quinta-feira, 2 de julho de 2026

"Gilmar de Carvalho: uma homenagem", de Ieda Estergilda de Abreu


Gilmar de Carvalho e Sérgio Pinheiro

Intelectual cearense, o brasileiro Gilmar de Carvalho foi professor, pesquisador, jornalista e poeta. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, nasceu em agosto de 1949 em Sobral e morreu em 2021, vítima da pandemia.

Deixou importante legado na comunicação, na cultura popular e no ensino de jornalismo. Integrou o grupo de professores dos programas de comunicação da UFC no período de consolidação, impregnando sua visão humanista e interdisciplinar, com rigor acadêmico e sensibilidade artística.

Gilmar de Carvalho não se limitava às salas de aula, encontrava alunos, ex-alunos em locais públicos fora da universidade. Conversava, mostrava livros estimulantes, presenteava, sugeria, revelando-se um incansável pesquisador da cultura cearense, do cordel, do teatro popular, das manifestações tradicionais e das relações entre arte e sociedade.

Com dezenas de livros e artigos, foi referência nacional em jornalismo cultural, patrimônio imaterial e comunicação comunitária, sempre com um olhar afetuoso e crítico sobre o Nordeste.

Luciana Novo, professora de música da UFC e também jornalista, conta que “mesmo depois de formada, frequentava a sala do prof. Gilmar, no curso de jornalismo. Ele me convidou para vários projetos importantes dele, como o Sarau das Rabecas; me indicou para ser jurada do Projeto Pixinguinha no Rio de Janeiro; tocamos na Bienal do Livro, participava dos eventos culturais, incentivava muito. Minha dissertação de mestrado foi inspirada nele, conversávamos sobre o que eu queria fazer: pesquisar as relações do Nordeste com a música de câmera, as culturas híbridas, me apresentou ao grupo Ânima, me emprestou discos do grupo. Na véspera de falecer, me convidou para viajarmos depois que acabasse a pandemia, viajar por várias cidades, tocar...”

Para o compositor e intérprete Graco Braz Peixoto, parceiro de Belchior, Fagner, Ednardo, Zeca Baleiro e outros, “Gilmar de Carvalho foi acima de tudo um grande amigo, intelectual com sólida formação para a cultura cearense. Além de ter sido muito ativo no jornalismo, desempenhou papel importante na academia, na cultura popular, e faz muita falta...”

Para a cantora e compositora Mona Gadelha, a perda de Gilmar de Carvalho,  “um amigo muito querido com quem me encontrava quase toda semana, seja no almoço do Passeio Público, seja nas ruas da Aldeota, foi desconcertante, até lembra aquela canção do Chico Buarque, “é desconcertante perder um grande amor...”. Era um amigo que sobretudo me incentivava a criar, a pesquisar, a permanecer inquieta diante da estranheza do mundo, um amigo cujo lugar na cultura do Ceará não tem substituição. Sempre lembro do Gilmar e acredito que a legião de amigos, alunos, alunas e discípulos que ele deixou deve sentir o mesmo, essa ausência a cada ano de sua morte que nos surpreendeu, a mim que o acompanhava com mensagens durante a pandemia, me surpreendi com Gilmar internado no hospital, achei que logo retornaria. Ele deixou um legado de publicações, pensamentos, um conjunto de obras extraordinário. Sinto uma saudade imensa do meu amigo, é sempre emocionante falar dele. Que sua memória seja preservada. Era um guardião da memória e ao mesmo tempo antenado, atento ao contemporâneo".

Mantive contato por e-mail com Gilmar de Carvalho durante um período, sobre presépios de Natal, pastoris, reisados, ele sabia de tudo. “Temos belos reisados no Cariri, inclusive um que tem a Embaixada de Carlos Magno, onde o imperador dança de manto, cetro e coroa. O homem é meio chato, deixei de entrevistá-lo, queria dinheiro e não tenho dinheiro para dar pra entrevistados, mas vale a pena pelo inusitado, deve ser dos poucos do Brasil onde Carlos Magno dança”.

Sobre o padre Cícero, “o árbitro de tudo que acontecia na cidade”, como costumava dizer, o livro Madeira Matriz-Cultura e Memória (1999), trata da construção desse ícone fundador de Juazeiro do Norte. Foi sua tese de Semiótica da Cultura, defendida na PUC-SP, prêmio Silvio Romero (1998, MEC/Funarte).

Nas suas inúmeras publicações fez com que estudantes vissem a comunicação como ferramenta de registro da cultura, memória e das identidades regionais; e que a formação jornalística tivesse base na realidade social e no respeito às narrativas populares.

Passados cinco anos de sua morte, a vida e a obra de Gilmar de Carvalho permanecem como um farol, vive em cada pesquisa que valoriza a cultura local, cada projeto, cada aluno que entendeu que “comunicar é, antes de tudo, escutar”.

 

Ieda Estergilda de Abreu, São Paulo, 12 de junho de 2026.