quinta-feira, 7 de maio de 2026

"De volta ao passado: a encantadora Fortaleza do século XX", de Aila Sampaio (Resenha de Um Conto no Passado: cadeiras na calçada")


Aíla Sampaio

(Publicado originalmente no Caderno 3 do Diário do Nordeste)


Um Conto no Passado: cadeiras na calçada, romance de Raymundo Netto, é uma viagem no tempo, um encontro com uma Fortaleza poética e provinciana que só a imaginação pode reconstruir. De mãos dadas com Américo Lopes, o protagonista e narrador, passeamos pelas calçadas do início do século XX e andamos pelas ruas “descalças” de uma cidade menina que parece se fazer mulher aos olhos do leitor.

No livro de Raymundo, o narrador é um senhor de mais de 90 anos que, após receber um pacote de cartas de seu amor de juventude, compreende a razão de ter vivido tanto, e resolve, no ano de 1998, contar a sua história como um modo de eternizar seu romance interrompido pelo destino.

Trata-se de uma narrativa cíclica, cujo introito pode perfeitamente ser colado ao final para atar as pontas do novelo da vida do personagem:

No quarto, passei a cismar sobre a minha vida, toda ela, nos momentos e caminhos que me fizeram ser o que hoje eu sou
Recapitulando os desastrados anos da minha vida, conclui o porquê de ainda estar vivo. Precisava saber, não poderia partir desse mundo sem saber, e agora finalmente eu estava pronto.

Abri o lenço à minha frente e reconheci a letra feita às pressas com o furor de quem está arquitetando um grande plano de paixão: “Não esqueças de me lembrar que não foi apenas um sonho! Voltarei a ti...Sempre!” “Voltarei a ti...Sempre!” Por um momento senti-me naquele quarto acolhido nas asas e no sorriso de Olívia. Peguei o lenço e busquei seu cheiro: não havia nenhum, não havia nada! Pobre Américo, pensei, que sorte o destino lhe pregara. Chorei um pranto esquecido. (p.144)

 

A narrativa memorialista, de que se vale o autor, tomou impulso nos anos de 1970, com o romance-reportagem, uma tendência pós-moderna que se alicerça na transdiscursividade. Segundo Walnice N. Galvão (2004), o memorialismo, há tempos praticado no país, deu um salto de qualidade ao surgir a obra de Pedro Nava: “com uma capacidade invejável de reconstituir os ambientes de sua ancestralidade até várias gerações, e criando com liberdade o que não podia propriamente reconstituir, Pedro Nava acaba por fazer também um pouco de história imaginária, ou do imaginário. Ergue-se ante nossos olhos o passado de Minas”.

 A narrativa biográfica tem, pois, esse mérito de reconstituir, utilizando a trajetória de um personagem real, a trajetória de uma geração, a história de uma época e de um espaço. Assim ocorreu com Pedro Nava, que juntou imaginação e memória nos relatos de suas experiências; com Marcelo Rubens Paiva, em seu Feliz Ano Velho, livro que conta o acidente que o deixou paraplégico e os dias que o sucederam, entre outros que, ao modo de Graciliano Ramos, Érico Veríssimo e Rache de Queiroz, transfiguraram para a literatura episódios de suas histórias. No Ceará, destaca-se Milton Dias com suas crônicas de memórias.

Essa opção por narrar-se, ou seja, transformar-se em personagem, é curiosa e suscita uma reflexão sobre o significado da experiência vivida tanto para quem a expõe, no momento em que a expõe, pois já não é a mesma pessoa que viveu os fatos, como para o leitor.

Marta Campos (1992 p.28-9) faz algumas considerações a esse respeito: “Quando um autobiógrafo confere um significado a um tempo passado, ele certamente optou por um dos muitos significados que o acontecimento pode ter tido ou talvez tenha conferido ao fato um significado totalmente novo, que ele só adquiriu muito tempo depois. Este significado, por sua vez, revela muito mais sobre a situação do autobiógrafo no momento da escritura do que sobre o homem à época do acontecimento”.

O livro de Raymundo Neto, embora traga uma narrativa autobiográfica, não confunde o narrador com o autor. O velho Américo, personagem fictício, conta sua trajetória desde a infância, na primeira década do século XX, quando perde os pais e passa a ser criado por uma tia. Paralelamente, conta-se a história da cidade, tendo-se, dessa forma, dois personagens centrais: Américo e a cidade de Fortaleza.

A onisciência do narrador em 1ª pessoa não torna o relato inverossímil, pois desenrolam-se fatos passados, utilizando-se assim de um meio fundamental para tornar o relato crível. Tudo já foi consumado, vivido. O personagem Américo é ficcional, mas a cidade e sua história são reais e fundem, num só espaço e tempo, verdade e ficção, conduzindo o leitor nessa ambivalência que o leva a duvidar se Américo é apenas um ser de papel. 

 

A CIDADE

A cidade é desenhada em sua arquitetura e pelos fatos debulhados desfilam cenas moldadas nos espaços da época, como as ruas do centro da cidade: Guilherme Rocha, Barão de Aratanha e Formosa, a Praça do Ferreira, a Coluna da Hora, a Farmácia Oswaldo Cruz, o Café Java, o Maison Art-Nouveau, o Café Riche, a lanchonete Leão do Sul, o Passeio Público, a Confeitaria Crystal, o Cine-Teatro Majestic, o Cine São Luiz, o Clube Iracema, o Estoril, a Cidade da Criança (antigo Parque da liberdade, onde encontramos a Ilha do Cupido), o Cemitério São João Batista, a Igreja do Pequeno Grande, a Praça General Tibúrcio, o Palácio da Luz, a cadeia pública, os palacetes, tudo cenário da vida de Américo Lopes, o menino órfão cuja vida se confunde com a da própria cidade em que nasceu e viveu.

A habilidade com que os espaços e os acontecimentos reais são colocados no relato dá a impressão de que tudo é real. Américo fala sobre o Jornal O Pão e a Padaria Espiritual, seus mentores, cita os nomes de guerra dos padeiros e até trechos do estatuto, tudo contextualizado em encontros com amigos, um deles, não despretensiosamente “primo da sra. Maria do Carmo. Ela, há vinte anos residia na rua do trilho e casara com um alferes da polícia na Igreja do Patrocínio” (p.22) uma referência explícita à personagem de A Normalista, romance de Adolfo Caminha... não apenas uma referência, mas um registro da contemporaneidade de ambos, num jogo intertextual bem construído.

 

AMÉRICO: O MENINO E O HOMEM

O menino Américo, órfão de pai e mãe, é criado pela tia e madrinha, dona Severina, “viúva de natureza extremamente afável, conhecida pelo apelido de Sílvia” (p.12). Ela e o menino viviam da pensão deixada pelo marido dela (que morreu na época da grande seca) e dos serviços de costura que ela fazia para a vizinhança.
Ainda bastante jovem, começa a trabalhar como vendedor na sapataria do sr. Campos, pai de Daniel, seu colega de colégio e amigo, um rapaz folgazão e desonesto, que rouba o pai e vive de armações. Em uma de suas provocações ao pai, convida o amigo para um baile na casa de amigos da família e leva-o vestido em um paletó (subtraído do guarda-roupa do pai) reformado, expondo-o ao ridículo. Américo começa a perceber a personalidade do companheiro, mas não se abstém de sua amizade, pois necessita do emprego e sonha com uma promoção a gerente da loja.

Na festa, conhece Olívia, uma bela moça que admira ao piano. Rouba um poema de Antero de Quental para impressioná-la e vivem um idílio até a revelação fatal: ela é casada com um rico visconde, casamento por conveniência, para saldar dívidas da família, e não pode viver seu amor com o jovem rapaz. Juntos, passeiam pela cidade e descobrem a poesia da vida. Após viver uma noite de amor e na iminência de uma despedida, desesperado para não perdê-la, querendo convidá-la para fugir com ele, Américo pensa em roubar o cofre do patrão, e, num ato inconsequente e imaturo, vai à sapataria, onde encontra Daniel se apossando do dinheiro.

Após a discussão, Américo permanece no local e é preso como ladrão. O pai de Daniel sabe a verdade, mas não quer expor publicamente o filho e só retira a queixa quando a dívida do roubo é paga. Mais tarde se sabe, pelo marido de Olívia que, durante a prisão do amado, já voltou à sua casa no Rio de Janeiro.

A família de Daniel vai embora de Fortaleza, e Américo, aos poucos, retoma a vida, sofrendo a perda da tia, mas sempre criando forças para recomeçar. Consegue emprego nos Correios, casa-se com Guilhermina (Guiné) exatamente na época em que termina a segunda Grande Guerra Mundial. Com ela tem dois filhos: Victor e Cristina, levando uma vida pacata e confortavelmente feliz até a morte de sua companheira.

Vivendo já a velhice, recebe, um dia, a visita de Laura, filha de Olívia, que lhe entrega um pacote com cartas e um bilhete onde revela que Laura, sua única filha, não era filha do visconde, mas, na verdade, filha de Américo, fruto da única noite de amor que tiveram. Fica sabendo que Olívia morreu cedo e o visconde voltou a se casar com outra mulher. Ele entende a dimensão do amor que viveu com Olívia e se propõe escrever sua história, cujo relato constitui o romance Um Conto no Passado: cadeiras na calçada. A obra é, pois, bem mais que um romance memorialista; é uma história de amor; é um registro histórico e poético, um resgate dos espaços da cidade, da sua literatura, da sua música, dos seus símbolos, como o bode Yoyô, a figura de Chico de Matilde, o Dragão do Mar, e tantas nuanças perdidas no tempo que precisam ser reativadas no imaginário das novas gerações. 

Embora seja uma obra contemporânea, cujo tempo narrativo é o passado, a linguagem não peca quanto à adequação com o período retratado e a idade do narrador. Raymundo Netto consegue seduzir o leitor ao segurar a mão do velho Américo e percorrer a cidade-menina de um século atrás, envolvendo-o nas histórias de amor que se eternizaram em sua memória anciã... É como se alguém colocasse as cadeiras nas calçadas do tempo e se pusesse a contar sua vida apaixonadamente. Além dos cenários bem descritos, a obra recorre ao registro iconográfico e faz com que a saudade do tempo não vivido se revele no coração do leitor do nosso tempo.

A narrativa final transcorre com Américo sentado na praça do Ferreira, num banco de madeira, rememorando seu amor impossível e revendo a cidade. As cartas de Olívia fizeram-no renascer. De “chapéu de feltro azul com laço de cetim escuro, de óculos Ray-ban, portando um guarda-chuva preto, em camisas de mangas longas e com um pente flamengo no bolso” ele recorda sua vida, renascido, e declara sua saudade... sua saudade de tudo.

Ao final, o autor fala do rumo que tomou aquelas vidas após a conclusão do livro, do significado que a vida passou a ter para Américo depois da certeza de que foi amado por Olívia e da sua partida “dormindo e sorrindo com uma paz de espírito impressionante”.

A obra de Raymundo Netto é um legado a essa geração e às próximas, um registro telúrico de seu amor à cidade e do seu romantismo. Leitura imperdível para os que não tiveram a oportunidade de ouvir histórias contadas em cadeiras na calçada.


REFERÊNCIAS

CAMPOS, Marta. O desejo e a morte nas memórias de Pedro Nava. Fortaleza: Edições UFC, 1992.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1995.
GALVÃO, Walnice Nogueira. “A voga do biografismo nativo” http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142005000300026&script=sci_arttext .

Acesso em 14/10/2008

NETTO, Raymundo. Um Conto no Passado: cadeiras na calçada. 2 ed. Fortaleza: Imprece, 2009.


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segunda-feira, 4 de maio de 2026

"Memória de Encantamento de Audifax Rios", de Raymundo Netto para O POVO

Audifax Rios (1946-2015) era um príncipe... em pele de sapo! Assim, para reconhecê-lo era inevitável, acima de tudo e de tantos, amá-lo, condição única para o desencantar dos olhos viciados a se deslumbrarem com fachadas enganosas, caiadas de injustificada arrogância e empavonamento, ilusões pela conta bancária e por medalhas de araque que, solenes, apenas imitam e plagiam o ouro.

Tímido, virtuose da humildade, não se enganem: trazia no peito amoroso a convicção do seu trabalho, do talento e da originalidade. Empunhava o bastião da cultura “para que não desabasse por falta de quem por ele lutasse, pois olho grande é o que não falta”, e assim inventava “De Um Tudo”: pintava, desenhava, escrevia, pesquisava, publicava, cercava-se de amigos, admiradores e o escambau. Contudo, costumava dizer que os artistas visuais da maroceânica Fortaleza não o reconheciam como tal e por isso preferia, por ora, escrever. Como assim não reconheciam? É “oito ou oitenta!”

Lembro-me de uma ocasião em que estava no lançamento de uma revista nossa – não perdia eventos dos amigos – e soube da presença da Ana Miranda. Acanhado, perguntou se eu poderia fotografá-lo com ela. Chamei a Ana e o apresentei. Ela imediatamente disse que era sua leitora e o nosso artista quase se desmanchou: “Deve ler uma vezinha ou outra...”, disse, disfarçando a face encarnada com sorriso da criança que nunca deixou de ser.

Tive a sorte de conhecer e aprender muitas coisas com o mestre combo-artista. Trabalhamos juntos em alguns projetos. Gostava de estar a seu lado, pois, além de ouvir cambalhóticas histórias da sua confidente e amante lourinha, sentia a segurança de falar, de rir, de ser eu mesmo, e de ele gostar disso! Audifax nada nos pedia, nem queria. Sua alma já estava de todo salpicada de riquezas invulgares.

Certo dia, um gaiato ao ler a crônica que escrevi em que Audifax era o protagonista, disse-lhe: “O Raymundo Netto falou mal de você no jornal!” Ele, por sua vez, com sua voz pachorrenta, tascou: “Cara, o Raymundo é meu amigo, pode falar mal de mim. Os inimigos é que eu não deixo!”

No mais a mais, recebia seus telefonemas ou o acolhia na recepção do O POVO. No meio da conversa, leitor dos cronistas da casa, lançava uma graçola no ar. Às vezes eu “voava”. Ele, percebendo, me chamava a atenção: “Cara, está na tua crônica dessa semana...” E ria-se. Daí, eu retornava falando sobre a sua, a das sextas, de palavreado sertanejo, meio moleque, narrativa gostosa e irônica, de riso, fé e dor, nas quais conseguia o milagre de trazer à vida e à humanidade personagens que se foram há tempos e que, para mim, até então, tinham ares de estátuas frias.

Em “Rio Acaraú: um filete de esperança”, última crônica publicada no jornal O POVO, Audifax profeticamente se despedia da Santana infantil de não tantas priscas eras, pisando na beira do rio, revendo amigos que se foram e o sol risonho que sempre pintou, caminhando por entre o rosário de serras, acenando com lenço branco as velhas promessas, as lapinhas licânicas e histórias como a de um Raimundo, outro que não eu, o canoeiro, vítima, imaginem, de um infarto fulminante. Um infarto. “Haja Nostradamus!”.

Ultimamente tenho escrito frequentes crônicas-obituários, o que entristece e me farta de vazio, exceto pela saudade daqueles que nos deixam no meio do caminho. Penso que o Audifax, trajando uma de suas berrantes camisas, pegou carona em um de seus peixes voadores cobertos de escamas coloridas, feito lantejoulas carnavalescas, entre nuvens miscelânicas, no meio de uma procissão de um conselheiro Antônio, sendo recebido pela luz e pela glória daqueles que ele nunca nos deixou esquecer.

Ah, como é ingrata a dona morte, que pegou na distração nosso amigo de coração mole de ribeirinho, silenciando a ceia larga do seu caprino clube, no qual enquanto fiel sentinela e guardião não nos deixava sair sem assinar o irreverente caderno de atas. Deixa para trás e para nós o lamento distribuído entre Deus e o mundo, ciente de que o Altíssimo dessa vez acertou e levou o melhor entre todos nós. Em 17 de abril deste, completaria 80 anos.

Dobram os sinos e o sineiro, e, como dizia AR: “depois do episódio maligno, tudo divino no quartel de Quirino”. 

Fica com Deus, querido Audi, e voe com a gente quando desmorrer!

 



 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Lançamento "Fortitudine: Reino de Luz", de Diego Pontes, em 29 de abril, às 19h, no foyer do Theatro José de Alencar


Fortitudine: Reino de Luz (Armazém da Cultura, 2026), de Diego Pontes, 

novela do gênero fantasia juvenil

LANÇAMENTO

Data: 29 de abril de 2026, a partir das 19h

Local: Foyer do Theatro José de Alencar (rua Liberato Barroso, 525, Centro, Fortaleza – CE)

Preço de capa: R$ 65,00

 

SOBRE A OBRA

Fortitudine: Reino de Luz revisita a história e a memória cultural de Fortaleza em seus 300 anos. O novo livro do escritor Diego Pontes cria um reino encantado inspirado na Fortaleza da Belle Époque e propõe um olhar contemporâneo sobre identidade, patrimônio e pertencimento.

Em 2026, ano em que Fortaleza celebra seus 300 anos, o escritor cearense Diego Pontes lança essa novela de fantasia juvenil que transforma elementos históricos e culturais da cidade em um universo simbólico voltado para jovens leitores.

Publicado pela Editora Armazém da Cultura, o livro combina imaginação literária, pesquisa histórica e reflexão sobre memória e identidade cultural.

Ambientada em um reino fictício inspirado na Fortaleza entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX — período marcado pelas transformações da Belle Époque — a narrativa constrói uma espécie de conto fundacional para a cidade. A história acompanha personagens que atravessam paisagens encantadas e conflitos simbólicos, enquanto lidam com temas universais como amadurecimento, pertencimento e a busca por identidade.

No centro da narrativa está Fortitudine, um reino sustentado pela luz e pela memória de seu povo, cuja existência é ameaçada por um antigo pacto com a bruxa Sarsalina, figura que simboliza o apagamento das lembranças e a erosão das histórias coletivas.

É nesse cenário que surge Eudine, herdeira da luz e marcada por uma profecia, e Benício, jovem cordelista que atravessa a mata branca em busca de prosperidade. Quando seus caminhos se cruzam, o destino do reino — e da memória que o sustenta — entra em jogo.

Ao utilizar a fantasia como linguagem narrativa, Diego Pontes propõe uma aproximação entre ficção e história. O universo de Fortitudine incorpora referências à geografia, à memória urbana e aos processos de transformação vividos por Fortaleza ao longo de sua história, dialogando também com o imaginário cultural e com a presença dos povos originários do Ceará, inspiração para o povo ficcional Guarilum, que habita o livro.

A obra também toca em temas contemporâneos como o apagamento do patrimônio cultural — material e imaterial — e a necessidade de preservar as memórias que constituem a identidade de uma cidade. Em vez de apresentar uma reconstituição histórica tradicional, o autor utiliza símbolos, arquétipos e elementos do fantástico para sugerir novas formas de olhar para o passado e compreender o presente: “Fortitudine nasce do desejo de olhar para a cidade onde nasci e reconhecer nela as camadas de história que muitas vezes passam despercebidas no cotidiano. A literatura tem o poder de criar pontes entre memória e imaginação, permitindo que novas gerações se aproximem da história de forma viva e sensível”, afirma o autor.

Com leitura ágil, Fortitudine: Reino de Luz também dialoga com questões psicológicas próprias da adolescência, como a construção da identidade, o autoconhecimento e a passagem para a vida adulta. Ao mesmo tempo, convida os leitores a refletir sobre sua relação com o lugar onde vivem e sobre a importância da memória coletiva na construção de uma cultura. Mais do que uma narrativa fantástica, o livro se apresenta como um gesto simbólico de celebração e reflexão sobre Fortaleza em seus três séculos de história — um convite para redescobrir a cidade por meio da literatura.

 

SINOPSE

Fortitudine é um reino sustentado pela luz e a memória de seu povo. Esculpido pelo vento e a dança entre terra e oceano, vê sua existência ameaçada por um antigo pacto feito com a bruxa Sarsalina, cuja presença seca as lágrimas, apaga as lembranças e transforma tudo o que reluz em sal.

Eudine, herdeira da luz e marcada por uma profecia, cresce sem conhecer a verdade sobre o seu destino, até o momento em que a sobrevivência do reino passa a depender de sua coragem. Enquanto isso, Benício, um jovem cordelista, atravessa a mata branca em busca de prosperidade. Em sua jornada, descobre que a poesia também é capaz de alimentar a alma. Quando seus caminhos se cruzam, o futuro de Fortitudine entra em suspensão. Em meio ao apagamento, a seres encantados e às memórias que resistem, a história revela o mistério de como manter a luz acesa e restaurar o equilíbrio entre o reino e a claridade que o ilumina.

 

SOBRE O AUTOR

Diego Pontes é escritor e criador do universo literário Reino Fortitudine. Nascido em Fortaleza e radicado em Paris, desenvolve uma obra que une imaginação narrativa, sensibilidade e reflexão sobre as experiências da infância e da juventude. Desde cedo, se relaciona com as histórias por meio de múltiplas linguagens — quadrinhos, charge, teatro, artes visuais e literatura — que moldaram sua forma de construir narrativas e mundos atravessados por conflitos internos e transformações subjetivas.

A partir da observação do humano, primeiro na arte e depois na clínica, desenvolveu um interesse profundo pelas narrativas invisíveis — aquelas em que os sentidos buscam as palavras.

Em 2015, publicou seu primeiro livro, O Diário Gráfico de Kitty (Armazém da Cultura), no qual revisita a memória de Anne Frank por meio de uma narrativa visual sensível. A obra marca o início de um percurso literário comprometido com temas que convidam jovens leitores à reflexão sobre valores humanos universais.

Formado em Psicologia, com mestrado em psicopatologia infantojuvenil pela Université Paris Cité, integra sua experiência clínica à escrita, influenciando a construção de personagens e suas jornadas de amadurecimento.

Diego acredita no espaço potencial criativo que a arte e a literatura oferecem à vida do sujeito — especialmente aos mais jovens. Por isso, tanto na clínica quanto na escrita, busca criar ambientes seguros onde seja possível sonhar e se desenvolver.







 




 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

"A revisão de Vida", de Raymundo Netto para O POVO (resenha)


Muita gente ignora, mas o Ceará é sede de fértil manancial de artistas de quadrinhos, alguns deles reconhecidos e em exercício, inclusive, no mercado europeu, norte-americano e australiano. Eles transitam entre nós, frequentam os mesmos bares, cafeterias, praças e shoppings, mas anônimos, sem assédios e selfies de fãs deslumbrados, mesmo por aqueles que curtem as HQs nas quais participaram. Na verdade, há até quem duvide, quando se apresenta alguém aqui da terrinha que desenhou ou arte-finalizou o Batman, Superman, Mulher Maravilha, X-Man, Fantasma...

Ao conhecer esse filão, nos é revelado um paradoxo: são raras as publicações editoriais e não independentes em quadrinhos no Ceará. Existem vários motivos desencadeadores dessa realidade, mas, por ora, não iremos nos deter à “gourmetização” dos quadrinhos, da extinção das bancas de revistas e escassez de publicações a preço popular, a falta de políticas públicas para a produção específica do segmento e da incompreensão/preconceito da sociedade em torno das diversas possibilidades que essa mídia pode ofertar como recurso de formação de leitores, de construção de conhecimentos e até de estímulo ao debate social.

Prefiro contar a você que existe no Ceará a Avoante, editora determinada a publicar quadrinhos e dos bons. Entre outros, este ano, publicou Revisão, de Luís Carlos Sousa, com desenhos de Rodrigo Matos e arte-final do Camarada Pedro, além da contribuição de diversos outros atores da cena contemporânea dos quadrinhos cearenses.

É uma graphic novel de 98 páginas em P&B, com excelente qualidade editorial e gráfica na qual se percebe na sua execução a intimidade com o gênero e o adequado emprego dos recursos gráficos, dos elementos visuais e narrativos da Arte Sequencial.

No roteiro sensível, fluido e muito bem construído, acompanhamos o personagem Carlos, a princípio em sua infância, tomando conta de Onofre, um pai conflituoso, difícil, e sofrendo o injustificado abandono de Rosa, sua mãe. Depois, na atualidade, o encontramos trabalhando como revisor de textos em editora e vivendo uma relação tóxica e ausente com seu companheiro Eduardo, até um fato promover encontros e desencontros e o desenrolar de uma série de angústias, revelações inesperadas e as consequentes tomadas de decisão do protagonista diante do seu drama familiar.

De forma lúdica e sem precisar empregar discursos enfadonhos, a obra desperta reflexões no leitor, ao mergulhar em questões psicológicas profundas, versando sobre os people-pleasers (agradadores compulsivos), a codependência funcional e os impactos de relacionamentos abusivos.

No desenrolar da história, Carlos vive uma experiência de empatia e de resgate de seu amor-próprio, provocando nele uma “revisão” de si mesmo, ao compreender que as suas atitudes – ou a falta delas – e o seu comportamento – insegurança, ansiedade, baixa autoestima, medo do abandono e de rejeição – eram as raízes de seu sofrimento.

Acredito que existam muitos “Carlos” por aí que precisam urgentemente fazer também essa revisão de si, e ler “Revisão”.

A obra está disponível na revistaria Reboot Comics Store no Shopping Benfica ou no site da Avoante (avoanteeditora.com.br).

Uma ótima leitura para você.




 

domingo, 12 de abril de 2026

"A Fortaleza das Cadeiras nas Calçadas", de Batista de Lima para o Diário do Nordeste


Por Batista de Lima

Publicado originalmente no Caderno 3 do Diário do Nordeste, em 24 de julho de 2007. 

Houve um tempo em Fortaleza, em que as pessoas colocavam as cadeiras nas calçadas e contavam histórias umas às outras. Os mais velhos contavam e os mais jovens ouviam extasiados. Era um tempo em que a televisão ainda não havia alienado nossos ouvidos e nossos olhos.

Foi partindo desse referencial que Raymundo Netto escreveu seu livro Um Conto no Passado: cadeiras na calçada. Escreveu e inscreveu na Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, sendo então ganhador do Prêmio de Incentivo à Publicação e Divulgação de Obra Inédita na categoria Romance.

Publicado em 2005 pelas Edições Livro Técnico, na ficha catalográfica está escrito “conto cearense”. Essa falta de uma definição do gênero pode até ser proveitosa, pois cabe ao leitor rotular do que quiser. Eu chamaria apenas de “Narrativas”.

O importante nesse livro é a viagem que o autor faz por uma Fortaleza que não existe mais, começando por um tempo em que a Barão do Rio Branco ainda se chamava Rua Formosa e em que as fachadas das casas apresentavam frontões, cimalhas, jacarés na platibanda e arabescos que o tempo se encarregou de devastar pelas mãos destruidoras de seus moradores.

Raymundo Netto, no entanto, reconstrói esse contexto devastado. Restaura a antiga paisagem, usando seus chinelos de cordovão, como fazia aquele esperto novo rico personagem machadiano. Depois acende um candeeiro para verificar as rótulas das janelas, as taramelas das portas, os punhos das redes, feitas com algodão do seridó. Vai em seguida à pensão de dona Amélia Campos, sem esquecer uma passada no Café Java para um dedo de prosa com Antônio Sales e Mané Coco.

Isso torna-se possível quando o jovem escritor, de posse de seu candeeiro de porcelana com manga de vidro, começa a clarear um passado que teima em se esconder na penumbra do tempo. Daí ele se dirige de fraque e com o cabelo besuntado de brilhantina para um baile na Itapuca Villa, na Guilherme Rocha, um pouco antes do aristocrático Jacarecanga, onde o morador se distinguia pelo tamanho do seu bangalô ou pelo número de compartimentos de sua mansão. É então que todo um clima da belle époque fortalezense é criado pelo autor ao som da música “Ontem ao luar”, tomando champagne, usando pincenê e transitando na rua de cabriolet.

Raymundo Netto consegue estabelecer um diálogo da ficção com a realidade. Para que o real se imponha sobre o ficcional ele acrescentou à sua narrativa, imagens fotográficas da Fortaleza histórica. Ícones da arquitetura fortalezense ilustram quase todas as páginas do livro e conferem ao leitor a possibilidade de, mesmo enveredando pelo enredo fictício, não desgrudar do nosso patrimônio cultural. É por isso que os bancos da Praça do Ferreira recebem os nomes que um dia ostentaram para o público e entraram para o folclore: “Banco da Opinião Pública”, “Banco da Democracia”, “Banco dos Comunistas” e o “Banco que não teve nome”.

Nessa mesma Praça do Ferreira ainda se mantém de pé, abrigando uma agência da Caixa Econômica, o Palacete Ceará. Ali, no andar térreo, funcionava a Confeitaria Rotisserie e na parte superior o animado Clube Iracema. Isso tudo no tempo em que motorista era chofer, a Major Facundo era Rua do Palma, o Majestic era o cinema chique e Ponce de Leon era o Rei Momo do Carnaval. Todos esses acontecimentos ocorrendo quando o Estoril ainda era Vila Morena, a Segunda Guerra nem havia começado, a morte do bode Yoyô causava consternação na cidade e Manezinho do Bispo, semianalfabeto, lançava livros de moral e humor.

Ao lado do caminho ficcional do livro, trafega uma via histórica e real da cidade de Fortaleza. O hospital principal é a Santa Casa de Misericórdia, fundada em 1861. O Passeio Público vai dando espaço para a Praça do Ferreira. A estátua de Nossa Senhora da Paz se ergue defronte à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no Centro, e não em frente da Igreja da Paz, na Aldeota. As praças são iluminadas por combustores de gás carbônico que em dia de lua cheia não eram acesos, por economia. E essa penumbra que se instalava, vai se instalando à proporção que mergulhamos no passado.

Nesse passado não tão remoto abrem-se as cortinas da década de 1930 e ocorrem várias mudanças sociais a partir da Revolução que depôs o Presidente da República, no caso, Washington Luiz. Aqui no Ceará terminava o mandato de Matos Peixoto que, à frente do governo do Estado, destacava-se pelos bailes que promovia no Palácio da Luz e no Clube Iracema. O seu grande destaque era o fato de ser exímio dançarino.

É no início dessa década, mais precisamente em 1931, que aos noventa e cinco anos, falece Juvenal Galeno, que deixa sua casa como ponto de encontro até hoje de intelectuais e artistas, na rua General Sampaio, 1128. E vem a descrição do poeta “sentado numa rede, de gorro azul na cabeça e provando seu rapé, enquanto ditava para Henriqueta, sua filha, alguns versos”.

No ano seguinte, 1932, perdíamos Rodolfo Teófilo, o benemérito da pátria. Essas personalidades e os fatos históricos vão sendo tratados ao longo da narrativa.

Finalmente chega-se ao final do livro como quem acaba de fazer um passeio pela Fortaleza dos tempos idos. Pensa-se tratar-se, o autor, de um velho fortalezense revivendo seu passado. Raymundo Netto, no entanto, ainda não chegou aos quarenta anos. É, todavia, amante desta cidade. E sofre com a sua descaracterização. Daí justifica porque escreveu o livro: “Escrevi porque me dói no coração o abandono e a ingratidão mesquinha por parte dos filhos dessa cidade que não aprenderam a amá-la... É a nossa Fortaleza como uma mãe esquecida”.



 




 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

"Invasão", de Raymundo Netto para O POVO


Foto: Imago/ZUMA Press/U.S. Army

À madrugada, telejornais anunciavam a ocupação de Burak, um paisote totalmente ignorado, não fosse um tabloide sensacionalista revelar ali a existência de uma riqueza ímpar na Terra, misteriosamente intacta, tomando quase todo o seu solo.

Havia um príncipe, diziam “ditador”, que, embora desconhecido, provavelmente não respeitava os direitos civis e usava de força e tirania para dominar o seu povo. Algo assim afronta sempre os Estados Unidos, desinteressado e incondicional defensor da democracia e dos povos sofridos deste Planeta. Não faltaria muito – não tinham provas, mas convicções – para que Burak ameaçasse a vida humana com armas de destruição em massa. Assim, o presidente americano, em seu Oval Room, decidiu enviar tropas para invadi-lo. A ONU, após caríssimos meetings, não concordou, mas eles não quiseram nem saber – afinal a sede da ONU é onde mesmo? – e, sem pudor algum, noticiaram a convocação de toda a inteligência e de seu poderio bélico em uma operação cívica e patriótica – e por que não Cristã? – contra o “inferno terrorista” de Burak. Os jornais de todo o mundo se dirigiram às estreitas fronteiras tentando registrar o conflito. O embate estava lançado, o “grande furo”, o maior massacre da história transmitido via satélite.

A invasão se deu à noite. Confiante, a força militar chegava por terra, pelo céu e pelo mar. Um desfile de tanques blindados, milhares de soldados descendo em flores de paraquedas. Uns, por trás de escudos, munidos de metralhadoras, granadas e bazucas, se jogavam e arrastavam-se pelas areias e por trás de rochas negras. Outros, desciam velozes de tanques anfíbios pelo mar. Aviões reluzentes iniciaram o bombardeio aéreo. Uma produção digna de Hollywood. Os oficiais, com trajes de segurança, falavam de liberdade aos jornalistas: “Não iria custar aquela rendição. Seria uma revolução sem sangue!”

Porém, após tanto barulho, em meio à fumaça que se espalhava inofensiva, todos se perguntavam: “Cadê o Exército buraquiano?”. Os soldados, confusos e ansiosos para mandar bala, se angustiavam com o silêncio sem fim. Queriam aparecer na TV, heróis que eram... ou que afirmavam que eles seriam. Os repórteres entediavam a audiência com reclames de sabão em pó. Um suspense literalmente de matar, mas ninguém morria, ninguém aparecia, ninguém se dignava a morrer em Burak.

Ao comando, os soldados adentraram o terreno cada vez mais. Já entravam em palhoças, apontando as armas, sedentos de qualquer coisa – inclusive de pequenos saques ou abusos de mulheres, afinal, eram apenas inimigas –, mas nada encontravam. Nem soldados, nem civis. Ninguém. Nada. Já temiam e tremiam à espera do aguardado momento.

Na escuridão quente como brasa, imagine que um por um daqueles soldados começaram a tombar. Ouviu-se um primeiro grito antes do papocar insano de metralhadoras: “He is dead! Deaaad!” 

Ninguém via o que os acertava, de onde vinha, se vinha, eles caíam ou sumiam, restando-lhes apenas os trajes semienterrados nas areias. Com pouco, em meio ao pânico e à cegueira da noite, os soldados acertavam uns aos outros. Granadas e armas explodiam em cadeia. Em toda a parte, pessoas em chamas. O pavor só não era maior que a carnificina. Homens fortemente armados corriam no cessar fogo. As câmeras de TV, como espalha-brasas, mexiam-se em vão para todos os lados, só conseguindo registrar mesmo a retirada em fuga, o choro em calças borradas num escandaloso pânico não americano.

Nunca se soube explicar o que aconteceu. No geral, pessoas comentavam: “Como aquele povo insignificante e invisível ao mundo, pôde chutar os fundos da maior Potência Mundial, herdeira da Terra e de seus quiosques em shoppings?”

Em Burak, distante das câmeras de TV, aquele povo emergia das areias: eram crianças, apenas elas, todas cegas, pálidas, magérrimas e sorridentes, encordoadas com pedras e paus, se amostrando então em trajes novos de assassinos e com a mais rara e legítima vontade de viver.

 





 

segunda-feira, 23 de março de 2026

Campanha de Pré-Venda: "Um Conto no Passado: cadeiras na calçada", de Raymundo Netto, edição DEFINITIVA


CAMPANHA DE PRÉ-VENDA:

Um Conto no Passado: cadeiras na calçada (independente), obra de estreia de Raymundo Netto, ROMANCE inaugurador e ganhador do I Edital de Artes da Secult-CE, lançado originalmente em 2005, agora em 3ª edição comemorativa aos 300 ANOS DE FORTALEZA.

Quem não leu, poderá conhecer a obra agora. E quem já leu, terá acesso à obra REVISTA em edição definitiva.

Preço de Capa:

R$ 40,00 (para quem residir em Fortaleza) e

R$ 50,00 (para o frete, para quem o adquirir de qualquer outro lugar do país).

O pagamento poderá acontecer por PIX, por meio da chave-PIX (chave: livrodoray@gmail.comao pagar, me envie o seu endereço pelo mesmo e-mail) ou apontando o seu celular contra o QR Code do card da Campanha.

IMPORTANTE: A campanha será CURTA. Conto com a sua aquisição e amizade.

Não perca a maior história de amor a Fortaleza de todos os tempos!

PARA SABER MAIS SOBRE A OBRA, leia a crônica a seguir: “A Casa Virou História e o Amor Virou Livro”



 

domingo, 22 de março de 2026

"A Casa Virou História e o Amor Virou Livro", de Raymundo Netto para O POVO


Quando adolescente, voltando de ônibus do colégio para casa, no caminho me deparava com uma construção de arquitetura única: a “Itapuca Villa”.

Deslumbrante, triste e abandonada, ela pertenceu a uma família importante da cidade. Trazia extensa varanda de madeira no andar superior, centrada com um frontão decorado em lambrequins, com mãos francesas e treliças, tudo sustentado por vigas também de madeira robusta e rodeada por muitas portas com bandeiras envidraçadas e coloridas. Não havia um dia sequer em que eu não me sentasse à janela, ansioso para revê-la.

Ao final dos anos 80, a casa foi aos poucos desmontada, resistindo até ser demolida no início da década de 90. Hoje, o terreno é ocupado por uma escola assombrada por insaciáveis cupins.

Alguns anos depois, em 2004 – quando já havia trocado a minha profissão pelo cinema, quadrinhos, artes gráficas, magistério e por outras fatalidades –, decidi cumprir a ingênua promessa de escrever sobre aquele absurdo: a demolição de tamanho patrimônio.

Foi quando conheci o sr. José Américo Lopes, um homem de 90 anos, portador de memória prodigiosa. Numa tarde preguiçosa em sua casa na Barão de Aratanha, no Centro, me confidenciou ter lembranças “daquela casa”. Nela, dizia, vivera uma grande história de amor. “Como assim?”, perguntei, incrédulo. Sorrindo, pediu à filha, Cristina, que nos trouxesse determinada pasta com papéis. Era a tal história, só que escrita por ele mesmo: “Você gostaria de ler?” Em seguida, me falou um pouco sobre o que encontraria ali. “Você já escreveu algum livro, meu filho?”, perguntou-me. “Não, eu nunca”, respondi, enquanto folheava com vagar algumas páginas datilografadas por Cristina. Ela, temendo por aquele material, advertiu: “Pai, nós não temos cópia...” Ele tentou tranquilizá-la: “Filha, eu confio no moço.” Na pasta, também repousavam cartas antigas. Quando as toquei, ele imediatamente as pediu: “Não vai precisar delas. Deixe-as comigo.” Entreguei-lhe as cartas. Ele as acolheu com sorriso afetuoso e delicado, como quem recebe uma joia, e tirou do peito um nome sussurrado: “Olívia”. Com carinho, acomodou o maço no colo e arrematou: “A história toda está aqui.”

Saí de sua casa tomado de curiosidade, porém nem tanto pelo original que trazia em mãos, mas pelas cartas, aquelas as quais não pude ler. Afinal, que segredos trariam?

Na época, eu morava na Vila Doutor Alencar, um conjunto de casas geminadas no Monte Castelo, onde as crianças brincavam na estreita rua e os vizinhos, ao entardecer, colocavam as cadeiras na calçada. Ali, naquela calçada, sentei-me em minha cadeira de palhinha e pus-me a ler “Um Conto no Passado”, a história de Américo Lopes: “Eu era um menino como qualquer outro que crescia, até então, em pequena cidade de ruas descalçadas, a me entreter sentado no cume de frade-de-pedra, esquecido do mundo...” Incrível, a história me envolveu de tal forma que não consegui parar até a sua última página. Nela, encontrei aquele homem ainda garoto e o acompanhei pela vida afora: os dramas, conflitos, a juventude e o primeiro amor: Olívia! E o mais interessante é que, enquanto Américo narrava a sua trajetória, revelava uma outra paixão: a sua cidade. Sim, a grande personagem do livro.

Voltei a conversar com ele e decidimos publicá-lo. Assim, por meio de um edital público, a obra “Um Conto no Passado: cadeiras na calçada” teve o seu primeiro lançamento em 2005, estando esgotada há bastante tempo.

Em 2026, passados 20 anos, a saga de Américo retorna em campanha de pré-venda, em edição comemorativa aos 300 anos de nossa cidade. Você precisa conhecer esta que é a maior história de amor a Fortaleza de todos os tempos.

Acesse o meu Instagram: @raymundonetto67




 

segunda-feira, 9 de março de 2026

"Entre Estetoscópios e Batarangues", de Raymundo Netto para O POVO


1975. Morávamos em quitinete no Realengo... Aquele abraço! Últimos dias de Guanabara em janeiro, fevereiro e março, sem régua ou compasso.

Meu pai fora transferido para a “cidade maravilhosa” da qual ouvia horrores. Obrigado a prestar curso de seis meses, não teve jeito. Temeroso da responsabilidade, determinou-se a enfrentar essa quimera sozinho, deixando a esposa e os seis filhos menores no Ceará – a mais velha tinha apenas 10 anos. Porém, não suportou de solidão, e, logo, pegamos um “pau de arara” da Itapemirim e fomos ao seu encontro. Como o seu soldo não era dos melhores, conseguiu nos instalar na suburbana quitinete aos fundos de uma casa em Vila Militar.

Durante meses, minha mãe seria a nossa professora em casa, criando em cartolinas dominó, cartelas de bingo, jogos de memória e outros recursos lúdicos educativos para que não tivéssemos que ingressar em colégios cariocas. Afinal, além de nos poupar dos supostos perigos da urbe, a ideia seria voltar em breve ao Ceará trazendo nas malas bastantes saudades. Todavia, o que fazer com aquela meninada agitada, aprontando todas, exaurindo durante o dia inteiro a esposa, mas também babá, cozinheira, faxineira, professora, costureira...? Meu pai encontrou a solução: revistas em quadrinhos!

Comprou uma primeira leva dos populares “gibis”. Naquele tempo e durante muitos anos era possível encontrar boa diversidade de títulos: Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey, Almanaque Disney, Zorro, Carequinha (depois, Pinduca), Recruta Zero, Família Buscapé, Heróis da TV, Sacarrolha, Tininha, Bolota, Riquinho, Gasparzinho, Brasinha, Brotoeja, Bolinha, Luluzinha, Fantasma, Heróis da DC e da Marvel, Pimentinha, Popeye e tantos outros. Depois, meu pai “trocava” as revistas: levava as que tínhamos lido e, pagando um valor bem menor, conseguia nos trazer outras. Era grande a alegria da casa.

Costumo dizer: foi com elas que iniciei meu gosto pela leitura, assim como pelo desenho e, claro, pelos quadrinhos, costume que me segue ainda hoje – embora leia outros títulos.

Falar ou escrever sobre essas leituras infantojuvenis me traz sempre bons sentimentos e felizes recordações. Guardo algumas dessas revistas em minhas estantes. Ao lê-las ou simplesmente folheá-las, chegam-me memórias, sons, músicas, sabores de tempos há muito passados: “Não ligue pra vida, resto de amor./Não importa o mundo a se revelar./Eu vou ampliar sua vida/Em alto contraste com a volta/Close em preto e branco com muito amor.”

Um dia, já formado e atuando como fisioterapeuta, soube que saíra nova revista em que o terrível vilão Bane destroçara a coluna do Homem-Morcego. Como assim? Fiquei tão ansioso que, saindo do atendimento de paciente, corri para a banca de revistas para comprá-la. Nela, vinha como brinde um batarangue de plástico – espécie de bumerangue à moda Batman. Pois bem, li em pé, lá mesmo na banca da 13 de Maio, todo de branco, com estetoscópio no pescoço, o ridículo batarangue empunhado em uma mão e, na outra, a trágica revista, sendo surpreendido com a vergonhosa vontade de chorar ao ler o final de carreira do meu herói preferido, aquele colecionado desde os meus descomplicados 11 anos.

Essa história, claro, não terminou ali, assim como este texto, que nasceu do desejo tão egoísta de me devolver às próprias lembranças.