Intelectual
cearense, o brasileiro Gilmar de Carvalho foi professor, pesquisador,
jornalista e poeta. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, nasceu em
agosto de 1949 em Sobral e morreu em 2021, vítima da pandemia.
Deixou
importante legado na comunicação, na cultura popular e no ensino de jornalismo.
Integrou o grupo de professores dos programas de comunicação da UFC no período
de consolidação, impregnando sua visão humanista e interdisciplinar, com rigor
acadêmico e sensibilidade artística.
Gilmar
de Carvalho não se limitava às salas de aula, encontrava alunos, ex-alunos em
locais públicos fora da universidade. Conversava, mostrava livros estimulantes,
presenteava, sugeria, revelando-se um incansável pesquisador da cultura
cearense, do cordel, do teatro popular, das manifestações tradicionais e das
relações entre arte e sociedade.
Com
dezenas de livros e artigos, foi referência nacional em jornalismo cultural,
patrimônio imaterial e comunicação comunitária, sempre com um olhar afetuoso e
crítico sobre o Nordeste.
Luciana
Novo, professora de música da UFC e também jornalista, conta que “mesmo
depois de formada, frequentava a sala do prof. Gilmar, no curso de jornalismo.
Ele me convidou para vários projetos importantes dele, como o Sarau das
Rabecas; me indicou para ser jurada do Projeto Pixinguinha no Rio de Janeiro;
tocamos na Bienal do Livro, participava dos eventos culturais, incentivava
muito. Minha dissertação de mestrado foi inspirada nele, conversávamos sobre o
que eu queria fazer: pesquisar as relações do Nordeste com a música de câmera,
as culturas híbridas, me apresentou ao grupo Ânima, me emprestou discos do
grupo. Na véspera de falecer, me convidou para viajarmos depois que acabasse a
pandemia, viajar por várias cidades, tocar...”
Para
o compositor e intérprete Graco Braz Peixoto, parceiro de Belchior,
Fagner, Ednardo, Zeca Baleiro e outros, “Gilmar de Carvalho foi acima de tudo
um grande amigo, intelectual com sólida formação para a cultura cearense. Além
de ter sido muito ativo no jornalismo, desempenhou papel importante na academia,
na cultura popular, e faz muita falta...”
Para
a cantora e compositora Mona Gadelha, a perda de Gilmar de
Carvalho, “um amigo muito querido com
quem me encontrava quase toda semana, seja no almoço do Passeio Público, seja
nas ruas da Aldeota, foi desconcertante, até lembra aquela canção do Chico
Buarque, “é desconcertante perder um grande amor...”. Era um amigo que
sobretudo me incentivava a criar, a pesquisar, a permanecer inquieta diante da
estranheza do mundo, um amigo cujo lugar na cultura do Ceará não tem
substituição. Sempre lembro do Gilmar e acredito que a legião de amigos,
alunos, alunas e discípulos que ele deixou deve sentir o mesmo, essa ausência a
cada ano de sua morte que nos surpreendeu, a mim que o acompanhava com
mensagens durante a pandemia, me surpreendi com Gilmar internado no hospital,
achei que logo retornaria. Ele deixou um legado de publicações, pensamentos, um
conjunto de obras extraordinário. Sinto uma saudade imensa do meu amigo, é
sempre emocionante falar dele. Que sua memória seja preservada. Era um guardião
da memória e ao mesmo tempo antenado, atento ao contemporâneo".
Mantive
contato por e-mail com Gilmar de Carvalho durante um período, sobre presépios
de Natal, pastoris, reisados, ele sabia de tudo. “Temos belos reisados no
Cariri, inclusive um que tem a Embaixada de Carlos Magno, onde o imperador
dança de manto, cetro e coroa. O homem é meio chato, deixei de entrevistá-lo,
queria dinheiro e não tenho dinheiro para dar pra entrevistados, mas vale a
pena pelo inusitado, deve ser dos poucos do Brasil onde Carlos Magno dança”.
Sobre
o padre Cícero, “o árbitro de tudo que acontecia na cidade”, como costumava
dizer, o livro Madeira Matriz-Cultura e Memória (1999), trata da
construção desse ícone fundador de Juazeiro do Norte. Foi sua tese de Semiótica
da Cultura, defendida na PUC-SP, prêmio Silvio Romero (1998, MEC/Funarte).
Nas
suas inúmeras publicações fez com que estudantes vissem a comunicação como
ferramenta de registro da cultura, memória e das identidades regionais; e que a
formação jornalística tivesse base na realidade social e no respeito às
narrativas populares.
Passados
cinco anos de sua morte, a vida e a obra de Gilmar de Carvalho permanecem como
um farol, vive em cada pesquisa que valoriza a cultura local, cada projeto,
cada aluno que entendeu que “comunicar é, antes de tudo, escutar”.
Ieda
Estergilda de Abreu, São Paulo, 12 de junho de 2026.
