segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

"2025, o Velho", de Raymundo Netto para O POVO


Rio, 31 de dezembro de 1854.

José de Alencar, em seus 25 aninhos, cronista do Correio Mercantil, nos conta que havia acabado de concluir a leitura de contos de E.T.A. Hoffman e se preparava para escrever a crônica de final de ano, quando bateram à sua porta. Ficou bastante irritado e escreveu: “Se algum dia fordes jornalista, haveis de compreender como é importuno o homem que vem distrair-vos justamente no momento em que a primeira ideia, ainda no estado de embrião, começa-se a formar no pensamento, e quando a pena impaciente espera o primeiro sinal para lançar-se sobre o papel”. Diz não haver nada tão ruim que se compare a isso, nem mesmo quando o interrompem no momento de uma declaração de amor ou quando o seguram na hora de tomar o ônibus ou a barca. Existe, contudo, exceção: quando for uma mulher bonita, “para quem estou persuadido que não se inventaram relógios.”

Pois sim, mal-humorado, abriu a porta e, veja só, era apenas o Ano Velho, magro “como um varapau”, vestido em preto e com “certo ar de ministro demitido, de deputado não reeleito ou diplomata em disponibilidade”.

Trazia por debaixo do braço grande maço de jornais, planos e projetos realizados ou não. Mas, afinal, o que ele queria? Vinha, muito humildemente, reconhecendo o jovem jornalista, suplicar-lhe a sua indulgência para com ele, sabido que, naquele período, emitiria juízos sobre o ano que se findava, ou seja, ELE próprio!

Alencar, que antes desconfiara ser o visitante um paciente de hospício, assim mesmo não o poupou: boa vontade só não bastava, exigia fatos. E daí deu-se início ao divertido debate no qual o pobre Velho tentou defender os seus atos, enquanto Alencar, em seus apontamentos, repelia a maior parte de seus argumentos: a estrada de ferro não construída, os maus cuidados à cidade, o advento da iluminação a gás – que além de ser uma ideia do outro Velho, o de 1853, teria “roubado o encanto dos belos luares, e de haver privado os namorados daquelas noites escuras tão favoráveis a uma conversinha de rótula ou a um passeio de rua na Ouvidor” –, a demora da instalação de ruas, a reorganização da Academia das Belas-Artes, o risco da cólera... No entanto, quando o Velho de 54 o lembrou que esse “risco” rendeu matéria para um folhetim justamente quando o cronista estava bem “apertado”, acabou perdoando. Mas havia algo que Alencar não o perdoaria jamais: “Ter-me feito mais velho um ano!”

Continuou: passou a bradar de seu desprezo pelas glórias, ambições e pela política, em detrimento às doces ilusões da mocidade, “as primeiras lágrimas do coração, que perfumam os sonhos mais belos desta vida”, as verdadeiras afeições, “as mais belas expansões de nossa alma”, afinal, para que tantas honras e celebrações, se podemos “colher numa linda boquinha rosada duas palavras que nos abrem o céu”?

Não sabendo mais se dizia aquilo tudo ou se apenas pensava, e em compaixão ao hóspede – teria apenas mais dois dias de vida –, acendeu o seu charuto na vela quase a apagar-se, estalou as juntas, e continuou a palestrar com ele sobre as guerras e o futuro do país. Ao final, sem perceber, Alencar adormeceu e não sabe mais o que se passou.

E nós: 2025 finda, como tudo no mundo que nasce e inevitavelmente morre, mas ninguém pode nos tirar a vida vivida, o beijo roubado, o abraço apertado e a palavra sofrida.

Apesar do cânone dos ressentidos, José de Alencar é um dos maiores cronistas brasileiros.

E, com licença, pois alguém me bate à porta... Logo agora?




 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

"'A Arte da Biografia' de Lira Neto", por Raymundo Netto, para O POVO


Primeira turma do curso "A Arte em Biografia" pelo Armazém da Cultura
(Clique na imagem para ampliar!)

“Há muito acredito que o realismo é fantástico”

(Gay Talese)

Biografar, em tese, é uma impossibilidade, pois não há vida que caiba em um livro. Contudo, as biografias são sedutoras e curiosas, ocupando prateleiras do mercado editorial, enquanto despertam paixões ou ódios. Talvez os dois ao mesmo tempo. De qualquer forma, ruins são aquelas a despertar a mais inevitável apatia.

Na vida, como na arte, não importa o que se faz, mas COMO se faz. Quando falamos em arte em biografia, nos referimos à forma como se constrói esse texto. Sim, você pode ter um trabalho de pesquisa profundo, repleto de datas, informações, registros relevantes e precisos, mas se oferecer esse rico “pacote” em um texto maçante, por vezes, de insuportável leitura, de nada adiantará todo o seu empenho: perderá seu leitor.

Daí, nos últimos meses, participei do curso “A Arte da Biografia”, ministrado por Lira Neto e promovido pelo Armazém da Cultura de Albanisa Dummar. Tenho interesse em escrever uma, pelo menos, e o que me atraiu na proposta era a metodologia da pesquisa e de sua catalogação. Entretanto, o curso não se limita a isso.

Em 2022, a Companhia das Letras lançou A Arte da Biografia: como escrever histórias de vida, de Lira Neto, escrita a partir de notas de aula do seu curso ministrado na Universidade do Porto, em 2021. Embora no curso não seja obrigatória a aquisição da obra, ela consiste em grande facilitadora para maior compreensão do seu conteúdo e é um excelente guia de escrita criativa da narrativa de não ficção.

Essa abordagem do “criativo” na biografia é um dos pontos mais fortes no curso. Diferenciar o processo criativo do romance histórico, por exemplo, e da biografia, ambos baseados em histórias reais, embora ficção e não ficção, respectivamente, despertou em mim um gosto maior pelo exercício desafiador desse gênero biográfico.

Virginia Woolf já advertia que o romancista, por trabalhar com ficção, mesmo utilizando personagens e fatos reais, tem toda a liberdade de criação, enquanto o biógrafo é manietado, ou seja, tem as suas “mãos atadas”, é preso ao rigor documental. O que não se pode afirmar, por meio de registros, fotos e documentação, é invenção, fantasia. No caso, a imaginação do biógrafo é limitada pelo “real”.

Por isso, segundo Lira, “o biógrafo deve ter senso de detetive, olhar de antropólogo e espírito de arqueólogo”. Mas, no momento da escrita, deve fornecer o seu trabalho de investigação e pesquisa de forma envolvente, “transportando o leitor à cena”. Assim, o curso se apresenta também como veículo de escrita criativa, entendendo que o biógrafo precisa ter domínio da técnica narrativa: a fuga dos lugares comuns (clichês) e de juízos de valor, mais fluidez, clareza, ritmo, recusa ao maniqueísmo, controle de advérbios, diversificação vocabular, a escolha dos verbos de ação, manejo estético das descrições – impondo o tempo de leitura –, o estabelecimento de relação de alteridade com o biografado, o cuidado de não cair num individualismo exacerbado nem correr o risco de sufocá-lo em contextos monumentais, construção de cenas de apelo sensorial, além de “uma boa dose de fascínio pelo universo inerente à pesquisa”, afinal, “ao se biografar alguém, biografa-se também seu contexto”.

Na tentativa de “por a mão no ombro transparente de um fantasma” (André Maurois), os biógrafos ou “retratistas de almas”, como definia-se Plutarco, um revolucionário do gênero, devem se esforçar para captar minúcias da vida do biografado, os detalhes que aproximam o leitor do objeto da pesquisa, das particularidades que o humanizam, denunciando as suas “imperfeições” e méritos.

No curso, como no livro, Lira ilustra a teoria com a experiência própria de composição de sua reconhecida obra, suas aventuras, desventuras e suas “correções emergenciais de rota”, o que torna cada aula imperdível. O livro em si, já é uma grande aquisição para candidatos a biógrafos e, pasme, mesmo para ficcionistas e escritores de forma geral.

No mais, é “calçar os sapatos do morto”, nem santificar nem demonizar ninguém, compreendendo as suas contradições, vícios, virtudes e a nossa frágil humanidade.