fosse segredo, confessou a Ernesto o seu desmedido amor. Então, numa simulada surpresa, o amigo sugeriu esquecê-la.

Pedro e Ernesto se viram pela última vez no funeral de Sandra, e não se falaram nem ali nem nunca mais. Até aquele dia, anos depois, quando Pedro o chamou para se encontrarem naquela praça. Nela, Ernesto, muito delicadamente, o inquiria: “Pedro, ela falou mesmo com você? Quando? Como?” Pedro o respondia com uma certeza fulminante: “Ela me ligou, marcou aqui mesmo em nosso baobá. Lembra o baobá?”

No jardim da praça havia um baobá. Uma tarde, antes da formatura, embriagados, ensombravam-se no baobá, quando Sandra sentenciou a amizade tão duradoura quanto ele, estreitando em um abraço o choro doloroso de uma insuportável separação.

“Cadê o seu celular, quero ver essa ligação”, insistiu Ernesto. Pedro procurou nos bolsos, na mochila, não o encontrou. Colocou as mãos na cabeça, desesperado. Como atendera o telefone em casa, devia tê-lo esquecido por lá: “Cara, a gente pode até se desencontrar. Tenho que ir buscá-lo.” Ernesto, assistia com certa dor àquele nervosismo: “Pedro, olha, não tem telefone... Não adianta, ela...” Pedro não o escutava: “Faz assim, Ernesto: fica aqui, caso ela chegue. Não deixa ela ir embora. Vou em casa pegar o celular, vou provar para você. Fica aí, não deixa ela ir embora, volto já!”

De fato, não tardaria nada e Pedro retornava agarrado ao seu celular. Mas estacou ao ver um grande alarido em torno daquele baobá. Pessoas rodeavam o corpo ensanguentado de um homem. Era Ernesto. Esperava a volta do amigo. Distraído, no seu íntimo, queria crer nele. Daí surpreendido por um assaltante, reagiu, sendo brutalmente apunhalado e tombando sobre as robustas raízes.

Pedro quedou-se pasmo ao lado do amigo, quando ouviu o sinal de seu celular. Pegou o aparelho e olhou o visor. Era mensagem de Sandra: “Perdoe-me, querido, sempre amei Ernesto.” E ali, diante de todos, um homem choraria suas dores mais profundas a esmurrar o cadáver indefeso e realizado de um morto.