quinta-feira, 6 de abril de 2017

"A Mais Longa Duração da Juventude", obra de Urariano Mota


A Mais Longa Duração da
Juventude
de Urariano Mota

Sobre o Autor
Urariano Mota é pernambucano (natural de Água Fria, subúrbio do Recife). Escritor e jornalista, publicou contos em periódicos de oposição ao regime ditatorial militar, sendo colunista do Portal Vermelho e do blog da editora Boitempo. É autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009), que recupera os trágicos e últimos dias de Soledad Barret, esposa do cabo Anselmo, entregue por ele à repressão, O Filho Renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), primeiro lugar no Prêmio Guavira de Literatura 2014, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Agora, nos apresenta o romance A Mais Longa Duração da Juventude, por ora, apenas na versão digital. Vale a pena conhecer o trabalho de Urariano. Recomendo demais.
Contato com o autor: urarianoms@uol.com.br

Link para o livro:

O Autor, sobre a obra:
O romance é o meu livro mais ambicioso e maior: o balanço da geração que vi. A morte e a eternidade humana, com o relato dos loucos de esquerda que conheci e conheço no Recife.
A verdade dos amigos que atravessamos a tormenta. Busquei a verdade interior das suas vidas, nunca a vulgaridade, o rebaixamento. Mas tem um nível que une um problema universal, a morte e a eternidade humana, com o relato local, dos loucos de esquerda que conheci e conheço no Recife. A morte e a eternidade humana. A rebeldia da humanidade que resiste. A verdade dos jovens estudantes que atravessaram o pesadelo.  
“Não decaíram, como se fossem uma revolta contra a biologia, contra a organização da vida que se desorganiza e se desintegra quando chega ao fim. Parodiando Goethe no poema ‘Um e Tudo’, eles foram atravessados pela alma do mundo, e com ela lutaram sem descanso, como se vivos pudessem ter a eternidade. Tomaram outras formas, é certo, mas mantiveram a permanência do ser da juventude...”

(...) O personagem sai carregado. Mas assim não acabo o livro. Até mesmo a cópia do fim me dói no peito. Eu só espero que o romance A mais longa juventude alcance o coração de todo humano, porque do meu ele saiu.”




"1º de abril: hoje é Dia da Mentira", de Túlio Monteiro


– UAHHHH! Hora de acordar...não sou esse tal coelho maluco, mas vivo me atrasando – Falou lançando mão de seu relógio de algibeira o famoso Pilombeta, um sujeito que por si só já levava qualquer um às gargalhadas. Magricela, braços longos, uns dois metros de altura, óculos na ponta do nariz e sempre vestido com o mesmo paletó velho e escuro, o que o transformava em uma figura esquálida e desengonçada levando ao riso solto o mais sério dos senhores daquela Fortaleza de 1920.
Pilombeta havia acabado de acordar de mais uma noite de carraspana regada a cumbe, um tipo de aguardente de má procedência muito popular em tempos de escassez de cana-de-açúcar, uma vez que a seca do último 1915, praticamente devastara com o já árido Ceará daqueles tempos. Como não tinha casa, dormia onde fosse possível e naquela noite não deu outra. Estava a passar perto da Coluna da Hora da Praça do Ferreira, onde ficava a cacimba que abastecia boa parte dos estabelecimentos comerciais e moradias do centro daquela Fortaleza ainda tão descalça de paralelepípedos e asfalto, quando por lá pousou para um cochilo que levou horas. Era madrugada alta.
Ao amanhecer e sem acreditar que já badalariam oito horas da manhã, Pilombeta arrumou-se em seu único e surrado paletó, lavou os olhos e naquela que todos chamavam de fonte dos desejos da cidade e saiu desabalado rumo ao café do Pedro Eugênio. O café situava-se na segunda seção de bondes do Benfica, no lado par do bulevar, cercado por frondosas mangueiras sob as quais mesas de mármore com cadeiras de ferro fundido, acentos e encostos confeccionados em madeira envernizada, todas desarmáveis, embelezavam o lugar. Completavam o gracejo do lugar as paredes de madeira pintada de verde com recortes de madeira pendentes, delicadamente pintados de branco.
Naquele aprazível retiro intelectual, verdadeira junção de poetas e artistas de todas as classes sociais, reuniam-se para prosas e sarais ao ar livre. Aos sábados e domingos, centenas de pessoas se acotovelavam em busca de uma mesa que fosse para degustar os famosos pratos do lugar. Era o velho mugunzá, tapiocas, pães de milho, arroz doce e, claro, o prato-chefe da casa: a mais famosa panelada com unha de boi daquelas paragens. Tanto é que por lá caminharam juntos a falar de poesias e política gente do porte de Quintino Cunha, Fernando Weyne, Raimundo Ramos Cotoco, Moacir Caminha, Moésia Rolim, Ulisses Bezerra, Tomé Mota e tantos outros.
Como era sábado, Pilombeta, que ganhava a vida tocando piano nas seções de cinema mudo exibidas nos cinematógrafos do centro de Fortaleza foi se achegando e logo perguntou a Pedro Eugênio se havia por ali um pouco do que ele chamava de levanta-defunto para sua prova matinal. Rindo-se, o dono do local puxou-lhe uma cadeira e afirmou que estava a lhe buscar um pouco de panelada para curar-lhe a carraspana. Sabia que não seria pago por aquilo, mas compreendia que há fregueses que valem a pena se ter por perto na hora de um recital.
Pilombeta apressou-se à refeição, agradeceu dizendo a Pedro Eugênio que estava atrasado. E logo no dia mais importante de abril, nacionalmente conhecido como o da mentira que, em Fortaleza, por conta do espírito zombeteiro do cearense tem nele 24 horas inteiras para se contar toda a sorte de mentiras que se pode imaginar.
Chegou à avenida 7 de setembro, na Praça do Ferreira, ao meio-dia em ponto, esfregando as mãos e afirmando que naquele ano ele seria o vencedor do concurso de maior mentiroso da cidade, posto que era disputado quase a tapas com bombas, foguetes e a banda da Polícia Militar a tocar sambas, maxixes e polcas; torcidas organizadas e tudo o mais. Esse evento anual acontecia à sombra do famoso Cajueiro Botador[1], carinhosamente assim chamado pelo fato de janeiro a dezembro dar frutos vermelhinhos e muito doces.
E lá se foi Pilombeta sendo chamado para contar a sua presepada anual. Sem se fazer de rogado, mandou ver no verbo e na impostação da voz:
– Meu povo, essa história é a mais pura verdade, eu juro! – disse piscando o olho.
– Eu sonhei, em noite de muita chuva, com o futuro da nossa cidade. Vi coisas horripilantes que até Deus duvida. Para começar passou por cima da praça um avião imenso, não como aqueles da tal Primeira Guerra Mundial, mas, sim, um que cuspia fogo pelas asas e passou tão baixo que quase arranca os telhados das casas e dos cafés. O do Mané Coco. Hum! Desabou na hora, ficando por lá somente o gradil de outrora. Os carros nem pareciam essas fubicas que estamos acostumados a ver se arrastando entre os bondes que circulam devagar. Serão máquinas possantes de todas as cores, tamanhos e praticamente despedaçam o chão que na época vai ser coberto com um tal de asfalto.
Percebendo que o povo já ia se juntando para ouvi-lo, Pilombeta caprichou ainda mais na fala. Vendo que o seu sonho talvez lhe valesse uma boa premiação e a atenção de todos.
 – E os doidos? Você que estão acostumados apenas com o Casaca de Urubu, seu fraque bolorento e gestos absurdos dizendo que lutou na Guerra de Canudos e atirando pedras em todo mundo, ou ao engraçado Chagas dos Carneiros com sua idolatria pela volta do regime monárquico, arrastando pelos cabrestos seus três carneirinhos pintados de anilina: um azul-claro, um verde-claro e o outro cor-de-rosa. Berrando sandices de que rei bom era dom Pedro II, não se assustem com os doidos do futuro. E não são poucos, não.
– Andam com roupas estranhas sem paletós e alguns com calças curtas parecendo as das crianças a qual chamam de bermudas. Nos pés, nada dos calçados furados que o sapateiro mestre Arcanjo vive de vender aos quatro ventos. Não, a maioria usa uns troços alcunhados como tênis feitos de borracha. Uma Pandora.
       – Ah! E podem esquecer os cinematógrafos e os gramofones. A moda daqui há uns cem anos vai ser uma tal de televisão de alta-definição. Que nada mais são que telas menores de cinema a transmitir imagens que mudam o tempo todo, mais parecendo um daqueles palimpsestos do antigo Egito. Incrível mesmo é que essas geringonças são vendidas em lojas aqui no Centro mesmo e aos montes. Dizem até que cada casa possui várias ao mesmo tempo. Vejam se tem cabimento uma coisa dessas?!
– Agora, de lascar mesmo são os loucos varridos que andam com umas caixinhas parecidas com as carteiras de cigarros que compramos por aqui hoje. Andam com eles nas mãos berrando e gesticulando sozinhos, uns passando pelos outros discutindo sabe-se lá com quem. “Alô! Sou eu do meu celular. Onde você está? Vamos marcar nosso encontro para as 22 horas! Isso mesmo na Aldeota está bom...”. Dá para acreditar que em 2017 a Aldeota vai ter prédios maiores que a Coluna da Hora, que a Praça do Ferreira vai ser toda demolida, a cacimba aterrada e um tal de Cinema São Luiz vai ser erguido em 1958 para virar cineteatro em 2010?
A essa hora um mundaréu de gente já se apertava para ouvir os causos de Pilombeta. Estavam estupefados. Ninguém conseguia imaginar de como aquele louco falando de loucos conseguira retirar tantas potocas e baboseiras de sua cachola. E o pior é que o maluco ainda falou de mais um monte de coisas inimagináveis como Internet, relógios digitais, Fortaleza com dois milhões e meio de habitantes, que Rodolfo Teófilo e Quintino Cunha iriam virar nome de bairros. Por fim, foi tanta loucura aparente que não deu outra: o povo caiu em desabalada salva de palmas, gargalhadas e fogos de artifício.
Pronto! Aquilo foi o bastante para que Pilombeta saísse nos braços do povo. Nem bem passava de uma hora da tarde e parecia que o campeão já estava eleito. Dito e feito. À noite, depois da contagem dos votos não deu outra: Pilombeta, o potoqueiro do ano de 1920.
Coincidentemente, e por força do progresso, o Cajueiro Botador foi mandado ser derrubado pelo prefeito Godofredo Maciel naquele mesmo ano. Muitos foram os protestos, mas não houve jeito e lá se foi embora uma tradição cearense, causada pela insensibilidade política de nossos governantes. Em 1991, quando a Praça do Ferreira foi reurbanizada, o então prefeito da capital, Juraci Vieira de Magalhães, plantou no mesmo lugar um novo cajueiro em gesto simbólico. Hoje, o novo cajueiro é patrimônio tombado em cuja sua sombra descansa uma placa de bronze com os seguintes dizeres: “ Neste local existiu um frondoso cajueiro que, por frutificar o ano todo, era apelidado de Cajueiro Botador ou, por se realizarem, sob sua copa, cada 1º de abril, as eleições para maior potoqueiro do Ceará, era também chamado de Cajueiro da Mentira”.



[1] Diz Raimundo Girão em seu Geografia Estética de Fortaleza: “Era o cajueiro da mentira. Melhor, o suporte da urna em que se elegiam os mitômanos graduados todos os anos a primeiro de abril, considerado o dia nacional da potoca. À sua sombra, como um pálio, resguardava a mesa eleitoral que recebia os votos populares no mais animado e vero dos pleitos, tudo ornamentado de bandeirinhas de papel e agitado de foguetes de estouro”. Fonte: Otacílio de Azevedo in: Fortaleza Descalça, edições UFC, 1992.

segunda-feira, 27 de março de 2017

"Sertão de Todos Nós", de Pedro Salgueiro para O POVO


Fui, sou e serei, para sempre, apenas um sertanejo exilado no litoral. Nada aqui me diz respeito, por aqui tudo é transitório, passageiro... Apenas espero a triste hora do alegre regresso.
Aos trinta, por puro esnobismo, comprei gaiola na última linha do oceano. Cuidadosamente de costas pro mar, pra que toda manhã pudesse desdenhar meu asco de pequeno-burguês físico mas nunca mental. De lá pra cá andejo em linha reta rumo aos Inhamuns.
Aos quarenta, atravessei a fronteira imaginária da 13 de Maio, linha simbólica de todas as Fortalezas. Em sentido contrário aos tolos, tontos suburbanos mentais.
Meu voo é de avoante ferida, com tiro de chumbo nas c’roas do rio Acaraú, nas quebradas do Riacho do Gado, por trás da Barra da Oiticica, de lado da Caconha de todos os loucos.
Pois em cada quarto de qualquer família pulula um doidinho de testa quadrada, encarnado de sangue da abelha Capuchu... Enquanto o Diabo, rosianamente, redemoinha no terreiro.
Gracilianamente seco, corre meu sangue pelas veredas pedreguentas do Carão. Do outro braço, o direito, o sangue das tristes Oliveiras, dos tontos bons da Curimatã, do Jumentão da Maravilha.
Apenas quando se estende pelas estradas do Canindé, as palavras vão escasseando, até quase sumirem da voz. Água evaporando na língua morna de todos os nós. De marejado apenas os olhos, único órgão úmido do sertanejo que volta.
Sou filho, pelos dois lados, da primeira geração que saiu do campo, que desbravou a cidadezinha no pé da Serra das Matas. Não sou filho de matuto urbano, mas de matuto dos matos, de pés rachados na urina do lajedo quente.
Meu pássaro é o Camiranga de beira de caminho, comedor de Cassaco e Tejubina de grota.
Meu ouvido é de rabeca triste cantada por cego em final de feira.
Minha casinha é branca, de parede grossa, luzindo na sombra de uma Jurema imaginária.
Mesmo longe de nosso chão, formamos confrarias de quase surdos-mudos.
Apenas olhamos para o nascente a perscrutar chuva.
E quando ela vier, é certo que vem, virá sempre!, um dia. Já nos encontrará de mãos trêmulas e mala pronta.


sexta-feira, 24 de março de 2017

"História Secreta de um Livro", de Milton Hatoum


Era um dos livros raros na tenda de um “bouquiniste” à margem do Sena. Em dois ou três sábados gelados daquele inverno distante, passei por lá para admirar as gravuras e a tipografia da edição de 1874. Em fevereiro, o livro sumiu.
Um outro fetiche parisiense era ficar na calçada de um pequeno restaurante da rive gauche e observar a comida fumegante, como se eu estivesse do lado de fora de um aquário aquecido; mas a fome pelo livro raro era mais voraz. Eu o havia lido numa reles edição de bolso, mais barata que um crepe na rue des Écoles, ali ao lado da Sorbonne Nouvelle; ou um croque-monsieur em qualquer padaria do décimo-segundo distrito, onde eu morava.
Um dia, depois de dar uma aula particular num subúrbio rico de Paris, vi meu vizinho brasileiro da rue d´Aligre sair do edifício com um livro apertado contra o peito. Parecia a edição de 1874, que imantava sonhos e desejos. Perguntei se o havia comprado num bouquiniste. Negou com uma expressão confusa e disse: Este livro tem uma história. Eu ia dizer que todo livro tinha uma história, mas o vizinho, esquivo, encerrou a conversa.
Numa noite de março – lembro que nevara nesse sábado e Paris estava branca e triste –, entrei num café do Faubourg Saint-Antoine e vi meu vizinho apoiado no balcão, lendo anotações numa caderneta. Sem mais nem menos, me convidou pra tomar um conhaque no seu “lar”. Eu, que morava num lugar apertado, me surpreendi com esse “lar”: uma ironia ou um eufemismo radical.
Ele dormia num quartinho com uma latrina, que a herança do orientalismo francês chamava de banheiro turco. As quatro paredes pareciam febris e suarentas de tanta nostalgia, e uma lâmpada solitária no teto iluminava as noites mais escuras da alma do expatriado.
Paris, para ele, era mais sombra que luz? Foi o que eu me indaguei ao observar o aposento opressivo. Me ofereceu conhaque, depois se serviu e entornou meio copo, sedento. Sentamos no carpete puído, nós dois cercados de jornais e revistas franceses. O livro raro estava sobre uma mesinha encostada a uma parede cheia de fotografias de amigos. Ele falou um pouco de cada um deles; por fim, movido pelo conhaque, contou com elã a história do livro. Impossível resumir numa crônica essa narrativa de êxtase.
Saí de lá às seis da manhã do domingo, e só tornei a revê-lo numa tarde de abril, quando as árvores esverdeavam, floridas. Ele parecia possuído pela alegria de um viajante que volta para casa. Ajudei-o a carregar uma sacola de lona até o metrô da Bastilha, de onde iria a Châtelet e depois ao aeroporto. Na despedida, perguntei se a sacola estava cheia de pedras parisienses.
“Jornais e revistas”, respondeu. “Selecionei mais de cem exemplares do Le Monde, Figaro e Libération e duas dúzias da Nouvelle Revue Française. É a minha bagagem. Tenho pouca roupa, nenhum objeto. Aquele livro está guardado num estojo, dentro desta maletinha... É o meu amuleto”.
Ri dessa loucura, e ele, talvez por contaminação, ou para não chorar de sua miséria, também riu. Esse rosto risonho no subterrâneo da Bastilha foi a última visão do meu vizinho.
O rosto dele foi borrado pelo tempo, mas não a história do livro. Trinta e cinco anos depois, minha editora francesa me enviou um pacote. O remetente era o ex- vizinho, e o endereço, parisiense: rua Charles Baudelaire, ali perto da rue d´Aligre. No fundo, voltara ao mesmo lugar.
Numa longa carta, rememorou nosso encontro de 1981 e agradeceu mais uma vez minha ajuda naquela tarde de abril. Recontou a história do livro raro, acrescentando detalhes e omitindo alguns, que eu recordava: omissões que atribuo à duvidosa ordem do tempo ou à inevitável desordem da memória. No fim da carta, disse que tinha me visto no Salão do Livro de Paris, em março de 2015.
“Éramos dois velhos... Você não me reconheceu, e eu não quis quebrar o encanto do esquecimento”.
Quando abri o pacote, vi com emoção o livro raro, e tão cobiçado. Era um convite sutil para que eu escrevesse a outra história desse livro: uma narrativa triste e tumultuada de um jovem brasileiro no exílio parisiense.

Publicado originalmente no Caderno 2 do Estadão (2017)


Palestra de Nirez e Exposição do seu Acervo na Caixa Cultural (25.3)

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Quem é apaixonado pela história e curiosidades de Fortaleza tem um encontro marcado no dia 25 de março, às 16h, na CAIXA Cultural Fortaleza: o jornalista, historiógrafo, memorialista e colecionador Miguel Ângelo de Azevedo (o Nirez) vai proferir uma palestra gratuita sobre sua trajetória e sobre o acervo selecionado para a Exposição Arquivo Nirez

Com a curadoria de Nirez e Weaver Lima, a exposição conta com mais de 300 itens do acervo do museu particular do colecionador. Ela fica aberta ao público até 16 de abril de 2017.

Palestra 
Data: 25 de março (sábado), às 16h
Local: CAIXA Cultural Fortaleza - Foyer Superior
Classificação indicativa: Livre
Entrada Gratuita

Exposição: Arquivo Nirez
Data: até 16 de abril de 2017 
Horários: terça-feira a sábado, das 10h às 20h | domingo, das 12h às 19h
Classificação indicativa: Livre
Entrada Gratuita



quinta-feira, 23 de março de 2017

"O (Des) Mundo de Ana Miranda", apresentação de Raymundo Netto



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Chega-nos agora o título de estreia da, esperamos longeva, Coleção Ceará: autor e estudos críticos, organizada por Cintya Kelly Barroso Oliveira e Fernanda Maria Diniz da Silva que, em sua apresentação, confessam o projeto ser “movido pelo amor ao literário, pelo apreço por escritores nascidos no Ceará, pelo respeito ao que é fruto de um território com pouca divulgação crítica sobre a temática”. E vão além: “uma coletânea de textos investigativos que tematizassem a obra de um autor cearense vivo.”
É do conhecimento geral que interessar-se, ler, analisar, investigar, escrever e publicar sobre a literatura produzida no Ceará – para não falar em “literatura cearense” e evitar azedumes e torções de narizes – é um feito e tanto. Entretanto, promover tais estudos e análises de obras de autores cearenses VIVOS é tarefa digna de fazer o rebelde Sísifo se sentir em um playground.
O melhor do melhor é que esse projeto surge da iniciativa e interesse particular – infelizmente as universidades e os órgãos ditos de cultura e seus equipamentos públicos ainda contribuem muito pouco ou nada nesse propósito. Trata-se também de uma ação que soma-se a outras que temos conhecimento desde 2013, com a publicação de Escritores Cearenses: múltiplos olhares, seguida por Literatura em Debate: estudos sobre autores cearenses (2014), depois Ceará em Letras: entre o passado e o presente literário (2015) e Literatura no Ceará: diálogos interdisciplinares (2016). Nelas, podemos encontrar tanto autores do passado como os contemporâneos: Antônio Girão Barroso, Francisco Carvalho, Emília de Freitas, Filgueiras Lima, Patativa do Assaré, Horácio Dídimo, Linhares Filho, Klévisson Viana, Tércia Montenegro, Roberto Pontes, Adolfo Caminha, Pedro Lyra, Jáder de Carvalho, Mário da Silveira, Moreira Campos, Rachel de Queiroz, Arievaldo Viana, Gustavo Barroso, Fran Martins, Antônio Sales, José Alcides Pinto, Pedro Salgueiro, Eduardo Campos, entre muitos outros. Não resta dúvida: uma seleção de valor, porém, invisibilizada (ou quase) – das vezes, propositalmente – por motivos para nós incompreensíveis.
Abrindo a Coleção, recebemos Ana Miranda entre História e Ficções: estudos críticos, apontando 16 novos artigos sobre a escritora e ilustradora, contemplando: o comportamento feminino, a partir da ousada seleção de poemas de freiras e para freiras (por meio dos “freiráticos”, poetas cujas musas habitavam as sagradas celas)  em conventos portugueses e brasileiros, em especial no convento de Odivelas, nos séculos XVII e XVIII, em Que Seja em Segredo (1998); as características históricas, românticas, biográficas e intertextuais de Gonçalves Dias, ao olhar da apaixonada Feliciana, em Dias & Dias (2002); a construção do texto e da identidade, as referências comparativas com a obra Yuxin (2009), também de Ana, e o fantástico no infantojuvenil Menina Japinim (2015); os fenômenos migratórios, a xenofobia, os recursos estilísticos, a linguagem e a “consciência histórica” em Amrik (1997); o espaço simbólico do mundo e das relações humanas, as dualidades, o onírico e a circularidade existencial na poesia, em Prece a uma Aldeia Perdida (2004); a representação do espaço do Ceará, as suas multidimensionalidades e a valorização da arte e da cultura cearense em crônicas escolhidas em sua coluna no jornal O POVO; as características ou a inserção da produção da autora na literatura pós-moderna, a metalinguagem e a estruturação de um “novo romance brasileiro”; a condição e o comportamento da mulher na sociedade brasileira no século XVII, a partir da leitura das personagens (Maria, Anica e Bernardina) de Boca do Inferno (1989); o verbal e o pictórico, o intersemiótico, a ludicidade nos infantojuvenis, em Lig e o Gato de Rabo Complicado (2005); o “exílio”,  o sentimento de pertença, o enraizamento no espaço geográfico-afetivo e a busca e reconstrução de uma identidade no metaromance Semíramis (2014); a narrativa histórica (ficção versus história oficial) nos séculos XIX e XX, as temáticas e o discurso da produção literária feminina moderna e a imigração libanesa ao Brasil, a partir da narradora-personagem Amina de Amrik (1997); o entrelaçamento afetivo, as relações interdiscursivas entre a vida e a obra de Rachel de Queiroz e de Ana Miranda, à luz da semiótica greimasiana (ser/não-ser, parecer/não-parecer); o fenômeno da coerção dos paratextos (peritextos + epitextos) editoriais na literatura infantojuvenil, em Tomie: cerejeiras na noite (2006); a metaficção historiográfica, o parnaso e a Belle Époque na trajetória de vida e de morte de um singular poeta Augusto dos Anjos em A Última Quimera (1995) e o tempo-espaço, foco narrativo, estética, o cronotopo artístico-literário e o caráter crítico-revisional da “história tradicional” em O Retrato do Rei (1991), cujo cenário é a Guerra dos Emboabas, além da biografia, bibliografia, os desenhos, a linguagem, o processo criativo/pesquisa, o onírico, a imagética e a visão sobre o trabalho autoral nos mais diversos gêneros ficcionais, na poesia e enquanto biógrafa. Enfim, na perspectiva de que, como diz Ana, “nunca escrevemos o que queremos, escrevemos o que somos”, podemos imaginar que essa obra é um retrato da rainha, com toda a humildade, acolhimento e a grandeza de uma rainha, figura esta que teve uma evolução rápida e surpreendente no campo literário, sendo em sua primeira publicação, de chofre, aclamada “fenômeno”, o que provavelmente enciumou semideuses do Olimpo da indefinível e por vezes duvidosa literatura nacional. Que assim seja: Ana Miranda!
Ora, para aprendermos é essencial ter olhos e ouvidos abertos. A boca, de preferência, fechada, exceto se soubermos fazer perguntas e não tivermos medo de ouvir respostas. Ao lado da Ana, atenta o tempo inteiro no falar, no vestir, nos jeitos e trejeitos das gentes, colhedora sensível de afetos e sonhos, ledora obstinada, pensadora e imaginadora irrequieta, somos provocados a aprender, duvidar de nossas certezas e a maquinar outras dimensões de nosso próprio pensamento e, claro, a pensar a literatura. À artista, claro, não cumpre provar nada, e a nós?
Ao deter-me sobre os trabalhos que compõem essa coletânea, vivi novamente os sabores das primeiras leituras da vasta bibliografia de Ana, do reconhecimento de uma sua voz (com Desmundo), dos prazeres, das angústias, das experiências, alegrias e saudades. Aqui, algumas de minhas percepções, em meio à urdidura bem feita, a metodologia e semiótica empregadas na elaboração dos artigos, passaram a ter outras denominações, pois a atenção se volta a elementos que muitas vezes são imperceptíveis ou passam à margem do leitor comum (refiro-me àquele que lê por fruição). O que me fez recordar: enquanto leitor, editor e militante na divulgação da literatura produzida em nosso estado – o escritor neste momento dorme – é impossível não lamentar a aparente inexistência ou marginalidade em nossa sociedade das qualificadas, contudo controversas e polêmicas, crítica e historiografia literárias.
Daí, uma grande contribuição que percebo nesse projeto é o fomento à produção e a consolidação dessa crítica e historiografia, exercícios fundamentais de análise – ciente de que, como afirma Massaud Moisés,  “analisar não é criticar”, mas “criticar sempre implica analisar” –, interpretação, registro e investigação histórica e sociocultural do discurso literário, quase uma quimera, sabido que muitos desses agentes – por vezes considerados vozes indesejadas – se foram com o fim dos suplementos literários, com a predominância quase intransigente da superficialidade de resenhas de amigos e da imprensa (muitas vezes sem leitura das obras), com a submissão de críticos aparentemente “respeitáveis e especializados” a se curvarem reverenciosamente à necessidade de impulsionar as vendas editoriais (e são bem remunerados por isso), entre outros aspectos. Na lista dos cearenses indispensáveis nesse território, com maior ou menor intensidade: Araripe Jr, Rocha Lima, Capistrano de Abreu, Guilherme Studart (o barão), Dolor Barreira, Pedro de Queiroz, João Clímaco Bezerra, Aluízio Medeiros, Braga Montenegro, Mozart Soriano Aderaldo, Abelardo Montenegro, Otacílio Colares, F.S. Nascimento, Batista de Lima, Dimas Macedo, Nilto Maciel e Sânzio de Azevedo, este, certamente, um dos maiores e mais honestos historiadores de nossa atualidade.
Newton Gonçalves, na apresentação do livro-aula A Estrutura Desmontada (UFC/Secult, 2009), de F.S. Nascimento, fala sobre dois tipos de crítica: a crítica-arte e a crítica ciência – cita também a “crítica de elogios mútuos” e de “desrespeito recíproco”, ambas de caráter provinciano. Parte-se do princípio que a literatura, esse extenso tecido verbal – mais para “colcha de retalhos” –, enquanto arte, não promove apenas deleite e fruição, mas também provoca reflexão e transformações, além de registrar costumes, culturas, ideologias, convicções etc., o que a coloca no patamar de ferramenta inevitável na elaboração da arquitetura de uma sociedade melhor. Sim, a arte é, por natureza, subjetiva, e defende o seu direito de sê-lo, enquanto a ciência exige critérios, metodologias, objetividade e imparcialidade. Como o erro é um dos frutos mais danosos na nossa pouca prática historiográfica, pois passa de geração a geração na qualidade de “verdade”, tememos que os amantes diletantes dessa literatura, não possuidores dos devidos cuidados, critérios e senso de desconfiança e métodos de investigação, acabem por divulgar monstruosos e, misteriosamente incorrigíveis, equívocos. Por isso, ter a universidade a missão de formar esses profissionais e provocar estudos e pesquisas com a qualidade que eles merecem.
Afinal, diante de uma desmedida prateleira de conteúdos, informações e de milhares e milhares de títulos, quando o mercado editorial cada vez mais assume um papel industrial, na busca de produtos de consumo, de tendências, não importando o seu valor literário – eles denominam essa “literatura para poucos” de “alta literatura” – mas a sua capacidade de venda, de mainstream, nos parece emergente que tenhamos aqueles que se voltem para as entranhas dessa produção literária, que pode até ser vendável ou não, nos seus aspectos mais íntimos, com a capacidade de contextualizá-la e de apontar os elementos que existem de melhor ou de pior, qualificando a sua leitura e olhar, seja em que suporte for, por meio de jornais, revistas, livros, blogues, redes sociais etc.
Assim, a obra que agora temos em mãos, pela diversidade de olhares, de leituras, de reflexões e contextualizações merece aplauso, a atenção e o apoio de todos nós leitores e atores que compomos as cadeias criativa e produtiva do livro (escritores, pesquisadores, editores, ilustradores, gráficos etc.) e mediadora da leitura. Que venham novas coletâneas, que provoquem pasmos e curiosidades. E mais: que arrebatem nossos autores e obras da perversa escuridão que só poderá ser eliminada à luz da inteligência, honestidade e dedicação, coisas que por aqui, até então, somos poucos e avaros.
Urbi et orbi.


sábado, 18 de março de 2017

"Lançamento de Livro II: Omissão", de Raymundo Netto para O POVO




Publicado originalmente em O POVO, em 27 de outubro de 2008

Nos dias atuais, concordemos, é muito fácil se publicar um livro; não publicá-lo, porém, diante do apelo irresistível da vaidade, é que é difícil. Eu mesmo estava tentado a não publicar essa crônica... mas fracassei!
Quando o indivíduo, certo de “querer ser” escritor — aliás, escritor já é “ex” até pelo próprio nome —, decide mostrar sua obra a um editor, descobre que no Ceará não se tem disso não. Dá até para se concluir: editora não é bom negócio, caso contrário, os americanos já estariam por cá.
No entanto, quando o escritor consegue juntar uma mixariazinha, ou a pede emprestada ao emergente cunhado, a fundo perdido, é claro, acaba se entregando nas mãos de donos de gráficas (com soberbas de editora) que batem-lhe às costas e cobram-no o serviço em troca de um “iessebeênizinho” de nada, o que para ele, o sujeito mais solitário e incompreendido do mundo, é motivo de lavar-se em lágrimas. O pior: mal o livro entra no prelo, o desgraçado passa a sonhar com a cerimônia de outorga do famoso e bronzeado quelônio, tão feinho, coitado, que não seria de todo ruim se o deixassem a segurar portas, ao invés das frágeis tartaruguinhas (suas primas) de areia.
Eu mesmo, antes de publicar meu primeiro livro, passei por vários editores, só recebendo, de certo, unânimes parabéns, parabéns, parabéns... Aliás, eles são mestres na técnica de desaparecer após tais parabéns. Conselho: quando for a sua vez, agarre bem a mão de seu editor, senão ele some!
É, vida de escritor não é fácil, mas é criativa. Conheci um que, como muitos, enviava o produto de sua lavra para escritores renomados, aguardando ansioso seus pareceres. Estes, respondiam — pressupomos que deviam ler, mesmo fosse como Jorge Amado (não li, mas já gostei) — por e-mails ou em breves cartas que o autor fotocopiava e distribuía orgulhoso entre amigos e desconhecidos em mesas de bar. Numa dessas, conferi a assinatura de um: “Dr. Scliar”. Ah, e por falar em fotocopiar, outro dia um escritor veterano afirmou que ninguém sabia, mas ele seria o autor cearense mais lido em Pindamonhangaba via “xeróx!
Acontece de tudo um pouco por aqui. Outro autor, por exemplo, revoltou-se com o livro “de papel”, fez uma fogueira no fundo do quintal e decidiu publicar somente em blogues e sites nacionais. Depois disso, orgulha-se, embora agora tenha mais de 200.000 não-leitores habituais. Tem aquele outro que, após sucessivos insucessos (que construção engraçada!), converteu-se em Jesus e chegou à conclusão de que a literatura é coisa do cão, ou mesmo o caso do rapazinho de boca suja que se diz poeta autodidata pós-modernista, pioneiro no Ceará da reforma ortográfica, trocando “j” por “g”, “s” por “z”, entre outros involuntários barbarismos que ele denomina “transgressões”.
A mais trágica história de autor e editora, entretanto, aconteceu ano passado:
Um poeta, por gênero desassistido, angustiado por não exercer sua arte como ofício, abandonou o chapéu panamá, deixou de vender livros artesanais para turistas do Dragão do Mar e decidiu procurar um editor que publicasse o seu livro (sobejamente recheado de rimas melosas: lua com tua, coração com paixão e solidão, amar com cantar e tererê e tarará).
Estava irredutível, disposto inclusive a lançá-lo em local privilegiado cujo apresentador sorridente, apesar de ler muito pouco, não poupa o público de suas súbitas intervenções, antecedendo-as sempre com “eu não sou crítico literário, mas...” e lascando a rouquenta bobagem da noite.
Enfim, voltando ao assunto, certo dia, nosso autor marcou hora e reuniu-se com um editor que, mesmo diante de apaixonadas proposições estéticas, rompeu o silêncio e disse-lhe na lata: “Lamento, não publicamos autores vivos!”
Machucado brutalmente, o poetinha arrastou o caminho de casa. Lá chegando, no centro do quarto vazio e sujo, espertou: “A poesia é minha vida!” Assim, retornou mais que ligeiro à editora, numa inquietação dos diabos, invadindo o gabinete e, diante do assombrado editor, arrematou, do cós da calça, a lâmina brilhante, anunciando num brado de causar inveja a Hamlet:
— Antes a vida pela poesia do que a morte pelo silêncio em agonia!
Dito isso, rasgou, em meio ao pranto soluçante, o pulso magro de escrevente. Encharcado em sangue e lágrimas, antevendo os prováveis estertores finais, lançou-se ainda sobre a mesa editorial, espalhando pelos cantos as canetas e chaveirinhos:
— E agora, senhor editor, morto estando eu, que motivo haveria para não me publicar? 
O editor repôs na calça a fralda da camisa e arqueou as sobrancelhas:
— De fato, você cumpriu o primeiro requisito. Agora, pegue os formulários com a secretária, traga os originais encadernados em seis vias com firma reconhecida em cartório, pague uma taxa simbólica e aguarde o telefonema... Ah, e parabéns.



quarta-feira, 15 de março de 2017

Lançamento CD "Palavra", de Carlinhos Perdigão (24/3), no Teatro do Dragão do Mar




Lançamento
CD “Palavra”, de Carlinhos Perdigão
Data e horário: 24 de março de 2017, às 20h
Local: Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura


Sobre o CD “Palavra”: o álbum prioriza composições musicais baseadas em letras do baterista e arte-educador Carlinhos Perdigão. Assim, as canções deste CD representam uma viagem ao eu-poético do autor, que lançou em 2011 seu primeiro livro: Fragmentos: poemas e ensaios. Nesse sentido, tal obra é a base da produção deste disco, o qual possui poemas de Carlinhos musicados por diversos parceiros como Marcelo Justa, Júnior Boca e Nigroover.
O disco conta também com a participação especial de importantes artistas cearenses, como Aparecida Silvino, Chico Saga, Abraham Paiva, Diogo Farias, Adna Oliveira, Janaína de Paula, Alencar Júnior e George Hendryx, além da produção gráfica de Renata Holanda e Antonio Henrique.
Entre as músicas do CD, “Andanças”, parceria de Carlinhos Perdigão (bateria) e Marcelo Justa (voz e guitarra), tendo o acompanhamento de Rafael Sousa Lima (baixo e voz), David Aragão (teclados) e Janaína de Paula (voz). No link a seguir, você poderá assistir ao clip de “Andanças”, uma produção da Zoom Criativo, com direção de Helton Melo e roteiro de Bruna Marques e do próprio Helton. ACESSE:


Outras Informações:

Luana Oliveira (produtora): (85) 98895.1625.
Carlinhos Perdigão: (85) 98804.7382 | 98815.2701 |3267.6496.






sábado, 11 de março de 2017

"O Cáucaso Baliostro", de Raymundo Netto para O POVO


O céu tardou azulecer de manhãs ao abrir o palmoemeio dos olhizarcos.
Bramia o galo, feito fera, seu cocoricoado de dia pós dia:
“Deixasse de refestelamento, desencostasse as costelas, espichasse as patelas, abrisse dos ombros, armasse as tábuas do queixo. Fosse homem ou o deixasse de ser!”
Medrava pela estrela anônima a sucumbir desassistida quando deslajeou os guias da cara com caldo de cacimba.
Dejetou. Dejejuou. Desejou ali mesmo um fim do mundo, senão da agonia e o mais imediato de si. Do quintal, varejava formigas e assoprava baforadas de fumo cor de jenipapo quando suspirou de doces e limão um gemelancólico “ai!”
Certo se tinha: Baliostro em berros da alma tirocinava um envenenado amor, daqueles que há de suspenso a própria vida, em tum-tuns apenas cochichados no roto e quase morto coração: “Je suis cídio”
Ainda pior, o cáucaso não supunha nem ideia por quem alentava taltanta devoção. Esta, de primeiro, a razão de sua incomportável e solsticial ruína a tomar de brejo o ânimo e a paciência. Donde ser-lhe penitente o renque de dias a contar ocasos do não viver desse irrevelado e desértico amor.
Frustrado, pôs-se ele em joelhos às patas elefânticas do infinitésimo, mente farta do fastio da humanidade, cujo responso lhe chegou em libras: “arrazoa, azoa, azoina, azorata, azia, azáfama, soidão... ê ê ê”
Sucedeu noite há tempo: dormia, distraído como relógio. Um molusco luminoso espreitava os punhos tesos de sua fianga. Era o temível demônio Súcubo, cuja boca de cem dentes se arraigaria ao pescoço do homem, convencendo à mente imagética um absurdo de inevitável mulher a dominá-lo em pesadelos seminais.
Assim, Baliostro, absoluto e entregue aos enleios de Súcubo e à própria libido, se deixou secar, desaguar todo peso do espírito, aquele amor que lhe ardia e coitava o peito em uma conjunção adversativa e proparoxística da carne.
Contudo, o demônio surpreendentemente surpreendeu-se. Já não na milhenar existência experienciara de tão fecunda fonte de paixão e obscenidades.  Foi quando assistiu ao corar de uma mancha rubra prenhe em seu tórax veiado, calando a razão pela sede da cobiça. Ao partir, por pouco à luz da vergonha, entornou uma gosma, feito lágrima príncipe e sem sal, pois entre todas as suas vítimas, desde a fronteira do spiritus e o parir do mal, marcara seu estigma de exclusividade para o proveito daquele servo em bagaço, condenando os dois ad vitam aeternam!
E foi assim que Baliostro despertou quase senil e repleto de obscura saudade:
O céu tardou azulecer de manhãs ao abrir o palmoemeio dos olhizarcos.
Bramia o galo, feito fera, seu cocoricoado de dia pós dia, dia após dia... para toda a eternidade.