segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

"Arquivo Nirez: a memória da cidade", de Raymundo Netto para O POVO


Escrever sobre Miguel Ângelo de Azevedo, o nosso Nirez, é tarefa das mais complexas.

Aos 92 anos, é acervista, possuidor da maior coleção de discos de cera do Brasil e da mais completa coleção fotográfica do estado do Ceará. Pesquisador, é autor de obras de importância fundamental, como: Fortaleza de Ontem e de Hoje, A História Cantada no Brasil em 78 Rotações – no tema, uma das maiores do país – e Cronologia Ilustrada de Fortaleza, todas esgotadas.

Nirez é uma biblioteca viva, o maior guardião da história cearense, cumprindo o papel de um “mestre da cultura”, transferindo amavelmente seus saberes, seus achados, fomentando e possibilitando pesquisas, ensaios, produções literárias e audiovisuais. Acessível e acolhedor, recebe em sua casa, sede do singular Arquivo Nirez, centenas de historiadores, pesquisadores, jornalistas, artistas, editores, produtores, políticos e curiosos que sabem encontrar ali não apenas o acervo raríssimo, mas o seu curador, que muitas vezes se dá entusiasmadamente como consultor.

É impossível, ao ouvir os seus relatos, não se encantar num vórtice temporal e encontrar-se com personagens de nossa história “transformados em gente” e/ou se ver em locais da cidade que não existem mais – o que é bem do nosso desleixado desapego. E, claro, ao final, esperar o momento daquela piada guardada como troça de menino travesso.

A sua obsessão pela coleta, guarda, catalogação e manutenção de todo esse conteúdo – LPs, fotografias, filmes, livros, revistas, jornais, gravuras e máquinas, instrumentos, peças das mais diversas naturezas – já nos revela uma fortaleza extraordinária, imagine saber que todo esse legado está sendo construído e mantido bem debaixo de nosso nariz SEM QUALQUER APOIO DO PODER PÚBLICO.

Recursos financeiros o Ceará tem demais, basta acompanhar o seu desaguar na leitura de jornais ou assistir aos noticiários de rádio e TV. Mas, em todos esses anos de existência, nunca de alguma iniciativa por meio do governo estadual nem municipal. Houve, sim, por atitude de amigos do Arquivo, proposições a gestores do poder executivo ou diretores de instituições. Porém, nada se realizou, mesmo quando aqueles que ocupam tais cadeiras sabem quem ele é e reconhecem a importância do seu acervo. Talvez entendam ser a cultura um território de pouco valor eleitoral, o que justifica a caquexia eterna dos equipamentos culturais mais tradicionais, sempre colocados em segundo plano diante do “elefante branco” do momento. 

Não raro sabemos de acervos desfeitos, perdidos ou roubados pela falta de atenção desses representantes e da população sempre distraída ao que lhe é usurpado todos os dias pela falta de pertencimento. 

É inadmissível fechar os olhos para a relevância desse legado a ser preservado, um PATRIMÔNIO que, embora particular, é de extremo INTERESSE PÚBLICO, o que por si já justificaria a mobilização e articulação dos órgãos e entidades de poder: Secretaria da Cultura do governo do estado e do município, Museu da Imagem e do Som (MIS), Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), Câmara Municipal de Fortaleza, Universidade Federal do Ceará (UFC), IPHAN, Organizações Sociais (Instituto Mirante e Dragão do Mar), entre tantos outros.

Um dia, na sua agudeza de espirito, Nirez me disse: “Eu me sinto como se estivesse no futuro. O hoje é o meu futuro.” Sim, ele atravessou o tempo e cabe a nós apresentar para ele um futuro melhor, sem celebrações vazias e pirotécnicas de 300 anos de uma cidade desmemoriada, que insiste em debochar da perda contínua de sua história e patrimônio.





 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

"Mãe Zena", homenagem de aniversário de Raymundo Netto


Zenaide Mendonça Alves da Costa, se estivesse viva, hoje, completaria 88 anos

Publicada originalmente em 2011


Mãe só se tem uma. Esta minha, para piorar, é uma idealista. A dona Zenaide estudava no Liceu ao tempo em que também cursava o Normal. Professorinha, recebia a troco de nadica, em própria casa, os pequenos aprendizes “mal das pernas”, sem descuidar-se de ajudar sua mãe na criação dos irmãos — eram nove —, de fazer quitutes para venda no bar do pai e de estudar madrugada afora. Assim, ingressou na Faculdade de Odontologia. Aluna exemplar, honesta até dizer chega — não mente nem a pau — e toda pela Fé: se acredita, seja no que for, não tem quem a segure!

Boa parte de sua vida, Zena dividiu o consultório dentário com a casa de seis filhos barulhentos. Entrávamos e saíamos dele — à noite, brincávamos na cadeira da dentista a subir e a descer no “pedalo” — com dúvidas escolares e/ou domésticas, arengas ou mesmo para auxílio dos deveres de casa, ao pé da parede. Muitas vezes, éramos chamados para segurar o queixo dos pacientes no incisivo (ou molar?) momento do vaivém da extração.

De nunca reclamar da vida e de sempre dizer a toda hora e a todo o momento “Agradeça! Agradeça!”, desconfiava-lhe de algum temor ou tristeza quando ela, do nada, passava a cantar em voz de cantora de rádio: “Eu vivo a vida cantando, ai lili, ai lili, ai lou/ Por isso sempre contente estou, o que passou, passou.../O mundo gira depressa e nessas voltas eu vou/ cantando a canção tão feliz que diz ai lili, ai lili, ai lou/ Por isso é que sempre contente estou... Ai lili, ai lili, ai lou”

Lembro-me dela amolegando uns “capitães” no almoço dos seis filhos, ou sentada conosco no meio da estrada — viajávamos muito —, em garagens tisnadas de graxa e cheirando a gasolina, distribuindo galinha assada guardada em potes de alumínio, fazendo sanduíches de carne de lata, comprando fazenda para a costureira tecer nossas roupas de festa ou fazendo das contas para conseguir pagar a prestação da casa.

Conselheira do povo, era sempre procurada diante das confusões de vida alheia. Tinha ouvidos para todos, além de palavras acalentadoras acolchoadas do amor a pesar no peito. Pudesse, colocava de um mundo dentro de casa.

Entretanto, à mesa da cozinha, sede de minhas melhores memórias, ao puxarmos assuntos banais, levantava-se sem ter nem para quê. Dizíamos: “Mãe, eu nem terminei...”. Ela respondia “Essa conversa não vai levar a nada. Tenho o que fazer”. Sempre teve, até hoje. Não para nunca a nossa baixinha.

Uma noite, coitada, para que eu não fosse punido no dia seguinte por não ter cortado o meu cabelo — estudava no Colégio Militar — decidiu ela fazê-lo. Errou o corte. Fez um “buraco” que, rapidinho e rindo muito, preencheu tascando-me à cabeça, com cola branca, o cabelo caído na pia. E não é que deu certo? Milagre de mãe?

Dia, uma senhora lhe disse perceber-nos, os filhos, carentes — não havíamos assinado a “procuração” —, pois ela não era de nos carimbar de beijos. Ficou grilada. Falou sobre com os filhos. Nem ela nem o pai eram dados a manifestações de amor, como beijos ou abraços. Não sabia. Faziam outros tantos absurdos por nós, mas não beijavam.

Já casado, com duas filhas, uma tarde, sol pegando fogo, a vi chegar à minha calçada. Estranhei: meus pais não são de visitas. Nem entrou. Nas mãos, um saquinho com farofa feito de casa, encimado por papelzinho “Netto”, escrito com letra cursiva, da mais linda que já vi: “Preparei a SUA farofa e a trouxe, pois não sei quando você vai em casa, né?”. E se foi, "Felicidades", no passo ligeiro de passarinho — pernas pequenas, voos inimagináveis —, tinha muita coisa para fazer. Sempre tem: Ai lili, ai liliiii, ai lou.

 



 

domingo, 11 de janeiro de 2026

"Zé Tarcísio: o regador de pedras", de Raymundo Netto para O POVO


Quando fevereiro chegou, o mundo estava no rebuliço de guerra. A cegonha amalucada de vida pousou o bebê Zé Tarcísio na casa nº 12 da Vila Diogo, sendo acolhido por dona Chiquinha, matriarca de uma casa de mulheres operárias. O menino de olhos e sonhos azuis era pequeno e assim o seria por toda a vida, se não se tornasse tão grande.

Um dia, recebeu um quarto só para ele, devido à morte de Estelita, aos 17 anos, neta de Chiquinha, que ensinara àquele menino os segredos da voz. Aquele quarto seria o seu infante ateliê de traquinagens e descobertas. Daí, ainda criança, faltava as aulas para ser calouro em programas de auditório nas rádios. Num deles, na PRE-9, sobre um caixote – para alcançar o microfone – e cantando marchinha de carnaval, ganhou o prêmio maior: uma barra de sabão “Pavão”! Tornou-se locutor mirim na Rádio Iracema – guarda com orgulho sua faixa até hoje – e em outro programa ganharia máquina de costura, oferecida a Marieta, sua mãe biológica, para que pudesse trabalhar em casa.

Não era muito chegado à escola. Tinha bolsa no Ginásio 7 de Setembro, mas dizia que gostava de ir apenas para brincar, jogar e se relacionar com os outros, além de integrar o grêmio. Atuava no palco do catecismo, “Entre a Cruz e o Pecado”, assim como nas atividades do Clube dos Sezinhos – iniciativa do Sesi e da Casa de Juvenal Galeno. Nos carnavais, desenhava e produzia as fantasias. E, nos festejos juninos, era ele a dar vida às ruas espalhando em cordões bandeirinhas coloridas de papel.

Na inauguração do Mauc, Antônio Bandeira conheceu os seus desenhos e o aconselhou a tentar carreira no Rio. Assim ele fez. Em Santa Tereza, chegou a morar na mesma casa onde respirava Manuel Bandeira. E lá, atuou em tudo o quanto, bebendo de todas as fontes e explorando diversas linguagens, exercitando a sua criatividade de sonhador, sempre levando ao mundo a sua percepção nordestina, o seu rico imaginário. No cinema, no teatro e na TV, fosse como ator, figurinista/aderecista, cenógrafo, produtor, roteirista e diretor ou mesmo como humorista na TV Tupi em “A, E, I, O... URCA”. Como fotógrafo, que surgiu na ABA-Film cearense, assumiu posto na renomada revista Manchete. Nas artes visuais, durante perverso olhar da Ditadura, em pinturas, protestou contra a morte do estudante Edson Luís. Passou três anos na Escola Nacional de Belas Artes, mas não se adequou ao seu academicismo e a abandonou. Como “diabanjo”, para escandalizar, correu de bicicleta na contramão em Copacabana sem camisa, usando asas de anjo e sutiã com seios postiços. Foi levado pela Polícia para depor por uma de suas instalações. Autoexilou-se pela Europa, estudando pintura e pintando em calçadas. Voltando ao Brasil, devotado a gravuras, pinturas, colagens, serigrafias, xilogravuras, esculturas e instalações, o jovem múltiplo vanguardista participou e foi premiado em diversos salões e bienais do país.

Até aqui, o leitor já percebeu não ser possível definir esse artista pela sua vida, pois ele mal cabe nela. O que dirá nos limites de uma crônica? Sim, o Zé é de uma beleza gigante, como gigante o era enquanto artista e ser humano. Generoso e alegre, ainda trazia a doçura de menino no olhar miúdo de emoções e no sorriso repleto de esperanças. No museu do tempo dos seus olhos, por aqui permanece a passarela de sua “Ilusão” e, nós, seus colegas, aprendendo a jogar pedras ou a regá-las para extrair flores ou um tiquinho de liberdade.

Sem mais blás-blás-blás, vai, Zé Tarcísio, ilumina nosso céu de estrelas, instala por lá o seu novo ateliê e recebe essa ruma de anjos desejosos de seu abraço.


 


 


 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

"2025, o Velho", de Raymundo Netto para O POVO


Rio, 31 de dezembro de 1854.

José de Alencar, em seus 25 aninhos, cronista do Correio Mercantil, nos conta que havia acabado de concluir a leitura de contos de E.T.A. Hoffman e se preparava para escrever a crônica de final de ano, quando bateram à sua porta. Ficou bastante irritado e escreveu: “Se algum dia fordes jornalista, haveis de compreender como é importuno o homem que vem distrair-vos justamente no momento em que a primeira ideia, ainda no estado de embrião, começa-se a formar no pensamento, e quando a pena impaciente espera o primeiro sinal para lançar-se sobre o papel”. Diz não haver nada tão ruim que se compare a isso, nem mesmo quando o interrompem no momento de uma declaração de amor ou quando o seguram na hora de tomar o ônibus ou a barca. Existe, contudo, exceção: quando for uma mulher bonita, “para quem estou persuadido que não se inventaram relógios.”

Pois sim, mal-humorado, abriu a porta e, veja só, era apenas o Ano Velho, magro “como um varapau”, vestido em preto e com “certo ar de ministro demitido, de deputado não reeleito ou diplomata em disponibilidade”.

Trazia por debaixo do braço grande maço de jornais, planos e projetos realizados ou não. Mas, afinal, o que ele queria? Vinha, muito humildemente, reconhecendo o jovem jornalista, suplicar-lhe a sua indulgência para com ele, sabido que, naquele período, emitiria juízos sobre o ano que se findava, ou seja, ELE próprio!

Alencar, que antes desconfiara ser o visitante um paciente de hospício, assim mesmo não o poupou: boa vontade só não bastava, exigia fatos. E daí deu-se início ao divertido debate no qual o pobre Velho tentou defender os seus atos, enquanto Alencar, em seus apontamentos, repelia a maior parte de seus argumentos: a estrada de ferro não construída, os maus cuidados à cidade, o advento da iluminação a gás – que além de ser uma ideia do outro Velho, o de 1853, teria “roubado o encanto dos belos luares, e de haver privado os namorados daquelas noites escuras tão favoráveis a uma conversinha de rótula ou a um passeio de rua na Ouvidor” –, a demora da instalação de ruas, a reorganização da Academia das Belas-Artes, o risco da cólera... No entanto, quando o Velho de 54 o lembrou que esse “risco” rendeu matéria para um folhetim justamente quando o cronista estava bem “apertado”, acabou perdoando. Mas havia algo que Alencar não o perdoaria jamais: “Ter-me feito mais velho um ano!”

Continuou: passou a bradar de seu desprezo pelas glórias, ambições e pela política, em detrimento às doces ilusões da mocidade, “as primeiras lágrimas do coração, que perfumam os sonhos mais belos desta vida”, as verdadeiras afeições, “as mais belas expansões de nossa alma”, afinal, para que tantas honras e celebrações, se podemos “colher numa linda boquinha rosada duas palavras que nos abrem o céu”?

Não sabendo mais se dizia aquilo tudo ou se apenas pensava, e em compaixão ao hóspede – teria apenas mais dois dias de vida –, acendeu o seu charuto na vela quase a apagar-se, estalou as juntas, e continuou a palestrar com ele sobre as guerras e o futuro do país. Ao final, sem perceber, Alencar adormeceu e não sabe mais o que se passou.

E nós: 2025 finda, como tudo no mundo que nasce e inevitavelmente morre, mas ninguém pode nos tirar a vida vivida, o beijo roubado, o abraço apertado e a palavra sofrida.

Apesar do cânone dos ressentidos, José de Alencar é um dos maiores cronistas brasileiros.

E, com licença, pois alguém me bate à porta... Logo agora?




 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

"'A Arte da Biografia' de Lira Neto", por Raymundo Netto, para O POVO


Primeira turma do curso "A Arte em Biografia" pelo Armazém da Cultura
(Clique na imagem para ampliar!)

“Há muito acredito que o realismo é fantástico”

(Gay Talese)

Biografar, em tese, é uma impossibilidade, pois não há vida que caiba em um livro. Contudo, as biografias são sedutoras e curiosas, ocupando prateleiras do mercado editorial, enquanto despertam paixões ou ódios. Talvez os dois ao mesmo tempo. De qualquer forma, ruins são aquelas a despertar a mais inevitável apatia.

Na vida, como na arte, não importa o que se faz, mas COMO se faz. Quando falamos em arte em biografia, nos referimos à forma como se constrói esse texto. Sim, você pode ter um trabalho de pesquisa profundo, repleto de datas, informações, registros relevantes e precisos, mas se oferecer esse rico “pacote” em um texto maçante, por vezes, de insuportável leitura, de nada adiantará todo o seu empenho: perderá seu leitor.

Daí, nos últimos meses, participei do curso “A Arte da Biografia”, ministrado por Lira Neto e promovido pelo Armazém da Cultura de Albanisa Dummar. Tenho interesse em escrever uma, pelo menos, e o que me atraiu na proposta era a metodologia da pesquisa e de sua catalogação. Entretanto, o curso não se limita a isso.

Em 2022, a Companhia das Letras lançou A Arte da Biografia: como escrever histórias de vida, de Lira Neto, escrita a partir de notas de aula do seu curso ministrado na Universidade do Porto, em 2021. Embora no curso não seja obrigatória a aquisição da obra, ela consiste em grande facilitadora para maior compreensão do seu conteúdo e é um excelente guia de escrita criativa da narrativa de não ficção.

Essa abordagem do “criativo” na biografia é um dos pontos mais fortes no curso. Diferenciar o processo criativo do romance histórico, por exemplo, e da biografia, ambos baseados em histórias reais, embora ficção e não ficção, respectivamente, despertou em mim um gosto maior pelo exercício desafiador desse gênero biográfico.

Virginia Woolf já advertia que o romancista, por trabalhar com ficção, mesmo utilizando personagens e fatos reais, tem toda a liberdade de criação, enquanto o biógrafo é manietado, ou seja, tem as suas “mãos atadas”, é preso ao rigor documental. O que não se pode afirmar, por meio de registros, fotos e documentação, é invenção, fantasia. No caso, a imaginação do biógrafo é limitada pelo “real”.

Por isso, segundo Lira, “o biógrafo deve ter senso de detetive, olhar de antropólogo e espírito de arqueólogo”. Mas, no momento da escrita, deve fornecer o seu trabalho de investigação e pesquisa de forma envolvente, “transportando o leitor à cena”. Assim, o curso se apresenta também como veículo de escrita criativa, entendendo que o biógrafo precisa ter domínio da técnica narrativa: a fuga dos lugares comuns (clichês) e de juízos de valor, mais fluidez, clareza, ritmo, recusa ao maniqueísmo, controle de advérbios, diversificação vocabular, a escolha dos verbos de ação, manejo estético das descrições – impondo o tempo de leitura –, o estabelecimento de relação de alteridade com o biografado, o cuidado de não cair num individualismo exacerbado nem correr o risco de sufocá-lo em contextos monumentais, construção de cenas de apelo sensorial, além de “uma boa dose de fascínio pelo universo inerente à pesquisa”, afinal, “ao se biografar alguém, biografa-se também seu contexto”.

Na tentativa de “por a mão no ombro transparente de um fantasma” (André Maurois), os biógrafos ou “retratistas de almas”, como definia-se Plutarco, um revolucionário do gênero, devem se esforçar para captar minúcias da vida do biografado, os detalhes que aproximam o leitor do objeto da pesquisa, das particularidades que o humanizam, denunciando as suas “imperfeições” e méritos.

No curso, como no livro, Lira ilustra a teoria com a experiência própria de composição de sua reconhecida obra, suas aventuras, desventuras e suas “correções emergenciais de rota”, o que torna cada aula imperdível. O livro em si, já é uma grande aquisição para candidatos a biógrafos e, pasme, mesmo para ficcionistas e escritores de forma geral.

No mais, é “calçar os sapatos do morto”, nem santificar nem demonizar ninguém, compreendendo as suas contradições, vícios, virtudes e a nossa frágil humanidade.






 

domingo, 30 de novembro de 2025

"No Centro do Mundo: A Festa Literária de Ibiapaba", de Raymundo Netto para O POVO


Tive a feliz surpresa de ser um dos convidados para a estreia da primeira Festa Literária de Ibiapaba, a FLIIB, tendo como palco e cenário a antiga Aldeia Ibiapaba, depois Vila Viçosa Real da América, até ser denominada Viçosa do Ceará, uma das mais belas, aprazíveis e poéticas pretensões de moradia humana em nosso estado cearense.

Entre os dias 20 e 22 de novembro, dava-nos a impressão de que a sua população dobrara em número, acompanhando-a durante todo o dia enfileirada ou em grupos, entre artistas, livreiros, leitores, indígenas – principalmente os tremembés de Almofala –, professores e alunos das escolas privadas, públicas municipais e do IFCE-Tianguá tomando, com as bênçãos de Nossa Senhora da Assunção, a praça Clóvis Beviláqua – ele ali também nos assistia a meditar –, os quiosques e o teatro Pedro II nas mais diversas atividades GRATUITAS: rodas de leitura, serenata em calçada, feira de livros, cordéis e quadrinhos, bate-papo com escritores, oficinas, lançamentos de livros, cine-debate, contação de histórias, saraus, declamações, shows musicais, biblioteca móvel, percurso sentimental pela cidade e outras iguarias culturais refletidas nas cores de um casario antigo, não apenas cenográfico, como em Fortaleza, mas real, que além de encantar a festa e deixar tudo mais belo, ainda nos contava histórias, tradições e memórias.

Com o tema “Entre Montanhas e Palavras: a Ibiapaba em Prosa e Verso”, se deu por promoção da Secretaria de Turismo e Cultura do Município, com apoio do Governo Federal, via Política Nacional Aldir Blanc, e com outros importantes apoiadores, como a Câmara Cearense do Livro, BNB, Sesc, Bece, Secult, SEBP, IFCE etc. Tudo devidamente orquestrado pelo competente secretário historiador Gilton Barreto – que me outorgou, há alguns anos e guardada com carinho, a Comenda General Tibúrcio –, com a grata e acertada aprovação do prefeito Eurico Fontenele Arruda. Na curadoria, escritores: Renato Pessoa e Léo Mackellene.

Tive o privilégio de ser convidado para dividir uma mesa com a premiadíssima escritora Marília Lovatel, não podendo eu deixar de aproveitar a oportunidade e lançar luz ao nome do saudoso prof. Juca Fontenele, autor das “Viçosalianas” que me apresentaram a essa “Eldorado cabeça-chata”. Também ali, passei raspando quase como oração nas paredes do casarão de 175 anos do querido farmacêutico Felizardo de Pinho Pessoa, cujo filho, o Césinha, memorialista sentimentalíssimo, ainda tive o prazer de encontrar.

Tomei excelentes cafés em frente à praça General Tibúrcio, jantei no restaurante Silvestre, visitei a Casa de Licores do seu Alfredo Miranda, agora Museu Orgânico do Sesc, e, no local onde antes funcionava a tradicional Sorveteria Bem-Me-Quer, soube mais a respeito da renomada cachaça Viçosa Real, da família de Clóvis Mapurunga, artesanalmente fermentada e destilada em alambiques de cobre e maturadas em barris de madeiras nobres. Para quem aprecia destilados, é uma experiência imperdível.

Saí de Viçosa maravilhado, certo de que essa foi a maior, a mais original e a melhor festa literária que tivemos em 2025. Não há dúvida de que todo o deslumbre ofertado espontaneamente por essa cidade-tesouro-patrimônio contribuiu para nos proporcionar esse efeito mágico mais que necessário para não deixar que nos esqueçamos do nosso propósito como agentes de cultura, guardiões de nossa história e memória, multiplicadores de nossas identidades para as atuais e futuras gerações.

Parabéns, FLIIB e a todos e a todas que a sonharam e presentearam o Ceará com o seu legado. Que venham a segunda, a terceira, a quarta...

 



 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

"Almir Mota: um menino a contar histórias", de Raymundo Netto para O POVO


No sertão cearense dos Inhamuns, abençoado por Nossa Senhora da Purificação, encontra-se hoje a ainda pequena Saboeiro do Ceará.

Cruzando o pátio rústico da igreja matriz, com detalhes coloniais, cercada de coloridas casas geminadas e beirando o mercado municipal, Almir Mota, um menino falante de olhos miúdos, aos seis anos, impressionava o populacho a já contar causos que ouvira de seu pai Osmir e de sua vó Canela, a dona do sítio Cabeça do Boi.

Com pouco, partiria de sua terra natal para residir em Iguatu, onde aos 16 anos estrearia no jornal literário O Tostão com o poema “Pai Democrático”, uma homenagem a Tancredo Neves. Aquela simples publicação “ficou para a vida toda”, e ele não parou mais.

Logo, reuniria um grupo de amigos e juntos produziriam folhetos de poesia mimeografados. Mais tarde, saraus itinerantes, vendendo os seus folhetos, então, impressos em gráficas, o que continuou mesmo quando Almir deixou o interior para aventurar-se na capital.

Em Fortaleza, ingressou no grupo Metamorfose de teatro amador, seria um dos criadores da Cia. Estripulia de Teatro de Bonecos (no futuro, também dirigiria o grupo Garunjos), criaria a Fundação Terra e trabalharia como gestor cultural. Até que, em 1999, publicaria a sua primeira obra literária para crianças: O Cavalinho Amarelo.

Ele acredita: “Para escrever para criança, você tem que se divertir como criança” e que a criança “é um leitor mais exigente, porém, mais honesto”.

Após “O Cavalinho...” publicaria mais de 25 livros para esse público que adora ler e vê-lo a contar as suas histórias, sendo muitas dessas obras publicadas por diversas editoras e adotadas em escolas de muitos estados brasileiros há anos.

Em 2009, iniciou as atividades da Casa da Prosa, sua editora e produtora cultural, no mesmo ano em que seu livro A Fera do Canavial (para jovens e adultos) recebeu o prêmio nacional “Literatura Para Todos” do Ministério da Educação.

O Almir, que não se restringia a escrever e a contar suas histórias, cresceu ainda mais como produtor cultural e militante das causas do livro, da leitura, da literatura e das bibliotecas, desenvolvendo projetos reconhecidos pelos seus resultados e seu poder de agregar artistas, professores e leitores. Entre eles: a Escola da Natureza, A Casa do Conto, a Feira do Livro Infantil de Fortaleza (em 7 edições) e a Feira da Literatura Cearense, a Bolsa de Letrinhas (Bolsa Funarte de Circulação Literária), Lamparinas de Histórias e o Baú de Leitura – ação que já beneficiou, com doações de livros, mais de 500 bibliotecas e espaços de leitura no Ceará, Piauí, Bahia e Minas Gerais.

Todos esses projetos são marcados pela sua liderança, competência e com muito humor, mesmo quando diante das adversidades que os artistas são obrigados a enfrentar se quiserem continuar no ramo, no qual ele traz 40 anos de contínua atuação.

Contudo, como é apaixonado por paisagens, é um viajante incansável, ao lado da esposa, Júlia Barros, uma excelente contadora de histórias (a melhor), já tendo divulgado o seu trabalho também no exterior, como no México, Colômbia, Costa Rica e Portugal.

Em 2025, Almir Mota chega aos 58 anos trazendo consigo uma marca e um currículo admirável de produções e de muita resistência, além de reforçar as visitas às escolas para divulgação de sua extensa obra, agora também reimpressa.

Assim, durante a celebração do Dia da Literatura Cearense, 17 de novembro, dedico minha homenagem a Almir Mota, um menino grande que cedo descobriu na vida o encanto das palavras e a esperança de mundo melhor em uma sociedade leitora.





 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

"Nariz", de Raymundo Netto para O POVO


Como uma princesa, quiçá rainha, assim era tratada Rosânia, filha única do respeitado empresário Cirano Ventes. Aliás, o sobrenome do pai lhe dava salvo-conduto, laissez-passer, como diziam nas colunas sociais, a qualquer local daquela cidade, mesmo os inatingíveis. Para ela não havia “depois”, “não pode”, “não dá”, coberta que era por uma certa vaidade deificada. Assim, não seria possível supor que ela, a filha, tivesse uma ojeriza tão medonha daquele pai.

Nunca a revelara a ninguém, mas via no narigão do pai um não sei o quê de repulsivo, asqueroso, com ares de legítima bruxa da Branca de Neve. Tinha tamanho pavor que assegurava: era aquela “coisa” a responsável por seus piores temores infantis. Tanta doçura e dengos de seu pai não conseguira apagar a imensa sombra que pairava maldita no imaginário virgem da garota.  

O sr. Ventes, coitado, já lhe percebia há muito essa reserva e distância, mas pensava ser natural pela sua condição feminina: “Se fosse homem, seria diferente...”

A mãe, entretanto, via com anormalidade a incompreensível aversão, que a fazia inventar desculpas para sequer cearem juntos, ou desviar o rosto com náuseas quando ele a acarinhava em aniversários e natais. Aliás, em seus álbuns de festa, as fotos ao lado do pai eram sumariamente descartadas. Quem os visse, pensaria ser Rosânia filha só de mãe.

Um dia, já moça, decidira casar. O noivo, bom rapaz e de família, era um príncipe, dizia.

Algumas horas antes da cerimônia, porém, no mais prestigiado salão de beleza da capital, o maquiador Paulinho lhe chegou cheio de mimos, afagando-lhe as madeixas e tocando-lhe o rosto com suavidade quase que sagrada. Ela, como uma rosa de jardim, vaporava alegrias, até que, inesperado, Paulinho pôs uma mão na cintura e com a outra tamborilou a escova no queixo. Silenciado, fitou a moça ao espelho e disse: “Mulher, nós teremos que usar sombra e pontos de luz para suavizar e disfarçar o volume...”

— O volume de quê? O que você quer dizer?

Diante da mudez repentina e geral, Paulinho torceu o canto da boca e disfarçou: “Eu? Nada, meu bem. Nadinha... só...”

— Você insinuou alguma coisa, sim... Diga. Repete!

O rapaz, desafeiçoado a frescuras e achaques, olhou para as colegas que acenavam súplices com as cabeças e indicadores e, num êxtase, rodou a cadeira de Rosânia e berrou numa impiedade carrasca: “Olhe aqui, minha filha, nós vamos ter que dar um jeito para o seu nariz não aparecer mais do que você na filmagem. É isso. Pronto. Falei!”

A noiva encheu-se de lágrimas e tornou ao espelho, como se numa primeira vez. Sim, estava lá, o tempo todo, bem diante do seu... nariz: era o narigão do pai! Sem tirar nem pôr, o mesmo fantástico monstrengo!

Correu pelo salão um brado megaestratosférico jamais ouvido. Há quem nos conte que não ficou um único espelho ou copo em pé. Rosânia saiu correndo à rua, destroçando o penteado e escondendo a sua vergonha entre as mãos, seguido por Paulinho, a equipe do salão, a mãe e o gordo pai: “A culpa é sua! É sua!”

Naquele dia, o casamento não aconteceu e ela não poria mais o nariz fora de casa. Da rua, por muitos anos, quem olhasse a janela triste do primeiro andar, poderia acompanhar o seu perfil generoso, a caminhar de um lado para outro, rodeado de pesadelos num quarto onde não entraria jamais um novo amor, muito menos outro espelho.






 

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

"No Canto da Sereia", de Raymundo Netto para O POVO


“Cavalo-Marinho, mãe. Ele pegou um cavalo-marinho”, apontava a menina para o irmão Zenor, que chegara da praia naquele momento, esbaforido e delirante, agarrado suspeitamente a uma garrafa velha cheia d’água do mar.

Correu ao seu quarto ainda ouvindo a irmã resmungar, após a desatenção da mãe: “Deixa seu irmão, menina! O bichinho...”

No quarto, Zenor botaria a garrafa em cima da cômoda, abriria a janela e passaria o resto da manhã apreciando o seu achado: uma sereia! Ainda pequena, uns 10 cm. A criatura estava naturalmente incomodada, debatia-se contra o plástico e, por vezes, parecia sufocar. “Muita areia...”, pensou Zenor, que logo daria um jeito de pedir ao pai para comprar um aquário de verdade.

Anos se passaram e muitos aquários quebraram enquanto a sereia crescia, sempre aos olhos atentos e obsessivos de Zenor. Os seus pais achavam ótimo que o rapazinho tivesse encontrado um hobby, pois não saía de casa, portanto não tinha amigos, não falava com ninguém, era absolutamente alheio a tudo e a todos, menos à sua sereia.

Enquanto tratava seu aquário, como em um pacto de silêncio eterno entre ambos, passava horas a observar fascinado, quase babando, a sua presa. Os compridos e encrespados cabelos esverdeados, como algas, oscilando lentamente ao movimento do corpo muito alvo, pele aparentemente de bebê, embora áspera. Os seios salientes e sem aréolas, o majestoso pescoço, a ausência de lábios, pequenas brânquias atrás das orelhas, a cauda longa de escamas denteadas e brilhantes. A irmã, quando criança, gostava de ajudá-lo nessa tarefa – tinha afeição pela criatura. Porém, adolescente e feminista, tornou-se contrária ao absurdo cativeiro. O pai, interessado apenas nas coisas do mundo, pensava em como aquilo um dia poderia contribuir nas finanças domésticas. A mãe apenas a julgava pálida e magra demais.

Por curiosidade, vez ou outra algum dos vizinhos adentrava o quarto. Também fotógrafos de revistas científicas e da imprensa local buscavam frestas de janelas para captar imagens da curiosa fêmea marinha. Todos eram violentamente enxotados pelo rapaz grandalhão, obeso e de fala pouco compreensível que se tornara o Zenor.

Tinha ele outro segredo. À noite, nunca conseguia dormir. Ao travesseiro, percebia os olhos dela muito abertos – naturalmente, não tinha pálpebras. Aquele olhar fixo em sua direção trazia o mesmo ar acusador e odioso de todos os dias. Estaria acordada? Estaria dormindo? Não sabia. Contudo, a brilhância do olhar amarelado, no negrume do quarto, parecia a de um farol. Pela manhã, estava em ruínas à mesa do café, preocupando os pais pela sua saúde precocemente debilitada.

Quando adulto, morava apenas com a mãe – o pai falecera e a irmã comprou um apartamento.

Nesse tempo, guardava a sua sereia numa caixa d'água no quintal. 

Era meio-dia. Sua irmã veio visitá-lo e almoçar com ele, a pedido da mãe em viagem. Ele já estava à mesa, quando ela dirigiu-se ao quintal para dar um “oi” à sereia. Não a encontrou: a caixa d’água vazia, encostada ao muro. Voltou à cozinha, muito bagunçada, e perguntou ao irmão por ela, o que acontecera com ela. 

Esfregando a manga do suéter na boca oleosa e garfando o prato, ele apenas respondeu: “Tem gosto de salmão... Adoro salmão”.

E desde esse dia, Zenor dorme um sono formidável, sonhando sempre com outras sereias.

 

 


 

"Maravilhamento: ler é isso!", de Armando Lucas


“Temos direito à fabulação é uma necessidade humana, parte constitutiva da sua realidade.”

 

Árvores centenárias desenham no chão da praça oásis de frescor. Nessas manchas temperadas, mesas se alinham ao longo do passar da gente.  Variam em quantidade de segunda a sexta.  Mas todas têm o mesmo tamanho.  E todas têm duas cadeiras que se entreolham por sobre toalhas de diferentes estampas, de bordas rendilhadas, que colorem os dias do amanhecer ao entardecer.

Agora, as cadeiras esperam e as mesas descansam. Elas, como as pombas da praça, saíram em revoada na busca das mãos que erram neste lugar de passagem.

Ele chega.  Puxa a cadeira.  Senta-se à mesa que tem um vaso ao centro, a única. 

Ela chega. Afasta o vaso para um lado, ajusta-se na cadeira e pede-lhe as mãos.  Ele pousa as mãos com a palma voltada para a estampa da toalha, acendendo-lhe as cores que se refletem em arco-íris nos olhos dela. Ela toma uma das mãos, a que está à sua direita; desemborca.

Suas costas caem no encosto da cadeira.  Logo seu tronco se volta pra frente e ela toma a outra mão. A cadeira cai de pernas pro ar.

De pé, ela anuncia:

- Ele voltou!

As outras acorrem. “A palma das mãos dele", ela aponta.

Todas olham; e todas veem; e todas leem; e todas exclamam com olhos acendidos de maravilhamento arco-íris; e todas anunciam, em regozijo:

- Ele voltou!