Quando
fevereiro chegou, o mundo estava no rebuliço de guerra. A cegonha amalucada
de vida pousou o bebê Zé Tarcísio na casa nº 12 da Vila Diogo, sendo acolhido por
dona Chiquinha, matriarca de uma casa de mulheres operárias. O menino de olhos
e sonhos azuis era pequeno e assim o seria por toda a vida, se não se tornasse
tão grande.
Um
dia, recebeu um quarto só para ele, devido à morte de Estelita, aos 17 anos,
neta de Chiquinha, que ensinara àquele menino os segredos da voz. Aquele quarto
seria o seu infante ateliê de traquinagens e descobertas. Daí, ainda criança,
faltava as aulas para ser calouro em programas de auditório nas rádios. Num
deles, na PRE-9, sobre um caixote – para alcançar o microfone – e cantando marchinha
de carnaval, ganhou o prêmio maior: uma barra de sabão “Pavão”! Tornou-se locutor
mirim na Rádio Iracema – guarda com orgulho sua faixa até hoje – e em outro programa
ganharia máquina de costura, oferecida a Marieta, sua mãe biológica, para que pudesse
trabalhar em casa.
Não
era muito chegado à escola. Tinha bolsa no Ginásio 7 de Setembro, mas dizia que
gostava de ir apenas para brincar, jogar e se relacionar com os outros, além de
integrar o grêmio. Atuava no palco do catecismo, “Entre a Cruz e o Pecado”,
assim como nas atividades do Clube dos Sezinhos – iniciativa do Sesi e da Casa
de Juvenal Galeno. Nos carnavais, desenhava e produzia as fantasias. E, nos festejos
juninos, era ele a dar vida às ruas espalhando em cordões bandeirinhas
coloridas de papel.
Na
inauguração do Mauc, Antônio Bandeira conheceu os seus desenhos e o aconselhou
a tentar carreira no Rio. Assim ele fez. Em Santa Tereza, chegou a morar na
mesma casa onde respirava Manuel Bandeira. E lá, atuou em tudo o quanto, bebendo
de todas as fontes e explorando diversas linguagens, exercitando a sua
criatividade de sonhador, sempre levando ao mundo a sua percepção nordestina, o
seu rico imaginário. No cinema, no teatro e na TV, fosse como ator,
figurinista/aderecista, cenógrafo, produtor, roteirista e diretor ou mesmo como
humorista na TV Tupi em “A, E, I, O... URCA”. Como fotógrafo, que surgiu na
ABA-Film cearense, assumiu posto na renomada revista Manchete. Nas artes
visuais, durante perverso olhar da Ditadura, em pinturas, protestou contra a
morte do estudante Edson Luís. Passou três anos na Escola Nacional de Belas
Artes, mas não se adequou ao seu academicismo e a abandonou. Como “diabanjo”,
para escandalizar, correu de bicicleta na contramão em Copacabana sem camisa,
usando asas de anjo e sutiã com seios postiços. Foi levado pela Polícia para
depor por uma de suas instalações. Autoexilou-se pela Europa, estudando pintura
e pintando em calçadas. Voltando ao Brasil, devotado a gravuras, pinturas, colagens,
serigrafias, xilogravuras, esculturas e instalações, o jovem múltiplo vanguardista
participou e foi premiado em diversos salões e bienais do país.
Até
aqui, o leitor já percebeu não ser possível definir esse artista pela sua vida,
pois ele mal cabe nela. O que dirá nos limites de uma crônica? Sim, o Zé é de
uma beleza gigante, como gigante o era enquanto artista e ser humano. Generoso
e alegre, ainda trazia a doçura de menino no olhar miúdo de emoções e no sorriso
repleto de esperanças. No museu do tempo dos seus olhos, por aqui permanece a
passarela de sua “Ilusão” e, nós, seus colegas, aprendendo a jogar pedras ou a
regá-las para extrair flores ou um tiquinho de liberdade.
Sem mais blás-blás-blás, vai, Zé Tarcísio, ilumina nosso céu de estrelas, instala por lá o seu novo ateliê e recebe essa ruma de anjos desejosos de seu abraço.
