domingo, 26 de agosto de 2012

"Os Acangapebas", por Marcelo Novaes



Clique na imagem para ampliar!

Eis que me chega pelo correio, de Fortaleza, um livro de contos de Raymundo Netto, curador da última bienal daquela cidade. Não se faz necessário colocar maiúsculas em títulos ou titulações, cargos, exercícios ou funções, apenas em nomes próprios. E seu livro tem nome próprio: Os Acangapebas. Os “cabeças-chatas”, em tupi-guarani. Os cabeça-chata, no singular, soaria bastante autêntico, em Sampa ou em latitudes nordestinas. Explico: as singularidades parecem cabíveis numa compreensão de gênero de vida: fado ou matriz existencial.

No telhado das casas de uma vila, aqui perto, miam os gatos. Se o cio humano ao menos deles se aproximasse, com a frequência com que cantam o acasalamento, seríamos todos erotômanos, a julgar pela curvas do gráfico sonoro que me é apresentado. E tendo esse afinado coro ao fundo, eu me debruço pelos cerca de quarenta contos deste livro em papel reciclado. Papel-pólen sempre me soa bem aos olhos e ao tato. Também prezo essas coisas em livro impresso: como tu, leitor, sou idiossincrático.

Ao ler contos curtos, espero que as palavras tremulem. Procuro sonoridades. Encontro-as, em todo o conjunto. Espero desfechos, com ou sem fecho, e aqui  estão eles, incisivos ou cirúrgicos. Alguns evocam sorrisos. Onde parece haver lacunas, entendamos: personagens são lacunares, como alguns de nossos balbucios do dia a dia deixam entender. Ou não? Assim se dá nos primeiros “Luzeiros” do livro, o conto inicial. A voz rouca dos corais pode arrematar a fala humana.

Espero, no entrever de luzes e sombras da palavra escrita, uma voz que soe própria. Raymundo Netto a tem, sem que me remeta a outros Raymundos Nonatos. Nonada. Em textos regionalistas podemos pecar pelo excesso de caricaturas. Não vejo excesso, mas certa poiesis na construção das falas e dos temperamentos. As mulheres todas me parecem bastante verossímeis, o que é virtude na pena de autor macho. Revela percuciência, no mínimo. Empatia, por certo, neste caso.

Os textos fazem eco ao coro dos gatos: incansáveis, ambos. Há muitos gatos pisando macio ou cinicamente por estes contos. Um sorriso outro, mais cínico ou cigano, que o sorriso do gato de Alice. Não é texto de voos, mas de rasgos e planitudes chãs. Seu vocabulário é construído na medida da necessidade suscitada pelos dizeres, daí a poeisis, sem artifícios. “A Mulher de Antes” aponta para uma anterioridade circular que lhe permite ser espelho para si mesma, sem precisar se mover. Quase.  “A Mulher dos Gatos” faz lembrar dos gatos que ouço aqui mesmo, enquanto escrevo. Mas há um “Gato”, solitário, em conto próprio que remete a certas disputas humanas e a certa troça de tudo isso, que não se confunde com o roçar febril das mucosas em perpétuo cio. “Cadeiras na Calçada”, “Bodega”, “Circo”, “Os Acangapebas”, revelam vozes fidedignas em suas ambiências, com o toque sintático-semântico de quem os apresenta. “O Homem que Virou Relógio” e o “Filho do Cão” maximizam nossos pactos, tantas vezes implícitos, para que se tornem legíveis em verboimagem. Nada é gratuito. Assim, o “Intermezzo” invertendo as cores de papel e texto, branco sobre negro, tem sua razão exposta ali mesmo, e reconfirmada ao término. Se Goethe clamava por luz ao estertorar, e se Van Gogh murmurava “não ter fim o sofrimento” na condição de tentar dar cabo ao seu [qual um Buda cego que chegasse ao veredito da existência-como-dor, sem saber como encaminhar o fato], Raymundo Netto apresenta sombras plenas de lume nelas embutido. Lumes adejando saudades. Ou “saudadejando de distâncias o horizonte”, como ele diria, no meu lugar.

Marcelo Novaes, para o blog “Dardo” (http://esteeodardo.blogspot.com.br/)

Nasceu em São Paulo, em 1961. Considera-se um psicanalista que escreve. Estudou música: Violão clássico e teoria musical. Publicou Cidade de Atys (Ateliê Editorial,1998). Tem um blog de poesia e outro de prosa poética, ambos já concluídos, segundo sua ideia de quatro anos atrás de fazer blogs finitos. Tem um blog-ensaio sobre ferimento narcísico e proscrição: “O Olho Que Nos Olha Nos Olhos”, a ser concluído em novembro de 2012. Não pretende mais publicar livros, pois está satisfeito com a escrita digital. Também colabora com a Revista Corsário. Blog de poesia:http://olugarqueimporta.blogspot.com.br/

Um comentário:

  1. Você é um presepeiro das letras, Raymundão.

    ResponderExcluir