Na crônica anterior, falamos de uma Elizabeth Cochrane
(1864-1922), a “Nellie Bly”, que as pessoas geralmente conhecem. Hoje, desvendamos
parte de seu lado B, ainda silenciado ou, pelo menos, pouco conhecido da
jornalista.
Perdeu
o pai, juiz de profissão, muito jovem. Sem deixar testamento, a família caiu em
penúria, levando a mãe a casar-se novamente. Mas, além de alcoólatra, esse
marido se mostrou violento. Passou a agredir e a humilhar a mãe de “Pink” –
como Nellie era chamada pela família, na época – e a ameaçá-la de morte toda
vez que ela mencionava divórcio. Por isso, aos 14 anos, Nellie precisou depor em
tribunal contra o padrasto, revelando as agressões sofridas pela mãe, episódio
que tentaria mais tarde apagar de sua história. Determinada a não se casar –
afirmava que, ao lado de um pobre viveria como empregada e, ao lado de um rico
seria uma “boneca de estimação” –, decidiu ingressar na universidade para se formar
professora. Contudo, diante da dificuldade financeira da família, cursou apenas
um semestre, despertando-lhe intensa frustração.
Para
sobreviver, a família assumiu a direção de pensão modesta destinada a trabalhadores.
Lá, Nellie lavava roupas, limpava quartos, banheiros, servia almoço para
operários, sem qualquer perspectiva de futuro, até o dia em que leu, indignada,
o artigo “Para que servem as meninas”, no Pittsburgh Dispatch. Dali,
como já sabem, nasceu a “Nellie Bly”, pseudônimo inspirado numa personagem da
música de Stephen Foster (1826-1864), na qual o marido, tocando banjo, dita
ordens domésticas: “Nelly Bly, traz a vassoura aqui/ Vamos limpar a cozinha,
meu bem./ Pique a lenha, meu amor,/ E faça o fogo arder./ Enquanto eu pego o
banjo,/Dá uma mexida na polenta”.
Aos
trinta e um anos, reconhecida como grande jornalista investigativa e autora do
romance policial O Mistério do Central Park (1889), conheceu Robert
Seaman, magnata do ramo de manufatura de ferro esmaltado, quarenta anos mais
velho do que ela. Semanas depois, se casaram em Nova York. Houve grande burburinho,
não apenas pela diferença de idade do casal, mas por ela deixar o Jornalismo
para se dedicar, aparentemente, ao lar e aos cuidados com o marido.
O
casamento, no entanto, durou apenas nove anos. Com a morte de Seaman, vítima de
complicações de um acidente, Nellie assumiu a empresa. Criativa, embora sem
vocação burocrática, passou a desenhar e a fabricar produtos inovadores que ela
patenteou, como tambor de aço de costura dupla para transporte de petróleo,
latas de leite de aço esmaltado e baldes de lixo automatizados. No contato próximo
e com a escuta ativa de seus operários, determinou a instalação de clínicas de pronto-atendimento
a eles e às famílias, fundou um clube esportivo, inaugurou uma biblioteca e
garantia salários mais justos e férias. Enquanto isso, não sabia, mas a sua notória
aversão à rotina administrativa permitiu o desvio de verbas da empresa pela
equipe de contadores e gerentes. Durante anos de litígios judiciais, perdeu
tudo e só não caiu em miséria porque regressou ao Jornalismo, sua maior paixão,
atuando na cobertura da Primeira Guerra Mundial.
Mesmo
finda a guerra, residindo sozinha em humilde quarto de hotel em Manhattan, não
deixou mais de escrever. Agora, utilizava as suas colunas de jornal para acolher
mães solteiras, mulheres desamparadas e crianças órfãs em busca de abrigo. Chegou
a apoiar financeiramente – doando seus poucos recursos ou de amigos solidários
– a famílias e a órfãos desfavorecidos.
Faleceu
em 1922, pobre, sem direito a uma lápide, que só chegaria quase 60 anos depois,
em reconhecimento da comunidade a toda a sua curiosa e inspiradora trajetória.












