“Viver é muito perigoso!”, disse na voz jaguncesca de um
Riobaldo, o homem das veredas do Grande Sertão.
Por
todos os meios, em quase delírios, lemos e ouvimos ser a vida o nosso maior
presente, o patrimônio-motor da existência, a grande dádiva divina e outros
clichês a estampar rodapés de agendas, cartões industriais, TVs religiosas e irritantes
postagens em redes sociais. Da mesma forma, por incrível que pareça, chega a
rotinar o encontro inesperado com aqueles nos quais encontramos a devota e
suicida vocação para a morte.
No
percurso da minha vida, principalmente na juventude, pessoas, às vezes
completamente estranhas, sentavam-se ao meu lado em bancos de praça, pontos de
ônibus – ou dentro deles – e sem cerimônia alguma começavam a desfiar a vida
conflituosa, repleta de dúvidas atrozes sobre relacionamentos filiais,
românticos ou sobre o sentido de sua própria existência. Alguns desabavam em um
choro antigo, enquanto outros mantinham o olhar apático, confessional e fixo em
algum ponto do nada. Ambos, em determinado momento, quase aos sussurros, concluíam:
“Já pensei em me matar!”
O
silêncio abafado se quedava entre nós. Olhava estarrecido para elas. Confesso, pensava:
“Por que eu?” Naquele tempo, inexperiente e jovem demais, cria precisar falar
alguma coisa, qualquer uma. Hoje, sei demais o quanto as palavras são
insuficientes. Contudo, não queria repetir discursos ufanistas, nem dogmáticos,
não ousaria o arrogante argumento “Só Deus pode tirar a vida” ou “Tanta gente
querendo viver e você...”.
Eu
sabia: não tinha o direito de julgá-las. Eu não sabia nada sobre aquela vida. Hesitante,
por vezes, pegava em sua mão ou passava a minha em suas costas, e diante de
minha total incompetência, tentando modular calma e tranquilidade na voz, dizia:
“Não diga isso. Nunca mais.” Noutras, buscava conhecer mais de sua vida, colher
alguns bons momentos dela – quando isso era possível – ou quem sabe algum sonho
ou desejo que ficara para trás. Quem sabe valesse a pena acreditar, viver e
lutar por ele?
Diante
da situação de suicídio, é comum as pessoas procurarem uma razão, um motivo que
justifique tal ato, quando na verdade nunca é tão simples assim, como arrumar
as malas e ir embora. Em alguns dos casos vivenciados, amigos e familiares
relataram: a pessoa estava aparentemente bem antes de ser encontrada morta. A
família, namorado, namorada, amigos contavam de seus planos e de nunca terem
notado qualquer alteração que revelasse ideário ou intenção suicida. Por isso,
até sentiam-se como que culpadas.
Eu mesmo,
durante bom tempo, desde a adolescência, pensava na morte todos os dias. Dizia
a amigos: “Acho que vou morrer cedo.” Às noites, acordava com uma voz sombria
como a ecoar: “O Netto morreeeeuuu!” Nessa época, via espíritos ou imagens
noturnas a caminhar pela casa. Alguns tentavam falar comigo. Havia também seres
com velas a aproximar-se e a derramar a sua cera quente em minha mão. Quando
acordava, onde a suposta cera caíra, ainda sentia a dor da queimadura e a pele ainda
avermelhecida.
Com
o tempo, as visões e vozes desapareceram, mesmo quando passei, mais tarde, anos
morando sozinho. Assim, durante algum tempo, quando abordado por esses potenciais
suicidas, poderia julgar serem mais alguns desses espíritos errantes, não
materiais, sempre inconformados com esse incompreensível mundo no qual nunca se
adequaram. Como eu.
A
vida de cada um importa e muito. Devemos ser generosos com quem nos elege e
procura. Buscar a melhor forma de encaminhá-los, se preciso, para profissionais
experimentados nesse auxílio. Ouvi-los é muito mais útil do que encher os seus ouvidos
com frases de efeito de velhos panfletos de calçada. Com tolerância e amor,
devemos estar no lugar do outro, sentir o seu sentimento, a sua dor, reconhecer
nele a nossa humanidade e sermos sempre humildes, pois, apesar de perigosa, esta
vida vale o risco.









