segunda-feira, 10 de maio de 2021

"Domingo", de Raymundo Netto para O POVO


 

Publicado originalmente em Os Acangapebas


Domingo. Onze horas. Como se marcada hora, barulhentos, acabavam de chegar. Enfileiravam-se à grade branca entreaberta por saudações breves, tomadas de rostos, beijos vãos. As netinhas, em cabelos de rabos de cavalos, à frente e com solicitação do pai, apresentavam as bonecas, imediatamente esquecidas diante da tevê na sala.

Os filhos, genros e noras, à cozinha, traziam nos olhos indisfarçáveis traços da preguiça ou da curtida noite alta. Colhiam jornais e a correspondência desviada, cumprimentavam o pai a levantar sorridente da cama — sem omitir saudades — e a mãe a empunhar flores do quintal. Puxavam os bancos para o oitão, a área mais ventilada, enquanto outros vasculhavam a geladeira em busca das guloseimas que lá já não estavam desde a meninice.

Hora do almoço! Todos tomavam os seus lugares, os mesmos e respeitados lugares, pequenas hierarquias. O avô se deliciava à larga cabeceira da mesa de pinho feita à encomenda para caber a família. A avó não sentava enquanto todos não estivessem fartos. 

Ali, outra mulher, por trás do balcão americano, com olhos postos à pia no manejo da asa de uma caneca tomada em sabão, ouvia tudo, sabia de tudo, analisava-os, percebia-lhes as mentiras, as vaidades, a disputa entre irmãos pelo amor filial. Espremia-lhes com os olhos e torcia a inveja da boca.

Assim, aos domingos: preparava o almoço, os pratos de um e de outro, mais pratos, a sobremesa com um doce especial, a correria da criançada a lhe pedir tudo, sem reconhecê-la nunca, sequer chamá-la pelo nome, e mais pratos. Depois disso, só solidão e silêncio. Percebia-se velha e acabada, não dava mais conta. Sabia-se apenas para servir. E só!

Num domingo diferente, postou-se à cabeceira por trás do avô. Pediu as falas com um sorriso quase terno, a espanar no ar um pano de prato. Na voz rouca e analfabeta desalinhou um segredo: pôs veneno! Daquela macarronada tradicional de família, tudo acabaria ali e agora. Pronto era só isso. Desculpasse, mas não aguentava mais.

Um jovem pai desperta, corre desesperado por um corredor de soluços, vômitos e gritarias sufocadas. Na sala, as suas menininhas, felizes, limpavam com o bracinho rechonchudo o sorriso lambuzado daquele molho gostoso, receita da vovó.




segunda-feira, 26 de abril de 2021

"Trégua", de Raymundo Netto para O POVO

 


Deu-se que assim quedou-se sozinha numa quitinete antiga, inda dura de pagar, aos maus cuidados do esquecimento. Tentaria, mas voltar para casa dos pais, nem pensamento, nem coragem.

Angustiava-lhe, contudo, o banheiro. Às horas escuras, as baratas reinavam. Por vezes, queria usá-lo, mas à visão nojenta e aterradora de dezenas delas desistia-lhe a vontade. Percebia-lhes nas gretas da parede, nas frinchas do piso, no descuido do ralo, por todos os cantos. Saíam elas protegidas, ligeiras, com propriedade tradicional de uso.

No abrigo escuro da noite, no travesseiro, além do seu cheiro em tudo, podia ouvir centenas de terríveis patas a deslizar. Corriam, acasalavam-se. Mais baratas, cada vez mais. Pânico!

Ao banheiro, quando inevitável, sentava-se no aparelho: abraçada aos joelhos, encolhia as pernas e acompanhava de olhar para cima a lâmpada num estalar piscativa. Sabia, a qualquer momento de saltar pela porta nunca fechada. Angustiava-se a chorar. Arrependimento matasse, morria.

Pela manhã, acendia a luz do banho, e assim a deixava, por tempo, com suficiência para dominar o território, anunciar o tratado de paz: baratas e ela. Só depois se encorajaria ao chuveiro, sempre alerta ao descuido de uma ou de outra a apresentar-se sem respeito à suposta trégua.

Esforçava-se, por isso, a passar o dia fora: em busca do emprego, a merendar, a pretexto de visita, em casa de amigas, a encostar-se no banco da pracinha, a repensar a volta no último degrau da escada.

Na quitinete, quando vencida, olhava pela porta do banheiro e lá estavam as malditas.

Naquela noite, o calor sufocava. Sem banhar-se, sem o sono, enlouquecia.

Acendeu a luz. Alvoroço entre os insetos. Pacto rompido. Recuaram. Silêncio.

A moça se despiu. Pendurou as roupas em inalcançáveis. Passos inseguros a encostaram a um canto. Pronto. Imaginou: “a água as espanta!”

Molhava o corpo nu, alvo e belo, quando a lâmpada deu último estalo e caiu como a noite. Escuro absoluto. Silêncio quebrado. Centenas de patas. O derradeiro grito se ouviu, agonioso, devorado por seguinte silêncio a ecoar até a chegada de outra moça fugidiça a responder ao convite da tabuleta de frente do prédio: “Temos Vagas”.




terça-feira, 13 de abril de 2021

Documentário "A Fortaleza da Cultura", lançamento HOJE, 13 de abril no Canal FDR


O documentário em média-metragem A Fortaleza da Cultura (35 min), iniciativa da Fundação Demócrito Rocha em parceria com a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (SecultFOR), se une ao Álbum Fortaleza Ilustrada na celebração dos 295 anos da cidade de Fortaleza (13 de abril de 2021).

Segundo Raymundo Netto, criador do projeto e responsável pelo argumento, a produção tem como objetivo apresentar ao público as experiências coletivas criativas e criadoras existentes na cidade, despertando a reflexão e o debate sobre a cidade e seu campo e diversidade cultural, o nosso repertório urbano, a preservação de nossas identidades, as manifestações tradicionais populares, em especial, nos bairros da periferia, “os mais ricos espaços de criação de modos de vida e de experimentação estética”. (Fortaleza 2040).


Nele, convidamos alguns representantes da resistência de nossa cultura, riqueza transmitida de geração a geração, para nos apresentar o que fazem, como fazem e o que sentem, e a sua história, de onde veio e para aonde vai: mestre Zé Pio (Boi Ceará)/Barra do Ceará, mestre Kiliano (reisado Nossa Senhora de Fátima) /Barra do Ceará, Bruno Perdigão (Bloco Carnavalesco Luxo da Aldeia)/Mercado dos Pinhões, Zé Testinha (quadrilha Zé Testinha)/Vila União, Edmar Freitas (quadrilhas juninas)/Messejana), mestre Lula e mestra Karla (Capoeiristas da Associação Zumbi Capoeira)/Granja Portugal e Raimundo Praxedes e Janaína Baobá (Maracatu Nação Baobá)/Bela Vista.

Esperamos que apreciem, curtam e compartilhem essas histórias d’ A Fortaleza da Cultura.


Documentário A Fortaleza da Cultura

Lançamento no Canal FDR: 13 de abril de 2021 às 19h e reprise dias 24 e 28 de abril às 18h.

Canal FDR:  48.1 (aberta) | 23 (Multiplay) | 24 (Net) | 138 (Brisanet)

Endereço Virtual: https://youtu.be/lj0lrJUv3VY














 

segunda-feira, 12 de abril de 2021

"Ilusionista", de Raymundo Netto para OPOVO


 Samuel, quando veio ao mundo, em vez de chorar, clamava: “quero ser mágico!”

Assim, desde de a sua meninice, peregrinava por jornais, revistas, manuais e internet e colecionava álbuns de figurinhas em busca de conhecer e se aproximar dos grandes prestidigitadores de sua época. Nesse intuito, fugiria da casa paterna resolvido a apreender os segredos milenares e maravilhosos do ofício.

Debulhadas inúmeras folhinhas de parede, o adolescente se via perdido, sozinho e faminto num mundo de inimaginável realidade, até a chegada na cidade do famoso Gran Circo Internacional. Entusiasmado, Samuel se dirigiu a ele, enfrentando a fila de pretendentes a serviços temporários, pois faria qualquer coisa, desde que pudesse se aproximar de Eugênio Roudin, o mágico, o melhor de todos. 

Aceito, passava o dia varrendo e limpando a coxia, lustrando objetos e, no momento do espetáculo, carregando pesos, vendendo pipoca, milho verde, balões e brinquedos de néon. Ali, dessem qualquer espaço, Samuel não perdia a oportunidade de anunciar: “Seria o maior mágico do mundo!”

Às noites, no sereno frio da manta naftalínica, seduzido pelo vagalumear das estrelas perdidas na vastidão do cortinado negro, fantasiava o seu picadeiro de encantamentos.

Um dia, de tanto se enxerir, perturbar a todos e assediar Roudin, conseguiu arrancar dele a promessa de treiná-lo como seu assistente. Seu objetivo, enfim, se realizaria.

Porém, para a surpresa do mágico, apesar do entusiasmo e a declarada paixão pela arte do ilusionismo, quando Roudin pôs numa mesa uma série de objetos utilizados em seus truques, como baralho, cordas, lenços, flores artificiais, moedas, dados, argolas, entre outros, o rapaz se resumia a esfregar as mãos e fitá-los com uma ansiedade vazia de qualquer experiência. Roudin pensou: “Teria que começar do zero!”. Para piorar, quando o fez, tudo indicava que Samuel não tinha a menor aptidão para a coisa. Era desastrado, desconcentrado, uma tragédia: um coelho descia-lhe pela perna da calça, se enrolava em lenços coloridos, tropeçava em fios de náilon disparando papéis coloridos pelo colarinho, escapavam-lhe pombos pelas mangas da camisa, esparramavam-se copas e ouros pelo chão... nada haveria de dar certo.

Após várias tentativas e frustras recomendações, Roudin surtou. Era uma absoluta perda de tempo... do seu tempo! Já não entendia de onde o rapaz tirara aquela ideia de que um dia poderia ser mesmo um mágico de verdade. Era, isso, sim, um inútil e grandessíssimo pateta que jamais dominaria o universo da magia.

Os colegas de circo, sentados nas arquibancadas a admirar os ensaios do garoto, nunca haviam visto o elegante mágico perder as estribeiras. E alguns, por considerarem Samuel um tanto pedante pelas suas incontáveis afirmações de ser o maior mágico do mundo, diante de suas trapalhadas, gargalhavam e o vaiavam a valer, numa estrondosa, constrangedora e irremediável humilhação

Transtornado, Samuel assistia ali, por meio da plateia de seus próprios colegas e mentor, o coração dilacerar em rasgos perversos de solidão. Ainda diante do achincalhamento geral, abaixou-se, sacou um punhado de terra molhada por suas lágrimas, moldando com ela uma ave entre as mãos. Soprou seu bico e, como que puxando alfenim, fez crescer o grande pássaro vermelho a emitir sons dolorosos e estridentes. O fracassado artista, então, saltou sobre seu dorso, subindo em voo ligeiro através das estrelas costuradas na lona circense, sabe-se lá Deus para onde, determinado a nunca mais acreditar em sonhos.



quinta-feira, 1 de abril de 2021

AlmanaCULTURA Recomenda: LANÇAMENTO "Contos Escolhidos"


Clique na imagem para ampliar!

O livro Contos Escolhidos, de autoria de Angélica Sampaio e Grecianny Carvalho Cordeiro, já está disponível (versão impressa) e à venda no site da Editora Sol Literário, com direito a uma linda sacola personalizada, por meio do link www.editorasolliterario.com.br

Também está disponível a versão digital pela Amazon:

https://www.amazon.com.br/Contos-escolhidos-Angélica-Sampaio-ebook/dp/B0913GVVRS/ref=mp_s_a_1_7?dchild=1&keywords=angélica+sampaio&qid=1617286126&sr=8-7

Os(As) interessados(as) podem aproveitar e conhecer, pelo site da Editora, diversos outros títulos de ambas as autoras, em diversos gêneros e temáticas distintas e por preços convidativos.

Vá lá, conheça a prosa dessas autoras, o AlmanaCULTURA recomenda.

Sobre o Livro:

São narrativas mitológicas, principalmente, que brotam desde o mundo clássico greco-romano, passando pelas lendas medievais, resgatando mitos indígenas da região quixadaense, para desembocar numa narrativa lampiônica em que não há derramamento de sangue.

O leitor atravessa esse universo sem tédio e sem cansaço, diante da dinâmica da contação de histórias envolventes, que mesmo conhecidas, algumas, recebem contornos novos e sequestram o leitor de forma prazerosa.

Logo na primeira parte do livro, Angélica Sampaio, telúrica, como em suas outras obras anteriores, privilegia cenários quixadaenses e transita entre OVNIS pacíficos e antigas lendas indígenas.

A segunda parte do livro, que traz os contos de Grecianny Carvalho Cordeiro, leva o leitor a mergulhar em tempos heroicos do mundo greco-romano, com seus deuses e heróis. Logo na primeira narrativa, “Ragnarök”, o leitor experimenta
a fúria dos deuses e só respira normal quando chega à última linha do texto. 
O único consolo nesse percurso é que se o leitor nele morrer será de forma heroica e portanto as Valquírias o conduzirão ao Valhala.

 

domingo, 28 de março de 2021

"Diorama", de Raymundo Netto para O POVO


A campainha da porta tilintava anunciando a saída de Júlio, o servente da “Diorama”, uma loja de taxidermia. O rapaz não escondia de ninguém, nem do patrão, o seu descontentamento com aquele emprego, mas sem outra opção no momento....

O estabelecimento pertencia ao sr. Vitório, homem velho, amargurado, de físico atarracado e ar sombrio, mas extremamente habilidoso com as mãos quando de seu ofício de dar “vida” a animais mortos.

Todos os dias, Júlio chegava e mal recebia uma boa-tarde de seu patrão, liturgicamente empastado por trás de sua mesa de trabalho, avental e mãos sujos de argila ou gesso e os olhos espremidos no mirar profundo de um corpo devassado.

Ali, não havia janelas. À luz apenas de pequenos faróis – e de alguma nesga intrusa de vitrais coloridos da porta –, as sombras tremeluziam no ar inebriado de solidão e silêncios imorredouros. Por todos os lados, prateleiras de livros de zoologia, carcaças, ossos e recipientes de vidro com vísceras conservadas em formol ou álcool, e paredes, teto e assoalho entulhados de animais – ou partes deles – “perpetuados”: macacos, felinos – dos pequenos aos de grande porte –, psitacídeos de diversas cores, cães, tucanos, guarás, gaviões, cobras, iguanas etc.

Pegava a vassoura, o espanador e iniciava a limpeza, assistindo de esguelha ao trabalho meticuloso de Vitório, a compor máscaras mortuárias, conferir medidas corporais, manipular manequins de arames e moldes de resina, curtir peles e couro, colando-os e costurando-os pacientemente.

Não admitia, enquanto isso, “perguntas tolas”, a não ser quando ele mesmo – o que acontecia raramente – terminava a sua peça e, numa admiração michelângica, chegava-lhe junto, maravilhado, impondo aqueles cadáveres revividos aos seus olhos, numa glorificação sinistra e quase divina de sua arte. Depois, a passos leves de se andar em nuvens, conversava com seus animais, chamava-lhes pelo nome, acarinhava-os a penugem ou o pelo, maternalmente admirando-os através dos olhos de vidro colorido e brilhantes de próteses cuidadosamente escolhidas.

Vitório não era querido na vizinhança. “Diorama”, que mais parecia aos vizinhos uma casa de horrores, destoava do bairro a evoluir para um comércio elegante, de avenida próspera e voltada para o futuro. Da mesma forma, os poucos clientes que lhe restaram pareciam tão sombrios e excêntricos quanto ele.

Naquela noite, a campainha tocara uma segunda vez. Vitório, iluminado apenas pela sua luminária de mesa, desconfiou e a direcionou à porta, assistindo o aproximar de um estranho segurando um punhal: “Me passa tudo que tem, velho, senão acabo com você!”

Vitório, como se o ignorasse, mandou: “Fosse embora!”. O bandido, alucinado, pulou sobre ele, derrubando-o no chão. Agarrou-o violentamente pelas alças do avental e o ameaçou. Mas o velho, indiferente, insistiu: “Eu não tenho nada... Mate-me!”

Irado, iniciou-se a pancadaria. Se não dinheiro, qualquer coisa, mas dali não sairia de mãos abanando.

Nisso, o salão é tomado por sons estranhos, crescentes e ensurdecedores: rugidos, guinchos, grunhidos, berros, piados estridentes, passos e bater renitente de asas. Assustado, o larápio, diante das sombras a agigantarem no escuro, tapava os ouvidos, quando sentiu que saltavam por todos os lados sobre ele, mordendo-o, bicando-lhe os olhos, rasgando o seu rosto e a sua pele com garras potentes. Ele gritava, até algo comprimir o seu pescoço, e, mudo, buscou em vão o seu punhal...

Na tarde seguinte, Júlio chegava à loja. O cheiro de químicos no ar. Estranhou a ausência do velho, os livros dispersos no chão, vidros quebrados, gaiolas e paredes vazias. Não havia mais animais, apenas dependurado no alto da parede um corpo humano, um tanto disforme, estripado e com grandes olhos brilhantes de vidro.




 

segunda-feira, 15 de março de 2021

"Workshop de Roteiro para HQ", com Zé Welligton


Está chegando a hora... Luzia está chegando!

Como parte dos eventos de lançamento de Luzia, a nova HQ do roteirista Zé Wellington, ganhador do Troféu HQ MIX, junto com a Debora Santos, nesta semana, de 15 a 19 de março, Wellington disponibilizará, GRATUITAMENTE, um Workshop de Roteiro para HQ.

Zé Wellington resolveu testar esse formato inusitado de dividir o workshop em cinco pedaços, um por dia, através de lives no seu Instagram. Então é só chegar às 17h no seu perfil (@zewellington) para assistir.

Inclusive, quem assistir a pelo menos 75% das aulas e estiver inscrito, receberá certificado de participação.

Este projeto é apoiado pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura - Nº 13.811, de 16 de agosto de 2006.

Programação:

·     15/03 (segunda) - 17h - De onde vem as ideias?

·     16/03 (terça) - 17h - Estruturando a história

·     17/03 (quarta) - 17h - Argumento

·     18/03 (quinta) - 17h - Formatação de roteiro

·     19/03 (sexta) - 17h - Mercado para roteiristas

 

Sigam o perfil do Instagram de Zé Wellington para não perder nenhuma aula: @zewellington

E caso deseje receber o certificado, deverá estar inscrito pelo seguinte link a seguir:


https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSeBcvI9PXkWBrc0TPSx7yxSPgzvdmCJcDuaVwmgp_69eVKaTA/viewform


 

sábado, 13 de março de 2021

"Dadivosa", de Raymundo Netto para O POVO

Dadivosa era mulher para homem nenhum botar defeito. E não apenas homem, pois mesmo as mulheres, que sabemos ter o olhar microscópio e imperdoável para as falhas congêneres, nela, exaltavam: “É perfeita!”

Quando saía à rua, ao final da tarde, pintava de céu aquele chão. Todos queriam saudá-la, dignar-se um seu sorriso – lindo demais, ai, meu Deus –, ouvir de sua voz o cantar de “boa tarde”, tão feliz quanto o sonoro anúncio do carro do pão. Meninos e cachorrinhos corriam à sua volta, homens e mulheres se digladiavam às brechas de portas e janelas, até os artríticos velhinhos se punham em pé. Faltava muito pouco para ser santa ou milagreira.

No entanto, na vizinhança, um mistério passou a rondar a moça.

Marcelo, um rapaz que cresceu no bairro com a fama de “bicho-papão”, jurava ter emplacado um discreto romance com ela. Mas, quem diria, depois disso, mudou completamente. Parou de beber, sair às festas, conversar com amigos, largou o emprego e, por fim, mudou-se de cidade. Porém, antes de partir, confidenciou ao Maneco, garçom do bar predileto: “O homem que tem a Dadivosa não presta mais.”

Confessionário de bar não guarda segredo e, de boca a boca, aquele enigma passou a atiçar a outros militantes do amor livre, que, cada um a seu estilo, se aproximava da moça com o mero intuito de quebrar aquele tabu. Mas, era regra: após todo o farol dos primeiros dias, contados em salão para ouvidos curiosos, os outrora confiantes galanteadores se rendiam ao ostracismo completamente e confirmavam: “Homem que tem a Dadivosa não presta mais! Presta mais, não”.

Genésio, moço bonito e com autoestima de 13 andares, recém-chegado na cidade, quando soube do fuxico, zombou: “Cambada de macho frouxo... Pois eu mostro como se doma uma potrinha. Cadê Dadivosa? Cadê?”

Como cena de filme, justo naquele instante, ela cruzava ritualmente a rua, emprestando à tarde o seu brilho crepuscular. Aqueles homens emudeceram e Genésio, entendendo ser aquela o seu alvo, não negou: “Uma bicha dessas deixa um cabra atoleimado... Me aguarde...”

Alegres, os papudinhos de plantão abriram apostas e pagaram muita cerveja para o valente moço.

Não tardou e ele chegaria à solitária Dadivosa, muito calada e então encantada com o seu palavrório experiente e sentimental. Um pulo para, com jeito, convencê-la a ir a um motelzinho de beira de estrada, porque na cidade “não tinha coragem, não... Imagina!”

Genésio se sentia um Deus, tendo aos seus pés o olhar doce e quase virginal da jovem, até que, ao fechar a porta do quarto, sentiu quando ela puxou agressivamente suas roupas, rasgando-as. Ele, surpreso, a princípio, pedia-lhe calma. Porém, ela, ensandecida, não o atendia: dava-lhe na cara, o arrastava pelo chão, mordia seus dedos e ombros, se jogava por cima, puxava-lhe os cabelos e os pelos, berrava alto e gargalhava o tempo todo, a ponto de o rapaz quase desmaiar de desespero e de dor.

Genésio pedia para parar, “jogava a toalha”, sentia-se mal, agarrou-se à maçaneta da porta, mas ela o trazia de volta todas as vezes até não poder mais...

Passados alguns dias, os amigos de bar, acostumados ao paradeiro daqueles pretendentes à Dadivosa, já dividiam o fruto das apostas, quando Genésio apareceu. A turma comemorou. Contudo, ele nada falou, apenas sorria trêmulo num canto de boca a sacudir a cabeça.

Não confessaria, mas quando Dadivosa o procurou no dia seguinte, não atendeu. Dissessem que não estava, que ninguém sabia dele ou que morreu. À noite, em seu quarto de pensão, deitava na cama o seu corpo ainda todo arroxeado e se esforçava para dormir no travesseiro molhado de suor e lágrimas, forrado de pesadelos intermináveis com aquela cruel e insaciável devoradora de homens.



 

sábado, 27 de fevereiro de 2021

"Pium", de Raymundo Netto para O POVO


“N-Não é nada dis-disso, gente! Deixa eu explicar...”

Janaína era uma jovem irrevogavelmente tímida e solitária. Havia quem dissesse, por pura troça, que a moça possuía o segredo do manto da invisibilidade, tal seria a sua capacidade de “passar em branco” fosse onde fosse. O exagero não era, porém, distante da realidade. Trabalhava naquele escritório há 5 anos. Entrava calada e saía muda todos os dias, de forma que um vaso de planta ornamental era mais popular.

Naquele dia, no entanto, um detalhe despertou a curiosidade geral: um chupão no pescoço de Janaína! Sim, a mancha roxa a tomar extravagante o seu pescoço pálido soava como um escândalo. As colegas, que nunca lhe dirigiam qualquer palavra, quase em coro, a rodearam: “A noite foi quente, hein, garota? Abre o jogo!”

Janaína, num misto de surpresa e falsa indignação, corou abruptamente enquanto gaguejava a sua frustra tentativa de dispensáveis explicações. As colegas a acalmavam: “Besteira... quem nunca, não é?” Nesse instante, ela notou pousar em seu ora tentador pescoço o olhar malicioso de seus colegas, que a assediariam pelo resto do dia, afinal, a inesperada revelação de tigresa tinha lá as suas delícias.

Janaína custava a acreditar no que acontecia. Sentia-se como subitamente abduzida de seu mundo paralelo, escuro e sem graça. E o mais engraçado de tudo é que aquele suposto chupão era, na verdade, fruto da simples picada de um incômodo inseto. Aliás, em meio à excitação daquela “estreia”, sentia-se também envergonhada, pois que o seu Romeu, sabia ela e somente ela, tratava-se mesmo de um borrachudo!

E mais: nunca havia tido sequer um namorado. Quando não estava no batente, cumpria o dia a ler mangás, contos góticos e eróticos, escrever fanfics, colecionar figuras de ação e a se entupir de sorvete e batatas fritas, assistindo a temporadas intermináveis de animes. Fora isso, era dormir e sonhar com a vida que queria ter. E, para nossa surpresa, era aquela: ser o centro de atenções, ouvida, desejada, amada e invejada!

Assim, em terra de sapos, de cócoras com eles, desatou a exercitar a língua e a imaginação, ocupando o ouvido das colegas com ousadas e vibrantes histórias de amantes e namorados imaginários. Elas, boquiabertas, animavam-se e não se conformavam por não terem nunca reparado na pequena e atarracada Janaína, uma hedonista, libertina, e por que não dizer, devassa!  

Não parou por aí: nos dias seguintes, em banho de loja, abandonou as rotineiras malhas do Dragon Ball e Sailor Moon, os seus inseparáveis tênis de cano alto e passou a usar blusas mais justas, com razoável decote, e uma saia de poderosa fenda, a equilibrar-se sofridamente nos calçados, mas mantendo seu mundo cenográfico, o que duraria por mais alguns dias, nos intervalos do cafezinho, na qual era uma espécie de Sherazade do edredon, uma fabuladora de profanos prazeres.

Todavia, é sabido, desde sempre, entre a glória e o fracasso, tudo passa! Caindo na rotina de todas as coisas móveis e sem haver nada de novo debaixo do sol, passou rapidamente a ser ali qualquer uma. As colegas aos poucos cansaram da mesmice de suas narrativas, então, mais adocicadas, além do que, nunca apresentava nem era vista ao lado de tais garanhões e aquele chupão logo ingressaria na modalidade “troféu antigo”.

Janaína endoidou. Para ela, antes ignorada do que esquecida. Sentia-se traída, um verme. Então, não foi de estranhar nem de causar espanto, quando certo dia ela não compareceu ao escritório, estando hospitalizada após ter desesperadamente enfiado a cabeça dentro de um vespeiro.





 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

"Vagas", de Eduardo Silva


   Para Lucirene Façanha

 

Era uma mulher,

descalça pela praia a caminhar,

apagava o aveludado da areia

que as ondas insistiam em renovar.

 

Vieram ondas fortes...

 

Era uma moça lembrançosa

com coração leve, descarregado.

Já não a machucavam as pedras passadas.

 

Soprou uma brisa amena...

 

Era uma menina em liberdade.

Às mãos, duas conchas guardava:

sonhos que não se quer deixar.

 

O sol se punha.