segunda-feira, 29 de junho de 2026

"Ode ao Amor e à Morte", de Raymundo Netto para O POVO


No tempo da era num pedaço esquecido do agreste...

As folhas descansavam adormecidas onde uma mulher, em águas rasas da lagoa, deliciava-se. Molhava os cabelos lisos, negros e curtos e, com as mãos bramosas, esfregava o pescoço.

Um observador, descalço, caminhava sobre as gretas secas do chão e, cortejando-a – ela a dançar ao redor de uma bacia de barro –, arriscava palavras absurdas num instante de amor.

Em meio a tudo, via-se, sob o luar frio, os pequenos seios alvos e azuis e os mamilos orlados em rosas. Sua pele era úmida e branca de leite, beijocada de inquietudes e sossego: “Quanta vida contida naquele berço de pecadilhos viciosos!”

Não havia vento, não havia frio, mas calor também não havia. O verde era xique-xique, mandacaru, agávea... O meu boi morreu. O que será de mim? Manda buscar outro, menina, lá no Piauí.”

Pausa! – noite gelada – Num inesperado sonho, à cabeça da mulher, luminou-se a ideia de casar.

A noite findava, clareava-se a manhã ardente! Sol a pino, caçada a tejos! Então, sem muito pensar, pensou: “Quem seria o seu par? Quem haveria de sê-lo, naquele lugar tão ermo e esquecido?”

Uma jiboia solitária arrastava um linguajar de venenos: “Um rei? Por que não? Teria um mundo de riquezas e serviçais. Desejos um a um satisfeitos. Quem sabe não se arrastaria nas asas da luxúria?”

Mas teria tudo, mesmo? Um jovem vaqueiro não poderia dar-lhe mais? Talvez apenas um pouco de amor... “Amor? Ôxe, por que não? O amor ela não teria mesmo em troca de seu maior tesouro!” Convenceu-se, inebriada no licor do mel da jandaíra.

Um cancão solitário de arregalados olhos amarelos anunciaria o iminente perigo. As folhas cairiam. A mata esbranqueceria. Os espinhos se retesariam e apontariam para o céu desestrelado!

O rei, num arremedo de si mesmo, ficaria furioso. Ameaçaria e travaria embates, numa peleja sem fim contra o pobre aventureiro. Ele, certamente, não seria páreo aos golpes do malvado. “Naquele reino, já se sabia: quanto mais se tinha, menos se contentava em ver a felicidade por tão pouco...”, pensava o observador apaixonado de cócoras na lagoa.

Assim, o aventureiro, passados nele os maneadores, assistiria indefeso ao amputar de seu orgulho. Nada mais restaria a ele, a não ser a fuga logrativa da morte: suicidar-se-ia!

Os estilhaços de seu amor se esparramariam, cobertos em lama, no fundo de um caçuá de cipós. O juazeiro, única testemunha da iniquidade, triste se desgalharia.

Mas ninguém pode, simplesmente, destruir o que um coração constrói!

A moça branca de seridó não descansará enquanto não descobrir um meio, qualquer um, de separar a vida da morte e, então, poder ser feliz com o homem que ela ama.

“Meu senhor dono da casa, faz favor de me escutar. Eu pergunto pro senhor se tem Reis para nos dar...”





 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

"Olha pro Céu, e pra Mim, Meu Amor!" de Raymundo Netto para O POVO


Foto: Cacio M. de Vasconcelos

Anavã!

Chegamos a junho, mês em que aconteci neste mundo, no meio do caminho, feito Pedro, ligeiro e cianótico, fugido de Natal, dependurado no bico de cegonha trapalhã e berrando: “Eu quero nascer é no Ceará!” Por isso, de não conhecer na Terra nada que me papoque mais as lembranças do que festas juninas, balõezinhos chineses, barraquinhas de palha de coqueiro, o cravo tinindo na castanha do pé-de-moleque ou a voz ecoada do Gonzagão em pagode russo na boate Cossacou: “Foi numa noite/igual a esta/que tu me deste o teu coração./ O céu estava/todinho em festa/ pois era noite de São João.”

Hoje, a cultura invasiva da sociedade do espetáculo sapucaicou as nossas festas, que deperecem ao afetado glamour e ao som de axé ou forró de plástico, que nem de longe imita o que nos fere a saudade.

Por outro lado, dia desses, ao me encostar em mesinha de plástico, numa praça em areias na rua do Sabão, onde se dava uma quermesse de igreja, olhava para o cimo céu estrelado de bandeirinhas coloridas de papel, e recordava a animação dos bairros de uma Fortaleza interior, quando os jovens se aproveitavam das festividades para escolher como par de quadrilha aquele ou aquela a quem o peito devotava gemidos de paixão, mas era desencorajado de se achegar.

Nos dias de ensaio e de preparação, porém, estariam juntos, mesmo que disfarçando o ribombar da emoção e o desafino típico de primeiro amor, mas de nunca sentir tanta alegria, cortando papel de seda de cor, colando com grude de panela bandeirinhas no barbante de corda, pedindo pelamordedeus que a mamãe não esquecesse de emendar aqueles retalhos na calça e na camisa ou mesmo de costurar o vestido florido de chita.

Afinal, o dia da festa, foguetório no ar: a rua de pedras toscas tomada de barraquinhas de jogos e tabuleiros de paçocas, baião de dois, espetinhos, vatapá, bolos, refrescos e aluá. A fogueira de lenha estalando calores nos olhos curiosos da meninada e os quadrilheiros chegavam: as “damas” com vestidos de babados e tranças caídas em fita nos ombros, e os “cavalheiros”, sob chapéus de palha, ao pescoço lenço de cor, em camisa e calças rotas, bainhas tortas e alpercatas de couro.

Encontravam-se os pares a ensaiar um passo diferente de “motocicleta”, “cavalo” ou “aleijado”. A moça, mais ousada, pintava a lápis o bigode, a costeleta, o cavanhaque no par desajeitado. Ele, a pretexto de lhe tocar o rosto, ali pintava uns três ou quatro pontos negros, deitando o olhar já cativo àquele sorriso que lhe parecia feito de luar.

Vinha lá o pai Francisco tocando o seu violão bi-rim-rim-bão-bão e o seu delegado. Após o casório, a quadrilha começava com anavãs, anarriês, balanceio, serrote, túnel, parafuso e passeio: “Lá vem a chuva!” “Olha a cobra!”

As senhoras alimentavam de gás os candeeiros, enquanto o sanfoneiro, no resfolego do seu fole de oito baixos, convidava para o rapapé no salão, que ameaçava ir até amanhecer e a palha voar. Enquanto o cavalheiro, com o coração molinho, molinho, despontava um inocente “Olha pro céu, meu amor, veja como ele está lindo...”, sendo acolhido por um beijo de assalto “tão bonito e tão sincero feito festa de S. João”.



 




 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

"Crônicas de Meu Pai", de Raymundo Netto para O POVO


José Pedro, o "Deca"

Todos têm – e aí o “quase” é certo – o melhor pai do mundo. Daí, de não tomar tempo alheio a endossar o clichê.

Meu pai, José Pedro, pelos amigos o “Deca” e para os colegas o “Costa”, era pernambucano. Sargento do Exército, imitando o pai, cabo mestre-carpinteiro Raymundo, veio a Fortaleza com 25 anos, onde morou no sobrado da tia Francisquinha, na rua Padre Mororó. Depois, num baile do extinto clube General Sampaio, conheceu Zenaide, a “Zena”, estudante de odontologia, pioneira entre as mulheres no curso da UFC e minha não-sabia-ainda mãe.

Em calções, “descobriu” que os filhos gostavam sempre mais das mães, então decidiu ele, na certeza franca de menino, que amaria mais a seu pai. E assim foi.

Conta que o vovô era durão e quando dava a bater em um filho, coisa rara, aproveitava e batia em quem estivesse por perto – eram 8 os irmãos – e tivesse lá o seu saldo de palmatória.

Já sargento, homem feito, um dia chegou em casa num momento desses e, seu pai, vendo-lhe à porta, disse: “Venha, você, que também não é flor que se cheire!”. Estranhou, mas com o devido respeito filial, ainda pediu: “Papai, deixa só eu tirar esta farda, porque apanhar de farda...”

Meu pai fora de sempre conhecido pelo bom humor, pelas tiradas espirituosas e inteligentes, pela visão leve de vida, pelo cuidado gratuito com as pessoas e pela generosidade com os que estavam à sua volta e dele precisavam. Sem exagero, “pai de todos”, nunca o vi reclamar de nada ou praguejar de coisa alguma, ao contrário, muito prático e sem tempo para queixumes, resolvia tudo numa facilidade que chegava a nos dar, ingênuos por natureza, a impressão de que qualquer coisa no mundo seria possível. Contudo, ainda me lembro do dia em que levou minha vitrola novinha, presente de Natal, para consertar e a roubaram de seu carro, provavelmente por descuido seu. Chegou em casa, aflito. Eu, a perguntar pela vitrola, e ele, sem me responder, botando a casa abaixo em busca de dinheiro para comprar outra.

Minha mãe, guardiã de seu ordenado, entregue inteiro e religiosamente todos os meses, pegando-o em flagrante e sabendo do ocorrido, o revelou sem vexames para mim e, diante do olhar encabulado de meu pai, sentenciou: “Deixa para lá, Deca, ele não devia merecer. Depois compra-se outra.” O que ela fez, sim, anos tarde demais.

Éramos seis crianças, tinha ele uma Kombi. Por isso, dava-se a oferecer carona a todos, e estes se sentiam à vontade para convidar outros, e assim por diante – chegou a dar segunda viagem para “cumprir a lotação”. Em época de pouca legislação, a Kombi saía ruidosa, portas abertas, com panelas, gaiolas e até com bicicleta dentro, distribuindo gente e gargalhadas pela cidade.

Assim também era de caber todo mundo a nossa casa: mulher que apanhava de marido, filho trabalhoso expulso de casa, parente “em trânsito”, gente doente, candidatos a suicidas, domésticas gestantes em tempo sem lei – chegamos a ter três de uma só vez –, mãe solteira ou rico que ficou pobre, todos acabavam no endereço da Benjamim Barroso. Era quase uma pensão.

Minha mãe, pessoalmente, fazia o prato, escolhendo a melhor comida, para dar aos esfomeados da calçada. Assim como, e isso me faz falta, todos os domingos, seu Costa, olhando para cadeira vazia, dava a tamborilar os dedos na mesa larga da cozinha, feita sobre medida para família grande, e cantava trechinho de música preferida: “Naquela mesa ele juntava gente e contava contente o que fez de manhã/E nos seus olhos era tanto brilho/Que mais que seu filho/Eu fiquei seu fã.”