quarta-feira, 31 de julho de 2013

"Coisas Engraçadas de Não se Rir XXVIII: o constrangimento da morte", Raymundo Netto para O POVO (31.07)


A vida pode não ser, mas a morte certamente é segura. Assunto a todos desagradável – pé de pato mangalô três vezes –, há quem diga que o fim, por ser a única certeza terrena, merecia maior investimento, ou que seria possível medir-se o sucesso de uma vida pela qualidade da morte que se tem. Eu, pelo menos, me ladeei na vida com a morte. Desde pequeno a sinto à mão, sussurrada no ouvido e presente nos olhos de gente boa demais para esse mundo. Queria, não nego, ter uma boa morte, não necessariamente feliz, mas intensa, com direito à trilha sonora e diversidades de planos de câmera, como deveria ser a vida e o cinema. Mas, ao contrário do nosso almejado projeto de morte, muitos saem do palco cedo demais, em trágicas performances de violência, descuidos ou renúncia, ou, pior, em desastrados e ridículos atos finais que bem compõem as coisas engraçadas de não se rir de uma vida inteira. Nos Estados Unidos, onde se produz as coisas mais inúteis do mundo, existe até um prêmio, o Darwin Award, que contempla as mortes mais estúpidas, como: Átila, o Huno, escapou de morrer em centenas de combates para ser abatido por uma hemorragia pós-matrimonial de baço (?). Empédocles, filósofo grego, não satisfeito com a falta de reconhecimento intelectual, espalhava a todos, tal qual o Paulo “mosca” Coelho, que tinha poderes supra-humanos. Como ninguém acreditava nele nem gostava de filosofia, decidiu se jogar numa cratera vulcânica para provar o que todos já sabiam: ele era mesmo só um mala. São famosos os casos do dramaturgo Tennessee Willians, de biografia interessantíssima, que nem sonhava um dia morrer engasgado com uma tampa de garrafa, e do contista Sherwood Anderson, morto por uma peritonite porque engoliu um palito de dentes. Como vemos, não são apenas os leitores que engolem qualquer coisa. Os escritores também.
Aqui no Brasil, dia desses, por exemplo, um cidadão morreu quando uma vaca, que escapava de cachorros espritados, subiu em sua casa e arrebentou o telhado. Quer mais? Uma suicida, decidindo encerrar a sua dúvida existencial, acabou levando de carona um espanhol cinquentão que cruzava a calçada do prédio onde ela morava. Um canadense, professor de direito, para provar a seus alunos que o vidro da janela de seu apartamento era inquebrável, jogou-se contra ela... e não era! Um jovem físico quis provar aos colegas, usando de seus conhecimentos, que conseguiria vencê-los na competição de lançamento de cuspe da varanda de seu apartamento no paralelo oitavo andar e, de fato, o conseguiu, mas só recebeu os devidos cumprimentos no térreo. Tem o caso do rapaz acusado de ter assassinado o colega. Seu advogado, muito habilmente na tentativa de provar que o cliente não o havia assassinado, mas que este morrera vítima de um disparo acidental, realizou uma simulação que, de tão real, provocou outro disparo cuja vítima desta vez seria o próprio advogado. Também um empregado de uma famosa fábrica de chocolates de meu consumo pessoal escorregou num tanque cheinho da massa de cacau, morrendo com direito a cobertura e tudo... e nunca mais tive a certeza de serem apenas castanhas. Tem também o jovem americano comedor de hambúrgueres encontrado morto em sua casa. Detalhe: ele tinha enfiado em sua cabeça uma camisinha. Penso: queria certificar-se de não haver furos nela ou não leu as instruções do manual? Há o estranho caso de um time inteiro de futebol dizimado por um raio durante uma partida na República Democrática – vai ser democrática assim... – do Congo, ou a da stripper Gina Lalapola, na Itália, contratada para sair freneticamente de um bolo de despedida de solteiro. Enquanto os rapazes gritavam “Sai, Gina! Sai, Gina!”, o recheio não vingou, pois a moça morrera asfixiada. A revista “Super Interessante” revela que 10 americanos, em média por ano, morrem esmagados por máquinas de refrigerantes ou salgados, pelo hábito que se tem de balançar as máquinas até retirar os seus produtos de graça. E mais por lá: uma emissora de rádio promoveu concurso de “segura-xixi”, ou seja, ouvintes iam aos estúdios e bebiam litros e litros de água. Ganhava um videogame quem bebesse mais água e não fosse ao banheiro. A candidata a levar o segundo lugar morreu em casa, intoxicada, vomitando água. Enquanto isso, num circo, um romeno, engolidor de fogo, na hora do espetáculo descuidou-se de um arroto e simplesmente explodiu, para alegria da plateia. Bizarro mesmo foi o rapaz de 19 anos que, chegando em casa, sentiu a falta de algumas garrafas de licor de seu bar. Crendo ser arte do vizinho, decidiu vingar-se esfaqueando-se para acusá-lo depois pelo violento roubo. Bem, ele poderia até entender de licor, mas não de anatomia... Rasgou um vaso importante e morreu na hora. E aquele ciclista brasileiro, distraído em seu CD player, a atalhar o caminho pelo aeroporto? Acabou atropelado por um avião bimotor! No Egito, um caso deu pena: o dono de uma galinha ao vê-la cair num poço pulou para salvá-la. Não retornando, mais quatro pessoas, uma a uma, pularam atrás, sendo que nenhuma delas sabia nadar. Daí, só quem escapou mesmo foi a galinha, certamente, traumatizada. Tem o inglês que ateou fogo em si próprio para demonstrar que aquela bebida era inflamável ou aquele rapaz que, em seu primeiro salto de paraquedas, estava tão ansioso em não esquecer a câmera para filmar e postar no facebook, que acabou esquecendo-se de colocar o paraquedas. Essa semana, num café, um amigo até me contou a história de uma senhora que morria de medo de morrer – essa é boa – de câncer. Algum vizinho com mania de médico, todos temos alguns, contou para ela ser a água uma das medidas milagrosas para evitar a doença. A mulher, obcecada, não podia nem ver torneira, passou a beber água feito uma louca. Resultado: escapou de morrer de câncer, pois morreu mesmo foi de “afogamento interno”.

A morte se parece menos terrível quando se está cansado, como dizia Beauvoir. Não há o que temer, apenas a lamentar, quando a vida é breve ou a produção pequena. Resta-nos à despedida, o alívio do golpe certeiro, da cabeça descer leve na cesta, sem remorsos nem arrependimentos a nos acompanhar na eternidade do derradeiro sono. Vai-se hoje, encontra-se amanhã. O mundo é redondo e a alma descansa mesmo é sobre os nossos ombros...

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Programação especial de Férias para a criançada na Livraria Cultura (26 de julho)

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Programação especial de Férias para a criançada!
Música, animação, contação de histórias e leitura na Livraria Cultura

As Edições Demócrito Rocha convidam para o lançamento-show de Um Narizinho no Fundo do Mar
de Flávio Stambowsky Nogueira, com ilustrações de Lyse Bourns.

“Loulinha era uma menina feliz. Adorava ir à praia com seu pai, onde era conhecida por
todos, até pelos peixes... imagine! Um dia, por brincadeira, um garoto cisma de tomar-lhe o
nariz, orgulho de seu querido pai, e o lança ao fundo do mar. “Onde está, onde está o meu
narizinho?” Sim, onde está? Ora, só tem um jeito de saber: prenda a respiração e leia
Um narizinho no fundo do mar... Glub! Glub!”

Data e horário: 26 de julho (sexta-feira), às 19h, na Livraria Cultura 
(Shopping Varanda Mall, Av. Dom Luís, 1010 - contato: (85) 4004.0800)
Atração: apresentação musical da banda do autor (com músicas de temática infantil)
e contação de histórias com a Cia. Bilu Bila.

 Imperdível!

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Coisas Engraçadas de Não se Rir XXVI: A Revolta do Centavo, crônica de Raymundo Netto para O POVO (03.07)


Nunca antes na história deste Brasil, quem sabe do mundo, uma manifestação assim. Parafraseando o Chico, andavam, não como corpos, mas sentimentos, explodindo aqui e acolá perante a despreparada pátria armada: salve, salve-se! O movimento tem pé – uma ruma deles –, mas não “cabeça”, e eles protestam. “Qual o motivo?”, alguém pergunta. “Isso, aquilo, aquilo outro...” Parece até que não sabem: são TODOS e VÁRIOS os motivos. Dói em qualquer canto, fica difícil apontar. Eles, os motivos, são velhos, desde trasanteontem, mas não caducos.
Os partidos – não conheço nenhum que não traga em seus quadros pelo menos uma reserva randômica de mau-caratismo – tentam adotar a criança, pois é gorda e vota. Porém, ela os rejeita, rasga as suas bandeiras enjoadas de TV, tapa os ouvidos às palavras de ordem doutros tempos que não mais têm significados ou que perderam seu eco no pó de tanta promessa congelada.
Nos ônibus, é como se todos se conhecessem. Qualquer um é “ser-manifestante”. Discutem, pensam diferente, é fato, entretanto, de uma forma ou de outra o que dizem é: “não é ISSO que eu quero. Basta (ou algo parecido), está tudo muito errado!”
Como sempre, em ambos os lados da linha de frente: oportunistas, bandidos, desmiolados, babacas infiltrados e covardes aproveitam-se do muito de gente para desrecalcar, pichar, quebrar, saquear, bater, gastar munição – até com prazo de validade vencido. Acho ridículas as análises diárias sobre o conceito de vandalismo, como se fora possível tomá-lo apenas para um lado ou outro de tal linha.
Mas “O gigante acordou!”, é o que gritam as cartolinas. “Brasil sem corrupção, a catástrofe social!”, “+ Pão – Circo!”, dentre tantas outras.
Os nossos políticos, é certo, erraram. Confortáveis e seguros de escaparem de tantas séries de abusos globais, desdenhavam e criticavam a manifestação, mas agora que tiveram que recebê-la em seus anais, discursam fervorosos a favor dos protestos, procurando, para não perder o hábito, uma forma de tomar proveito da situação. Eles temem, estão inseguros, sofrem junto – mas bem longe – com as gentes nas ruas: “Errei, confesso, mas quem nunca errou que atire a primeira pedra!” E eles atiram!
Outros, ao contrário, mostram suas garras ainda mais afiadas e se revelam, repetindo a mesma violência exposta em seus programinhas sanguinolentos de TV. Destes, queremos guardar bem as palavras... Representantes de si e de suas panelas partidas, filhos de uma democracia mouca e sanguessuga, que se diz representativa quando está mais para “espetaculosa”, que nada deve ao anônimo eleitor, e que aprende rapidinho, juntamente com a chegada das chaves do novo automóvel e da residência de cobertura, a andar de mãos dadas com o egoísta e insaciável capital, que rebola esmolas e prova a sua incompetência na elaboração de cotas e bolsas assistencialistas, sem a menor intenção de ousar e ir ao fundo do poço, raspar o lodo da deseducação, base do crescimento tosco de nossa sociedade emergente, que promete mundos e fundos (os nossos) em apoios e empréstimos a outros países, enquanto em seu quintal as árvores estão a ponto de cair com um vento ligeiro de um be-erre-o-bró.
Um governo incapaz de garantir a chegada de recursos a quem precisa, que não consegue calar a voz melodiosa da corrupção, que desprestigia a existência humana em favor da máquina fa(e)bril dos interesses mesquinhos do poder e phoder.
Não importa qual a bandeira, todas são justas e precisam mesmo ter a sua vez: Educação, saúde, transporte público, segurança, justiça, infraestrutura, mobilidade urbana, direitos humanos, reforma (que não seja remendo) política, enfim, são tantos e inumeráveis os seus PECados que a dúvida foi plantada, e a ela o parlamentar não é nem poderia ser imune.
Os políticos se alvoroçam, se coçam, se calam, ou emergem de repente como “monstros da lagoa” para ludibriar o povo com esperanças quatorzes de um velho candidato cheirando a leite e com queixo grande de predador e carnavalesco tucano, forjando um passado glorioso de mentirinha.

Ah, como eu espero e desejo que tal “gigante” tenha mesmo acordado – embora não goste da sentença – e que não seja apenas mais uma vez que ele tenha apenas se levantado para fazer aquele xixizinho...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Lançamento de "O Afinador de Palavras", de Horácio Dídimo, e "Espelho Meu", de Vicente Vieira, dia 25 de julho no Ideal Clube

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Lançamento do Livro "Dolores Feitosa: resiliente como a caatinga", 19 de julho, no Ideal Clube


Em 2005, Dolores Feitosa passou a rabiscar alguns textos no intuito de publicar um livro de memórias. No entanto, o projeto não se concretizou por falta de tempo. Há dois anos, a jornalista e escritora Luiza Helena Amorim aceitou o desafio de reconstruir essa rica trajetória que resultou no livro "Dolores Feitosa – Resiliente como a caatinga". No próximo dia 19 de julho, o público terá acesso a essas histórias, nesta obra que foi publicada através do II Edital Mecenas do Ceará- Secult com o apoio da Coelce.  
No auge de seus 89 anos, Dolores Feitosa continua ativa dando sua contribuição cidadã, seja por meio de atividades ligadas à educação patrimonial, cultura, ecologia, seja pela paleontologia através da Fundação Bernardo Feitosa no Museu Regional dos Inhamuns. Sua atuação está além das paredes do Museu, pois viaja com frequência para participar de seminários, encontros e conferências nacionais, levantando bandeiras importantes como a defesa da cultura popular, da justiça social, do semiárido , do bioma caatinga e do turismo científico na Região dos Inhamuns.
A história de Dolores Feitosa começa em Sobral e chega a Tauá, onde a ambientalista e o marido, Joaquim Feitosa, criaram a Fundação Bernardo Feitosa, que está em atividade há 21 anos. Em Fortaleza, o casal foi um dos pioneiros no movimento ambiental cearense. "A principal causa de Dolores Feitosa sempre foi o social, por isso não consigo rotulá-la. Vemos a atuação dela, por exemplo, defendendo os direitos da população se manifestar nas ruas contra a Ditadura Militar, depois se aprofundando nas questões ambientais como a implantação do Parque Adahil Barreto", explica Luiza Helena Amorim.
Em uma passagem do livro é narrada a história de quando Dolores Feitosa e outros cidadãos bloquearam um trecho da Rodovia BR-020, em Tauá, para protestar contra às más condições da estrada. E, mesmo diante de tantas demandas, Dolores Feitosa sempre  se mostrou uma mãe, avó e bisavó atenciosa. Soube ocupar papéis importantes dentro e fora de casa. Para a jornalista e historiadora Isabel Lustosa, que assina o prefácio da obra, "O patrimônio histórico, natural e arqueológico do sertão cearense deve muito à ação que Dolores Feitosa empreendeu e continua empreendendo, mesmo com quase 90 anos". O livro é um passeio pela história do Ceará e do Brasil, através também da coletânea de artigos, discursos e poemas inéditos de Dolores Feitosa. Aos leitores fica o convite para reflexão e ação em prol de um mundo mais justo social, econômico e ambiental.
 Serviço
Lançamento do Livro "Dolores Feitosa: resiliente como a caatinga"
Ideal Clube
19 de julho às 19h30

Lançamento de "Um Olhar de Criança", da Profa. Vera Moraes, na sexta, 19 de julho!

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Coisas Engraçadas de Não se Rir XXVII: A Odisseia Masculina, crônica de Raymundo Netto para O POVO (17.7)


A esposa pergunta para o marido se ele prefere uma mulher muito bonita a uma muito inteligente. Ele, na ingênua sinceridade masculina, responde que nem uma nem outra, pois que ama tão somente a companheira. Nesta noite, mesmo sem entender o que mal disse, foi dormir, sem direito à janta, no sofá.
O homem é um abestado, e defende atavicamente o direito de sê-lo. Desde os paradisíacos tempos, quando o Senhor curtia o latifúndio, a caminhar ao vento brando do meio-dia, Eva, fruto de uma, dentre as 24, das costelas masculinas – antevisão bíblica da balança desfavorável feminina em tempos heteroafetivos –, já exigia de um Adão despreparado para causas matrimoniais: ou come ou desce! Ele fez os dois. Comeu a maça da noiva e desceu direto da Quinta da Boa Vista para o Complexo do Alemão.
Não se sabe, dentre tais costelas, qual originou a mulher: se das 14 “verdadeiras”, das 4 “flutuantes” ou das 6 “falsas”. Não há registro dessa classificação na época, nem tampouco se o Grande Engenheiro, e não médico, tinha, assim, qualquer noção anatômica ou experiência para empreender uma costelectomia exitosa – a tecnologia divina, sempre mais parecida, nos primeiros tempos, com bruxaria, deixa em nossos ímpios corações uma centelha de dúvida –, mas de uma coisa acordamos: Deus tem todo o tempo do universo, pressa nenhuma, e paciência de sobra.
A intrigante, a serpente kundalini, continuou a residir no idílio, só que agora tinha que arrastar-se por sobre seu ventre e reencarnar-se como vizinha, cunhada, amiga do peito e/ou colega de trabalho a se vingar dos filhos varões de Adão por toda a eternidade, usando, para tal, dos ouvidos receptivos da companheira insegura de si e de seu par, sempre crendo que merecia coisa melhor, coisa esta que homem nenhum do mundo um dia será.
A impossibilidade masculina de satisfazer as suas mulheres só é disfarçada pela truculência de alguns de seus representantes e, às vezes, das algemas sociais e financeiras, braceletes de luxo de algumas eleitas. Salvo esses casos, resta ao homem sábio apenas servi-las, atendê-las, acarinhá-las, amá-las sempre que puder e até desistir delas – há quem diga maior prova deste amor – quando perceber-lhes a frequência de dores de cabeça, a pele fria, a fala pouca – ou normalmente exaltada – e, principalmente, quando do cerrar das portas do mesmo olhar que, ao fuzilar, apaixona!



quinta-feira, 20 de junho de 2013

"O POVO: 85 anos presente no Ceará XI", crônica de Raymundo Netto (19.06)

Themístocles de Castro e Silva, Carlos D'Alge e Adísia Sá: "Debates do POVO"

A Ceará Rádio Clube, de João Dummar, na década de 1930, foi a pioneira da radiofonia cearense. É inegável o impacto que causou a sua chegada. É de imaginar que, antes do rádio, a imprensa letrada num Brasil contraditoriamente analfabeto era a fonte privilegiada de informação. O rádio democratizou o acesso a essas informações que, então, não precisavam mais ser lidas, e sim ouvidas, e melhor, de primeira mão, na hora, “fresquinhas”, ao contrário do que acontecia no meio impresso. Era crescente a influência e o alcance do rádio, fosse pelo acompanhamento de notícias e anúncios, fruição de músicas — regalos de minorias que podiam adquirir discos e vitrolas, participar de saraus em torno de pianos ou em teatros, etc. — de esquetes, novelas, programação infantil, dentre outros. A PRE-9, como era denominada, foi a terceira emissora brasileira a ter ondas curtas, um grande avanço tecnológico na época. Em seus estúdios surgiram novos artistas, músicos, locutores, comentaristas, noticiadores, enfim, era de lá que surgia e se desenvolvia o saber e o fazer do rádio no Ceará. Em 1944, porém, por motivos aqui já descritos, Dummar teve que vender a sua emissora a Assis Chateaubriand.

35 anos mais tarde, no dia 8 de junho de 1979, seria publicada no Diário Oficial da União a concessão para O POVO de instalação de uma estação de rádio em Frequência Modulada. Albaniza Sarasate e Demócrito Rocha Dummar comemoravam junto ao Grupo. Foi daí realizado um concurso para escolha do nome da emissora — Rádio Jornal das Multidões, Rádio Liberdade, Rádio Guarani... e O POVO FM, que, naturalmente, vingou.

Carmen Lúcia Dummar, ao regressar do Rio, onde concluíra curso de Comunicação na PUC, recebeu do irmão Demócrito a missão de implantar a tal rádio FM. Assim, visitou vários estados, e, na rádio Globo do Rio de Janeiro, conheceu Jaime Azulai, que se tornou autor do projeto de montagem da emissora. Em fevereiro de 1980 seria erguida a torre de rádio nos jardins do Edifício Demócrito Rocha, sede do jornal, onde também estavam sendo instalados os estúdios, e, em março, uma festa no Náutico comemoraria a novidade. Nela, a entrega do “Troféu João Dummar”, homenagem de O POVO a personalidades da radiofonia cearense, como Eduardo Campos, Paulo Cabral, João Ramos, Guilherme Neto, Rômulo Siqueira, José Pessoa de Araújo, Flávio Parente, Afrânio Peixoto, Neide Maia e Mozart Marinho. A FM do POVO 95,5 popularizou-se rapidamente. Com espaço reduzido para anúncios, era comum anunciantes na espera. No avanço das novidades, montou um estúdio especial na Volta da Jurema, “point” da cidade, ao lado do anfiteatro, onde fazia promoções, atendia o público, recebia convidados, como o latino-americano Belchior em apresentação para cerca de 4.000 pessoas. Pouco depois, em agosto de 1981, a Associação dos Diretores de Vendas do Brasil outorgou o título “Top Marketing” para a FM do POVO.

Ademais, Demócrito Dummar já anunciava nos corredores que algo maior estava para acontecer: A rádio AM do POVO. De fato, em 1982, Jaime Azulai chegou à cidade trazendo uma equipe. A ideia era montar uma emissora dinâmica, com muita prestação de serviços de utilidade pública, mas também com notícias, bom-humor, música e esporte. O público ouvinte teria que ser ouvido. Lá ele participaria: “Audiência fiel é audiência correspondida.” Foi quase um mês de treinamento, simulação “em off”, ajustes dos equipamentos de última geração e, assim, às 5 horas da manhã, de 25 de março de 1982, 60 anos depois da primeira transmissão radiofônica brasileira, entra no ar, na frequência de 1.010 quilohertz, o “bom-dia” do locutor Paulo Roberto, da rádio AM do POVO, “a companheira”: “Uma nova voz está ecoando, hoje, transmitida pelas ondas eletromagnéticas que se propagam no espaço celeste cearense.” Em breve, menos de seis meses, todos sabiam que ali estava sendo construída a “escola do rádio”, modelo a ser seguido, líder de audiência, tecnicamente equipada e com uma programação que concorria com as melhores emissoras brasileiras. Não mais tarde, os concorrentes locais passaram a copiar os formatos dos quadros e tentar contratar seus profissionais.

A equipe radiojornalística era inédita. Abastecia a rádio, ainda nas primeiras horas do dia, de notícias colhidas nas ruas — por meio de uma unidade móvel —, mas também por meio de agências nacionais e internacionais. Muitos dos grandes jornalistas e comunicadores que atuam hoje no Ceará passaram por essa redação.

As vinhetas eram assinadas por Dominguinhos, Lulu Santos e Lincoln Olivetti.

O público também reconhecia o diferencial da rádio e passou a frequentar os estúdios, coisa impensável naqueles tempos. Nos portões de O POVO, filas de ouvintes e fãs querendo ver de perto e conseguir autógrafos dos locutores e/ou artistas que vinham aos programas.

O nosso radialista-mor Narcélio Limaverde chegou a comentar, conforme afirma Nonato Albuquerque, “(a AM do POVO) deixou abismada a concorrência”. E não é para menos, pois antes dela, herança da ditadura, as rádios abriram mão da missão de informar, deixando a sua grade quase que completamente tomada por programação musical. Nonato continua: “(...) o vitrolão dominava e comunicadores eram obrigados só a dizer a hora e a identificação da emissora”.

Merece destaque o programa “Debates do POVO”, que surgiu inicialmente como quadro de encerramento de um programa da manhã. O “Debates...”, entretanto, tinha potencial e ganhou seu próprio espaço. Por ele passaram diversas pessoas, dentre as quais Carlos D’Alge, Themístocles de Castro e Silva e, mais tarde, Adísia Sá — que também foi diretora e a primeira ouvidora da rádio. O sucesso foi grande, audiência garantida e estendida para o programa que o seguia: a “Patrulha Policial”.

Aliás, fato curioso apontado por José Raymundo Costa: em 8 de novembro de 1984, cinegrafistas da BBC de Londres, realizando um documentário no Brasil, gravaram em seus estúdios o programa “Debates do POVO”.

Em 17 de fevereiro de 1984, com sucesso também na radiodifusão, Demócrito Dummar foi eleito e tomou posse da presidência da Associação Cearense de Rádio e Televisão (ACERT).

A AM do POVO, em maio de 1986, passou a transmitir em som estéreo, de alta definição, sendo a primeira do Norte e Nordeste do Brasil nesta categoria.

Com 31 anos de existência, a AM do POVO foi no Ceará, além da grande escola do rádio, a mensageira das grandes repercussões na cobertura da queda do avião da VASP em Pacatuba, do movimento “Diretas Já!”, da rebelião do presídio — que teve como refém D. Aloísio de Lorscheider —, da doença do Papa João Paulo II, da morte de Ayrton Senna, dentre outras. Fátima Abreu, atual diretora e criadora da programação da querida FM Assembleia, cita um momento de prestação de serviço quando lá trabalhava: durante a cheia de 1990, a rádio habilmente solicitou o auxílio do Sindicato dos Taxistas no mapeamento de ruas trafegáveis e de pontos comprometidos da cidade, conferindo enorme audiência e solicitações de ouvintes.

Em junho de 1986, Carmen Lúcia passou a residir no Rio de Janeiro — retornou mais tarde e montou a excelente FM Tempo 103,9.

Em 2013, o Grupo de Comunicação O POVO dá continuidade ao sonho de João Dummar, aposta no rádio, o “queridinho” dos veículos de comunicação. Melhor, o aprimora, conquistando novas parcerias e novos espaços de qualidade, hoje, apresentados por meio da Rádio Globo/O POVO AM 1.010, O POVO/CBN 95,5 FM (a única da categoria “All News” no Ceará) e da Calypso FM 106,7, emissoras que pulsam na frequência de O POVO.



Para saber mais: “AM do POVO: trajetória de uma rádio pioneira – 1982-2012”, da jornalista Adísia Sá, pelas Edições Demócrito Rocha.

sábado, 15 de junho de 2013

"No Escuro", conto de Vera Lúcia Morais (15.6)


No escuro, de olhos fechados e o sono não chega. Há quanto tempo estou assim, imóvel, tentando não pensar em nada... Duas horas? Nem sei... Súbito, ouço a porta de meu quarto se abrir e os passos de uma criancinha correndo para a minha cama. Joga-se e se encosta toda em mim, aconchegando-se. Apesar do susto, continuo imóvel. Lembro-me imediatamente de minha filha: era assim que ela fazia todas as noites. Mal ouso respirar. Logo a criança se afasta para a beira da cama e lá permanece. A porta se abre pela segunda vez e reconheço os passos de meu marido em direção ao banheiro. Minutos depois sai sem nada falar. Penso: voltou para a cadeira do papai onde gosta de dormir diante da televisão ligada, lá na sala. Não parece ter notado nada fora dos eixos. Acho que finalmente cochilei, mas logo abri os olhos. Ainda estava escuro, começando a clarear. Ninguém no quarto, somente eu e uma tremenda sensação de vazio. Senti um mal-estar de mundos sombrios, nas caladas da noite. Fui ao quarto de minha filha que estava pacificamente dormindo. Sentei na beirada da cama e ela, pressentindo minha presença, com a voz arrastada, perguntou: — Que foi, mãe? Eu respondi: Nada, você está bem? Acho que tive um pesadelo esquisito... Voltei à cena inusitada: sensações muito nítidas impregnadas em mim, como se conseguisse visualizar a cena, mesmo de olhos fechados. No dia seguinte, ainda abalada pela imersão dessa realidade absurda no meu real, comentei o fato com minha empregada. — Foi alma pedindo reza, dona Vera. A senhora rezou? Não, não rezei. Mas as imagens fantásticas e aquele susto estranho, irrompendo inesperado, me perseguem até hoje. Em que esferas do inconsciente levitei?

quarta-feira, 5 de junho de 2013

"O POVO: 85 anos presente no Ceará X", de Raymundo Netto (5.6)


“O povo é que diz: jornal é O POVO”
(slogan adotado a partir de janeiro de 1976)

5 de janeiro de 1916. Demócrito e Creusa Rocha recebiam Albaniza, a Izinha, filha primeira do casal. Demócrito, na época telegrafista, morava com a esposa na casa de Maroca, sua cunhada, e Virgílio Porto. Desde pequena, Albaniza demonstrava imensa afinidade com o pai. Envolvia-se em seu braço e ouvia, em silêncio, as longas conversas com os amigos e correligionários, assistindo aquilo que os demais leriam apenas em seus artigos publicados, mais tarde, em jornal. Assim, aprendia a “ler” as pessoas, a conhecer a sua natureza, pelo olhar, muitas vezes nem tão poético, do pai. Também de Demócrito herdou a paixão musical, acompanhando a família em audições de óperas ou de música popular, além dos serões litero-musicais da Casa de Juvenal Galeno. Por outro lado, não interessava as prendas domésticas. Nem costurar, bordar ou cozinhar. Adolescente vaidosa, gostava de vestidos e perfumes. Não fosse apegada aos estudos como a irmã Lúcia, adorava ler romances e sonhar.
Em 1929, Demócrito chegou a casa e apresentou à família seu novo secretário e redator: um jovem magro de olhos expressivos escondidos por óculos redondos. Era Paulo Sarasate, filho do maestro Henrique Jorge. Bastava isso, Creuza já lhe tinha apreço. Um lanço de destino despertava para Paulo e Albaniza, e, com pouco – e certa preferência da futura sogra – firmaram namoro adornado de paixões comuns como a política e a literatura. O pai dizia: “Casamento só depois que Izinha se formar”, o que se realizou em 1936, no dia 3 de setembro, às 15 horas, na igreja do Coração de Jesus do Rio de Janeiro, capital da República, onde Demócrito atuava na Câmara de Deputados.
Na volta ao Ceará, o esposo logo assumiria a carreira política, atuando como deputado (estadual, depois federal) e governador – nesse período, ela assumiu a direção da Legião Brasileira de Assistência (LBA). Ao seu lado, era atuante, cheia de convicções, confidente, companheira de sua vida política e pública. Mas a rotina dos bastidores obscuros da política, nos quais se revela a falta de limites da vergonha e da ambição, o abalava. Momentos difíceis que culminaram em sua renúncia ao cargo.
Paulo e Albaniza não tiveram filhos. Assim, Lúcia e João Dummar “emprestaram” seus seis filhos ao casal, em especial, o primogênito Demócrito Dummar, que foi, desde jovem, numa espécie de ritual de passagem de família, preparado para assumir as rédeas de O POVO.
A união do casal durou 32 anos, encerrada após o falecimento do, então senador, Paulo Sarasate, em junho de 1968, devido a uma embolia pulmonar pós-operatória.
No entanto, Albaniza assumiria a presidência de O POVO apenas em 1974, após a morte da mãe, embora atuasse como diretora superintendente, reconhecendo e estimulando os colaboradores cuja liderança e competência lhe eram notórias. Entendia ela que as pessoas é que faziam a diferença. Não raro, em conversas com funcionários mais antigos do jornal, contam-me histórias de algumas que por ele passaram, que ingressaram em funções menores e que, aos poucos, foram conquistando posições mais elevadas e de maior responsabilidade na empresa. Leal, também ela costumava demonstrar sua gratidão fosse como fosse, muitas vezes contratando filhos, irmãos, amigos e parentes de colaboradores fiéis ao jornal. Para ela, o grande termômetro desse trabalho podia ser verificado na leitura da edição do dia de todos os dias de O POVO.
Segundo a jornalista Adísia Sá, sob sua presidência, na vanguarda da imprensa nacional e na tentativa do retorno à prática democrática, O POVO foi “um dos precursores da abertura política no país. (...) espaços de opinião foram ampliados e o jornal passou a exercitar o pluralismo como expressão do seu cotidiano”. O movimento “Diretas Já”, por exemplo, alcançou vulto no Ceará por meio de suas páginas.
Nunca se esqueceu de sua infância, das dificuldades financeiras experimentadas pelos pais, das restrições por conta do sonho paterno de construção de um grande jornal. O espírito de Demócrito saltava nela: gostava de elogiar aqueles que acertavam, mas era dura com quem errava. Repetia: “Não atacamos, combatemos; não bajulamos, enaltecemos.”
O POVO, no período de sua presidência, passou a atuar no movimento de emancipação da mulher; desde 1974, consolidou a sua sede na avenida Aguanambi; em 1975, foi o primeiro jornal do Norte-Nordeste a chegar em Brasília e comemorou o feito de ser o maior parque gráfico da imprensa cearense e um dos maiores do Nordeste; inaugurou duas emissoras de rádio – uma estação AM e outra FM; e, em janeiro de 1984, lançou o “Jornal do Leitor”.
Albaniza, em 1985, assinou o ato de criação da Fundação Demócrito Rocha e ainda lutou para conseguir a concessão de um canal de televisão, o que lhe foi prometido, mas não cumprido, na época, pelo presidente José Sarney.
Um dia, após sofrer a fratura de uma costela, descobriu um câncer. Submeteu-se à cirurgia. Fez quimioterapia. O seu corpo enfraquecia, alimentava-se por meio de sonda – só aceitava a refeição que vinha de Messejana, feita pelas mãos da irmã Lúcia –, respirava com apoio de um balãozinho de oxigênio, mas resistia, contando com a companhia constante de Lúcia Maria e da sobrinha-neta-afilhada, ainda adolescente, Luciana. Tudo menos internar-se! Não queria se afastar do seu jardim – da casa da Aldeota –, gostava de estar entre as flores, apreciar-lhes a beleza, pedir de empréstimo seus perfumes, que a aproximavam da infância feliz e de seus quintais de brinquedos, canções e histórias.

Em 25 de maio de 1985, porém, chegava inconsciente ao hospital Prontocárdio onde, às 9 horas, concluiu o seu curso de vida, deixando no ar o vapor das rosas a aquecer o leito azul das tardes vindouras em esperanças.