Por Batista
de Lima
Publicado originalmente no Caderno 3 do Diário do Nordeste, em 24 de julho de 2007.
Houve um tempo em Fortaleza, em que as pessoas colocavam as
cadeiras nas calçadas e contavam histórias umas às outras. Os mais velhos
contavam e os mais jovens ouviam extasiados. Era um tempo em que a televisão
ainda não havia alienado nossos ouvidos e nossos olhos.
Foi partindo desse referencial
que Raymundo Netto escreveu seu livro Um Conto
no Passado: cadeiras na calçada. Escreveu e inscreveu na Secretaria de
Cultura do Estado do Ceará, sendo então ganhador do Prêmio de Incentivo à
Publicação e Divulgação de Obra Inédita na categoria Romance.
Publicado em 2005 pelas Edições
Livro Técnico, na ficha catalográfica está escrito “conto cearense”. Essa falta
de uma definição do gênero pode até ser proveitosa, pois cabe ao leitor rotular
do que quiser. Eu chamaria apenas de “Narrativas”.
O importante nesse livro é a
viagem que o autor faz por uma Fortaleza que não existe mais, começando por um
tempo em que a Barão do Rio Branco ainda se chamava Rua Formosa e em que as
fachadas das casas apresentavam frontões, cimalhas, jacarés na platibanda e
arabescos que o tempo se encarregou de devastar pelas mãos destruidoras de seus
moradores.
Raymundo Netto, no entanto,
reconstrói esse contexto devastado. Restaura a antiga paisagem, usando seus chinelos
de cordovão, como fazia aquele esperto novo rico personagem machadiano. Depois
acende um candeeiro para verificar as rótulas das janelas, as taramelas das
portas, os punhos das redes, feitas com algodão do seridó. Vai em seguida à pensão
de dona Amélia Campos, sem esquecer uma passada no Café Java para um dedo de
prosa com Antônio Sales e Mané Coco.
Isso torna-se possível quando o
jovem escritor, de posse de seu candeeiro de porcelana com manga de vidro,
começa a clarear um passado que teima em se esconder na penumbra do tempo. Daí
ele se dirige de fraque e com o cabelo besuntado de brilhantina para um baile
na Itapuca Villa, na Guilherme Rocha,
um pouco antes do aristocrático Jacarecanga, onde o morador se distinguia pelo
tamanho do seu bangalô ou pelo número de compartimentos de sua mansão. É então
que todo um clima da belle époque fortalezense é criado pelo autor ao som da
música “Ontem ao luar”, tomando champagne, usando pincenê e transitando na rua
de cabriolet.
Raymundo Netto consegue
estabelecer um diálogo da ficção com a realidade. Para que o real se imponha
sobre o ficcional ele acrescentou à sua narrativa, imagens fotográficas da
Fortaleza histórica. Ícones da arquitetura fortalezense ilustram quase todas as
páginas do livro e conferem ao leitor a possibilidade de, mesmo enveredando
pelo enredo fictício, não desgrudar do nosso patrimônio cultural. É por isso
que os bancos da Praça do Ferreira recebem os nomes que um dia ostentaram para
o público e entraram para o folclore: “Banco da Opinião Pública”, “Banco da
Democracia”, “Banco dos Comunistas” e o “Banco que não teve nome”.
Nessa mesma Praça do Ferreira
ainda se mantém de pé, abrigando uma agência da Caixa Econômica, o Palacete
Ceará. Ali, no andar térreo, funcionava a Confeitaria Rotisserie e na parte superior o animado Clube Iracema. Isso tudo
no tempo em que motorista era chofer, a Major Facundo era Rua do Palma, o Majestic
era o cinema chique e Ponce de Leon era o Rei Momo do Carnaval. Todos esses
acontecimentos ocorrendo quando o Estoril ainda era Vila Morena, a Segunda
Guerra nem havia começado, a morte do bode Yoyô causava consternação na cidade
e Manezinho do Bispo, semianalfabeto, lançava livros de moral e humor.
Ao lado do caminho ficcional do
livro, trafega uma via histórica e real da cidade de Fortaleza. O hospital
principal é a Santa Casa de Misericórdia, fundada em 1861. O Passeio Público
vai dando espaço para a Praça do Ferreira. A estátua de Nossa Senhora da Paz se
ergue defronte à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no Centro, e não em frente
da Igreja da Paz, na Aldeota. As praças são iluminadas por combustores de gás
carbônico que em dia de lua cheia não eram acesos, por economia. E essa
penumbra que se instalava, vai se instalando à proporção que mergulhamos no
passado.
Nesse passado não tão remoto
abrem-se as cortinas da década de 1930 e ocorrem várias mudanças sociais a
partir da Revolução que depôs o Presidente da República, no caso, Washington
Luiz. Aqui no Ceará terminava o mandato de Matos Peixoto que, à frente do
governo do Estado, destacava-se pelos bailes que promovia no Palácio da Luz e
no Clube Iracema. O seu grande destaque era o fato de ser exímio dançarino.
É no início dessa década, mais
precisamente em 1931, que aos noventa e cinco anos, falece Juvenal Galeno, que
deixa sua casa como ponto de encontro até hoje de intelectuais e artistas, na
rua General Sampaio, 1128. E vem a descrição do poeta “sentado numa rede, de
gorro azul na cabeça e provando seu rapé, enquanto ditava para Henriqueta, sua
filha, alguns versos”.
No ano seguinte, 1932, perdíamos
Rodolfo Teófilo, o benemérito da pátria. Essas personalidades e os fatos
históricos vão sendo tratados ao longo da narrativa.
Finalmente chega-se ao final do
livro como quem acaba de fazer um passeio pela Fortaleza dos tempos idos.
Pensa-se tratar-se, o autor, de um velho fortalezense revivendo seu passado. Raymundo
Netto, no entanto, ainda não chegou aos quarenta anos. É, todavia, amante desta
cidade. E sofre com a sua descaracterização. Daí justifica porque escreveu o
livro: “Escrevi porque me dói no coração o abandono e a ingratidão mesquinha
por parte dos filhos dessa cidade que não aprenderam a amá-la... É a nossa
Fortaleza como uma mãe esquecida”.

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