Elizabeth Cochrane (1864-1922) nasceu na Pensilvânia, na costa leste dos EUA.
Tinha
21 anos quando leu “Para que servem as meninas”, coluna do jornal Pittsburgh
Dispatch, na qual se afirmava que cabiam às mulheres apenas o casamento, a
maternidade e os afazeres domésticos. Indignada, escreveu ao periódico sob o
pseudônimo “Garota Órfã Solitária” contestando a coluna. Impressionado com a
sua escrita e veemência, o editor publicou anúncio solicitando à autora a
apresentar-se à Redação. Corajosa, assim o fez, sendo convidada para escrever
artigo com o mesmo pseudônimo. Pouco depois, sairia no Pittsburgh Dispatch
o seu texto, no qual defendia: as mulheres não eram obrigadas a casar e
se estavam em casa era por não haver no mercado boas oportunidades de emprego
para elas. É compreensível que o artigo “O Enigma da Garota” gerasse polêmica.
Daí, um segundo artigo, “Casamentos Loucos”, em que propunha a reforma da lei
do divórcio vigente, denunciando o impacto desigual na vida das mulheres. Desta
vez, assinaria com novo pseudônimo, aquele que levaria para o resto de sua vida:
Nellie Bly.
Integrada ao jornal, Nellie dedicou-se a combater a dura realidade de crianças e mulheres operárias. Para isso, disfarçou-se e conseguiu ser contratada como operária de uma fábrica de cabos de cobre, a fim de sentir na pele as condições de trabalho impostas a elas. Seus artigos tiveram grande repercussão. Ao mesmo tempo que comoveram a opinião pública, enfureceram os industriais – alguns deles deveriam ser anunciantes do periódico – que exigiram providências. Por isso, Nellie seria conduzida às Páginas Femininas, restritas à moda, jardinagem, culinária e a eventos artísticos e sociais.
Inconformada, dispôs-se a viajar ao México,
na condição de correspondente internacional. Em plena ditadura de Porfírio
Diaz, cobriu durante seis meses a repressão e a censura à imprensa, recebendo
ameaças de prisão antes de escapar às pressas do país.
Em
1887, havia deixado o Pittsburgh Dispatch e tentava carreira em Nova
York, enfrentando diversas recusas, até ser aceita no New York World, de
Joseph Pulitzer, assumindo missão de jornalismo investigativo: fingir insanidade
para ser internada no Asilo de Mulheres Lunáticas na antiga Ilha Blackwell.
Aliás, na época, era comum que maridos insatisfeitos com as esposas dessem um
jeitinho para interná-las a qualquer pretexto nessas unidades. Eram leitoras,
inteligentes, com pretensões intelectuais? Então, não havia dúvida: só poderiam
ser malucas! Assim, após vários dias infiltrada, vivenciando os maus-tratos no
Asilo, ela quase não obteve alta, sendo necessária a intervenção do jornal para
ser liberta e denunciar ao mundo os abusos e as péssimas condutas de
atendimento dessas instituições.
No
ano seguinte, ela, então reconhecida como um grande nome da imprensa, resolveu
lançar-se a um grande desafio: completar a volta ao mundo, tal qual o protagonista
do famoso romance do francês Júlio Verne (1828-1905) publicado 15 anos antes.
Em
1889, seria dada a largada. O New York World acompanharia o feito com
distribuição de prêmios, relatos de viagem de Nellie, entre outras promoções.
Era a primeira vez que se fazia algo assim. E Nellie Bly realizou a sua volta
ao mundo, mas não em 80, e, sim, em 72 dias, estabelecendo um novo recorde
mundial!
Casou-se
aos 31 anos e enviuvou aos 40. Em 1913, escreveu o famoso artigo “Sufragistas
são superiores aos homens” – onde previu com curiosa exatidão que as mulheres
americanas conquistariam o direito de voto em 1920 – e foi presa em plena zona
de conflito, durante a I Guerra Mundial, ao ser confundida com uma espiã
britânica.
Aos 58 anos, residia em um humilde quarto de hotel em Manhattan e ainda colaborava com a imprensa, quando precisou ser internada e faleceu, vítima de pneumonia. Foi enterrada em túmulo modesto e sem lápide no cemitério de Woodlawn, no Bronx. Deixou, contudo, uma marca para a história do jornalismo investigativo e para o avanço dos direitos das mulheres.
Nellie Bly, presente!

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