quinta-feira, 12 de julho de 2012

"Pesadelo", conto de Carmélia Aragão, para AlmanaCULTURA



Pesadelo

Existe um desconforto entre mim e meus pensamentos. Um exagero de palavras ou de hipérboles mudas, às vezes. Sonhei, por exemplo, que voltava à cidade onde passei a infância. Na estrada encontrava roupas e sapatos dentro de uma sacola de plástico. Um vestido preto de cetim, sujo de sangue, um sapato de salto também preto e me vesti com essas roupas. Um carro para. Era um padre que nunca vi antes, dizendo-me que a dona daqueles pertences estava há meses desaparecida. Como sabia?Ele a teria visto pela última vez? Ele a despira e jogara fora o vestido e os sapatos. Entro na cidade, o carro some, as pessoas não me veem, tento alcançar a casa de minha avó, mas ambas não estão mais. Caio na ladeira que liga a rua a casa. Me rasgo, não sinto meus braços, minha boca sangra, sinto meus dentes quebrarem, tenho areia na boca. Escuto vozes de crianças. Não me veem.  Estou desaparecida há meses, quem sabe, anos. Qualquer sonho vira pesadelo. Abro os olhos o céu é cinza lá fora. A casa está vazia. Ninguém me chama.

(C.07/04/12)

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