terça-feira, 12 de outubro de 2021

"Minha Primeira Solidão", de Severiano de Barros


 Praça Visconde de Pelotas, atual praça Clóvis Beviláqua, no Centro (Arquivo Nirez)

Existia uma estrada, um caminho do ir e vir. No meio do caminho havia uma praça [o autor refere-se à praça Visconde de Pelotas, a atual praça Clóvis Beviláqua], uma praça com fonte e caminhos que se cruzavam na sombra das árvores. Eu era menino, menino sozinho que conversava sozinho, brincava sozinho, sorria e chorava sozinho. Eu e minhas divagações. Costumava sentar naqueles bancos verdes, longos bancos de praça onde o distraído e cansado transeunte se acomodava na impessoalidade daquele pequeno bosque, tão acolhedor. Bancos de praças são impessoais e amigos a um só tempo. Eles sabem muito sobre nós. Ali, todos os dias, todas as tardes, sentavam-se crianças, adolescentes e velhos que simplesmente sentavam por sentar. Sentavam pelo simples prazer de contemplar caminhos e folhas. Folhas que o vento soprava e brincava feito criança. Tudo era calmo. Naqueles longos bancos eu percebia o valor do silêncio. Passarinhos inquietos em cada galho, mendigos ao pé dessa ou daquela árvore. Assim era essa praça onde todos se aninhavam. Enquanto isso amantes, sorrateiramente, tomavam a praça ao anoitecer. Aquela praça era meu lugar preferido quando, aos sábados, regressava do Sesc para minha casa. Eu e minhas aflições, alegrias e questionamentos de criança. “Por que o céu é azul?” Havia na praça uma fonte em forma de círculo que jorrava água e tristeza. Nem sei quantas vezes sentei ali, naqueles bancos, naquelas sombras, naquela paz que me fazia tão bem. Sei que a praça escutava meus pensamentos. Falava comigo através do vento que soprava macio, com o suave barulho da fonte e das folhas. Depois de algum tempo ali sentado eu levantava do banco e seguia, a contragosto, o caminho em direção à casa onde morei por muitos anos. Hoje já não há mais caminhos, não há sombras nem o barulho de árvores. Hoje não se vê, naquele logradouro, passarinhos ao entardecer. Ficaram apenas as recordações. O tempo passou com muita pressa e eu nem percebi. Não há mais a casa, não há mais o lar daqueles dias. Sei que continuo procurando respostas às minhas indagações. Talvez tenham ficado no banco daquela praça, lá no passado, ao lado da fonte, debaixo de uma árvore esperando o entardecer. Se antes ela, a praça, era um conforto para minha alma, por tudo o que ali vivi, hoje nada mais é do que um sepulcro de concreto, calor, barulho e indiferença. A praça se foi com as águas do reservatório, águas que regaram minha infância, minha primeira solidão.



domingo, 10 de outubro de 2021

"O Sobrado da Abolição - Parte I", de Raymundo Netto para O POVO


A Igreja Matriz de Pacatuba (foto: Raymundo Netto)

Pacatuba é um sedutor município cearense localizado a apenas 30 km da capital, florescendo aos pés da majestosa e lírica Serra da Aratanha. Embora muitas vezes seu nome seja relacionado ao trágico acidente aéreo que vitimou 137 passageiros (o voo VASP 168, em 1982), a pacata cidade traz, principalmente na sua história e geografia, características significativas e legados curiosos, embora muitas vezes nem tão lembrados, mas que deveriam ser, não fosse o nosso povo tão distraído e deslumbrado pelas brilhantes desimportâncias vendidas a milhões e a lágrimas, por meio de superficiais, mas eficientes, apelos emocionais de TV e smartphones.

O povoado de Pacatuba elevou-se à vila em 8 de outubro de 1869, comemorando, na semana que passou, 152 anos – claro, essa é uma narrativa dos brancos, pois a região antes já era berço da população indígena, especialmente dos pitaguaris e potiguaras.

A instalação da Câmara Municipal viria em abril de 1873, sob a presidência de Henrique Gonçalves da Justa, o primeiro gestor do município, proprietário do sítio “Palmeiras”, e, certamente, nome dos mais importantes na história do desenvolvimento da cidade, sendo um de seus maiores benfeitores, daí emprestá-lo à sua principal praça – mesmo que popularmente a denominem “praça da Fonte” –, sendo comparável seus feitos ao do boticário Ferreira, o niteroiense de Fortaleza. 

O farmacêutico e escritor Rodolfo Teófilo, que embora seja baiano, tem parte de sua vida fincada na vida pacatubana. Em História da Seca faz referências ao trabalho benemérito do capitão Henrique Gonçalves da Justa, proprietário também de “dois sobrados vizinhos, o amarelo e o encarnado, ambos de belo estilo, sitos na praça que hoje ostenta seu nome venerando” (Manoel Albano Amora, em Pacatuba: geografia sentimental, 1972). Falaremos mais sobre esses sobrados, posteriormente.

Estive em Pacatuba, pela primeira vez, há alguns anos. Na época, encantado por ela, pesquisava Juvenal Galeno, decerto um dos autores mais fundamentais da historiografia da literatura cearense. Galeno nasceu em Fortaleza, em 1836, mas logo seus pais o trouxeram ao sítio Boa Vista, no alto da serra, onde ainda hoje se encontra um sobradão atípico, e ali viveria até 1887, aos 51 anos, quando passaria a residir em Fortaleza, apenas por conta da educação dos filhos. O tal sobradão tem estranha arquitetura, construído sobre rochedos e curiosamente denominado pelos pacatubanos de “casa da baronesa”, em referência não ao pai, mas à mãe de Galeno, Maria do Carmo Teófilo e Silva, tia de Rodolfo Teófilo, aqui já citado. O pai de Galeno, José Antônio da Costa e Silva, filho de Albano da Costa dos Anjos, rico produtor de algodão e proprietário de extensos terrenos na serra. José da Costa é considerado o pioneiro na comercialização do café no estado, sendo seguido por outros membros da sua família, nomes até hoje lembrados pelos historiadores, seja pela cultura cafeeira, pelo envolvimento político ou pela participação na Confederação do Equador.


Sobrado da família de Galeno no sítio Boa Vista (foto: Raymundo Netto)

                              

Diante da importância da família do capitão José Costa, por Pacatuba, e no sobrado da família, passaram alguns conhecidos personagens históricos, entre eles, os membros da Comissão Científica Exploradora (1859), criada pelo então imperador d. Pedro II, composta por Freire Alemão, Guilherme de Capanema, Gonçalves Dias, entre outros. Gonçalves Dias, já renomado por sua poesia em seus 36 anos, se hospedou na casa grande do sítio Boa Vista, tornando-se amigo de Juvenal Galeno, na época, com 23 anos, recém-chegado do Rio de Janeiro, de onde trouxe a edição de seu livro de estreia, marco do Romantismo cearense, Prelúdios Poéticos.



Juvenal Galeno, aos 23 anos, em Prelúdios Poéticos

 

(Continua daqui a 15 dias)



 

domingo, 26 de setembro de 2021

"Mãe só se tem uma", de Raymundo Netto para O POVO


“Eu sou sua mãe, por acaso?”

Com as mãos nos quartos, a se ver um antigo açucareiro, Itelvina, ainda cedo, protestava diante das contínuas solicitações do marido que não dava conta de suas próprias coisas. Admirável nunca esquecer ou errar o caminho para a mesa de refeições ou à TV. Por outro lado, Astolfo, resignado como um asceta e habituado com a turra da esposa, nem ligava. Todavia, não tendo eu também o interesse de passar a mão em sua cabeça, confirmo: em casa, de fato, o homem era de uma prodigiosa inutilidade.

“Se não ajuda, criatura, pelo menos não atrapalha. Se não sabe limpar, não suja, pelamordedeus!!!” Quem ouvisse essa cantiga diária, certamente, pensaria que ela não suportaria por muito tempo, que desistiria e o condenaria aos umbrais do inferno. Mas, veja só, quando criticada por ser a única esposa que, em dia de encontros de família, preparava o prato do marido, disparava: “Eu coloco é um bocado de espinhas de peixe para ver se pelo menos uma dá conta de vez desse imprestável!” Não era nada disso, todos sabiam: ela o servia primeiro para garantir o melhor pedaço e fazer do jeito que ele gostava. Astolfo entendia que aqueles arroubos e ameaças eram da boca para fora, contudo, ali havia um porém: não falasse mal de sua mãe que a casa caía.

Itelvina e d. Ernestina nunca se deram muito bem. A sogra, como muitas, cria que o filho era demais para ela, que poderia ter coisa melhor. Havia falecido há um tempo, mas no calor das discussões, a culpa de tudo era sempre da má criação daquela mãe extremosa.

Astolfo, para escapar dos embates diários, tardava a voltar para casa. Do trabalho ia ao costumeiro bar, jogar conversa fora, beber folgadamente, traçar um espetinho, ouvir um sambinha ou assistir a alguma partida de futebol, qualquer uma.

Naquele dia, excedeu na medida do copo e erguendo-o com uma dignidade extraordinária e um tom de quem profetiza o fim do mundo, mas nunca a ressaca do dia seguinte, rasgou: “Homem que trai a mãe não deveria nem ter nascido!” Acompanharam em uníssono dois amigos de ocasião, tão melados quanto ele: “Mãe é sagrada!”.

Outro colega, o Lafaiete, súbito, largou o copo na mesa, e deitou a chorar um pranto irredutível. Ninguém entendeu. Deram uns tapinhas em suas costas, chamaram-no e nada, o homem desatinou e, aos poucos, pôs-se a cantar miseravelmente: “... eu me lembro o chinelo na mão, e o avental todo sujo de ovo... se eu pudesse eu queria outra vez, mamãe, começar tudo, tudo de novo...”

Os parceiros de mesa entenderam: Lafaiete estava órfão. Todos os abraçaram, com a mais legítima camaradagem e empatia, coisa que a sobriedade muitas vezes não tolera.

E foi assim, cambaleando, que Astolfo voltou para casa com a cançoneta na cabeça: “Ela vale mais para mim, que o céu, que a terra e o mar...”

Itelvina, que já estava em casa maquinando a discórdia do dia, quando o viu cruzar a soleira da porta tão destruído, assustou-se. Ele nada falou, apenas murmurava, como em transe: “Tu és a razão dos meus dias, tu és feita de amor e esperança...”

A seguir, deitou-se no colo da esposa, a chorar convulso, enquanto a mulher o acolhia no carinho de cafunés: “Tudo bem, meu filho, tudo bem... Vai passar, viu? Vai passar...”

E assim, no regaço quente da mulher, Astolfo mergulhou em sono perfeito e seguro, como se a ouvir o canto terno de anjo traiçoeiro, ladrilhado de pedrinhas de brilhantes, de um bosque que se chama solidão.

 


 

domingo, 12 de setembro de 2021

"O Corpo Nu", de Raymundo Netto para O POVO


 

“Desaforo! Sacrilégio! Blasfêmia!” O padre, convidado para celebrar a missa de passagem do morto, horrorizou-se ao ver que ele, bem deitado e curiosamente sorridente no esquife, estava absolutamente nu. Elias, amigo fiel de Betinho – esse é o nome do falecido –, ponderou: “Na vida nada se leva, seu padre. É o desejo dele”.

Pasmo em sua autoridade, o sacerdote enxugou a testa calva com a estola: “Como assim? Quem ele pensa que é?” 

“O defunto?”, retornou quase cínico o Elias. 

“Ora, vamos, morto não tem querer, meu jovem”, sendo imediatamente corrigido: “Esse tem, seu padre, e é ser enterrado nu.”

No velório, poucas testemunhas, apenas uns quatro amigos de boêmia e um maior número de ex-namoradas, amigas e amantes velavam Betinho. Como exige a boa etiqueta funerária, aproximavam-se do caixão, examinavam-no da cabeça aos pés com atenção – e, por vezes, com sinistro entusiasmo – e despejavam lágrimas inconsoláveis. Algumas, a sós com o cadáver, até abraçavam o féretro, como se a tirar a última casquinha do falecido. 

“Como morreu?”, perguntavam. “De amor. Nunca amou, mas quando aconteceu, lhe foi fatal.” Assim, elas puxavam o lenço e o olhar para ele, debulhando um choro incomum de dor de saudade e, ao mesmo tempo, de traição e rejeição. Isto para um morto é a morte!

O padre, em meio ao rebanho distraído, pedia forças aos céus para salvar aquela alma da ruína do pecado. Não conseguia nem olhar para aquilo: “Chegar nu à frente do Senhor? Indecência!” Elias insistiu: “Mas, seu padre, e ele não veio de lá assim?” 

Mesmo não sendo grande cristão, Elias cumpriu o catecismo básico imposto na época do colégio e argumentou: “E o Jó, aquele homem da paciência, lembra? Aliás, o senhor precisa aprender com ele, viu? Pois é, não é em Jó que encontramos: ‘Saí nu do ventre da minha mãe, e nu partirei. O Senhor o deu, o Senhor o levou’”.

“Está repreendido, meu filho! Eu não posso anunciar a vida eterna a esse, a esse... depravado inconsequente nessas condições. Não posso!”

Enfim, deu-se assim a melódia. Os amigos, doidos para ir ao bar e percebendo que aquela missa não ia sair mesmo, se determinaram: reuniram-se, empunharam as alças do caixão e saíram num cortejo desembestado capela afora em direção ao cemitério. 

O padre inquietou-se com a profanação. Arrepanhou a batina e, agitando a pesada cruz, passou a perseguir os “sequestradores”, batendo em suas cabeças e conclamando, ali mesmo, com auxílio de um coroinha sonolento, a cruzada católica do tapa-sexo, na tentativa de salvar dos infernos a alma do pobre Betinho, aos solavancos naquele caixão. “Irmãos, fechem esse portão! O campo é santo... santoooo!”, berrava o padre.

Daí, diante do portão do cemitério, agora trancado e guardado por um renque de carolas, a batalha continuou fervorosa. O padre, o coroinha, duas beatas e um bêbado puxavam o caixão de um lado, enquanto os amigos de Betinho o puxavam de outro, estraçalhando-o e deixando estatelar o corpo na calçada. Isso não impediu que o inflamado bate-boca continuasse, cercado por uma plateia anônima de curiosos que tomava as dores e o partido do padre ou dos amigos de Betinho. E essa zoada só findou, quando o morto, impaciente com tal indefinição, escalou feito lagartixa e pulou o muro do cemitério, desaparecendo das vistas assombradas e em busca, ele mesmo, da sua derradeira e desejada pá de cal, o aceno final de despedida a esse mundo de gente má e hipócrita.



domingo, 29 de agosto de 2021

"Traição: a tragédia do São Pedro", de Raymundo Netto para O POVO


 O polêmico infortúnio do Hotel São Pedro, edificação em forma de navio, que singra a região desde 1951, e que inaugurou o ramo hoteleiro na orla da cidade, entre outras peculiaridades arquitetônicas e turísticas, é apenas mais um capítulo da nossa Fortaleza distraída e ambiciosa. Uma cidade sem passado, sem rosto, sem futuro possível.

Há quem diga, no azedo discurso nostálgico, idealizado e inútil: “Antigamente as pessoas respeitavam mais o que era antigo”. Isso é uma disparatada ilusão e, para não romantizar mais, outra mentira!

Contamos nos dedos as edificações da cidade construídas no século XIX. As poucas que restam, e muito poucas – por experiência, em breve, ainda menos –, datam do início do século XX, pois que nossos pais e avós, que Deus os tenham e os perdoem, já gostavam mesmo do “novo”, dos “modismos”. Naquela época, patrimônio era apenas uma palavra horrorosa e sem sentido, a não ser para aquela minúscula e sempre poderosa parcela privilegiada que já nasce em berço de ouro (que depois vira patrimônio e até razão de morte em família) e sabe bem o valor que um patrimônio – financeiro, diga-se – tem.

Daí, justamente em 2021, quando o exótico e imponente prédio completa 70 anos de existência e divina resistência, nós fazemos com ele o que a sociedade ignorante, consumista e desperdiçadora faz com os nossos idosos: os reconhecem como inúteis, desprezam a sua história, o seu legado, os seus feitos em vida produtiva e passam a desejar que se vão, que morram logo para não dar mais trabalho e ocupar aquele lugar que poderia ser de outro. Afinal, já viveu demais... e o povo gosta mesmo é de plástico e espelhos!

Vejamos: há 15 anos – acredite, tempo suficiente – teve início o seu processo de tombamento. O que foi feito desde então? Nada! “Deixa cair! Quero é ver!”

Como acontece com outro prédio na cidade, do início do século XX, que, como não poderia ser diferente, pertence a uma família respeitada (leia-se “endinheirada”, nada mais artificialmente respeitador do que se ter muito capital) na cidade. O empresário já afirmou, com toda a sua autoridade (ou boçalidade) política e bancária: “se tombarem, eu derrubo!” Lembremos da inocente canção: “quem tem mais do que precisa ter, quase sempre se convence que não tem o bastante.”

Coincidentemente, desde o início do processo, o São Pedro ficou à deriva diante do esvaziamento dos últimos moradores e do seu desrespeitoso, gradual e acelerado desmonte. Alia-se a isso, a falta de decisão e de ação do Poder Público (uma legislação que treme feito vara verde) e os conflitos de interesses com a família proprietária, irmanando-o com o “Mara Hope”, outro “encalhe” na nossa deflorada Praia de Iracema, a praia dos amores, que devem estar por vir com os escafandristas do futuro buarquiano.

Nos meus inquietantes sonhos, esses concentradores de renda têm a noção de retribuir à cidade e à sociedade – que bem sabem ser explorada a seu serviço – esses patrimônios. Que as grandes construtoras, curiosamente generosas em doações abundantes e decerto despretensiosas durante as campanhas políticas, unidas, usassem desses recursos na solução de casos como esse, quando a engenharia mostra o seu valor. E que os gestores, com coragem e mais atentos aos clamores sociais (e não políticos, partidários e/ou econômicos) e àquilo que a sociedade precisa, mesmo quando não entende ou não sabe, abraçassem essas causas, articulassem parcerias estratégicas e inteligentes, tomassem a frente de campanhas de mobilização de recursos para cumprir e fazer valer o idílico “pertencimento”. E que o nosso Titanic de tijolos, que há quem diga “Nem Deus derruba”, não se choque com o vil iceberg “da força da grana que ergue e destrói coisas belas.”




segunda-feira, 16 de agosto de 2021

"O Velório que não deu Certo", de Raymundo Netto para O POVO


Do caixão, levantou-se num repente. O olhar arregalado desmentia a aparente prostração.

Diante do acontecimento, os amigos de logo correram longe, saltaram janelas, engasgaram-se com biscoitos, quebraram xícaras, cobriram pálidos e adormecidos o chão.

Sentada, gritava coisa com coisa de um não partir agora. Haveria tanto a fazer ainda... E o que seria dos filhos?

O genro lançou, violentamente, o paletó no chão, se negando a crer no retorno da maldita: “Diabo! É mesmo uma estraga-prazeres!"

A filha mais velha deitou um choro cortante. Cria a hora de seu (do dela) merecido descanso. Há tanto cuidava da mãe, de não ter paz: noites maldormidas, horários do remédio, visitas frequentes aos médicos, banhos demorados com esponjas e repletos de reclamações, compressas quentes dias e noites, largos passeios na calçada depois do jantar.... Renúncia da cara vida, que somente aquela morte poderia libertar. Cria. Que engano, nem ela!

Encolerizou o filho a mãe ser desde sempre contra ele. E o que fazer agora com os planos de vender a casa velha? Com o dinheiro, abriria um negócio, arranjaria-se na vida. E agora? O que fazer de seus planos? “Egoísta!”

A empregada velha, malas prontas de partir na soleira da casa, na apatia da convivência, deu-lhes volta ao quartinho conjugado à cozinha: “Vou fazer a sopa de dona Mariinha.”

A pobre defunta, não tanto, ainda tonta, dizia não querer-se ir. “Ainda não!”

Os convidados também protestaram, argumentaram, insistiam: sempre fora tinhosa, danada. Será que só pensava nela? O seu marido, coitado, que Deus o tivesse ou não, já o sabia e foi-se logo, não bestava. E para que se arrumaram tanto? E o jantar?

Já botava uma perninha de fora do caixão... trouxeram-na de volta, ameaçadores: “Tem certeza disso, mamãe? É assim mesmo? Olha...”

Suspirosa, pedia uma chance. Ah, davam não!

Inconformada, mas no rumo do sem jeito, deitou-se lentamente, cruzou os medos das palmas de mãos sobre o peito e morreu de novo, enquanto ouvia, entre últimos ouvidos, os soluços lastimosos de família:

— Ai, minha mãezinha... Que saudade... É, mas descansou!



 


 

sábado, 31 de julho de 2021

"Bagulho", de Raymundo Netto para O POVO


Essa mulher é um bagulho! Olha só, gente! Ha, ha, ha...”

No bar, sede maior da democracia e da galhofa brasileira, onde também as mesas masculinas esticam as noites mais simplórias de pileques, carros, futebol e mulheres, a atenção daqueles amigos voltava-se à calçada para conferir o alvo da maldosa pilhéria.

Entre eles, Jurandir, o sempre alegre e carismático motorista de Uber, que, como os outros, correu à janela. Todavia, enquanto todos a apontavam, rindo a valer, deliciando-se daquela cruel mangação e, por tabela, imaginando o triste par daquele “bagulho”, ele voltou-se, de fininho, e correu ao banheiro. Ali, a postos e diante do mictório, Jurandir, envergonhado, se punia: “O bagulho é a minha mulher!”

Suzete, era esse o nome de sua sua esposa, foi a inapelável paixão de sua juventude. E não só a dele. No furor destemperado de hormônios contidos de adolescentes, era cobiçadíssima pelos garotos do bairro, por conta da sua beleza e da volumosa retaguarda, sendo por eles apelidada de Suzy Locomotiva ou Su Tanajura.

Não raro, na época, Jurandir ouvia os lamentos de recusas que ela distribuía soberbamente à rapaziada mais ousada, o que conferia a ela uma aura quase divinal.

Daí estranhar que, em uma festinha num clube mixuruca de bairro, ela mesma tenha dado bola a aquele jovem extremamente tímido e gorducho.

Durante meses, Jura assistia, com o orgulho de ganhador de loteria, aos colegas inconformados: “O que diabos essa mulher viu em você?” Ora se ele sabia! Estava feliz, despudoradamente fascinado pela namoradinha a quem dedicava declarações de amor eterno, decoradas de falas de telenovelas. 

Com ela, sua primeira vez e todas as demais de sua vida. Assim, casaram-se, e na fúria de seus impulsos de paixão alucinada, que fazia tremer as paredes finíssimas da casa de conjunto sem forro e geminada comprada a perder de vista, colheram cinco filhos, quase que em escadinha, isolando-os do convívio social.

Num ato de bravura e para dar conta, Jurandir trabalhava todos os dias, antes, como motorista de ônibus e, depois, taxista, enquanto Suzete enfrentava o pandemônio da rotina da filharada e da casa, alimentando-se de comida barata, servida a granel, e descuidando-se completamente de si.

Ainda no banheiro, o velho Jura via passar por seus olhos, e pela parede marcada por impropérios, números telefônicos e propostas indecorosas, o filme do romance de sua vida. Fechou a braguilha, saiu dali e, sem pagar a conta nem falar com seus colegas de mesa, voltou para casa.

Ao chegar, Suzete já dormia, enrolada na colcha extravagante. Admirava-a, em silêncio: “Bagulho... Bagulho?” Aquela palavra, para ele incompreensível e ultrajante, trazia uma gravidade a ferir mortalmente o mais íntimo de sua alma.

Naquela noite mesmo, resolveu: romperia com aqueles homens, passaria a frequentar outro bar e até deixaria de beber... Claro, mas isto só no caso de um fatalismo profético!

No dia seguinte, ainda consternado com o acontecimento, cumpria sua rotina de Uber quando atendeu ao chamado de um jovem, estilo jamaicano, descolado, colorido e com um gorro forrado de dreads. O rapaz o achou disperso, meio de bode, e, tirando da mochila uma sacola surrada de papel, sondou: “E aí, coroa, tu curte um bagulho?”

Jura, diante de inusitado questionamento, sentiu uma vertigem absurda, desequilibrou na direção, subiu a calçada e, ao brecar drasticamente, gritou com seu assustado passageiro: “Eu AMO o bagulho, entendeu? Eu AMOOO!!!”




 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Seleção para novos Agentes de Leitura (até dia 2 de agosto)


INSCRIÇÕES PARA O PROJETO AGENTES DE LEITURA DO CEARÁ

Até dia 2 de agosto de 2021

Mais informações e INSCRIÇÕES, ACESSE:

http://editais.cultura.ce.gov.br/2021/07/19/i-editalagente-de-leitura-formadora/

SELEÇÃO de:

1.     AGENTES DE LEITURA MEDIADORES:

·       Remuneração: 75 bolsas no valor de R$ 600,00 para atuar em seu próprio bairro (sendo um dos listados a seguir).

·       Residência: Em Fortaleza, obrigatoriamente nos bairros Bom Jardim (comunidade Alto da Paz e São Francisco), Praia de Iracema (comunidade Poço da Draga), Pan Americano, Vicente Pinzón (comunidade Castelo Encantado), Moura Brasil (comunidade Oitão Preto) e Curió (Curió, São Miguel e Palmeirinha).

.·       Idade dos candidatos: 18 a 29 anos

·       Instrução: Conclusão de Ensino Médio (em escolas públicas) – não pode estar cursando faculdade nem ter emprego.

2.     AGENTES DE LEITURA MONITORES:

·       Remuneração: 4 bolsas no valor de R$ 1.100,00.

·       Residência: Em qualquer bairro de Fortaleza.

·       Idade dos candidatos: 18 a 29 anos

·       Instrução: Conclusão de Ensino Médio (em escolas públicas) – CURSANDO no mínimo o 5º semestre da faculdade (Letras, Pedagogia, Psicologia, Sociologia e áreas afins e, de preferência, que goste muito de ler literatura.

3.     AGENTES DE LEITURA MONITORES DE CULTURA DIGITAL:

·       Remuneração: 3 bolsas no valor de R$ 1.100,00.

·       Residência: Em qualquer bairro de Fortaleza.

·       Idade dos candidatos: 18 a 29 anos

·  Instrução: Conclusão de Ensino Médio (em escolas públicas) – com FORMAÇÃO TÉCNICA na área de TI ou em cursos livres na área de Tecnologia.

OBSERVAÇÃO: a edição dos agentes de leitura de 2021 acontecerá ONLINE, utilizando aplicativo e tablets fornecidos para os selecionados e às famílias envolvidas. Ofereceremos suporte às famílias com os equipamentos utilizados nesta edição piloto.

"O Programa Agentes de Leitura tem por finalidade promover a democratização do acesso ao livro e aos meios da leitura como ação cultural estratégica de inclusão social, desenvolvimento humano e cidadania, com ênfase na formação de leitores, incentivando o aprimoramento da interpretação de textos, e na fruição da leitura literária no âmbito familiar das comunidades de baixa renda."

 


 

segunda-feira, 19 de julho de 2021

"Resignada Mente", de Raymundo Netto para O POVO

 

Jacó era um bruto, mas só dentro de casa. Na rua, era conhecido pelo seu coração amantíssimo, vivendo na comovente disciplina do pecado, mais plural do que a letra “S”, talvez a mesma usada pelos sultões sauditas ao amealhar seu vasto harém.

Disposto e com tempo de sobra, lançava-se ao vento, principalmente quando este lhe chegava com fragrâncias femininas. Para elas, tinha um faro extraordinário. Então, o homem se entregava molinho, molinho, feito almofada de sofá antigo.

Não raro, algumas se interessavam incondicionalmente por sua perfeita cafajestice. Outras, porém, ao perceberem a larga aliança dourada na mão esquerda, quase sempre enfiada no bolso, se frustravam: “Só podia ser... um tipão desses, né?” Mas Jacó não perdia a pose e contornava a situação com uma rodrigueana de efeito: “O casamento é o máximo da solidão com o mínimo de privacidade. É ou não é?”

Amélia, a esposa, era manicure, pedicure e designer de sobrancelhas. Não fosse atender a domicílio, mal saía de casa, arrumando-a, lavando roupa e preparando a refeição para quando o marido chegasse e se chegasse.

Você pode até pensar o quão infeliz ela deveria ser, contudo, dizia-se a mulher mais feliz do mundo. Às clientes, confessava numa sinceridade suicida: “É o amor da minha vida. A melhor coisa que me aconteceu. Sem ele não sei viver.”

De fato, durante o namoro e nos primeiros anos, poderia até ser possível uma tal felicidade, mas o tempo, associado a dividas intermináveis, à rasa e abundante programação da TV e uma boa dose de tédio, massacra qualquer boa intenção.

No caso, Jacó se rendeu a uma liberdade promíscua, enquanto coube a Amélia suportar esse amor de casal inteirinho para si. Era, como toda mocinha de novela, feliz e pronto, apesar da rádio calçada, ao pé da janela da cozinha, anunciar-lhe em detalhes megafônicos as aventuras do marido. 

Também as irmãs, amigas, vizinhas, clientes, mesmo quando tinham maridos tão ruins ou piores do que Jacó, insistiam no papo reto, de mãos dadas à liturgia divorcial – alguém, que não serei eu, tem que se separar primeiro... – e apontavam os defeitos do marido alheio, com rancor e intolerância, além de uma curiosa propriedade.

Numa roda de salão improvisado, uma das clientes apontou que o carro de Jacó fora visto estacionado na esquina de um tal apartamento. Sem tirar a vista da serrinha de unha, Amélia justificou: “Ele adora caminhar na praça em frente. Quer manter a forma. Um lindo!”

Outra vira Jacó em um telefone público a poucos quarteirões de casa. Preocupou-se: “Meu Deus, será que esqueceu novamente o celular no trabalho? Ele é tão responsável...”

Seria verdade que ela encontrara uma mancha de batom no colarinho dele? Até riu: “Sim, mulher, a minha sogra adora usar batons extravagantes. Ele deixa. É desapegado e tão amável...”

Dizem que ele estava na praia, conversando com aquelazinha, conhecida pela má fama... Claro: “Ah, ele adora pegar um solzinho e não tem preconceito, não. Dá atenção a todo mundo.”

Você sabia que ontem ele estava entrando com umas compras no apartamento daquela sirigaita? Quase bateu nos peitos: “Humm, acho que ele me disse... É tão altruísta. Um cavalheiro.”

Exasperada com a ingenuidade da moça, uma delas rosnou: “Abre os olhos, criatura, só você não vê que ele não te ama!!!.

Nessa hora, todas se calaram estupefatas diante da ousada e medonha sentença da amiga. Amélia, como se despertasse de um sonho de algodão doce, levantou-se de seu banquinho, atirou para o lado a toalhinha e a ternura e, indignada, tascou: “Ah, minha filha, aí já seria sorte demais!”



"Distrações", de Pedro Salgueiro para O POVO


Percebi o poder e o mistério de se estar perigosamente distraído num instante banalíssimo de um jogo de futebol, explico: não encontrando lugar nas arquibancadas do Estádio Presidente Vargas, procurei uma fresta entre os que se espremiam ao pé do alambrado junto ao campo; a partida corria solta num empate disputado, com perigo de ambos os lados; eu mal avistava o gramado, levando esbarrões laterais dos nervosos torcedores, então fiquei num misto de distração entre ouvido acompanhando as emissoras de rádio, xingamentos vindos das arquibancadas e força de ombro para não ser jogado pra fora do campo de visão do espetáculo...

Fiquei num estado de sonambulismo de atenções, não sabia em que plano sobrevivia naquela loucura, se no auditivo, no visual ou no meramente corporal, nisso fui perdendo as rédeas da partida e imaginando situações noutros níveis mentais; fechasse os olhos não saberia se estava numa feira, show musical, corrida de cavalos ou...

De repente estiquei o pescoço para a trave que estava à minha esquerda, logo percebi envergonhado que o ataque estava do outro lado, meu lado direito, então balancei a cabeça e me afastei um pouco, envergonhado pelo meu erro... Mas foi somente o tempo de ter que esticar novamente o pescoço e ficar na ponta dos pés, para ver ainda o gol... Desta vez, verdadeiro, um gol, sim!, num rápido contra-ataque o time visitante fez seu tento... lá na trave esquerda... Isso mesmo, aquela mesma trave com a qual me enganara segundos antes.

Na hora as vaias da torcida, os protestos e reclamações dos jogadores, objetos jogados no campo, não me deixaram pensar no assunto, mas chegando a casa, e até hoje, lembro essa pequena premonição proporcionada pela minha máxima distração.

Décadas após, numa daquelas crônicas/poemas de Clarice Lispector (“Por não estarem distraídos”, do livro A Descoberta do mundo: crônicas, de 1984.), encontrei uma possível explicação: “Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos”.

Outros anos depois, encontrei no texto “Cristal com uma rosa dentro”, do Tomo II, do livro Último Round, de Julio Cortázar, esta pérola: “O estado que definimos como distração poderia ser de algum modo uma forma diferente da atenção, sua manifestação simétrica mais profunda situada em outro plano da psique; (...) Não é raro que no indivíduo acostumado com tal tipo de distrações a apresentação sucessiva de vários fenômenos heterogêneos crie instantaneamente uma apreensão de homogeneidade deslumbrante”.

E hoje sei que – parafraseando Leminski – “distraídos enxergaremos” bem mais.