Audifax Rios
(1946-2015) era
um príncipe... em pele de sapo! Assim, para reconhecê-lo era inevitável, acima
de tudo e de tantos, amá-lo, condição única para o desencantar dos olhos
viciados a se deslumbrarem com fachadas enganosas, caiadas de injustificada
arrogância e empavonamento, ilusões pela conta bancária e por medalhas de
araque que, solenes, apenas imitam e plagiam o ouro.
Tímido, virtuose da humildade, não
se enganem: trazia no peito amoroso a convicção do seu trabalho, do talento e
da originalidade. Empunhava o bastião da cultura “para que não desabasse por
falta de quem por ele lutasse, pois olho grande é o que não falta”, e assim
inventava “De Um Tudo”: pintava, desenhava, escrevia, pesquisava, publicava,
cercava-se de amigos, admiradores e o escambau. Contudo, costumava dizer que os
artistas visuais da maroceânica Fortaleza não o reconheciam como tal e por isso
preferia, por ora, escrever. Como assim não reconheciam? É “oito ou oitenta!”
Lembro-me de uma ocasião em que
estava no lançamento de uma revista nossa – não perdia eventos dos amigos – e
soube da presença da Ana Miranda. Acanhado, perguntou se eu poderia
fotografá-lo com ela. Chamei a Ana e o apresentei. Ela imediatamente disse que
era sua leitora e o nosso artista quase se desmanchou: “Deve ler uma vezinha ou
outra...”, disse, disfarçando a face encarnada com sorriso da criança que nunca
deixou de ser.
Tive a sorte de conhecer e aprender
muitas coisas com o mestre combo-artista. Trabalhamos juntos em alguns
projetos. Gostava de estar a seu lado, pois, além de ouvir cambalhóticas
histórias da sua confidente e amante lourinha, sentia a segurança de falar, de
rir, de ser eu mesmo, e de ele gostar disso! Audifax nada nos pedia, nem
queria. Sua alma já estava de todo salpicada de riquezas invulgares.
Certo dia, um gaiato ao ler a
crônica que escrevi em que Audifax era o protagonista, disse-lhe: “O Raymundo
Netto falou mal de você no jornal!” Ele, por sua vez, com sua voz pachorrenta,
tascou: “Cara, o Raymundo é meu amigo, pode falar mal de mim. Os inimigos é que
eu não deixo!”
No mais a mais, recebia seus
telefonemas ou o acolhia na recepção do O POVO. No meio da
conversa, leitor dos cronistas da casa, lançava uma graçola no ar. Às vezes eu
“voava”. Ele, percebendo, me chamava a atenção: “Cara, está na tua crônica
dessa semana...” E ria-se. Daí, eu retornava falando sobre a sua, a das sextas,
de palavreado sertanejo, meio moleque, narrativa gostosa e irônica, de riso, fé
e dor, nas quais conseguia o milagre de trazer à vida e à humanidade
personagens que se foram há tempos e que, para mim, até então, tinham ares de
estátuas frias.
Em “Rio Acaraú: um filete de
esperança”, última crônica publicada no jornal O POVO, Audifax
profeticamente se despedia da Santana infantil de não tantas priscas eras,
pisando na beira do rio, revendo amigos que se foram e o sol risonho que sempre
pintou, caminhando por entre o rosário de serras, acenando com lenço branco as
velhas promessas, as lapinhas licânicas e histórias como a de um Raimundo,
outro que não eu, o canoeiro, vítima, imaginem, de um infarto fulminante. Um
infarto. “Haja Nostradamus!”.
Ultimamente tenho escrito
frequentes crônicas-obituários, o que entristece e me farta de vazio, exceto
pela saudade daqueles que nos deixam no meio do caminho. Penso que o Audifax,
trajando uma de suas berrantes camisas, pegou carona em um de seus peixes
voadores cobertos de escamas coloridas, feito lantejoulas carnavalescas, entre
nuvens miscelânicas, no meio de uma procissão de um conselheiro Antônio, sendo
recebido pela luz e pela glória daqueles que ele nunca nos deixou esquecer.
Ah, como é ingrata a dona morte,
que pegou na distração nosso amigo de coração mole de ribeirinho, silenciando a
ceia larga do seu caprino clube, no qual enquanto fiel sentinela e guardião não
nos deixava sair sem assinar o irreverente caderno de atas. Deixa para trás e
para nós o lamento distribuído entre Deus e o mundo, ciente de que o Altíssimo
dessa vez acertou e levou o melhor entre todos nós. Em 17 de abril deste, completaria
80 anos.
Dobram os sinos e o sineiro, e,
como dizia AR: “depois do episódio maligno, tudo divino no quartel de
Quirino”.
Fica com Deus, querido Audi, e voe
com a gente quando desmorrer!











