segunda-feira, 25 de maio de 2020

"No Canto da Sereia", de Raymundo Netto para O POVO



Cavalo-Marinho, mãe. Ele pegou um cavalo-marinho”, apontava a menina para o irmão Zenor, que chegara da praia, naquele momento, esbaforido e delirante, agarrado suspeitamente a uma garrafa velha cheia d’água do mar.
Correu ao seu quarto ainda ouvindo a irmã resmungar, após desatenção da mãe: “Deixa seu irmão, menina! O bichinho...”
No quarto, Zenor botaria a garrafa em cima da cômoda, abriria a janela e passaria o resto da manhã apreciando o seu achado: uma sereia. Ainda pequena, uns 10 cm. A criatura estava naturalmente incomodada, debatia-se contra o plástico e, por vezes, parecia sufocar. “Muita areia...”, pensou Zenor, que logo daria um jeito de pedir ao pai para comprar um aquário de verdade.
Anos se passaram e muitos aquários quebraram enquanto a sereia crescia, sempre aos olhos atentos e obsessivos de Zenor. Os seus pais achavam ótimo que o rapazinho tivesse encontrado um hobby, pois não saía de casa, portanto não tinha amigos, não falava com ninguém, era absolutamente alheio a tudo e a todos, menos à sua sereia.
Enquanto tratava seu aquário, como em um pacto de silêncio eterno entre ambos, passava horas a observar fascinado, quase babando, a sua presa. Os compridos e encrespados cabelos esverdeados, como algas, oscilando lentamente ao movimento do corpo muito alvo, pele aparentemente de bebê, embora áspera. Os seios salientes e sem aréolas, o majestoso pescoço, a ausência de lábios, pequenas brânquias atrás das orelhas, a cauda longa de escamas denteadas e brilhantes. A irmã, quando criança, gostava de ajudá-lo nessa tarefa – tinha afeição pela criatura. Porém, adolescente e feminista, tornou-se contrária ao absurdo e inútil cativeiro. O pai, interessado apenas nas coisas do mundo, pensava em como aquilo um dia poderia contribuir nas finanças domésticas. A mãe apenas a julgava pálida e magra demais.
Vez ou outra algum dos vizinhos adentrava, por curiosidade, o quarto. Também fotógrafos de revistas científicas e da imprensa local buscavam frestas de janelas para captar imagens da curiosa fêmea marinha. Todos eram violentamente enxotados pelo rapaz grandalhão, obeso e de fala pouco compreensível que se tornara o Zenor.
Tinha ele outro segredo. À noite, nunca conseguia dormir. Ao travesseiro, percebia os olhos dela muito abertos – naturalmente, não tinha pálpebras. Aquele olhar fixo em sua direção trazia o mesmo ar acusador e odioso de todos os dias. Estaria acordada? Estaria dormindo? Não sabia. Contudo, a brilhância do olhar amarelado, no negrume do quarto, parecia a de um farol. Pela manhã, amanhecia em ruínas à mesa do café, preocupando os pais pela sua saúde já debilitada.
Quando adulto, passou a morar só com a mãe – o pai falecera e a irmã comprou um apartamento.
Nesse tempo, guardava sua sereia no quintal, numa caixa d’água. 
Era meio-dia. Sua irmã veio visitá-lo e almoçar com ele, a pedido da mãe em viagem. Ele já estava à mesa, quando ela dirigiu-se ao quintal para dar um “oi” à sereia. Não a encontrou: a caixa d’água vazia, encostada ao muro. Voltou à cozinha e perguntou ao irmão por ela, o que acontecera com ela. Esfregando a manga do suéter na boca oleosa e garfando o prato, ele apenas respondeu: “Tem gosto de salmão... Adoro salmão”.
E desde esse dia, Zenor dorme um sono formidável, sonhando sempre com outras sereias.



domingo, 10 de maio de 2020

"Hoje eu só quero falar de passarinhos...", de Raymundo Netto para O POVO


Última foto em que apareci com minha mãe



Em homenagem a minha mãe que se encantou em 2016.

Dizia Drummond: “Fosse eu Rei do Mundo,/ baixava uma lei:/Mãe não morre nunca”, mas como sou apenas um Raymundo, cuja lei se limita à desconfiança de todas as leis, à busca da impossível liberdade (inclusive das coisas materiais que não preenchem o espírito) e à aventura de assistir e colorir pensamentos e humanidades, o que posso fazer é continuar celebrando a vida que acontece. E, exatamente no dia destinado àqueles que se foram, ela, essa mãe, parte ao seu encontro marcado. Do peito, o suspiro anônimo de profundo consentimento e, de repente não mais que de repente, do silêncio se fez e se faz um poema.
No horizonte, me germinam as memórias queridas, os momentos singulares e imorredouros de uma vida tomada pelas rédeas da coragem, determinação e abundante amor. Eu acredito não haver um só momento em minha vida em que ela estivesse ausente, pois habita inapelavelmente no que sou, de forma que me são tomados os ouvidos, mesmo agora, pela voz de suas palavras, e, nas angústias, pela sua tácita companhia.
Seguindo o coração diligente, foi mãe de seus irmãos, depois de seus alunos, antes de ser mãe de seus seis filhos, e também antes de assumir a maternidade de outras centenas de pessoas que buscavam seu amparo em momentos de aflição, de dor, de desespero. Uma mulher que não dá chance a queixumes e cuja a vida é breve num “cuidar que se ganha em se perder”.
Em seu consultório, montado em casa, atendia seus pacientes com alegria, num sorriso que abraçava. Enquanto enrolava o algodão na pinça, contava histórias, tomava conhecimento dos dramas pessoais, aconselhava, orava ou cantarolava alguma canção feliz – para desviar os maus pensamentos, dispersar energias negativas ou o cansaço.
Ao vê-la repousar distraída no leito frio, envolta em luminoso adorno de pétalas brancas, uma lembrança me seduziu: era um almoço na casa de minha avó, sua mãe. Um dos últimos. Na sala pequena, tomada pelos dez filhos, esposos e esposas, uma música antiga vibrava no ar. Um dos filhos tomou de abraço a vó Zilma, já bem velhinha e por vezes até apática, e dançou com ela. Os demais filhos passaram a revezar-se na dança. Quando minha mãe assumiu a sua vez, minha avó levantou os olhos acinzentados e repartiu um sorriso. Difícil mensurar o quanto de vida havia nele. Quantas segredos de amor e de compartilhamento ele continha. Estava ali a sua despedida e a sua gratidão. Mãe e filha, em um instante de milagre, entendendo por “milagre” a mais sublime e sincera expressão de doação e renúncia que se pode esperar na Terra.
Sim, eu sei que a saudade, como canta Manuel de Barros, “não precisa do fim para chegar”, e vai doer, mas vai doer diferente, como a música que nos embala uma distância sem volta e nos tira do mundo “que gira depressa” num ensejo gratuito de paz e de recordações.
Hoje, estou feliz, minha mãe saiu da “gaiola”: é livre! E na certeza de que os poetas, como aqueles que amam, “podem ver na escuridão”, trarei comigo a dona Zenaide, com toda a gratidão desse encontro maior do que o mundo: “Uma passarinha me ensinou uma canção feliz e quando solitário estou, mais triste do que sempre sou, recordo que o ela me ensinou.” Nunca adeus!


terça-feira, 5 de maio de 2020

"O Lugar e um Poeta", de Sebastião Rogério Ponte


Meus tempos de glória foram de 1880, quando nasci, a 1917 quando então o cinema surgiu em Fortaleza e começou a roubar o público de mim. Depois o rádio, os clubes etc., e por fim a TV e os shoppings completaram o meu vazio. É paradoxal, porque sou belo, amplo, tenho árvores, flores, plantas, passarinhos, e vento Zéfiro passeia constante entre minhas três compridas alamedas (em que moças e rapazes elegantes desfilavam, flertavam), os combustores artísticos (que me iluminavam como se fosse dia), as esculturas de divindades gregas (que me dão uma distinção clássica) e os longos bancos (que recolhiam as de vestidos compridos farfalhantes e os de paletós para momentos de descanso). Se não bastasse, minha alameda mais formosa oferece uma vista panorâmica do mar.
Os gemidos do hospital vizinho não alcançavam as valsas tocadas em meu coreto, e a ladeira luxuriante da rua aqui do lado não me maculava, pois escura e oblíqua.
Hospitaleiro, meus portões estavam sempre abertos para acolher as multidões que me ocorriam às quintas de noite e aos domingos o dia inteiro. Hoje, poucos me percorrem. Deve ser por isso que me deixam sem cuidados, sem jardins e águas limpas em meus tanques.
Fui cenário de momentos memoráveis entre meus quatro cantos: declarações de amor apaixonadas, olhares encantados, músicas inebriantes, mulheres e homens e crianças lindas, gente rica com toda pompa e gente do povo com roupas simples, porém decentes. Pudesse eu escrever tudo de belo e comovente de que fui palco, daria um livro inesquecível.
Se me permitem, conto apenas um feito, um dos mais pungentes que se deu em meu espaço no início do século passado, perpetrado por alguém que, avesso a holofotes, raramente me visitava.
Chamava-se ele Raimundo Varão, era poeta – o mais excêntrico deles. Alto, magro, cabelos revoltos, alvo como uma vela, era soturno, tinha seis dedos em cada mão, só se alimentava de bolacha Jacob com cerveja e criava com carinho um sapo cururu em sua casa.
Não ligava para moda ou aparência: usava roupa até ela se acabar no corpo esguio e também não era dado a banhar-se todo dia – porém, sempre lavava cuidadosamente as mãos quando ia manusear livros, sua única paixão... Única, até o dia em que, fato que nunca acontecera consigo, apaixonou-se! Para surpresa de todos, eu incluso, Raimundo Varão metamorfoseou-se completamente: vestiu roupas novas, vivia banhado e cheiroso e, milagre maior, agora sorria e brincava (mas o sapo ele manteve).
Assim ficou até que chegou aquela noite, inesquecível para mim e para alguém, em que adentrou decidido o meu recinto, com semblante grave, portando uma dor lancinante que o arfar do peito traduzia. Passou pelos poucos amigos sem lhes responder aos cumprimentos, procurou com os olhos algo ou alguém, parou entre as esfinges e, diante da pequena multidão que ali se distraia, fixando o olhar em determinado grupo, declamou com voz embargada e doze dedos trêmulos:  
Anjo, mulher, demônio a quem venero!
Sombra que almadiçoo e que bendigo!
Luz dos meus olhos, infernal perigo,
causa do meu eterno desespero!
Ante esses versos de candura e fogo, todos à volta pararam para ouvi-lo. Fez uma breve pausa para recuperar o fôlego e continuou:
Se esquecer-te é o que mais quero,
dar-te em minh’alma sacrossanto abrigo
e concentrando as lágrimas comigo,
as minhas próprias carnes dilacero...
Contendo-se para não desabar antes que pudesse concluir seu poema, arremeteu tomado de viva emoção:
E se em teu peito a compaixão não medra,
eu irei pela senda do calvário
arrancando um soluço a cada pedra!
Partiu rápido deixando para trás o silêncio que se quedou entre todos.
Ninguém viu, mas eu vi: aproveitando a estupefação das pessoas, uma senhorinha saiu lentamente de perto do grupo para onde o poeta esteve olhando e, baixando a cabeça, ocultou duas lágrimas que escorriam de cada um dos seus olhos.           

Sebastião Rogério Ponte