Aíla Sampaio
(Publicado originalmente no Caderno 3 do Diário do Nordeste)
Um Conto no Passado: cadeiras na calçada, romance de Raymundo Netto, é uma viagem no tempo, um encontro com uma
Fortaleza poética e provinciana que só a imaginação pode reconstruir. De mãos
dadas com Américo Lopes, o protagonista e narrador, passeamos pelas calçadas do
início do século XX e andamos pelas ruas “descalças” de uma cidade menina que
parece se fazer mulher aos olhos do leitor.
No livro de Raymundo, o narrador é um senhor de mais de 90 anos que,
após receber um pacote de cartas de seu amor de juventude, compreende a razão
de ter vivido tanto, e resolve, no ano de 1998, contar a sua história como um
modo de eternizar seu romance interrompido pelo destino.
Trata-se de uma narrativa cíclica, cujo introito pode perfeitamente ser
colado ao final para atar as pontas do novelo da vida do personagem:
No quarto, passei a cismar sobre a minha vida, toda ela, nos momentos e
caminhos que me fizeram ser o que hoje eu sou
Recapitulando os desastrados anos da minha vida, conclui o porquê de ainda
estar vivo. Precisava saber, não poderia partir desse mundo sem saber, e agora
finalmente eu estava pronto.
Abri o lenço à minha frente e reconheci a letra feita às pressas com o
furor de quem está arquitetando um grande plano de paixão: “Não esqueças de me
lembrar que não foi apenas um sonho! Voltarei a ti...Sempre!” “Voltarei a
ti...Sempre!” Por um momento senti-me naquele quarto acolhido nas asas e no
sorriso de Olívia. Peguei o lenço e busquei seu cheiro: não havia nenhum, não
havia nada! Pobre Américo, pensei, que sorte o destino lhe pregara. Chorei um
pranto esquecido. (p.144)
A narrativa memorialista, de que se vale o autor, tomou impulso nos anos
de 1970, com o romance-reportagem, uma tendência pós-moderna que se alicerça na
transdiscursividade. Segundo Walnice N. Galvão (2004), o memorialismo, há
tempos praticado no país, deu um salto de qualidade ao surgir a obra de Pedro
Nava: “com uma capacidade invejável de reconstituir os ambientes de sua
ancestralidade até várias gerações, e criando com liberdade o que não podia
propriamente reconstituir, Pedro Nava acaba por fazer também um pouco de
história imaginária, ou do imaginário. Ergue-se ante nossos olhos o passado de
Minas”.
A narrativa biográfica tem, pois,
esse mérito de reconstituir, utilizando a trajetória de um personagem real, a
trajetória de uma geração, a história de uma época e de um espaço. Assim
ocorreu com Pedro Nava, que juntou imaginação e memória nos relatos de suas
experiências; com Marcelo Rubens Paiva, em seu Feliz Ano Velho,
livro que conta o acidente que o deixou paraplégico e os dias que o sucederam,
entre outros que, ao modo de Graciliano Ramos, Érico Veríssimo e Rache de
Queiroz, transfiguraram para a literatura episódios de suas histórias. No
Ceará, destaca-se Milton Dias com suas crônicas de memórias.
Essa opção por narrar-se, ou seja, transformar-se em personagem, é
curiosa e suscita uma reflexão sobre o significado da experiência vivida tanto
para quem a expõe, no momento em que a expõe, pois já não é a mesma pessoa que
viveu os fatos, como para o leitor.
Marta Campos (1992 p.28-9) faz algumas considerações a esse respeito:
“Quando um autobiógrafo confere um significado a um tempo passado, ele
certamente optou por um dos muitos significados que o acontecimento pode ter
tido ou talvez tenha conferido ao fato um significado totalmente novo, que ele
só adquiriu muito tempo depois. Este significado, por sua vez, revela muito
mais sobre a situação do autobiógrafo no momento da escritura do que sobre o
homem à época do acontecimento”.
O livro de Raymundo Neto, embora traga uma narrativa autobiográfica, não
confunde o narrador com o autor. O velho Américo, personagem fictício, conta
sua trajetória desde a infância, na primeira década do século XX, quando perde
os pais e passa a ser criado por uma tia. Paralelamente, conta-se a história da
cidade, tendo-se, dessa forma, dois personagens centrais: Américo e a cidade de
Fortaleza.
A onisciência do narrador em 1ª pessoa não torna o relato inverossímil,
pois desenrolam-se fatos passados, utilizando-se assim de um meio fundamental
para tornar o relato crível. Tudo já foi consumado, vivido. O personagem
Américo é ficcional, mas a cidade e sua história são reais e fundem, num só
espaço e tempo, verdade e ficção, conduzindo o leitor nessa ambivalência que o
leva a duvidar se Américo é apenas um ser de papel.
A CIDADE
A cidade é desenhada em sua arquitetura e pelos fatos debulhados
desfilam cenas moldadas nos espaços da época, como as ruas do centro da cidade:
Guilherme Rocha, Barão de Aratanha e Formosa, a Praça do Ferreira, a Coluna da
Hora, a Farmácia Oswaldo Cruz, o Café Java, o Maison Art-Nouveau, o Café Riche,
a lanchonete Leão do Sul, o Passeio Público, a Confeitaria Crystal, o
Cine-Teatro Majestic, o Cine São Luiz, o Clube Iracema, o Estoril, a Cidade da
Criança (antigo Parque da liberdade, onde encontramos a Ilha do Cupido), o
Cemitério São João Batista, a Igreja do Pequeno Grande, a Praça General
Tibúrcio, o Palácio da Luz, a cadeia pública, os palacetes, tudo cenário da
vida de Américo Lopes, o menino órfão cuja vida se confunde com a da própria
cidade em que nasceu e viveu.
A habilidade com que os espaços e os acontecimentos reais são colocados
no relato dá a impressão de que tudo é real. Américo fala sobre o Jornal O
Pão e a Padaria Espiritual, seus mentores, cita os nomes de guerra dos
padeiros e até trechos do estatuto, tudo contextualizado em encontros com
amigos, um deles, não despretensiosamente “primo da sra. Maria do Carmo. Ela,
há vinte anos residia na rua do trilho e casara com um alferes da polícia na
Igreja do Patrocínio” (p.22) uma referência explícita à personagem de A
Normalista, romance de Adolfo Caminha... não apenas uma referência, mas um
registro da contemporaneidade de ambos, num jogo intertextual bem construído.
AMÉRICO: O MENINO E O HOMEM
O menino Américo, órfão de pai e mãe, é criado pela tia e madrinha, dona
Severina, “viúva de natureza extremamente afável, conhecida pelo apelido de
Sílvia” (p.12). Ela e o menino viviam da pensão deixada pelo marido dela (que
morreu na época da grande seca) e dos serviços de costura que ela fazia para a
vizinhança.
Ainda bastante jovem, começa a trabalhar como vendedor na sapataria do sr.
Campos, pai de Daniel, seu colega de colégio e amigo, um rapaz folgazão e
desonesto, que rouba o pai e vive de armações. Em uma de suas provocações ao
pai, convida o amigo para um baile na casa de amigos da família e leva-o
vestido em um paletó (subtraído do guarda-roupa do pai) reformado, expondo-o ao
ridículo. Américo começa a perceber a personalidade do companheiro, mas não se
abstém de sua amizade, pois necessita do emprego e sonha com uma promoção a
gerente da loja.
Na festa, conhece Olívia, uma bela moça que admira ao piano. Rouba um
poema de Antero de Quental para impressioná-la e vivem um idílio até a
revelação fatal: ela é casada com um rico visconde, casamento por conveniência,
para saldar dívidas da família, e não pode viver seu amor com o jovem rapaz.
Juntos, passeiam pela cidade e descobrem a poesia da vida. Após viver uma noite
de amor e na iminência de uma despedida, desesperado para não perdê-la,
querendo convidá-la para fugir com ele, Américo pensa em roubar o cofre do
patrão, e, num ato inconsequente e imaturo, vai à sapataria, onde encontra
Daniel se apossando do dinheiro.
Após a discussão, Américo permanece no local e é preso como ladrão. O
pai de Daniel sabe a verdade, mas não quer expor publicamente o filho e só
retira a queixa quando a dívida do roubo é paga. Mais tarde se sabe, pelo
marido de Olívia que, durante a prisão do amado, já voltou à sua casa no Rio de
Janeiro.
A família de Daniel vai embora de Fortaleza, e Américo, aos poucos,
retoma a vida, sofrendo a perda da tia, mas sempre criando forças para
recomeçar. Consegue emprego nos Correios, casa-se com Guilhermina (Guiné)
exatamente na época em que termina a segunda Grande Guerra Mundial. Com ela tem
dois filhos: Victor e Cristina, levando uma vida pacata e confortavelmente
feliz até a morte de sua companheira.
Vivendo já a velhice, recebe, um dia, a visita de Laura, filha de
Olívia, que lhe entrega um pacote com cartas e um bilhete onde revela que
Laura, sua única filha, não era filha do visconde, mas, na verdade, filha de
Américo, fruto da única noite de amor que tiveram. Fica sabendo que Olívia
morreu cedo e o visconde voltou a se casar com outra mulher. Ele entende a
dimensão do amor que viveu com Olívia e se propõe escrever sua história, cujo
relato constitui o romance Um Conto no Passado: cadeiras na calçada. A
obra é, pois, bem mais que um romance memorialista; é uma história de amor; é
um registro histórico e poético, um resgate dos espaços da cidade, da sua
literatura, da sua música, dos seus símbolos, como o bode Yoyô, a figura de
Chico de Matilde, o Dragão do Mar, e tantas nuanças perdidas no tempo que
precisam ser reativadas no imaginário das novas gerações.
Embora seja uma obra contemporânea, cujo tempo narrativo é o passado, a
linguagem não peca quanto à adequação com o período retratado e a idade do
narrador. Raymundo Netto consegue seduzir o leitor ao segurar a mão do velho
Américo e percorrer a cidade-menina de um século atrás, envolvendo-o nas
histórias de amor que se eternizaram em sua memória anciã... É como se alguém
colocasse as cadeiras nas calçadas do tempo e se pusesse a contar sua vida
apaixonadamente. Além dos cenários bem descritos, a obra recorre ao registro
iconográfico e faz com que a saudade do tempo não vivido se revele no coração
do leitor do nosso tempo.
A narrativa final transcorre com Américo sentado na praça do Ferreira,
num banco de madeira, rememorando seu amor impossível e revendo a cidade. As
cartas de Olívia fizeram-no renascer. De “chapéu de feltro azul com laço de
cetim escuro, de óculos Ray-ban, portando um guarda-chuva preto, em
camisas de mangas longas e com um pente flamengo no bolso” ele recorda sua
vida, renascido, e declara sua saudade... sua saudade de tudo.
Ao final, o autor fala do rumo que tomou aquelas vidas após a conclusão
do livro, do significado que a vida passou a ter para Américo depois da certeza
de que foi amado por Olívia e da sua partida “dormindo e sorrindo com uma paz
de espírito impressionante”.
A obra de Raymundo Netto é um legado a essa geração e às próximas, um
registro telúrico de seu amor à cidade e do seu romantismo. Leitura imperdível
para os que não tiveram a oportunidade de ouvir histórias contadas em cadeiras
na calçada.
REFERÊNCIAS
CAMPOS, Marta. O desejo e a morte nas memórias de Pedro Nava. Fortaleza:
Edições UFC, 1992.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo:
Loyola, 1995.
GALVÃO, Walnice Nogueira. “A voga do biografismo nativo”
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142005000300026&script=sci_arttext
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Acesso em 14/10/2008
NETTO, Raymundo. Um Conto no Passado: cadeiras na calçada. 2
ed. Fortaleza: Imprece, 2009.
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