1975. Morávamos em quitinete no Realengo... Aquele abraço! Últimos
dias de Guanabara em janeiro, fevereiro e março, sem régua ou compasso.
Meu
pai fora transferido para a “cidade maravilhosa” da qual ouvia horrores.
Obrigado a prestar curso de seis meses, não teve jeito. Temeroso da
responsabilidade, determinou-se a enfrentar essa quimera sozinho, deixando a esposa
e os seis filhos menores no Ceará – a mais velha tinha apenas 10 anos. Porém, não
suportou de solidão, e, logo, pegamos um “pau de arara” da Itapemirim e fomos
ao seu encontro. Como o seu soldo não era dos melhores, conseguiu nos instalar
na suburbana quitinete aos fundos de uma casa em Vila Militar.
Durante
meses, minha mãe seria a nossa professora em casa, criando em cartolinas
dominó, cartelas de bingo, jogos de memória e outros recursos lúdicos
educativos para que não tivéssemos que ingressar em colégios cariocas. Afinal,
além de nos poupar dos supostos perigos da urbe, a ideia seria voltar em breve
ao Ceará trazendo nas malas bastantes saudades. Todavia, o que fazer com aquela
meninada agitada, aprontando todas, exaurindo durante o dia inteiro a esposa,
mas também babá, cozinheira, faxineira, professora, costureira...? Meu pai
encontrou a solução: revistas em quadrinhos!
Comprou
uma primeira leva dos populares “gibis”. Naquele tempo e durante muitos anos
era possível encontrar boa diversidade de títulos: Tio Patinhas, Pato Donald,
Mickey, Almanaque Disney, Zorro, Carequinha (depois, Pinduca), Recruta Zero,
Família Buscapé, Heróis da TV, Sacarrolha, Tininha, Bolota, Riquinho,
Gasparzinho, Brasinha, Brotoeja, Bolinha, Luluzinha, Fantasma, Heróis da DC e
da Marvel, Pimentinha, Popeye e tantos outros. Depois, meu pai “trocava” as
revistas: levava as que tínhamos lido e, pagando um valor bem menor, conseguia
nos trazer outras. Era grande a alegria da casa.
Costumo
dizer: foi com elas que iniciei meu gosto pela leitura, assim como pelo desenho
e, claro, pelos quadrinhos, costume que me segue ainda hoje – embora leia outros
títulos.
Falar
ou escrever sobre essas leituras infantojuvenis me traz sempre bons sentimentos
e felizes recordações. Guardo algumas dessas revistas em minhas estantes. Ao
lê-las ou simplesmente folheá-las, chegam-me memórias, sons, músicas, sabores
de tempos há muito passados: “Não ligue pra vida, resto de amor./Não importa o
mundo a se revelar./Eu vou ampliar sua vida/Em alto contraste com a volta/Close
em preto e branco com muito amor.”
Um
dia, já formado e atuando como fisioterapeuta, soube que saíra nova revista em
que o terrível vilão Bane destroçara a coluna do Homem-Morcego. Como assim?
Fiquei tão ansioso que, saindo do atendimento de paciente, corri para a banca
de revistas para comprá-la. Nela, vinha como brinde um batarangue de plástico –
espécie de bumerangue à moda Batman. Pois bem, li em pé, lá mesmo na banca da
13 de Maio, todo de branco, com estetoscópio no pescoço, o ridículo batarangue empunhado
em uma mão e, na outra, a trágica revista, sendo surpreendido com a vergonhosa vontade
de chorar ao ler o final de carreira do meu herói preferido, aquele colecionado
desde os meus descomplicados 11 anos.
Essa
história, claro, não terminou ali, assim como este texto, que nasceu do desejo
tão egoísta de me devolver às próprias lembranças.










