segunda-feira, 18 de junho de 2018

"Mulher Séria", conto de Raymundo Netto para O POVO



“A minha mulher é o diabo!”
Barata era cabo em uma corporação militar. Há anos, casara com Mafalda, bibliotecária, mulher séria que, de tão séria, beirava a chatice incondicional. Não bastasse ser ela imensa e ele, ao contrário, um tampinha que nem a farda lhe era capaz de oferecer qualquer altivez, o coitado morria de medo da mulher. Isso não era segredo para ninguém e muito menos para ela, a gozar do direito de humilhá-lo publicamente, a qualquer tempo e a qualquer hora. Orgulhava-se de conduzir o infeliz a rédeas curtas e não lhe poupava ameaças. Por qualquer coisa, ouvia-se “Barataaaa!” e, como num deus nos acuda, e “se demorasse era pior”, lá se ia a criatura postar-se diante dela, a se entregar aos seus cascudos.
Em um carnaval, contou-me ela, estavam num sítio com a família. Ele, após o almoço, dormia na rede quando despertou com um baque nos peitos. Era o filho. Zonzo, com as costelas ardendo, ouviu da mulher: “Não fiz esse menino sozinha! Quer moleza? Também mereço!” E saía dali altiva, prendendo os cabelos, deixando para trás o menino berrando no ouvido do pai, o que não o constrangia tanto quanto as gargalhadas de cunhados a caçoar: “Ele é cabo, mas ela, sim, é o sargento!” Barata se sentia um inseto.
Amigas alertavam Mafalda: “Vai perder o marido...” Ela, entretanto, mais segura que uma coluna romana, batia fortemente nos fartos seios: “Sou mulher direita. Nunca traí! Como eu, o traste não encontra!” Sim, Barata ouvia essa lengalenga todos os dias – “Sou fiel! Sou fiel!” – como se isso justificasse aquele inferno sem fim. Até os amigos estranhavam: “Separa, Barata. Mulher boa tem aos montes. A sua, é bucha de canhão!”
Um dia, uma surpresa inédita: Mafalda trouxe um colega de trabalho para almoçar. Era o Pinto. Apresentou-lhe com tão largo sorriso, que o Barata estranhou: “Nem lembrava que tinha dentes...”
Durante as semanas seguintes, a agora falante Mafalda, não dizia nada que não saísse o Pinto no meio. A sua boca era o Pinto! Aquele, às suas vistas, parecia ser o ideal masculino. Então, Barata lampejou: passou a insistir que a mulher trouxesse o Pinto mais vezes: “É raro um bom amigo”. Motivava o convite para irem ao cinema, ao teatro... Não se preocupasse, ele ficaria com o filho: “Nem gostava dessas coisas”. E assim, muitas vezes, aconteceu de ela sair arrumada e cheirosa com o colega. Nessas noites tardas, vinha leve e fagueira e, sem conversa, ia logo dormir sem reclamar de nada.
Uma noite, Barata deixou o filho com a sogra e disse à esposa que, extraordinariamente, estava de serviço no quartel. Então, sugeriu convidar o Pinto, “um jantar talvez”, para que ela não ficasse tão sozinha. Convencida, assim o fez. O que ela não sabia é que durante a noite inteira o ardiloso marido se plantaria de tocaia no jardim. Corria para a janela do quarto de casal, brechava, mas eles não saíram da sala, bebendo e rindo a valer de um filme antigo.  Lá fora, Barata torcia: “É agora, vamos, é agora...” e nada acontecia. Até que, tarde, o Pinto levantou-se, apertou a mão de Mafalda e se dirigiu à saída, sendo, ainda na soleira, arrebatado pelo Barata que, enlouquecido, o esmurrava fartamente.
Escandalizada, Mafalda pegou o marido numa gravata íntima: “O que é isso, Barata? Endoidou, homem?” Chorando e desesperado diante do fracasso a três, rendeu-se com a cara nos seios da mulher e, apontando para a vítima, berrava ao quarteirão: “Esse Pinto é frouxo! É froooouxooo!”



3 comentários:

  1. Gostei demais dessa estória, principalmente o final que surpreende. Parabéns, mais uma vez.

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  2. Ele queria se livrar da chatice da mulher. Esse Barata é um sabido! Kkkkk. Esses textos são a alegria 😁 da gente!!!acho que alguns dos seus personagens estão espalhados pelo meu bairro kkkkk

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