sábado, 31 de julho de 2021

"Bagulho", de Raymundo Netto para O POVO


Essa mulher é um bagulho! Olha só, gente! Ha, ha, ha...”

No bar, sede maior da democracia e da galhofa brasileira, onde também as mesas masculinas esticam as noites mais simplórias de pileques, carros, futebol e mulheres, a atenção daqueles amigos voltava-se à calçada para conferir o alvo da maldosa pilhéria.

Entre eles, Jurandir, o sempre alegre e carismático motorista de Uber, que, como os outros, correu à janela. Todavia, enquanto todos a apontavam, rindo a valer, deliciando-se daquela cruel mangação e, por tabela, imaginando o triste par daquele “bagulho”, ele voltou-se, de fininho, e correu ao banheiro. Ali, a postos e diante do mictório, Jurandir, envergonhado, se punia: “O bagulho é a minha mulher!”

Suzete, era esse o nome de sua sua esposa, foi a inapelável paixão de sua juventude. E não só a dele. No furor destemperado de hormônios contidos de adolescentes, era cobiçadíssima pelos garotos do bairro, por conta da sua beleza e da volumosa retaguarda, sendo por eles apelidada de Suzy Locomotiva ou Su Tanajura.

Não raro, na época, Jurandir ouvia os lamentos de recusas que ela distribuía soberbamente à rapaziada mais ousada, o que conferia a ela uma aura quase divinal.

Daí estranhar que, em uma festinha num clube mixuruca de bairro, ela mesma tenha dado bola a aquele jovem extremamente tímido e gorducho.

Durante meses, Jura assistia, com o orgulho de ganhador de loteria, aos colegas inconformados: “O que diabos essa mulher viu em você?” Ora se ele sabia! Estava feliz, despudoradamente fascinado pela namoradinha a quem dedicava declarações de amor eterno, decoradas de falas de telenovelas. 

Com ela, sua primeira vez e todas as demais de sua vida. Assim, casaram-se, e na fúria de seus impulsos de paixão alucinada, que fazia tremer as paredes finíssimas da casa de conjunto sem forro e geminada comprada a perder de vista, colheram cinco filhos, quase que em escadinha, isolando-os do convívio social.

Num ato de bravura e para dar conta, Jurandir trabalhava todos os dias, antes, como motorista de ônibus e, depois, taxista, enquanto Suzete enfrentava o pandemônio da rotina da filharada e da casa, alimentando-se de comida barata, servida a granel, e descuidando-se completamente de si.

Ainda no banheiro, o velho Jura via passar por seus olhos, e pela parede marcada por impropérios, números telefônicos e propostas indecorosas, o filme do romance de sua vida. Fechou a braguilha, saiu dali e, sem pagar a conta nem falar com seus colegas de mesa, voltou para casa.

Ao chegar, Suzete já dormia, enrolada na colcha extravagante. Admirava-a, em silêncio: “Bagulho... Bagulho?” Aquela palavra, para ele incompreensível e ultrajante, trazia uma gravidade a ferir mortalmente o mais íntimo de sua alma.

Naquela noite mesmo, resolveu: romperia com aqueles homens, passaria a frequentar outro bar e até deixaria de beber... Claro, mas isto só no caso de um fatalismo profético!

No dia seguinte, ainda consternado com o acontecimento, cumpria sua rotina de Uber quando atendeu ao chamado de um jovem, estilo jamaicano, descolado, colorido e com um gorro forrado de dreads. O rapaz o achou disperso, meio de bode, e, tirando da mochila uma sacola surrada de papel, sondou: “E aí, coroa, tu curte um bagulho?”

Jura, diante de inusitado questionamento, sentiu uma vertigem absurda, desequilibrou na direção, subiu a calçada e, ao brecar drasticamente, gritou com seu assustado passageiro: “Eu AMO o bagulho, entendeu? Eu AMOOO!!!”




 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Seleção para novos Agentes de Leitura (até dia 2 de agosto)


INSCRIÇÕES PARA O PROJETO AGENTES DE LEITURA DO CEARÁ

Até dia 2 de agosto de 2021

Mais informações e INSCRIÇÕES, ACESSE:

http://editais.cultura.ce.gov.br/2021/07/19/i-editalagente-de-leitura-formadora/

SELEÇÃO de:

1.     AGENTES DE LEITURA MEDIADORES:

·       Remuneração: 75 bolsas no valor de R$ 600,00 para atuar em seu próprio bairro (sendo um dos listados a seguir).

·       Residência: Em Fortaleza, obrigatoriamente nos bairros Bom Jardim (comunidade Alto da Paz e São Francisco), Praia de Iracema (comunidade Poço da Draga), Pan Americano, Vicente Pinzón (comunidade Castelo Encantado), Moura Brasil (comunidade Oitão Preto) e Curió (Curió, São Miguel e Palmeirinha).

.·       Idade dos candidatos: 18 a 29 anos

·       Instrução: Conclusão de Ensino Médio (em escolas públicas) – não pode estar cursando faculdade nem ter emprego.

2.     AGENTES DE LEITURA MONITORES:

·       Remuneração: 4 bolsas no valor de R$ 1.100,00.

·       Residência: Em qualquer bairro de Fortaleza.

·       Idade dos candidatos: 18 a 29 anos

·       Instrução: Conclusão de Ensino Médio (em escolas públicas) – CURSANDO no mínimo o 5º semestre da faculdade (Letras, Pedagogia, Psicologia, Sociologia e áreas afins e, de preferência, que goste muito de ler literatura.

3.     AGENTES DE LEITURA MONITORES DE CULTURA DIGITAL:

·       Remuneração: 3 bolsas no valor de R$ 1.100,00.

·       Residência: Em qualquer bairro de Fortaleza.

·       Idade dos candidatos: 18 a 29 anos

·  Instrução: Conclusão de Ensino Médio (em escolas públicas) – com FORMAÇÃO TÉCNICA na área de TI ou em cursos livres na área de Tecnologia.

OBSERVAÇÃO: a edição dos agentes de leitura de 2021 acontecerá ONLINE, utilizando aplicativo e tablets fornecidos para os selecionados e às famílias envolvidas. Ofereceremos suporte às famílias com os equipamentos utilizados nesta edição piloto.

"O Programa Agentes de Leitura tem por finalidade promover a democratização do acesso ao livro e aos meios da leitura como ação cultural estratégica de inclusão social, desenvolvimento humano e cidadania, com ênfase na formação de leitores, incentivando o aprimoramento da interpretação de textos, e na fruição da leitura literária no âmbito familiar das comunidades de baixa renda."

 


 

segunda-feira, 19 de julho de 2021

"Resignada Mente", de Raymundo Netto para O POVO

 

Jacó era um bruto, mas só dentro de casa. Na rua, era conhecido pelo seu coração amantíssimo, vivendo na comovente disciplina do pecado, mais plural do que a letra “S”, talvez a mesma usada pelos sultões sauditas ao amealhar seu vasto harém.

Disposto e com tempo de sobra, lançava-se ao vento, principalmente quando este lhe chegava com fragrâncias femininas. Para elas, tinha um faro extraordinário. Então, o homem se entregava molinho, molinho, feito almofada de sofá antigo.

Não raro, algumas se interessavam incondicionalmente por sua perfeita cafajestice. Outras, porém, ao perceberem a larga aliança dourada na mão esquerda, quase sempre enfiada no bolso, se frustravam: “Só podia ser... um tipão desses, né?” Mas Jacó não perdia a pose e contornava a situação com uma rodrigueana de efeito: “O casamento é o máximo da solidão com o mínimo de privacidade. É ou não é?”

Amélia, a esposa, era manicure, pedicure e designer de sobrancelhas. Não fosse atender a domicílio, mal saía de casa, arrumando-a, lavando roupa e preparando a refeição para quando o marido chegasse e se chegasse.

Você pode até pensar o quão infeliz ela deveria ser, contudo, dizia-se a mulher mais feliz do mundo. Às clientes, confessava numa sinceridade suicida: “É o amor da minha vida. A melhor coisa que me aconteceu. Sem ele não sei viver.”

De fato, durante o namoro e nos primeiros anos, poderia até ser possível uma tal felicidade, mas o tempo, associado a dividas intermináveis, à rasa e abundante programação da TV e uma boa dose de tédio, massacra qualquer boa intenção.

No caso, Jacó se rendeu a uma liberdade promíscua, enquanto coube a Amélia suportar esse amor de casal inteirinho para si. Era, como toda mocinha de novela, feliz e pronto, apesar da rádio calçada, ao pé da janela da cozinha, anunciar-lhe em detalhes megafônicos as aventuras do marido. 

Também as irmãs, amigas, vizinhas, clientes, mesmo quando tinham maridos tão ruins ou piores do que Jacó, insistiam no papo reto, de mãos dadas à liturgia divorcial – alguém, que não serei eu, tem que se separar primeiro... – e apontavam os defeitos do marido alheio, com rancor e intolerância, além de uma curiosa propriedade.

Numa roda de salão improvisado, uma das clientes apontou que o carro de Jacó fora visto estacionado na esquina de um tal apartamento. Sem tirar a vista da serrinha de unha, Amélia justificou: “Ele adora caminhar na praça em frente. Quer manter a forma. Um lindo!”

Outra vira Jacó em um telefone público a poucos quarteirões de casa. Preocupou-se: “Meu Deus, será que esqueceu novamente o celular no trabalho? Ele é tão responsável...”

Seria verdade que ela encontrara uma mancha de batom no colarinho dele? Até riu: “Sim, mulher, a minha sogra adora usar batons extravagantes. Ele deixa. É desapegado e tão amável...”

Dizem que ele estava na praia, conversando com aquelazinha, conhecida pela má fama... Claro: “Ah, ele adora pegar um solzinho e não tem preconceito, não. Dá atenção a todo mundo.”

Você sabia que ontem ele estava entrando com umas compras no apartamento daquela sirigaita? Quase bateu nos peitos: “Humm, acho que ele me disse... É tão altruísta. Um cavalheiro.”

Exasperada com a ingenuidade da moça, uma delas rosnou: “Abre os olhos, criatura, só você não vê que ele não te ama!!!.

Nessa hora, todas se calaram estupefatas diante da ousada e medonha sentença da amiga. Amélia, como se despertasse de um sonho de algodão doce, levantou-se de seu banquinho, atirou para o lado a toalhinha e a ternura e, indignada, tascou: “Ah, minha filha, aí já seria sorte demais!”



"Distrações", de Pedro Salgueiro para O POVO


Percebi o poder e o mistério de se estar perigosamente distraído num instante banalíssimo de um jogo de futebol, explico: não encontrando lugar nas arquibancadas do Estádio Presidente Vargas, procurei uma fresta entre os que se espremiam ao pé do alambrado junto ao campo; a partida corria solta num empate disputado, com perigo de ambos os lados; eu mal avistava o gramado, levando esbarrões laterais dos nervosos torcedores, então fiquei num misto de distração entre ouvido acompanhando as emissoras de rádio, xingamentos vindos das arquibancadas e força de ombro para não ser jogado pra fora do campo de visão do espetáculo...

Fiquei num estado de sonambulismo de atenções, não sabia em que plano sobrevivia naquela loucura, se no auditivo, no visual ou no meramente corporal, nisso fui perdendo as rédeas da partida e imaginando situações noutros níveis mentais; fechasse os olhos não saberia se estava numa feira, show musical, corrida de cavalos ou...

De repente estiquei o pescoço para a trave que estava à minha esquerda, logo percebi envergonhado que o ataque estava do outro lado, meu lado direito, então balancei a cabeça e me afastei um pouco, envergonhado pelo meu erro... Mas foi somente o tempo de ter que esticar novamente o pescoço e ficar na ponta dos pés, para ver ainda o gol... Desta vez, verdadeiro, um gol, sim!, num rápido contra-ataque o time visitante fez seu tento... lá na trave esquerda... Isso mesmo, aquela mesma trave com a qual me enganara segundos antes.

Na hora as vaias da torcida, os protestos e reclamações dos jogadores, objetos jogados no campo, não me deixaram pensar no assunto, mas chegando a casa, e até hoje, lembro essa pequena premonição proporcionada pela minha máxima distração.

Décadas após, numa daquelas crônicas/poemas de Clarice Lispector (“Por não estarem distraídos”, do livro A Descoberta do mundo: crônicas, de 1984.), encontrei uma possível explicação: “Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos”.

Outros anos depois, encontrei no texto “Cristal com uma rosa dentro”, do Tomo II, do livro Último Round, de Julio Cortázar, esta pérola: “O estado que definimos como distração poderia ser de algum modo uma forma diferente da atenção, sua manifestação simétrica mais profunda situada em outro plano da psique; (...) Não é raro que no indivíduo acostumado com tal tipo de distrações a apresentação sucessiva de vários fenômenos heterogêneos crie instantaneamente uma apreensão de homogeneidade deslumbrante”.

E hoje sei que – parafraseando Leminski – “distraídos enxergaremos” bem mais.




 

segunda-feira, 5 de julho de 2021

"Pretume", de Raymundo Netto para O POVO

A mulher só se vestia de preto. Assim como pretos eram os seus móveis, os talheres, pratos, as cortinas, o abajur, os estofados, a graúna, o sorriso e o gato. Nada de flores na janela, nem folguedos de crianças, beijos de novelas ou esperanças. Pior: a casa toda era esmorecida, rancorosa, viciada em grave e infindável melancolia. Imersa na solidão das horas vãs, maisqueria se jogar pela vidraça, sentir o gume ligeiro dos seus estilhaços, apartar-se mole pelas coxias, diluir-se entregue nas bocas de lobo, acolher de bom grado o peso imposto do telhado carcomido, eriçar o pelo na tomada da parede, engolir trufas até docemente estourar, calar de vez o vazio do peito e a loucura a pinçar-lhe obscuras e desgrenhadas ideias.

No seu quarto, asilo maior daquele mal-estar olímpico, a cama nunca feita, o travesseiro enfronhado de mágoas. Via-se ao corredor de tacos frouxos roupas urdidas e abandonadas em sujidades pretéritas pelo caminho. No banheiro, o espelho coberto por toalha e o chuveiro inútil. À cozinha, a torneira pingando na louça desapressada e a umidade pustulando nas paredes rotas em papel.

Ao longo dos dias, a graúna sem canto, o gato sem língua, o silêncio apenas cortado pelo, então, estrondoso zunir de asas de insetos. Livres, apenas os insetos.

Anos-há, ali, a mulher não concederia abrigo a ninguém, nem ao Sol nem à Lua.

À Martir, sua irmã, apenas a ela, permitia o ingresso naquela casa, e unicamente quando trazia os suprimentos para a despensa ou eventuais mezinhas.

Martir, abafada de calor, sentava-se na marquesa ao lado da janela e ensaiava abrir as cortinas, quando imediatamente reprimida pela irmã: “Não abra! Doem-me os olhos. Deixa assim, deixa!”

Martir insistia: “Mas o ar, mulher, como você suporta isso?”

“Que ar? É ar que você quer? Então vai lá fora, vai. Lá fora tem de sobra!”, respondia, apontando-lhe impaciente a porta da sala.

A irmã se calava, resignada como estátua de jazigo. Detinha-se, porém, no instante de um suspiro. Sempre ansiou por uma palavra, qualqueruma: confissão, recomendação, curiosidade, descuido ou o que quer que fosse, mas nunca. Não suportando tanta mudez e o olhar quase de vidro, despedia-se, a prometer a si mesma nunca mais pôr os pés naquele ninho da morte: “Você é louca, só pode ser... E eu devo ser mais se um dia eu ainda voltar aqui!”

Uma manhã, a mulher acordou e viu, de relance, os pés escuros como tisne. Esfregou as mãos nos olhos na tentativa de enxergar melhor, quando percebeu, também elas, mãos e unhas estranhamente enegrecidas. Pensou em gritar, pedir socorro, mas para quem? Não havia outra alma em casa. Não sabia o nome dos vizinhos e mesmo se os tinha. Mesmo assim, gritou, mas a voz não lhe saía, e, sim, uma névoa espessa como a fumaça abundante de velhas locomotivas.

Correu ao banheiro para lavar o rosto e descerrou o espelho coberto há anos. Aterrorizou-se pela própria imagem: apenas os olhos, ainda que cinzentos, reconhecia. Os cabelos grossos e rentes lhe desciam como raízes rijas pelos ombros, pelo peito e abdome.

Amolecida, ela deitou em sua cama e, aos poucos, sua pele pôs-se a descamar. Como cinzas de uma fogueira, esses restos de corpo se deslocavam flutuantes e leves pelo ar. 

Aos poucos, o seu ser, todo ele, se confundia com as folhas da mais absoluta escuridão, a ponto de não restar dela sequer o nome, a história, uma saudade nem pensamento.