Publicada originalmente em
2011
Mãe só se tem uma. Esta minha, para piorar, é uma idealista.
A dona Zenaide estudava no Liceu ao tempo em que também cursava o Normal.
Professorinha, recebia a troco de nadica, em própria casa, os pequenos
aprendizes “mal das pernas”, sem descuidar-se de ajudar sua mãe na criação dos
irmãos — eram nove —, de fazer quitutes para venda no bar do pai e de estudar
madrugada afora. Assim, ingressou na Faculdade de Odontologia. Aluna exemplar,
honesta até dizer chega — não mente nem a pau — e toda pela Fé: se acredita,
seja no que for, não tem quem a segure!
Boa parte de sua vida, Zena dividiu o
consultório dentário com a casa de seis filhos barulhentos. Entrávamos e
saíamos dele — à noite, brincávamos na cadeira da dentista a subir e a descer
no “pedalo” — com dúvidas escolares e/ou domésticas, arengas ou mesmo para
auxílio dos deveres de casa, ao pé da parede. Muitas vezes, éramos chamados
para segurar o queixo dos pacientes no incisivo (ou molar?) momento do vaivém
da extração.
De nunca reclamar da vida e de sempre dizer
a toda hora e a todo o momento “Agradeça! Agradeça!”, desconfiava-lhe de algum
temor ou tristeza quando ela, do nada, passava a cantar em voz de cantora de
rádio: “Eu vivo a vida cantando, ai lili, ai lili, ai lou/ Por isso sempre
contente estou, o que passou, passou.../O mundo gira depressa e nessas voltas
eu vou/ cantando a canção tão feliz que diz ai lili, ai lili, ai lou/ Por isso
é que sempre contente estou... Ai lili, ai lili, ai lou”
Lembro-me dela amolegando uns “capitães” no
almoço dos seis filhos, ou sentada conosco no meio da estrada — viajávamos
muito —, em garagens tisnadas de graxa e cheirando a gasolina, distribuindo
galinha assada guardada em potes de alumínio, fazendo sanduíches de carne de
lata, comprando fazenda para a costureira tecer nossas roupas de festa ou
fazendo das contas para conseguir pagar a prestação da casa.
Conselheira do povo, era sempre procurada
diante das confusões de vida alheia. Tinha ouvidos para todos, além de palavras
acalentadoras acolchoadas do amor a pesar no peito. Pudesse, colocava de um
mundo dentro de casa.
Entretanto, à mesa da cozinha, sede de
minhas melhores memórias, ao puxarmos assuntos banais, levantava-se sem ter nem
para quê. Dizíamos: “Mãe, eu nem terminei...”. Ela respondia “Essa conversa não
vai levar a nada. Tenho o que fazer”. Sempre teve, até hoje. Não para nunca a
nossa baixinha.
Uma noite, coitada, para que eu não fosse
punido no dia seguinte por não ter cortado o meu cabelo — estudava no Colégio
Militar — decidiu ela fazê-lo. Errou o corte. Fez um “buraco” que, rapidinho e
rindo muito, preencheu tascando-me à cabeça, com cola branca, o cabelo caído na
pia. E não é que deu certo? Milagre de mãe?
Dia, uma senhora lhe disse perceber-nos, os
filhos, carentes — não havíamos assinado a “procuração” —, pois ela não era de
nos carimbar de beijos. Ficou grilada. Falou sobre com os filhos. Nem ela nem o
pai eram dados a manifestações de amor, como beijos ou abraços. Não sabia.
Faziam outros tantos absurdos por nós, mas não beijavam.
Já casado, com duas filhas, uma tarde, sol
pegando fogo, a vi chegar à minha calçada. Estranhei: meus pais não são de
visitas. Nem entrou. Nas mãos, um saquinho com farofa feito de casa, encimado
por papelzinho “Netto”, escrito com letra cursiva, da mais linda que já vi: “Preparei
a SUA farofa e a trouxe, pois não sei quando você vai em casa, né?”. E se foi,
"Felicidades", no passo ligeiro de passarinho — pernas pequenas, voos
inimagináveis —, tinha muita coisa para fazer. Sempre tem: Ai lili, ai liliiii,
ai lou.

Mimos de Mãe têm M Maiúsculo e Marcam para sempre a vida dos filhos, ficam tatuados na alma deles. Que história mimosa.
ResponderExcluirParabéns, Raymundo Netto.
Obrigado (dobrado), Patrícia.
ExcluirAí, meu Deus! Você poderia escrever páginas e páginas sobre a Dona Zena que eu não me causaria nunca de ler. O saquinho de farofa me estalou aqui...
ResponderExcluirAgradeço a sua leitura e a sua emoção.
ExcluirMelhor de que beijos, aquela receita que o filho adora. Pena que vão embora antes da gente. Eliza, me lembra ela, quando faz gestos, que ninguém mais faz. Eu que não tive avó por quase nada, quero ser a melhor que ela pode ter. Sua escrita, Raymundo tem o poder de resgatar, tardes, momentos, D.Zena, traz carinho, amor maior que tudo
ResponderExcluirAgradeço demais o seu relato. Abraço.
ExcluirQue belíssimo sentir.
ResponderExcluirMuito grato.
ExcluirComo é bom resgatar as lembranças da mãe. Todo dia lembro da minha - quando estou cozinhando ou fazendo algo com perfeição. Ela me dizia “acabe logo com isso, num é nem cabeça de santo!” Ela nos deixou muitos ensinamentos: amor, dedicação e garra pra vencer!
ResponderExcluirrsrsr Muito bom. Obrigado pelo retorno.
ExcluirTia Zena e seu inesquecível mate com limão ....a memória do sabor é inesquecivel
ResponderExcluirEita, me deu até saudade desse mate também. Abração.
ExcluirOlá! Só agora, pude ler a crônica "Mãe Zena" e viajei na narrativa. Raymundo Netto, você em tão pouco espaço, nos trouxe características, modos, informações preciosas sobre sua mãe.
ResponderExcluirE sobre a forma como " Mãe Zena" imprimiu sua marca neste mundo. Parabéns! Fraterno abraço!
Só de amor. Isso compensa tudo.
ExcluirRaymundo, Raymundo, assim tu nos mata, criatura de Zena e Deca! Eu, matando a quinzena a espera da próxima crônica, e tu, matando uma/a saudade da mãe, nos traz, no saquinho da mesma semana, outra crônica. Com a edição dessas duas crônicas ( a de Zé e a de Zena) nesta semana, nos matas o risco do esquecimento e as saudades do vale que lembrar. Em vez de reclamar da quinzena que se estica preguiçosamente, vou fazer como Dona Zena __ não, não vou cantar__ , mas vou fazer... fazer duas coisas: a. agradecer pela qualidade das duas crônicas; b. colocar um saquinho com farofa atrás da porta. Com isso teremos mais agradecimentos a fazer por Raymundo nos matar o que nos mata no mundo: a falta do que fazer ( se é há ). Obrigado, Dona Zena.
ResponderExcluirObrigado, prof. Armando Lucas, pela leitura de sua crônica pós-crônica. Grande abraço.
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