segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

"'A Arte da Biografia' de Lira Neto", por Raymundo Netto, para O POVO


Primeira turma do curso "A Arte em Biografia" pelo Armazém da Cultura
(Clique na imagem para ampliar!)

“Há muito acredito que o realismo é fantástico”

(Gay Talese)

Biografar, em tese, é uma impossibilidade, pois não há vida que caiba em um livro. Contudo, as biografias são sedutoras e curiosas, ocupando prateleiras do mercado editorial, enquanto despertam paixões ou ódios. Talvez os dois ao mesmo tempo. De qualquer forma, ruins são aquelas a despertar a mais inevitável apatia.

Na vida, como na arte, não importa o que se faz, mas COMO se faz. Quando falamos em arte em biografia, nos referimos à forma como se constrói esse texto. Sim, você pode ter um trabalho de pesquisa profundo, repleto de datas, informações, registros relevantes e precisos, mas se oferecer esse rico “pacote” em um texto maçante, por vezes, de insuportável leitura, de nada adiantará todo o seu empenho: perderá seu leitor.

Daí, nos últimos meses, participei do curso “A Arte da Biografia”, ministrado por Lira Neto e promovido pelo Armazém da Cultura de Albanisa Dummar. Tenho interesse em escrever uma, pelo menos, e o que me atraiu na proposta era a metodologia da pesquisa e de sua catalogação. Entretanto, o curso não se limita a isso.

Em 2022, a Companhia das Letras lançou A Arte da Biografia: como escrever histórias de vida, de Lira Neto, escrita a partir de notas de aula do seu curso ministrado na Universidade do Porto, em 2021. Embora no curso não seja obrigatória a aquisição da obra, ela consiste em grande facilitadora para maior compreensão do seu conteúdo e é um excelente guia de escrita criativa da narrativa de não ficção.

Essa abordagem do “criativo” na biografia é um dos pontos mais fortes no curso. Diferenciar o processo criativo do romance histórico, por exemplo, e da biografia, ambos baseados em histórias reais, embora ficção e não ficção, respectivamente, despertou em mim um gosto maior pelo exercício desafiador desse gênero biográfico.

Virginia Woolf já advertia que o romancista, por trabalhar com ficção, mesmo utilizando personagens e fatos reais, tem toda a liberdade de criação, enquanto o biógrafo é manietado, ou seja, tem as suas “mãos atadas”, é preso ao rigor documental. O que não se pode afirmar, por meio de registros, fotos e documentação, é invenção, fantasia. No caso, a imaginação do biógrafo é limitada pelo “real”.

Por isso, segundo Lira, “o biógrafo deve ter senso de detetive, olhar de antropólogo e espírito de arqueólogo”. Mas, no momento da escrita, deve fornecer o seu trabalho de investigação e pesquisa de forma envolvente, “transportando o leitor à cena”. Assim, o curso se apresenta também como veículo de escrita criativa, entendendo que o biógrafo precisa ter domínio da técnica narrativa: a fuga dos lugares comuns (clichês) e de juízos de valor, mais fluidez, clareza, ritmo, recusa ao maniqueísmo, controle de advérbios, diversificação vocabular, a escolha dos verbos de ação, manejo estético das descrições – impondo o tempo de leitura –, o estabelecimento de relação de alteridade com o biografado, o cuidado de não cair num individualismo exacerbado nem correr o risco de sufocá-lo em contextos monumentais, construção de cenas de apelo sensorial, além de “uma boa dose de fascínio pelo universo inerente à pesquisa”, afinal, “ao se biografar alguém, biografa-se também seu contexto”.

Na tentativa de “por a mão no ombro transparente de um fantasma” (André Maurois), os biógrafos ou “retratistas de almas”, como definia-se Plutarco, um revolucionário do gênero, devem se esforçar para captar minúcias da vida do biografado, os detalhes que aproximam o leitor do objeto da pesquisa, das particularidades que o humanizam, denunciando as suas “imperfeições” e méritos.

No curso, como no livro, Lira ilustra a teoria com a experiência própria de composição de sua reconhecida obra, suas aventuras, desventuras e suas “correções emergenciais de rota”, o que torna cada aula imperdível. O livro em si, já é uma grande aquisição para candidatos a biógrafos e, pasme, mesmo para ficcionistas e escritores de forma geral.

No mais, é “calçar os sapatos do morto”, nem santificar nem demonizar ninguém, compreendendo as suas contradições, vícios, virtudes e a nossa frágil humanidade.






 

10 comentários:

  1. Raymundo, minha admiração, por você e seus trabalhos é imensa. Parabéns por mais um texto preciso.

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  2. Parabéns Raymundo Netto pelo texto e curso! 📚💕
    Deve ter sido maravilhoso. Lira Neto é um ótimo biógrafo. Qdo haverá a 2a turma? Desejo muito fazer. Abraço!

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    1. Não foi divulgado ainda, mas terá pelo menos uma turma no ano que vem.

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    1. Creio que no primeiro semestre o Armazém deverá divulgar, Gildênia. Muito obrigado.

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  4. Feliz em conhecer sua escrita caro Raimundo. Desejo dar continuidade à leitura dos seus livros. Abraço

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    1. Agradeço muito. Por gentileza, como a sua publicação me aparece como "anônimo", poderia se apresentar?

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  5. Parabéns, em especial, pelas suas crônicas.

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