sábado, 8 de fevereiro de 2014

"Os Acangapebas: narrativas topofílicas", por Carlos Carvalho, para seu blog


blogdocarloscarvalho.blogspot.com.br

Das mais variadas formas de narrativas, confesso ser apaixonado, primeiramente pela crônica e, em seguida, pelo conto. Embora a "prima pobre" seja minha grande paixão, o conto se revela ao meu ser como um dos mais belos amantes. E o que é mesmo que mais me atrai no conto? É sua capacidade de dizer tudo o que se pretende com a maior economia possível de palavras. Ora, se não é Tchekhov quem nos diz que se uma determinada  arma não será usada no decorrer da narrativa, por qual razão mantê-la na história?
É claro, porém, que nem todo contista consegue colocar em prática a ideia de Poe (1809-1849), quando discorre sobre a necessidade que deve existir entre o tamanho do conto e a reação que ele consegue causar em quem o lê. Eis a famosa  "unidade de efeito" defendida pelo autor norte-americano. Para ele, a obra precisava ser dosada, para que a excitação provocada pela leitura perdurasse por um determinado espaço de tempo. Dessa forma, se o texto fosse muito longo, o efeito (a excitação) seria diluído. A unidade de efeito seria alcançada, então, quando de uma só assentada, nós, leitores, déssemos conta daquilo a que se propôs o autor. 
Não podemos afirmar que o ponto de vista de Allan Poe não proceda. Contudo, tendo em vista a correria para o nada do nosso dia a dia, torna-se quase impossível lermos o que quer que seja duma assentada só, quando dificilmente temos tempo para sequer sentar. Pela teoria proposta pelo contista, O Alienista, de Machado de Assis, jamais seria um conto, como não o é, mas uma novela. E, nem de longe, podemos reproduzir e aceitar a proposição de Mário de Andrade, quando diz que "um conto é aquilo que o autor chama de conto". Mas o conto, e aí concordamos com Cortázar, está para a fotografia assim como o romance está para o cinema. O conto é o instante, narrado com o maior poder de objetividade, sem a necessidade de "floreios" de qualquer espécie. É o que conseguimos perceber nas narrativas contidas em Os Acangapebas (2012), livro de contos do escritor Raymundo Netto, que se insere na leva dos autores recentemente surgidos no Ceará.
Raymundo Netto incursiona com considerada desenvoltura pela literatura infantojuvenil, pelo romance e pelo conto. Estaria ele também flertando com a poesia? É bem provável que sim! Vencedor de inúmeros prêmios e figura de extrema relevância na Cultura da cidade de Fortaleza, o referido escritor brindou a todos, em 2012, com as narrativas contidas no seu Os Acangapebas
O livro saiu pelo selo "Fundo de Quintal" e traz trinta e nove contos, sendo vencedor do Edital de Incentivo à Literatura da Secretaria de Cultura de Fortaleza, de 2007, e do Prêmio Osmundo Pontes de Literatura da Academia Cearense de Letras, de 2011. E você, caro leitor, pode estar se perguntando  que diabos significa "acangapebas". Pois bem, para poupar-nos o trabalho de sairmos à caça de tal significado; na abertura da obra, o próprio autor já nos instrui, dizendo tratar-se de um termo oriundo do Tupi-Guarani, sendo, "acangapeba"  o mesmo que "cabeça-chata". De acanga, cabeça; peba, peva, chata. Trata-se, é óbvio, de uma clara alusão a alcunha pela qual são tratados os cearenses mundo afora. Isso, no entanto, não implica em uma geografia, na acepção própria da palavra, seja ela feita de gente, de terra ou de palavras. Longe disso! O que se tem, na verdade, é uma espécie de topofilia, tal qual nos propõe Yi-Fu Tuan, ancorada nas percepções, atitudes e valores do homem cotidiano na sua lida diária com o meio ambiente, com a vida, com as coisas, com a comunicação ou com a ausência dela.
A epígrafe que abre o livro é de Dante Alighieri, contida na Divina Comédia,e diz: "lasciate ogni speranza, voi ch'entrate": "Abandonai todas as esperanças, vós que entrais" (tradução nossa). A escolha feita pelo contista não foi à toa. Compreendemos que sua mensagem é deixar claro que leitor deverá começar sua leitura de coração aberto, sem o pré-conceito que costuma se ter frente à uma obra nova. Quando diz para entrarmos na leitura sem esperanças, infere-se que não há receitas prontas para a feitura da literatura, cabendo ao leitor descobrir os caminhos propostos pelos imbricamentos da teia narrativa, sendo perfeitamente possível um estranhamento em qualquer um dos sentidos existentes.
E assim sendo, a contística de Raymundo Netto discorre sobre o amor, a vida e a morte por meio de uma simbologia que nos remete à mitologia daltoniana. Se por um lado Dalton Trevisan construiu toda uma simbologia que serve de arcabouço para sua literatura, Raymundo Netto parece trilhar caminho semelhante. Dessa forma, o narrador de Os Acangapebas visita espaços-lugares que são tão nossos, enquanto cabeças-chatas que somos. A cidade, "O circo" (p.102) e "A bodega" (116), por exemplo. E "Vassourando" (p.111), bem que poderia se chamar "Barrendo".
É perceptível a tentativa do autor em fazer com que seu texto dialogue com outras obras, outros autores e outras ideias. Como não lembrar, por exemplo, de Moreira Campos (1914-1994) em "Portas fechadas" (p.51) ou ainda de Pedro Salgueiro, em "Cabelos azuis" (p.62)? Ao propor tal aproximação, extremamente profícua, ao nosso ver, Raymundo Netto demonstra estar em dia com as mais novas formas de ver, de sentir e registrar o mundo.
No que diz respeito à presença recorrente de símbolos nas narrativas d'Os Acangapebas, há um mundo deles à espera de decifração. O gato, por exemplo surge em três contos (p.21, p.31 e p.54); a mulher, em dois (p.31, p.34). Há ainda o sótão (p.16), o estandarte (p.80), o espelho (p.83) e o relógio (p.90), entre muitos outros. O próprio termo "acancapeba", que dá nome ao livro, é eivado de uma imensa gama de possibilidades de compreensão. Contudo, cabe ao leitor não se limitar àquilo que apenas se mostra, pois, como bem afirma Fernando Pessoa: "tudo que vemos é outra coisa". Assim sendo, cabe a esse leitor mergulhar e descobrir a imensidão do iceberg de interpretações possíveis nas narrativas topofílicas contidas em Os Acangapebas
E assim, leitura feita, tal qual acangapebas, vamos nos chegando às janelas da literatura de Raymundo Netto. Através da sua maneira de contar histórias, assistimos à novela, pedimos um cafezinho e quase nos vemos escorados nas portas dos bares e dos cabarezinhos desse mundo de meu Deus. E dessa forma, a leitura d'Os Acangapebas de Raymundo Netto é como aquele amanhecer capaz de despertar os passarinhos adormecidos nas nossas mentes em pífanos alegres, no cheiro quente do cuscuz e do café, proporcionando mais luz, como nos diz Goethe, para que não terminemos nossos dias a tiquetaquear a vida de forma mecânica e quase absurda.


Carlos Carvalho é pesquisador e mestre em Literatura Brasileira, professor da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Serão Central (Feclesc), autor do livro de crônicas Memória de Peixe.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

"Os FitoManos", de Raymundo Netto, apresenta: Passiflora





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As tirinhas dos FitoManos foram produzidas em 2000.


Rádio AlmanaCULTURA: "Jura Secreta", com Raimundo Fagner

Para ouvir a música, acesse:
http://www.youtube.com/watch?v=icGGQX_4ly4

Só uma coisa me entristece:
O beijo de amor que não roubei,
A jura secreta que não fiz,
A briga de amor que eu não causei.

Nada do que posso me alucina,
Tanto quanto o que não fiz.
Nada do que eu quero me suprime
Do que por não saber ainda não quis.

Só uma palavra me devora.
Aquela que meu coração não diz.
Só o que me cega, o que me faz infeliz,
É o brilho do olhar que eu não sofri.


"L. L. no Céu com Diamantes", de Raymundo Netto, para O POVO (8.2)

Luana, Liana e Lunga
Estava vagando por aqui, neste porão de estrelas, circulando em ônibus cuja linha era o rumo do vento, perseguido que sou por uma ciumenta e por vezes tirânica liberdade, engolida nem sempre a seco, quando subiu pela porta da frente um casal jovem a carregar em cada par de braços uma menina: gêmeas! Suados, os pais vinham atulhados de bolsas coloridas, sacolas e outros acessórios próprios que as pequenas exigem, ou que seus pais assim o pensam, na vã e doce tentativa de nunca falhar com aqueles que trouxeram a este chão de todo movediço. Ao vê-los, levantei-me, cedendo assento à mulher. O pai sentou-se a seguir noutra fila de assentos. Uma das meninas, a que estava com o pai, chorava bastante, e a mãe, no meio do treme-treme próprio dos ônibus, pedia para que ele a ajudasse na troca das crianças, quando ela tentaria acalmar a pequena chorona. O certo é que nem ela conseguia se levantar, nem ele, desajeitados e ancorados ao peso da bagagem, além do esforço que o rapaz fazia para segurar a criança que esticava-se inteira. Foi quando me dispus a ajudá-los: numa manobra meio que malabarística, com uma mão peguei a criança do colo da mãe e com a outra puxei a irmã dos braços do pai. A criança parou de chorar. A mãe, então, me agradeceu. Tímida, ainda me disse: "O senhor tem jeito, né?" Respondi: "É porque também tenho gêmeas!"
Engraçadas me são sempre as palavras que, quando isentas de nós, ganham o mundo. Era-me uma noite sombrosa, acinzentada de vazios, mas uma simples afirmação ou lembrança corriqueira deu-me ânimo ao espírito.
No domingo — há meses trabalhava nos finais de semana —, decidi sair com elas, as minhas filhas, hoje, adolescentes. Almoçamos, conversamos bastante sobre assuntos do mundo incipiente delas, curtindo cada sorriso, piada e aventura. Fizemos compras. Adoro vê-las escolhendo suas blusas e calças, expondo-me os gostos, as críticas, vendo-as sair do provador para me mostrar se teria "ficado legal". De repente, uma blusa, malhinha singela: acham-na a coisa mais linda! Mostram-me o que está escrito nela:"Love is a answer". "O amor é uma resposta, pai!" "Sim, filha, e das perguntas a mais difícil!"
Fomos ao cinema. Sentei-me, como faço questão, numa poltrona entre as duas. Quando senti o meu braço ser agarrado por uma, a colocar a cabeça em meu ombro, a outra tomava a minha mão, enlaçando-me os dedos, enquanto dividíamos o pacote de amendoim confeitado.
Esse é o meu mundo perfeito, colorido pela graça e beleza de ser pai da Lua e da Lia.
Como não me leem, não saberão do que ora escrevo, nem do quanto me enchem de vida ou o quanto me orgulham — embora eu o diga e as abrace e as beije sempre demais. Mas, um dia, lá na frente, é possível que tenham a curiosidade de conhecer aquele outro cara, não o pai, mas aquela sombra dele, o outro, o que figura num jornal ou que ocupa um espaço empoeirado  de prateleira. Aí, então, poderão se surpreender com esses escritos de amor, não tão brilhantes quanto os meus olhos quando as tenho por perto e posso dizer, sem medo: eu te amo!


"Quem Tem Medo do Vampiro?", de Pedro Salgueiro, para O POVO

Dalton Trevisan
Leio Dalton Trevisan há tantos anos que até me esqueci de quando comecei, talvez nos anos 1980, ainda na faculdade, ou mesmo antes. Lembro que senti um arrepio imediato, uma perturbadora inquietação. Diria que foi uma “identificação à primeira vista”. Depois disso, fui adquirindo um livro dele atrás do outro, dos antigos aos mais recentes, que — nessas mais de três décadas — foram sendo lançados.
Sua coleção ocupa a parte mais alta de minha modesta estante de clássicos, não de clássicos mortos (aqueles livros chatos que lemos uma vez na vida, quase sempre por obrigação, e nunca mais visitamos), mas de “clássicos pessoais”, aquelas obras que, de tanto gostarmos, passam a fazer parte de nossa vida, e que retornamos sempre, nem que seja para uma pestanejada antes de dormir.
O velho Vampiro de Curitiba passou a ser uma companhia constante, quase diária. E diversas têm sido para mim suas utilidades, desde o mais elementar divertimento, o trivial passatempo, a distração em fila de banco, até leituras mais sérias de aprendizado da escrita. Mas talvez a maior “função” encontrada com a leitura de seus contos tenha sido a de “desintoxicação literária”; explico: não raro, nos deparamos com aquele livro chato, de cintura dura, difícil de descer retinas abaixo; e depois da briga para chegar à derradeira página, da tristeza pós-parto (a fórceps, diria), vem um desânimo danado; foi então que por acaso descobri que bastava uma frase de Trevisan para recobrar a força, a vontade de continuar enfrentando novamente outras páginas.
Então, por motivos lúdicos e terapêuticos, aguardo ansiosamente os novos livros dele, como aquelas nossas velhas tias aguardam pacientes o disco de fim de ano de Roberto Carlos; pois essa espera já faz parte de uma tradição pessoal, um rito de passagem: o ano não terminará de verdade sem a leitura inquietante, prazerosa, do seu mais recente livro.
Em 2013 o presente foi especial, recebi seu costumeiro pacotinho de Natal, desta vez com dois (morram de inveja: autografados!) volumes: sua segunda (e rara, a primeira foi de 1985, A Polaquinha) novela, Nem te conto, João, com seus “benditos” João e Maria em novo encontro, repleto de deliciosos diálogos, no cultuado estilo do autor; e “de brinde” uma verdadeira joia literária, Até você, Capitu: reunião de textos em que faz referências a escritores e livros, mostrando sua admiração por Machado, Mansfield, Tchekhov, Pedro Nava, Rubem Braga, também desancando outros, sobra até para José de Alencar, Guimarães Rosa e Jorge Luis Borges (e nem ele mesmo escapa de sua navalha amolada, no irônico “Quem tem medo do Vampiro?”). Nessa pequena obra prima temos uma espécie de “Poética do Vampiro”, recheada de deliciosas referências literárias, como uma curiosa carta de agradecimento ao prêmio Machado de Assis da ABL, vários bilhetes desancando ex-amigos oportunistas, parentes sem escrúpulos e professores mal informados, além de breves (e fundamentais) conselhos estilísticos.
O que mais podemos desejar, além de agradecer, ao nosso maior escritor vivo é que continue a nos presentear com sua maravilhosa literatura, singular e viva, que cada vez mais conquista admiradores pelo mundo afora.


Rádio AlmanaCULTURA: "O Último Dia", com Paulinho Moska, em plena sexta-feira...


E se for hoje? Pode ser...
Para assistir ao vídeo e ouvir a música, acesse:
http://www.youtube.com/watch?v=Zb4eqZqCZFo

Meu amor,
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar,
Me diz o que você faria.

Ia manter sua agenda
De almoço, hora, apatia
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia?

Meu amor,
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar,
Me diz o que você faria.

Corria prum shopping center
Ou para uma academia,
Pra se esquecer que não dá tempo
Pro tempo que já se perdia?

Meu amor,
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar,
Me diz o que você faria.

Andava pelado na chuva,
Corria no meio da rua,
Entrava de roupa no mar,
Trepava sem camisinha?

Meu amor,
O que você faria?
O que você faria?

Abria a porta do hospício,
Trancava a da delegacia,
Dinamitava o meu carro,
Parava o tráfego e ria?

Meu amor,
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar,
Me diz o que você faria?

Meu amor,
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar,
Me diz o que você faria.
Me diz o que você faria.
Me diz o que você faria...


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Rádio AlmanaCULTURA: "Metamorfose Ambulante" (Hoje é dia!), com Raul Seixas


Para ouvir a música, acesse:
http://www.youtube.com/watch?v=7VE6PNwmr9g

Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo.

Eu quero dizer
Agora o oposto do que eu disse antes.
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo.

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou.

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou.
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor.
Lhe tenho amor.
Lhe tenho horror.
Lhe faço amor.
Eu sou um ator.

É chato chegar
A um objetivo num instante.
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo.
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo.

Sobre o que é o amor,
Sobre o que eu nem sei quem sou.

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou.
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor.
Lhe tenho amor.
Lhe tenho horror.
Lhe faço amor.
Eu sou um ator.

Eu vou desdizer
Aquilo tudo que eu lhe disse antes.
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo.
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo.


Lançamento "Amor Absoluto e Outros Poemas", de Agostinho Gósson (HOJE, 6 de fevereiro), na ACI (6.2)


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Data: 6 de fevereiro de 2014 (quinta-feira), às 19h30
Local: Associação Cearense de Imprensa (ACI), na rua Floriano Peixoto, 735, 4º andar, Centro.
Preço de capa: R$ 20,00
Contato com o autor: agosson@uol.com.br e gosson@ufc.br

A renda será doada à Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de Fortaleza.

O Amor segundo Agostinho Gósson
por Felipe Araújo

Eu, pobre, pobre demais/ poeta menor, sem valor,/ humildemente suplico:/estendei as mãos e aceitai / o pouco que vos dedico, os meus pedaços de amor”. 
Os versos, oferecidos aos leitores, abrem o livro Amor absoluto e outros poemas, que o jornalista e professor Agostinho Gósson lança hoje à noite [6 de fevereiro de 2014] na Associação Cearense de Imprensa (ACI). Que o leitor não se deixe levar pelo prólogo rimado. Não convence: nem Agostinho é poeta menor, nem seus versos são algo “pouco”. Há, na verdade, um sentimento arrebatador (e nada modesto) espalhado pelo livro, veredas quentes e densamente humanas de uma poesia que combina - sem afetação e com muita honestidade - lirismo, memória e crítica social.
O “amor absoluto” que Agostinho desconstrói em rimas - ora irônicas ora apaixonadas, ora extremamente dolorosas - alterna o prazer dos sentidos com a paz dos casais. “Arranco um pedaço do escuro / E nele desenho teu corpo, / Riscando-o com um punhal de luz”, ele canta.
Mas é também o amor pelo outro, o compromisso com a denúncia social. Bandeiras que Agostinho - tanto nas redações de Fortaleza quanto em suas aulas na UFC - sempre defendeu. E, por fim, um amor à própria poesia, que, no seu caso, foi construída silenciosamente ao longo de mais de 30 anos.

“Não pise no poema, / não toque no poema./ Ele é a paz” é seu pedido e sua confissão. Ao longo de intensos 60 anos de vida - mote do lançamento do livro -, Agostinho encontrou paz e inquietação nos braços de sua inspirada poesia. E agora traduz essa poesia-experiência nessa coletânea, igualmente intensa e inspiradora.

"Programação (atualizada e revista) de FEVEREIRO no Espaço O POVO de Cultura & Arte


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Espaço O POVO de Cultura & Arte

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Café-Clube de Leitura
Um passeio pelo mundo dos livros e da literatura num encontro que tem como objetivo fortalecer o gosto e o prazer pela leitura. Consulte os livros  e textos indicados no Café e participe da página do grupo aberto no Facebook:
“Café-Clube de Leitura O POVO”.
Mediadoras: Inês Cardoso (professora da UFC), Cleudene Aragão (professora da Uece) e Vânia Vasconcelos (escritora e professora da Uece).
Data: 7 e 21 de fevereiro (sexta-feira)
Horário: 18h30min
Entrada franca

 Entrevista Aberta
"Literatura e Psicanálise"
Existe alguma relação entre a psicanálise e a literatura? Qual a análise psicológica do texto literário? Como a percepção, a fantasia, a ficção, o processo criativo e a palavra servem de apoio aos elementos das experiências psicanalíticas? Qual a importância dos elementos simbólicos no processo de análise e das diversas leituras e narrativas? Como a compreensão da obra literária, representando a experiência humana, pode ser aplicada na interpretação da análise? Dentre outras.
Convidados: Valton de Miranda Leitão, militante socialista e psicanalista, membro do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Fortaleza (GEPFOR), e Francisco José Bezerra Santos, psicanalista, um dos autores do livro "Psicanálise e Texto", membro da Escola Letra Freudiana.
Mediação: Leônia Teixeira, psicanalista e escritora.
Data: 11 de fevereiro (terça-feira)
Horário: 19 horas
Entrada franca

O POVO Conta Histórias*
O grupo de contadores de história, CASA DO CONTO, recebe no Espaço O POVO alunos de escolas públicas e privadas, além de instituições que trabalham com crianças e adolescentes.
Data: 14 e 28 de fevereiro (sexta-feira)
Horário: 14 horas
(*) Para grupos previamente convidados.

Lançamentos
"Instituto Crèative de Educação em Moda, Arte e Cultura", instituição de formação, assessoria, produção de conhecimentos e de inovações em moda, educação,  arte e cultura.  Um espaço para  impulsionar essas áreas  no Ceará,  tendo como eixos a qualificação profissional,  a sustentabilidade, a qualidade dos serviços,  a economia criativa, o olhar crítico e a justiça social tão necessários ao desenvolvimento do estado e do país.
Data: 14 de fevereiro (sexta-feira)
Horário: 19h
Entrada franca

Ensaio de Cena
“Três Esquetes"
Apresentação do grupo Bagaceira de Teatro, criado em 2000, cujos trabalhos autorais têm recebido premiações e aplausos da crítica em diversos estados brasileiros. Dentre as peças do grupo: "Lesados", "O realejo", "Meire Love" e "Interior"
Data: 18 de fevereiro (terça-feira)
Horário: 19 horas
Entrada franca

Lançamentos
"Rodolfo Teófilo e a Saga de Jesuíno Brilhante", de Sânzio de Azevedo, ed. LCR, ganhador do Prêmio Braga Montenegro da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará.
Após o bate-papo sobre o seu livro, Rodolfo Teófilo e o cangaço, sessão de autógrafos com o autor.
Mediação: Raymundo Netto, escritor e editor adjunto das Edições Demócrito Rocha (EDR).
Data: 20 de fevereiro (quinta-feira)
Horário: 19h
Entrada franca

Encontro de Blogueiros O POVO
"Eleições 2014". Como anda a atuação dos candidatos à presidência e a governo   nas redes sociais.
Debatedores: Christianne Sales (assessora do governador Cid Gomes) e Érico Firmo (jornalista, colunista e do O POVO)
Mediação: Jamil Marques, secretário-executivo da COMPOLÍTICA, professor e pesquisador do mestrado em Comunicação da UFC.
Data: 25 de fevereiro (terça-feira)
Horário: 19 horas
Entrada franca

Leituras em Prosa e Verso
"'São Bernardo': 80 ANOS".
O que este romance de Graciliano Ramos tem a dizer a nossa contemporaneidade?
Palestrante: Fernanda Coutinho, professora do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFC, doutora em Letras pela UFPE e pós-doutora em Literatura Comparada pela UFMG - Université de la Sorbonne, Paris IV.
Data:  27 de fevereiro (quinta-feira)
Horário: 19 horas

Entrada franca

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

FlashBack-Block: "No Bordado do Olhar", entrevista de Henrique Araújo com a nova cronista de O POVO: Ana Miranda.


Rachel de Queiroz, uma flor marca a estreia amanhã da escritora Ana Miranda como cronista do O POVO. Em entrevista, a autora de Dias & Dias apresenta as estampas de memória que deverão servir de mote para suas crônicas.

Henrique Araújo especial para O POVO

Se, num lance de ficção, a escritora cearense Ana Miranda fosse suspensa por uma grua, esses equipamentos que alçam as câmeras de cinema e captam a imagem sob ângulos inusitados, e levada a um passeio por Fortaleza, um passeio que vasculhasse os quatro cantos da cidade e proporcionasse uma panorâmica mas também acurada visão de cada recanto; e se, passado o susto de enxergar-se sobrevoando uma metrópole que se esparrama desmesuradamente, lhe fosse pedido um relato em forma de crônica, um texto que misturasse suas impressões mais vivas da viagem aos pacotes de memórias que a escritora tem da sua infância na Capital, o que esse relato reservaria aos leitores? O que essa crônica traria do olhar da autora de Boca do inferno, Dias & Dias, Desmundo e A última quimera? 
A resposta vai na contracapa da edição de amanhã, 3 de abril, do Vida & Arte. É lá que Ana Miranda estreia como cronista em O POVO. Após três anos de seu regresso ao Ceará, de onde saiu para fixar residência primeiro em Brasília e depois no Rio de Janeiro, a escritora revela o percurso de sua memória literária. Também estabelece um ponto temático fundamental: “Vai ser um encontro entre dois seres, uma escritora e uma cidade, ela muito mais forte e duradoura, mandando em mim, e eu apenas com o poder da palavra, da observação, e da memória. Vamos ver o resultado”. A crônica inaugural celebra a memória de Rachel de Queiroz (1910-2003), amiga da escritora, que também faz graça com seu jeito especial de ser cearense. “Agora, aqui estou eu, de volta a minha terra natal, movida pelas saudades da Fortaleza de minha infância. E diante da tarefa de escrever sobre a cidade onde nasci.” As crônicas de Ana Miranda serão publicadas todas as sextas-feiras.

O POVO - A crônica lida basicamente com o tempo. O dia-a-dia, o cotidiano, as pessoas, a memória. Como esses aspectos se ligam em seus textos? E como eles devem se mostrar em suas crônicas? 
Ana Miranda - Sim, a crônica fala do dia-a-dia, das pequenas coisas, numa linguagem simples, próxima à literatura. É o lugar onde o leitor do jornal tem um encontro menos informativo e mais pessoal, onde circulam conceitos e visões de mundo, linguagens, até sentimento, sonho e poesia. Gosto de me inspirar no Rubem Braga, que considero o mestre dos mestres da crônica, o paradigma. Mas vou pedir à Rachel de Queiroz, lá no céu, que seja a minha madrinha, pois ela já escreveu nestas mesmas páginas. Ela há de me iluminar. Penso em falar disso mesmo, de lembranças pessoais, por exemplo, de minha amizade com a Rachel, ou as pedras na praia de Iracema, de pessoas, como o José de Alencar ou um grande bibliófilo que existe aqui em Fortaleza, assim como as coisas do dia-a-dia, pequenas ou grandes, uma chuva, uma árvore podada demais, que me entristeceu... E com o coração na mão, pois estarei escrevendo para os meus, na minha terra. Tudo isso vai se ligar por um fio que é Fortaleza. Interessante é que acabo de ler o belíssimo livro de Ohran Pamuk, Istambul, sobre a sua cidade. O POVO me propôs o tema Fortaleza, e Fortaleza para mim será o personagem central, que vai guiar o fio da conversa com os leitores.

OP - Em que tipo de personagem Fortaleza se converte em seus textos? Com que roupa a cidade vai aparecer? 
Ana Miranda - É ela quem vai decidir, vou apenas ficar sensível às mensagens que a cidade me mandar, mas pelo que eu me conheço, e da cidade, minha tendência sempre será iluminar os lados positivos, as qualidades, as coisas boas da cidade e de seus moradores, as lindíssimas memórias que guardo, das bordadeiras, dos bailes de minha mãe, dos coqueirais, a grande força cultural que Fortaleza conserva, apesar do caráter inovador do cearense, e suas características tão especiais de cidade que é ao mesmo tempo metropolitana e interiorana. , pois aqui quase todos têm um pé no interior, uma tia, uma família, um sitiozinho, porque a colonização do Ceará deu-se pelo interior. Tem as jangadas, as velas do Mucuripe, as cadeiras nas calçadas, como fala o livro lindo, de Raymundo Netto, tem o lado do humor, e do humor ácido tão bem trabalhado pelo Pedro Salgueiro, o lado cosmopolita e universal da cidade, narrado com a sensibilidade de Tércia Montenegro, e tantos outros escritores. Vai ser um encontro entre dois seres, uma escritora e uma cidade, ela muito mais forte e duradoura, mandando em mim, e eu apenas com o poder da palavra, da observação, e da memória. Vamos ver o resultado. 

OP - E as outras memórias... Elas se entrelaçam num contínuo? Ou cada tempo, cada cidade, cada instante requer sua porção especial, única de atenção?
Ana Miranda - Tudo se entrelaça, tudo se comunica, continuamente, a realidade é tão ampla que se torna inapreensível, nada pode apreender a realidade, o que as palavras podem fazer é delimitar um momento, uma situação, um lugar, um tempo, coisas pequenas, que dão a mostra do inapreensível. Nós escritores adoramos uma frase do Tolstoi que diz, “Se queres falar sobre o mundo, fala sobre a tua aldeia”. Fortaleza já é uma aldeia grande demais, será preciso ir nas suas minúcias, nos seus desvãos, nos seus segredos, mas também nos seus esteios, nunca é demais bater na tecla das riquezas naturais e culturais de Fortaleza, tão faladas, o vento, a luz, a cor do mar, Iracema, as pequenas prostitutas, também a rua da minha tia, a oca da minha amiga psiquiatra, uma coleção de rendas... o que surgir.

OP - Em seus romances, há trabalho ficcional sobre uma camada de história. Podemos esperar algo parecido de suas crônicas? 
Ana Miranda - Certeza, sim, não ficção sobre passado, mas a minha relação com os livros. Adoro as descobertas que faço nos livros, histórias acontecidas com José de Alencar, ou relatos sobre plantas medicinais nas farmácias vivas, ou uma velha crônica escrita por Drummond, um poema de Cecília Meireles... A minha obra tem muito de vida, de experiência, mas ela se relaciona com o meu amor pelos livros.