sexta-feira, 5 de junho de 2026

"Crônicas de Meu Pai", de Raymundo Netto para O POVO


José Pedro, o "Deca"

Todos têm – e aí o “quase” é certo – o melhor pai do mundo. Daí, de não tomar tempo alheio a endossar o clichê.

Meu pai, José Pedro, pelos amigos o “Deca” e para os colegas o “Costa”, era pernambucano. Sargento do Exército, imitando o pai, cabo mestre-carpinteiro Raymundo, veio a Fortaleza com 25 anos, onde morou no sobrado da tia Francisquinha, na rua Padre Mororó. Depois, num baile do extinto clube General Sampaio, conheceu Zenaide, a “Zena”, estudante de odontologia, pioneira entre as mulheres no curso da UFC e minha não-sabia-ainda mãe.

Em calções, “descobriu” que os filhos gostavam sempre mais das mães, então decidiu ele, na certeza franca de menino, que amaria mais a seu pai. E assim foi.

Conta que o vovô era durão e quando dava a bater em um filho, coisa rara, aproveitava e batia em quem estivesse por perto – eram 8 os irmãos – e tivesse lá o seu saldo de palmatória.

Já sargento, homem feito, um dia chegou em casa num momento desses e, seu pai, vendo-lhe à porta, disse: “Venha, você, que também não é flor que se cheire!”. Estranhou, mas com o devido respeito filial, ainda pediu: “Papai, deixa só eu tirar esta farda, porque apanhar de farda...”

Meu pai fora de sempre conhecido pelo bom humor, pelas tiradas espirituosas e inteligentes, pela visão leve de vida, pelo cuidado gratuito com as pessoas e pela generosidade com os que estavam à sua volta e dele precisavam. Sem exagero, “pai de todos”, nunca o vi reclamar de nada ou praguejar de coisa alguma, ao contrário, muito prático e sem tempo para queixumes, resolvia tudo numa facilidade que chegava a nos dar, ingênuos por natureza, a impressão de que qualquer coisa no mundo seria possível. Contudo, ainda me lembro do dia em que levou minha vitrola novinha, presente de Natal, para consertar e a roubaram de seu carro, provavelmente por descuido seu. Chegou em casa, aflito. Eu, a perguntar pela vitrola, e ele, sem me responder, botando a casa abaixo em busca de dinheiro para comprar outra.

Minha mãe, guardiã de seu ordenado, entregue inteiro e religiosamente todos os meses, pegando-o em flagrante e sabendo do ocorrido, o revelou sem vexames para mim e, diante do olhar encabulado de meu pai, sentenciou: “Deixa para lá, Deca, ele não devia merecer. Depois compra-se outra.” O que ela fez, sim, anos tarde demais.

Éramos seis crianças, tinha ele uma Kombi. Por isso, dava-se a oferecer carona a todos, e estes se sentiam à vontade para convidar outros, e assim por diante – chegou a dar segunda viagem para “cumprir a lotação”. Em época de pouca legislação, a Kombi saía ruidosa, portas abertas, com panelas, gaiolas e até com bicicleta dentro, distribuindo gente e gargalhadas pela cidade.

Assim também era de caber todo mundo a nossa casa: mulher que apanhava de marido, filho trabalhoso expulso de casa, parente “em trânsito”, gente doente, candidatos a suicidas, domésticas gestantes em tempo sem lei – chegamos a ter três de uma só vez –, mãe solteira ou rico que ficou pobre, todos acabavam no endereço da Benjamim Barroso. Era quase uma pensão.

Minha mãe, pessoalmente, fazia o prato, escolhendo a melhor comida, para dar aos esfomeados da calçada. Assim como, e isso me faz falta, todos os domingos, seu Costa, olhando para cadeira vazia, dava a tamborilar os dedos na mesa larga da cozinha, feita sobre medida para família grande, e cantava trechinho de música preferida: “Naquela mesa ele juntava gente e contava contente o que fez de manhã/E nos seus olhos era tanto brilho/Que mais que seu filho/Eu fiquei seu fã.”